A
história das escolas de samba demonstra claramente que existem processos
sociais organizativos que as tornam um fenômeno turístico
nacional cujas características têm chamado a atenção
de vários estudiosos da área ao longo dos séculos
XX e XXI. . Sua existência como organização social
carnavalesca com características próprias e únicas,
sua perpetuação no tempo, suas origens sociais e sua composição
cultural representam um amálgama rico de processos que por aí
perpassam, refletindo a história e a cultura do povo brasileiro.
Foto: Cristina
Carriconde
À medida
em que valoriza, transmite, cultiva e reelabora os aspectos fundamentais
da cultura do grupo que a viabilizou, desempenha no Mundo do Samba função
semelhante à das instituições educacionais de uma
dada sociedade (LEOPOLDI, 1978:47)
.
O que vai nos interessar particularmente
no estudo das escolas de samba é o caráter pedagógico
que se desdobra em inúmeros processos nos quais as classes populares
educam-se entre si na relação com os outros a exemplo
da metodologia expressa pelo educador Paulo Freire: “Ninguém
educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo. Os homens se educam
entre si, mediatizados pelo mundo” (1987:69).
Paulo Freire alerta ainda para o fato de que este processo auto-educativo
ocorrerá pela mediação de “objetos cognoscíveis”,
em nosso caso, os variados e múltiplos elementos do Mundo do Samba.
Em
primeiro lugar, é importante entender o conceito de mediação.
Para Cury (1983:43), a “categoria da mediação
expressa as relações concretas e vincula mútua e dialeticamente
momentos diferentes de um todo”. Não se podem compreender os
fenômenos que perpassam pelas escolas de samba sem compreender que
estes fenômenos se inter-relacionam dialeticamente formando uma rede
contraditória que se imbrica mutuamente. Essa teia de relações
é mediada pelas escolas de samba.
É
essa teia de relações que nos permitirá compreender
a complexidade do universo humano que se constrói em torno
das escolas de samba, um dos principais centros do chamado “Mundo do Samba”.
Leopoldi (1978:13) assinala
que “O Mundo do Samba recobre o conjunto das relações
sociais de um grupo considerável de agentes, cuja especificidade
reside na valorização coletiva de um gênero musical
- o samba”.(grifo meu). Goldwasser (1975:103) assim define: “O
chamado Mundo do Samba que se revela de forma tão espetacular no
desfile é para o sambista uma realidade bem palpável, seu
meio próprio e familiar de convivência social”. Leopoldi
chama a atenção para o fato de que o aspecto fundamental
do Mundo do Samba é justamente o contexto em que o samba se insere,
que remete ao ethos
de um grupamento específico. É este ethos que permite
distinguir um sambista, agente do Mundo do Samba de um outro compositor
qualquer; é o “sentimento” de se definir num coletivo relacionado
ao samba que passa a ser, assim, um elemento estratégico de grande
significação na rede das relações vivenciadas,
como verificaremos na Pedagogia da Ação Cultural.
A
configuração do Mundo do Samba, bem como o papel mediador
nos processos pedagógicos cumpridos pela escola de samba, delineará
suas características conforme o momento histórico e o contexto
social em que se inserem. Tentaremos compreender como se desenrola a pedagogia
das escolas de samba de Florianópolis junto aos componentes do Mundo
do Samba.
Em
primeiro lugar, é necessário compreender como se estrutura
o Mundo do Samba em Florianópolis. Os espaços principais
são:
1.
Pontos de encontro consagrados dos sambistas: no ano de 1995, podemos
dizer que estes pontos eram, basicamente, o “Bar do Cal”, o Mercado Público
nos sábados pela manhã (podendo prolongar-se pela tarde)
e os programas radiofônicos destinados a este público, como
a programação transmitida diretamente do Mercado pela
Rádio Guarujá e o freqüentado programa radiofônico
“Clube do Samba”, coordenado pelo jornalista Aldírio Simões.
Funcionou, durante o ano de 1994, a Rádio Cultura, com uma programação
específica para os integrantes do Mundo do Samba: Fontela e “Festinha”,
respectivamente locutor e responsável pela programação
transmitiam diretamente para os morros. Segundo Márcio de Souza,
diretor da Acadêmicos dos Samba,
“Nestes espaços do samba
você vai encontrar muita gente. Ali fazemos política, falamos
da vida, nos apaixonamos, nos casamos”.
Além disso, alguns programas
televisivos buscam de tempos em tempos dar cobertura às atividades
dos sambistas, como o Programa Mulheres, coordenado por Luiza Gutierrez;
também alguns colunistas publicam em jornais locais notas esporádicas
sobre as escolas de samba, como, por exemplo, o colunista Cacau Menezes.
2.
Rodas de Samba e Concursos: outras oportunidades de encontro
de sambistas são as programações que algumas escolas
de samba desenvolvem em suas sedes, geralmente nos finais de semana, com
o objetivo de ajudar a manter as mesmas e, eventualmente, acumular recursos
para contribuir na organização dos desfiles. Há
também concursos e promoções que ocorrem durante o
ano que permitem o encontro de compositores e freqüentadores do Mundo
do Samba. Exemplo destes eventos ocorridos nos anos de 1994 e 1995 são
o Prêmio Zininho de Música, a entrega do troféu
Oscar Berendt
e a inauguração do Museu do Carnaval com o apoio da
Prefeitura Municipal. Também alguns eventos isolados compõem
este universo como, por exemplo, a articulação dos sambistas,
coordenada por Edu Aguiar, da Copa Lord, em torno da gravação
do “CD Ilha” com o apoio de músicos radicados na Áustria;
o “Kizomba”, evento de valorização da cultura afro-brasileira
organizado geralmente por Graça Mello e Jorge Rubinei Vaz
na Escola de Samba Consulado; a organização de um grupo de
sambistas para atuar na organização de uma escola de samba
na cidade francesa de Saint-Etienne. No “Dia da Consciência Negra”,
comemorado a 20 de novembro, ocorrem também múltiplos eventos
de valorização da cultura afro-brasileira.
3.
Fazem parte do Mundo do Samba também as Associações
de Escolas de Samba LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) e ASSECAF
(Associação de Entidades Carnavalescas de Florianópolis)
e a recém-criada COPERCA (Comissão Permanente do Carnaval).
Para adentrar o Mundo do Samba
há um "ritual de iniciação", como demonstra esta declaração
de Carioca, da Filhos do Continente:
“O samba é do meu sobrinho.
Jogamos ele na avenida para apanhar o terreno, tomar caminho”. (Clube do
Samba, 21.01.95)
Há diversos requisitos
para ser considerado um integrante: gostar de samba, freqüentar os
espaços tradicionais onde o samba acontece, freqüentar os eventos
promovidos por seus integrantes, respeitar o código de ética
e moral elaborados pela convivência interna e ter certo tempo cronológico
de freqüência nos ambientes e eventos. O Mundo do Samba
tem como um de seus motores principais as escolas de samba e um dos
ideais mais fortes “salvar o carnaval” e “promover a valorização
do samba”. Grande parte dos indivíduos tem um apelido que
o torna reconhecível pelos outros componentes do grupo.
“Essas agremiações
(as escolas de samba) consistem num veículo de valorização
dos aspectos culturais e sociais específicos daquele universo, consubstanciado
na amalgamação dos ambientes no inicio do século em
que a relação intima com o samba se revelava um denominador
comum” (LEOPOLDI, 1978:13.).
Os espaços do Mundo do
Samba são ocupados durante boa parte do ano, mas
sua movimentação torna-se pública principalmente nos
meses de novembro a março quando se intensificam as programações
das escolas de samba, carros-chefe do Mundo do Samba.
O
Mundo do Samba cumpre um papel fundamental na fabricação
do ideário e na manutenção da memória, da história
e da coesão interna de seus participantes.
Do ponto de vista histórico,
o Mundo do Samba corresponde quase a uma construção mitológica,
povoado de heróis e episódios extraordinários, contados
e recontados pelos sambistas históricos ou autênticos
e
que invariavelmente atravessam as fronteiras entre as Escolas para se transformarem
em patrimônio de todos os sambistas” (GOLDWASSER,
1975:103,
grifo da autora).
Esta construção
mitológica cumpriu um papel fundamental no registro da história
das escolas de samba. Afinal, sua relevância como objeto de estudo
acadêmico data dos finais da década de 1960, início
de 1970. Seus primeiros 40 anos de história foram basicamente registrados
pela memória oral destes sambistas “históricos e autênticos”,
aos quais se refere a autora, e algum registro jornalístico recuperando
esta memória. Apesar da importância social que adquiriram
as escolas de samba, ainda hoje a documentação escrita é
falha, como identifica Goldwasser (1975)
no seu estudo sobre a Escola de Samba Estação Primeira de
Mangueira, do Rio de Janeiro. Este fator agrava-se ainda mais no caso das
escolas de samba de Florianópolis, onde a memória oral ganha
preponderância absoluta e a documentação escrita disponível
nas entidades era completamente insuficiente para a reconstrução
histórica
.
Apesar
da precariedade da documentação formal, um intenso processo
pedagógico desenvolve-se juntamente com o desenrolar
histórico das escolas de samba de Florianópolis que será
objeto central deste artigo. Para entender como esta pedagogia se desenvolve,
consideramos que o ser humano é complexo, multifacetado e que os
processos educativos se desenvolvem coerentemente com esta multiplicidade
de facetas que compõem o universo humano.
“A proposta político-educativa
da práxis, portanto se refere a uma educação omnilateral
e omnidimensional, que abrange todos os campos essenciais da realidade
humana e natural...Omnidimensional, buscando envolver todos os modos e
faculdades de conhecimento que o trabalhador possuir, introduzindo na aventura
de conhecer não apenas o cérebro mas o ser humano integral
como ele é: sentidos do corpo, a mente, a emoção,
a intuição, a vontade, o sentido da Unidade, o espírito”
(ARRUDA, 1988:4).
Entretanto, como lembra Arruda,
a proposta de uma práxis político-educativa integral esbarra
em dificuldades de ordem exterior (os obstáculos políticos,
institucionais e culturais que a ordem instituída tende a levantar
contra ela) e de ordem interior, gestadas pelas próprias contradições
das relações humanas.
Para
se compreender a práxis educativa das escolas de samba de
Florianópolis é necessário descrever suas estruturas
essenciais: a estrutura sóciopolítica que se configura em
torno do carnaval, e o desfile, momento de consagração
máxima desta estrutura organizativa.
Os
elementos do desfile são o resultado de um processo de aprendizado
vivo e dinâmico, que se transmite de geração a geração,
reorganizados e redefinidos constantemente conforme a dinâmica social,
como assinala Queiróz:
“A simples tradição
apenas comunica às gerações novas o que existiu outrora,
incitando-as a repetir sempre os comportamentos considerados estimáveis,
volta-se essencialmente para o passado. O Carnaval brasileiro apresenta
algo mais: encerra também a imagem de uma sociedade alternativa
e desencadeia a ação no sentido de colocá- la no lugar
daquela que existe. Não existiria um mito carnavalesco do qual a
festa seria um rito?” (1992:182).
Para se entender o rito carnavalesco
e, particularmente o rito do desfile da escola de samba é importante
notar que os rituais exprimem as relações sociais que os
engendram. Assim, “os rituais dizem as coisas tanto quanto as relações
sociais. Tudo indica que o problema é que, no mundo ritual, as coisas
são ditas com mais veemência...os rituais seriam instrumentos
que permitem maior clareza às mensagens sociais” (DA MATTA,
1990:69).
Para se compreender as mensagens sociais que os ritos expressam é
necessário compreender sua estrutura. Os elementos do “rito” do
desfile estão assim constituídos
:

GRES
Consulado
Foto: Marco Nunes
1. Comissão de
Frente: Grupo de componentes que tem por finalidade “abrir o tema do
enredo”, apresentando-o ao público. Antigamente a Comissão
de frente era representada pela diretoria que saudava o público
e apresentava a escola.
2. Carro abre-alas:
Carro alegórico simbolizando a escola de samba, surgindo no desfile
logo depois da comissão de frente, informando o tema do enredo .
3. Mestre-sala e Porta-Bandeira:
casal de “anfitriões” da escola. Sua missão é carregar
a bandeira da escola e saudar o público, fazendo evolução.
São escolhidos entre os melhores passistas da escola.
4. Alas :
Grupo de passistas ou pastoras, uniformemente fantasiados, obedecendo a
uma coreografia improvisada, ou não, conforme o enredo que a agremiação
carnavalesca apresenta no desfile. Dentro do sistema administrativo das
escolas de samba, a bateria e os compositores formam grupos autônomos
chamados “alas técnicas”. Uma ala tradicional e obrigatória
é a ala das baianas. No carnaval de 1985, a ala das crianças
tornou-se obrigatória.
5. Ala das Baianas:
geralmente composto pelas sambistas mais idosas e vestidas como no tempo
do Brasil Colônia. Inspiradas nas mulheres migrantes da Bahia para
o Rio de Janeiro nas últimas décadas do século passado,
mais conhecidas por “tias”.
6. Ala dos Compositores:
Grupo de compositores responsável pela criação musical
da escola de samba. Geralmente os compositores recebem um resumo do enredo
para desenvolvê-lo através da letra do samba a ser preparada
para o desfile. Algumas escolas transformam sua ala dos compositores em
departamento musical; às vezes comandam a ‘puxada” do samba
na avenida .
7. Bateria: Grupos
de instrumentistas de percussão responsáveis pelo ritmo da
escola de samba em desfile. À semelhança de uma orquestra,
há momentos em que todos os instrumentos tocam, noutros instantes
apenas um setor fica em ação .
8. Destaque: figura
isolada, viva, fantasiada com luxo e bom-gosto, representando um personagem
de importância no enredo. Sua função é mitificar
um personagem, desfilando de modo a ser notado; às vezes são
pessoas famosas.
9. Grupos de shows:
Grupos de passistas que dão shows isolados com passos fantásticos
e instrumentos.
10. Passistas: Integrantes
de escola de samba que se exibem com total liberdade de movimentos numa
coreografia dominada pelo improviso do malabarismo das pernas. São
os sambistas que “dizem no pé” ou seja, sambam com muita arte.
11. Coordenadores de Harmonia:
Grupo de responsáveis da escola, geralmente incluindo os diretores
que cuidam da “direção” do desfile, percorrendo a avenida
e cuidando do entrosamento do samba cantado com o samba tocado, da evolução
das alas, de modo a que não sobrem espaços vazios no grupo
ou concentração desordenada em outros pontos, da animação
dos desfilantes, etc. É um dos mais importantes setores do desfile.
Inclui todo tipo de tarefas: primeiros socorros, costura de fantasias que
se rompem no momento, distribuição de panfletos na avenida,
contagem de componentes da escola, controle de componentes bêbados
ou em atitudes reprováveis, etc. Nas escolas de samba de Florianópolis
geralmente os grupos de Harmonia compõem-se de cerca de cento e
vinte pessoas
.
Dividimos a Pedagogia das
Escolas de Samba de Florianópolis em temas que nos permitem traçar
um perfil da complexidade do processo. Não se trata de uma categorização,
mas de uma divisão com finalidades analíticas levando em
conta a “omnilateralidade” e a “omnidimensionalidade” dos processos que
perpassam as escolas de samba como “locus” educativos das classes populares.
Os
processos pedagógicos das escolas de samba podem subdividir-se em:
1. Pedagogia
da Ação Social
2. Pedagogia da Ação
Política
3. Pedagogia dos Valores
Morais
4. Pedagogia da Ação
Escolar
5. Pedagogia
da Ação Cultural
6. Pedagogia da Arte
Para se entender as possibilidades
pedagógicas da organização das escolas de samba de
Florianópolis, deve-se levar em conta que “a produção
do saber e da cultura é um momento de práxis social enquanto
fazer humano de classes sociais contraditórias”. (Arruda, apud:
GOMEZ , 1987:80)
E esta luta pela construção do saber e da cultura é
um modo que encontram as classes populares para entrarem na história
como sujeitos e cidadãos, já que as elites dominantes, como
lembra o autor, tentam reduzir os espaços educativos das classes
trabalhadoras aos poucos anos em que estas permaneceram na escola formal.
Referindo-se às possibilidades de educação das classes
trabalhadoras fora do espaço exclusivo da escola formal, nos seus
espaços informais de educação, afirma ARRUDA: “Há
uma pedagogia em marcha. Na prática social enquanto prática
produtiva, organizativa, se faz cultura, o povo se educa e se forja, se
torna ser social consciente. Hoje há todo um vigor na sociedade
brasileira, uma energia política que tem uma dimensão pedagógica
e cultural” (Arruda apud: GOMEZ et alii, 1987:80
).
As
escolas de samba também ocupam espaços sociais onde as classes
populares educam-se, tornam-se conscientes, vivem conflitos e contradições
e fazem cultura.
A
PEDAGOGIA DA AÇÃO SOCIAL
“Porque dizem que
tem que ter verba prá saúde, prá hospital, que carnaval
não é prioridade, prioridade é comida, estas coisas.
Claro que tem. Mas acontece que o carnaval, prá nós
é vida, é saúde. Porque uma pessoa estressada,
precisa botar prá fora.. Carnaval é coisa de Deus porque
são as expressões do nosso povo, sem maldade, espontâneas
e os governos tem que entender que a escola de samba prá nós
que somos pobre é uma necessidade humana. Senão vai haver
muito mais agressão e violência. E a gente que vive na opressão,
tem que ter escola de samba pra ter um lazer também”. (Dona Darci,
moradora do Mont Serrat, professora e componente da Copa Lord
.)
A
Pedagogia da Ação Social das escolas de samba desenvolve-se
em duas vertentes: a primeira delas, o ato de viver em comunidade. A segunda,
perceber o desenvolvimento de sua vida em comunidade em constante
interação com o social, que envolve uma gama ampla de relações
que estão para além da comunidade e que implica em conviver
com o diferente num processo de construção plural e
diversa. Dentro desta concepção, o conhecimento é
oriundo da prática social que se gesta no coletivo da comunidade
e na relação com o “exterior” a ela:
“No plano social-histórico
a dimensão aparentemente estática e isolada dos seres humanos
e dos acontecimentos esconde o fato de que o ser humano é essencialmente
processo, relação” (ARRUDA,1988:10).
Como lembra Goldmann (1967:18),
“O sujeito da ação
é um grupo, um Nós, mesmo se a estrutura atual da sociedade
pelo fenômeno da reificação tende a encobrir este Nós
e a transformá-lo numa soma de várias individualidades distintas
e fechadas uma às outras. Há entre os homens uma outra relação
possível além da relação sujeito e objeto...
é uma relação de comunidade que chamaremos Nós”
(grifo do autor) .
A estratégia de ação
social está montada em uma estrutura administrativa que tenta
responder a estas necessidades. A estrutura administrativa conterá
os seguintes elementos, com variações de escola a escola
conforme o momento e o jogo de forças em questão :
1.
Diretoria Executiva: é a direção em si, responsável
pelo conjunto da escola. É a força política maior
dentro da escola e sua representação oficial. Compõe-se
de presidente, vice-presidente, primeiro e segundo tesoureiros, primeiro
e segundo secretários e um responsável pelas relações
públicas. Agrega-se à diretoria o Conselho Deliberativo,
o Conselho Fiscal e o Departamento Feminino.
2.
Diretoria de Carnaval: compõe-se do grupo que assume a direção
da organização dos desfiles. Na época do carnaval,
é a que mais atua. Dela fazem parte a assessoria de planejamento
e supervisão, o carnavalesco, o grupo de enredo, figurinista, responsável
pela criação de carros e alegorias, diretor de fantasias
e adereços, diretor de destaques, de comissão de frente,
de mestre-sala e porta-bandeira, de harmonia, de alas, de galpão,
da ala de compositores e da bateria.
3.
Além destas duas instâncias, existem os sócios, que
também integram a estrutura institucional da escola, cumprindo
um papel de base de apoio para as instâncias diretivas.
Viver
em comunidade é o elemento-chave do universo simbólico
dos componentes das escolas de samba de Florianópolis. “Isto nos
leva a crer que não só a sede da agremiação
carnavalesca mas ainda o espaço físico, mais amplo, isto
é, o bairro em que se desenvolve sua atividade constituem elementos
básicos de sua própria definição”. (LEOPOLDI,1978:46)
. Como se sabe, várias escolas de samba têm atuado no
sentido de manter a identidade comunitária como o elemento-chave
indispensável para a vitória e continuidade da agremiação.
As escolas de samba que não tinham base comunitária buscaram
construí-la, como no caso da Consulado. As mais tradicionais buscam
reavivá-la, como Copa Lord e Coloninha. Outras ainda vivem embates
internos buscando solidificar seu sentido comunitário, enfraquecido
pela saída da “velha guarda”
da comunidade, como a Protegidos. Outras ainda, como a Filhos do Continente,
buscam apoio em “amigos” e “familiares” que possam reforçar seu
sentido grupal. Aliás, o sentido comunitário freqüentemente
se imbricará com o familiar: às vezes o termo “família”
é utilizado para se referir à comunidade organizada em torno
da escola de samba: família Protegidos, família Copa Lord,
etc. Além de ajudar a manter a coesão interna e o espírito
de solidariedade, esta denominação tem sua explicação
também na origem das escolas de samba, cujos ensaios e montagem
de fantasias ocorriam sempre na casa dos organizadores, fazendo com que
o ambiente familiar fosse a célula geradora da organização
social da escola de samba.
Pode-se
afirmar que as escolas de samba aprenderam, reelaboram o aprendizado e
transmitem em cadeia, de geração a geração
o sentido máximo do processo libertador da educação
que enuncia Paulo Freire: (1987:70)
“ a educação como prática da liberdade...implica
a negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado do
mundo...A reflexão que propõe..é sobre os homens em
suas relações com o mundo”.
A
preocupação comunitária é abertamente expressa
por seus componentes como, por exemplo, o ex-presidente da Coloninha, Telmo
dos Santos, para quem o percentual cedido pela Prefeitura deve auxiliar
justamente as alas da comunidade que não têm condições
de arcar com os custos de sua fantasia, para não correr o risco
de deixar de fora justamente aqueles que são a “alma” da escola
de samba. A ênfase no aspecto comunitário como fator
de coesão interna também é preocupação
de Eronildo Crispim de Souza, o Dica, morador do Mont Serrat e integrante
da Copa Lord desde criança. Para ele, as escolas deveriam
funcionar durante todo o ano, oferecendo alternativas de lazer e cultura
para a comunidade:
Desfile de Carnaval - Rio
de Janeiro, Brasil
“A escola de samba
é uma necessidade para a comunidade, que fala de carnaval o ano
inteiro, diferente do resto da sociedade que só se interessa pelo
momento do carnaval. Se não houver desfile de escola de samba, dá
um vazio na comunidade, as pessoas ficam doentes, muita tristeza. O carnaval
é a alimentação da comunidade. O pessoal do morro
desce para a praça, para os ensaios, é vida” .
“O dirigente
tem que estar na base, na comunidade. A escola de samba não pode
se preocupar só em colocar o carnaval na rua, tem que fazer um trabalho
o ano todo” (Graça Mello, coordenadora do trabalho comunitário
da Consulado, em (Clube
do Samba, 13/11/94) ).
Para Carlos Alberto, o Cacá,
participante do grupo comunitário Pinheiros e também morador
do Mont Serrat, a grande vantagem do desfile em relação ao
carnaval de rua é seu aspecto comunitário:
“É
muito mais cultural. Uma grande parte da comunidade quer expressar sua
cultura. Você precisa ver a transformação da comunidade
dois, três meses antes do carnaval, tem mais disposição,
nem parece que tem tantos problemas” .
“A Copa Lord
é a alma da comunidade, é um pedaço dela. Deus o livre
quando a Copa ganha: desce o morro tudo festejando: senhora, criança,
velho” (Dona Maria Helena Cardoso, Ala das Baianas, Copa Lord)
.
Esta visão é
reforçada por Márcio de Souza, da Acadêmicos do Samba:
“Quem participa da escola de samba geralmente não participa de
outros espaços sociais, como movimentos sociais, etc. É a
oportunidade que tem de sair do anonimato, de buscar sua auto-afirmação,
reconhecimento social e político”.
Márcio lembra que as camadas populares não tem outras alternativas
de lazer, e que a Escola de Samba é o “tema gerador” no ambiente
comunitário. A respeito da necessidade de lazer no processo de democratização
social afirma PEREIRA: “Negar relevância a um novo estilo de vida
das populações urbanas em que o tempo livre e o lazer cobram
cada vez maior importância é um raciocínio de
ordem ideológica que estabelece uma hierarquia de valores dando
prioridade
ao que se julga que a população precisa sobre o que ela realmente
deseja”(Boletim Informativo - SESC, julh/set.1983,v.4
nr.15, pág. 23, grifo meu)
.
A
auto-afirmação da comunidade através da projeção
da escola de samba é um fator preponderante para Francisco
Manoel Tourinho, da Liga das Escolas de Samba:
Antigamente o pessoal não
queria dizer que morava no bairro da Coloninha. Diziam que moravam no Estreito.
Porque a fama era de bairro de marginais, então as pessoas tinham
medo de ser taxadas. Mas como a escola de samba da Coloninha foi campeã
cinco vezes as pessoas do bairro diziam: bem, se a Coloninha apareceu
no município, no Estado, então eu agora já posso dizer
que sou Coloninha. Todo mundo vai ver que no bairro da Coloninha não
tem só drogas, não tem só assaltante, também
tem samba. O carnaval valorizou muito o bairro da Coloninha (grifo
meu) .
A figura do “malandro” sambista
e boêmio foi fartamente combatida pela doutrina do trabalho e da
disciplina preconizada pelo governo autoritário de Getúlio
Vargas. Neste contexto o sentido do “tempo livre” significava “vadiagem”,
marginalidade. PEREIRA alerta para o fato de que, as camadas urbanas empobrecidas
vão conquistando o direito ao lazer e ao “tempo livre” como uma
conquista social que parte de uma necessidade concreta. É assim
que o “malandro e marginal” torna-se progressivamente “cidadão”,
freqüentador de escola de samba. “A produção de tempo
livre para o lazer tem o caráter de um processo positivo de pressão
e conquista em relação ao tempo de trabalho...Assume, assim
um estatuto de ser positivo, em contraposição ao conceito
mais veiculado de não-trabalho....o valor do lazer que cada vez
terá maior importância na sociedade urbana... é no
tempo livre que se processa o resgate da individualidade ameaçada”
(1983:28) .
A
atenção ao aspecto comunitário é também
fundamental para a manutenção do poder político da
direção da escola de samba como afirma o compositor Celinho
Veloso, da Copa Lord: “Acho que a Copa Lord nunca esteve tão
integrada como agora. Porque a diretoria é composta 99
% pelo pessoal do morro. Temos colaboradores que não são
do morro mas tem amor pela escola” (Clube
do Samba) .
A
escola de samba cumpre também uma função “recuperadora”
e preventiva da marginalidade como atesta Telmo dos Santos, da Coloninha:
“Com o trabalho da escola de samba, a gente pode tirar as crianças
da rua; lá elas tomam lanche, enquanto recortam, colam. E você
precisa ver o zelo com que guardam as fantasias, o comportamento, o cuidado”
.
No
contraponto da ênfase no aspecto comunitário está a
tendência que se denominou o “branqueamento” das escolas de samba.
Entende-se “branqueamento” como a participação cada vez mais
numerosa de indivíduos oriundos dos extratos médios, geralmente
não-residentes nas comunidades (bairros) onde se localiza a sede
da escola e das elites sociais nos desfiles e mesmo nos quadros internos
da escola de samba, fenômeno que já descrevemos e que ocorre
também em Florianópolis. Quando se fala em “branqueamento”
está exposta a dualidade comunidade versus “pessoal de fora”. Veremos
que entre oposições, dualidades e extremizações,
a escola de samba sempre cumpre um papel mediador e regulador, como assinala
GOLDWASSER: “A escola analisada (a Mangueira) é uma agência
mediadora entre vários pares de oposição: morro/cidade,
comunidade/sociedade, estrutura/antiestrutura, etc.” (1975:36)
. Nesta tarefa de mediação que cumpre a escola de samba é
importante separar essência e aparência: se nos desfiles existe
uma superioridade numérica de indivíduos brancos, muitos
deles oriundos dos extratos médios, não se pode confundir
esta superioridade numérica com superioridade política. As
estruturas de poder das escolas de samba apresentam uma complexidade que
não pode ser reduzida à participação no desfile.
Embora se deva atentar para a garantia da participação
das camadas populares nos desfiles, é necessário avançar
para além da aparência e não relacionar diretamente
participação nos desfiles com poder político. Para
alçar as posições de poder dentro das escolas de samba,
há diversas instâncias organizativas que o indivíduo
deve galgar até adquirir respeitabilidade no Mundo do Samba. Julgar
que os extratos sociais médios e da elite poderiam “tomar de assalto”
as escolas de samba é deixar de considerar os inúmeros mecanismos
internos de poder político e social reguladores do Mundo do
Samba, e menosprezar a capacidade das camadas populares de exercer hegemonia.
A participação de setores médios e de elite é
uma aliança realizada em determinado momento histórico por
conjugação de interesses cuja luta por hegemonia determinará
a direção política. Este talvez seja o motivo pelo
qual alguns sambistas acreditem que seja benéfica a presença
de outros extratos sociais nos desfiles: ajuda a promover a escola em termos
de amplitude social da base de apoio mas não significa diretamente
detenção de poder político. A construção
do poder político se dará através de um intrincado
e complexo sistema de relações cujo locus principal são
principalmente as instâncias internas e algumas instâncias
exteriores à escola e não a simples participação
nos desfiles. E esta construção de poder político
não ocorrerá sem conflitos. Uma situação exemplar
é a da escola Protegidos da Princesa que expressa bem a tensão
existente em torno da questão comunitária.
Os
conflitos internos que ocorrem há alguns anos na Protegidos da Princesa
têm como origem da questão e sua essência a perspectiva
comunitária e tem como aparência o antagonismo “velhos x novos”.
Para que não se confundam essência e aparência,
vale lembrar que “O trabalho da consciência crítica é
justamente ir mais além das aparências buscando a essência
dos fenômenos ou o profundo das coisas e situações
e descobrir o porque das aparências” (ARRUDA,
1986:13)
. As críticas feitas pelos “novos dirigentes” à “velha
guarda” da escola centra-se nos seguintes pontos: em primeiro lugar, que
a “velha guarda” ainda remanescente na diretoria, inclusive alguns
que já nem moravam mais “no morro”, estariam priorizando o “pessoal
de fora” da comunidade, por este ter mais poder aquisitivo em relação
“ao pessoal do bairro” e que só recorreria a este pessoal para a
composição da bateria. Inclusive o bloco União do
Mocotó organiza-se como uma alternativa para crianças e jovens
dentro de uma perspectiva comunitária. “A comunidade sempre teve
vontade de ajudar a Protegidos. Ela se afastou na época porque foi
maltratada por ex-presidentes” (Carlão, diretor de carnaval
da Protegidos da Princesa e presidente do bloco União do Mocotó,
Clube
do Samba, 21/01/95) . A queixa da falta de participação
da “velha guarda” dirige-se tanto aos ex-dirigentes quanto aos antigos
componentes da escola que antigamente atuavam na bateria. Em 1995, o diretor
de bateria Camargo censura publicamente o “pessoal mais antigo” por sua
ausência nos ensaios:
“Recado para o pessoal
do Morro do Mocotó: quem não ensaiar não vai ter fantasia.
Acabou aquele negócio dos caras achar que é craque e não
descer para trabalhar. Peço também às baianas que
venham dar seu nome, a gente quer dar preferência às baianas
mais antigas” (Clube do
Samba, 1/2/95) .
Neste mesmo ano, o número
de baianas ficou abaixo do número oficial previsto pelo regulamento,
denotando a ausência de participação da “velha guarda”
nos desfiles da escola. Outra crítica à “velha guarda” seria
a centralização de poderes, o que impediria a criação
de espaços para o crescimento do sentido coletivo do grupo:
“Tem uma aristocracia,
não sei se a palavra é essa, dentro das escolas de samba,
é a “velha guarda”. Tem que ter a “velha guarda”, é a base,
mas tem que vir novos pensamentos, porque as coisas mudaram. Não
é uma questão de idade. A pessoa pode ter cem anos, mas não
pode ter um pensamento de cem anos atrás, individualista de que
sou eu o dono, sou eu que faço. E alguns só tem interesses
financeiros”. (Cacá, Copa Lord, Mont Serrat, ).
Moracy Gomes, presidente
da Protegidos da Princesa, resume as novas estratégias adotadas:
“O pessoal da bateria
diz que é velho, tá calejado. Mas é importante a presença
deles na reunião, porque vamos começar um trabalho novo.
É uma diretoria nova, mas precisamos da estrutura da “velha guarda”.
Nessa hora quem ganha é a família Protegidos” (Clube
do Samba, 21/1/95) .
O aspecto pedagógico
da combinação entre modernidade (“novos”) e tradição
(“velha guarda”) está justamente na constante tentativa dos integrantes
do Mundo do Samba de manter a coesão social e o consenso, apoiando-se
no passado com vistas ao futuro, o que faz com que as escolas de samba
consigam adaptar-se constantemente como espaço dinâmico de
participação social. A participação opõe-se
ao individualismo autoritário como assinala Fleury (1989:29)
: “Oposta ao individualismo autoritário ou autocrático
é a relação de participação, na qual
cada indivíduo se afirma com os outros.....E mesmo divergindo dos
outros, é impossível viver isolado. Pode-se viver com ou
contra, mas nunca sem os outros”. Além de auxiliar na coesão
interna e garantir a continuidade do grupo, a convivência entre modernidade
e tradição dentro escola de samba constrói um
espaço de esperança e de futuro como define Queiróz
(1992:183):
“Existe porém
algo a mais, uma vez que ele [o carnaval] não permanece preso ao
passado no sentido de se conservar e durar. Volta-se também para
o futuro e está sustentado por esta esperança de uma sociedade
diferente que poderá um dia se estabelecer, prá sempre” .
Outra ação
social que a escola de samba pode desenvolver, segundo a opinião
dos integrantes do Mundo do Samba, e que vai para além das
ações esporádicas é servir como campo de trabalho
alternativo para as camadas populares de origem negra, cuja mobilidade
social é ainda bastante restrita. “A escola de samba pode oferecer
trabalho principalmente para o negro que tem poucas oportunidades”
(Dona Uda Gonzaga, Conselheira da Copa Lord)
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