Por que a Diversidade faz bem

Rita Amaral
Antropóloga, Phd,
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo


 
 
 
 

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Mulheres afganistanesas



 
 
 

Imagem: Flickr: www.flickr.comEmbora o homem seja biologicamente igual em todo o mundo, o comportamento e os valores humanos diferem de acordo com cada cultura e até mesmo entre grupos de indivíduos numa mesma cultura. Além de existirem cerca de 6.000 povos em contato distribuídos pelo planeta, há "subgrupos" que se diferenciam quanto à religião, estilos de vida, opções sexuais, ideologias políticas etc. Esse conjunto de diferenças dá lugar a uma variedade de visões de mundo, valores, crenças, práticas e tradições que constituem a identidade de cada povo e o esplendor de sua presença no planeta. Porque a diversidade cultural é um precioso conjunto de experiências e inteligências, necessário às complexas formulações e atuações em várias áreas da vida humana, testemunhando sua singularidade e desenvolvimento histórico, pode-se pensa-la como um "código genético" que registra todo seu potencial de desenvolvimento social. Além de idiomas diferentes, cada povo desenvolveu distintas artes e mitologias, conhecimentos sobre meio ambiente, técnicas de cultivo da terra, tecnologias, medicinas e farmacologias, diferentes modos de organização social, de parentesco, de trabalho e troca, singulares estilos de relacionamentos, formas de religiosidade, de moradia, vestuário, alimentação, transporte etc, constituindo-se em repositório vivo de saberes, fazeres e de entusiasmo criador. Assim, entre as mais importantes tarefas que se impõem às nações – como combater a miséria e a desigualdade social, garantir os direitos humanos, preservar o meio ambiente e outras –, há esta, bastante complexa (e estratégica, pois influi nas demais), que é a de compreender os múltiplos pensamentos sociais. Isso implica perceber e valorizar os muitos sentidos da diversidade cultural como força social e patrimônio de cada nação e da humanidade. 

 
 
 
Imagem: Flickr: www.flickr.comA Antropologia pensa o fato da diversidade cultural por meio de uma construção teórica que "produz" a dessemelhança no plano dos conceitos. Isso significa que quando a antropologia pensa a diversidade ela não pensa as diferenças observáveis, apenas, mas que  atribui a esta noção um lugar específico na explicação dos fatos. A Antropologia tem como princípio metodológico que a diversidade não existe em si mesma, como fato real: para ela, diferença é uma categoria social e relacional que se constrói com base em experiências que se defrontam, cabendo ao antropólogo o esforço de delineá-las a partir de seu ponto de vista teórico. Para a antropologia, ser diferente pressupõe o auto-reconhecimento e o reconhecimento social como tal; a dimensão da identidade (individual ou coletiva) leva sempre, portanto, à dimensão da alteridade. É isso o que define a dupla dimensão da identidade: o "ser igual, mas de outro jeito", percebendo-se semelhante aos outros e, ao mesmo tempo, afirmando a própria diferença enquanto indivíduo ou grupo. 

 
 
Imagem: Flickr: www.flickr.comDesde o século passado tem havido um enorme esforço da Antropologia em demonstrar a unidade humana, estudando e comparando culturas e provando que as diferenças são formas de ordenação estrutural que correspondem a compreensões, formulações e soluções distintas de questões e de problemas semelhantes. No estudo comparativo das culturas o problema principal tem sido o de elaborar categorias suficientemente amplas para serem aplicadas a todas as culturas que se estuda e, ao mesmo tempo, suficientemente específicas para diferencia-las ou assinalar similaridades que sejam mais que "aproximações". Este problema deu origem a duas posições sobre a interpretação da natureza da cultura: a que sustentava a relatividade ou particularidade das culturas e a que sustentava a universalidade ou generalidade das mesmas. Os relativistas extremados negavam que se pudesse elaborar categorias ou proposições que fossem ao mesmo tempo exatas e universais porque sustentavam que cada cultura era única e, portanto, devia ser analisada mediante suas próprias categorias. Segundo Franz Boas (1940), cada cultura é única porque é produto em parte da casualidade e em parte de circunstancias históricas irrepetíveis. Boas também enfatizou a independência dos fenômenos culturais com relação às condições geográficas e aos determinantes biológicos, afirmando que a dinâmica da cultura está na interação entre os indivíduos e sociedade. Ruth Benedict (1946) dizia que cada cultura é uma expressão única e legítima das potencialidades humanas e, em conseqüência, não pode haver normas universais de prática cultural. Também Alfred Kroeber (1947) pensava que não seria possível elaborar categorias gerais nas quais se pudesse incluir, de maneira exata, todos os fenômenos particulares de todas as culturas; portanto, as chamadas "categorias universais" eram inoperantes, e, conseqüentemente, não funcionais quando se tratava de aplica-las. Esta perspectiva teórica, denominada de relativismo cultural, e as perspectivas desde as quais julgava e analisava uma cultura implicaram uma série de questões polêmicas. É o caso, por exemplo, do relativismo moral, para o qual os valores morais são válidos somente dentro de cada cultura e, inclusive, de cada circunstância. De acordo com esta proposição, não teríamos o direito de desaprovar a crueldade nem a desumanidade aparentes de outros povos, porque estaríamos projetando nosso próprio sistema de valores para além do único contexto em que são legítimos. Portanto, o relativismo fechado cria um problema moral peculiar aos seus princípios: temos de aceitar como justificado qualquer costume, por contraproducente e angustiante que nos pareça, na medida em que faz parte de "outra cultura”?  Não temos o direito de condenar o genocídio, o canibalismo, a escravidão, a tortura física, a violência contra as mulheres, simplesmente porque são práticas de "outros povos”? A crescente heterogeneidade das sociedades com a intensificação das migrações e das interações étnicas, a globalização das relações interculturais e os movimentos em favor dos direitos humanos apontam direções que não podem mais se fundar nos conceitos clássicos de cultura e de relativismo cultural. O respeito pelo outro diferente é cada vez mais função do modo como são reconstruídas e modificadas as interações do que do aprisionamento dos homens nas fronteiras de definições estáticas.

 
 
 
Vê-se que as coisas não podem ser levadas a extremos e que é possível usar critérios antropológicos de maneira ampla para avaliar o que poderíamos chamar de uma "racionalidade universal", como valores, instituições, padrões e costumes que contribuem para a sobrevivência da espécie e para a integridade de cada grupo social. O relativismo cultural se justifica, portanto, como uma posição metodológica na investigação de culturas particulares e para isso é de grande utilidade; mas não como principio orientador da análise antropológica ou política, uma vez que contesta a adoção de valores de outras culturas que se considerem vantajosos. A tendência para a marginalização do relativismo resulta da evidente necessidade de comunicação entre os diferentes numa sociedade em que o diálogo é uma condição sine qua non de seu funcionamento. E essa necessidade se situa, em primeiro lugar, na lógica e no interesse da sociedade ocidental, tecnológica e predominantemente branca. O simples abandono do relativismo cultural não garante, entretanto, maior justiça social e respeito pelo outro (as questões de poder permanecem como sinal diacrítico no contexto das interações globais crescentes): a ruptura com os aspectos constrangedores do relativismo e do etnocentrismo precisa ser acompanhada pela democratização das instituições e pela promoção de reais oportunidades (além das formais e legais) educativas, sociais, econômicas e políticas.
 
 
 
 
Se a igualdade humana ainda é um objetivo a ser perseguido, desde os anos de 1970, vivemos um novo contexto cultural e ideológico, em que se amplia a consciência da diversidade humana de fato, desde a cor dos olhos e da pele, passando por preferências sexuais diferentes, até a origem regional e familiar, tradições, formas de religiosidade, hábitos e gostos, estilos de vida etc. E tem-se buscado fazer dessa diversidade de fato uma diversidade também de direito. Esta é uma busca extremamente complexa uma vez que a identidade coletiva se define, cada vez mais, em termos de etnicidades, cultura, herança, tradição e estilos de vida, valorizando o direito à diferença e à autodeterminação, caminhando na contramão do processo de globalização. A pergunta inevitável é: queremos ser iguais ou diferentes? Como proteger a igualdade sem desqualificar aquilo que marca a diferença cultural? As reivindicações de autonomia étnica cujos focos são voltados apenas para si mesmas, beirando a intolerância ou etnocentrismo, não podem ser vistas, por exemplo, como ameaças aos mecanismos de integração até aqui assegurados pelos Estados e partidos políticos de massa?
 
 
 
 
As diferenças culturais não são problemas em si mesmas. Elas são vistas como problemas quando pessoas, grupos ou instituições se empenham em fazer parte, com suas diferenças de costumes, visões de mundo e valores, de totalidades relativamente homogêneas, como a nação, a sociedade, a cidadania etc. Assim, mesmo que as diferenças culturais constituam um dado das sociedades humanas, a diversidade só se apresenta como problema em circunstâncias específicas, nas quais prepondera um tipo característico de relação social: a de busca da integração dos diferentes a estas totalidades. Não é por acaso, portanto, que hoje se fala mais em “multiculturalismo” e "pluralidade cultural" e menos em “diferenças culturais”. 
 
 
 
Imagem: Flickr: www.flickr.comA identidade cultural é um dos requisitos para o acesso à cidadania. A noção de Estado-nação, essencial ao conceito de cidadania, supõe o sentimento partilhado de pertencimento e lealdade consolidados pela língua, pelas tradições culturais e pelos valores comuns. Assim, a cultura e a identidade da nação fundamentam-se na herança histórica comum e, no caso do Brasil, numa memória oficial homogeneizante. A idéia de identidade nacional, contudo, é uma abstração que oculta as rachaduras de uma nação carente de direitos. Como observou Paula Montero (1996), sentir-se brasileiro é "mais" imaginável nos lugares sociais onde a solidariedade humana é possível, como nos grupos organizados em torno das lutas civis. Mas é necessário perguntar se o tipo de identidade que se pode construir nesses lugares não é a de oprimidos, a de desprovidos de direitos, a de membros extraviados numa ordem social perversa. Pode-se encontrar a positividade da diversidade cultural desses sujeitos? Ou eles se identificam e relacionam pela falta de direitos e pela impotência de transformar a desigualdade em diferenças? O "diferente", em muitos casos, pode ser apenas aquele que não tem seus direitos reconhecidos, como os idosos, os deficientes, os homossexuais, por exemplo. Ao resolver-se o problema dos direitos, perde-se a dimensão da diferença. Mas a diversidade cultural pode prosperar quando a sociedade for democrática e igualitária de fato e o bastante para permitir que os grupos resistam à discriminação enquanto religiosos, imigrantes, estrangeiros, negros, mulheres, índios e outros desenvolvendo suas diferenças sem receios. 
 
 
 
 
O multiculturalismo como premissa de conceituação em vários domínios das políticas públicas e práticas sociais que almejam a construção de uma sociedade multiétnica, tem constituído, em alguns países, tema de debates e polêmicas intermináveis, confrontando diferentes posições ideológicas quanto aos melhores meios de promoção da igualdade de oportunidades. Nesses debates são utilizados conceitos de áreas também diversas como a biologia, a sociologia e a antropologia. Esta última tem influenciado bastante o pensamento multiculturalista que, de certo modo, pode ser visto como uma espécie de "Antropologia aplicada". Nele, os conceitos de cultura e de relativismo cultural são centrais, embora com usos e implicações ideológicas diferentes dos da antropologia teórica, o que é importante considerar. Porém, apesar desta proximidade, o diálogo entre ambos não tem sido o desejável e nem constante. 

 
 
 
É preciso ter sempre em vista que a identidade cultural é um momento da consciência social, contemporânea e manifesta, mas transitória e em constante transformação. Os indivíduos e coletividades estão ininterruptamente se definindo e redefinindo mutuamente. Desenvolvem sistemas de idéias que classificam o "outro" em diferente ou igual, familiar ou exótico, antagônico ou não. Elegem características étnicas e/ou traços físicos para marcar, aproximar, afastar, discriminar e oprimir. De modo geral, o “outro” é socialmente (re)elaborado de modo a transformá-lo em igual, diferente, próximo ou distante, exótico, estrangeiro, potencialmente amigo ou inimigo, independentemente de suas características étnicas, conforme atuem as forças políticas locais e globais. É preciso reconhecer, portanto, o caráter político da noção identidade cultural, que pode ser múltipla, contraditória, provisória e que, ao mesmo tempo em que expressa um modo próprio de ser, influencia as formas de ver, sentir pensar e agir das demais identidades em relação às quais se afirma. Conforme se inserem no conjunto das relações sociais, diferenças, afinidades, polarizações e antagonismos ganham conotação de estratégias no jogo das forças sociais, permitindo a manipulação de características e símbolos em codificações ou reificações de diversidades, hierarquias e desigualdades. É assim, por exemplo, que as ideologias raciais tornam-se forças sociais determinantes, legitimando e recriando hierarquias e desigualdades ditas "raciais", mas que em realidade são sociais, no sentido de que são ao mesmo tempo econômicas, políticas e culturais. Os que se fecham numa cultura, nação, religião ou grupo tendem a crer que seu modo de viver e pensar é absoluto e inabalável e que aquilo que contradiz seus padrões é “anormal”, inferior ou ruim. Os que vivem em sociedades pluriculturais podem conceber a realidade em seu dinamismo, pluralidade, policromia e polifonia. Podem conviver com a plenitude humana.
 
 
 
 
A diversidade cultural é, como se pode perceber, necessária ao desenvolvimento social. Ela é o grande espelho em que a humanidade se reflete e se vê, impedindo a cristalização dos conceitos humanos sobre si. É um vigoroso dinamismo coletivo que assegura e resguarda o desenvolvimento humano, pois os valores culturais são a energia que mantém as sociedades vivas. São eles, também, que permitem compreender o Homem como ser social ao analisarmos as redes de significados que conformam cada cultura e as particulares articulações de valores dentro de cada uma. Não se trata, portanto, de meramente elencar a contribuição de cada grupo para o patrimônio nacional ou mundial, mas de compreender que a diversidade cultural é uma fonte inexaurível de críticas, de inovações, de intercâmbios, criatividade e inspiração. De originais e construtivas formas de vida, crença e organização, preenchidas por conteúdos coletivos a partir da afirmação da alteridade e da busca de novas linguagens para exprimir os novos teores. Admiti-la e sustenta-la é reconhecer que temos o direito e, às vezes, o dever, de divergir; de ter e enunciar opiniões diferentes que expressem momentos e/ou lugares distintos de compreensão de um mesmo fenômeno. É produzir inteligência e favorecer as gerações presentes e futuras, pois é através da cultura que uma sociedade se expressa e pensa sobre si mesma Deixar perder-se a produção cultural de um povo, e/ou impingir-lhe outra é empobrece-lo, privando-o de sua principal força. 
 
 
 
 

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Se não quisermos viver num mundo monótono, globalizado, desprovido de conteúdos, valores, símbolos e tradições que nos digam respeito diretamente, é preciso aceitar e valorizar a diversidade cultural, incentivando-a, reconhecendo e respeitando cada povo, cada grupo cultural; garantindo seu direito à expressão, à liberdade de mudar, de fazer parte da cultura mundial sem ser isolado, repudiado ou subestimado por ser diferente. Pois será a força emanada dessa diversidade, sujeito e objeto de si própria, que, no processo de globalização, impedirá que a vida humana seja reduzida a simples pretexto para circulação de mercadorias. 

 

Bibliografia

 
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