Alba Cavalcanti 1990- Gafieira
típica – Arte Naïf
Ainda é cedo; vinte
horas e eles já começam a chegar. Geralmente são casais
ou pequenos grupos. Raros são os que chegam sozinhos, principalmente
mulheres. Todos bem arrumados, usam sua melhor roupa no estilo social ou
“esporte fino”. São pessoas "simples" que têm algo em comum:
o amor pela dança e o prazer de dançar a dois. Com menor
freqüência, a este público habitual somam-se artistas,
estudantes, intelectuais, turistas, o que promove a formação
de um grupo heterogêneo. Comparecem a mais um baile na tradicional
Estudantina Musical, no Rio de Janeiro, um dos muitos bailes de dança
de salão, que acontece de quinta a domingo na cidade.
Este espaço de dança
se localiza num sobrado antigo, do início do século XX, na
Praça Tiradentes, bairro central da cidade. A entrada é composta
de uma bilheteria gradeada e uma porta dupla de madeira; compõem
a cena um segurança que, invariavelmente, está sentado em
um pequeno banco e um bilheteiro, que recolhe os tíquetes de entrada.
Sobe-se uma larga escadaria de madeira. Lá dentro, uma luz ilumina
parcialmente o espaço composto por várias mesas e cadeiras
que circundam a grande pista de dança do o salão. Num canto,
perto da janela, vê-se um pequeno palco. Do outro lado, um jirau
que quase não é mais usado, outras tantas cadeiras, mesas
e uma pista menor .
A pista de dança tem o piso ideal para a dança de salão,
ou seja, coberto por tábuas corridas e sem cera, oferecendo a aderência
exata para o deslize dos sapatos, que geralmente são de solado de
couro.
Os garçons arrumam as
mesas por setores. Distribuem avisos nas mesas reservadas antecipadamente.
Forram as mesas com pequenas toalhas de papel, timbradas com a logomarca
da casa, um cinzeiro e ligam os grandes ventiladores. Recolhem-se atrás
do balcão à espera do público.
O público distribui-se
pelo salão. A maioria já tem sua mesa reservada com antecedência
e alguns, mais constantes, têm reserva cativa. As mesas mais procuradas
são as que circundam a pista de dança, por facilitarem o
acesso e permitirem melhor visão dos que dançam. São
as chamadas mesas de pista e, quanto mais próximas da orquestra,
mais disputadas. A mesa principal fica vazia, logo ao lado do palco da
orquestra. Mais tarde será ocupada pela grande dama do baile e da
dança de salão brasileira, a professora Maria Antonietta
Guaycurus de Souza. Ao chegar, ela cumprimentará todos os conhecidos,
indo de mesa em mesa e até a alguns casais que estão na pista
de dança. Estes param de dançar para cumprimentá-la.
Considera-se uma honra falar com Maria Antonietta ou partilhar a sua mesa
e, mais ainda, dançar com ela, privilégio para poucos, além
de seu parceiro habitual.
No pequeno palco onde a orquestra
tocará, os músicos acertam os últimos detalhes, afinando
seus instrumentos. Antes de iniciar o baile, ouve-se música ambiente
proveniente de um aparelho de som eletrônico. Boleros ou, sambas
mais lentos, são tocados. Poucos casais dançam. A maioria
dos presentes circula entre as mesas, cumprimentando-se e esperando a orquestra
iniciar, ou “abrir” o baile.
Surge uma fotógrafa oferecendo
seus serviços aos presentes como lembrança da noitada. A
foto terá no rodapé, impressa, a logomarca da casa e mais:
“Estudantina Musical, a Gafieira do Rio”, em letras brancas desenhadas.
A fotógrafa escolhe certeiramente apenas as mesas onde estão
os freqüentadores não assíduos.
Por volta das 21h a orquestra
abre o baile, normalmente com a música-tema do filme 2001 Uma Odisséia
no Espaço, Assim falou Zaratrusta .
Em um ritmo um pouco mais lento, a performance da orquestra dá um
tom de solenidade apoteótica para o começo do baile. Os componentes
da orquestra são apresentados pelo maestro e alguns recados são
dados, como avisos de outros bailes, das bandas que tocarão nestes,
algum aniversário, um evento excepcional ou mais importante. Começa
o baile.
As músicas iniciais são
lentas, preferencialmente Boleros antigos. Os casais, pouco a pouco, encaminham-se
para a pista, para mostrar com orgulho sua dança, um novo passo,
um floreio de um movimento tradicional, uma junção de passos
diferenciada ou simplesmente dar dois passos para cá e dois para
lá. Os pares misturam-se, desde os mais famosos e respeitados pela
sua performance de dança até casais que não sabem
dançar (ou que estão indo à gafieira pela primeira
vez) e alguns turistas. Os casais circulam na pista sempre em sentido anti-horário,
uma norma importante na dança de salão: manter o sentido
correto e constante deslocamento para evitar choques entre os casais. Os
que dançam melhor costumam circular pela extremidade, motivados
pela facilidade de deslocamento. Afinal, só faz a gira quem está
seguro; por isso não se importam com a maior visibilidade. Os iniciantes,
ou os que querem ter mais privacidade para iniciar uma paquera, geralmente
ocupam o miolo da pista e dançam praticamente sem sair do lugar.
Fora da pista, sentados nas mesas reservadas, poucos conversam. Quem não
dança observa a evolução dos casais.
Alguns cavalheiros, mais tradicionalistas,
passam de mesa em mesa tirando praticamente todas as damas do baile para
dançar, sempre pedindo permissão ao acompanhante destas,
com o paletó devidamente abotoado, sem chapéu, de preferência
segurando um pequeno lenço na mão esquerda para evitar transpiração
na mão da dama. A dama que rejeitar tal convite possivelmente não
será mais convidada a dançar. A dama que, ao “ser tirada”
para dançar, demonstra que não tem ritmo ou um mínimo
de conhecimento em dança de salão não será
mais tirada; provavelmente tomará “chá de cadeira”. Afinal,
todos reparam em quem está dançando, em sua performance.
Esta é a moeda corrente do povo que dança: a grande valorização
do conhecimento das técnicas da dança e domínio de
um estilo.
Após o tema de abertura,
a orquestra passa a tocar blocos de quatro a cinco músicas. Cada
bloco tem um ritmo musical específico, que define claramente o estilo
da dança, como o bolero, o soltinho, o samba de
gafieira. Os blocos vão se sucedendo até chegar ao samba
de gafieira, estilo preferido e o mais difícil de ser dançado,
pela velocidade e dificuldade de passos que se pode alcançar.
Antes do primeiro intervalo,
depois de aproximadamente uma hora de baile, a orquestra toca uma seqüência
de quatro ou cinco músicas rápidas e pára de tocar.
Será um intervalo de vinte a trinta minutos, o suficiente para se
descansar um pouco, comer um petisco, conversar mais um tanto enquanto
a orquestra se refaz . Para quem está muito animado, a música
eletrônica continua permitindo a dança .
Com alguma regularidade, em
um destes intervalos é tocado um tango, caso esteja presente um
grande dançarino ou especialista nesta dança. O casal sozinho,
em elaborada coreografia, apresentará sua dança utilizando
todo o espaço do salão, em grande performance espetacularizada.
Ao terminar, o casal agradece a todos em elegantes reverências e
volta para sua mesa.
Antes de recomeçar o
baile, o maestro parabeniza algum aniversariante presente e todos cantam
em sua homenagem. O maestro anuncia a presença da grande dama Maria
Antonietta, e todos aplaudem. Esta, geralmente, sobe ao palco para
saudar a todos e transmitir algum recado, falar sobre a importância
da dança, anunciar algum evento próximo etc...
Nova seqüência de
músicas será tocada assim que a orquestra recomeçar,
sempre passando dos ritmos lentos para os mais rápidos, sempre fechando
cada bloco do baile com o samba de gafieira, via de regra o motivo de turistas
e curiosos freqüentarem a Estudantina – apreciar o espetáculo
desse ritmo.
Por volta das três horas
da manhã, depois de várias seqüências de ritmos
que vão do mais lento ao mais rápido, o baile é encerrado
com a performance do Samba de Gafieira acelerado, momento onde apenas os
melhores dançarinos atrevem-se a dançar e exibir a sua arte.
Com mais espaço na pista, as evoluções se sucedem
em variadas manobras. Em outros bailes, como os do Clube Sírio Libanês
ou do Fluminense Futebol Clube, este momento final é marcado por
arriscadas coreografias, algumas integrando até movimentos de acrobacias.
No encerramento do baile, um verdadeiro show do entretenimento acontece.
A orquestra fecha, então, o espetáculo, com a mesma música
solene da abertura. O maestro agradece a presença de todos, transmite
novos recados e assim acaba mais um encontro de pessoas que gostam de dançar
o samba.
Vários presentes, cansados
felizes e suados, continuam na casa despedindo-se de todos, trocando
recados com seus velhos conhecidos e as novas amizades feitas naquela noite,
só então, vão embora. Aguardarão o próximo
encontro, quando tudo recomeçará.
Dançar o samba de gafieira
neste que é um dos estabelecimentos mais antigos da cidade é
sempre uma nova e boa noitada, embora já se tenha tornado um hábito,
uma tradição, para a maioria dos freqüentadores. Semanalmente,
um grande número de homens e mulheres, amantes da dança,
encontra-se para praticar. Diversos podem ser os ritmos dançados;
no entanto, dentre todos os estilos, o preferido e mais difícil
deles é o samba de gafieira: dança que reproduz uma antiga
e rotineira forma de entretenimento popular de lazer social e urbano do
carioca.
Cada vez que é tocado
o samba de gafieira, observa-se um maior número de casais se dirigir
para a pista e um clima mais animado tomar conta do ambiente, bem diferente
do que ocorre com outros ritmos. O samba de gafieira representa um momento
especial dentro do baile, um acontecimento espetacular dentro do espetáculo.
Percebe-se, então, que o ato de dançar o samba de gafieira
estabelece um diálogo corporal rico em alegria, descontração
e fisicalidade; um artefato cultural que, como sistema de prática
da vida social, revela interessantes traços da sua tradição.
A dinâmica do movimento
no Samba de Gafieira
Samba de Gafieira – passo
“Saída lateral”
Estabelecido como forma de dançar
enlaçada no início do século XX, o samba de gafieira
expressa fortes influências do lundu, do maxixe, do tango e, em menor
instância, de danças européias. Configura-se como uma
dança de infinitas possibilidades de movimentos em sua evolução
e apresenta ainda boa performance em deslocamento pelo espaço. Estabelece
uma relação corporal específica e necessária
entre os parceiros que dançam, para que em harmonia e velocidade
alcancem uma unidade. Dança que imprime no corpo um comportamento
expressivo e específico, faz os performers agirem de forma diferenciada
no baile. Mesmo não sendo uma atuação artística,
o samba de gafieira pode alcançar alto índice de expressividade
e espetacularidade em estado de dança e em estado de performance
de samba de gafieira. Para se chegar a este estado é necessária
a prontidão corporal, e só desta forma é possível
a fruição desta dança única. Tal prontidão
dialoga com a velocidade, com alternâncias de ritmo, com a sintonia
no tempo musical e muitos contra-tempos, transferências de peso,
deslocamentos no espaço, planos altos e baixos e inversões
rápidas de sentido.
Entendendo esta dança
ou partitura corporal como uma complexa teia de relações
entre as diferentes partes de um todo, o corpo que dança performa
como um complexo tecido de ações no qual diferentes tramas
se alternam, sobrepõem ou se combinam determinando, assim, a textura
do todo de forma infinitamente complexa. Um todo interconectado no qual
parte alguma é mais fundamental que qualquer outra, de tal forma
que as propriedades de qualquer uma das partes do corpo são determinadas
pelas propriedades de todas as outras. Nesse sentido, poder-se-ia dizer
que cada parte “contém” todas as outras e, na verdade, a visão
de um mútuo englobamento parece ser a característica da experiência
da natureza. O conceito de interpenetração de movimento está
representado.
Tais formas de uso do corpo,
com princípios de todo, de interconexão, revelam “pedaços”
de cultura, corpos culturais como uma montagem de códigos aparentemente
não convencionais e desconexos que, no entanto, através de
seu campo de seleção, revelam o quanto a totalidade da sociedade
está implícita em suas partes ou em suas estruturas organizadoras.
Geertz (2003) já chamava a atenção
para o simbolismo inscrito na vida cotidiana, alargando a noção
de simbólico, até fazê-la coincidir com o cultural.
Tal alargamento implicava, por exemplo, estar atento para o fato de que
culturas se construíram em contato com outras, servindo como limite
entre grupos, como utensílios de diferenciação.
A cultura e, dentro dela, os processos de aculturação, aparecia,
nesta perspectiva, como um elemento estratégico e não necessariamente
consciente dos atores sociais.
Victor Turner argumenta que
as performances sociais encenam histórias poderosas – míticas
e também de senso comum – que proporcionam ao processo social uma
retórica, “uma forma de enredo e um significado” (1980).
Nesse sentido, a observação da estética corporal nesta
dança, naturalmente nos leva a constar aproximações
com a filosofia africana Congo, pela linguagem de atitudes corporais.
Os escravos Congo trouxeram,
no corpo, a memória de seu reino e da sua cultura para as Américas.
Dois pesquisadores (Fu-Kiau, 2003, Thompson,
2002) têm estudado e confirmam a presença, da filosofia
e cosmogonia Congo, explicando a presença do homem na terra e seu
destino, no tempo e espaço. Nesta cosmovisão “o gestual funciona
como “porta (bimwelo) para a compreensão”. Os signos corporais
traduzem sentimentos e atos dos homens, decodificam suas realizações
intelectuais e espirituais, como forma de manutenção de cultura.
[...] os gestos
Congo são, em seu conjunto, difusores através do mundo, como
uma verdadeira revelação (mbonokono) inscrita no corpo.
Assim como os gestos clássicos da Índia, os mudras, ...os
gestos próprios das religiões a da corte de justiça
Congo levam mais longe seu reino de origem. Eles são haveres indestrutíveis
porque portam seus valores (Thompson, 2002, 27).
Nas tradições
africanas, e para o Banto em particular, o corpo é um microcosmo
e o princípio filosófico de personalidade constitui-se de
quatro elementos no plano físico e mítico. Estes quatro elementos
se comunicam através do corpo como invólucro, como princípio
biológico, pela ancestralidade e pelo princípio social da
vida. O corpo deverá, então, operar dimensionando a existência
como um universo em constante busca de equilíbrio:
[...] o corpo (invólucro
corporal); o princípio biológico (órgãos internos,
sistemas automáticos e psicossomáticos); o princípio
de vida e o espírito propriamente dito, substância imortal.
(Amenwusika Kwadzo Tay apud Lopes, 1988, 126)
No samba de gafieira, o corpo
estabelece estreitas relações com estes princípios,
o que reflete sua valorização nas possibilidades corporais,
em que a ação é exteriorizada em sintonia: nos pés,
que se apóiam no concreto e dão direção, determinam
paradas e comunicam suas reações ao resto do corpo; no ritmo
do andar, onde os pés representam a firmeza, o equilíbrio
e a estabilidade, daí o enraizamento, como também “podem
ser armas rápidas, como na capoeira angola” (Thompson, 2002);
nas mãos que transformam, tanto as mãos dadas (direita da
dama com a esquerda do cavalheiro) como a do cavalheiro enlaçada
nas costas da dama que determinam as mudanças bruscas ou suaves
de velocidade e ou direção; no movimento da cintura,
aberta para as mudanças repentinas; nas articulações
afrouxadas, para o constante estado de prontidão; na flexibilidade
da coluna vertebral, atitude necessária para a ginga da dança.
No samba de gafieira é
possível jogar ou brincar com coisas sérias. Competição,
sorte, simulacro e vertigem coabitam num jogo de posições
e movimentos corporais difíceis e extravagantes de habilidades corporais.
Jogo e cultura, paidia e paidéia , andam juntos no momento de criação
e no controle desse corpo – “no jogo e pelo jogo, a civilização
surge e se desenvolve” (Huizinga, 2004).
O samba, bem como a milonga,
o tango, a rumba e o mambo são apontados por
Thompson como representantes, no mundo profano, da manutenção
da cultura africana, como estética de “valores de luta e de rivalidade,”
como também de sensualidade, jogo e prazer (2002).
Brincadeira séria – dança sub specie ludi [sob modalidade
de brincadeira], apresenta um caráter estético no qual a
beleza do corpo em movimento apresenta alta expressividade. Ritmo e harmonia
misturam-se na estética do jogo, no corpo dos dançantes.
Como todo jogo, é uma atividade voluntária para os que sabem
e gostam de brincar. Praticado nas horas de lazer, um prazer fechado
em si mesmo e livre para ser interrompido, adiado, como todo jogo, uma
atividade temporária, aí reside a sua instabilidade.
No entanto, quando iniciado, apresenta-se como um momento suspenso da vida
“real”, deslocado para um nível alterado da realidade cotidiana
que mantém o jogador-dançarino em total envolvimento. Sua
temporalidade, separação espacial em relação
à vida, sustenta-se no prazer do seu acontecimento “como um intervalo
da vida cotidiana” ocupando tempo, espaço e sentido próprios
(Huizinga, 2004). Suspensão e complemento
do cotidiano, o samba de gafieira dá cor à vida, tornando-se
vital ao praticante, dando-lhe um novo sentido de qualidade e prazer, expressividade
e relação social.
[...] representada no interior
de um espaço circunscrito sob a forma de festa, isto é, dentro
de um espírito de alegria e liberdade. Em sua intenção
é delimitado um universo próprio de valor temporário.
Mas seus efeitos não cessam depois de acabado o jogo; seu esplendor
continua sendo projetado sobre o mundo de todos os dias, influência
benéfica que garante a segurança, a ordem e a prosperidade
de todo o grupo até a próxima época... (Huizinga,
2004,
17).
Ao apresentar relacionamentos
diferenciados entre as partes do corpo, a organização corporal
básica da dança samba de gafieira opera de forma integrada
entre o corpo físico, biológico e social conectado ao ancestral
através de características específicas, clara herança
do lundu e do maxixe.
Casal
negro dançando Lundu ao som da Kalimba (instrumento africano)
O Maxixe – Kalixto -
(1907)
Este algo representado é
o jogo das relações entre ancestralidade, corpo e integração
social. Sua representação consiste em exibir, perante o outro,
características naturais deste diálogo. Sua realização
como representação conserva, deste modo, vários aspectos
formais da cultura Congo, no intuito de provocar admiração
e continuidade.
Tais características
a singularizam diante das demais danças, em ritmo e padrões
corporais de movimento, identificando e evidenciando o estilo do samba
de gafieira em relação às demais danças sociais
por suas matrizes africanas. No entanto, vale destacar a principal
marca da dança eque a diferencia das demais: sua cadência.
Percebe-se uma oscilação corporal peculiar, ou melhor, uma
ginga específica. Esta ginga está presente na forma
interpretativa dos passos e no que revela em termos de cultura, entendida
como uma “cultura irônica do corpo”, que apresenta a valentia de
um dançar gingado, semelhante ao andar do capoeirista (Sodré,
2002).
Confusão
suburbana, urbana e rural – Paulo Moura.RCA/Victor
A palavra ginga ou zinga
tem mais de um significado. Pode ser um tipo de remo de popa, em que o
navegador “segurando-o com ambas as mãos e dando-lhe um movimento,
na água, de boreste a bombordo e de cima para baixo, de modo que
faça a embarcação prosseguir na direção
desejada” (Holanda, 1975). A embarcação
desloca-se oscilando lateralmente, de um lado para o outro, o que é
chamado de gingado ou zingado. Uma segunda acepção, mais
conhecida, relaciona-se com a capoeira. Ginga é o movimento fundamental,
do qual partem os golpes. O corpo oscila constantemente de forma
ofensiva e ou defensiva e o capoeirista, movendo-se de modo imprevisível
e rítmico, mantém a base de apoio. O balanço procura
iludir e desnortear o adversário, impedindo a referência fixa,
o que dificulta a estratégia de ataque do adversário. Quanto
melhor o gingado, maior imprevisibilidade no ataque. Muito da ação
corporal e movimento de ginga, possivelmente, nasceu da necessidade de
camuflar o ataque, como também para esconder o jogo de quem o assistia;
estratégias elaboradas como forma de fugir da perseguição
policial, que obrigou a criação de disfarces para a manutenção
do jogo. Um jogo de brincadeira e movimentos com malícia. A ginga
dos pés no chão e no ar, a agilidade da esquiva e a astúcia
da fuga. E de repente, o gesto rápido. O inimigo se dá conta,
caiu no jogo da mandinga. Existem similaridades entre capoeira e o samba
de gafieira, e esta percepção não é nova. Johann
Moritz Rugendas, em sua primeira visita ao Brasil, no período de
1821 a 25, intitulou uma das suas pinturas: Jogar Capoeira ou Dança
de Guerra.
Se a capoeira é uma luta
que pode ser apreciada como dança, o samba de gafieira é
uma dança que tem um perfil de luta. Ambos contêm elementos
do lúdico, do ataque e defesa, da habilidade corporal, da velocidade,
da alternância de velocidade, de beleza estética, da demonstração
de força e poder, da relação dual, enfim do jogo e
da ginga e muito mais...É a possibilidade articulada em todas as
direções, de um quadril solto, em curvas e sinuosas que estabelecem
a ginga da dança. Tal mobilidade de coluna vertebral e de quadris
estabelece um jogo de corpo dinâmico e peculiar. Desta forma, a ginga
apresenta um jeito de dançar que mescla o molejo e a malandragem,
a irreverência e a alegria. É um jeito de ser e de encarar
a vida. A ginga tem presença corporal definida, aberta ao
improviso, à ludicidade e à esquiva. O samba de gafieira
incorporou ações de outras danças de salão;
no entanto, manteve sua essência, a ginga. A ginga mantém,
ainda, a possibilidade de abertura na dança por sua capacidade de
improviso e do excepcionalidade. Nesta abertura, a ginga mantém
o acesso permanente ao novo e à reconstrução do que
historicamente tem sido construído. A ginga mostra em imagens corporais
novas possibilidades: é performar presentificando comportamentos
ainda não instaurados, num desafio às hierarquias dominantes.
São performances de uma forma de ser, fazer e mostrar cultura que
pouco é examinada e, no entanto, traz percepções da
vida cotidiana que, através do discurso corporal da realidade, vai
mantendo e criando novos conhecimentos. As características de disfarce,
improviso, estratégias de sobrevivência, revelam a malícia
desta dança e criam o “corpo mandingueiro”, tão presente
na capoeira. São revelações corporais de ritos
e mitos, lazer e sobrevivência, memória e divertimento, que
estão fortemente imbricados (Sodré, 2000).
Observa-se então uma
forte característica afro-americana, considerada a principal, para
Alejandro Frigério (2003), que é
“seu caráter multidimensional” no qual a performance ocorre em diversos
níveis “misturando gêneros que para nós seriam
diferentes e separados”. Como resultado, mais que um somatório de
gêneros, “o todo que se consegue a partir da fusão dessas
diferentes artes é maior que a soma de suas partes constitutivas”.
Esta percepção da multidimensionalidade da performance africana
já havia sido detectada por Thompson, em razão do nível
de equilíbrio que, nas artes, este encontro de gêneros consegue
alcançar:
[...] a afamada unidade das
artes na performance africana sugere uma abordagem sensível em que
um meio nunca é absolutamente enfatizado em relação
aos outros. A escultura não é a arte central, mas tampouco
o é a dança, visto que ambas dependem de palavras, música
e até mesmo de sonhos e adivinhação. (Thompson, 1974:
110)
A performance do samba de gafieira
alcança, por este caráter multidimensional, um índice
de densidade que a torna complexa estruturalmente, tornando difícil
a separação dos gêneros envolvidos, para efeito de
análise: dança, jogo, música, luta, ritual, teatro,
funcionam harmonicamente por interpenetração de seus elementos
constitutivos. Em alguns passos, evidenciam-se pequenas paradas ou
pequenas oscilações bruscas que revelam, com clareza, a contorção
dos corpos. Em tal mudança de ritmo e/ou direção está
a ginga. Ela pode ser reconhecida como finta ou ginga. A ginga é
característica corporal da cultura urbana e negra presente no lundu
e que, no samba de gafieira está claramente representada na marcação
do andar gingado do passo básico. A ginga, feita no contra-tempo
da dança, estabelece um jogo de engano no fluxo do ritmo e ou direção
imprimido na dança. A diminuição de velocidade
ou a parada como a encontrada nos passos na seqüência faquinha/facão,
na pescaria e na tesoura permite exibir a destreza corporal dos que dançam,
bem como demonstrar o jogo de improviso que esta dança proporciona.
É a ginga que oferece o andar “malemolente", gíria especialmente
empregada para descrever a flexibilidade charmosa desenvolvida por afrodescendentes
quando movem seus corpos” (Rego, 1976).
Constatamos que o samba de gafieira
é alimentado veementemente pela astúcia, o que leva o dançarino
a sempre tentar ultrapassar seus limites. Assim, um certo prazer funcional
é mantido a partir da percepção de que “há
algo em jogo”, da constatação de que se corre risco constante
e da necessidade de suportar a incerteza e a tensão. É no
próprio movimento que se delineia, então, uma forte característica
cultural da filosofia africana, absorvida pela cultura da cidade, a ludicidade
da ginga. A cultura africana mostra-se visível na liberdade de movimento
do eixo do corpo de quem dança. Dança, luta, cultura, memória,
ginga e jogo criam fortes conexões de relação que
dialogam e estabelecem uma teia de relacionamentos eficientes e,
ao mesmo tempo, fornecem um conjunto de informações precisas
a respeito da sua origem através da dança praticada.
No samba de gafieira, a ginga
está presente na pernada do cavalheiro e na esquiva da dama, bem
como no Bum Bum Baticumbum Brucurundum da cadência sincopada da música,
léxicos da cultura afro-carioca. Percebe-se que a ginga é
o que não se rouba, ou perde, da tradição africana;
é o que fica mantido, memória e matriz, estratégia
e sobrevivência.
Verificamos, ainda, que o samba
de gafieira mantém uma abertura que permite a apropriação
seletiva de elementos que sejam enriquecedores e não conflitantes,
o que lhe confere um caráter de dança de inclusão.
No entanto, esta permanência de abertura é obrigada a dialogar,
e às vezes entrar em confronto, com tentativas constantes de processos
de clareamento. Apesar desta tensão, o samba de gafieira, dança
nascida no Rio de Janeiro no meio urbano, negro/mestiço e popular,
mantém matrizes africanas vivas, observáveis e apreciadas
por todos, até pelos que não as conhecem ou não querem
reconhecer como tal. A filosofia mantida corporalmente inclui princípios
e padrões corporais, malandramente conservadas no viés da
ginga nos corpos dos praticantes.
Cabe acrescentar que o desenvolvimento
desta dança, a maneira como é produzida e utilizada, nos
permite pensar sua função social nas relações
culturais que ela medeia e representa. Um fenômeno inicialmente
considerado marginal, periférico, indecente, presente em festas
profanas e até religiosas, funciona como suporte para que uma ginga
corporal específica, de raízes negras, seja evidenciada.
Podemos afirmar que o casal
performa em sintonia na dança e usa o samba de gafieira como palco
e vitrine para a prática e permanência de elementos da cultura
afro-brasileira carioca. Uma dança que liberta e desperta
a nossa cultura. É só ter fé; é só permitir.
Quem tem fé, sabe, o samba e gafieira é isso, fé no
seu corpo. Esta é a grande estratégia de sobrevivência
do samba de gafieira – a malandragem da ginga.
Pesquisadora
do NEPAA (Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias),
professora de Técnicas Corporais na Universidade Estácio
de Sá, é preparadora corporal de teatro, Coreógrafa,
Diretora e Bailarina
Na
década de 80, a Estudantina era mais concorrida do que na atualidade
e a reserva de mesas deveria ser feita com rigorosa antecedência.
Tal procura exigia a abertura constante do jirau para comportar a procura
habitual.
Em
1973, Eumir Deodato escreveu um arrojado arranjo para "Assim falou Zaratrusta",
de Richard Strauss (tema musical do filme de Stanley Kubrick "2001: uma
odisséia no espaço"), faixa incluída em seu disco
"Prelude", que atingiu a marca de cinco milhões de cópias
vendidas.
Webgrafia
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