Mulheres afganistanesas
Embora
o homem seja biologicamente igual em todo o mundo, o comportamento e os
valores humanos diferem de acordo com cada cultura e até mesmo entre
grupos de indivíduos numa mesma cultura. Além de existirem
cerca de 6.000 povos em contato distribuídos pelo planeta, há
"subgrupos" que se diferenciam quanto à religião, estilos
de vida, opções sexuais, ideologias políticas etc.
Esse conjunto de diferenças dá lugar a uma variedade de visões
de mundo, valores, crenças, práticas e tradições
que constituem a identidade de cada povo e o esplendor de sua presença
no planeta. Porque a diversidade cultural é um precioso conjunto
de experiências e inteligências, necessário às
complexas formulações e atuações em várias
áreas da vida humana, testemunhando sua singularidade e desenvolvimento
histórico, pode-se pensa-la como um "código genético"
que registra todo seu potencial de desenvolvimento social. Além
de idiomas diferentes, cada povo desenvolveu distintas artes e mitologias,
conhecimentos sobre meio ambiente, técnicas de cultivo da terra,
tecnologias, medicinas e farmacologias, diferentes modos de organização
social, de parentesco, de trabalho e troca, singulares estilos de relacionamentos,
formas de religiosidade, de moradia, vestuário, alimentação,
transporte etc, constituindo-se em repositório vivo de saberes,
fazeres e de entusiasmo criador. Assim, entre as mais importantes tarefas
que se impõem às nações – como combater a miséria
e a desigualdade social, garantir os direitos humanos, preservar o meio
ambiente e outras –, há esta, bastante complexa (e estratégica,
pois influi nas demais), que é a de compreender os múltiplos
pensamentos sociais. Isso implica perceber e valorizar os muitos sentidos
da diversidade cultural como força social e patrimônio de
cada nação e da humanidade.
A
Antropologia pensa o fato da diversidade cultural por meio de uma construção
teórica que "produz" a dessemelhança no plano dos conceitos.
Isso significa que quando a antropologia pensa a diversidade ela não
pensa as diferenças observáveis, apenas, mas que atribui
a esta noção um lugar específico na explicação
dos fatos. A Antropologia tem como princípio metodológico
que a diversidade não existe em si mesma, como fato real: para ela,
diferença é uma categoria social e relacional que se constrói
com base em experiências que se defrontam, cabendo ao antropólogo
o esforço de delineá-las a partir de seu ponto de vista teórico.
Para a antropologia, ser diferente pressupõe o auto-reconhecimento
e o reconhecimento social como tal; a dimensão da identidade (individual
ou coletiva) leva sempre, portanto, à dimensão da alteridade.
É isso o que define a dupla dimensão da identidade: o "ser
igual, mas de outro jeito", percebendo-se semelhante aos outros e, ao mesmo
tempo, afirmando a própria diferença enquanto indivíduo
ou grupo.
Desde
o século passado tem havido um enorme esforço da Antropologia
em demonstrar a unidade humana, estudando e comparando culturas e provando
que as diferenças são formas de ordenação estrutural
que correspondem a compreensões, formulações e soluções
distintas de questões e de problemas semelhantes. No estudo comparativo
das culturas o problema principal tem sido o de elaborar categorias suficientemente
amplas para serem aplicadas a todas as culturas que se estuda e, ao mesmo
tempo, suficientemente específicas para diferencia-las ou assinalar
similaridades que sejam mais que "aproximações". Este problema
deu origem a duas posições sobre a interpretação
da natureza da cultura: a que sustentava a relatividade ou particularidade
das culturas e a que sustentava a universalidade ou generalidade das mesmas.
Os relativistas extremados negavam que se pudesse elaborar categorias
ou proposições que fossem ao mesmo tempo exatas e universais
porque sustentavam que cada cultura era única e, portanto, devia
ser analisada mediante suas próprias categorias. Segundo Franz
Boas (1940), cada cultura é única porque é produto
em parte da casualidade e em parte de circunstancias históricas
irrepetíveis. Boas também enfatizou a independência
dos fenômenos culturais com relação às condições
geográficas e aos determinantes biológicos, afirmando que
a dinâmica da cultura está na interação entre
os indivíduos e sociedade. Ruth Benedict
(1946) dizia que cada cultura é uma expressão única
e legítima das potencialidades humanas e, em conseqüência,
não pode haver normas universais de prática cultural. Também
Alfred
Kroeber (1947) pensava que não seria possível elaborar
categorias gerais nas quais se pudesse incluir, de maneira exata, todos
os fenômenos particulares de todas as culturas; portanto, as chamadas
"categorias universais" eram inoperantes, e, conseqüentemente, não
funcionais quando se tratava de aplica-las. Esta perspectiva teórica,
denominada de relativismo cultural, e as perspectivas desde as quais
julgava e analisava uma cultura implicaram uma série de questões
polêmicas. É o caso, por exemplo, do relativismo moral, para
o qual os valores morais são válidos somente dentro de cada
cultura e, inclusive, de cada circunstância. De acordo com esta proposição,
não teríamos o direito de desaprovar a crueldade nem a desumanidade
aparentes de outros povos, porque estaríamos projetando nosso próprio
sistema de valores para além do único contexto em que são
legítimos. Portanto, o relativismo fechado cria um problema moral
peculiar aos seus princípios: temos de aceitar como justificado
qualquer costume, por contraproducente e angustiante que nos pareça,
na medida em que faz parte de "outra cultura”? Não temos o
direito de condenar o genocídio, o canibalismo, a escravidão,
a tortura física, a violência contra as mulheres, simplesmente
porque são práticas de "outros povos”? A crescente heterogeneidade
das sociedades com a intensificação das migrações
e das interações étnicas, a globalização
das relações interculturais e os movimentos em favor dos
direitos humanos apontam direções que não podem mais
se fundar nos conceitos clássicos de cultura e de relativismo cultural.
O respeito pelo outro diferente é cada vez mais função
do modo como são reconstruídas e modificadas as interações
do que do aprisionamento dos homens nas fronteiras de definições
estáticas.
Vê-se
que as coisas não podem ser levadas a extremos e que é possível
usar critérios antropológicos de maneira ampla para avaliar
o que poderíamos chamar de uma "racionalidade universal", como valores,
instituições, padrões e costumes que contribuem para
a sobrevivência da espécie e para a integridade de cada grupo
social. O relativismo cultural se justifica, portanto, como uma posição
metodológica na investigação de culturas particulares
e para isso é de grande utilidade; mas não como principio
orientador da análise antropológica ou política, uma
vez que contesta a adoção de valores de outras culturas que
se considerem vantajosos. A tendência para a marginalização
do relativismo resulta da evidente necessidade de comunicação
entre os diferentes numa sociedade em que o diálogo é uma
condição sine qua non de seu funcionamento.
E essa necessidade se situa, em primeiro lugar, na lógica e no interesse
da sociedade ocidental, tecnológica e predominantemente branca.
O simples abandono do relativismo cultural não garante, entretanto,
maior justiça social e respeito pelo outro (as questões de
poder permanecem como sinal diacrítico no contexto das interações
globais crescentes): a ruptura com os aspectos constrangedores do relativismo
e do etnocentrismo precisa ser acompanhada pela democratização
das instituições e pela promoção de reais oportunidades
(além das formais e legais) educativas, sociais, econômicas
e políticas.
Se
a igualdade humana ainda é um objetivo a ser perseguido, desde os
anos de 1970, vivemos um novo contexto cultural e ideológico, em
que se amplia a consciência da diversidade humana de fato, desde
a cor dos olhos e da pele, passando por preferências sexuais diferentes,
até a origem regional e familiar, tradições, formas
de religiosidade, hábitos e gostos, estilos de vida etc. E tem-se
buscado fazer dessa diversidade de fato uma diversidade também de
direito. Esta é uma busca extremamente complexa uma vez que a identidade
coletiva se define, cada vez mais, em termos de etnicidades, cultura, herança,
tradição e estilos de vida, valorizando o direito à
diferença e à autodeterminação, caminhando
na contramão do processo de globalização. A pergunta
inevitável é: queremos ser iguais ou diferentes? Como proteger
a igualdade sem desqualificar aquilo que marca a diferença cultural?
As reivindicações de autonomia étnica cujos focos
são voltados apenas para si mesmas, beirando a intolerância
ou etnocentrismo, não podem ser vistas, por exemplo, como ameaças
aos mecanismos de integração até aqui assegurados
pelos Estados e partidos políticos de massa?
As
diferenças culturais não são problemas em si mesmas.
Elas são vistas como problemas quando pessoas, grupos ou instituições
se empenham em fazer parte, com suas diferenças de costumes, visões
de mundo e valores, de totalidades relativamente homogêneas, como
a nação, a sociedade, a cidadania etc. Assim, mesmo que as
diferenças culturais constituam um dado das sociedades humanas,
a diversidade só se apresenta como problema em circunstâncias
específicas, nas quais prepondera um tipo característico
de relação social: a de busca da integração
dos diferentes a estas totalidades. Não é por acaso, portanto,
que hoje se fala mais em “multiculturalismo” e "pluralidade cultural" e
menos em “diferenças culturais”.
A
identidade cultural é um dos requisitos para o acesso à cidadania.
A noção de Estado-nação, essencial ao conceito
de cidadania, supõe o sentimento partilhado de pertencimento e lealdade
consolidados pela língua, pelas tradições culturais
e pelos valores comuns. Assim, a cultura e a identidade da nação
fundamentam-se na herança histórica comum e, no caso do Brasil,
numa memória oficial homogeneizante. A idéia de identidade
nacional, contudo, é uma abstração que oculta as rachaduras
de uma nação carente de direitos. Como observou Paula
Montero (1996), sentir-se brasileiro é "mais" imaginável
nos lugares sociais onde a solidariedade humana é possível,
como nos grupos organizados em torno das lutas civis. Mas é necessário
perguntar se o tipo de identidade que se pode construir nesses lugares
não é a de oprimidos, a de desprovidos de direitos, a de
membros extraviados numa ordem social perversa. Pode-se encontrar a positividade
da diversidade cultural desses sujeitos? Ou eles se identificam e relacionam
pela falta de direitos e pela impotência de transformar a desigualdade
em diferenças? O "diferente", em muitos casos, pode ser apenas aquele
que não tem seus direitos reconhecidos, como os idosos, os deficientes,
os homossexuais, por exemplo. Ao resolver-se o problema dos direitos, perde-se
a dimensão da diferença. Mas a diversidade cultural pode
prosperar quando a sociedade for democrática e igualitária
de fato e o bastante para permitir que os grupos resistam à discriminação
enquanto religiosos, imigrantes, estrangeiros, negros, mulheres, índios
e outros desenvolvendo suas diferenças sem receios.
O
multiculturalismo como premissa de conceituação em vários
domínios das políticas públicas e práticas
sociais que almejam a construção de uma sociedade multiétnica,
tem constituído, em alguns países, tema de debates e polêmicas
intermináveis, confrontando diferentes posições ideológicas
quanto aos melhores meios de promoção da igualdade de oportunidades.
Nesses debates são utilizados conceitos de áreas também
diversas como a biologia, a sociologia e a antropologia. Esta última
tem influenciado bastante o pensamento multiculturalista que, de certo
modo, pode ser visto como uma espécie de "Antropologia aplicada".
Nele, os conceitos de cultura e de relativismo cultural são centrais,
embora com usos e implicações ideológicas diferentes
dos da antropologia teórica, o que é importante considerar.
Porém, apesar desta proximidade, o diálogo entre ambos não
tem sido o desejável e nem constante.
É
preciso ter sempre em vista que a identidade cultural é um momento
da consciência social, contemporânea e manifesta, mas transitória
e em constante transformação. Os indivíduos e coletividades
estão ininterruptamente se definindo e redefinindo mutuamente. Desenvolvem
sistemas de idéias que classificam o "outro" em diferente ou igual,
familiar ou exótico, antagônico ou não. Elegem características
étnicas e/ou traços físicos para marcar, aproximar,
afastar, discriminar e oprimir. De modo geral, o “outro” é socialmente
(re)elaborado de modo a transformá-lo em igual, diferente, próximo
ou distante, exótico, estrangeiro, potencialmente amigo ou inimigo,
independentemente de suas características étnicas, conforme
atuem as forças políticas locais e globais. É preciso
reconhecer, portanto, o caráter político da noção
identidade cultural, que pode ser múltipla, contraditória,
provisória e que, ao mesmo tempo em que expressa um modo próprio
de ser, influencia as formas de ver, sentir pensar e agir das demais identidades
em relação às quais se afirma. Conforme se inserem
no conjunto das relações sociais, diferenças, afinidades,
polarizações e antagonismos ganham conotação
de estratégias no jogo das forças sociais, permitindo a manipulação
de características e símbolos em codificações
ou reificações de diversidades, hierarquias e desigualdades.
É assim, por exemplo, que as ideologias raciais tornam-se forças
sociais determinantes, legitimando e recriando hierarquias e desigualdades
ditas "raciais", mas que em realidade são sociais, no sentido de
que são ao mesmo tempo econômicas, políticas e culturais.
Os que se fecham numa cultura, nação, religião ou
grupo tendem a crer que seu modo de viver e pensar é absoluto e
inabalável e que aquilo que contradiz seus padrões é
“anormal”, inferior ou ruim. Os que vivem em sociedades pluriculturais
podem conceber a realidade em seu dinamismo, pluralidade, policromia e
polifonia. Podem conviver com a plenitude humana.
A
diversidade cultural é, como se pode perceber, necessária
ao desenvolvimento social. Ela é o grande espelho em que a humanidade
se reflete e se vê, impedindo a cristalização dos conceitos
humanos sobre si. É um vigoroso dinamismo coletivo que assegura
e resguarda o desenvolvimento humano, pois os valores culturais são
a energia que mantém as sociedades vivas. São eles, também,
que permitem compreender o Homem como ser social ao analisarmos as redes
de significados que conformam cada cultura e as particulares articulações
de valores dentro de cada uma. Não se trata, portanto, de meramente
elencar a contribuição de cada grupo para o patrimônio
nacional ou mundial, mas de compreender que a diversidade cultural é
uma fonte inexaurível de críticas, de inovações,
de intercâmbios, criatividade e inspiração. De originais
e construtivas formas de vida, crença e organização,
preenchidas por conteúdos coletivos a partir da afirmação
da alteridade e da busca de novas linguagens para exprimir os novos teores.
Admiti-la e sustenta-la é reconhecer que temos o direito e, às
vezes, o dever, de divergir; de ter e enunciar opiniões diferentes
que expressem momentos e/ou lugares distintos de compreensão de
um mesmo fenômeno. É produzir inteligência e favorecer
as gerações presentes e futuras, pois é através
da cultura que uma sociedade se expressa e pensa sobre si mesma Deixar
perder-se a produção cultural de um povo, e/ou impingir-lhe
outra é empobrece-lo, privando-o de sua principal força.

Se
não quisermos viver num mundo monótono, globalizado, desprovido
de conteúdos, valores, símbolos e tradições
que nos digam respeito diretamente, é preciso aceitar e valorizar
a diversidade cultural, incentivando-a, reconhecendo e respeitando cada
povo, cada grupo cultural; garantindo seu direito à expressão,
à liberdade de mudar, de fazer parte da cultura mundial sem ser
isolado, repudiado ou subestimado por ser diferente. Pois será a
força emanada dessa diversidade, sujeito e objeto de si própria,
que, no processo de globalização, impedirá que a vida
humana seja reduzida a simples pretexto para circulação de
mercadorias.
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