[...] famílias
de objetos são interpretadas como unidades espaciais integrais.
Em contraste, objetos pontuais desfazem a ordem tradicional através
de estados de individualidade (AMIDON, 2001, p. 56).
Em momentos alternados e
não lineares, a arte rivaliza com a arquitetura e reivindica sua
expressão como forte manifestação artística
no espaço livre público. Em outros, arte-arquitetura tornam-se
extensão, complemento e hibridizam-se no estreito limite da dicotomia
secular da lógica kantiana: utilidade/beleza; temporalidade/ durabilidade.
A arte, no contexto da Cidade, é compreendida como emoção,
sensibilidade, diálogo, interlocução, independentemente
de sua manifestação através de objetos arquitetônicos
ou de tradicionais meios de expressão artística. Distante
da discussão sobre o papel ou contribuição da arquitetura
na arte (ou como arte), no entanto, torna-se relevante, para a prática
contemporânea, a discussão sobre a validade e obsolescência
da escultura-monumento como tradicional veículo (objeto) artístico
no espaço livre público.
Vossa Alteza,
[...] os monumentos históricos
que cobrem o solo da França causam admiração e inveja
à Europa Erudita [...] tal é o espetáculo que nos
oferece esse maravilhoso encadeamento de nossas antiguidades nacionais
e que faz de nosso solo tão precioso objeto de pesquisas e estudos
(...). A França não pode ficar indiferente a essa parte notável
de sua glória.(carta enviada ao rei francês em 21 de outubro
de 1930, por Guizo, Ministro do Interior (apud CHOAY,
2001, p. 259-261)
A escultura possui, desde
a Antiguidade, o importante status de monumento (figura 01); ela apõe
sobre o espaço público um alto valor, símbolo de honra
e admiração no contexto de uma cidade. Poucas são
as praças antigas em que não repousam esculturas, silenciosamente,
como marco de tempos gloriosos, concentrando em um único objeto
o engenho e a criatividade do labor humano, aliados à responsabilidade
de conter fragmentos da memória urbana. Mantidas em seu pedestal,
em seu espaço estritamente fixo e determinado, são ‘condenadas’
a assistirem estaticamente à mutação gradual e contínua
da Cidade. Apesar de testemunhos da passagem do tempo, a memória
urbana reside em si como objeto mudo, em esculturas que pouco dialogam
com os usuários do espaço. Sem autonomia, são reduzidas
a objetos sem identidade, sem rosto; presença física sem
significado.
Figura 01: Rainha Victoria
(1819-1901), George Square, Glasgow (Reino Unido). Fonte: arquivo da autora.
[...] a escultura
como monumento constitui um espelho que cria um efeito de distância,
de afastamento, propiciando um intervalo onde se haverá de instalar
o tempo referencial da história (CHOAY, 2001,
p.205).
Rossalind
Krauss (1979), em seu artigo A Escultura no Campo Ampliado, traça
o trajeto histórico da escultura tradicional como monumento até
o momento em que se dissocia do posicionamento estático do pedestal.
Choay (2001) e Krauss (1979)
concordam em que essa nova fase ocorre após a década de 1960
e, ao se traçar um paralelo histórico, coincide cronologicamente
com a mudança de mentalidade no campo sociológico e artístico
característico do período Pós-Guerra. É a passagem
do caráter figurativo ao não figurativo, ou como é
corrente se dizer, à abstração (ARGAN,
1988, p. 105).
[...] a lógica
da escultura parecia inseparável da lógica do monumento.
De acordo com esse pressuposto, uma escultura é uma representação
comemorativa. Ela senta-se em um lugar particular e fala em uma língua
simbólica sobre o significado e uso daquele espaço (KRAUSS,
1979, p. 06).
Krauss identifica o rompimento
da relação direta entre escultura e monumento a partir do
momento em que ela perde seu status de simples objeto isolado, símbolo,
marco estático, geometricamente posicionado como entidade forte
no espaço público. A escultura abstraída do seu valor
personificado de simples representação mistura-se ao território,
apropriando-se do espaço geométrico, expandindo-se na subjetividade
do sujeito e hibridizando-se com o lugar.
[...] através
da veneração de sua base, a escultura estende-se para absorver
o pedestal em si e distante do lugar atual; e através da representação
dos seus próprios materiais ou o processo de sua construção,
a escultura descreve sua própria autonomia (KRAUSS,
1979:06).
Entre o período Pós-Guerra
e a década de 1970, um grupo de artistas e arquitetos colocou a
Dinamarca e Suécia em posição de destaque em relação
a áreas de recreação infantil, tendo como pioneiros
os trabalhos do arquiteto C. Th. Sørensen. Na prática, esses
projetos já constituíam uma nova postura e apropriação
diante das formas escultóricas no espaço livre público.
A figura 02 demonstra a escultura feminina na cidade de Ødense,
Dinamarca, como suporte para a integração do lazer infantil
ao espaço público, sem a necessária definição
de áreas exclusivas para essa faixa etária. Apesar de não
possuir outras imagens dessa praça, é possível imaginar
que essa escultura seja utilizada também como banco ou encosto para
adultos. Segundo as autoras Clare Marcus e Carolyn
Francis (1998) “esculturas ou fontes que intrigam as crianças,
geralmente, também atraem adultos”.

Figura 02: A escultura
sai do pedestal e torna-se território público, acessível
ao usuário. Fonte: BIRKSTED, 1999, p. 71.
Algumas décadas depois,
situação semelhante é encontrada na estátua-monumento
“I Amsterdam” (figura 3), que impregnada de um caráter de promoção
e celebração da cidade repete o propósito da tradicional
escultura. No entanto, ao ser subtraída do estrito confinamento
do pedestal, torna-se objeto lúdico, apropriado na multiplicidade
de suas formas, instigante motor numa relação direta com
o sujeito individual ou coletivo. Concebido como monumento itinerante,
este portal desloca-se, temporariamente, para outros espaços públicos
da cidade e aloca-se próximo à entrada de edifícios
emblemáticos em Amsterdam. De vizinhança em vizinhança,
atrai turistas para supostos eixos menos ‘badalados’, celebra áreas
já conhecidas, reforça a identidade e estimula os próprios
moradores a fotografarem e experimentá-lo.

Figura 03: O poder de
atração de uma escultura-objeto. Fonte: imagens de Marcella
Buffoni (www.facebook.com)
Daniela
Brasil, em sua dissertação de Mestrado na Bauhaus Universität
Weimer, concluída em 2006, sob o título “Zeit-zu-gehen” (“Tempo
para Acontecer”), trabalha com as estátuas dos representantes da
literatura alemã do século XIX, Goethe e Schiller. O monumento
dedicado a ambos foi inaugurado na cidade de Weimar em 1857 e desde essa
data permaneceu imóvel no mesmo espaço, em frente ao teatro
da cidade.
Adotando posicionamento semelhante
ao de Krauss (1979) sobre a autonomia subjetiva das
esculturas, Daniela (2006) sugere que o monumento-símbolo
da cidade seja libertado de seu pedestal e possa experimentar o espaço
público, viajar para outras cidades e - até mesmo - ultrapassar
as fronteiras alemãs. Através de reproduções
em papel cartão, réplicas de bustos ou fotomontagens, são
feitas imagens simuladas dos escritores em Lisboa, dirigindo veículos
de passeio, pegando uma carona em carrinhos eletrificados em parques de
diversão (os populares carrinhos de “bate-bate”), transportados
em carretas ou até mesmo na palma da mão da própria
autora.
[...] Não
é nova a idéia de que monumentos podem ser removidos de suas
posições originais. Isso pode acontecer quando a cidade renova
a sua estrutura urbana ou quando a orientação política
de um governo muda. Se os monumentos mudam por razões objetivas,
por que eles não poderiam deslocar-se por questões subjetivas?
[...] Não deveriam as estátuas também ter a liberdade
de ver outras paisagens? [...]Se Goethe e Schiller pudessem caminhar de
Weimar [...], se pudessem ser içados de sua base de pedra e levados
para o primeiro lugar onde se encontraram, talvez a memória vivesse
e a história poderia se libertar de seu confinamento. [...] Seria
possível para a cidade de Weimar permitir aos monumentos de Goethe
e Schiller saírem para um passeio por toda a parte de Jena? (BRASIL,
2006)
Apesar do tom bem-humorado
da proposta, Daniela Brasil (2006) estimulou, na
prática, profundos debates entre os adeptos da nova idéia
e os que defendiam a tradicional permanência dos monumentos na Cidade.
A discussão evidenciou o anonimato da escultura como símbolo
morto e estático no espaço livre público e, ao mesmo
tempo, o potencial regenerador que a idéia de mudança promove
nesse mesmo local. Ao consultar o cidadão comum, Daniela o trouxe
para o espaço da Cidade, fazendo-o pensar e interagir subjetivamente
com as esculturas, transformando a relação sujeito-objeto,
embora tenha se limitado apenas ao plano das idéias, mais do que
à experiência rica da mobilidade física e o poder de
mutabilidade resultante da relação direta com o próprio
usuário.
No projeto contemporâneo,
os objetos não apenas rompem a estaticidade que os torna imperceptíveis
no espaço público, mas superam a simples finalidade de representação
de conceitos e da abstração da mente criativa do artista.
A partir da década de 1990, as esculturas perdem sua função
representativa tradicional, extrapolam a noção de obras conceituais,
sua estaticidade, tornando-se objetos manipuláveis, concebidos para
incitarem, solicitarem respostas e interagirem com a audiência. Argan
(1998), voltando-se para a lógica antropológica de mutação
do espaço público, define a escultura e os objetos urbanos
como obras abertas; a relativização da arte urbana se consolida;
os lugares de enunciação, o jogo entre objetos e territórios
torna-se relativo porque os sujeitos urbanos também são relativos.
[...] Não
é possível pensar o objeto separadamente do sujeito: o sujeito
é sujeito porque coloca a realidade como outra e distinta de si;
o objeto é objeto apenas porque é assumido e pensado pelo
sujeito. Nesse sentido, podemos dizer que a realidade ou um fragmento da
realidade torna-se objeto na medida em que, pensado por um sujeito, adquire
a singularidade do sujeito. Da mesma forma, o homem é sujeito porque
compreende e faz a sua realidade ou um seu fragmento. (…) o mundo moderno
tende a deixar de ser um mundo de objetos e sujeitos, de coisas pensadas
e pessoas pensantes. O mundo de amanhã poderia não ser mais
um mundo de projetistas, mas um mundo de programados (ARGAN,
1998, p. 252)
Argan (1998) atenta, ainda,
que a relação contextualizada entre objeto e sujeito não
é apenas resultante de uma nova mentalidade sobre a arte, um capricho
da evolução artística natural, mas uma necessidade
para a manutenção da vitalidade urbana nesse novo século.
Nesse caso, o sujeito reside não apenas no homem, mas na dinâmica
da própria Cidade, resultante da associação e dissociação
de elementos, da rotina paradoxalmente mutante como essência do espaço
público contemporâneo.
William
White (1990), ampliando a defesa da interatividade dos objetos urbanos
sugere, no início da década de 90, que as pessoas sejam,
de fato, as novas esculturas no espaço público. Essa visão
do sujeito transformado em objeto reforça a importância de
se encorajar um comportamento espontâneo e criar territórios
abertos para interpretações individuais e coletivas. Trata-se
de uma arte de transformação formal dos objetos e dos padrões
de posicionamento da interação humana, numa clara associação
à dinâmica entre o espaço e o tempo (LYNCH,
1972).
[...] a experiência
de outras pessoas representa uma oportunidade particularmente colorida
e atraente para o estímulo (...). Nenhum momento é como o
anterior ou o que está por vir quando pessoas circulam entre pessoas.
O número de novas situações e novos estímulos
é ilimitado (GEHL, 2006).
A rigidez programática
dos objetos urbanos os desconecta do espaço livre público
território resultante não apenas de sua presença silenciosa,
mas das dinâmicas transformadoras suscitadas pela interação
humana. O homem como escultura instala a noção de espaço
livre público como um território adaptativo, mutante não
apenas pelas dinâmicas e pela passagem do tempo na Cidade, mas pelo
micro intervalo de tempo, que une ou separa as instantâneas e diversas
solicitações humanas.
[...]podemos mudar
[...] nossas mentes de modo a desfrutar as dinâmicas do mundo. [...]
Podemos, também, mudar o mundo para corresponder de forma mais próxima
à nossa própria mentalidade (LYNCH,
1972, p. 242)
A interessante analogia de
White (1990), que posiciona o homem como escultura
no espaço público contemporâneo, pode ser ilustrada
por meio do retorno transmutado do tradicional chafariz aos espaços
urbanos. A secular escultura, como representação de uma figura
ilustre ou símbolo de honra, foi gradativamente substituída,
nas décadas de 60 e 70, por formas escultóricas abstratas.
No início da década de 1990 transformou-se profundamente
através da projeção de cores, da sincronia entre os
sons e a velocidade variada de jatos de água. O marco dessa mudança
é exatamente o momento em que o objeto escultórico referencial
da fonte deixa de ser um elemento a ser visto, contemplado, inerte em meio
a um ballet de água que necessita de uma audiência e é
substituído pelo próprio homem.
No final dos anos de 1990
e jáno século XXI, a tradicional fonte cedeu espaço
para um palco aberto de interações. Entre jatos localizados
no piso, crianças e adultos caminham pela água, desviam-se
dela, desafiam a sua velocidade e exercitam a sua capacidade de memorizar
o intervalo entre eles, em um jogo lúdico de acertos e erros (figura
04). A diversão é experimentada não apenas por quem
utiliza o espaço, independente da faixa etária, mas também
por quem assiste e se deleita com a destreza de uns ou outros, que são
molhados inadvertidamente. Apesar da previsibilidade da ação,
do espaçamento e da sincronia programada dos jatos, é notável
que esses espaços estimulem um jogo interativo, diverso, nos quais
o próprio homem supera a escultura, ainda que estas sejam objetos
cinéticos.
Figura 04: Praça com
jatos d’água, em Vancouver, Canadá, 2006. Fonte: arquivo
da autora
Finalizando essa breve discussão
sobre a ordem objetual no espaço livre público, Clare
Marcus e Carolyn Francis (1998), ao lançarem as qualidades necessárias
para o projeto contemporâneo:
[...] (1) Criar
um senso de diversão, deleite e surpresa em meio à vida da
cidade. (2) Estimular o jogo, a criatividade e a imaginação
(...) ou criar uma forma que pode ser manipulada, sobre a qual se senta
ou na qual se passeia. (3) Promover contato e a comunicação.
(4) Experiências sensoriais – a textura da escultura ‘toque-me’,
o som e sensação de uma fonte - podem oferecer encontros
breves, mas prazerosos (5) Encorajar a interação, lançar
as pessoas como atores em vez de audiência (MARCUS
& FRANCIS, 1998, p. 48)..
definem que deve residir
no objeto urbano (compreendido como mobiliário ou objeto arquitetônico)
o movimento livre e a capacidade de mutabilidade. É a combinação
desses objetos e sua conexão programática e interativa que
tornam o espaço livre interessante e atraente a seus usuários.
Nesse sentido, o espaço público deve ser, em seu conjunto,
uma grande arte pública, no qual somos as próprias esculturas,
porém mutantes, móveis e dinâmicas.
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