O de cima sobe e o debaixo desce na Cidade do Sol

Lisabete Coradini 
Antropóloga, Professora do PPGAS e PPGCS da UFRN

 
 
"A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o debaixo desce.
A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o debaixo desce".
(A Cidade - Chico Science & Nação Zumbi)

 
 
Embora exista uma bibliografia razoável sobre a história da cidade de Natal, ainda não foram aprofundados adequadamente os conhecimentos e os efeitos de seu processo de transformação urbana. Essas modificações espaciais acontecem de modo muito rápido, não dando chance aos próprios moradores de uma readaptação ao novo espaço, fazendo-se necessárias constantes atualizações na pesquisa, sem a qual tais modificações passariam despercebidas.
 
 

A Cidade de Natal possui 169,9 km² de extensão, cercados de água por quase todos os lados. Capital de um dos nove estados da região Nordeste do Brasil – o Rio Grande do Norte (RN) –, está situada na Microrregião Homogênea do Litoral de Natal e localiza-se na Mesorregião do Leste Potiguar. Limita-se, ao Norte, com o município de Extremoz; ao Oeste, com Macaíba e São Gonçalo do Amarante; ao Sul, com Parnamirim, e, ao Leste, com o Oceano Atlântico (IDEC, 1991). Possui 35 bairros distribuídos em quatro Regiões Administrativas – Norte, Oeste, Leste e Sul – e tem uma área urbana de 172 km2, equivalente a 0,32% da superfície estadual (IPLANAT, 1996). O relevo é caracterizado por dunas fixas e móveis de areia branca e por trechos de mata atlântica. Na sua grande maioria, os moradores acordam cedo: o sol aparece às cinco da manhã e às 18 horas já desaparece.

 
 

Com um crescimento populacional acentuado desde os anos 40, Natal chegou, em 1980, a concentrar uma população de 416.898 pessoas (IBGE, 1982), e, em 1996, alcançou a marca de 656.887 moradores. O crescimento populacional de Natal nos anos da década de 1980 ocorreu paralelamente ao crescimento econômico, destacando-se o desenvolvimento do turismo no estado do Rio Grande do Norte, baseado no binômio “sol e mar”


 
 

Morro do Careca em Ponta Negra, Natal, RN, Brasil - Fonte da Imagem: http://www.natal.rn.gov.br/fotos/
Morro do Careca em Ponta Negra, Natal, RN, Brasil 



 
 
 

 
De acordo com o censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no ano de 2005, sua população era de 778.040 habitantes. Conhecida como a “Cidade do Sol” e dotada de muitas belezas naturais, atrai por ano em torno de 2 milhões de turistas que procuram, por exemplo, o Carnatal, uma das maiores micaretas do Brasil.
 
 

A “Cidade do Sol” tem 8 km2 de praias de águas mornas o ano inteiro e pode-se fazer o famoso passeio de buggy nas dunas de Genipabu, no litoral Norte, a poucos quilômetros da cidade. Conta também com 300 dias de sol por ano, um clima tropical úmido e uma temperatura média de 26ºC, além da melhor qualidade do ar da América Latina, entre outras características. No entanto, se percorrermos suas ruas, a cidade irá nos mostrar o intenso tráfego e essa sensação de dinamismo se torna ainda mais forte. A imagem da cidade nos surpreende por seus contrastes. Tranqüila e pacata do início do século passado, ganha novos signos: a do futuro, a do crescimento acelerado, a do turismo. A homogeneidade e harmonia de seu perfil, desenhadas por outros, há tempos se romperam de maneira evidente, principalmente a partir do final dos anos de  1990, quando a cidade ganhou edifícios com diferentes alturas e estilos e novos lugares de sociabilidade e de lazer foram criados. Enfim, novas perspectivas se abrem para uma outra cidade. Que cidade é essa?

 
 
 
 
A chegada do turismo

 
Depois de Fortaleza e Salvador, Natal é a cidade brasileira que mais recebe estrangeiros. No Brasil, o turismo tornou-se uma atividade oficial a partir dos anos de 1960, com a criação da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur). No Nordeste, a partir de 1960, a atividade turística foi incrementada, principalmente por meio de incentivos fiscais da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Segundo Furtado(2005), nos anos de 1980 a 1990 a região Nordeste recebeu alguns projetos urbano-turísticos como Rota do Sol (RN), Cabo Branco (PB), Costa Dourada (AL/PE) e Linha Verde (BA/SE) e outros estão sendo implantados. O turismo passou, então, a se destacar como uma grande fonte de renda para a região Nordeste. No entanto, foi a partir dos anos de 1990 que foi inaugurada uma nova fase na valorização do turismo, tendo como base a política de mega-projetos turísticos. Dentro desse contexto, a cidade de Natal integrou-se a uma rede nacional e internacional e o turismo passou a ser incentivado por meio de pacotes promovidos por agências locais, nacionais e internacionais. O turismo internacional foi intensificado por conta dos vôos charter semanais para Portugal e Espanha e, também, pelos anúncios de compra e venda de imóveis feitos por construtoras estrangeiras fora do Brasil, principalmente em Madri.
 
 
 
Na mídia local começaram a surgir matérias sobre os grandes investimentos estrangeiros: campanhas contando com a presença de celebridades como, por exemplo, os futebolistas Pelé, Ronaldinho e Beckham que, junto com o ator Antonio Banderas, aterrissaram em solo potiguar no ano de 2007. No entanto, em Natal, observamos que está ocorrendo a ocupação desordenada e descaso com o meio ambiente nas áreas onde se desenvolve a atividade turística. A meu ver, é urgente uma discussão exaustiva sobre o patrimônio natural e o turismo nas cidades litorâneas no Nordeste do Brasil. Pouco se tem discutido, efetivamente, sobre a preservação do patrimônio natural, histórico e cultural da cidade de Natal .

 
 
Ao se expandir, a atividade turística em Natal promoveu a ampliação do setor de serviços, notadamente com o aumento do número de restaurantes, hotéis e pousadas. Por outro lado, outros aspectos vêm sendo motivos de preocupação por parte do poder público municipal e estadual, como é o caso da revitalização do Bairro da Ribeira, um dos mais antigos da cidade. Também com relação à área central houve investimento nas reformas do Teatro Alberto Maranhão, da Capitania das Artes e do Memorial Câmara Cascudo, entre outros.
 
 

Logo, a preservação do passado e sua relação com o futuro são temas atuais e instigantes. As cidades do Nordeste do Brasil, atualmente submetidas a um projeto de turismo moldado para o mercado, transformam experiências culturais em mercadorias. Tais políticas reinventam o espaço e, também, a história


 
 
Segundo Gomes e Silva (2001), o turismo obedece à lógica capitalista de reprodução e não podemos deixar de pensar na compatibilização entre o desenvolvimento da atividade turística e a fragilidade ambiental. A degradação ambiental já começa a ser percebida, principalmente em função do intenso processo de construção de empreendimentos e moradias nas áreas de praia sem um planejamento urbano sustentável.
 
 

Conforme Edna Furtado (2005), a diferença da cidade de Natal para outras cidades do litoral nordestino é, justamente, seu patrimônio natural. Cidades litorâneas do Nordeste, como Aracaju, João Pessoa e Fortaleza, são cidades que possuem extensas áreas planas imediatas à linha de praia, possibilitando seu crescimento. “Natal cresceu de costas para a sua linha de praia, separada geomorfologicamente por uma falésia, como a Avenida Getulio Vargas, e pela muralha natural que é o parque das dunas. No Centro é que estão localizados os bairros chiques, afastados da praia, sem que com isso ocorra uma periferização social da área central”. 


 
 
 
Enquanto o novo Plano Diretor da cidade não é aprovado pela Câmara Municipal, o mercado imobiliário não perde tempo e investe em lotes para construção de condomínios verticais em áreas adensáveis, sem controle de gabarito. O mais gritante é o que vem ocorrendo com a Vila de Ponta, área próxima ao Morro do Careca. O principal cartão-postal da cidade – o Morro do Careca – corre o risco de ficar escondido em meio a um paredão de edifícios.
 
 

O debate em voga atualmente em Natal é a discussão sobre o projeto-de-lei de revisão do Plano Diretor para a cidade. O Plano está provocando um debate intenso com a comunidade. Durante os primeiros meses de 2007 foram organizadas reuniões com vereadores, assembléias de bairros e manifestações artísticas e culturais com o objetivo de mobilizar e sensibilizar a população sobre a importância do Plano Diretor e, conseqüentemente, do destino da cidade. O Plano Diretor vigente é de 1994 e tinha como propósito garantir o crescimento harmônico da cidade. No entanto, provocou um distanciamento da realidade urbana da cidade, permitindo um crescimento desenfreado de bairros, a verticalização e uma série de problemas ambientais.

 
 

Atualmente o que se observa é quebra do gabarito estabelecido pelo Plano Diretor, permitindo a verticalização da cidade, principalmente nos bairros de Ponta Negra, Areia Preta, Capim Macio e, mais recentemente, no Centro da cidade. Essa situação demonstra o descaso com o meio ambiente e com o patrimônio histórico e cultural. As construções próximas ao Morro do Careca ilustram essa situação.

 
 

É interessante ressaltar que a denúncia de agressão ao visual paisagístico do Morro do Careca, que pode ser conferida no site S.O.S. Ponta Negra, foi feita pelo jornalista Yuno Silva, morador da Vila de Ponta Negra desde 1978. Segundo Silva:

 

 

apesar das placas, anúncios publicitários e outdoors, poucas pessoas na comunidade têm conhecimento sobre os empreendimentos verticais que estão em fase de construção na área e não fazem idéia de que quando estiverem concluídos formarão um paredão de edifícios que impedirá a visão de parte do Morro do Careca a partir da Avenida Engenheiro Roberto Freire e influenciará na temperatura das zonas vizinhas a esses empreendimentos, pois além da barreira natural dos ventos que é o morro, os prédios também ajudarão a bloquear as correntes de ar. 


 
 
Mobilizações como o Movimento SOS Ponta Negra e outras manifestações que foram organizadas, como panelaço, passeio ecológico, mostra de arte e poesias, assembléia de moradores e semana ecológica, entre outros eventos, contaram com a participação de moradores do bairro, de intelectuais, de professores universitários, da AMPA (Associação de Moradores do Conjunto Ponta Negra e Alagamar), da Associação dos Moradores da Vila de Ponta Negra, tendo como objetivo principal a proteção do patrimônio ambiental da cidade de Natal . Atualmente, uma série de instrumentos jurídicos está sendo discutida e também diferentes encontros são promovidos no bairro com um propósito comum: pensar o destino da cidade. Ou seja: um novo padrão de cidade, mais justa e democrática. 
 
 
 
 
Portal de Entrada em Ponta Negra, Natal, RN, Brasil - Fonte da Imagem: http://www.natal.rn.gov.br/fotos/
 

Portal de Entrada em Ponta Negra, Natal, RN, Brasil 



 
 
 

 
 
O Bairro de Ponta Negra

 
Na cidade do Natal, o bairro onde se pode ver claramente essas transformações é Ponta Negra. Esse bairro vem sofrendo as mudanças na paisagem urbana de forma mais intensa. A grande influência turística que o bairro vem recebendo nos últimos anos é a principal responsável por tais mudanças, segundo seus moradores mais antigos. 
 
 

O Bairro de Ponta Negra, situado na zona sul de Natal, é composto pelo Conjunto Ponta Negra, Conjunto Alagamar, a orla marítima e a Vila de Ponta Negra. O bairro se situa a 15 quilômetros do Centro de Natal, tendo como limites Capim Macio e Jiqui. Com uma população de 23.600 habitantes, o Bairro de Ponta Negra é um dos maiores da cidade.


 
 
A Vila de Ponta Negra, também chamada de Vila dos Pescadores, é parte e núcleo original do bairro. Segundo Câmara Cascudo (1984), a vila teve sua ocupação iniciada no período da chegada dos holandeses à costa norte-riograndense, no início do século XVII, desencadeando a aglomeração urbana. Ponta Negra também foi ponto estratégico para a defesa do território. O primeiro nome da localidade foi Cabo de São Roque, possivelmente pela fé no santo. Depois passou a se chamar Ponta Preta– graças à quantidade de pedras. Outros estudiosos afirmam que a vila surgiu concomitantemente ao desenvolvimento de Natal, em 1599. E alguns historiadores apontam para uma lacuna histórica. Sabe-se que em 1635 o processo de ocupação começou oficialmente. Vagarosamente, os habitantes começaram a chegar, pois até 1930 as construções só circundavam a igreja ou estavam na praia. 
 
 

Desde que se tem notícia, a população era constituída de pescadores que, inicialmente, construíram suas casas de palha de coqueiro à beira-mar, deslocando-se depois, para uma colina que originou o núcleo da vila. Durante muitos anos o povoado da vila sobreviveu tendo como principais atividades o roçado e a pesca. No entanto, foi a partir da Segunda Guerra Mundial que a vila rompeu seu isolamento. O desenvolvimento da vila, segundo seus moradores, teve início na metade dos anos 40, com a chegada da energia elétrica, do calçamento de ruas e outros equipamentos urbanos. A Segunda Guerra marcou significativamente o cotidiano de Natal e, também, de Ponta Negra. 


 
 

No final dos anos 50 a história da vila foi marcada pela luta jurídica e armada pela posse da terra. A briga era entre Fernando Pedrosa (corretor imobiliário, filho de família politicamente influente), que reivindicava a propriedade daquela área, e os moradores de Ponta Negra. O conflito foi resolvido com a doação de terras à Igreja e ao Ministério Público. Em 1957, Fernando Pedrosa doou uma parte da área da vila à arquidiocese de Natal. Em 1964, doou dois terços das terras de Ponta Negra à Aeronáutica para a construção da Barreira do Inferno (Garda,1983). 
 
 

Até os anos 70, Ponta Negra ainda era o espaço do pescador, do agricultor e da rendeira de bilro. Depois desse período a vila sofreu um processo de urbanização, tendo como base as casas de veraneio (Lopes Jr, 1997). A tranqüila e pacata vila tornou-se o lugar preferido da classe média-alta natalense, que passou a construir ali suas casas de veraneio. A vila passou a ser um lugar de veraneio e passeio (Machado, 1989). No entanto, a falta de uma legislação urbanística apropriada trouxe como conseqüência a ocupação irregular dos terrenos e construções sem planejamento. Para Lopes Jr. (1997: 28): “Houve uma apropriação singular que ele chamou de “urbanização turística”, que mescla o novo com o velho, constituindo a base econômica e cultural de um processo de pós-modernização tão selvagem quanto a modernização conservadora”. 
 
 
 

O espaço sofria seus primeiros sinais de transformação. Na orla, as casas de veraneio se contrapunham às casas dos antigos moradores. Na vila, a construção da Via Costeira e da Avenida Engenheiro Roberto Freire permitiram o acesso mais rápido e a aproximação com a cidade. Conseqüentemente, houve a valorização dos terrenos e a consolidação do pequeno comércio à beira-mar, com vendas de produtos como renda, pesca e artesanato.
 
 
No início dos anos de 1980 foram construídos os conjuntos residenciais Ponta Negra e Alagamar. A vila, em 1983, tinha 500 casas e 2 mil habitantes.

 

Nesse período surgiram novos moradores, de outros bairros ou do interior, que passaram a se dedicar às atividades turísticas. A vila recebeu muitos imigrantes no final dos anos de 1970 e início da década de 1980, sendo que um quarto da população local era constituída de moradores de outras localidades
 
 
 

É interessante citar que, nesse período, ocorreram duas manifestações populares contra os investimentos públicos e privados no bairro, como aponta Capodaglio (1989) em  sua pesquisa com os moradores: a luta contra os espigões (1985) e o Movimento SOS Ponta Negra (1987); ambos movimentos de organização popular.
 
 
Nos anos de 1990, a prefeitura resolveu remodelar a orla. Construiu um calçadão com quiosques e iluminação pública. As barracas foram removidas e deu-se início à reurbanização da orla de Ponta Negra. A partir desse período, todo o bairro sofreu modificações impulsionadas pela “turistificação”. Surgiram hotéis, pousadas, e restaurantes. E, também, a verticalização dos prédios, a especulação imobiliária, o turismo sexual, o tráfico de drogas e a prostituição.

 
 
Dona Maria, residente na Vila de Ponta Negra há muitos anos, rendeira, acompanhou todas essas mudanças. Ela conta que as mulheres residentes ali tinham como principal ocupação a produção de rendas.

 
 
 

Rendilheira (rendeira) fazendo renda de bilro - Fonte da Imagem: http://galeria.brfoto.com.br/data/1/bilro.jpg

Rendilheira (rendeira) fazendo renda de bilro 

 
 
 
"A renda tinha uma saída muito grande, íamos vender lá no porto de Natal, nos navios que ancoravam, devido à grande procura dos turistas que chegavam a Natal. Quem comprava eram aquelas senhoras chiques. Hoje, mesmo com muitos turistas aqui, não dá para viver da venda das rendas".
 
Segundo ela, a vida era de muita pobreza, mas ninguém passava fome. As coisas eram mais difíceis, mas nada faltava:

 
 
 
 
"Era pobre mas era bom, existiam as casas de farinha, os roçados, muitos peixes, até frutas, nos morros, nós conseguíamos. Os peixes davam mais na beira e os pescadores não precisavam entrar tanto. Dava peixe perto da praia. Hoje, os que vão correm perigo, têm que entrar muito para conseguir o peixe. Às vezes passam dois ou três dias na maré. De vez em quando morre um. Ficou muito perigoso. Até isso mudou..."

 
Pescadores de Ponta Negra, Natal, RN, Brasil - Fonte da Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Morro_do_Careca

Pescadores de Ponta Negra, Natal, RN, Brasil


 
Faz parte do discurso de todos os moradores essa dualidade. Ou seja: está em todas as vozes essas relação entre o passado (que era tranqüilo) e o presente, do turismo (violento). 

 
 
Assim esse novo cenário tem provocado mudanças significativas na forma de viver, trabalhar, na sociabilidade e no lazer dos moradores. Presenciamos um número expressivo de hotéis, pousadas, restaurantes, casas noturnas, albergue, locadoras de veículos, mercados. Um exemplo bastante visível dessas transformações socioespaciais é a verticalização do bairro, com a construção de grandes empreendimentos imobiliários, como, por exemplo, Corais do Atlântico, Sport Park, Corais de Ponta Negra (empreendimentos imobiliários destinados à moradia da classe média alta, com   20 a 30 andares, com salões de festas e mobiliados, com academia de ginástica equipada, área de lazer e duplex na cobertura). Também há um acelerado aumento de flats e condomínios fechados. Nota-se um forte investimento da construção civil na região, que traz como conseqüência a valorização de terrenos e das residências e a saída de antigas famílias moradoras da vila, que passam a vender seus terrenos e casas, em função da valorização imobiliária do mercado local. 
 
 
Atualmente o bairro vive outro ritmo, atraindo um expressivo número de novos moradores, muitos deles vindos de outras grandes cidades. Esse fluxo, que tem origem na evasão dos grandes centros urbanos, tem se intensificado no Brasil. É significativa quantidade de pessoas que buscam alternativas de vida mais tranqüilas em outras cidades e que não suportam mais viver nas metrópoles (em razão da violência, da insegurança, dos engarrafamentos do trânsito e da poluição, entre outros fatores). 

 
 
 
Esse fenômeno migratório é apontado com típico da classe média brasileira. Em Ponta Negra, a partir dos dados coletados em campo, identificamos um grupo composto por famílias, em sua maioria, de classe média (paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos), que têm negócios no local, e um grupo composto por artistas, intelectuais e professores universitários que foram morar na região nesses últimos 15 anos. Encontramos, mais recentemente, um outro grupo: turistas estrangeiros que acabam fixando residência e se tornando principais investidores .
 
 
 
Também foi possível identificar as famílias de moradores que continuam vivendo da pesca, da renda e do pequeno comércio, com barracas na orla da praia; famílias de moradores que modificaram sua situação social com o turismo - possuem pequenos negócios (supermercados, bares, casas para alugar, pousada) e um número significativo de indivíduos solteiros e outros de desocupados que são malvistos na vila porque estão vinculados ao tráfico de drogas. No entanto, o bairro de Ponta Negra continua atraindo e articulando vários desejos: viver com qualidade, de estar na cidade, de proximidade de escolas, universidades, supermercados e lazer. Opta-se pela proximidade com a natureza sem abrir mão do ambiente urbano. Entretanto, a chegada de novos habitantes tomou tal proporção que acabou por mudar a paisagem, alterando também os hábitos, os valores, enfim, a cultura. 

 
 
 
Apesar da violenta transformação socioespacial que atinge o bairro, percebe-se, por outro lado, um movimento de reconstrução ou invenção de identidades coletivas. Um movimento de defesa da autenticidade, que reforça os atributos identitários da comunidade local, presente nas diferentes manifestações culturais populares, como dança do coco, pastoril, bois de reis, os congos de calçola, bambelo, dança da peneira e a capoeira, que sempre fizeram parte da vida do povo da vila. As festas do padroeiro, festas de São João e as comemorações no final do ano, o Carnavila, o arraiá da Florestina. É interessante observar que essas atividades são realizadas pelos moradores mais antigos e contam com o apoio de seus filhos e netos. 
 
 
 
Assim, pode-se afirmar que existe um outro movimento. Um processo desencadeado pelos próprios  moradores de Ponta Negra de retorno a um passado mítico, ideal, Essa defesa do local pode ser pensada como uma das maneiras em que eles enfrentam os desafios que a globalização introduz nos contextos locais (Featherstone,1995, Appadurai, 1991). 

 
 
 
Observar todos os tipos de intervenções urbanísticas é entender como isso produz um simbolismo no espaço urbano onde os nexos entre o local e o global se configuram de modo mais rápido e intenso. Como se formam e que significados carregam essas mudanças socioespaciais e como isso provoca a criação de novas identidades (étnicas, sociais, históricas etc.) e sua estreita relação com a problemática do patrimônio é o que se pretende ainda investigar. Como sugere Magnani (2000): “é preciso observá-los no contexto em que são realizados, não há outra forma de avaliar se ainda é possível ver neles, apesar das profundas transformações por que vêm passando, uma genuína experiência urbana”.
 
 
 
Notas


Este trabalho é resultado de projeto de pesquisa intitulado “bairros na memória” desenvolvido no NAVIS (Núcleo de Antropologia Visual -UFRN) durante os anos de 2004 a 2006 e contou com a participação da bolsista de iniciação científica Eduarda Lima, a quem agradeço. O titulo “o de cima sobe e o de baixo desce” é uma homenagem ao músico Chico Science, que descreve a cidade como centro das ambições e das armações e, também, à cidade de Natal, que me escolheu e acolheu.
  Professora do PPGAS e PPGCS da UFRN. Doutora em Antropologia pelo IIA/ UNAM, México.
  Como se sabe, na atualidade o turismo é uma das atividades econômicas que mais crescem no mundo.
  Essas temáticas contemplam a intervenção dos múltiplos agentes que participam nesse campo, como o Estado, as instituições privadas, ONGs e outras associações civis e populações locais
  Quanto a essa questão ver Canclini (1997) e Jeudy (2005).
  Vale lembrar que o direito à paisagem está assegurado na Constituição Brasileira.
  Ver as descrições de Velho (1999) sobre Os mundos de Copacabana. Dentre os textos lidos sobre as mudanças urbanas em algumas cidades do Brasil onde o turismo se firmou profundamente, o texto de Gilberto Velho sobre Copacabana foi bastante ilustrativo para pensarmos que as transformações são estruturais, visto que ocorrem em todos os locais.
  Com relação ao turismo sexual em Natal veja-se o texto de Fernando Bessa Ribeiro e Octávio Sacramento (2006) que questionam sobre quem explora quem na relação turista-garota de programa. Os autores encaram com sérias reservas os discursos mais comuns que tendem a apresentar as trabalhadoras sexuais como a parte exclusiva e sistematicamente explorada. 
 
 

Webgrafia

S.O.S. Ponta Negra

Prefeitura Municipal de Natal

Wikipédia
 
 

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