Vencendo a intolerância: murmúrio de uma festa afro-brasileira
Ivete Miranda Previtalli

Doutoranda do Programa de Ciências Sociais da PUC-SP.


 

A Festa - Foto: Ivete Previtalli, s/d.



 
 
 
 
 

A festa é fundamental para os grupos de candomblé. É neste momento que deuses e homens se confraternizam, por meio da música, da dança e da comida. Como a mais expressiva instituição dessa religião, a quizomba, que é a festa no candomblé angola, semelhante ao xirê dos candomblés queto é, segundo Rita Amaral, o resultado da visão de mundo dessa expressão religiosa, porque nela encontramos, concomitantemente, “a religião, a economia, a política, o prazer, o lazer, a estética, a sociabilidade” (2002; p. 30) entre outras relações sociais. Pode ser classificada, de acordo com o conceito de Marcel Mauss como um “fato social total”. É Amaral, ainda, quem escreve que: “A vivência da religião e da festa é tão intensa que acaba marcando de modo profundo o gosto e a vida cotidiana do povo-de-santo. A religião passa a se confundir com a própria festa”. (2002, p.30)
 
 
 

Por ser a festa o próprio candomblé, é por meio dela que o candomblé angola vai se mostrar na praça da Catedral Metropolitana de Campinas. Embora a Lavagem de Campinas, em São Paulo, se efetive diferentemente da de Salvador, na Bahia, foi mediante o conhecimento da dramatização realizada no Bonfim que uma das mametos  desejou realizar a Lavagem de Campinas. Em  seu depoimento ela conta: “fui para Salvador assistir à Lavagem [das escadarias da igreja de N. Sr. do Bonfim] porque quando eu morava lá sempre ia... quando eu cheguei de lá queria muito fazer aquela Lavagem...” (mameto Corajacy)

 
 
 

Em virtude de hoje serem as sacerdotisas do candomblé as protagonistas do ritual de Lavagem do Bonfim, em Salvador, muitos pensam que esse rito foi criado pelo povo dos terreiros. Mas, conforme pesquisa realizada por Ordep Serra, trata-se de uma velha tradição ibérica  que na Bahia combinou-se à lógica do culto do candomblé, segundo a qual foi reinterpretada.“(2000, p.71)”. Segundo esse autor, esse era um ritual comum em Portugal, onde se realizava dentro das igrejas a propósito do pagamento de graças concedidas pelo santo de invocação e padroeiro da igreja. No Brasil esse rito era realizado por devotos que lavavam não só as escadarias, mas todo a chão da igreja. Conforme descrições do século XIX sugerem, o término da lavagem resultava numa espécie de carnaval dentro do santuário. Ordep Serra escreve que em “1889 o arcebispo dom Luiz Antonio de Sousa proibiu a Lavagem da basílica do Bonfim (2000, p. 71). Porém, a proibição teve conseqüências não previstas, uma vez que cerrada a porta da igreja o candomblé surgiu como “via disponível para o sacramento” e reinterpretou a lavagem segundo seus mitos  agora se reduzindo às escadas.

 
 
 

De acordo com a interpretação do mesmo autor, a identificação do Senhor do Bonfim com Oxalá se deu porque Oxalá era cultuado, na África, no alto das colinas, pois ele é o orixá criador e o pai de todos os orixás. Ordep Serra escreve: 

 
 
[...] segundo o seu mito, quando Oxalá fez emergir a terra do seio das águas do primórdio, despontou primeiro uma elevação, considerada o “umbigo do mundo”. É Oxalá o senhor do monte sagrado e também das águas fecundas, festejado com ritos lustrais... ritos que se caracterizam, nos terreiros do candomblé, por uma serena solenidade”. ( 2000; p.72).
 
 
Como a igreja do Bonfim fica no topo de uma colina, as baianas passaram a realizar um rito religioso que é uma “celebração do sagrado na fronteira do profano” (2000; p.73). Esta festividade tornou-se, com o tempo, muito popular e um paradigma para outras iniciativas em todo o país. Entretanto, se a Lavagem da Catedral Metropolitana de Campinas nasceu do desejo de uma mameto de realizar um rito semelhante ao existente em Salvador, trilhou uma história muito diferente desta primeira.
 
A Festa da Lavagem em Campinas 
 
Articulada por duas mães-de-santo, a festa da Lavagem em Campinas começou a ser pensada por causa da aspiração de mameto Corajacy de levar o candomblé para a rua, como é feito em Salvador, na Lavagem do Bonfim. Além disso,  um ato de preconceito contra o candomblé, cometido contra mameto Dangoroméia na mesma praça onde hoje é realizada a festa, também foi motivo de interesse dessa sacerdotisa em realizar tal rito na praça da catedral. 
 
 
 

Mameto Dangoroméia conta:

 
 
 [...] Eu era conserva, na época chamada laranjinha .Aí eu me iniciei... Eu tinha um uniforme, mas tinha que pôr branco por baixo. Eu punha meus mijeloguns ... (os meus fios de contas) e o ojá  na cabeça ( porque eu estava careca) e punha meu chapeuzinho por cima, e ia trabalhar. Eu tomei seis meses de obrigação. Três meses de “migui de muzala” ... Porque eu sou de Angorô , então minha mãe me deu seis meses de obrigação. E aí eu tinha que trabalhar... Eu tinha muita amizade com um engraxate, ali. Um dia eu ali, varrendo, tomei um tamanho tapa no bumbum que eu caí em cima do engraxate. Esse homem disse assim: Sua feiticeira, isso, aquilo e me xingou de outros nomes. Eu caí e ele correu [...] Aí eu comecei a chorar. Fiquei tão nervosa e olhei, assim, na igreja, e aí eu falei: 'Olha, minha santa Nossa Senhora da Conceição, a senhora me viu em perigo... Se a Senhora é de verdade... Se a Senhora representa a Iemanjá de nossa religião... (naquela época não conhecia Caiá )... eu vou entrar aí [referia-se a lavar o adro da igreja]. Essa é a única coisa que eu falo pra Senhora. Porque esse mistério desse preconceito tem que acabar'. Campinas foi a última que aderiu à abolição, entre aspas. E continuei varrendo. Tinha que trabalhar”.(mameto Dangoroméia)
 
 
Do preconceito nasceu o pacto com a santa que tinha algo do orixá e que também era inquice. Naquele momento a mãe-de-santo, além de mulher, pobre, negra, era também a feiticeira, aglutinando uma gama de atributos pejorativos outorgados pela sociedade branca, cristã e masculina representada pelo homem que a agredira na praça. Mãe Corajacy também era “laranjinha” e tinha o sonho de trazer o candomblé para a rua a fim de ser reconhecida pelo poder que sua iniciação lhe concedera como mãe-de-santo.Note-se que sair do barracão da periferia, tornar o candomblé visível e ser reconhecido como religioso é sair do âmbito da magia e ir para o da religião; é deixar de ser feiticeiro, charlatão para se tornar sacerdote.
 
 
 

Certo dia reuniram-se as duas mametos em frente à catedral, ambas varredoras de rua, com o objetivo de obterem o reconhecimento religioso. Planejavam fazer a Lavagem. Por intermédio de uma amiga influente, conversaram com repórteres e comunicaram-lhes a vontade de fazer a Lavagem da catedral.  Segundo mameto Dangoroméia e mameto Corajacy, mais que uma conversa, houve um debate. Afinal, diz mameto Dangoroméia: “o jornalista retrucava, porque... Cidade das andorinhas... é, é, (como é que se fala?) invadida por feiticeiros baianos, mineiros... Ah menina, foi uma luta!” (mameto Dangoroméia) .

 
 
 

Finalmente, com a imprensa convencida, impôs-se uma conversa formal com a Igreja católica, ficando de um lado as duas mães-de-santo, mulheres, negras e do candomblé e, de outro, o bispo, representando a Igreja, pois, para que pudessem dançar candomblé em praça “pública” teriam que pedir licença ao bispo; afinal, a escada era da Catedral. Foi uma conversa tensa, difícil, conta mameto Dangoroméia: 
 
 
 
 
 

[...] Aí eu fui falar com Dom Gilberto. Ele demorou muito para me atender. E aí, graças aos deuses, ele me atendeu. Eu fui falar com ele e ele me questionou muito. Falou que eu estava misturando a igreja dele com aquela história de santos, que todo mundo bebia, que todo mundo quebrava garrafa. Falava da festa de Iemanjá, né!? Aí eu falei pra ele que não era nada daquilo; que a gente não ia incorporar na frente da igreja dele. O papo demorou mais ou menos umas duas horas até quando ele disse assim: 'Olha, e se a Senhora for proibida de fazer?' Eu disse: 'Olha, vai ser difícil o senhor me proibir, sabe por quê? Se o senhor for pôr guarda lá, nós vamos levar uma torcida. Aí vai ter uma torcida para o senhor e uma para mim. Porque um terço da sua população católica vai ao meu candomblé. Eu já sou mulher, negra e do candomblé; não vai afetar minha moral. Que moral se dá para isso? A sociedade não dá moral mesmo... Agora, o senhor já pensou metade da torcida do senhor e outra metade minha?' Ai ele deu aquela risada e falou: 'A senhora quer saber de uma coisa? Faça'. (mameto Dangoroméia).
 
 
 

A primeira Lavagem aconteceu no Sábado de Aleluia de 1985. Bispo e mães de santo resolveram o dia, conta mãe Corajacy:

 
 
 

[...] Aí nós falamos para ele que nós íamos fazer em Janeiro, porque a festa de Oxalá é em Janeiro. Não é Lavagem, é chamada de as águas de Oxalá.  Aí ele sugeriu que nós fizéssemos na Páscoa que é renovação, que estava pertinho [...] 

 
 
 

Uma vez que o Oxalá na Bahia é sincretizado com Nosso Senhor do Bonfim, então, lavar o adro desta igreja significa na reinterpretação afro-brasileira, preitear Oxalá. Por sua vez, o orago da Catedral Metropolitana de Campinas é Nossa Senhora da Conceição, de forma que, se fosse seguida a mesma lógica da Lavagem do Bonfim, a Lavagem Campineira deveria ser realizada dia 8 de dezembro, dia votivo desta santa. Da mesma maneira, não há nenhum mito afro-brasileiro que justifique a lavagem tal como é o caso da do Bonfim.

 
 
 

Em Campinas, por meios hábeis do bispo, houve um novo arranjo para a festa. Por que não ocorrer no sSábado de Aleluia, quando a igreja está fechada para os seus fiéis e quando é o dia de se malhar o Judas, que já é uma festa pagã? Fica, então, de alguma forma, tudo no seu lugar, a saber, as festas populares, os pagãos, na rua, e o que é da igreja guardado sob suas portas cerradas. Nada se mistura, estando do lado de dentro. 

 
 
 

Devido à independência total em relação à santa padroeira e aos ofícios da igreja, configura-se uma ruptura quase completa entre a igreja e a rua, no sentido em que, neste caso, um espaço não se configura complementar, do ponto de vista simbólico, em relação ao outro.  Porém, o que se pode observar é que por ser no Sábado de Aleluia que a igreja traz suas portas fechadas, o singelo ato de devoção das mametos se apropria do fechamento das portas do templo católico e lhe dá novo sentido. 

 
 
 

Em muitos aspectos as duas Lavagens, a do Bonfim e a da Catedral de Campinas, se assemelham, uma vez que existem diversos componentes de inversão na devoção da Lavagem de santuários, antes luso-brasileiras e hoje afro-brasileiras. Ordep Serra destaca dois aspectos de inversão que acontecem no rito de Salvador que, a meu ver, podem ser identificados nas duas Lavagens. A primeira inversão é que, ”enquanto nos ofícios regulares da Igreja o povo acorre ao templo para purificar-se, numa “Lavagem” o templo é purificado pelo povo” (2000, p. 75) A segunda inversão é a que resulta do fechamento das portas da igreja. Ordep, neste caso, aponta para a ausência dos sacerdotes católicos e seus acólitos na realização dos ritos litúrgicos, permitindo que se invertam os papéis. “Então seu rebanho tem toda a iniciativa, ao contrário do uso normal” . Ainda no sentido “anárquico” da inversão de valores, o afã do serviço alegre realizado espontaneamente, segundo Ordep pode, “ser qualificado como um antitrabalho, numa cultura em que a idéia de trabalho liga-se com a de obrigação penosa imposta, humilhante até.” (2000, p. 75).

 
 
 
Festa na praça - Uma etnografia
 
 

A praça - Foto: Ivete Previtalli, s/d.

 
 
Fazia uma manhã quente, quando comecei a descer a avenida Francisco Glicério em direção à praça da Catedral. Ainda distante umas três quadras, podia-se ouvir, entrecortada pelo vento, uma voz feminina que cantava ao microfone. Imaginei que estivesse muito atrasada e que talvez já tivesse perdido grande parte da festa. Eram 11 horas da manhã e eu não sabia a que horas ela havia começado. Um pouco mais adiante, uma rajada de vento tornou mais audível a música: Azekutála zinge, o iá zinge, o  Azekutála zinge, o iá  zinge o Iá iza Kutala, Kawiza Kurá... Ai ai, ai ai, ai ai... Cantavam para Kabila, que era um dos primeiros inquices a ser louvado na roda de angola. Eu não havia perdido muito da festa. Observei as pessoas passando na calçada, indiferentes à cantoria. Era mais um sábado comum de comércio. Conforme fui me aproximando, percebi que a praça estava toda circundada de grandes barracas brancas entre as quais poucas pessoas circulavam. Direcionei-me para a igreja, onde se via um aglomerado de pessoas. Um palanque havia sido montado em frente às escadas da Catedral de onde vinha o som dos tambores. Entre os transeuntes, duas moças negras com cabelos trançados com fitas coloridas conversavam alegremente com um rapaz de longos cabelos de estilo rastafari. Aproximei-me para ver melhor o que acontecia naquele espaço. Sem muita dificuldade, fui saindo do meio das pessoas e, chegando à frente, pude subir nos degraus do palanque. Havia uma grande roda de "baianas" vestidas de branco, que dançavam num espaço anterior à escadaria da igreja. Alguns homens, também de branco, se misturavam a elas. Numa outra roda, menor, ao centro, composta de homens e mulheres trajando roupas de imaculado branco e bordadas em richelieu, dançavam formando um centro referencial para a roda maior. Neste pequeno circulo interior identifiquei mameto Corajacy e mameto Dangoroméia.
 
 
 

No palanque uma orquestra de tambores e seus tatas; ao microfone, tata Tawá. Esse tata viera de São Paulo para prestigiar a Lavagem campineira. Pessoa de grande prestigio, é, juntamente com mameto Dangoroméia, um articulador da recuperação lingüística banta nos candomblés angola em São Paulo e da valorização desta nação.  Tata Tawá cantava uma azuela enquanto a roda de candomblé dançava.

 
 
 

Quando a música cessou e os componentes da roda pararam de dançar, pude identificar diversos personagens da política e do movimento afro-brasileiro.   Do lado esquerdo da escadaria da igreja havia um tapume que escondia, talvez, obras na calçada lateral. A igreja fechada silenciava-se ao movimento do candomblé do lado de fora. A grande porta fechada do templo católico separava os “deuses”. Os santos católicos lá dentro, protegidos sob a majestosa construção da catedral erigida com mão-de-obra escrava, e os deuses negros na praça, no tempo, na rua, na boca dos homens, na batida dos tambores. Do alto da igreja, dois anjos pareciam esquecer suas trombetas e observavam a festa dos inquices. Talvez naquele momento, lá de cima da torre, os anjos olhassem, atentamente, para depois contar a Nossa Senhora da Conceição o quanto era bonita “Caiatumbá”, com quem ela muitas vezes fora sincretizada. Ali, diferentemente do que muitas vezes acontece nos terreiros, tudo e todos podiam ser fotografados. Ninguém fazia cerimônia; afinal, se estavam na praça era para serem filmados, fotografados, porque parece que atualmente também o povo do candomblé gosta de aparecer na mídia. Era o momento do candomblé se mostrar, de dizer para toda a população que ele existe e é forte. Hoje, ao invés da polícia fechar as casas, quebrar e apreender símbolos afro-brasileiros ou bater no lombo dos sacerdotes e adeptos, o candomblé a tem a seu favor, como a todo o aparato dos órgãos do governo e da segurança pública. Mameto Corajacy contou como isso foi importante para ela, por ocasião primeira Lavagem:

 
 
 

[...] Mas olha, eu vou te falar: quando nós chegamos lá na catedral... estava ambulância [sic], o prefeito (na época era Magalhães Teixeira), o vice dele em cima daquela estátua, que eu tenho uma foto dele até hoje, no jornal. Ambulância, Corpo de bombeiro, tudinho. (mameto Corajacy)


 

Mameto Corajacy no "antitrabalho" - Foto: Ivete Previtalli, s/d.


 
A mameto queria dizer que tinha sido naquela ocasião que Campinas lhe dera importância e à sua crença e que, naquele momento, ela tinha se sentido, pela primeira vez, respeitada como uma verdadeira cidadã campineira. Atualmente, na praça, tudo parece mais fácil e a festa flui sem resistência.
 
 
 

Cada um dos componentes da roda de candomblé foi pegar seu porrão de água de cheiro enfeitado de flores brancas que estava junto aos outros, nas escadarias da igreja. Organizada uma fila indiana, encaminharam todos para a escada.  As mães de vassoura em punho, com alegre e contagiante entusiasmo encenaram uma Lavagem. Naquela hora varriam a escada com outro intuito; não eram mais as “conservas”. Não trabalhavam mais para a limpeza pública; na verdade, varriam agora o preconceito sofrido por ser do candomblé e a dor de terem nascido mulheres, negras e pobres. 

 
 
 

Muitas pessoas pediam bênçãos. Outros queriam que elas lavassem suas cabeças com água de cheiro. Todos distribuíam flores. A praça foi se tornando movimentada, muita gente chegava para a outra festa que se daria depois da realizada pelas mametos. As pessoas alegremente se cumprimentavam. Eram amigos, gente que identificava ou não o candomblé com a lavagem, mas que, certamente, tinha algo a ver com a cultura afro-brasileira. Gente da capoeira, do jongo e do maculelê ia chegando e se espalhando pela praça, atrás do palanque. Muita gente de pele negra, com roupas vistosas, com cabelos trançados e enormes boinas coloridas. 


 
 
 

Mameto Dangoroméia- roda de candomblé - Foto: Ivete Previtalli, s/d.

 
 
Um pai-de-santo que não se aventurara a participar, estava com muitos filhos de sua casa, ali parado, cumprimentando amigos e se deixando ver.  Uma negra gorda e jovem passou bem perto de mim e pude ver marcas de escarificações em forma de cruz nas costas e braços. Esta é, independentemente de sua forma, a marca do “santo” que indica um filho do candomblé. Muita gente andava agora pela praça. Todos confraternizavam alegremente. Em frente ao palanque, uma voz feminina chamava todos os participantes para se reunirem novamente a fim de que fosse encerrada a celebração. O adro estava cheio de gente conversando; o chão molhado pela água-de-cheiro. A limpeza festiva da escadaria da igreja resultou numa manifestação espontânea de alegre entusiasmo. Não havia mais organização, apenas a devoção aos inquices e a vontade de conversar e divertir-se.  Uma das filhas-de-santo me puxou pelo braço e disse que queria que eu conversasse com uns americanos, porque ninguém ali falava inglês.
 
 
 

Se, por um lado, o povo do santo aprecia a presença de estrangeiros e seu interesse pelo candomblé, assim como o de integrantes da academia e de políticos, por outro lado essas pessoas também valorizam o apreço que se efetiva com sua aproximação dos sacerdotes. Ao mesmo tempo em que o candomblé pode conseguir maior visibilidade e, conseqüentemente, legitimidade e poder por meio dessas pessoas, também os políticos e ativistas conseguem com o candomblé visibilidade e influência, podendo angariar novos votos em eleições futuras. Do mesmo modo, gente da academia, ao se tornar mais íntima dos sacerdotes, pode realizar com maior facilidade pesquisas e os estrangeiros acreditam receber axé de uma religião que se configura exótica quando se compara a cultura afro-brasileira com a norte-americana ou européia das quais descendem. 

 
 
 

A voz feminina novamente apelava para a reorganização das pessoas. Acatado o pedido, foram entoados cânticos de despedida e o povo do candomblé retirou-se para a parte maior da praça, atrás do palanque, cercada de barracas.As pessoas procuravam os banheiros e um lugar para trocarem as roupas, uma vez que as armações e as grandes saias rodadas, certamente incomodavam por causa do calor intenso e do volume que restringia os movimentos. 


 
 
 

Quartinhas, flores e água de cheiro- Foto: Ivete Previtalli, s/d.

 
 

 
 

Numa barraca aberta muitos se escondiam do sol. Passei perto de uma negra jovem de sorriso aberto que me deu um galhinho de alecrim, convidando-me para o jongo. Ouviam-se berimbaus e as rodas de capoeira foram se formando. Nas barracas de bebidas e comidas formaram-se filas de gente querendo comprar algo que refrescasse do calor e que lhe saciasse a fome. O cheiro do acarajé frito no dendê não deixava esconder que ali havia "comida de santo". Um grupo de jongueiros se instalou bem à porta da catedral que àquela hora já adquirira uma sombra acolhedora e ali começou a ensaiar. Gente vestida de branco ou com roupas muito coloridas encheu a praça para beber, conversar, comer e namorar. É importante observar que, ao sair de sua cercania, o candomblé levou para a praça central de Campinas seu povo e, mesmo que hoje seja um candomblé freqüentado por muitos brancos, este rito na praça atraiu as mais diversas manifestações de luta e de resistência do povo afro-brasileiro.


 
 
 

A Lavagem e o Ideal de pureza.

 
A Lavagem das escadarias da Catedral Metropolitana de Campinas, embora esteja inserida no calendário oficial de Campinas e no calendário cultural e turístico do Estado de São Paulo, suscita reações por parte de membros da academia e da comunidade do candomblé por acreditarem que este tipo de evento está associado à igreja e aos símbolos católicos e revela, desta forma, uma submissão do candomblé ao catolicismo. 
 
 
 

A discussão sobre o sincretismo afro-brasileiro não é novidade. Desde as décadas de 30 e 40 do século XX, este debate já havia tomado força entre os adeptos do candomblé e na academia, salientando uma dimensão política que até então não havia sido declarada.O sincretismo era visto como imposto pelas circunstâncias da escravidão e, hoje, ele não se faz mais necessário, uma vez que há a liberdade de culto amparada legalmente. Desta forma, separar o candomblé do catolicismo era naquele momento uma tomada de consciência por parte dos adeptos das religiões de matrizes africanas.  Essa discussão gerou muita polêmica quando, em 1983, a imprensa baiana divulgou um documento resultante da II Conferência Mundial da Tradição de Orixá e Cultura que declarava o fim do sincretismo.


 
 

Consorte escreve que:

 
 
 

[...] no dia 29 de julho de 1983, uma sexta-feira, o Jornal da Bahia, editado em Salvador, trazia em letras garrafais, como principal manchete da primeira página do seu primeiro caderno, a seguinte notícia: “candomblé rompe de vez com o sincretismo.” Ilustrada com foto de mãe Stella do Opô Afonjá e complementada em letras menores, por um resumo da matéria, de que se ocuparia mais amplamente em sua página 3, o articulista Vander Prata, seu autor: a notícia era daquelas a mexer com meio mundo na cidade que fora chamada de Roma Negra por uma das suas mais veneradas ialorixás, Mãe Aninha, a fundadora do Ilê Opô Afonjá. Estava escrito no resumo:

São Jorge não é Oxossi, Santa Bárbara não é Iansã. O candomblé resolveu romper com o sincretismo religioso. Agora, nada de exploração folclórica. Nada de utilização em concursos oficiais ou propaganda turística. A II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura, que se realizou em Salvador, de 17 a 23 deste mês (julho de 1983. Nota nossa), ajudou na decisão. Quem assina o manifesto ao público e ao povo do candomblé, merece respeito: Menininha do Gantois, Stella de Oxossi, Tetê de Iansã, Olga de Alaketo e Nicinha do BogumAxé.” (Consorte, 1999)
 
 
 

Consorte observa, contudo, que “a ruptura do sincretismo não implicava [...] o abandono da fé católica, não se tratava, propriamente,  de um cisma.” (1999, p.73). Na realidade, isso significava ainda, conforme a mesma autora, que “o manifesto deslocava a dupla pertinência do plano coletivo do terreiro para o plano individual, passando a ser assunto de foro íntimo, particular, perseverar naquela crença.” (1999, p. 73). Isto dava a entender que acabariam as missas de iaô e as de sétimo dia coordenadas com os ritos do candomblé e que, do mesmo modo, deveriam ser revistas datas festivas do candomblé associadas aos santos católicos como, por exemplo, a Lavagem do Bonfim. Contudo, se cada um quisesse acreditar em São Lázaro ou nossa Senhora das Candeias, seria um problema particular.

 
 
 

Interessada em saber o que acontecera após as tomadas de posições contra o sincretismo de 1983, Consorte, em 1992, retorna ao campo e percebe que no 

 
 
 

[...] desenrolar das festas religiosas em Salvador, parecia que nada mudara. A lavagem do Bonfim continuava entregue às baianas com trajes rituais e suas quartinhas; o presente de Iemanjá continuava a ser entregue no dia consagrado a Nossa Senhora das Candeias e a Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro; as missas das segundas-feiras na Igreja de São Lázaro, sincretizado com Omolu, continuava a ser freqüentadas por uma população numerosa ritualmente vestida de branco, sem falar da presença da pipoca por todo o lugar; a festa de São Roque, sincretizado com Obaluaiê, preservava as suas características tradicionais; a festa da Irmandade da Boa Morte/Nossa Senhora da Glória, não havia alterado seus rituais e a tradicional bênção das terças-feiras no altar de Santo Antônio, sincretizado com Ogum, depois da missa das 18 horas na Igreja de São Francisco, parecia cada vez mais concorrida, tendo se tornado o mais novo evento do calendário de Salvador” (1999, p.81).

 
 
 

Ainda em 1992, voltando a ouvir as sacerdotisas que haviam participado da carta em repúdio ao sincretismo, Consorte não encontrou unanimidade entre elas quanto a essa questão e tampouco entre os adeptos do candomblé. Desta forma, deixa claro que este é um tema complexo e que as posições divergentes das sacerdotisas “revelam uma compreensão diversa da natureza da formação das religiões afro-brasileiras, com repercussões significativas para o debate e o encaminhamento da (re)construção da identidade do negro no Brasil. (1999; p.88)

 
 
 

Chamou-se a atenção para o “abandono do sincretismo” na Bahia, porque aí é possível perceber quão profundas são as raízes das relações entre o candomblé e o catolicismo. Houve uma repercussão relevante deste tema no Sudeste e dos debates que aí ocorreram é que se originou a crítica à “Lavagem” de Campinas. Por outro lado, quando Geertz escreve que ao realizar uma etnografia não se pode ficar somente numa “descrição superficial”, isto é, numa primeira observação ingênua, mas que o importante é que seja feita uma “descrição densa”, isto quer dizer que o etnógrafo tem que procurar seu caminho nas “estruturas sobrepostas de inferências e implicações”. (1989, p. 6) Percebe-se, desta forma, que a Lavagem deve ser compreendida por aquilo que está insinuado nas suas entrelinhas e  o que importa,  ainda segundo o mesmo autor, é “escolher entre as estruturas de significação e determinar sua base social e sua importância.” (1989, p.7)

 
 
 

Assim, torna-se importante averiguar em que medida o universo religioso afro-brasileiro goza de uma cosmovisão que possibilita realizar através do simbolismo religioso, uma relação da sua esfera de existência com a esfera mais ampla. Lody chama essa cosmovisão afro-brasileira de “mundovisões do povo de santo” que estão invariavelmente vinculadas ao sagrado, e cujos símbolos aludem tanto à mítica e remota África quanto às mais recentes memórias afro-brasileiras.  Conforme o mesmo autor, “Os modelos africanos transculturados e ricamente incorporados em cenário cristão legam forte e expressivo paralelismo entre santos da igreja e santos dos terreiros”. (1995; p.2)

 
 
 

Essa correlação torna-se muito evidente na situação da diáspora em que “as identidades se tornam múltiplas” (Stuart Hall, 2003) . Contudo, mesmo havendo esse paralelismo, são os terreiros que preservam as histórias dos povos africanos “aqui dinamizados e interpretados em concentrações etnoculturais chamados Nações.” (Lody, 1995).

 
 
 

Os terreiros de nação angola em Campinas, além dos rituais, preservam um núcleo de cultura em que se incluem as comidas, as músicas, a língua, a dança, o artesanato, enfim “um elenco de motivos e realizações do ser africano no Brasil, e do ser afro-brasileiro.” (Lody, 1995).  Além disso, há uma outra questão que envolve o povo do candomblé que é a integração, em seu meio, de lideranças de movimentos sociais, de forma que cresce no seu âmago uma “afirmação racial e de busca de ocupação do poder, unindo-se a diferentes segmentos do amplo processo de conscientização do negro.” ( Lody, 1995) Isso é um fato que também se concretiza nas ações dessas duas mametos. Mameto Dangoroméia e mameto Corajacy há muito se identificam com os movimentos políticos e sociais, tornando-se ativistas da luta anti-racista, pois nelas está inscrita a marca da mulher negra e do candomblé. Quando o candomblé chega à praça da catedral no Sábado de Aleluia, junto a seu cortejo vêm grupos de capoeira, de jongo, de tambores que trazem faixas e estandartes escritos em línguas bantas. Esses escritos retomam a uma África mítica que fornece histórias e referências que possibilitam reinterpretar a história oficial. Desta forma, a Lavagem faz mais do que mostrar seus cantos, danças e vestes do candomblé na praça. Ela tornou o invisível visível e, por isso, manifesta a existência do negro, permitindo, assim, um retorno para si mesmos. Essa África construída na diáspora vem desse retorno. 

 
 
 

Stuart Hall diz que a cultura é uma produção dinâmica. “Tem sua matéria-prima, seus recursos, seu “trabalho produtivo”. Depende de um conhecimento da tradição enquanto “o mesmo em mutação” e de um conjunto efetivo de genealogias.” Porém, há os desvios, que no caso foram causados pela diáspora negra e que são de certa forma, ressarcidos por meio da cultura, em virtude de sua constante produção. Essa dinâmica possibilita uma nova elaboração desse sujeito, surgindo daí um novo ser. Portanto, segundo Hall, 

 
 
 

[...] não é uma questão do que as tradições fazem de nós, mas daquilo que nós fazemos de nossas tradições. Paradoxalmente, nossas identidades culturais, em qualquer forma acabada, estão à nossa frente. Estamos sempre em processo de formação cultural. A cultura não é uma questão de ontologia, de ser, mas de se tornar.” (2003, p. 44)
 
 
 
 








Os elementos culturais, nas suas formas originais, passam pelo processo de tradução cultural; (Hall: 2003) desta maneira, a Lavagem, com os estandartes e faixas escritas em línguas bantas, com as danças e os batuques apresentados em frente à igreja, assume outro significado que é o de “descolonizar as mentes”.

 
 

Notas

Este artigo é parte da dissertação de mestrado Candomblé: Agora é angola. Apresentada à banca examinadora da PUC –SP como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em  Ciências Sociais, sob orientação da Profa. Teresinha Bernardo
Pesquisadora do Grupo de Pesquisa: Relações Raciais, Memória, Identidade e Imaginário da PUC – SP. 
N.E.: Mameto é o nome que se dá à sacerdotisa do rito angola. Aos sacerdotes dá-se o nome de Tata.
Funcionária da limpeza pública que, por vestir uniforme cor de laranja, era chamada de laranjinha.
Corruptela da palavra de origem ioruba merindelogum que significa dezesseis e que no candomblé são dezesseis longos fios de contas fechados por uma pedra maior chamada firma e que tem a cor representativa do orixá ou inquice correspondente.
Faixa de pano usada para diversos fins litúrgicos e rituais no candomblé e em cultos a ele associados.
Migui,Musala: apetrechos que os recém iniciados no candomblé angola usam no pescoço.
Inquice correspondente ao orixá Oxumarê.
Caiá:inquice correspondente ao orixá Iemanjá.
Muitos dos adeptos do candomblé têm essa concepção, de que a Lavagem do Bonfim é ligada às “águas de Oxalá”. Oxalá é ligado às águas primordiais. Há um mito que narra uma viagem de Oxalá ao reino se Xangô onde sucederam diversos imprevistos. Oxalá acabou preso e esquecido na prisão do reino de Xangô. Sua tristeza foi tão intensa que causou grandes danos a esse reino até que, por meio de sacerdotes de Ifá, Xangô ficou sabendo que seu amigo havia anos estava preso em seu reino. Então, mandou que soltassem Oxalá, que obanhassem com águas perfumadas e lhe oferecessem farto banquete a fim de que Oxalá aceitasse suas desculpas. Ao mesmo tempo quando a mameto denomina a Lavagem do Bonfim de “águas de Oxalá” diferenciando-a da Lavagem de Campinas, procura legitimar sua festa dando-lhe uma identidade diferenciada da festa de Salvador.
A Lei nº 9515 de 2 de dezembro de 1997 institui, no calendário oficial da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, o sábado que antecede o domingo de Páscoa (Sábado de Aleluia) como dia da Lavagem das Escadarias da Catedral Metropolitana de Campinas pelos candomblés. Em Sessão realizada dia 13 de setembro de 2005, na assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, foram aprovados os seguintes projetos de autoria do Deputado Estadual Sebastião Arcanjo: PROJETO DE LEI NO 1163 – Inclui a cerimônia da “Lavagem das Escadarias da Catedral de Campinas” no calendário Turístico do Estado.

 
 

Webgrafia
 

Amaral, Rita.  “Povo-de-Santo, Povo de Festa - a centralidade da festa de candomblé como potência estruturante da religião“. Os Urbanitas Revista de Antropologia Urbana,, V. 1, no. 1, 2004. 

 

Bibliografia

Amaral, Rita. Xirê! O modo de crer e de viver no candomblé. Rio de Janeiro: Pallas. São Paulo: EDUC ,2002. 
Bernardo, Schettini Teresinha. A mulher no candomblé e na umbanda. Dissertação de mestrado apresentada ao programa de Estudos Pós Graduados em Ciências Sociais da PUCsp. 1986.
Consorte, Josildeth Gomes. Em torno de um Manifesto de ialorixás Baianas contra o Sincretismo. In: Faces da tradição Afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas, 1999. 
Dantas, Beatriz Goiás. Repensando a pureza nagô. In: Religião e Sociedade, 8. São Paulo: Cortez Editora e Tempo e Presença, Julho de 1982.
Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas.. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1989.
Lody, Raul. O povo de santo. Religião, História e Cultura dos Orixás, Voduns, Inquices e Caboclos. Rio de Janeiro: Pallas Editora ,1995.
Serra, Ordep. Rumores de Festa. O sagrado e o profano na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2000.
Theodoro, Helena. Mito e Espiritualidade. Mulheres Negras. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 1996.
Hall, Stuart. Da diáspora - Identidades e Mediações Culturais, organização Liv Sovik.Tradução Adelaide la Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, 2003.
Hall, Stuart.  A Identidade Cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro- 9. ed..  Rio de Janeiro DP&A,: 2004

Site Meter