Cidade e hospitalidade: o Bairro de Santa Ifigênia em São Paulo

Sênia Bastos
Universidade Anhembi Morumbi

Maria do Rosário Rolfsen Salles
Universidade Anhembi Morumbi

 
A história de uma cidade não é somente uma contribuição ao conhecimento do passado, que vai aumentar o patrimônio das lembranças históricas, mas permite também considerar o presente numa perspectiva correta, e ajuda a projetar melhor – com maior consciência e responsabilidade – o futuro do ambiente urbano.As cidades brasileiras crescem muito rapidamente e, entre elas, São Paulo mais do que qualquer outra. A velocidade é tão grande a ponto de apagar, no espaço de uma vida humana, o ambiente de uma geração anterior: os jovens não conhecem a cidade onde jovens como eles viveram os adultos...... Os estudos históricos tornam-se, então, duplamente necessários, para que não se deixe cair no esquecimento os cenários da vida passada e para restituir profundidade à experiência do ambiente urbano (BENÉVOLO, 1983, p.7).

 
 

Igreja de Santa Ifigênia - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Igreja_Santa_Ifigenia_01.jpg

Igreja de Santa Ifigênia

 
 

É bastante difundida a imagem sobre a cidade de São Paulo, de que “São Paulo não pode parar”. Essa imagem, entretanto, construída ao longo do tempo, alia-se à imagem do progresso ou da locomotiva que conduz o restante do país, construída ao longo do processo cujas origens remontam ao desenvolvimento da economia cafeeira e à industrialização. Essa imagem não corresponde à realidade do crescimento urbano, se pensarmos na redução do ritmo de crescimento nas últimas décadas e mesmo na diminuição dos fluxos migratórios em direção a São Paulo e nas transformações estruturais nas funções industriais que a cidade desempenhava.


 
 
Posteriormente, consolidou-se a imagem de São Paulo como uma “selva de pedra”, cidade preferencialmente voltada aos serviços, aos negócios, aos investimentos financeiros, num processo de des-industrialização, ainda que assumindo a liderança de uma série de atividades fundamentais ao país, no setor financeiro, no aspecto cultural etc., mas passando, visivelmente, por uma desaceleração de seu ritmo de crescimento. Esse “movimento” tem conseqüências diretas sobre as diferentes formas de hospitalidade que a cidade vem adquirindo através dos tempos. Estereótipos se criaram em função dessa imagem de “selva de pedra” e, portanto, de inospitalidade, ao lado de outras que se constituíram no processo de acolhimento aos imigrantes estrangeiros e aos migrantes internos, de uma cidade que oferece oportunidades, que acolhe sem discriminação.

 
 
De fato, a proposta de centrar a análise dessas transformações na história de um Bairro central da cidade, decorre da idéia de que o Bairro pode encerrar as diferentes fases do desenvolvimento urbano.
 
 

As transformações estruturais que se impõem com a expansão da economia cafeeira para as regiões oeste do estado, têm reflexos na  urbanização da cidade e também sobre a sua industrialização. Considere-se, além disso, os efeitos da imigração estrangeira sobre o crescimento da urbe a partir das décadas finais do século XIX, com a constituição do mercado de mão-de-obra livre imigrante em substituição à mão-de-obra escrava e os fluxos em direção à cidade e às atividades urbanas.

 
 

Um dos elementos definitivos na consolidação da economia cafeeira de reflexo imediato na urbanização paulista, foi a implantação da rede ferroviária que se inicia com a construção, entre 1860 e 1868, da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí (São Paulo Railway). A partir de 1868 passa a funcionar a ligação ferroviária entre São Paulo e Santos, formando-se um complexo econômico entre as duas cidades, deixando de lado a histórica dependência do Rio de Janeiro para o escoamento da produção cafeeira. Assim, “verifica-se [...] que o desenvolvimento da cafeicultura paulista só começa a afetar a capital da Província a partir do momento em que aquela se localiza, em sua maior parte, em zonas direta e exclusivamente tributárias do sistema São Paulo-Santos” (SINGER, 1977, p. 29). Além disso, em 1872 inaugura-se a Estrada de Ferro São Paulo-Rio que em Cachoeira Paulista entronca-se com a Central do Brasil (antiga D. Pedro II) e a Cia. Paulista de Estradas de Ferro, partindo de Jundiaí, alcança Campinas e demais cidades da linha. A Sorocabana, a Ituana, a Mogiana, etc., conectam a cidade de São Paulo com as principais regiões cafeeiras do estado. As conseqüências sobre a cidade de São Paulo, segundo Singer (1977), fazem-se sentir de maneira indireta, permitindo o desenvolvimento das condições para o surto industrial da cidade, sobretudo a partir dos últimos anos do século XIX, e, de maneira direta, pelo enorme crescimento da população, pelo processo de urbanização que se intensifica, pela transformação da cidade em claro entreposto comercial, função que já exercia, mesmo antes do apogeu cafeeiro, no ciclo do açúcar. Acelera-se o crescimento da população, aumenta o número de viajantes e comerciantes, a cidade se torna “a cidade dos fazendeiros”, segundo Lemos (2002), que se tornam presença obrigatória na cidade para os negócios do café, sua comercialização e intermediações bancárias e financeiras.
 
 
 

 
 
Plataforma da estação Júlio Prestes - Foto de ShoZu : http://www.flickr.com/photos/massao/320818291/

Plataforma da estação Júlio Prestes

 
 

Desenvolvem-se assim, meios de hospedagem mais sofisticados, estabelecimentos de restauração, comércio etc. e a ferrovia representa a abertura de canais de comunicação que possibilitam não apenas o desenvolvimento daquelas funções econômicas, mas de diversos tipos de serviços ligados à hospitalidade: pousos, hospedagens, serviços de alimentação que, segundo Bruno (1991), representam uma evolução das hospedarias para pequenos hotéis, que só puderam conhecer essa evolução por causa dos trens e do crescimento do número de viajantes. 

 
 

A presença imigrante nesse processo é notória. “Apesar da multiplicidade de atividades, tendo em vista a falta de especialização que caracteriza a atividade comercial no período, bilhares, botequins, cocheiras, confeitarias, hotéis, hospedarias, lojas de roupas e de jóias, livrarias e teatros são identificados nas listas de pagamentos de impostos, com proprietários nitidamente de origem européia atraídos pelas possibilidades oferecidas pelas ocupações urbanas, incrementadas com a economia cafeeira” (BASTOS, 2003, p.75). A verdadeira “explosão demográfica” da cidade, segundo Bonduki (1982, p. 83), ocorreria a partir da imigração subsidiada, em 1886, quando a população passa a crescer a um índice anual de 10% até 1890, e a um índice de 12,5% entre 1890 e 1900, evidenciando um impacto maior da imigração na  cidade do que no estado de São Paulo (SILVA, 1978 apud BONDUKI, 1982, p. 84).


 

Assim, alguns bairros centrais são mais marcados do que outros, pela presença imigrante, como é o caso do Bairro de Santa Ifigênia. As nacionalidades predominantes seriam os portugueses, italianos e espanhóis, mas São Paulo recebe desde finais do século, etnias provenientes de diferentes partes da Europa do Norte, Central e do Leste, além dos japoneses (a partir de 1908), judeus e sírio-libaneses e, mais recentemente, coreanos, bolivianos e toda uma gama de latino-americanos além de migrantes nacionais a partir da década de 20 do século XX.
 
 
 

Todo esse processo é reflexo da concentração industrial em São Paulo, estado e, sobretudo, cidade. São Paulo supera o Rio de Janeiro na atividade industrial entre 1920 e 1938. Além disso, as dificuldades advindas da crise de 1929 e da Primeira Guerra Mundial no que se refere às importações de produtos industrializados, forçaram o desenvolvimento de um mercado interno para produção e consumo de produtos industriais, sob a liderança da indústria paulista. A diversificação da indústria paulista concentra a indústria brasileira em São Paulo (décadas de 1960, 1970 e 1980) e as conseqüências se fazem sentir sobre a cidade Dessa forma, as transformações serão evidentes na história dos bairros centrais e, particularmente, no Bairro de Santa Ifigênia, que hoje representa, segundo Hepner e Meyer (2006), um dos exemplos mais contundentes da deterioração urbana que caracterizou a história dos bairros centrais da cidade.
 
 
 
 
 
Rua Santa Ifigênia, São Paulo - Foto de Alex Gunter - http://www.gunterbrazil.com

Rua Santa Ifigênia, São Paulo


 
O Bairro de Santa Ifigênia – origens e evolução urbana
 

A origem do Bairro de Santa Ifigênia remonta à criação da Freguesia em 1809, ligada à Paróquia de Santa Ifigênia. Dotado de localização privilegiada, na medida em que se encontra na bifurcação dos antigos caminhos coloniais para Pinheiros e Luz e apontava para a Cidade Nova, iniciava-se na Rua Sete de Abril, rodeada de chácaras, das quais a mais conhecida era a Chácara do Arouche entre os arrabaldes da Luz e Sé. 


 
 

Santa Ifigênia localiza-se na Subprefeitura da Sé, Distrito da República e conta com uma população de 47.458 pessoas numa área correspondente a  2,3 Km². Trata-se de uma população bastante heterogênea, na medida em que o Bairro abrigou desde ex-escravos e imigrantes até estratos mais elitizados da população paulistana. A função residencial foi sendo sobreposta pelos usos comerciais e de prestação de serviços, sendo que entre os anos 1934 e 1954 a população residente se manteve relativamente estável, apresentando, contudo, uma queda significativa (de 43.623 pessoas em 1934 para 39.367) em 1954. Esta oscilação talvez se deva à diminuição dos fluxos imigratórios para São Paulo a partir do final dos anos 1920 e década de 1930, com o início da migração interna que no início se fixa em outros bairros centrais. Kara José (2007) destaca que a redução populacional decorre, ainda,  do abandono da área central em virtude do deslocamento das elites econômicas em direção aos bairros de Campos Elíseos, Vila Buarque, Santa Cecília e Jardim Paulista. 
Atualmente sua composição populacional é bastante heterogênea, caracterizada por uma população flutuante nos inúmeros hotéis e cortiços existentes, conservando parte da população negra remanescente dos períodos anteriores e abrigando imigrantes angolanos, nigerianos, latino americanos etc. e migrantes internos, principalmente nordestinos. 
 
 
 

O comércio de eletroeletrônicos, informática e música instalado na região na década de 1970 nas edificações históricas, caracterizadas, sobretudo, pelo ecletismo, confere ao bairro intensa vitalidade durante o dia, com certa vitalidade da atividade hoteleira. Infere-se a existência de um roteiro de compras composto pelas ruas 25 de Março e Santa Ifigênia, que tem no viaduto seu ponto de ligação privilegiado. Evidente mudança de cenário marca a região à noite, sobretudo pela presença de bares e restaurantes de várias categorias ao lado da forte e conhecida presença da prostituição em ruas “históricas” como a Aurora,  a dos Andradas, dos Timbiras, avenida Duque de Caxias etc
 
 
 

Não muito distante da movimentada Rua Santa Ifigênia, a deterioração urbana tem na Cracolândia o ápice de sua representação, cujo perímetro, compreendido pelas avenidas Duque de Caxias, Rio Branco, Ipiranga, Mauá e General Couto de Magalhães, vem sendo alvo de agressivo programa de revitalização. O apelido Cracolândia passou a ser atribuído à região nos anos de 1990, em virtude da presença de usuários e traficantes de crack. A região encerra diversas edificações de interesse histórico-arquitetônico inscritas nos processos de tombamento no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo - CONDEPHAAT e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP. Parte da região da Cracolândia encontra-se inserida no Projeto Nova Luz, que abrange as seguintes intervenções da Prefeitura no bairro de Santa Ifigênia: Perímetro de Incentivo Fiscal (desconto de IPTU e INSS para edifícios e estabelecimentos presentes nas avenidas Rio Branco, Duque de Caxias, Mauá, Cásper Líbero, Alfredo Issa e Ipiranga) e Perímetro de Utilidade Pública (demolição de edificações nas ruas Mauá, dos Andradas, dos Timbiras, parte da Praça Alfredo Issa e Avenida Cásper Líbero, cuja área compreende 105 mil metros quadrados e cerca de 750 imóveis). Estima-se que com a demolição de edificações (já em curso) atrairá novas empresas para a renovada região como resultado desses programas, tendo, já, como resultados a renovação da Pinacoteca do Estado (1988)  o restauro e mudança de uso das antigas Estação da Luz (que passou a abrigar o concorrido Museu da Língua Portuguesa,  em 2006), Estação Júlio Prestes (sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo desde 1990), prédio da Sorocabana (foi inaugurado em 2002 como Memorial da Liberdade e renomeado, em 2008, para Memorial da Resistência) e do antigo hotel do Largo General Osório (atual sede do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim). 

 
 
 
Santa Ifigênia: histórias do bairro
 


O nome do Bairro, Santa Ifigênia, remonta ao início do século XIX com a criação da Freguesia (1809) ligada à Paróquia de Santa Ifigênia, numa região que comportava uma bifurcação para os Caminhos de Pinheiros e Luz e abrigava as chácaras do Bom Retiro, do Carvalho, do Campo Redondo, do Manfred Meyer, do Miguel Carlos e do Brigadeiro Tobias, entre as quais a do Arouche se destaca.

 
 

Monumento ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel - Fonte da imagem: http://www.monumentos.art.br/monumento/duque_de_caxias

Monumento ao Duque de Caxias, de Victor Brecheret, na Praça Princesa Isabel 




A Rua Santa Ifigênia, aberta em 1810 pelo Marechal Arouche de Toledo Rendon até a Rua Elesbão (atual rua Aurora), concentrava a população mais abastada. A Rua dos Bambus (atual Avenida Rio Branco) era ocupada por estudantes, o que explica a existência de muitas “repúblicas” de estudantes onde moraram conhecidas personalidades que passaram pela Faculdade de Direito, como Afonso Arinos, Afrânio Melo Franco, Melo Pimentel e Francisco de Andrade (SCHVARZMAN, 1986).
 
 
 

Em razão do desenvolvimento da economia cafeeira e a implantação do sistema de transporte ferroviário, resumidamente apresentado acima, as transformações passam a ser sentidas pela cidade a partir de 1872, quando se assiste ao fim das antigas chácaras, ao arruamento das ruas Alegre e General Osório, à implantação de residências de fazendeiros de café, de fábricas, alfaiatarias, lojas de comércio de roupas e de artigos para formaturas. As indústriaspresentes na região eram as fiações de algodão, tecelagens, de livros em branco, de licores, de vinagre, de água gasosa, de pianos, a Tipografia de Seckler, a fábrica de carros do sr. Mesemberger e fundições. (SCHVARZMAN, 1986) Como mencionado anteriormente, hotéis e pensões eram atraídos para a região em virtude da existência das estações ferroviárias da São Paulo Railway (1867)  e Sorocabana (1875)

 

De fato, havia nítida divisão do espaço entre as classes mais abastadas e as pobres, com a elite ocupando o chamado Campo Redondo (atual Campos Elíseos) e a Rua Florêncio de Abreu. Nos terrenos alagadiços do local - de baixo custo -, reuniam-se habitações precárias, casas de cômodos para aluguel e moradias simples. Nesta região , nos primeiros anos da República, foram identificados 65 cortiços com cerca de 1.320 moradores de “todas as nacionalidades e condições”, que deveriam ser somados às 46 casinhas, 47 hotéis-cortiço, 48 sobrados-cortiço e 49 cômodos nos fundos das vendas usados como aposentos de aluguel. Localizavam-se nas ruas General Osório (11), Gusmões (15), Duque de Caxias (2), Vitória (4), Aurora (1), Timbiras (3), Santa Ifigênia (16), Andradas (2), Triunfo (2), Protestantes (1), Guaianases (2), Conselheiro Nébias (1), Bom Retiro (4), Largo dos Protestantes (1) (SCHVARZMAN, 1986).
 
 

O Centro constituiu objeto de replanejamento urbanístico, com intervenções claras no sentido de embelezar e descongestionar as vias públicas (tanto no que se refere aos pedestres, quanto no que se refere aos veículos) nas duas primeiras décadas do século XX, conferindo-lhes um padrão europeu. Segundo Reis (2004, p. 180), “a diretriz mais largamente aplicada foi o alargamento e retificação das ruas pela demolição de um dos lados”. Tais obras resultaram na eliminação de casas de pessoas de baixa renda, cortiços e prostíbulos do Centro, deslocando também as prostitutas, antes reunidas na Rua Líbero Badaró, para as ruas Timbiras, Ipiranga e Amador Bueno. Em 1930 as prostitutas foram transferidas para as ruas Vitória, Guaianases, General Osório e Gusmões, passando a residir nos hotéis e casas de cômodos próximos às estações ferroviárias. Sua presença incrementou a abertura de bares, hotéis e casas de cômodos, restaurantes e salões de beleza. Com o fim do confinamento do meretrício a “Boca do Lixo” passou a concentrar maior degradação e pobreza da prostituição.
 
 
 

Visando valorizar a ligação da Rua Quinze de Novembro com a Rua São Bento e  eliminar o ponto de concentração de negros, palco de “procissões, congadas, batuques, sambas, moçambiques e caiapós” (FRÚGOLI, 2000, p. 52), foi criada a Praça Antonio Prado (1904-5). Nesse sentido, a demolição da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo ganhou prioridade, tendo uma nova sede edificada no Largo do Paissandu, “que estava sendo reurbanizado na época e ficava em um ponto afastado do Centro” (REIS, 2004, p. 180). Soma-se a arborização das ruas, com espécies européias (plátano), a reforma, ajardinamento e criação de praças, das quais se destacam a arborização e ajardinamento do Parque da Luz (1898), criação do Largo dos Guaianazes (atual Praça Princesa Izabel, em 1902/4) e da Praça da República (1902-1904), o alargamento e reforma da Praça da Sé (implicou na demolição da igreja, ampliação do largo e construção de uma catedral), os projetos paisagísticos  do Parque Anhangabaú, criação da Praça do Patriarca e do Parque Dom Pedro (realizados durante o período 1911 a 1917). Esse plano demonstra que os governos municipal e estadual “criaram desde logo determinados pólos de interesse na cidade, com a construção de conjuntos urbanísticos e paisagísticos, cenários e espaços simbólicos das novas formas de poder (REIS, 2004, p. 177).

 
 
A municipalidade adotou nesses espaços um estrito controle disciplinar para as novas construções: “de início predominava o padrão europeu, que tendia a estabelecer um gabarito uniforme para os edifícios, com altura homogênea. Aos poucos essa tendência foi sendo rompida com estruturas de concreto com maior altura, como a dos Edifícios Martinelli, no início da Avenida São João, e Sampaio Moreira, na Rua Líbero Badaró” (REIS, 2004, p. 186). 

 

Para facilitar a ligação entre os bairros, edificou-se o Viaduto Santa Ifigênia (possibilitando a ligação do Largo São Bento com o Largo Santa Ifigênia em 1913), bem como o Viaduto Boa Vista (1912), de forma a ligar diretamente a Praça da Sé ao Pátio do Colégio. O Viaduto Santa Ifigênia foi projetado pelo Escritório Micheli e Chiappori, tem 225 metros de extensão e apóia-se em três arcos, com estrutura de ferro fundido produzida na Bélgica. Inaugurado em 1913 pelo prefeito Raymundo Duprat, foi recuperado pela EMURB em 1978 e, atualmente, destina-se apenas ao trânsito de pedestres.
 
 
 

No que se refere ao bairro de Santa Ifigênia, esse projeto de melhoramentos resultou, ainda, na edificação da Igreja de Santa Ifigênia, no alargamento das ruas São João (transformada em avenida em 1913), Vitória, Conceição (atual Cásper Líbero) e Estação (atual Rua Mauá). Infere-se que a transferência da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos tenha resultado em uma nova territorialização dos negros, cujas atividades ainda se mantêm na região, reforçadas pela disposição da homenagem à Mãe Preta, localizada em suas proximidades, no largo do Paissandu. O escultor Júlio Guerra foi o vitorioso do concurso público para a construção do Monumento à Mãe Preta, inaugurado em 1953. O Largo transformou-se em local privilegiado das comemorações relacionadas ao Movimento Negro, bem como de manifestações artísticas e religiosas ao redor da estátua, sendo comum a presença de velas e oferendas com flores, bebidas, comidas e pedidos em pedacinhos de papel. 
 


Monumento em homenagem à Mãe Preta. Foto: Art Explorer In: http://bp1.blogger.com

Monumento em homenagem à Mãe "Preta", de Júlio Guerra





Com relação à Igreja de Santa Ifigênia (1912), edificada em estilo gótico e romano, outra referência negra se destaca, visto que tem como santa padroeira uma “princesa de Noba” (Etiópia), popularmente incorporada como a protetora contra os incêndios e padroeira dos movimentos de moradia. 
 
 
 

A ferrovia atraiu ainda a instalação de escritórios filiais das companhias distribuidoras de filmes cinematográficos estrangeiros (além da presença de garagens e comércio de carros novos e usados), dada a facilidade de sua importação e remessa , nas ruas Duque de Caxias (Grande Empresa Cinematográfica, J. R. Staff, de 1915; Importadora Francisco Matarazzo e Cia, de1923), Andradas (Agência Central Cinematográfica Pathé-Ziegletz e Castello, de  1915), Aurora (Empresa Pellicules D’Luxo da América do Sul, de 1917), Santa Ifigênia (Agência Central Cinematográfica; Universal Films, de 1921) e Brigadeiro Tobias (Empresa Cinematográfica Penfilde – escritório e depósito), bem como pequenas produtoras, lojas de equipamentos, oficinas de manutenção e reparo (na Rua do Triunfo). Resiste na região a Polifilmes (Rua do Triunfo, 75),  que desde 1953 permanece por lá.
 
 

Escolas, residências chiques ao lado de cortiços, lojas de luxo e de comércio miúdo,  salas de cinema (Brasil, de1915, na rua Santa Ifigênia, Olido, de 1953, na Rua São João) e de teatro (Rio Branco, na rua General Osório) conferiram um caráter de transição ao bairro até os anos de 1930. O luxuoso Cine Olido funciona juntamente com a sede da Secretaria Municipal da Cultura e faz parte do projeto de revitalização do Centro. Primeira sala de cinema a funcionar dentro de uma galeria comercial, uma reforma, nos anos 1980, subdividiu sua sala de 800 poltronas em três menores, hoje denominadas:  Sala Olido,  Cine Olido e Sala Paissandu.
O Instituto Dona Ana Rosa (1874), destinado à formação profissional de meninos, localizava-se na antiga chácara do Senador Queiroz, nas proximidades da Rua Alegre (atual Rua Brigadeiro Tobias). No Largo Santa Ifigênia havia o Colégio Moretzon (1878) e na Rua Duque de Caxias, a Escola Teuto-Brasileira, dirigida pelo Prof. F. Boeschenstein.

 
 

Resulta da transferência da elite paulistana para os bairros de Higienópolis e Paulista o reaproveitamento máximo das casas, cujos terrenos são subdivididos, acarretando o crescimento do número de habitações coletivas de baixo custo.


 
A aparência dos bairros populares era bem mais simples. Na maior parte dos casos não havia calçamento e os serviços urbanos eram fornecidos com menor eficiência do que do outro lado da cidade [...] os loteamentos eram muito mais precários, quase todos irregulares, descumprindo as normas fixadas pela Câmara. Não havia praças e as ruas tinham larguras inferiores ao padrão aceitável (REIS, 2004, p. 186
 
 

Nova reconfiguração viária seria implementada na área central na década de 1940, refletindo-se no bairro de Santa Ifigênia mediante o prolongamento e alargamento das avenidas Ipiranga, Duque de Caxias e Cásper Libero. Tais medidas resultavam da efetivação do Plano de Avenidas, que compreendia “uma proposta global que abrangia sistema viário, circulação e transportes, além de diretrizes de embelezamento e arruamento, zoneamento, expansão urbana e legislação tributária” (FRÚGOLI, 2000, p. 53).


 
 

O setor de hospitalidade

 

O setor de hospitalidade é o destaque central do bairro, por concentrar as estações ferroviárias e rodoviárias que atraíram para a região hotéis, restaurantes e diversas modalidades de lazer. A música underground constitui uma referência contemporânea da região, encontrando-se, ainda, diversos bares e clubes, bem como a presença de comércio especializado como se verá a seguir.
 

 
 
 
Ponto Chic - Fonte da imagem: http://www.pontochic.com.br
 

Ponto Chic

 
 
 
O Bar Brahma (na Avenida São João), fundado em 1948 pelo alemão Henrique Hillebrecht, ficou conhecido como reduto de intelectuais, políticos e músicos nos anos 1950 e 60. Embora tenha fechado as portas por cerca de duas décadas, reabriu em 2001, contemplando inúmeras atividades culturais, além do tradicional chope. O PontoChic (no Largo do Paissandu), inaugurado em 1922, é famoso por ter inventado o sanduíche "Bauru" (pão francês com queijo, rosbife e tomate) e por reunir personalidades do mundo artístico, da política e dos esportes. O Bar Léo (na Rua Aurora)  foi inaugurado em 1940 e constitui um ponto de referência na região de Santa Ifigênia, famoso pela comida saborosa e por servir o “melhor chope da cidade”. Nas proximidades, o bar com música nordestina e forró, na Rua Vitória, é freqüentado atualmente por migrantes: “há ali um ambiente de convívio verdadeiro, que transforma a espelunca em palácio, casa familiar, aldeia (OLIEVENSTEIN, 1993, p. 23).” Na Sala Real (Rua Epitácio Pessoa), nas proximidades da “boca do lixo”, o som underground constitui “ponto de encontro do público e de personalidades de cena hip hop paulistana, principalmente do que se convencionou chamar de ‘nova escola’ (MACEDO, 2007, p. 203).”  Exibe um palco iluminado com luzes vermelhas onde uma banda, composta por baixo, guitarra, bateria e um DJ, anima a noite: “as pessoas se inscrevem para subir ao palco e criar um rap de improviso com uma base rítmica criada pelo DJ e a banda [...] A grande diversão é ver a performance dos freestyles (MACEDO, 2007, p. 204)”. Os participantes são jovens (16 a 30 anos) e realizam “festas” nas esquinas lindeiras à Sala, nas proximidades  dos botecos. A versatilidade de atividades pode ser complementada pela presença do Clube Danger (Rua Epitácio Pessoa), para freqüentadores homossexuais. Acrescenta-se o Green Express (Avenida Rio Branco) tradicional salão de samba-rock, dança característica de negros paulistas. No fundo do salão funciona a Tony Hits Discos, loja especializada em discos de vinil, ponto de encontro de músicos e DJs. As referências musicais também podem ser observadas no Clube do Samba-Rock (na Avenida Ipiranga), cuja tradição paulista, o samba-rock difundido nos anos 1960, mistura o  suingue de ritmos brasileiros como o samba, com a energia do rock e da soul music, tendo nos bailes de samba-rock (surgidos nos anos de 1970) sua expressão popular; ou no Tirana (na Avenida São João), clube underground com lounge, bar e pista, reduto de jovens alternativos e "irados", onde os gays são bem-vindos.
 
 
 
 
Bar Brahma - Fonte da Imagem: http://www.barbrahmasp.com

Bar Brahma


 
 
A Galeria do Rock ou Shopping Center Grandes Galerias, entre a Rua 24 de Maio e a Avenida São João, projetada pelo arquiteto Alfredo Mathias (1963), chama a atenção pelo seu formato ondulado. Abriga 450 lojas, das quais 200 são voltadas ao público que gosta de rock, como estúdios de tatuagem e piercing e lojas dedicadas à cultura de rua (Hip Hop). Outra referência musical importante é a esquina das avenidas Ipiranga e São João, imortalizadas pelas letras das músicas de Caetano Veloso (Sampa) e de Paulo Vanzolini (Ronda). Sobre a Avenida São João, Vanzolini assim descreveu o seu insight: 
 
 
 
No tempo que eu era rapaz, a boemia se centrava na Avenida São João, do Largo do Paissandu um pouco para cima. Era uma boêmia de bares de orvalho, de dancings que furavam cartão, de restaurantes de sopa barata de madrugada. Era uma boêmia de conversas de pouca coisa e devagar por noite afora. Às vezes entrava no bar uma mulher de jeito preocupado, olhava bem na cara dos outros e saía como tinha entrado – ia provavelmente para outro bar. Um dia pensei em fazer um samba que começasse: de noite eu rondo a cidade [...] (VANZOLINI, 1977, capa do disco).
 
 

Quanto aos hotéis, diferentes modalidades de acomodação podem ser localizadas: de pensões a hotéis econômicos. Destaque deve ser conferido ao São Paulo Center Hotel (de 1920,  projeto do escritório Ramos de Azevedo, no Largo Santa Ifigênia), ao Hotel Marian Palace (na Avenida Cásper Líbero) que constitui um "hotel de época" legítimo (1950), instalado em um edifício estilo "Art Déco" agraciado com o Prêmio Nacional de Arquitetura, em 1942 .

 
 
 
 
Com a opção progressiva pelo transporte rodoviário, a Estação Rodoviária foi instalada na Avenida Duque de Caxias, em 1961, o que atraiu para o bairro o comércio de fretes. Com sua transferência para o Terminal Tietê, em 1982, a edificação teve seu uso alterado para funcionar como um shopping popular, especializado em tecidos, vulgarmente conhecido como "Shopping Coreano". Recentemente (2008) foi anunciando um projeto que pretende transformá-lo em sede da São Paulo Companhia de Dança (SPCD), composta por centro cultural e teatro, e da Escola de Música do Estado, seguindo a tendência cultural que reproduz os modelos da Sala São Paulo e do Museu da Língua Portuguesa, conferindo um novo uso às antigas estações ferroviárias Luz e Júlio Prestes.
 
 

O projeto da estação Júlio Prestes (1938), de inspiração clássica francesa – estilo Luís XVI, foi elaboradopelo arquiteto brasileiro Christiano Stockler das Neves, baseado nos modelos das grandes estações norte-americanas: a da Pensilvânia e de Nova York.  O prédio foi adaptado para abrigar a sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a OSESP, com um auditório com excelente acústica, capacidade para 1.500 lugares, voltado aos concertos de música erudita: a sala São Paulo e mais nove salas de ensaio (uma para madeira, uma para metais, uma para percussão, duas para orquestra, duas para violinos, uma para viola, violoncelo e baixo, uma para conjunto de câmara), além de uma biblioteca para partituras. O prédio da Sorocabana abrigou o Departamento de Ordem Política e Social - DOPS e, desde 2002, abriga o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, constituindo importante elemento de composição da paisagem arquitetônica do bairro, juntamente com as Estações da Luz e Júlio Prestes

 
 

A Estrada de Ferro Inglesa, The São Paulo Railway, foi inaugurada em 1867, mas a edificação hoje ali existente (inaugurada em 1901 com materiais importados da Europa) foi projetada pelo arquiteto inglês Charles Henry Driver, em estilo neoclássico. Mantém-se em atividade, sendo importante por interligar as linhas dos trens CPTM e o Metrô, além de abrigar o Museu da Língua Portuguesa. Juntamente com a Estação Júlio Prestes, constitui o carro-chefe do processo de requalificação da região da Luz. 

 
 

A homenagem à Guerra do Paraguai tem nas ruas Aurora, Vitória e Triunfo  a materialização física de sua expressão. A abertura das ruas coincidiu com o momento final da Guerra do Paraguai, tendo sua nomenclatura constituído uma homenagem à vitória brasileira, mais tarde oficializada por meio do monumento em homenagem ao Duque de Caxias. A alusão à Guerra inspira a denominação do Largo do Paissandu, a rua 24 de Maio e a avenida Duque de Caxias (que concentra lojas revendedoras de assessórios para automóveis e  revendas de automóveis usados). O Monumento ao Duque de Caxias (de 1950,  na Praça Princesa Isabel), com 45 metros de altura e 50 toneladas, fundido por Victor Brecheret no Liceu de Artes e Ofícios, constitui o maior monumento eqüestre do mundo. Na homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, foi retratada, na base do monumento, uma cena da batalha de Itororó, ocorrida durante a Guerra do Paraguai. A Fonte Monumental (de 1927, ano no qual a praça passou a se chamar Júlio de Mesquita ) instalada na então Praça Vitória, é de autoria de Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto. Composta por duas bacias circulares adornadas por máscaras de mulher e lagostas de bronze, a fonte tem, no alto, um grupo escultórico formado por um jovem pescador sobre um rochedo, de rede em punho, rodeado por sereias que tentam seduzi-lo. A região abriga, ainda, diferentes modalidades de edificações residenciais que expressam as diferentes temporalidades históricas que marcaram a região e que ainda possuem remanescentes arquitetônicos: residencial coletivo e comercial (Avenida Cásper Líbero e Rua Beneficência Portuguesa), residencial unifamiliar (Palácio Campos Elíseos , na Avenida Rio Branco), residencial multifamiliar, de uso subseqüente como hotel (Praça Julio Mesquita - funciona como hotel desde 1949) residencial e comercial no térreo (Alameda Barão de Limeira, datado do final do século XIX, em estilo neoclássico, realizado pelos mestres italianos). 
 
 
 

 
 
Viaduto Santa Ifigênia - Foto: Sergio Gusmão - http://img90.imageshack.us/img90/9094/pic00749wj9.jpg

Viaduto Santa Ifigênia 



 
 
 
 

 
Considerações finais
 

Este trabalho objetivou evidenciar, na trajetória histórica de um bairro central da cidade de São Paulo, o Bairro de Santa Ifigênia, as marcas produzidas pelas transformações econômicas e sociais que se refletiram no espaço urbano da cidade, transformando funções residenciais em funções de diferente ordem a partir, sobretudo, das décadas finais do século XIX, momento em que se evidencia o encontro de vários processos cuja origem e explicação não se encontram apenas na história da cidade, mas do próprio estado de São Paulo e no papel que foi chamado a desempenhar na concentração industrial brasileira. 

 
 

Assim, a cidade de São Paulo e as intervenções urbanas que nela ocorreram são produto de processos mais amplos que têm origem nas transformações introduzidas pelo café e pela indústria e, mais recentemente, a partir da década de 80, pela chamada des- industrialização, transformando, mais uma vez, os papéis concentradores do estado e da cidade nas funções financeiras e de serviços que passa a desempenhar em relação ao país como um todo.

 
 

Procuramos mostrar que o Bairro de Santa Ifigênia aparece, assim, como emblemático desse processo, reunindo, atualmente, contradições que vão desde um comércio eletrônico altamente diversificado até as funções religiosas e de hospedagem,  de lazer e sociabilidade, num processo que, contudo, não parece reverter positivamente para a vitalidade do Bairro, marcado pela deterioração urbana, o que talvez se explique, em parte, pela descaracterização residencial progressiva que sofreu ao longo do tempo. 

 
 
Notas
 
  Doutora em História Social pela PUC/SP, professora da Universidade Anhembi Morumbi. senia@anhembimorumbi.edu.br
  Doutora em Ciências Sociais pela UNESP, professora da Universidade Anhembi Morumbi. mrrsalles@ anhembimorumbi.edu.br
  Nos anos de 1911 a zona de prostituição compreendia as ruas Timbiras, Ipiranga e Amador Bueno.
  A Pinacoteca do Estado de São Paulo tem sua sede no antigo Liceu de Artes e Ofícios, na Avenida Tiradentes.
  O atual prédio da Estação da Luz data de 1901.
  A antiga estação localizava-se na esquina das ruas Mauá e General Couto de Magalhães; a atual edificação foi iniciada em 1938, passando a denominar-se Julio Prestes em 1951 . 
  A nova escola do Hip Hop não se diferencia apenas em virtude da faixa etária, mas por diferentes propostas musicais e temáticas das letras dos raps (MACEDO, 2007, p. 203).
Projeto de Mateus Häussle (construído de 1896 a 1899) para a residência de Elias Antônio Pacheco Chaves (rico fazendeiro de café), o Palácio Campos Elíseos foi finalizado pelo Escritório Ramos de Azevedo. Adquirida em 1912 pelo Estado, a propriedade passou a abrigar a residência dos governadores e, em 1935, tornou-se, também, sede do governo do Estado, função que manteve até 1965. Ressalte-se que a transferência do Palácio para o Morumbi reforçou um processo de deterioração do Bairro.

 
 
 
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