Aspectos Educativos do Carnaval no Brasil: a pedagogia das  escolas de samba
Cristiana Tramonte

Socióloga, Educadora
Professora  da  Universidade Federal de Santa Catarina



 

 
A história das escolas de samba demonstra claramente que existem processos sociais organizativos que as tornam um fenômeno turístico nacional cujas características têm chamado a atenção de vários estudiosos da área ao longo dos séculos XX e XXI. . Sua existência como organização social carnavalesca com características próprias e únicas, sua perpetuação no tempo, suas origens sociais e sua composição cultural representam um amálgama rico de processos que por aí perpassam, refletindo a história e a cultura do povo brasileiro.

 
 

Foto: Cristina Carriconde


 
 
 
 
À medida em que valoriza, transmite, cultiva e reelabora os aspectos fundamentais da cultura do grupo que a viabilizou, desempenha no Mundo do Samba função semelhante à das instituições educacionais de uma dada sociedade (LEOPOLDI, 1978:47) .
 
 
 
O que vai nos interessar particularmente no estudo das escolas de samba é o caráter pedagógico que se desdobra em inúmeros processos nos quais as classes populares educam-se  entre si na relação com os outros a exemplo da metodologia expressa pelo educador Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo. Os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1987:69). Paulo Freire alerta ainda para o fato de que este processo auto-educativo ocorrerá pela mediação de “objetos cognoscíveis”, em nosso caso, os variados e múltiplos elementos do Mundo do Samba. 
 
 
 
Em primeiro lugar, é importante entender o conceito de mediação. Para Cury (1983:43), a “categoria da mediação expressa as relações concretas e vincula mútua e dialeticamente momentos diferentes de um todo”. Não se podem compreender os fenômenos que perpassam pelas escolas de samba sem compreender que estes fenômenos se inter-relacionam dialeticamente formando uma rede contraditória que se imbrica mutuamente.  Essa teia de relações é mediada pelas escolas de samba.

 
 
 
 
É essa teia de relações que nos permitirá compreender a complexidade  do universo humano que se constrói em torno das escolas de samba, um dos principais centros do chamado “Mundo do Samba”. Leopoldi (1978:13) assinala que “O Mundo do Samba recobre o conjunto das relações sociais de um grupo considerável de agentes, cuja especificidade reside na valorização coletiva de um gênero musical - o samba”.(grifo meu). Goldwasser (1975:103) assim define: “O chamado Mundo do Samba que se revela de forma tão espetacular no desfile é para o sambista uma realidade bem palpável, seu meio próprio e familiar de convivência social”.  Leopoldi  chama a atenção para o fato de que  o aspecto fundamental do Mundo do Samba é justamente o contexto em que o samba se insere, que remete ao ethos de um grupamento específico. É este ethos que permite distinguir um sambista, agente do Mundo do Samba de um outro compositor qualquer; é o “sentimento” de se definir num coletivo relacionado ao samba que passa a ser, assim, um elemento estratégico de grande significação na rede das relações vivenciadas, como verificaremos na Pedagogia da Ação Cultural. 

 
 
 
 
A configuração do Mundo do Samba, bem como o papel mediador nos processos pedagógicos cumpridos pela escola de samba, delineará suas características conforme o momento histórico e o contexto social em que se inserem. Tentaremos compreender como se desenrola a pedagogia das escolas de samba de Florianópolis junto aos componentes do Mundo do Samba.

 
 
 
 
Em primeiro lugar, é necessário compreender como se estrutura o Mundo do Samba em Florianópolis. Os espaços principais são:

 
 
 
 
1. Pontos de encontro consagrados dos sambistas: no ano de 1995, podemos dizer que estes pontos eram, basicamente, o “Bar do Cal”, o Mercado Público nos sábados pela manhã (podendo prolongar-se pela tarde) e os programas radiofônicos destinados a este público, como a programação transmitida diretamente do Mercado  pela Rádio Guarujá  e o  freqüentado programa radiofônico  “Clube do Samba”, coordenado pelo jornalista Aldírio Simões. Funcionou, durante o ano de 1994, a Rádio Cultura, com uma programação específica para os integrantes do Mundo do Samba: Fontela e “Festinha”, respectivamente locutor e responsável pela programação transmitiam diretamente para os morros. Segundo Márcio de Souza, diretor da Acadêmicos dos Samba, 
 
 
 
 
“Nestes espaços do samba você vai encontrar muita gente. Ali fazemos política, falamos da vida, nos apaixonamos, nos casamos”. 
 
 
 
Além disso, alguns programas televisivos buscam de tempos em tempos dar cobertura às atividades dos sambistas, como o Programa Mulheres, coordenado por  Luiza Gutierrez; também alguns colunistas publicam em jornais locais notas esporádicas sobre as escolas de samba, como, por exemplo, o colunista Cacau Menezes.
 
 
 
2. Rodas de Samba e  Concursos: outras oportunidades de encontro de sambistas são as programações que algumas escolas de samba desenvolvem em suas sedes, geralmente nos finais de semana, com o objetivo de ajudar a manter as mesmas e, eventualmente, acumular recursos para  contribuir na organização dos desfiles. Há também concursos e promoções que ocorrem durante o ano que permitem o encontro de compositores e freqüentadores do Mundo do Samba. Exemplo destes eventos ocorridos nos anos de 1994 e 1995 são o  Prêmio Zininho de Música, a entrega do troféu Oscar Berendt   e  a inauguração do Museu do Carnaval com o apoio da Prefeitura Municipal. Também alguns eventos isolados compõem este universo como, por exemplo, a articulação dos sambistas, coordenada por Edu Aguiar, da Copa Lord, em torno da gravação do “CD Ilha” com o apoio de músicos radicados na Áustria; o “Kizomba”, evento de valorização da cultura afro-brasileira organizado geralmente  por Graça Mello e Jorge Rubinei Vaz na Escola de Samba Consulado; a organização de um grupo de sambistas para atuar na organização de uma escola de samba na cidade francesa de Saint-Etienne. No “Dia da Consciência Negra”, comemorado a 20 de novembro, ocorrem também múltiplos eventos de valorização da cultura afro-brasileira.

 
 
 
 
3. Fazem parte do Mundo do Samba também as Associações de Escolas de Samba LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) e ASSECAF (Associação de Entidades Carnavalescas de Florianópolis) e a recém-criada COPERCA (Comissão Permanente do Carnaval). 
 
 
 
 
Para adentrar o Mundo do Samba há um "ritual de iniciação", como demonstra esta declaração de Carioca, da Filhos do Continente: 
 
 
 
 
“O samba é do meu sobrinho. Jogamos ele na avenida para apanhar o terreno, tomar caminho”. (Clube do Samba, 21.01.95)
 
 
 
Há diversos requisitos  para ser considerado um integrante: gostar de samba, freqüentar os espaços tradicionais onde o samba acontece, freqüentar os eventos promovidos por seus integrantes, respeitar o código de ética e moral elaborados pela convivência interna e ter certo tempo cronológico de freqüência nos ambientes e eventos. O Mundo do Samba  tem como um de seus motores principais as escolas de samba  e um dos ideais mais fortes “salvar o carnaval” e “promover a valorização do samba”.  Grande parte dos indivíduos tem um apelido que o torna reconhecível pelos outros componentes do grupo. 
 
 
 
 
“Essas agremiações (as escolas de samba) consistem num veículo de valorização dos aspectos culturais e sociais específicos daquele universo, consubstanciado na amalgamação dos ambientes no inicio do século em que a relação intima com o samba se revelava um denominador comum” (LEOPOLDI, 1978:13.).
 
 
 
 
Os espaços do Mundo do Samba são ocupados  durante  boa parte do  ano, mas sua movimentação torna-se pública principalmente nos meses de novembro a março quando se intensificam as programações das escolas de samba, carros-chefe  do Mundo do Samba. 
 
 
 
 
O Mundo do Samba cumpre um papel fundamental na fabricação do ideário e na manutenção da memória, da história e da coesão interna de seus participantes. 
 
 
 

Do ponto de vista histórico, o Mundo do Samba corresponde quase a uma construção mitológica, povoado de heróis e episódios extraordinários, contados e recontados pelos sambistas históricos ou autênticos e que invariavelmente atravessam as fronteiras entre as Escolas para se transformarem em patrimônio de todos os sambistas” (GOLDWASSER, 1975:103, grifo da  autora).


 
 

Esta construção mitológica cumpriu um  papel fundamental no registro da história das escolas de samba. Afinal, sua relevância como objeto de estudo acadêmico data dos finais da década de 1960, início de 1970. Seus primeiros 40 anos de história foram basicamente registrados pela memória oral destes sambistas “históricos e autênticos”, aos quais se refere a autora, e algum registro jornalístico recuperando esta memória. Apesar da importância social que adquiriram as escolas de samba, ainda hoje a documentação escrita é falha, como identifica Goldwasser (1975) no seu estudo sobre a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro. Este fator agrava-se ainda mais no caso das escolas de samba de Florianópolis, onde a memória oral ganha preponderância absoluta e a documentação escrita disponível nas entidades era completamente insuficiente para a reconstrução histórica .


 
 

Apesar da precariedade da documentação formal, um intenso processo pedagógico desenvolve-se  juntamente  com o desenrolar histórico das escolas de samba de Florianópolis que será objeto central deste artigo. Para entender como esta pedagogia se desenvolve, consideramos que o ser humano é complexo, multifacetado e que os processos educativos se desenvolvem coerentemente com esta multiplicidade de facetas que compõem o universo humano. 

 
 
 

“A proposta político-educativa da práxis, portanto se refere a uma educação omnilateral e omnidimensional, que abrange todos os campos essenciais da realidade humana e natural...Omnidimensional, buscando envolver todos os modos e faculdades de conhecimento que o trabalhador possuir, introduzindo na aventura de conhecer  não apenas o cérebro mas o ser humano integral como ele é: sentidos do corpo, a mente, a emoção, a intuição, a vontade, o sentido da Unidade, o espírito” (ARRUDA, 1988:4). 


 
 

Entretanto, como lembra Arruda, a proposta de uma práxis político-educativa integral esbarra em dificuldades de ordem exterior (os obstáculos políticos, institucionais e culturais que a ordem instituída tende a levantar contra ela) e de ordem interior, gestadas pelas próprias contradições das relações humanas.
 
 
 
 

Para se compreender a práxis educativa das escolas de samba  de Florianópolis é necessário descrever suas estruturas essenciais: a estrutura sóciopolítica que se configura em torno do carnaval,  e o desfile, momento de consagração máxima desta estrutura organizativa. 

 
 
 

Os elementos do desfile são o  resultado de um processo de aprendizado vivo e dinâmico, que se transmite de geração a geração, reorganizados e redefinidos constantemente conforme a dinâmica social, como assinala Queiróz: 
 
 

“A simples tradição apenas comunica às gerações novas o que existiu outrora, incitando-as a repetir sempre os comportamentos considerados estimáveis, volta-se essencialmente para o passado. O Carnaval brasileiro apresenta algo mais: encerra também a imagem de uma sociedade alternativa e desencadeia a ação no sentido de colocá- la no lugar daquela que existe. Não existiria um mito carnavalesco do qual a festa seria um rito?” (1992:182). 

 
 

Para se entender o rito carnavalesco e, particularmente o rito do desfile da escola de samba é importante notar que os rituais exprimem as relações sociais que os engendram. Assim, “os rituais dizem as coisas tanto quanto as relações sociais. Tudo indica que o problema é que, no mundo ritual, as coisas são ditas com mais veemência...os rituais seriam instrumentos que permitem maior clareza às mensagens sociais” (DA MATTA, 1990:69). Para se compreender as mensagens sociais que os ritos expressam é necessário compreender sua estrutura. Os elementos do “rito” do desfile estão assim  constituídos :
 
 


GRES Consulado
Foto: Marco Nunes






1. Comissão de Frente: Grupo de componentes que tem por finalidade “abrir o tema do enredo”, apresentando-o ao público. Antigamente a Comissão de frente era representada pela diretoria que saudava o público e apresentava a escola.

2. Carro abre-alas: Carro alegórico simbolizando a escola de samba, surgindo no desfile logo depois da comissão de frente, informando o tema do enredo.

3. Mestre-sala e Porta-Bandeira: casal de “anfitriões” da escola. Sua missão é carregar a bandeira da escola e saudar o público, fazendo evolução. São escolhidos entre os melhores passistas da escola.

4. Alas:  Grupo de passistas ou pastoras, uniformemente fantasiados, obedecendo a uma coreografia improvisada, ou não, conforme o enredo que a agremiação carnavalesca apresenta no desfile. Dentro do sistema administrativo das escolas de samba, a bateria e os compositores formam grupos autônomos chamados “alas técnicas”. Uma ala tradicional e obrigatória é a ala das baianas. No carnaval de 1985, a ala das crianças tornou-se obrigatória.

5. Ala das Baianas: geralmente composto pelas sambistas mais idosas e vestidas como no tempo do Brasil Colônia. Inspiradas nas mulheres migrantes da Bahia para o Rio de Janeiro nas últimas décadas do século passado, mais conhecidas por “tias”

6. Ala dos Compositores: Grupo de compositores responsável pela criação musical da escola de samba. Geralmente os compositores recebem um resumo do enredo para desenvolvê-lo através da letra do samba a ser preparada para o desfile. Algumas escolas transformam sua ala dos compositores em departamento musical;  às vezes comandam a ‘puxada” do samba na avenida.

7. Bateria: Grupos de instrumentistas de percussão responsáveis pelo ritmo da escola de samba em desfile. À semelhança de uma orquestra, há momentos em que todos os instrumentos tocam, noutros instantes apenas um setor fica em ação

8. Destaque: figura isolada, viva, fantasiada com luxo e bom-gosto, representando um personagem de importância no enredo. Sua função é mitificar um personagem, desfilando de modo a ser notado; às vezes são pessoas famosas. 

9. Grupos de shows: Grupos de passistas que dão shows isolados com passos fantásticos e instrumentos. 

10. Passistas: Integrantes de escola de samba que se exibem com total liberdade de movimentos numa coreografia dominada pelo improviso do malabarismo das pernas. São os sambistas que “dizem no pé” ou seja, sambam com muita arte.

11. Coordenadores de Harmonia: Grupo de responsáveis da escola, geralmente incluindo os diretores que cuidam da “direção” do desfile, percorrendo a avenida e cuidando do entrosamento do samba cantado com o samba tocado, da evolução das alas, de modo a que não sobrem espaços vazios no grupo ou  concentração desordenada em outros pontos, da animação dos desfilantes, etc. É um dos mais importantes setores do desfile. Inclui todo tipo de tarefas: primeiros socorros, costura de fantasias que se rompem no momento, distribuição de panfletos na avenida, contagem de componentes da escola, controle de  componentes bêbados ou em atitudes reprováveis, etc. Nas escolas de samba de Florianópolis geralmente os grupos de Harmonia compõem-se de cerca de cento e vinte pessoas .


 
 

Dividimos a Pedagogia das Escolas de Samba de Florianópolis em temas que nos permitem traçar um perfil da complexidade do processo. Não se trata de uma categorização, mas de uma divisão com finalidades analíticas levando em conta a “omnilateralidade” e a “omnidimensionalidade” dos processos que perpassam as escolas de samba como “locus” educativos das classes populares.


 
 

 Os processos pedagógicos das escolas de samba podem subdividir-se em:
 
 

1.  Pedagogia da Ação Social
2.  Pedagogia da Ação Política
3.  Pedagogia dos Valores Morais
4.  Pedagogia da Ação Escolar
5.  Pedagogia  da Ação Cultural
6.  Pedagogia da Arte

 
 

Para se entender as possibilidades pedagógicas da organização das escolas de samba de Florianópolis, deve-se levar em conta que “a produção do saber e da cultura é um momento de práxis social enquanto fazer humano de classes sociais contraditórias”. (Arruda, apud: GOMEZ , 1987:80) E esta luta pela construção do saber e da cultura é um modo que encontram as classes populares para entrarem na história como sujeitos e cidadãos, já que as elites dominantes, como lembra o autor, tentam reduzir os espaços educativos das classes trabalhadoras aos poucos anos em que estas permaneceram na escola formal. Referindo-se às possibilidades de educação das classes trabalhadoras fora do espaço exclusivo da escola formal, nos seus espaços informais de educação, afirma ARRUDA: “Há uma pedagogia em marcha. Na prática social enquanto prática produtiva, organizativa, se faz cultura, o povo se educa e se forja, se torna ser social consciente. Hoje há todo um vigor na sociedade brasileira, uma energia política que tem uma dimensão pedagógica e cultural” (Arruda apud: GOMEZ et alii, 1987:80 ). 


 
 

As escolas de samba também ocupam espaços sociais onde as classes populares educam-se, tornam-se conscientes, vivem conflitos e contradições e fazem cultura.
 
 
 
 
 

A PEDAGOGIA DA AÇÃO SOCIAL
 
 

“Porque dizem que tem que ter verba prá saúde, prá hospital, que carnaval não é prioridade, prioridade é comida, estas coisas. Claro que tem.  Mas acontece que o carnaval, prá nós é vida, é saúde. Porque uma  pessoa estressada, precisa botar prá fora.. Carnaval é coisa de Deus porque são as expressões do nosso povo, sem maldade, espontâneas e os governos tem que entender que a escola de samba prá nós que somos pobre é uma necessidade humana. Senão vai haver muito mais agressão e violência. E a gente que vive na opressão, tem que ter escola de samba pra ter um lazer também”. (Dona Darci,  moradora do Mont Serrat, professora  e componente da Copa Lord  .)

 
 

A Pedagogia da Ação Social das escolas de samba desenvolve-se em duas vertentes: a primeira delas, o ato de viver em comunidade. A segunda, perceber o desenvolvimento de  sua vida em comunidade em constante interação com o social, que envolve uma gama ampla de relações que estão para além da comunidade e que implica em conviver com  o diferente num processo de construção plural e diversa. Dentro desta concepção, o conhecimento é oriundo da prática social que se gesta no coletivo da comunidade e na relação com o “exterior” a ela:

 
 
 

 “No plano social-histórico a dimensão aparentemente estática e isolada dos seres humanos e dos acontecimentos esconde o fato de que o ser humano é essencialmente processo, relação” (ARRUDA,1988:10). 


 
 

Como lembra Goldmann (1967:18), 
 
 

“O sujeito da ação é um grupo, um Nós, mesmo se a estrutura atual da sociedade pelo fenômeno da reificação tende a encobrir este Nós e a transformá-lo numa soma de várias individualidades distintas e fechadas uma às outras. Há entre os homens uma outra relação possível além da relação sujeito e objeto... é uma relação de comunidade que chamaremos Nós” (grifo do autor) . 

 
 

A estratégia de ação social está montada em uma estrutura administrativa que tenta  responder a estas necessidades. A estrutura administrativa conterá os seguintes elementos, com variações de escola a escola conforme o momento e o jogo de forças em questão
 
 
 
 

1. Diretoria Executiva: é a direção em si, responsável pelo conjunto da escola. É a força política maior dentro da escola e sua representação oficial. Compõe-se de presidente, vice-presidente, primeiro e segundo tesoureiros, primeiro e segundo secretários e  um responsável pelas relações públicas. Agrega-se à diretoria o Conselho Deliberativo, o Conselho Fiscal e o Departamento Feminino.

 
 
 
 

2. Diretoria de Carnaval: compõe-se do grupo que assume a direção da organização dos desfiles. Na época do carnaval, é a que mais atua. Dela fazem parte a assessoria de planejamento e supervisão, o carnavalesco, o grupo de enredo, figurinista, responsável pela criação de carros e alegorias, diretor de fantasias e adereços, diretor de destaques, de comissão de frente, de mestre-sala e porta-bandeira, de harmonia, de alas, de galpão, da ala de compositores e da bateria.
 
 
 

3. Além destas duas instâncias, existem os sócios, que também  integram a estrutura institucional da escola, cumprindo um papel de base de apoio para as instâncias diretivas.
 
 
 

Viver em comunidade é o elemento-chave do universo simbólico dos componentes das escolas de samba de Florianópolis. “Isto nos leva a crer que não só a sede da agremiação carnavalesca mas ainda o espaço físico, mais amplo, isto é, o bairro em que se desenvolve sua atividade constituem elementos básicos de sua própria definição”. (LEOPOLDI,1978:46) . Como se sabe,  várias escolas de samba têm atuado no sentido de manter a identidade comunitária como o elemento-chave indispensável para a vitória e continuidade da agremiação. As escolas de samba que não tinham base comunitária buscaram construí-la, como no caso da Consulado. As mais tradicionais buscam reavivá-la, como Copa Lord e Coloninha. Outras ainda vivem embates internos buscando solidificar seu sentido comunitário, enfraquecido pela saída da “velha guarda”  da comunidade, como a Protegidos. Outras ainda, como a Filhos do Continente, buscam apoio em “amigos” e “familiares” que possam reforçar seu sentido grupal. Aliás, o sentido comunitário freqüentemente se imbricará com o familiar: às vezes o termo “família” é utilizado para se referir à comunidade organizada em torno da escola de samba: família Protegidos, família Copa Lord, etc. Além de ajudar a manter a coesão interna e o espírito de solidariedade, esta denominação tem sua explicação também na origem das escolas de samba, cujos ensaios e montagem de fantasias ocorriam sempre na casa dos organizadores, fazendo com que o ambiente familiar fosse a célula geradora da organização social da escola de samba. 
 
 
 

Pode-se afirmar que as escolas de samba aprenderam, reelaboram o aprendizado e transmitem em cadeia, de geração a geração o sentido máximo do processo libertador da educação que enuncia Paulo Freire: (1987:70) “ a educação como prática da liberdade...implica a negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado do mundo...A reflexão que propõe..é sobre os homens em suas relações com o mundo”. 
 
 
 

A preocupação comunitária é abertamente expressa por seus componentes como, por exemplo, o ex-presidente da Coloninha, Telmo dos Santos, para quem o percentual cedido pela Prefeitura deve auxiliar justamente as alas da comunidade que não têm condições de arcar com os custos de sua fantasia, para não correr o risco de deixar de fora justamente aqueles que são a “alma” da escola de samba.  A ênfase no aspecto comunitário como fator de coesão interna também é preocupação de Eronildo Crispim de Souza, o Dica, morador do Mont Serrat e integrante  da Copa Lord desde  criança. Para ele, as escolas deveriam funcionar durante todo o ano, oferecendo alternativas de lazer e cultura para a comunidade: 
 
 
 

 
 
 

Desfile de Carnaval - Rio de Janeiro, Brasil


 
 
 
“A escola de samba é uma necessidade para a comunidade, que fala de carnaval o ano inteiro, diferente do resto da sociedade que só se interessa pelo momento do carnaval. Se não houver desfile de escola de samba, dá um vazio na comunidade, as pessoas ficam doentes, muita tristeza. O carnaval é a alimentação da comunidade. O pessoal do morro desce para a praça, para os ensaios, é vida”

 
 “O dirigente tem que estar na base, na comunidade. A escola de samba não pode se preocupar só em colocar o carnaval na rua, tem que fazer um trabalho o ano todo” (Graça Mello, coordenadora do trabalho comunitário da Consulado, em (Clube do Samba, 13/11/94) ). 

 
 

Para Carlos Alberto, o Cacá, participante do grupo comunitário Pinheiros e também morador do Mont Serrat, a grande vantagem do desfile em relação ao carnaval de rua é seu aspecto comunitário:
 
 

 “É muito mais cultural. Uma grande parte da comunidade quer expressar sua cultura. Você precisa ver a transformação da comunidade dois, três meses antes do carnaval,  tem mais disposição, nem parece que tem tantos problemas”

 
 “A Copa Lord é a alma da comunidade, é um pedaço dela. Deus o livre quando a Copa ganha: desce o morro tudo festejando: senhora, criança, velho” (Dona Maria Helena Cardoso, Ala das Baianas, Copa Lord)

 
 

Esta visão é reforçada por Márcio de Souza, da Acadêmicos do Samba: “Quem participa da escola de samba geralmente não participa de outros espaços sociais, como movimentos sociais, etc. É a oportunidade que tem de sair do anonimato, de buscar sua auto-afirmação, reconhecimento social e político” Márcio lembra que as camadas populares não tem outras alternativas de lazer, e que a Escola de Samba é o “tema gerador” no ambiente comunitário. A respeito da necessidade de lazer no processo de democratização social afirma PEREIRA: “Negar relevância a um novo estilo de vida das populações urbanas em que o tempo livre e o lazer cobram cada vez maior importância  é um raciocínio de ordem ideológica que estabelece uma hierarquia de valores dando prioridade ao que se julga que a população precisa sobre o que ela realmente deseja”(Boletim Informativo - SESC, julh/set.1983,v.4 nr.15, pág. 23, grifo meu)

 

 
 

A auto-afirmação da comunidade através da projeção da escola de samba  é um fator preponderante para Francisco Manoel Tourinho, da Liga das Escolas de Samba:

 
 
 

Antigamente o pessoal não queria dizer que morava no bairro da Coloninha. Diziam que moravam no Estreito. Porque a fama era de bairro de marginais, então as pessoas tinham medo de ser taxadas. Mas como a escola de samba da Coloninha foi campeã cinco vezes  as pessoas do bairro diziam: bem, se a Coloninha apareceu no município, no Estado, então eu agora já posso dizer que sou Coloninha. Todo mundo vai ver que no bairro da Coloninha não tem só drogas, não tem só assaltante, também tem samba. O carnaval valorizou muito o bairro da Coloninha (grifo meu)

 
 
 

A figura do “malandro” sambista e boêmio foi fartamente combatida pela doutrina do trabalho e da disciplina preconizada pelo governo autoritário de Getúlio Vargas. Neste contexto o sentido do “tempo livre” significava “vadiagem”, marginalidade. PEREIRA alerta para o fato de que, as camadas urbanas empobrecidas vão conquistando o direito ao lazer e ao “tempo livre” como uma conquista social que parte de uma necessidade concreta. É assim que o “malandro e marginal” torna-se progressivamente “cidadão”, freqüentador de escola de samba. “A produção de tempo livre para o lazer tem o caráter de um processo positivo de pressão e conquista em relação ao tempo de trabalho...Assume, assim um estatuto de ser positivo, em contraposição ao conceito mais veiculado de não-trabalho....o valor do lazer que cada vez terá maior importância na sociedade urbana... é no tempo livre que se processa o resgate da individualidade ameaçada” (1983:28) .
 


 
 

A atenção ao  aspecto comunitário é também fundamental para a manutenção do poder político da direção da escola de samba como afirma o compositor Celinho Veloso, da Copa Lord: “Acho que a Copa Lord nunca esteve tão integrada como agora. Porque a diretoria é composta  99 % pelo pessoal do morro. Temos colaboradores que não são do morro mas tem amor pela escola” (Clube do Samba) . 
 
 
 

A escola de samba cumpre também uma função “recuperadora” e preventiva da marginalidade como atesta Telmo dos Santos, da Coloninha: “Com o trabalho da escola de samba, a gente pode tirar as crianças da rua; lá elas tomam lanche, enquanto recortam, colam. E você precisa ver o zelo com que guardam as fantasias, o comportamento, o cuidado .
 
 
 

No contraponto da ênfase no aspecto comunitário está a tendência que se denominou o “branqueamento” das escolas de samba. Entende-se “branqueamento” como a participação cada vez mais numerosa de indivíduos oriundos dos extratos médios, geralmente não-residentes nas comunidades (bairros) onde se localiza a sede da escola  e das elites sociais nos desfiles e mesmo nos quadros internos da escola de samba, fenômeno que já descrevemos e que ocorre também em Florianópolis. Quando se fala em “branqueamento” está exposta a dualidade comunidade versus “pessoal de fora”. Veremos que entre  oposições, dualidades e extremizações, a escola de samba sempre cumpre um papel mediador e regulador, como assinala GOLDWASSER: “A escola analisada (a Mangueira) é uma agência mediadora entre vários pares de oposição: morro/cidade, comunidade/sociedade, estrutura/antiestrutura, etc.” (1975:36) . Nesta tarefa de mediação que cumpre a escola de samba é importante separar essência e aparência: se nos desfiles existe uma superioridade numérica de indivíduos brancos, muitos deles oriundos dos extratos médios, não se pode confundir esta superioridade numérica com superioridade política. As estruturas de poder das escolas de samba apresentam uma complexidade que não pode ser reduzida à participação no desfile. Embora se deva  atentar para a garantia da participação das camadas populares nos desfiles, é necessário avançar para além da aparência e não relacionar diretamente participação nos desfiles com poder político. Para alçar as posições de poder dentro das escolas de samba, há diversas instâncias organizativas que o indivíduo deve galgar até adquirir respeitabilidade no Mundo do Samba. Julgar que os extratos sociais médios e da elite poderiam “tomar de assalto” as escolas de samba é deixar de considerar os inúmeros mecanismos internos de poder político e social  reguladores do Mundo do Samba, e menosprezar a capacidade das camadas populares de exercer hegemonia. A participação de setores médios e de elite é uma aliança realizada em determinado momento histórico por conjugação de interesses cuja luta por hegemonia determinará  a direção política. Este talvez seja o motivo pelo qual alguns sambistas acreditem que seja benéfica a presença de outros extratos sociais nos desfiles: ajuda a promover a escola em termos de amplitude social da base de apoio mas não significa diretamente detenção de poder político. A construção do poder político se dará através de um intrincado e complexo sistema de relações cujo locus principal são principalmente as instâncias internas e algumas instâncias exteriores à escola e não a simples participação nos desfiles. E esta construção de poder político não ocorrerá sem conflitos. Uma situação exemplar é a da escola Protegidos da Princesa que expressa bem a tensão existente em torno da questão comunitária. 
 
 
 

Os conflitos internos que ocorrem há alguns anos na Protegidos da Princesa têm como origem da questão e sua essência a perspectiva comunitária e tem como aparência o antagonismo “velhos x novos”. Para que  não se  confundam essência e aparência, vale lembrar que “O trabalho da consciência crítica é justamente ir mais além das aparências buscando a essência dos fenômenos ou o profundo das coisas e situações e descobrir o porque das aparências” (ARRUDA, 1986:13) .  As críticas feitas pelos “novos dirigentes” à “velha guarda” da escola centra-se nos seguintes pontos: em primeiro lugar, que a “velha guarda” ainda remanescente na diretoria, inclusive  alguns que já nem moravam mais “no morro”, estariam priorizando o “pessoal de fora” da comunidade, por este ter mais poder aquisitivo em relação “ao pessoal do bairro” e que só recorreria a este pessoal para a composição da bateria. Inclusive o bloco União do Mocotó organiza-se como uma alternativa para crianças e jovens dentro de uma perspectiva comunitária. “A comunidade sempre teve vontade de ajudar a Protegidos. Ela se afastou na época porque foi maltratada por ex-presidentes” (Carlão, diretor de carnaval da Protegidos da Princesa e presidente do bloco União do Mocotó, Clube do Samba, 21/01/95) . A queixa da falta de participação da “velha guarda” dirige-se tanto aos ex-dirigentes quanto aos antigos componentes da escola que antigamente atuavam na bateria. Em 1995, o diretor de bateria Camargo censura publicamente o “pessoal mais antigo” por sua ausência nos ensaios:

 
 
 

 “Recado para o pessoal do Morro do Mocotó: quem não ensaiar não vai ter fantasia. Acabou aquele negócio dos caras achar que é craque e não descer para trabalhar. Peço também às baianas que venham dar seu nome, a gente quer dar preferência às baianas mais antigas” (Clube do Samba, 1/2/95) . 


 
 

Neste mesmo ano, o número de baianas ficou abaixo do número oficial previsto pelo regulamento, denotando a ausência de participação da “velha guarda” nos desfiles da escola. Outra crítica à “velha guarda” seria a centralização de poderes, o que impediria a criação de espaços para o crescimento do  sentido coletivo do grupo: 
 
 

“Tem uma  aristocracia, não sei se a palavra é essa, dentro das escolas de samba, é a “velha guarda”. Tem que ter a “velha guarda”, é a base, mas tem que vir novos pensamentos, porque as coisas mudaram. Não é uma questão de idade. A pessoa pode ter cem anos, mas não pode ter um pensamento de cem anos atrás, individualista de que sou eu o dono, sou eu que faço. E alguns só tem interesses financeiros”. (Cacá, Copa Lord, Mont Serrat, ). 

 
 

Moracy Gomes, presidente da Protegidos da Princesa,  resume as novas estratégias adotadas: 
 
 

“O pessoal da bateria diz que é velho, tá calejado. Mas é importante a presença deles na reunião, porque vamos começar um trabalho novo. É uma diretoria nova, mas precisamos da estrutura da “velha guarda”. Nessa hora quem ganha é a família Protegidos”  (Clube do Samba, 21/1/95) .

 
 

O aspecto pedagógico da combinação entre modernidade (“novos”) e tradição (“velha guarda”) está justamente na constante tentativa dos integrantes do Mundo do Samba de manter a coesão social e o consenso, apoiando-se no passado com vistas ao futuro, o que faz com que as escolas de samba consigam adaptar-se constantemente como espaço dinâmico de participação social. A participação opõe-se ao individualismo autoritário como assinala Fleury (1989:29) : “Oposta ao individualismo autoritário ou autocrático é a relação de participação, na qual cada indivíduo se afirma com os outros.....E mesmo divergindo dos outros, é impossível viver isolado. Pode-se viver com ou contra, mas nunca sem os outros”. Além de auxiliar na coesão interna e garantir a continuidade do grupo, a convivência entre modernidade e tradição dentro escola de samba constrói  um espaço de esperança e de  futuro como define Queiróz (1992:183): 
 
 

“Existe porém algo a mais, uma vez que ele [o carnaval] não permanece preso ao passado no sentido de se conservar e durar. Volta-se também para o futuro e está sustentado por esta esperança de uma sociedade diferente que poderá um dia se estabelecer, prá sempre” .

 
 

Outra ação social que a escola de samba pode desenvolver, segundo a opinião dos integrantes do Mundo do Samba, e que vai  para além das ações esporádicas é servir como campo de trabalho alternativo para as camadas populares de origem negra, cuja mobilidade social é ainda bastante restrita. “A escola de samba pode oferecer trabalho principalmente para o negro que tem poucas oportunidades” (Dona Uda Gonzaga, Conselheira da Copa Lord)


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