O
cenário urbano contemporâneo tornou-se um espaço de
grandes transformações a partir da década de 1970,
resultando no lugar aglutinador das diversas manifestações
e relações humanas, representadas por conflitos, contradições,
desigualdades, poluições, criminalidade, caos; ao passo que
se intensifica o processo de urbanização brasileira, destaca-se
a dicotomia entre cidade-campo e, assim, caminha-se para (ou se consolida)
uma conjuntura de insustentabilidade urbana e regional. A cidade contemporânea
é a expressão máxima do capitalismo global do século
XXI, pois se tornou território do poder, da concentração
do capital e dos meios de produção; enfim: o centro de negócios.
Contudo, há na cidade a antítese oportunidade-exclusão,
pois é esta o espaço que produz emprego e trabalho, mas que,
também, segrega e sub-agrupa sua população no espaço
conforme a participação socioeconômica. O cenário
urbano mato-grossense não se distancia desse processo de desenvolvimento
urbano no Brasil. Assim, este trabalho pretende discutir as teorias urbanísticas
e de planejamento urbano e regional que nortearam a produção
e reprodução das cidades brasileiras, bem como apontar caminhos
por meio de um estudo de intervenção urbana utópica,
intitulado Parque Linear da Prainha, na região central da cidade
de Cuiabá.
A
capital mato-grossense, Cuiabá, é uma imagem desse processo
global de construção das cidades capitalistas, especialmente
quando analisada a partir do seu centro histórico, que é
o objeto desse trabalho. A antiga cidade colonial do século XVIII,
de ocupação bandeirista (Figuras 1, 2 e 3 apresentam a evolução
urbana da cidade até o século XXI), já não
apresenta as características de outrora. A cidade de Cuiabá
se transfigurou em uma metrópole conurbada ao município de
Várzea Grande, com uma região violenta, impermeabilizada,
poluída, degradada e congestionada. O objetivo desse trabalho é
propor uma realidade alternativa e diversa desse contexto por meio da implementação
do Parque Linear da Prainha. Deste modo uma nova cidade, com qualidade
ambiental e humana, seria possível. Uma cidade ideal que respeite
sua histórica ocupação, considerando a cultura ribeirinha
e a do caboclo, resgatando a cuiabania tradicional que tem por necessidade
se relacionar com a natureza e sua religiosidade.
A região da antiga Prainha
é o limite linear e objeto da intervenção urbana desta
proposta, pois a área expressa condicionantes importantes, como
um patrimônio arquitetônico expressivo no contexto histórico
do cerrado no Centro-Oeste brasileiro, além de ser uma área
constituída por edifícios simbólicos e emblemáticos
para a capital. Atualmente, também é uma das áreas
mais degradadas e densas da cidade. Teve seu córrego canalizado
e retificado entre os anos de 1960 e 1970, intervenção que
esconde sob a atual Avenida Tenente Coronel Duarte um curso d’água
poluído de esgoto e intensamente depreciado pela sociedade. A cidade
de Cuiabá torna-se refém de um intenso surto de expansão
urbana entre os anos 1970 e 1980 que subjuga a cultura local e imprime
forte pressão especulativa sobre o centro histórico. Isso
culmina com a descaracterização ou destruição
de várias edificações coloniais, situação
que expressa a ideologia do moderno e avanço da fronteira capitalista
para o Centro-Oeste, além de delinear uma capital mato-grossense
que negligencia de seu meio natural característico de cerrado e
que desagrega sua paisagem urbana e ambiental qualitativa de outrora.
O
porquê da intervenção urbana no contexto atual da Avenida
Tenente Coronel Duarte
Considerando
o fato de este Parque Linear intervir na atual Avenida Tenente Coronel
Duarte (antigo córrego da Prainha), que constitui uma área
consolidada, de intenso uso e ocupação do solo urbano densificado,
a proposição é transformadora e radical frente à
leitura urbana contemporânea da capital. A antiga Prainha se apresenta
transfigurada, desde a década de 1960, em uma via estrutural de
fluxo intenso e de alto impacto na urbe. Também temos, nessa região
linear, um comércio pujante para a cidade delineada por edifícios
simbólicos e emblemáticos do patrimônio arquitetônico,
cultural e religioso da cuiabania.
A transformação
dessa área em um grande parque urbano, proposta por este projeto,
não é em nenhum momento sequer imaginada pelo Poder Público
ou pela sociedade local. Se, por um lado, a cidade tem crescido desordenadamente
e sem um planejamento urbano adequado, a população da Prainha
já não reconhece a potencialidade ambiental que o córrego
apresentou no passado, sendo o mesmo piscoso e navegável por séculos;
hoje, resta apenas a imagem poluída e ocultada sob a Avenida. Dessa
forma, o caminho encontrado para uma possível reinvenção
urbana seria a utopia como proposição conceitual de projeto
visionário. O olhar para a cidade e perceber suas fissuras, seus
conflitos, seus abusos, sua poluição ou o seu clima desfavorável,
permite ao urbanista se desvencilhar de um possível comodismo humano,
o que possibilita a não aceitação da feiúra
urbana e da sua pouca qualidade de vida e ambiental. Assim sendo, a Prainha
é um ponto vital e estratégico para uma intervenção
urbana em Cuiabá e podemos enumerar algumas determinantes principais
que justificam tal escolha:
1. A consistência histórica
(história urbana) da Prainha e do seu patrimônio arquitetônico
e paisagístico pregresso, essencial ao surgimento da capital desde
o séc. XVIII;
2.
O centro de Cuiabá, em especial a região da Prainha, representa
papel vital quanto à identidade e à referência de seus
cidadãos e visitantes;
3.
A destruição dos recursos naturais, matas de galeria, antigos
largos e parques e a ocupação das colinas de Cuiabá
resultaram na profunda alteração de sua paisagem urbana colonial,
principalmente a partir da década de 1960 e 1970 (CONTE
& FREIRE, 2005);
4.
A poluição e descaracterização das águas
urbanas do córrego da Prainha e seus tributários, a destruição
da flora e da fauna, bem como a alteração de seu traçado
original e a ligação criminosa da rede de coleta pluvial
e de esgoto ao seu leito, que deságua diretamente no rio Cuiabá
sem nenhum tratamento adequado;
5. O impacto climático
gerado pelas intervenções antropogênicas na área
central de Cuiabá, desde a construção da Avenida Tenente
Coronel Duarte e a canalização do córrego (1962);
posterior cobertura do mesmo (1979), (Ibid., 2005), assim como a verticalização,
densificação e impermeabilização do solo nos
bairros centrais da cidade resultarando na formação de Ilha
de Calor
, sendo constatadas as maiores médias de temperatura urbana na região
da Prainha (MAITELLI, 1994);
6.
A potencialidade transformadora de uma área intensamente utilizada
pela população da cidade, principalmente em virtude do comércio
e serviços diversificados, polarizados no local – marcante presença
das atividades terciárias
;
7.
A possibilidade de expansão do projeto para outras áreas
e córregos da cidade, estabelecendo um diálogo com outras
Áreas de Preservação Permanentes ou Unidades de Conservação;
8.
A ausência de arborização e corpos d’água. Para
Oke
(1973), quando se tem uma área com 20% da superfície verde,
a energia radiante é utilizada predominantemente nos processos de
evapotranspiração e não para aquecer o ar. Assim,
para a melhoria do clima urbano, a vegetação apresenta duas
vantagens: o sombreamento e o resfriamento indireto do ar por evapotranspiração
das folhas. Porém, Givoni (1998) ressalta
a importância da arborização com o efeito direto de
filtragem da poluição do ar e partículas em suspensão
(ROMERO, 2000), e indireto de incrementar as condições
de ventilação. Também é mais eficiente espaçar
árvores e parques urbanos do que concentra-los em alguns pontos.
A utilização de espelhos d’água, esguichos, junto
ao sombreamento de edificações e densa arborização
(GOUVÊA, 2002), possibilita a criação
de micro-climas urbanos que nunca existiram nas condições
naturais: verdadeiros oásis urbanos (DUARTE &
SERRA, 2003).
9.
A área é, talvez, a única região-objeto de
uma possível intervenção urbana de caráter
utópico na cidade em virtude da sua condição atual
e concreta de centro de sedimentada ocupação, concatenando-se
com a postura de ruptura de paradigmas na intervenção urbana,
visto que nega sua condição real e prenuncia uma nova imagem
urbana e transformadora para Cuiabá.
O
Centro, por definição, implica a presença da diversidade
étnica de uma cidade, portadora de processos históricos conflituosos,
com centenas de anos de existência em permanente contradição
(CARRION, 1998). Não obstante, o centro também
é o lugar da gênese urbana e de sua história, local
dinâmico de fluxos e de circulação, encontros, serviços,
simbolismo, onde se tem diversos edifícios de instituições
públicas e religiosas e responsável pela noção
de pertencimento das pessoas que habitam a cidade (VARGAS
& CASTILHO, 2006).
A
preservação do centro perfaz, necessariamente, todas as classes
e segmentos sociais e não deve estar restrita somente às
edificações mais imponentes ou expressivas, sendo que a cidade
contemporânea não tem a necessidade de se congelar no pretérito
(MARCUSE, 1998).
A morte, que não poupa
nenhum ser vivo, atinge as obras dos homens. É necessário
saber reconhecer e discriminar nos testemunhos do passado aquelas que ainda
estão bem vivas. Nem tudo que é passado tem, por definição,
direito à perenidade; convém escolher com a sabedoria o que
deve ser respeitado. Se os interesses da cidade são lesados pela
persistência de determinadas presenças insignes, majestosas,
de uma era já encerrada, será procurada a solução
capaz de conciliar dois pontos de vista opostos (...) (IPHAN
et al., 1995: 59)
O
Parque Linear da Prainha também propõe uma alteração
significativa do trânsito, já que a Avenida Tenente Coronel
Duarte representa uma via estrutural para a cidade. Contudo, a proposta
é justamente alterar a condição atual do centro urbano
que funciona como área de passagem e de conexão para os automóveis.
Degradada
pelo trânsito intenso, essa área transmutar-se-ia, assim,
em um lugar melhor do pedestre, destinado à contemplação
prazerosa do meio ambiente; um espaço para o homem e não
para a máquina.
O projeto tem como uma de suas
premissas a participação da sociedade em cada processo, conforme
expressa a Constituição Cidadã desde 1988. A população
deve assumir o Parque Linear da Prainha e se identificar com ele, conscientizando-se
de sua cidadania na promoção de uma cidade melhor e mais
justa.
Esse
ideário não revigora as ideologias modernistas de mudança
social por meio da arquitetura ou do urbanismo, mas assume que por meio
de uma utopia podemos constituir uma cidade para seus cidadãos.
Para tanto, cada equipamento ou mobiliário deve atender às
necessidades e carências da população, adequando-se
às diversas classes sociais, distintas faixas etárias e contraditórias
condições de educação e de vida.
Segundo
Denise
F. Pessoa (2006: 16), projetos visionários ou utopias poderiam
apontar uma saída para o caos urbano no qual vivemos. Ela ainda
afirma que essas visões ideológicas acerca da cidade têm
uma função crítica e ao mesmo tempo propositiva, pois
explicitam que tudo o que está sendo produzido ou pensado para a
cidade ou sociedade não corresponde aos anseios de um determinado
contexto histórico, político, social ou econômico.
Dessa maneira, a arquitetura visionária e a utopia urbana atuariam
como uma espécie de radar, que identifica, prematuramente, um momento
de mudança antes de qualquer outro segmento da sociedade, decodificando,
assim, os anseios coletivos da humanidade.
A partir desse pressuposto utópico,
a idealização do Parque Linear da Prainha perfaz o caminho
de concepção de um projeto visionário, pensando novas
possibilidades futuras a partir de um outro paradigma de cidade, sem o
conceito de re-vitalizar ou re-estruturar. O pensamento utópico
torna-se assim uma ferramenta ilimitada para o entendimento da cidade,
projetando um desenho de qualidade propositiva de dupla função,
pois além de sanar determinadas necessidades, ela também
prenuncia novas necessidades ainda não compreendidas.
Uma
forma aceita de pesquisa em projeto de arquitetura e urbanismo é
a proposição de sistemas hipotéticos, como exercício
de desenvolvimento das potencialidades criativas e tecnológicas
em projetos de estruturas urbanas que, sabidamente, não serão
construídas. Esse tipo de exercício constituiu o eixo de
atividades dos utopistas de fins do século XIX e estabeleceu bases
metodológicas mais tarde incorporadas à arquitetura e urbanismo
modernos. Diferentemente do que pode parecer à primeira vista, não
se trata de simples especulação de formas em um processo
de pensamento livre. É um exercício sistemático de
síntese, baseado na mais completa possível revisão
de estado da arte aplicável sobre o objeto em estudo, mas que deve
propor algo além do realizável naquele momento particular,
como forma de antever um estágio suplementar de progresso a orientar
os componentes dos outros projetos, estes voltados à materialização
imediata. É como uma demarcação de vetor, cujo limite
ainda está no plano do irrealizável, mas que os passos intermediários
poderão conduzir à realização da utopia. Esta
foi a contribuição de artistas do Renascimento ao notável
desenvolvimento arquitetônico da época, quando em suas pinturas
representavam complexos edificados que se antecipavam a sua materialização
construtiva, mais tarde realizada. Esta foi, também, a essência
do trabalho de Tony Garnier, entre os utopistas do século XIX, que
projetou uma hipotética cidade industrial até o nível
de detalhes executivos que anteciparam sistemas construtivos pré-fabricados
voltados à habitação em massa, desenvolvidos sob a
égide da arquitetura moderna. (SILVA, 2005)
No contexto da utopia urbana,
Ricardo
Toledo Silva (2005) faz uma referência à necessária
intenção do pensamento utópico para a humanidade,
desde que obedecidas algumas sistemáticas na idealização
de códigos hipotéticos, pois o mesmo se constitui em um exercício
de premeditação de um momento tecnológico futuro que,
a partir de novas descobertas, tornaria realizável as concepções
utópicas de outrora.
O projeto para o Parque Linear
da Prainha fundamenta-se sobre dois pontos primordiais e norteadores das
condicionantes urbanísticas: a potencialidade ambiental e a turística
da área. A primeira nos remete a uma necessidade que se faz urgente
nas cidades contemporâneas, face aos diversos desmembramentos possíveis
a partir de uma recuperação ambiental, paisagística
e topográfica do córrego da Prainha. A segunda, como potencial
turístico, refere-se à valorização da área
central da cidade por meio da recuperação e revitalização
do centro histórico e sua conexão com a antiga região
do Porto, bem como a pertinente proposta de inserção econômico-social.
A criação de áreas de convívio para a população
e conseqüente revigoramento do comércio local e do turismo
nos remete aos períodos áureos da Cuiabá dos séculos
XVIII e XIX, fazendo-se, assim, a ponte entre a contemporaneidade urbana
e o passado cultural e histórico da cuiabania.
Abairramento
da região de intervenção, compreensão do entorno
e determinantes de projeto
A Avenida da Prainha,
ou Avenida Tenente Coronel Duarte, é uma via estrutural que define
um eixo de divisão entre a Região Leste e Oeste da cidade
de Cuiabá (IPDU, 2007). Por corresponder a uma linha central do
tecido urbano, a avenida corta bairros antigos e com densidade alta (entre
57,4 e 86,02 hab./ha.), como os Bairros dos Araés, da Lixeira e
Dom Aquino. Bairros de densidade média (entre 28,77 e 57,39 hab.
/ha.), como o Alvorada, do Baú, dos Bandeirantes, Centro Norte,
Centro Sul e do Porto. E apenas o Bairro do Terceiro com densidade média
baixa (entre 11,05 e 28,76 hab./ha.).
A proposta para o Parque Linear
da Prainha como projeto utópico abarca o eixo que é definido
em três etapas temporais de ocupação da cidade de Cuiabá,
subdividida em setores para melhor entendimento, iniciada primeiramente
das minas do Rosário e atual centro histórico (SETOR 1),
ainda no século XVIII. Depois, seguindo a cronologia histórica,
temos a ocupação da região do Porto Geral e formação
dos primeiros comércios e núcleos de habitação
(SETOR 2). E por fim a união entre esses dois pólos de desenvolvimento
urbano de Cuiabá (SETOR 3). Para melhor compreensão dessa
setorização, segue-se as delimitações de cada
área abaixo:
·
Setor 1 – Se inicia com a nascente do córrego da Prainha, no
divisor de águas do Bairro Alvorada (onde até 12 de março
de 1974, através da promulgação da Lei Municipal n.º
1.346, era determinado como o limite do Perímetro Urbano da capital),
passando pelo encontro com a Avenida Historiador Rubens de Mendonça
onde, a partir daí, passa a ser canalizado sob a Avenida Tenente
Coronel Duarte (popularmente chamada de Avenida da Prainha). Depois, corta
área do centro histórico da cidade e sua área de tombamento
(entorno) até a Travessa Cel. Poupino, limite de tombamento após
a Praça Ipiranga e antigo Quartel da Força Pública
(edifício de 1862). O SETOR 1 engloba os bairros do Alvorada, do
Araés, do Baú, da Lixeira, do Centro Norte e dos Bandeirantes;
·
Setor 2 – Abarca a Região do antigo Porto Geral, entre os Bairros
do Porto e do Terceiro, limite com as Avenidas Carmindo de Campos e Senador
Metelo;
·
Setor 3 – A partir da Praça Ipiranga até as Avenidas
Carmindo de Campos e Senador Metelo, passando pelo Centro Sul e Bairro
Dom Aquino.
O Parque Linear da Prainha
atende, diretamente, à população residente em nove
bairros da cidade, o que totaliza cerca de 57.940 habitantes, segundo os
dados do Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU, 2007),
secretaria da Prefeitura Municipal de Cuiabá. Os bairros mais populosos
dessa área são respectivamente: Dom Aquino (com 13.067 hab.),
Alvorada (12.267 hab.), do Porto (9.335 hab.), Araés (5.538 hab.),
da Lixeira (4.801 hab.) e Centro Sul (4.551 hab.). Os menos populosos são:
dos Bandeirantes (1.193 hab.), do Terceiro (2.110 hab.), do Baú
(2.271 hab.) e Centro Norte (2.807 hab.).
Para melhor dimensionamento
dos equipamentos urbanos e infra-estruturas necessárias para cada
setor do projeto, foi elaborado um estudo sistemático com base nos
dados oficiais divulgados pela Prefeitura Municipal de Cuiabá, no
ano de 2007, através da análise do IPDU sobre o Perfil Sócio
Econômico dos Bairros de Cuiabá, estudo este realizado em
maio do mesmo ano.
O
projeto de intervenção “Parque Linear da Prainha”: suas codicionantes
e potencialidades
Desde o colapso da idéia
de planificação global da cidade, como se sabe considerada
pelos modernos a mais acabada expressão da organização
racional do espaço habitado coletivo – a um só tempo trunfo
da modernização capitalista e prefiguração
da socialização que ela parecia antecipar –, as intervenções
urbanas vêm se dando de forma pontual, restrita, por vezes intencionalmente
modesta, buscando uma requalificação que respeite o contexto,
sua morfologia ou tipologia arquitetônica, e preserve os valores
locais. (ARANTES, 1998: 131)
A implementação
do Parque Linear da Prainha através dos Setores é um caráter
norteador da proposta. Primeiro, a intervenção urbana no
SETOR 1, quase em conjunto com a do SETOR 2 (num período de dois
e cinco anos) e, por fim, a implementação do projeto no SETOR
3 (prazo de cinco a dez anos seguinte). Essa projeção em
etapas temporais bem definidas torna o projeto mais bem estruturado, adequando-se
às dinâmicas urbanas de trânsito e circulação.
Assim, possibilita-se a participação da população
de uma forma mais efetiva através de discussões com a sociedade
(paralelamente a um programa de educação ambiental), apresentação
das idéias de projeto e das etapas a serem executadas. A sociedade,
dessa forma, torna-se agente ativo da intervenção urbana,
ditando as prioridades de cada etapa, assumindo o projeto proposto através
da identificação coletiva e de cidadania, tornando a utopia
muito mais participativa e real.
A
proposta, como já foi dito, se fundamenta sobre o potencial ambiental
e turístico da área da Prainha, para tanto tem os objetivos
principais de:
· Devolver a natureza
local pregressa à cidade de Cuiabá, reforçando a necessidade
de relação entre o homem e seu ambiente natural como elemento
apaziguador das tensões e estresses do dia-a-dia;
·
Recuperar a condição ambiental do córrego da Prainha,
devolvendo o percurso natural de seu leito constituído por meandros
de desenho sinuoso e com densa mata de galeria, como também refazer
a flora e fauna local com a despoluição total das águas
e substituição do concreto retificador pela terra em contato
direto com o córrego, além de atenuar as ações
da ilha de calor na área central da cidade;
·
Integrar a população cuiabana em uma área de centralidade
ambiental, amparada por um sistema de equipamentos e mobiliários
urbanos, integrando lazer com esporte, cultura, história e cidadania
– restabelecendo assim o uso social, de lazer e convívio das APP’s,
valorizando a paisagem urbana e o patrimônio arquitetônico;
·
Conscientizar e envolver a população de Cuiabá na
participação efetiva das decisões de projeto, amparadas
por um programa de educação ambiental focado nas discussões
de inclusão do cidadão na sua cidade e no despertar da consciência
ecológica da humanidade e seu futuro.
A partir da formulação
desses objetivos, o projeto deverá ocorrer nas seguintes fases:
primeira fase
CONSOLIDAÇÃO
DO SETOR 1:
-
· Recompor o traçado
original do córrego, corrigindo a errônea intervenção
de retificação e canalização de seu leito,
ação que destruiu seu ecossistema e impermeabilizou o recurso
hídrico do contato com o solo e alimentação do lençol
freático. O traçado sinuoso reduzirá significativamente
a velocidade da água e a recomposição da vegetação
de galeria reordenará o ecossistema;
-
· Recuperação
e proteção das nascentes do córrego da Prainha e criação
de um coletor tronco de coleta da rede de esgoto, interrompendo o lançamento
de resíduos líquidos e sólidos no leito do córrego.
O processo de despoluição do córrego deve ser acompanhado
de uma rígida fiscalização e aplicação
das Leis ambientais;
-
· Restabelecimento da
fauna e flora natural do local através da recuperação
ambiental, concretizando um lugar melhor para o homem e a natureza do cerrado
mato-grossense;
-
· Eliminação
da Avenida Tenente Coronel Duarte como via estrutural e transformação
em uma via coletora (ou mesmo local) de trânsito limitado de veículos
e preferencialmente de transporte coletivo. O deslocamento do fluxo de
veículos deve ser estudado pela engenharia de transportes para que
sejam criadas alternativas eficientes para a Avenida Miguel Sutil (chamada
via “Perimetral” da cidade), com possível de deslocamento de trânsito
para a Avenida Mato Grosso, Rua Marechal Deodoro e Comandante Costa. O
fluxo das Avenidas Isaac Povoas, Cel. Escolástico e Getúlio
Vargas devem ser estudadas, pois exercem grande pressão no centro
da cidade. A eliminação do tráfego intenso e pesado
no centro possibilitará a criação de áreas
de lazer que integre o contato humano com a natureza e o córrego;
-
· Auxiliar na recuperação
do Patrimônio Arquitetônico Histórico do Centro, revigorando
o comércio e criando novas funções para a área
que produzirá nova centralidade na cidade. O Parque deve possuir
equipamentos culturais como teatro, cinemas, galerias de arte regional,
espaços para os festejos populares (principalmente na região
da Igreja Nossa Senhora do Rosário); o folclore e as danças
regionais como o Siriri e o Cururu terão também seu lugar.
A conexão com o Museu da Imagem e do Som (MISC), IPHAN, CEFET, Secretarias
da Prefeitura, Escolas e Faculdades que se localizam na área, além
da presença das Igrejas e a mobilização de festejos
populares (as chamadas “festas de santo”) tão tradicionais na cultura
cuiabana, funcionarão como potencializadores sócio-econômicos
(através do turismo), culturais e históricos;
-
· Propor um projeto de
substituição da pavimentação da área
central por pisos ecológicos mais permeáveis, a exemplo do
concreto intertravado, que permite maior infiltração da água
pluvial e reduz a velocidade de carreamento da água; (GOUVÊA,
2002: 91)
-
· Diminuir o número
de vias pavimentadas e assim reduzir o custo total de parcelamento, pois
o pavimento e drenagem são responsáveis por cerca de 55%
a 60% do custo de infra-estrutura; (MASCARÓ,
1991)
-
· Utilizar materiais
que gerem sombreamento e cobertura vegetal intensa que evitem o contato
direto do solo com as intempéries. Verifica-se que em épocas
de verão intenso a temperatura das superfícies gramadas reduz
de 5 a 10°C em relação a superfície pavimentada.
(GOUVÊA, 2002: 126)
-
· A água deve
ser abundante, promovendo espaços para a pesca e banho, bem como
umedecendo o ar seco nos períodos de estiagem e criando uma paisagem
mais agradável para ser vista e sentida. Para tanto, devem ser criados
diques de contensão da água, principalmente no encontro da
Prainha com a Avenida Historiador Rubens de Mendonça (área
de grande concentração de residências), como também
na proximidade com a Igreja do Rosário e Largo do Mundéu;
-
· Criar áreas
para a prática de esportes como quadras e campos de futebol, pista
de corrida e caminhada, ciclovias e áreas destinada a esportes radicais.
CONSOLIDAÇÃO
DO SETOR 2:
-
· Conectar o córrego
da Prainha ao Rio Cuiabá, pois suas águas estariam recuperadas
e despoluídas;
-
· Propor um projeto de
intervenção urbana entre o Parque Linear da Prainha e as
áreas do Porto e Terceiro, interligando as margens do Rio Cuiabá
ao Parque e conectando o Museu do Peixe e antigo Mercado Municipal ao projeto;
-
· Recuperação
das áreas degradadas por cortiços, habitações
abandonadas ou com problemas estruturais, bem como a valorização
da área através da melhora dos serviços e equipamentos
públicos;
-
· Implementação
de conjuntos habitacionais para a população carente da região;
-
· Instalação
de rede de ensino público, posto policial e de saúde para
a população, tendo em vista a condição de carência
social e econômica local;
-
· Revigoramento da economia
local através da instalação de uma Oficina Cultural
que promova cursos e atualização profissional à população
de baixa renda, como também implemente renda através na comercialização
de produtos artesanais locais;
-
· Implantar programas
gratuitos de alfabetização, cursos supletivos, cursinhos
de preparação para vestibulares e demais cursos profissionalizantes
para a inserção social e econômica do cidadão,
em parceria com Universidades Públicas do Estado e do Governo Federal
(Unemat e UFMT), Centros Federais como CEFET, ONG’s, etc;
-
· Recuperação
e reabilitação do Bairro do Porto e seu conjunto arquitetônico
colonial.
segunda fase
CONSOLIDAÇÃO
DO SETOR 3:
-
· Conexão com
o Setor 1 e 2. A partir da percepção de uma cidade de maior
qualidade ambiental e humana, assim a própria população
cobraria a expansão do projeto e conexão entre as duas áreas
já consolidadas do Parque Linear da Prainha;
-
· Integralização
do Projeto e completa descanalização do córrego, retornando
a condição ambiental no centro da cidade;
-
· Valorização
e recuperação das áreas que margeiam o Parque, bem
como a conexão com novos edifícios e equipamentos urbanos
próximos à área de intervenção;
-
· Consolidação
de uma cidade pensada para o pedestre, com largas calçadas arborizadas,
áreas de lazer e convívio, além da inserção
social da coletividade numa APP antes desfigurada.
A proposta utópica
a partir do desenho urbano: diretrizes gerais do Parque Linear da Prainha
Neste item estão
sistematizados alguns pontos contemplados no projeto de intervenção
urbana a partir do Parque Linear da Prainha. Abordagens de projeto acerca
do traçado e planta geral proposta; ruas, vias e pavimentações
principais; a composição das praças, parques e espaços
livres em geral; a dimensão da área de intervenção;
equipamentos comunitários propostos e alguns índices urbanísticos;
o mobiliário urbano e materiais empregados; a nova infra-estrutura
urbana. Para avaliação das condicionantes urbanísticas
foi realizado um estudo sobre o uso e ocupação do solo a
partir de imagens de alta definição geradas por satélite,
compiladas em programa de plataforma CAD e depois de aplicadas as visitas
e entrevistas in loco.
Praças, Largos,
Água e Vegetação urbana
No
Parque Linear da Prainha, caracterizado como um modelo de parque da cidade
(GOUVÊA, 2002: 104), sugere-se a utilização
de vegetação diversificada, intercalando volumes vegetais
de bosques densos e úmidos, campos de vegetação herbácea
e/ou ramagem, delineando-se áreas abertas, utilizando a vegetação
também como sinalização, restabelecendo preservando
a vegetação nativa sempre que observada a adequação
ao equilíbrio ecológico local. As árvores devem ter
copas robustas e densas, de folhagem perene, adequadas aos usos de acesso,
recreio, lazer, contemplação etc. (Ibid., 2002: 92)
Deve-se implantar um esquema
de caminhos que atendam ao máximo a topografia, a acessibilidade
e sinalização, utilizando-se de desníveis mais concentrados
apenas quando há necessidade de se instalar mobiliários ou
equipamentos como arquibancadas, arenas, play-grounds, campos de futebol,
pistas de esportes radicais, quadras de esportes, ou mesmo massas d’água,
estas que dependendo do vento predominante chegam a estender a umidade
relativa do ar em até 800 m de distância.
As
nascentes urbanas do córrego da Prainha devem ser preservadas e
rigorosamente protegidas, integrando-se também ao parque urbano
e suas praças. A recuperação de suas águas
se faz emergencial, para tanto, a rede de esgoto já existente na
região deve ser reestruturada e redimensionada para, de fato, funcionar
como tal. Os coletores troncos e secundários devem ser vedados de
qualquer conexão com os córregos, obras ilegais que foram
implementadas pela Prefeitura Municipal de Cuiabá (através
da Sanecap) a partir dos anos 1970. As ligações clandestinas
também devem ser combatidas pelo poder público, para tanto,
a aplicação de rigorosa fiscalização e aplicação
de multas por crimes ambientais deve ser um procedimento adotado.
Grandes largos e diques de contenção
da água devem ser planejados ao longo do traçado sinuoso
da Prainha, esta sobre um novo desenho, porém referenciado ao seu
corpo linear natural do passado, repleto de meandros e curvas. Esse procedimento
projetual além de possibilitar um controle da água da chuva,
também otimiza a utilização social desses espaços
e estabelece um microclima muito mais aprazível, tanto no que se
refere à melhora da umidade relativa do ar, quanto à configuração
de uma nova paisagem urbana de escala diferenciada entre o homem e as construções.
Nos
espaços destinados à área verde, devem ser plantadas
gramíneas arbustivas e principalmente arbóreas, de folhagem
oleosa e perene para auxiliar na retenção e filtragem de
partículas suspensas (poeira, gases, fuligens), dentro das mais
de 5 mil espécies existentes no cerrado (GOUVÊA,
2002: 105). As espécies nativas do cerrado cuiabano devem ser preferencialmente
escolhidas como forma de melhor adaptação às condicionantes
locais, porém alguns espécimes exóticos que bem se
adaptam ao clima local e fornecem sombreamento eficiente serão devidamente
aproveitados. As espécies nativas, além de protegerem áreas
onde a grama batatais ou a cuiabana não vinga, também possui
a função de economia de água (fato que as árvores
do cerrado, adequadas ao clima árido e de raízes profundas,
se adaptam melhor à região), bem como funciona como instrumento
de preservação do patrimônio ecológico do cerrado
mato-grossense.
Elegeu-se algumas espécies
para o plantio sistematizado, todas disponíveis no Horto Florestal
do Município:
-
· Gramíneas: grama
cuiabana, grama batatais;
-
· Arbustivas: Jazida,
Agriãozinho, Flor do Cerrado, Amarelão, Sempre-Viva, Besouro,
Cipreste, Jasmim-Manga, Caliandra, Canela-de-Ema;
-
· Arbóreas de
sombra: Oiti, Pateiro, Munguba, Chuva-de-Ouro, Jacarandá, a Flamboyant,
Ipês, Seringueira, Quaresmeira, Fícus Pertusa, Sucupira, Pau-Santo,
Pau-Terra, Embiruçu, Jatobá, Pau-rosa;
-
· Palmeiras: Buriti,
Imperial, Guariroba, Gabiroba, Guapuruvu, ;
-
· Arbóreas frutíferas:
Pitomba, Jabuticaba, Jaca, Goiaba, Limão, Laranja, Caju e Mangueira,
Pequi, Ingá, Amendoim-da-Mata, Araticum.
As
árvores frutíferas são elementos emblemáticos
ao paisagismo cuiabano, pois os quintais das casas coloniais eram repletos
de exemplares em seus pomares, como também no cultivo das hortas,
como forma de assegurar alimento às famílias cuiabanas nas
fases de penúrias e crises econômicas vividas nos séculos
XVIII, XIX e início de XX, face ao isolamento geográfico
da capital com outras regiões do país. Dessa forma, o Parque
Linear da Prainha deve reservar espaços concentrados ou dispersos
de árvores frutíferas – pomares urbanos, salvo os locais
de circulação de pedestres ou estacionamento de veículos.
Traçado e implantação
geral do Parque Linear da Prainha
O
projeto se delineia a partir da proposta de se configurar morfologias que
permitam a interação entre os espaços livres, equipamentos
e edifícios do Parque Linear, proporcionando acessos abrigados do
sol e chuva. A composição das vias de pedestre deve respeitar,
quando necessário, os calçadões de comércio
que permaneceram na proposta, como também se apropriar das áreas
sombreadas pelas edificações existentes e a permanecer, abusando
no uso de arborização e espelhos d’água.
O traçado orgânico
da vias e espaços livres é um desenho importante, pois se
adapta perfeitamente às condições topográficas
das curvas de nível, tendo em vista que as chuvas são concentradas
no verão de Cuiabá, de outubro a março; quanto menos
interferir nas condições naturais do terreno, melhor será
a adequação e estabilização do solo frente
às ações das intempéries (MASCARÓ,
2005b: 18). Além de facilitar a preservação da mata
nativa, a topografia quando considerada também auxilia na diminuição
da velocidade de água pluvial carreada. (GOUVÊA,
2002: 88)
Equipamentos
comunitários e algumas informações gerais do projeto
de intervenção
O
Parque Linear da Prainha apresenta no SETOR 1, 2 e 3, áreas respectivas
de 620.545,66 m², 176.285,69 m² e 353.290,73 m². Isso totaliza
um montante de 1.150.122,08 m² de área de intervenção
urbana total, desde as cabeceiras do córrego até as áreas
próximas do Parque de Exposições e antigo Mercado
Municipal (Museu do Peixe), estas últimas já nas proximidades
do rio Cuiabá. (Figura 1)
A
área linear do projeto urbano é de 2,77 km no SETOR 1; cerca
de 1,97 km no SETOR 2; e 1,38 Km no SETOR 3. Assim, temos um total de 6,12
km de área linear de intervenção. As altitudes também
são bastante variadas, desde 207 m na cabeceira do córrego
(Bairro Alvorada), passando pelo Centro Histórico entre 182 e 173
m e, por fim, a região do Porto Geral, com média de altitude
em torno de 146 m acima do nível do mar.
Figura
1 Projeto de intervenção urbana,
proposto em setores (1, 2 e 3). Fonte: SILVA, 2007:
247.
A proposta contempla a substituição
da função atual da Avenida Tenente Coronel Duarte como via
estrutural, conforme já citado anteriormente. Em contrapartida,
o fluxo grande de veículos advindo da Avenida Historiador Rubens
de Mendonça (chamada Avenida do CPA), passando pela Avenida da Prainha
até região do Porto (onde se conecta ao sistema viário
de Várzea Grande), deverá ser desviado e concentrado na Avenida
Miguel Sutil, à nordeste do Parque Linear, e à sudoeste (entre
o Porto e Terceiro), sobre a Avenida Beira Rio. Entretanto, essa alternativa
deve ser compreendida como uma sugestão viária, sendo que
para o re-planejamento do sistema deverão ser feitos estudos de
engenharia de trânsito e transporte, calcado no cálculo efetivo
e preciso da demanda e necessidade de deslocamento desses fluxos urbanos.
(Figuras 2 e 3)
Também é contemplada
pela proposta a implantação de uma linha de metrô para
a cidade, interligando os pontos extremos do projeto e em suas várias
estações de transbordo de pessoas. O metrô, já
é uma alternativa viável para Cuiabá; porém,
pouco discutida pelo Poder Público em virtude seu alto custo de
implantação e manutenção. Porém, será
uma alternativa eficaz se interligar o projeto do Parque Linear da Prainha
com toda a porção norte e nordeste da cidade, que são
os bairros mais populosos de Cuiabá (a exemplo do bairro CPA e Morada
da Serra, contemplam quase um terço da população total
da cidade). Face ao caos no transporte público cuiabano, falta de
qualidade e eficiência, calor excessivo dos veículos (pois
poucos são climatizados), além do impacto ambiental no centro
e região, essa alternativa de transporte é bastante plausível.
Para os milhões de passageiros anuais será um deslocamento
rápido, confortável e digno, já que sob o solo têm-se
a inércia térmica, que contribui para a minimização
de calor, além de estar comprovada a excelência ambiental
e funcional do metrô sobre o veículo motorizado coletivo.
Porém, o transporte coletivo motorizado será uma alternativa
de acesso para o Parque Linear, sendo a única modalidade de veículo
motorizado permitida circular pelo centro. (Figuras 4 e 5)
O caminhar a pé, corrida
e deslocamento de bicicletas serão atividades incentivadas pelo
projeto. Para tanto serão dimensionadas ciclovias extensas (e áreas
de bicicletário), juntamente com pistas de caminhada, corrida e
calçadões de acesso ao comércio, serviços e
equipamentos. Esse deslocamento pedestre deve ser acompanhado de intensa
arborização, água e áreas de sombreamento,
descanso ou lazer. O conforto estará garantido, pois terá
diversos postos de informação com bebedouros e sanitários
ao longo do trajeto e nas proximidades de cada ponto de ônibus ou
estação de metrô. Através da locação
de quadras poliesportivas, campos de futebol, quadras de areia, o esporte
terá garantido, definitivamente, seu lugar no centro da cidade,
como há muito é indicada a necessidade de sua presença
por meio dos inúmeros campos de futebol improvisados pela comunidade
local nos terrenos baldios.
Figura 2 À esquerda,
vista do Córrego da Prainha já canalizado e entorno na década
de 1970; ao fundo da mesma imagem está a Igreja Nossa Sª. do
Rosário e à esquerda a Igreja do Senhor dos Passos. À
direita, o mesmo enquadramento, porém em tempos atuais e com o Córrego
já coberto e transformado na Avenida Tem. Cel. Duarte. Fonte: SIQUEIRA,
2006: 38. /Org.: SILVA, Geovany J. A., 2007.
Figura 3 No mesmo enquadramento
da Figura 14, o croqui do Parque Linear da Prainha a partir da vista da
Igreja do Rosário (ao Centro) e Morro da Luz (à esquerda).
Fonte: SILVA, 2007: 230. /Org.: SILVA, Geovany J. A., 2008.
A
segurança pública é um ponto também marcante
na proposta. Haverá, ao longo do Parque, dez postos de policiamento
(oito no SETOR 1, e dois em cada SETOR, o 2 e o 3). Os policiais estarão
constantemente circulando pelo parque e, assim, os focos de violência
hoje existentes tanto no Bairro Araés e Centro como na região
do Porto, serão eliminados.
A
violência é um dos problemas decorrentes da segregação
e exclusão social. Tendo em vista a condição sócio-econômica
e educacional de uma boa parcela da população que mora ou
utilizará a região do Parque Linear, serão instalados
seis Centros Educacionais de qualificação profissional, pré-vestibulares
comunitários, alfabetização e inserção
social. Aliados a essa idéia de educação social e
ambiental, serão propostos quatro espaços para projetos de
extensão e pesquisa universitária direcionados para a questão
social, educacional e ambiental, em parceria com instituições
universitárias públicas e privadas da cidade e região.

Figura 4 À esquerda,
vista da Prainha ainda aberta na década de 1970, rotatória
do cruzamento com a Avenida Isaac Povoas; na porção superior
esquerda da mesma imagem está a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora
e ao fundo a torre da Igreja de São Gonçalo. À direita,
Vista atual da Prainha já canalizada, atual Avenida Tenente Coronel
Duarte. Fonte: SIQUEIRA, 2006: 39. /Org.: SILVA,
Geovany J. A., 2008.
Figura 5 No mesmo enquadramento
da Figura 16, o croqui do Parque Linear da Prainha a partir da vista sobre
o Largo do Mundéu e Chafariz (Praça Bispo Dom Aquino) e Igreja
Bom Despacho (à esquerda). Fonte: SILVA, 2007:
230. /Org.: SILVA, Geovany J. A., 2008.
Nos
bairros Centro Norte, Centro Sul e Dom Aquino, constata-se atualmente a
presença de setores terciários direcionados às atividades
que não funcionarão mais na região da Prainha, a exemplo:
lojas de equipamentos industriais, autopeças, garagens, estacionamentos.
A esses espaços serão destinados novos usos de comércio
voltados ao atendimento da população e implementação
de turismo cultural e ambiental. Nas garagens, estacionamentos e vazios
urbanos teremos a aquisição preferencial do Poder Público
municipal, destinando à esses espaços novos usos como áreas
de lazer, recreação, atividades sócio-culturais, museus,
oficinas, etc.
Os
quintais cuiabanos (tradicional tipologia desde o a cidade colonial do
séc. XVIII) e paisagismo das ruas serão incentivados por
meio de medidas compensatórias e atenuações fiscais
sobre os imóveis dos proprietários conscientes, o que minimiza
o processo de impermeabilização crescente que tem prejudicado
tanto o clima urbano da cidade nas últimas décadas. Os cidadãos
de baixa renda que não tiverem condições dignas de
moradia, principalmente os que habitam casarões centenários
da arquitetura colonial, serão relocados para habitações
de qualidade, construídas no mesmo Bairro, com a opção
de retornarem para suas antigas casas após a restauração
necessária, conforme o caso.
O patrimônio arquitetônico
será inserido completamente na rota turística, cultural,
religiosa e ambiental dos pedestres. Para tanto, todos os edifícios
históricos, principalmente os abandonados pelo poder local, serão
restaurados e determinados usos específicos que não agridam
suas instalações. O patrimônio ambiental e paisagístico
estará garantido, bem como a cultura cuiabana e as demais culturas
que têm migrado intensamente para a cidade e região nas últimas
décadas. O Parque Linear da Prainha é uma esperança
nova de cidade, uma alternativa utópica e transformadora do clima
urbano caótico, bem como dos usos e funções do centro
de Cuiabá a partir da reinvenção urbana do córrego
da Prainha, este que desde a década de 1970 tem sido esquecido,
marginalizado, poluído, escondido e ignorado, principalmente, pelo
Poder Público municipal.
Considerações
Finais
Intervir
nos centros urbanos pressupõe avaliar sua herança histórica
e patrimonial, seu caráter funcional e sua posição
relativa na estrutura urbana, mas, principalmente, precisar o porquê
de se fazer necessária a intervenção. Esta idéia
de intervenção sustenta-se na identificação
de um claro processo de deterioração que pode ser entendido
por analogia aos termos provenientes das ciências biológicas.
Intervenção e cirurgia são palavras sinônimas,
e o organismo submete-se a uma intervenção basicamente em
três situações: para a recuperação da
saúde ou manutenção da vida; para a reparação
de danos causados por acidentes e, mais recentemente, para atender às
exigências dos padrões estéticos.
Os conceitos de deterioração
e degradação urbana estão freqüentemente associados
à perda de sua função, ao dano ou à ruína
das estruturas físicas, ou ao rebaixamento do nível do valor
das transações econômicas de um determinado lugar.
Deteriorar é equivalente a estragar, piorar ou inferiorizar. Já
a palavra degradação significa aviltamento, rebaixamento
e desmoronamento. Degradar vem de gradus, “grau”, que compõe a palavra
degrau, na qual a preposição “de” refere-se a qualquer coisa
que se movimenta de cima para baixo (Castilho, 2004). Em geral, a referência
aos espaços degradados acontece quando, além das estruturas
físicas, verifica-se a reverberação da mesma situação
nos grupos sociais. Atribui-se a condição de empobrecimento
e de marginalização e destruição das bases
da solidariedade entre os indivíduos e o descrédito na noção
de bem comum (Gutierrez, 1989). (VARGAS & CASTILHO,
2006: 3-4)
A
compreensão da histórica ocupação urbana da
cidade de Cuiabá e suas diversas intervenções ao longo
dos séculos, na região do córrego da Prainha, é
um princípio para o entendimento das condicionantes urbanísticas
que permearão o Projeto. O Parque Linear da Prainha se constitui
de um projeto utópico devido ao seu ideário proposto e inimaginável
para a cidade atual, pois a área se encontra intensamente ocupada
e consolidada, ao passo que já não apresenta as mínimas
referências naturais do lugar. A implantação desse
projeto implicaria a remoção de algumas funções
estruturantes na Cuiabá contemporânea, pois a atual Avenida
Tenente Coronel Duarte representa uma artéria viária estrutural,
marco divisor entre a região Leste e Oeste, interligando a porção
Norte da cidade com a porção Sul e ao município de
Várzea Grande. Existe outra agravante para a implementação
de um projeto de cunho utópico: a visão imediatista das administrações
municipais não vislumbra uma cidade a longo prazo, pois seus projetos
de governo quase sempre tendem às obras eleitoreiras e de retorno
imediato à comunidade.
A proposta do Parque Linear
da Prainha se faz utópica, ao rejeitar todas as intervenções
equivocadas já realizadas na área, contrariando a imagem
da Prainha existente e que já se apresenta impregnada na opinião
pública dos usuários da área. A população
pede sua canalização porque o córrego da Prainha,
nas últimas décadas, é sinônimo de sujeira,
mau cheiro, poluição e de doenças transmitidas por
insetos e ratos. A retificação e posterior canalização
fechada do córrego; a implantação de uma via de trânsito
rápido cortando o Centro Histórico da cidade; a locação
de um sistema deficitário de coleta de esgoto e águas pluviais
e conseqüente lançamento para o córrego, fato que culmina
com a instalação de uma estação elevatória
à jusante da Prainha que desviaria a água para o tratamento
e despoluição (fato que não ocorre no contexto atual,
pois as águas poluídas são lançadas diretamente
no rio Cuiabá) são ações paliativas ao problema,
que não equacionam a situação crítica da região.
A ausência de verde, a verticalização do centro, a
impermeabilização do solo e o intenso tráfego de veículos
desqualificam a área para a ocupação humana, contrariando
o intenso comércio atuante na região.
O
projeto do Parque Linear da Prainha tem um caráter subjetivo e simbólico,
pois busca devolver a cidade de Cuiabá aos cuiabanos, reconsiderando
sua história negada pelo processo de modernização
e subjugação da cultura regional ao programa de desenvolvimento
de interesses nacionais e internacionais. A cidade não mais daria
as costas para seus rios e córregos; ao contrário, reconheceria
sua presença e se identificaria com suas potencialidades ambientais;
o grande parque da Prainha se constituiria o quintal das casas cuiabanas,
com seus pomares, suas árvores e muita água, em referência
à antiga casa colonial de ricas hortas e árvores frutíferas
para os períodos de estiagem e crises financeiras.
Um
futuro de cidade mais igualitária seria possível, com espaços
verdes de lazer e convívio, centros de educação e
qualificação profissional, água e arborização,
equipamentos urbanos, mobiliários de desenho qualitativo, policiamento
eficaz e com constante fluxo de pessoas e atividades culturais. Esta é
uma imagem possível para a região da Prainha. O potencial
ambiental e turístico da área deve ser visto como uma alternativa
sensível ao sistema viário presente.
O que atraí, no passado
e no futuro, é justamente o não estar “presente”. É
até mesmo possível reunir as duas categorias aparentemente
contraditórias em uma só e considerar tudo como utopia: entendida
não tanto como prefiguração de um tempo melhor, mas
como desgosto e impossibilidade de viver no atual. (ARGAN, 2001: 09)
O resgate do meio ambiente,
a recuperação dos recursos naturais e de suas matas de galeria,
a valorização do patrimônio histórico arquitetônico,
a construção de uma área de conexão entre o
passado e o futuro é a prefiguração de um presente
melhor de cidade, uma utopia que une definitivamente o homem à sua
cidade, ao seu lugar melhor. O Parque Linear da Prainha é uma intervenção
na vida urbana de Cuiabá para o século XXI, pois propõe
o caminhar, ao invés automóvel; o encontro das pessoas com
a função social de um espaço de lazer numa área
de preservação permanente ambiental e histórica. A
minimização do trânsito de veículos em detrimento
do caminhar do pedestre é uma opção saudável
para a vida urbana em todos os aspectos. A separação entre
o parque (feito para as pessoas) e as vias estruturais (feitas para os
veículos) é clara e eficaz na construção de
uma cidadania urbana da Cuiabá contemporânea, atingindo a
sustentabilidade temporal, social e ambiental.
Notas
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo - FAU-UnB.
Mestrado em Geografia - UFMT-MT. Graduação em Arquitetura
e Urbanismo - UFU-MG. Pesquisador do Grupo GEEPI-CNPq-UFMT. Docente do
curso de Arquitetura e Urbanismo da UNEMAT-MT.
Doutor em Engenharia de Produção - UFSC-SC. Mestre em Engenharia
Civil - UFSM-RS. Graduação em Geografia - UFSM-RS. Líder
do Grupo de Pesquisa GEEPI-CNPq-UFMT. Docente da Pós-Graduação
em Geografia da UFMT-MT.
Ilha de Calor é uma anomalia térmica que resulta
no aumento da temperatura do ar urbano em relação às
outras áreas vizinhas, configurando um bolsão térmico
na cidade. A substituição dos materiais naturais pelos espaços
edificados, circulação de veículos automotores e circulação
intensa provocam mudanças nas características da atmosfera
local. Por isso podemos observar o aumento de temperatura nos grandes centros,
fenômeno chamado de ilha de calor. Os efeitos da ilha de calor são
bons exemplos das modificações causadas pelo homem na atmosfera
urbana. Podemos observar que a ilha de calor costuma atingir maiores temperaturas
quando o céu está limpo e claro e o vento calmo. (CPTEC/INPE,
2007).
Atividades Terciárias são aquelas que incluem o comércio
e os serviços varejistas, incluindo serviços de educação,
de lazer, financeiros, de hospedagem etc. (VARGAS &
CASTILHO, 2005)
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