No
ensaio de Joseph
Pieper intitulado In tune with the world ,
o autor discute doze características da festividade. Este texto
apontará tais características e as adotará para analisar
o filme “. A Festa de Babette ”
a fim de tornar mais clara a compreensão da natureza festiva do
filme.
Uma
importante característica da festividade é sua excepcionalidade.
Para as festas serem verdadeiramente festivas, elas precisam se colocar
fora do costumeiro. Elas precisam quebrar a monotonia da vida diária.
Babette, definitivamente, alcança isso com sua festa. O jantar que
ela prepara para as pessoas do lugar é, muito provavelmente, uma
ocorrência única em suas vidas.
Outro elemento é a espontaneidade.
A festa foi cheia de espontaneidade. Babette simplesmente decidiu realiza-la
e tudo de que precisou foi a permissão das irmãs. Também
não tinha sido planejada pelo General Lorens Lowenhielm a visita
depois de tantos anos e simultaneamente à ocorrência da festa.
Pieper também aponta
a necessidade de extrair o melhor de cada situação. As festas
podem fazer emergir a valorização de alguma coisa
perdida, como o Dia dos Veteranos. No caso d'A Festa de Babette, Babette
preparou a festa em homenagem ao pai das irmãs. O pai delas havia
sido o ministro da escassamente povoada cidade do interior e todos o respeitavam
e amavam extremamente.
Outro aspecto da festividade
diz respeito às artes servis. São as atividades nas quais
nos engajamos para nos manter, mais comumente chamadas de trabalho. Pieper
propõe que a significância da festividade deve repousar
puramente em si mesma, diferentemente do trabalho realizado por razões
outras que apenas as do próprio trabalho. No filme esta idéia
é, de certa forma, invertida. Babette encontra a festividade exatamente
naquilo que ela faz todos os dias do ano: cozinhar. A diferença
é que, desta vez, ela prepara um “jantar francês”, o que lhe
oferece a oportunidade de uma fuga total de sua rotina.
O quinto ponto envolve qualidade
além de quantidade. Pieper fala da visio beatifica –
estado no qual alguém frui de tal modo o momento que perde a perspectiva
da passagem do tempo. O clichê moderno “o tempo voa, quando você
está se divertindo” aplica-se a situações como estas.
De fato, durante a festa, no filme, os convidados para o jantar travam
um diálogo muito curto enquanto saboreiam os deliciosos pratos que
Babette prepara para eles.
Cena de A Festa de
Babette
Contemplação
é outra qualidade da festividade. Ela se liga ao ponto anterior.
Quando se experimenta verdadeiramente o significado da festa, experimentam-se
insights e momentos de iluminação. Compreende-se o que está
unindo as pessoas em celebração harmoniosa.
Renúncia é
a próxima característica da festividade. Pieper declara que
o sacrifício, ou a recusa ao proveito utilitário como essencial,
é próprio da festividade. Em muitas religiões e culturas
as pessoas sacrificariam animais para seus deuses ainda que elas mesmas
estivessem famintas. Babette realiza o maior sacrifício quando gasta
todo o seu prêmio de loteria na festa, em vez de voltar para a França
e viver confortavelmente
.
O próximo elemento, excesso,
também se relaciona com o anterior. Esbanjamento é
a chave da festividade. Não deveria haver limites nas festas e preocupações
sobre os custos ficam longe do aspecto antiutilitário da festividade.
O excesso também é atingido na festa de Babette ao
serem esbanjados os vinhos e comidas mais finos.
Uma necessidade da festividade
é
amor. “Onde o amor viceja, há festividade”, como
disse Chrysostom uma vez e Pieper relembra em seu ensaio. Muitos tipos
de amor podem estar representados. Por exemplo, o amor de Babette pelas
pessoas da cidade, que a acolheram quando ela não tinha nada, a
motivou. Ela também distribuiu amor com sua habilidade para transformar
um jantar em uma espécie de “caso de amor”. O amor de todos pelo
pai das irmãs foi a razão para o jantar em primeiro lugar.
E o amor de longa data do general Lowenhielm por Philippa foi o fator motivador
por trás de seu retorno.
Fruição
é a próxima característica. Ela pode ser atingida
de várias formas, normalmente por meio do canto e da dança.
No filme, após a festa, todos vão para a sala de estar. Martina
toca o piano enquanto os outros sentam em contemplação ou
partilham suas reflexões sobre o dia. É uma ocasião
solenemente alegre. Na saída, todos se juntam num círculo
e cantam um hino, mostrando sua singular alegria com o que se despedem
da festa.
Cena de A Festa de Babette
A memória também
representa um importante papel na festividade. Quando todos percebem a
ligação que os colocou juntos naquele dia, cada um deles
partilha suas memórias e casos de tempos idos e o passado se faz
presente por meio de suas memórias. Por exemplo, um convidado relembra
o tempo em que o ministro predissera o congelamento das águas de
tal forma que ele poderia cruza-las a pé para dar um sermão
de Natal para uma cidade através do fiorde.
O ingrediente final da festividade
é a afirmação
do mundo. Pieper faz uma citação de Nietzsche: “Para
ter alegria em qualquer coisa, precisa-se aprovar tudo”. Pieper explica
que fundamentando a festividade deve haver uma “afirmação
universal estendendo-se para o mundo, para a realidade das coisas e existência
do próprio homem”. De acordo com ele, o homem não pode aceitar
uma coisa como boa a não ser que “o mundo e existência representem
algo bom e, portanto, amado por ele”. N`A Festa de Babette, as irmãs
e as pessoas da cidade tiveram muitas reservas quanto à festa. Elas
nem mesmo sabiam o que iriam comer. Não a aprovaram, a princípio,
porque não lhes era familiar. Finalmente, a festa foi um imenso
sucesso e uma afirmação da bondade inerente à própria
existência.
Antropóloga
Estudante.
Este pequeno texto, cujo título original é “The
Festivity Behind the Feast”, foi traduzido a partir de uma página
da Universidade de Notre-Dame, acessada em 29 de janeiro de 2006, no URL
http://www.nd.edu/~dluedtke/Theology/festivitybehindfeast.htm, posteriormente,
excluída do site pela Universidade, em razão de sua autoria
ser desconhecida. Optamos por traduzi-lo, ainda assim, devido
ao seu caráter sintetizador das proposições de Pieper
e por sua aplicação ao filme que, na época do
lançamento, suscitou várias discussões entre
especialistas a respeito de se o banquete realizado e oferecido por Babette
poderia ou não ser classificado como festa.[N.T.]
In
Tune With the World: A Theory of Festivity, de Josef Pieper. St. Augustine's
Press, 1965.[N.T.]
A
Festa de Babette (1987), filme de Gabriel Axel, baseado em um conto
de Isak Dinessen (pseudônimo de Karen Blixen) , delineia o
passado e o presente dos personagens de forma delicada. Durante os conflitos
da Comuna de Paris (1871), Babette, cozinheira do palácio francês
e, ao que tudo indica, ativista revolucionária (interpretada por
Stéphane Audran), refugia-se num pequeno povoado da Dinamarca, hospedando-se
na casa das irmãs Matina e Philippa, filhas do falecido pastor luterano
e líder religioso do vilarejo. Sob a influência do rigoroso
pastor e pai, as irmãs conduzem suas vida sob uma rotina religiosa,
sacrificando paixões e desejos em nome da fé e das obrigações,
honrando o compromisso que tinham de manter vivos os ensinamentos cristãos
entre habitantes da pequena cidade. Durante catorze anos Babette vive como
criada e cozinheira das irmãs, limitada e esquecida na rotina. Um
dia, entretanto, Babette é informada de que ganhara um prêmio
elevado na loteria e, ao invés de retornar à França,
pede permissão às duas irmãs para preparar um jantar
em comemoração ao centésimo aniversário do
falecido pastor. Começa, a partir deste momento, uma série
de explosões visuais numa cadeia de devoração
/ degustação que suspende os sentidos, violando as leis e
a lógica vigentes na comunidade para se fazer apenas a transgressão
festiva. [N.T.]
Para oferecer um banquete como os que realizava na França
Babette importa para a pequena aldeia não apenas os mais finos (e
caros) ingredientes, bebidas e especiarias mas, também, delicados
cristais, porcelanas, requintada prataria, toalhas e guardanapos, candelabros,
velas etc [N.T.]
Webgrafia
Rubem Alves
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