Um passeio entre os mortos:
o cemitério no Dia de Finados
Dia de Finados em Manaus.
Como acontece nesta data em todos os anos, em muitas cidades brasileiras,
desde os dias anteriores, vendedores ambulantes tomam conta da calçada
do maior cemitério da cidade, o São João Batista,
oferecendo aos passantes uma infinidade de produtos como “santinhos”, velas,
comida, flores e adornos para os túmulos. Pouco a pouco, ruas e
quadras do cemitério acomodam a multidão que durante esse
dia transitará entre as lápides, aquecendo intensa rede de
comércio e serviços como os dos limpadores de túmulo,
pagos, nessas ocasiões, por algumas famílias, para lavar
e/ou efetuar reparos como pintura, jardinagem e restauro das sepulturas.
A idéia de que a morte
a todos iguala parece destoante nesse quadro; assim como é possível
ver sepulturas limpas, servindo de ponto de encontro para famílias
que ao seu redor se reúnem para lembrar-se de algum ente querido,
é comum, também, ver-se outras completamente abandonadas
e sem identificação, quase confundidas com o chão
barrento do cemitério. Os mortos, assim como os vivos, têm
uma existência social ativada pela memória dos vivos e dependente
destes . O esquecimento do morto representa uma segunda morte, contra a
qual os vivos lutam de maneira especial no Dia de Finados. Daí o
significado profundo dessa data (02 de novembro), sacralizada como feriado
nacional e celebrada também em outros países (ainda que em
datas diferentes).
O cemitério São
João Batista foi fundado em 1891, no Bulevar Álvaro
Maia, área pertencente, nesta época, ao bairro do Mocó
e afastada do centro da cidade de Manaus. Com seus grandes portões
de ferro artisticamente elaborados, constitui-se numa das heranças
do período de expansão do capital extrativista do final do
século XIX, responsável pela reforma urbana que modificou
profundamente a paisagem urbana de Manaus. Foi construído de acordo
com a concepção “moderna”, à época, de cemitério:
largas ruas e conjunto arquitetônico neoclássico. O cemitério
original, São José, criado ainda no tempo da fundação
da Manaus antiga, situava-se no local onde hoje existe a Praça
da Saudade: no centro da cidade. Foi, anteriormente, segundo a lenda local,
um cemitério indígena, cujos túmulos foram transferidos
para o novo cemitério após sua inauguração.
Anos após a fundação do São João Batista
(SJB), foi construído um anexo, reservado à comunidade judaica,
o Cemitério Israelita, embora se localize em área contígua
à do SJB. A maioria dos túmulos de judeus enterrados no antigo
cemitério antes do translado ao São João permanecem
ali em meio aos túmulos cristãos, ainda hoje.
Em meio à agitação
que caracteriza o Dia de Finados, entre túmulos de políticos
e outras personalidades conhecidas na cidade, duas sepulturas recebem atenção
especial, com pessoas disputando avidamente o espaço em seu redor
a de Etelvina D’Alencar e a da menina Teresa Cristina. O grande número
de velas acesas, flores e outros objetos, homenagem dos devotos, revelam
profunda reverência a tais personagens declaradas santas pela
população local (a despeito de não contarem com o
reconhecimento da Igreja Católica). A reverência também
se estende a outros personagens que, mesmo não contando com comoção
do Dia de Finados, recebem homenagens em outros dias, como é o caso
da sepultura de um rabino coberta de placas de agradecimento por graças
recebidas e que aparecem misteriosamente ano após ano. Ou do túmulo
de um jovem acusado de assassinato que recebe homenagem na forma de cadernos
e livros escolares que são colocados como forma de ex-voto
por estudantes que crêem ser aquele seu protetor e responsável
pela aprovação escolar. Frente a diversidade demonstrada
pelos quatro personagens, é inevitável que nos perguntemos
sobre os significados envolvidos na devoção a tais mortos.
Como entender a devoção em torno de personagens tão
diferenciados no âmbito de um cemitério? O que estas devoções
podem nos dizer sobre a religiosidade, valores, questões sociais
e históricas de uma cidade como Manaus?
Apesar do tema dos santos
canonizados pela população ter sido explorado por alguns
autores sob vários enfoques como o do folclore (Cascudo, 2002),
da comunicação (Benjamin, 2003) ou da antropologia da religião
(Freitas, 2001; 2006), a produção sobre o tema ainda se caracteriza
pela assistematização de conceitos e noções.
Um consenso, contudo, estabelece-se entre os autores que abordaram o assunto:
o culto em torno de semelhantes personalidades se caracteriza como um espaço
de comunicabilidade popular e a eleição de determinada personalidade
como “santo” insere-se num complexo processo de construção
do imaginário social, pelo qual circulam representações
populares sobre santidade e virtude que, conforme veremos, nem sempre coincidem
com as elaborações formalmente aceitas pelas instituições
sociais relacionadas, como as igrejas.
O culto a pessoas mortas,
chamadas “santos de cemitério” (Maués, 2004) e “mortos milagrosos”
(Freitas, 2006), entre outros termos, é conhecido em várias
cidades do mundo e caracteriza-se por alguns traços comuns, dentre
os quais a atribuição de poderes especiais de intercessão
na vida dos mortais é o mais notório, além do estabelecimento
de narrativas míticas
em torno da vida do personagem, do protagonismo dos indivíduos devotos
(e não das instituições religiosas) no desenvolvimento
de práticas de culto, da profunda relação das devoções
com o espaço do cemitério e, principalmente, com o túmulo
onde estão enterrados –transformado na principal referência
mística. Freitas chama a atenção para outro aspecto
da questão: diferentemente dos mortos “comuns”, que recebem visitas
e homenagens de sua família do mesmo modo , os santos de cemitério
são de domínio público. São “mortos públicos”:
O morto privado,
que recebe somente a visita de sua própria família e amigos
mais chegados, também recebe velas, que é a oferenda religiosa
por excelência, carregada de significados, mas não recebe
ex-votos; pode receber uma cartinha amorosa, depositada simbolicamente
sobre a sepultura junto a flores, mas não receberá vasilhas
de água. Esse morto privado também recebe as orações
de seus familiares, os votos de que descanse em paz e até pedidos
para que zele pelos seus do Além. Mas não recebe promessas
(Freitas, 2006, p. 85).
Também parece que
o fenômeno dos santos de cemitério seja típico do espaço
urbano(mas não necessariamente de grandes cidades); de cemitérios
de áreas urbanas em que encontram formas próprias de reprodução
social e de continuidade. Outra ordem de questões
que gostaríamos de levantar é de que “tipo de santos” estamos
falando: os objetos do estudo que elaboramos – no caso os “santos de cemitério”,
diferenciam-se daqueles personagens também considerados santos pela
população, mas que já contam com alguma forma de institucionalização
ou daqueles em torno do qual já foi montada uma estrutura na busca
desta, como o caso das personalidades que já contam com processos
abertos para a beatificação, caso de alguns religiosos como
Frei Damião no Nordeste brasileiro. As diferenças estabelecidas,
porém, não avançam muito mais além destas,
pois de modo geral encontramos em tais cultos os mesmos elementos materiais
e confessionais do culto a santos católicos como a elaboração
de promessas
e os ex-votos.
Um de nossos focos aqui será
a investigação acerca dos elementos do imaginário
que constituem as devoções em questão ou ainda, o
trajeto antropológico
que sustenta a relação entre imaginário religioso
e os cultos que, apesar de não contarem com nenhuma forma de respaldo
oficial da Igreja, subsistem há várias décadas. Como
referencial teórico utilizamos elementos do paradigma do imaginário
(Durand, 1999; Laplantine & Trindade, 1998; Pitta, 2005) que balizou
as análises elaboradas de dados obtidos pela observação
participante no cemitério SJB em dias comuns e no Dia de Finados
dos anos de 2004, 2005 e 2006 e de entrevistas com familiares dos personagens,
devotos e funcionários do cemitério.
Santos de cemitério
e imaginário
A proliferação
das imagens pelos meios de comunicação massificados é
uma característica da civilização ocidental moderna.
Por outro lado, foi justamente no Ocidente que o pensamento científico
foi colocado em contraposição à imaginação,
tida como ilusória. Durand (1998) lembra que as civilizações
não-ocidentais nunca separaram as informações fornecidas
pela imagem daquelas fornecidas pelos sistemas da escrita. Foi no Ocidente
que o método de obtenção da verdade foi estabelecido
sobre uma lógica socrática binária (falso ou verdadeiro),
com exclusão do terceiro, que serviu como base para o empirismo
- fundamento da ciência ocidental. A batalha secular contra as imagens
e o imaginário, contudo, não logrou o desaparecimento das
últimas. Elas permanecem como fundamentais nas crenças populares,
na literatura fantástica e até mesmo na imaginação
científica, como lembram Laplantine e Trindade (1997) e, principalmente,
no imaginário religioso.
A imagem é tida não
como o objeto real, mas como a interpretação deste, elaborada
pelo observador. Tal processo mental de representação do
objeto é desvinculado de uma obrigatoriedade de empreender uma descrição
do objeto: ao contrário, ele é transformado, alterado e reelaborado
pelos olhos do observador. A imagem é, portanto, uma construção
mental que reconstrói a realidade de acordo com o ponto de vista
do agente.
Se considerarmos o culto
aos santos como expressão religiosa, temos duas características
desenhadas: uma é a da religião como fenômeno da sociedade,
entendida como reflexo e/ou produtora dos elementos históricos e
sócio-políticos. A outra diz respeito à religião
como experiência mística, particular e única. Os dois
aspectos estão entrelaçados e dificilmente um estudo sobre
o tema pode minimizar a importância de um deles. Buscamos explorar
a ambos, na análise de uma dimensão das expressões
de religiosidade popular que, embora estejam situadas dentro do marco referencial
do catolicismo, encontram-se à margem deste, fora de sua institucionalidade,
enquanto um tipo de culto não aprovado pela Igreja e pelo catolicismo
erudito (Brandão, 1987)
.
O imaginário religioso
seria o conjunto dessas representações, inscrito nos discursos,
nas práticas (ritos) e nos elementos simbólicos envolvidos
na devoção aos santos. Nos relatos coletados, como toda hagiografia
popular, mito e fato estão entrelaçados, impossibilitando
a determinação de oposições entre verdade e
invenção. Em seu estudo sobre as hagiografias populares,
Certeau (2006:269) pondera que os relatos sobre a vida dos santos são
sempre representações de determinado grupo e refletem a ordem
social do momento, assumindo aspectos da autorrepresentação
deste em relação ao seu passado e aos demais grupos. O martírio,
por exemplo, predominou em comunidades marginais, ameaçadas pela
instabilidade, enquanto que a virtude apresentaria uma Igreja – e um grupo
– socialmente estabelecidos. Tal discussão pode ser útil
para elucidar a relação entre o surgimento dos quatro personagens
objeto de culto no cemitério São João Batista e o
contexto histórico no qual estavam inseridos.
Como se faz um santo
A definição
do que seria um “santo” para o Cristianismo envolve um esforço de
compreensão etnológica e conceitual para o qual não
temos espaço aqui, mas é impossível não estabelecer
alguns parâmetros históricos, mesmo que de forma superficial.
Confiaremos nos “conhecimentos religiosos” dos leitores quando não
houver como fornecer explicações mais detalhadas.
A palavra santo, que vem
do grego hagios e do latim sanctus, significando “pessoa santa”, era utilizada
para denominar vários tipos de pessoas – imperadores, deuses ou
heróis na Antiguidade Ocidental. O uso do termo entre a comunidade
cristã primitiva deu-se inicialmente de forma coletiva: usado no
plural, para designar os mártires que morriam defendendo a fé
frente à perseguição romana que caracterizou a vida
desses grupos nos primeiros séculos. Mais tarde, com a consolidação
da Igreja no Ocidente e, consequentemente, com a diminuição
dos mártires, o termo passou a ser utilizado para fazer referência
aos que se dedicavam ao trabalho com as coisas da Igreja – os clérigos.
Apesar do emprego inicialmente ser coletivo, para Kieckefer (1988), a devoção
aos santos constitui-se numa primeira forma de reificação
do individual. A noção de indivíduo, comumente relacionada
à Renascença, teria suas raízes na noção
cristã de personalidade e livre-arbítrio e no papel individual
na salvação.
Grosso modo, na Igreja católica,
o termo “santo” é usado em três sentidos diferentes: para
designar os mortos que, de acordo com veredito do Juízo Final, alcançarão
o paraíso; para designar as almas que, independente da aceitação
do sacrifício pascal de Jesus Cristo, alcançaram o Céu
e para designar alguém cuja existência heróica ou sofrida
lhe forneceu uma situação especial de virtude e salvação.
Nesta última se enquadrariam os mortos milagrosos. Para a Igreja,
formalmente, a primeira categoria só seria obtida através
de um longo processo, que descreveremos rapidamente a seguir.
Segundo Monique Augras (2005),
o estabelecimento de um santo “oficial” percorre um longo processo na Congregação
da Causa dos Santos, entidade do Vaticano destinada a cuidar dos processos
que possuem vários estágios, dos quais o primeiro seria a
atribuição do título de “servo de Deus”, o que significa
que orações lhes podem ser dirigidas. O segundo seria o de
“venerável”, que também abrange a categoria de mártir;
o terceiro estágio seria o de beato (que exige como critério
a comprovação de um milagre do candidato) seguido, finalmente,
do de santo, atribuído pela canonização (para
a qual são necessários, entre outras coisas, dois milagres
comprovados).
A atribuição
de estabelecer os santos, porém, nem sempre foi exclusividade da
Igreja. Câmara Cascudo (2002), que se dedicou profundamente ao fenômeno,
lembra que a instituição de santos pelo povo foi prática
comum durante muitos séculos mesmo depois da instituição
da religião. Cita o caso do frade Pier Pettinaio, canonizado em
1328 pelo senado de Siena como São Pedro Pettinagnollo. Neste caso,
uma instituição temporal tomava para si a atribuição
de oficializar um santo. Mas, na maioria das vezes, os santos dos primórdios
do cristianismo eram criados primeiro no imaginário popular; fosse
a partir de lendas ou histórias cujas origens são de difícil
determinação, fossem deuses pagãos, mais tarde apropriados
e reelaborados pelo catolicismo (Athienza, 1995).
Somente no século
X, após a finalização da obra evangelística
na Europa, com a conversão dos povos escandinavos, é que
a Igreja passou a institucionalizar algumas atividades, como a prerrogativa
de apontar os santos. Muitos símbolos de crenças pagãs
- como é o caso da festa do deus Mitra realizada no final de dezembro
e traduzida pela Igreja como o Natal -, foram reapropriados pela Igreja
católica para promover os ensinamentos cristãos e passaram
a servir de estratégia para evangelização. Mais recentemente,
o processo de romanização
agudizou o combate ao que era considerado resquício de crenças
hereges e fortaleceu o poder da eclesial, diminuindo a intervenção
da população no estabelecimento de formas próprias
de religiosidade.
Lendas e fatos se confundiam;
por exemplo, no caso de santos célebres. Como São Jorge relacionado
a personagens mitológicos da antiguidade greco-romana como Perseu.
Percebe-se que há, neste processo, a construção de
uma imagem que se sobrepõe às diversas construções
elaboradas em torno de preocupações afins – como a necessidade
da coragem para enfrentar os desafios – do qual São Jorge, montado
em seu cavalo branco combatendo um dragão parece ser uma representação
ideal.
Embora a igreja católica,
após a romanização, tenha se esforçado para
rever casos em que não exista comprovação documental
da existência real das personalidades santificadas, o culto aos santos
de cemitério demonstra que a força das práticas religiosas
populares sobrevive às formalidades das instituições
religiosas. A dicotomia representada pelos santos de cemitério e
pelos santos canônicos, aparentemente irreconciliável com
os padrões eclesiásticos atuais, foi construída muito
recentemente, na Idade Moderna. Tal divisão é artificialmente
estabelecida e os santos de cemitério, longe de representarem uma
ruptura são, na verdade, traço de uma continuidade entre
formulações religiosas separadas pelo tempo, apresentando-se,
assim, como uma forma de resistência do imaginário religioso
ibérico.
A devoção
A devoção aos
santos de cemitério assume, basicamente, duas formas: a primeira
é a da visitação, realizada, no caso de Etelvina e
Teresa, principalmente no Dia de Finados. Durante as visitas acendem-se
velas e colocam-se flores nos túmulos, fazem-se orações
e promessas. A segunda forma de devoção é a própria
promessa. Esta implica o estabelecimento de um compromisso com o santo:
um benefício é pedido em troca de uma dádiva, que
pode ser uma benfeitoria no próprio túmulo do santo – como,
por exemplo, o erguimento de uma nova lápide, a construção
de um jazigo, o pagamento de anúncios nos jornais divulgando a graça
- prática também muito comum para pagar promessas de santos
“oficiais” como o famoso Santo Expedito, um ex-voto relacionado à
graça recebida ou, até mesmo, o martírio do próprio
corpo, como subir a escadaria de uma Igreja de joelhos ou a privação
de algo prazeroso durante determinado período de tempo.
Diferentemente dos santos
canônicos, a quem as homenagens como novenas e círios prescindem
do estabelecimento de promessas (embora possam estar a elas ligadas), os
santos de cemitério raramente são lembrados fora do contexto
destas. As promessas constituem um importante elemento de ligação
com o santo, juntamente com o túmulo, que aparece, nestes casos,
transfigurado como sua principal referência material. Não
se vêem, no caso dos santos do SJB, fotos ou imagens representando
nenhum dos personagens citados, qualquer tipo de iconografia e nem mesmo
existe um conhecimento mais profundo sobre a vida do “santo” e das causas
que levaram o povo a elegê-los santos. Sua imagem está presente
na mente do povo de outras formas: através das virtudes que representam
ou de seu caráter de mediador “mais próximo” dos devotos,
partilhando de suas tristezas e dificuldades. Por outro lado, a relação
entre santo e devoto sem os mediadores tradicionais, como os sacerdotes,
torna a aproximação entre povo e santo muito mais simples
e estreita.
O trabalho de campo no SJB
revelou o caráter de uma fé que prescinde das formalidades
das organizações religiosas e a prática de uma proximidade
que permite maior flexibilidade destas relações, nas quais
o protagonismo do devoto é notório: sua crença na
eficácia do santo não é estimulada por nenhuma agência
oficial, mas apoiada em crenças de familiares e de pessoas de seu
círculo social. Vários foram os que disseram ter procurado
a ajuda dos santos por terem conhecidos que alcançaram graças
ou foram estimulados por parentes a venerar os santos.
Brandão (1987), ao
discutir os marcadores que caracterizam os principais sistemas religiosos
no Brasil, propõe alguns pontos a serem considerados na diferenciação
das religiões: a situação dos mortos em relação
aos vivos, origem do bem e do mal e formas de cura religiosas ou mágicas.
Para o autor, no catolicismo popular o morto continua tendo influência
na vida dos vivos, enquanto que no catolicismo oficial, não.
No que se refere aos santos,
no catolicismo oficial os santos só são considerados como
tais após sua ascensão a um posto mais alto de graça
na hierarquia celeste. Tal ascensão é uma prerrogativa da
própria Igreja que, baseada na passagem bíblica que afirma
que “tudo que for ligado na Terra, será ligado no céu”, teria
a capacidade de alçar indivíduos a este status diferenciado,
após o processo de canonização descrito anteriormente.
No caso dos santos de cemitério, este trajeto é abreviado
mediante circunstâncias especiais da vida do morto, que os fazem,
por determinada linha de pensamento, prescindir da Igreja como agência
intermediadora. Esta seria substituída pelo caráter do santo
que, sozinho, através de seu sacrifício, martírio
ou vida reta, teria a capacidade de alcançar a graça no céu
e, desta forma, intervir no mundo dos vivos, fazendo o bem.
O protagonismo popular na
elevação de indivíduos à categoria de santos
em geral gravita em torno de alguns aspectos comuns. Coluccio (1994) elaborou
uma classificação com base nos casos coletados por ele na
Argentina e composta por duas classes: A primeira equivale aos chamados
“iluminados”, constituída por pessoas que se dedicaram às
atividades de caridade e foram consideradas virtuosas; algumas tiveram
a biografia ornada por acontecimentos extraordinários, de origem
milagrosa e após a morte tiveram a sua intercessão invocada
para auxiliar na resolução de problemas dos vivos; nesta
classe podemos situar os religiosos. Esta é a classe mais facilmente
permeável à institucionalização, sendo a que
mais fornece candidatos a santo e beatos para a Igreja..
A segunda classe corresponde
à das vítimas de morte violenta ou injusta. Esta classe se
divide em três grupos: os “anjos”, crianças que faleceram
ainda na primeira infância, vítimas de abandono, maus-tratos
ou de outras formas de desassistência; as vítimas de violência
extrema – espancamentos, tortura, estupros e assassinatos; sendo elevado,
neste grupo, o número de mulheres e, finalmente, o grupo das pessoas
de “má vida” – bandidos e prostitutas, cujos devotos acreditam que
tiveram oportunidade de arrepender-se e obter perdão dos pecados
na hora da morte, quase sempre dolorosa. Neste último grupo, os
bandidos mortos no Rio Grande do Norte conhecidos como Jararaca e Baracho
são exemplos notórios, objeto de estudo da tese de Tânia
Freitas (2001), assim como a prostituta Jandira, assassinada e cultuada
em Campinas (Laplantine & Trindade, 1997).
Passemos agora a uma breve
súmula das narrativas mitológicas construídas em torno
dos quatro santos do São João Batista, elaboradas em torno
dos relatos tomados de visitantes, trabalhadores do cemitério, devotos
e familiares dos santos. É importante lembrar que não foi
nossa intenção elaborar biografias dos personagens; o “real”
que é objeto de nosso trabalho é o real imaginário.
Desse ponto de vista as informações que partilhamos a seguir
também se constituem numa forma de ficção na medida
em que, frente aos vários conteúdos que encontramos nos relatos
(nem sempre concordantes), elaboramos uma seleção de aspectos
que consideramos mais importantes neste imaginário.
Santos do Cemitério
São João Batista
Etelvina D’Alencar:
[* Boa Vista do Icó: 1884 † Manaus: 1901 ]
A mais célebre personalidade
enterrada no cemitério São João Batista, sem dúvida,
é Etelvina D’Alencar, ou “Santa Etelvina”, muito conhecida em Manaus
e em outros estados, tendo sido citada por Câmara Cascudo (2002)
em seu levantamento de santos do povo no Brasil. Muitos são os relatos
de milagres alcançados graças à intercessão
de Etelvina, que era migrante nordestina, como muitos que moravam em Manaus
no século XIX, durante o primeiro período de expansão
da borracha
.
Natural de Icó, no Rio Grande do Norte, segundo a tradição
oral foi assassinada por um militar (algumas versões dizem que o
homem era seu tio) ao reagir a uma tentativa de estupro. Seu corpo foi
encontrado na Colônia Campos Sales, área, à época,
distante da cidade. E sua morte teria passado despercebida, não
fosse o fato de o corpo ter sido desenterrado anos depois e encontrado
em perfeito estado. A tradição popular diz que da sepultura
onde fora enterrada exalava forte cheiro de rosas. Embora a devoção
tenha se retraído nos últimos anos, ainda é comum
ver-se ex-votos de vários tipos no túmulo de Etelvina como,
por exemplo: vestidos de noiva, réplicas de membros do corpo humano
esculpidas em cera, cartas e bilhetes, além de mensagens de agradecimento
pela graça alcançada escritas com velas nas vidraças
e nas paredes de seu jazigo . No Dia de Finados seu túmulo é
o mais visitado.
Devotos de Santa Etelvina
em torno de seu túmulo no Cemitério São João
Batista no Dia dos Finados de2005. A areia é despejada ali por membros
da Brigada do Corpo de Bombeiros durante todo o Dia de Finados a fim de
evitar o incêndio pelas centenas de velas acesas ao redor do jazigo.
Foto: Jean Maia.
Shalon Emanuel Muyal:
[* Marrocos ? † Manaus: 1910]
Se Santa Etelvina é
mais famosa, a discrição da devoção em torno
de Shalon Muyal não foi empecilho para que os milagres do rabino
ganhassem enormes proporções nos últimos anos. A história
do “Rabino Santo” apareceu em documentários e em várias reportagens
jornalísticas em todo o mundo. Vários são os motivos,
entre os quais o principal parece ser a incoerência de se considerar
um rabino como santo (ao ponto de a ele serem dedicadas,em grande profusão
e dispostas por toda a sua sepultura, placas votivas por graças
alcançadas). Este rabino, marroquino, teria sido enviado de Salé
para ajudar a fortalecer a fé da comunidade judaica que habitava
Manaus no início do século XX. Teria chegado a Manaus em
1908 (portanto no final do ciclo da borracha) e morrido apenas dois anos
depois, em 12 de março de 1910, provavelmente em razão de
uma das várias doenças tropicais que acometiam os moradores
locais, como febre amarela, cólera ou malária. O primeiro
“milagre” do Rabino teria acontecido pouco depois de sua morte, por intermédio
de uma senhora judia que havia cuidado dele durante a doença que
o levou à morte. Ela teria conseguido curar uma pessoa de um grave
problema ósseo, apenas com as mãos. E atribuiu o fato à
influência do rabino de quem havia tratado antes. Um segundo milagre
foi descrito num relato publicado na revista Morashá, por David
Salgado (2006):
Outra situação
muito conhecida na comunidade manauara é a de um senhor - ainda
me lembro bem dele naquele estado - com um problema sério no pescoço
que o impedia de andar com a cabeça na posição vertical;
esta sempre pendia para o lado. Depois de ter consultado médicos
em busca de uma solução para o problema, sem nenhum resultado
satisfatório, a mãe do rapaz tomou importante decisão.
Abraçada em sua fé no Eterno, D'us de Israel, dirigiu-se
certa manhã à tumba de Ribi Muyal, onde fez um pedido especial
para que seu filho tivesse pleno restabelecimento.
O túmulo de Shalon
foi um dos que originalmente situavam-se no cemitério antigo e que
foi transladado para o SJB antes da fundação do Cemitério
Israelita. Encontra-se, portanto, entre os túmulos cristãos.
A já citada quantidade de placas de agradecimento incrustadas nas
paredes de seu jazigo, as pedras (deferência judaica aos mortos)
e flores atestam a estima e crença nos poderes do rabino Muyal,
lembrado pela comunidade judaica local como homem de grande virtude (Benchimol,
1998, p. 64).
Detalhe das placas de agradecimento
de graças recebidas em volta do túmulo do Rabino Shalon Muyal,
no cemitério São João Batista, em Manaus.
Foto: Jean R. Maia
Delmo Pereira: [*
Manaus: 1933 † Manaus: 1952]
Jovem rebelde, segundo algumas
versões, viciado em drogas, Delmo teria tentado assaltar um armazém
(algumas versões dizem que o mesmo era de propriedade de seu pai)
e teria atirado no vigia que tentara impedir o roubo. Com medo de ser incriminado,
assassinou a tiros um taxista – única testemunha do fato (algumas
versões dizem que o taxista fora contratado por ele para levá-lo
até o local do assalto). O vigia, porém, sobreviveu à
tentativa de assassinato e incriminou Delmo. Manaus, na década de
1950, vivia uma de suas maiores crises econômicas
,
o que pode ajudar a entender o que se deu a seguir. Os taxistas de Manaus,
revoltados, empreenderam uma verdadeira cruzada pela cidade até
encontrá-lo escondido em um sítio de propriedade da família;
porém, não o entregaram às autoridades. Espancaram-no
e torturaram-no, arrancando inicialmente unhas, dedos, membros e finalmente
desfilaram com o cadáver amarrado na traseira de um táxi
pelas ruas da cidade, em carreata, num evento que até hoje é
lembrado com assombro pela população local. É notória
a consideração de Delmo, por seus devotos, como “Padroeiro
dos estudantes” e seu túmulo sempre recebe cadernos escolares, ex-votos
de promessas para aprovação escolar, o que parece ter sido
alimentado pela própria família num primeiro momento, pelo
que se deduz da inscrição gravada na lápide de seu
túmulo: “Delmo Pereira, mártir estudante”.
Teresa Cristina: [*
Itacoatiara: 1964 † Manaus: 1971]
A menina Teresa, filha de
pai muçulmano e mãe católica, desde muito cedo mostrava
predileção pelas coisas sagradas, demonstrando amor à
oração e às coisas santas. Faleceu durante um acidente
aéreo próximo a Manaus, para onde voltava com sua mãe,
tendo morrido em grande agonia pelas chamas apesar dos esforços
de sua mãe, que sobreviveu, em salvar-lhe a vida.
Sua transformação
em santa é marcada por um fato inusitado: sua mãe, que mantinha
uma pensão no centro de Manaus (R. Quintino Bocaiúva), onde
também morava, certo dia recebeu a visita de um homem que, mesmo
sem dinheiro e sem lhe conhecer, lhe pediu abrigo, tendo sido, apesar disso,
aceito pela dona da pensão. Dias depois da chegada do novo hóspede,
um migrante, este entrou na área reservada à residência
da proprietária, a fim de acertar detalhes, e deparou-se com a foto
de Teresa. Ele então teria perguntado quem seria a criança
e ao ouvir da mãe que era sua filha, revelou que fora aquela menina
que, dias antes, o trouxera até ali, ao que a mãe respondeu
que aquilo era impossível, pois ela já estava morta há
pelo menos seis meses. Ante a insistência do homem, a mãe
interessou-se em saber as circunstâncias do encontro e o hóspede
revelou que encontrara a garota brincando na rua da antiga casa da família,
justamente no lugar em que mãe e filha moravam antes do acidente.
A estória se espalha até que um outro hóspede, acometido
de uma grave doença nos olhos que começava a tirar-lhe a
visão, apelou em oração para a interseção
de Teresa para sua cura, sendo atendido. Depois destes episódios,
vários foram os relatos de graças alcançadas pela
interseção da “santinha”, como é carinhosamente chamada
há décadas pelas crianças e jovens que, como os autores,
durante suas infâncias, são levadas, ainda hoje, por suas
mães, ao túmulo de Teresa nos Dias de Finados. Este é,
aliás, um caráter do culto destes santos: a devoção
e o hábito da visitação são estimulados pelos
pais nas crianças e jovens, sendo comum a presença de famílias
visitando tais túmulos ou os relatos de adultos que afirmam terem
conhecido os santos através das tias, mães e avós.
Classificando o sagrado
Embora a classificação
de Coluccio (1994) dê conta de aspectos importantes nessa discussão,
propomos aqui uma outra classificação, que separe a categoria
de “Mortos por morte violenta” daquela das pessoas que morrem defendendo
um valor. No caso de Etelvina D’Alencar, por exemplo, que segundo a tradição
morreu após bater a cabeça numa pedra, seu status de santa
não é atribuído à morte, mas à castidade
que morreu para defender.

No catolicismo popular, diferentemente
do progressista, para o qualtodos os males têm origem nas questões
sociais, preserva-se a visão de que todo o mal nasce e é
produzido por agentes sobrenaturais (maléficos), por pecados do
fiel ou mágica e que a cura para isto se dá principalmente
pela oração, ou por intervenção mágica
(bênção, agente mediúnico). No caso das práticas
instituídas em torno dos santos de cemitério, porém,
esse mal não tem a forma do demônio ou de espíritos,
mas formas que estão profundamente relacionadas aos problemas da
vida cotidiana dos devotos: é a falta de emprego, a falta de uma
casa própria, uma doença – própria ou de um ente querido,
são as notas baixas que impedem o estudante de “passar de ano”,
é a dificuldade de encontrar um marido. Na maioria das vezes são
pedidos simples: no caso de Etelvina, Teresa Cristina e Delmo Pereira,
é comum encontrar ex-votos: de cadernos ou pedidos escritos com
parafina nas vidraças dos jazigos pedindo a aprovação
escolar no final dos bimestres letivos. Por sinal, este parece ser o principal
pedido dos jovens estudantes que frequentam o cemitério, não
apenas no Dia de Finados. O fenômeno dos santos de cemitério
parece, assim, articular três dimensões importantes da religiosidade:
a primeira é sua notória identidade com os arquétipos
não necessariamente aceitos pela moral instituída. Uma idéia
preciosa que sustenta a investigação é a de Van Gennep,
citado por Michel Carteau (1992 [2006]), para quem é possível
encontrar traços estruturais nos construtos religiosos comuns a
várias sociedades:
Van Gennep revela
nos folclores religiosos os signos de arquétipos inconscientes e
de estruturas antropológicas permanentes. Através de uma
mística sempre ameaçada ou de um folclore, o religioso assume
a imagem do marginal e do atemporal, nele, uma natureza profunda, estranha
à história, se combina com aquilo que uma sociedade rejeita
para suas fronteiras (Certeau, 2006, p. 35).
O elemento representativo
observado nos célebres trabalhos de Jung (o lugar do inconsciente
coletivo, espécie de memória, registro da experiência
da humanidade) aponta para um aspecto atemporal, também abordado
por Durand, que permite, em ultima análise, o retorno de representações,
hábitos e costumes presentes no ethos da civilização
ocidental. Portanto, de ritos e tradições nem sempre conscientemente
percebidas pelos que as postulam. Assim, Pitta (2005, p.18) exemplifica
a relação dos elementos do imaginário e a questão
da religião:
É assim que
uma filha de Maria e uma filha de Iemanjá não terão
a mesma visão de mundo, nem o mesmo comportamento, no entanto as
duas apresentarão e participarão da mesma imagem arquétipica
da Grande Mãe (deusa do paganismo).
Reconhecer o significado
dos santos de cemitério é verificar os elementos da cultura
que constituem o universo representativo (presentes nas narrações
e nos mitos) presentes nas devoções. É investigar
de que formas os arquétipos definidos fora dos dogmas católicos
constroem a relação entre as crenças e a fé
afetivamente exprimida. Os santos são elaborados a partir de uma
trama entre fatos e credos que culminam em narrativas mitológicas.
Um segundo aspecto manipulado
neste processo é a distinção de uma religiosidade
popular que, ao mesmo tempo em que partilha alguns elementos com outras
expressões religiosas (o espiritismo ou o catolicismo oficial, por
exemplo), diferencia-se destas por representar a continuação
de uma tradição popular que remonta às origens do
catolicismo, quando a Igreja estava mais aberta à interferência
das crenças populares. Do mesmo modo que nos remete a uma forma
de religiosidade vivida intensamente pelo povo que, independentemente de
mediadores oficiais, rearticula concepções místicas
de forma autônoma, recriando até mesmo a hierarquia celeste
e instituindo “atalhos” através da dor e do sofrimento, suprema
experiência humana e corporal.
O terceiro aspecto para o
qual queremos chamar a atenção é o de que, apesar
da possibilidade de situá-los na esfera estrutural do inconsciente,
os santos de cemitérios estão relacionados aos processos
locais do contexto sócio-históricos nos quais estão
inseridos; os relatos sobre suas vidas e mortes, bem como as circunstâncias
de sua “eleição” para santo, nos revelam importantes aspectos
da sociedade local. Assim, Etelvina era uma migrante nordestina numa cidade
em que o migrante que chegava para trabalhar com a borracha, era um elemento
inferiorizado. Era mulher, o que na sociedade patriarcal do início
do século XX era um traço também discriminador e finalmente
temos a circunstância de sua morte, defendendo sua “honra”, o que
numa sociedade em profunda comoção social, aparece como um
fato de inefável apelo à instituição de ordem
moral.
O rabino Shalon Muyal, descrito
como homem íntegro e dedicado a amparar espiritualmente os judeus
espalhados pela diáspora, veio à Manaus com a nobre missão
de reavivar a fé de seu povo no período conturbado de depressão
econômica e de crise moral. Uma situação econômica
específica também foi o contexto da morte de Delmo Pereira.
A força da economia aparece, mais uma vez, como desarticuladora
da vida social no episódio dramático da morte do rapaz, quando
o caos parecia imperar numa cidade sem lei: a barbárie. De assassino,
Delmo migra para a categoria de mártir em função da
tortura sofrida e depois para a de santo, ganhando o posto de mediador
entre os estudantes “desvalidos”, aqueles que sempre sofrem a ameaça
da reprovação no final do ano, e as autoridades celestes.
A menina Teresa Cristina
também revela, na lenda de sua vida, profundas simbologias: filha
de um casal de religiões diferentes, com pai muçulmano, perseverava
na fé cristã. Morreu sofrendo, alma inocente (ao contrário
de Delmo) e seu primeiro milagre foi ajudar um migrante, desabrigado e
sem dinheiro numa cidade estranha.
As constatações
vão mais além do que afirmar que a devoção
aos santos tem, simplesmente, um determinante econômico ou social.
Mas que tais elaborações são suscetíveis às
interferências do contexto social em que ocorrem. Embora diferentes,
os quatro personagens guardam um aspecto em comum: todos foram escolhidos
como mediadores entre o povo e o Céu por se aproximarem, de alguma
forma, dos imperfeitos mortais que lhes devotam afeto.
Os cultos parecem indicar
um processo de identificação entre a vida de opressão
e violência dos fiéis com a lenda que se forma em relação
às histórias de vida dos “santos” populares. Por este motivo,
as figuras dos indivíduos considerados santos carregam consigo as
contradições e conflitos do contexto vivido pelos sujeitos
que os elegem. Suas virtudes e atributos revelam elementos valorizados
pela população devota, expressando o sentido místico
das crenças populares locais.
Notas
Ex-voto
é, em geral, um objeto relacionado à “graça” alcançada,
podendo ser algo do uso pessoal do devoto (uma muleta, um caderno, uma
peça de roupa, algo adaptado para exercer a função,
como uma boneca para representar o desejo atendido de uma gravidez, ou
algo especialmente fabricado para esse fim, como no caso dos membros de
cera, barro ou madeira, representando partes do corpo humano). Simbolicamente,
o ex-voto é um poderoso elemento de testemunho entre o devoto e
o seu intermediador espiritual, aquele que, não pertencendo mais
ao mundo físico, alcançou posição especial
junto à Deus e que pode intervir na vida dos mortais. O ex-voto
pode ser enquadrado com absoluta precisão na categoria de “símbolo”
que, segundo Pitta, é o signo concreto que evoca, por uma relação
natural, algo ausente ou impossível de ser percebido.
A
expressão “narrativas míticas” é utilizada, aqui,
em referência ao conceito de “mito” explorado por Pitta (2005), para
quem mito é um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos
e schèmes que tende a se compor em relato, ou seja, que se apresenta
sob forma de história.
A
promessa é o principal laço promotor de compromisso entre
o crente e o santo, na medida em que ela estabelece uma representação
da troca de um favor do santo por uma oferenda – o sacrifício
do fiel.
Trajeto
Antropológico (Pitta, 2005: 21) é a forma como cada cultura
estabelece a relação existente entre sua sensibilidade (pulsões
subjetivas) e o meio em que vive.
A
distinção entre catolicismo erudito (CE) ou formal e catolicismo
popular (CP) é feita por Brandão (1987) para distinguir,
dentro do catolicismo enquanto sistema religioso, formulações
diversas sobre dogmas e práticas instituídas.
O
“Dia de Todos os Santos”, lembra Kieckefer, seria celebrado em função
dessa ordem de santos, nascidos antes de Jesus Cristo, mas ainda assim
agraciados pela glória divina da salvação, como os
profetas do Antigo Testamente, por exemplo.
Romanização
é o termo que designa a reforma eclesiástica ocorrida em
fins do século XIX na Igreja Católica que estabeleceu o catolicismo
ultramontano e que repercutiu no fortalecimento das autoridades eclesiais
e na tentativa de expurgar da igreja qualquer tipo de interferência
popular. No Brasil, a principal consequência da romanização
foi o combate às irmandades religiosas populares e aos beatos. A
campanha militar empreendida pelo Estado contra Canudos, no sertão
nordestino, contou com grande apoio da Igreja (Gaeta, 1997).
Entre
meados do século XIX e início do século XX, a região
Amazônica sofreu um surto de desenvolvimento graças à
exportação da borracha (extraída do tronco da Hevea
brasiliensis) que propiciou, entre outras coisas, que cidades como Manaus
recebessem elevado número de migrantes, empreendessem amplas reformas
urbanísticas e que parte de sua população tivesse
acesso à mercadorias importadas. Para a grande maioria de desfavorecidos,
contudo, o período da borracha se constituiu da ilusão do
enriquecimento rápido quebrada pela realidade cruel dos seringais
e das doenças tropicais que levaram muitos à morte ou à
miséria absoluta.
Durante
a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, impossibilitados de comprar
a borracha barata da Malásia, voltaram sua atenção
para a borracha da Amazônia, promovendo um segundo surto de expansão
do extrativismo. Finda a guerra, a região, sem outras alternativas
que movimentassem a economia local, sucumbiu à depressão
econômica.
Bibliografia
ATIENZA,
Juan. Santos Pagãos: deuses ontem, santos hoje. São
Paulo: Ícone, 1995.
AUGRAS,
Monique. Todos os santos são bem-vindos. Rio de Janeiro:
Pallas, 2005.
BENCHIMOL,
Samuel. Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia.
Manaus: Comitê Israelita do Amazonas; Belém: Comitê
Israelita do Pará; São Paulo: Comitê Israelita do Brasil,
1998.
BENJAMIM,
Roberto. Devoções populares não-canônicas na
América Latina: uma proposta de pesquisa. Revista internacional
de Folkcomunicação, Brasília, ano 1, n. 1.
p. 41-46, 2003.
BRANDÃO,
Carlos Rodrigues. O festim dos bruxos: estudos sobre a religião
no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 1987.
CASCUDO,
Câmara. Superstição no Brasil. 5 ed.
São Paulo: Global, 2002.
CERTEAU,
Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2006.
COLUCCIO,
Félix. Cultos y canonizaciones populares de Argentina.
Buenos Aires: Ediciones del Sol, 1994.
DURAND,
Gilbert. A virgem Maria e a alma do mundo. In: A fé do sapateiro.
Brasília: UnB, 1995.
DURAND,
Gilbert. O imaginário: ensaio acerca das ciências e
da filosofia da imagem. Rio de Janeiro: Difel, 1998.
FREITAS,
Eliane Tânia M. Violência e o sagrado: o que no criminoso anuncia
o santo? In: GICO, Vânia; SPINELLI, Antônio; VICENTE, Pedro
(orgs.). As ciências sociais: desafios do milênio.
Natal: EdUFRN, 2001. p. 497-407.
FREITAS,
Eliane Tania M. Memória, ritos funerários e canonizações
populares em dois cemitérios no Rio Grande do Norte. Tese
(Doutorado em Antropologia Social) – PPGSA/IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, 2006.
GAETA,
Maria Aparecida J. V. A Cultura clerical e a folia popular. Revista
Brasileira de História. São Paulo, v.17 n.34, 1997.
KIECKHEFER,
R. Imitators of Christ: sainthood in the Christian Tradition. In: KIECKHEFER,
R. & BOND, George D. Sainthood: its manifestations in world religions.
Berkley: University of California Press, 1988.
LAPLANTINE,
François e TRINDADE, Liana. O que é imaginário.
São Paulo: Brasiliense, 1997.
MAUÉS,
Raymundo Heraldo. Um aspecto da diversidade cultural do caboclo amazônico:
a religião. Estudos avançados, vol.19, n.53, p.259-274,
2005.
MAUSS,
Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições
70, 1991.
PITTA,
Danielle Perin Rocha. Iniciação à teoria do
imaginário de Gilbert Durand. Rio de Janeiro: Atlântica
Editora, 2005.
REZENDE,
Eduardo Coelho Morgado. Metrópole da morte, necrópole
da vida: um estudo geográfico do Cemitério de Vila Formosa.
2 ed. São Paulo: Cathargo Editorial, 2000.
SALGADO,
David. A verdadeira história de Ribi Muyal, em Manaus. Revista
Morashá, n. 53, junho, 2006. Disponível on line via www
em: <http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=618&p=0>
Capturado em 02 jul. 2006.