Homenagem
ao inconformista George Bernanos
Festa
alguma me é completamente estranha. A Festa de S. Benedito entranhada
que foi em mim nos patéticos, curtos-e-longos anos em que habitei
a Igreja do Rosário de Cuiabá, pôs no coração
e em minha boca a conflitividade e o mel que ela carregava.
Foi
assim. Em 1979, metalúrgico que me fazia, trabalhando na linha de
montagem em S. Paulo, tornei-me, no prazo de pouquíssimos dias,
vigário paroquial da Igreja Nossa Senhora do Rosário e S.
Benedito, em Cuiabá. Expus, então, para dar baixa na minha
carteira de operário de linha de montagem, ao meu patrão,
que era jesuíta e padre, ele mais branco do que era e sem
respiração, não conseguiu entender. Parti. A razão
da transmutação em metalúrgico devia-se a que, havia
feito uma opção que se nutria em duas fontes: a primeira,
religiosa, que sustentava meu trabalho de operário, como inserção
e encarnação junto ao povo ao qual queria humanamente pôr
minha vida a serviço (e, ao modo populista russo, fui aprender dele
a melhor maneira de servi-lo). E a segunda fonte, tão importante
quanto a primeira, era o compromisso ético político e de
educador popular que (com um grande grupo de jovens que buscavam esta mesma
experiência de inserção), perseguía o conhecimento
e as formas de organização popular na ‘aparente anomia’ das
favelas, cortiços e periferias. De padre-operário, era apenas
o segundo, um trabalhador e morador cheio de vizinhos na Favela Santo Eduardo,
na região leste de São Paulo; padre, mesmo, eu era para poucos
companheiros mais íntimos, quando celebrávamos esta mesma
intimidade, discutindo dimensões pastorais, teológico-políticas,
libertadoras, nossos sonhos e utopias. Meus vizinhos de porta distavam
do meu barraco cerca de metro e setenta, dos quais, um esgoto de, aproximadamente,
quarenta centímetros de largura – e a céu aberto –
devorava, ainda, de forma implacável, parte daquele pequeno espaço.
Na favela eu era, apenas, o “gordo sem muié”. Os meninos, apesar
de me verem, por vezes, com algum livro, diziam: “Você não
vai na escola, gordo, é analfabeto e burro!” À noite, duas
vezes por semana, eu saía para enfrentar, sem banho ou com ele efetivado
pela água ácida da chuva, de um latão enferrujado
(uma duvidosa higiene). Após um dia inteiro na linha de montagem,
tomava dois ônibus até os respectivos pontos finais. Fazia,
ainda, uma marcha apressada até o ‘Sedes Sapientiae’ na São
Paulo onde se realizava o curso de especialização de dois
anos, coordenado por Maria Nildes Mascelani e Pedro Pontual. Quase todos
os professores eram recém chegados do exílio, vindos do exterior;
apesar da ditadura, tinham acesso ao trabalho sob o manto da intocável
e atrevida Madre Maria Cristina Dória Sodré. O curso era
de ‘Planejamento de Educação Popular’. Também lá
meus condiscípulos ignoravam minha outra vida, a de favelado e operário.
E, comentavam, nas aulas, o trabalho de pesquisa que desenvolvíamos
como exigência do curso, na Favela da Cidade Dutra: “Que horrível
o cheiro, é uma baderna, a favela, com os barracos de cara para
o esgoto a céu aberto!..” “Quando chove, então, toda a sujeira
entra dentro dos barracos...” “O povo, é tudo marginal!" "Uma escuridão
que é um perigo pisar numa favela à noite...” Sentia-me no
banco dos réus. Minha vida era exposta e julgada, ali, a partir
de estereótipos! Não poderiam, meus colegas, jamais,
imaginar a segurança que abrandava meu coração quando
chegava, uma ou duas horas da madrugada, de volta do Sedes Sapientiae,
saído do ônibus, e punha o pé na pontinha da favela:
sentia-me, apenas então, abraçado e protegido, por onde a
ROTA – Ronda Ostensivas Tobias Aguiar - não mais me alcançaria!
Nosso terror comum, na favela, era a polícia!
Recebi, então, por volta
de setembro, a destinação de ir para Cuiabá, a pedido
do Provincial Jesuíta Pe. Paulo Englert, apaixonado que era pela
Educação Popular, de que fosse residir e trabalhar na Paróquia
de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. A tarefa era
a de constituir algo como um “Centro de Espiritualidade, Reflexão
e Ação Social” no modelo jesuítico daqueles que já
existiam em toda a América Latina, sendo dois deles no Brasil: O
“Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social” – IBRADES (RJ) e o Centro
de Ação Social (CEAS), na Bahia. Em Cuiabá, faríamos
uma base, epicentro de uma articulação com a Amazônia.
Daescolha e determinação de Cuiabá como lugar da articulação
eu mesmo havia participado, emestudo com outro jesuíta, que hoje
é professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS),
José Ivo Follmann, companheiro de estradas. Buscamos entre Acre,
Rondônia e Mato Grosso o local mais adequado para tal núcleo.
Nossa sugestão foi a de centrá-lo na Igreja do Rosário,
em Cuiabá, após conhecermos as cidades, conversar com os
bispos, com os militantes e agentes de pastoral. Eu mesmo estava indo,
agora, ao lugar que ajudara a escolher para outros...
A Festa
A Festa, a conheci no ano
de 1977, quando fui à área indígena Rickbaktsa (Índios
Canoeiros), em Fontanilhas (MT), num curso de Educação Indígena,
com professores indígenas, coordenado pelo inesquecível Bartolomeo
Melia, lingüista e antropólogo, na época vivendo com
os Enawenê-Nawê, no Mato Grosso; curso este que resultou
num livro.
Cheguei em vôo cego da
aldeia do Barranco Vermelho – nada se via, só fumaça! – com
o piloto de chinelos, num aviãozinho sem radar que, ainda que quisesse
cair, não poderia, tão forte o segurava contra meu assento.
Cheguei no Rosário às vésperas da primeira missa do
tríduo. Sentia-me, etimologicamente, um ‘idiota’ para compreender
o sentido do mastro que demarcava o período, a função
dos juizinhos de ramalhete, o estranho anacronismo de haver um rei e uma
rainha... De madrugada, às quatro horas, fui acordado por morteiros:
na época, 21 tiros. Levantei-me e fui observar o que se passava.
À frente da Igreja, pouco mais de dois metros, havia uma armação
de bambu que perfazia, em paralelo, a estrutura do esboço da igreja
do Rosário, cobrindo-lhe inteiramente a fachada. Nela, a cada amarração
da estrutura de bambus jazia um castiçalzinho improvisado, de argila
não queimada, que sustentava uma bolinha feita de sebo com um grosso
pavio. Ao longe, ao acendê-las, antes do início da missa,
a Igreja ficava como se foram as iluminações de Natal, sob
a qual, em pontilhados de luz viva, via-se ao longe a Igreja como que em
chamas. Era uma luz viva, oscilante, assemelhada a velas acesas, pontos
de luz que davam uma imagem bela e fantasmagórica à belíssima
fachada da Igreja colonial de Nossa Senhora do Rosário e São
Benedito de Cuiabá, Mato Grosso. Estávamos, no coração
político do Mato Grosso. Não éramos um sítio;sequer
metrópole. Era a antiga e promissora cidade, com sua cultura suburbana.
Saí à noite e, etnocentricamente, comentei: “Para que servirão
ruas em cidade sem tráfego?" Respirávamos ali a atmosfera
dos sítios brasileiros; parte das portas das casa, à noite
apenas encostadas, não usavam chave.
Voltei à Igreja às
sete horas da noite. Parecia, ao longe, um grande coral. A Igreja, apinhada
de homens e mulheres que tiravam pela garganta a alma, com as ladainhas
cantadas. Não era uma Ladainha qualquer. À frente, dois capelães,
rezadores leigos e cantadores, puxavam em dupla, com voz forte e comovente,
as palavras em latim intraduzível. Escrevi, mais tarde, em Aguaçu,
distante cinqüenta quilômetros da Igreja do Rosário,
no sítio, quando esta cena, reiterada, se fazia num outro contexto:
[...]
Aquela (para) liturgia ecoava em mim com uma profundidade telúrica.
Sentimento similar eu tive quando ouvi os cantos indígenas na aldeia
Rickbaktsa nos vinte dias que lá estive... Fez-me compreender a
distância infinita entre o mundo daquele povo e o meu. Assim era
o canto das ladainhas em Aguaçu: canto polifônico do ‘outro’
mundo, de outro tempo![...] Impressionam-me as ladainhas cantadas, arrastadas,
- e, sobremaneira, porque polifônicas - cantadas na corruptela. O
canto cheio de harmonia, rigorosamente a capella, enchia o ar. Pronunciava-se
um latim sofrível que perdeu fragmentos, ganhou outros, simulou
sons; e, ali estava um fenômeno singular: cantos da Igreja antiga,
centenários, mantinham-se como signos num dialeto imperscrutável
e próprio; e eram, ali, eficazes para circunscrever e assentar a
tenda da santidade de Deus, com seus espíritos e santos, no meio
do povo.
O latim debulhado
e deglutido por mim, com suas declinações por mais de 14
anos, e, que apenas aprendi mediocremente, estava conectando o povo daquele
sítio à simbólica de 2000 anos atrás. [...]
Esta persistência, esta incorporação na cultura-tradição
de Aguaçu, da língua romana e que, por tantos anos, já
fora varrido do catolicismo oficial, adquire uma autonomia de representação,
como janela para a ‘revivescência’ do transcendente. Passaram-me,
de relance, pelo pensamento, as palavras de Jesus: “A pedra que os construtores
rejeitaram tornou-se pedra angular” (Mt 21,42). O latim utilizado, por
sua vez, sofreu modificações, com certeza pela ação
de desgaste do tempo e da memória, uma vez que as pessoas não
dominavam o conhecimento desta língua. (Quem domina?!) A reza, por
outro lado, não carece da inteligibilidade cartesiana; ela é
gestada num movimento de confiança ou fé e numa atitude de
respeito existencial face ao mistério e ao poder sobrenatural, que
dispensa a razão modernizante. Estamos num outro âmbito de
sentido, em que não reina a racionalidade lógica, mas vivência
e sentimento. Contudo, esta mesma vivência acena a um conteúdo
novo, emprestado aos signos: razão pela qual são eles - e
não qualquer outra coisa dita em português - que mediam a
experiência do sagrado, ali, naquele tempo para aquele povo. (Passos,
2003,
p. 26).
Esta moldura hierática
do popular solene celebrava bodas do audacioso seqüestro oportunizado
pela luta pela autonomia contra a indébita apropriação
do sagrado, em nome de Deus. Controle exercido por uma hierarquia divorciada,
cotidianamente, da conflitividade da vida, divorciada das angústias,
sobretudo, porque desconhecida quando o medo assalta e esquadrinha a medula,
conduzindo à perda de sentido da própria vida, vida-refém
da opressão de religiosos algozes. A salvadora revolta! É
a rebeldia primal de Prometeu!
A Festa de São Benedito
era, na verdade, o centro nuclear dos processos de poder. Em suas dobras,
os ranços da eugenia; a efervescência - talássica e
profunda - da resistência negra, tomava corpo em Cuiabá. João
Manoel de Lima Mira, meu companheiro, padre jesuíta negro, e eu,
sabíamos e sentíamos isso. Teríamos todo o cuidado
de não dilacerar o que lá ocorria de libertador, lugar da
eclosão de uma simbólica de libertação, mal
vista aos olhos de qualquer organização de poder. A religiosidade,
quando honesta, põe a nu as fragilidades do que somos, tira a máscara
da prepotência, foi e continua sendo palco que explicita contradições
dolorosas: o poder tem limite, o poder não pode. Não podemos!
E seus limites são dolorosamente postos por suas margens, onde residem
os perigosos excluídos. A má fé tem asas, alça
vôo em toda a ameaça de festa, simula, falsamente, um movimento
de inclusão. Inclusão culposa, de má consciência,
permitida porque limitada temporal e espacialmente, em sua expressão
pública. Inclusão que aponta o movimento do lugar adstrito,
controlado e circunscrito, a uma esfera subsidiária: a da cozinha,
a da senzala, a da noturnidade não diairética. Há,
por vezes, um Moisés. Levanta a serpente no meio do deserto
para que todos os olhos saibam de sua ambigüidade, do seu perigo.
Era preciso que todos conhecessem a fonte e a origem da força que
circulava entre eles, força híbrida, que matava e curava.
São Benedito é um ícone da mesma cepa! Pobre, negro,
cozinheiro, mas liberto, ex-filho de escravos, poderoso por Deus, faz com
que a ambigüidade, por ele, seja levada ao clímax, explicitada
a todos os olhos, que há fúria e deleite na Festa de sua
bela e negra Cuiabá. Sugeri, muito mais tarde, e conseguimos trazer,
por meio da cúria romana, uma relíquia oficial de São
Benedito. Recebemos, então, para demarcar tempo e espaço,
um fragmento da pele do santo negro, cujo corpo se conserva em uma urna,
na Itália. A pele, dizia o teólogo da libertação
Gutierrez, é o que existe de mais profundo nos homens, repetindo
um poeta. Esta exterioridade gritante das profundidades.
Foi assim que cheguei a Cuiabá.
Fim de 1979. Três dias após o anúncio e término
da vitoriosa greve dos metalúrgicos, de cuja categoria tomava parte.
Aguardei o término da campanha. Cheguei à Igreja de Nossa
Senhora do Rosário e São Benedito bem antes de meu companheiro
jesuíta, negro, Mira, meu conterrâneo, que vinha da PUC do
Rio de Janeiro. Éramos quase irmãos desde os 12 anos; sentávamos
na mesma carteira durante o ginásio. Chegado a Cuiabá, meteoricamente,
Mira, a quem chamávamos Joca, criou um restaurantezinho macrobiótico
no bairro e uma academia de Kung Fu na UFMT! Doente, ficou pouco tempo
na cidade e foi-se daqui, sem despedida. Pouco mais tarde, no Japão,
fez-se monge da floresta. Parte de sua doença vinha por conta do
racismo em Cuiabá. Negro que era “de muita tinta” – diriam os cariocas
– em Cuiabá pessoas se recusavam a receber a hóstia de suas
mãos. Ele o sabia.
Tínhamos conversado muito
tempo para preparar nossa vinda a Cuiabá. A tarefa que nos propúnhamos
era dupla: apoio às formas de organização eclesial
por meio das pastorais, com ênfases nas pastorais sociais realizadas
através do modelo das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que
não existiam, efetivamente, em Cuiabá. Nesta perspectiva,
a Festa de S. Benedito nos parecia central para a religiosidade popular,
autônoma, fator de resistência, dada a negritude de São
Benedito que era referencial. A segunda dimensão que empreendemos
era a construção de um modelo democrático popular
de organização da Igreja, que obedeceria à dimensão
solidária de fé e sua articulação teria, por
isso, perspectiva política, transformadora. Disso resultaria investir,
freireanamente, na população mais pobre, nas Pastorais sociais
de apoio às lutas dos mais empobrecidos em favor de sua emancipação
e autonomia. Não ignorávamos que teríamos focos de
tensão com a ditadura, que se prolongava, e com a estrutura eclesial
conservadora. Buscamos, como estratégia, realizar uma imensa aliança
e articulação de rede entre o que se realizava, pastoral
e politicamente, fortalecendo a formação popular e as lutas
pelos direitos negados, e tecendo as lutas sociais locais com aquelas mais
gerais que se processavam em nível de país. O isolamento
de tais iniciativas, pela falta de comunicação, era tanto
ou mais perigoso que a ditadura em si mesma. Buscamos pessoas, movimentos,
organizações, que tivessem identidade religiosa e pastoral
conosco, afinidade política e teológica. Queríamos,
desde o princípio, que os trabalhos não dependessem exclusivamente
da Igreja Católica. Se, na perspectiva religiosa, o ecumenismo de
fato era essencial por seu valor intrínseco e teológico,
para nós ele representava, ao mesmo tempo, uma condição
estratégica para certa autonomia. Nossa leitura, e a seguimos à
risca, dizia da importância de não pôr as bases principais
dos processos organizativos, educacionais e políticos que viéssemos
a apoiar, na Igreja institucional Católica; de forma que por seu
rígido poder hierárquico as viesse destruir, caso fôssemos
expulsos, o que acontecera com padres que nos precederam. Esta era mais
uma das razões pelas quais o trabalho com outras Igrejas institucionais
poderia garantir um desdobramento em prazo maior. A mesma razão
acabou por definir que não viríamos sós, nós,
dois padres, para não tornar o trabalho de organização
frágil. O trabalho organizativo deveria ser ajudado por agentes
de pastoral, que tivessem condições de manter-se como autonomia,
pelo seu trabalho, ‘fora da paróquia’, para que continuassem o processo
de organização e apoio independente de nós, se ocorresse
a expulsão, que julgaríamos como fracasso político.
Vieram, por isso, conosco, dois companheiros, inicialmente: um jovem conhecido
por mim e que me acompanhou na chegada, de nome José Masiero, morando
imediatamente no Bairro Leblon, trabalhando na construção
civil, estabelecendo-se aqui como pedreiro e, mais tarde, como azulejista,
casando e tendo aqui seus filhos. O meu colega padre jesuíta, João
Manoel, apelidado ‘Joca’, enviou do Rio de Janeiro, antes mesmo de ele
chegar a Cuiabá, outro jovem, Sérgio Ferrez e, mais tarde,
Iara Araújo, liderança da pastoral de juventude – hoje advogada
– que aqui constituiu família e está sediada em Cuiabá,
presentemente.
Masiero, Sérgio e Iara
realizaram o importante trabalho inicial de avaliar com um olhar ‘de fora’
o que ocorria na paróquia. Conhecerem a cultura local, contribuíram
com reflexão, planejamento, execução e, sobretudo,
para a formação das comunidades, pastorais, dos círculos
bíblicos e para a luta concreta do bairro, bem como para organização
do incipiente Partido dos Trabalhadores, ainda não legalizado como
partido, por meio do qual pretendíamos estabelecer um grande Projeto
Nacional democrático popular, se possível de massa. Participava
eu, em S. Paulo, das primeiras reuniões, em São Miguel Paulista,
de formação do PT, quando ainda nem o sonhávamos como
partido instituído, mas como movimento ou partido revolucionário
para vencer a ditadura e instaurar o socialismo. E éramos todos
ouvidos para tudo e para todos e todas.
A igreja de Nossa Senhora
do Rosário e São Benedito, seu ‘abade’ e sua festa.

A Paróquia, quando
aqui chegamos, tinha um pároco histórico, sexagenário,
que a conduzia e que definia o controle do território no estilo
da ‘Prelazia pessoal’ , de sorte que, inclusive o bispo, sentia-se pouco
à vontade para coordenar aquele "território livre". Esse
era Padre Jacob Teodoro Weber. Estivera algum tempo na Missão Anchieta,
acompanhando o trabalho indigenista, mas ficara ainda, por muito mais tempo,
atendendo os sítios, em Diamantino e região, mais tarde entre
o Rio Manso e Chapada, atendendo, a lombo de mula, as comunidades, durante
semanas ou mês inteiro. Inculturado, conhecia a região como
ninguém. Andava no meio do cerrado sem errar caminhos e direções,
acompanhado de um canivete e muita disposição, curiosidade
e malícia. Era uma figura completamente ‘explícita’ e, dizia,
por vezes, mais do que qualquer um de nós teria coragem dizer. Força,
pertinácia, tamanho físico avantajado, temperados por
sua aspereza de colono de origem alemã do Rio Grande do Sul; e um
sentido de felicidade e assertividade raros num ser humano. Contrastava
sua rusticidade com doçura extrema diante da poesia, da música,
da beleza. Costumava defini-lo, brincando, como um “poço de virtudes
exageradíssimas”. Tínhamos um grande carinho entre nós.
Foi para mim, efetivamente, pai - com a mesma expandida força da
sua generosidade – também desmesurada! Mestre da vida, enxergava
o coração. Aprendia e construía conhecimento. Carregava
a malícia alegre e jocosa com uma espontaneidade cuiabana, que licenciava
as pessoas de também dizerem o que pensavam. Qualquer iniciativa
em favor de mais empobrecidos que viesse a precisar de um defensor tinha,
em Teodoro, a força da profecia, do sacrifício, a largura
infinita da compreensão, aparentemente, desprovido do atoleiro da
dúvida: “... façam assim: se forem fazer o despejo, alguns
despistam e os outros viram o carro da polícia! Tem que lutar para
garantir o direito...” Era um guerrilheiro duro. Amado e odiado com a mesma
força com que se ama e se odeia um profeta. Jamais nos abandonou
em qualquer situação em que estivéssemos em apuro
ou quando nós o colocávamos em situações limites.
Ainda que discordasse, manifestava, discutia, compreendia e apoiava, até
o fim. Assim, a festa de São Benedito, era, reiteradamente, o lócus
de onde emergiam publicamente os conflitos.
A partir de dezembro de 1979,
o espaço da Igreja do Rosário torna-se base de apoio aos
movimentos sociais, independentemente de que estivessem, ou não,
ligados à Igreja. Fizemos, o que não fora uma exceção,
mas regra: emprestar o território da paróquia como guarda-chuva
dos movimentos, dos perseguidos e ameaçados, das pessoas que chegavam
com a cabeça a prêmio, retornando ao país, ou cuja
vida corresse perigo, qualquer que fosse a razão. Éramos
vigiados. Nossa correspondência vinha do Correio, completamente dilacerada
e colada, indecentemente, com esparadrapo. Tínhamos sinais de fumaça:
ameaças, indiretas, olheiros e denunciantes. Telefonemas anônimos.
Montamos um mimeógrafo para realizar policópias de um jornalzinho
da vida das comunidades: O Rosarinho. Qualquer conflito que emergia, denunciávamos
publicamente, nas missas. Panfleteávamos pelos meios de comunicação
possíveis, rádios, jornais, boletins. Não permitíamos
que sucedesse violência ‘debaixo dos panos’. Todas as iniciativas
das pessoas mais empobrecidas em favor de direito, terra, moradia, água,
eram apoiadas, incontinentemente. Chegou a se tornar slogan, com discordância
do bispo local, mas princípio de orientação necessário
que, “qualquer pessoa ou grupo ameaçado, primeiro apoiamos e defendemos,
depois discutiremos quem tem razão”.
Realizamos visitas, entrevistas,
longas conversas com pessoas, grupos, movimentos, com duas perspectivas:
compreender a dramática realidade política bem como a complexa
realidade sócio-cultural que aqui existia, de forma a que pudéssemos
ter uma noção do quê e do como fazer o que precisava
ser feito. Tratava-se de pôr-nos a par das necessidades, demandas
e clamores; nuclear pessoas em busca de formação de grupos
de reflexão e ação pastoral ou política; procurar
contatos, pessoas, companheiros de pensamento, de comunhão metodológica,
de afinidade ético-política e de perspectivas similares,
afinadas com os princípios que norteavam nosso pensamento e ação.
Isso nos tomou muito tempo. Foram-se quase dois anos, muito dinâmicos,
até criar uma extensa base de apoio capaz de deflagrar e sustentar
algumas importantes iniciativas. Delas tomavam parte ativa e consciente
pessoas das comunidades que tinham convergência com perspectivas
libertadoras da educação popular. Outra dimensão,
também, fora buscada por nós, imediatamente: vincular o que
aqui se fizesse, com assessores em nível nacional, fosse na dimensão
teológica e da fé, fosse na dimensão dos Movimentos
Sociais e do próprio Partido. Esta articulação era
imprescindível, isto é, que as diretrizes, movimentos, buscas
dos movimentos de democratização do país, em favor
da justiça, tivessem também base de apoio no estado de Mato
Grosso. Nascia assim o Movimento de Defesa dos Favelados, o Movimento de
União e Consciência Negra; Comitê de apoio a El Salvador;
a Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais
(ANAMPOS), A Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista
Missionário (CIMI), o Movimento Fé e Alegria de Educação
Popular, o Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade, o Centro Pastoral
do Rosário (CPR) e a Associação de Solidariedade das
Comunidades Carentes do Mato Grosso (ASCCMT) que editava um jornalzinho
realizado por pessoas do bairro de nome ESPAÇO de iniciativa de
Murilo Pinto da Silva, um recém-retornado do exílio. Muitas
outras iniciativas foram sediadas na Paróquia do Rosário.
Assim, sobrevivemos e fizemos uma enorme lista de companheiros, desde o
início
Onde
a Festa de São Benedito se alimentava para sua perpetuação?
Arrisco dizer que a festa
de S. Benedito emergia, e emerge, do caráter eminentemente explosivo
de seu manancial de esperança, de sua evocação da
falta! É na ausência ou na perda que a Utopia toma a palavra,
por isso os milenarismos. A Festa de S. Benedito é a Palavra-grito
que expressa o que deveria estar e não está. Evoca uma memória
perigosa, de sua interdição. Frutifica daquilo que denuncia
e anuncia. Aquilo que caracteriza o vórtice do processo religioso:
sua trajetória mística que advém da ambigüidade
sagrada: fascinosum e tremendum . Já dissera Thomas Merton que da
mística à política, há apenas um passo; meu
companheiro Mira sempre lembrava disso. O sagrado não é pura
transcendência, que também é, mas é, sobretudo,
demasiado cósmico e caótico em sua inerência e contingência.
Sua natureza depende menos de uma natureza híbrida ou contraditória
no seu manancial originário do que o reflexo desta mesma utopia,
numa sociedade atravessada pela assimetria injusta e contradições
de classe e de diferenças interditadas. Explico. Da mesma forma
que a luz emana uniformemente do lume, mas gera proporções
distintas entre porções de massas desiguais, com incidência
diferenciada pelos outeiros, colinas e vales, o mesmo São Benedito,
visto pelos ricos, não era igual ao São Benedito visto pelos
olhos dos pobres. De alguma maneira, Michel de Certeau (1994)
compreendera isso quando os mesmos artefactos e mentefactos sociais – expressões
de Antonio Candido - distribuíam uma semântica única
e hegemônica a partir da cultura dominante, eram apropriados e retraduzidos
pelos homens ordinários das culturas subterrâneas das cidades,
numa linguagem outra. Por isso, São Benedito era polissêmico:
se Orixá da guerra, ameaçante à hegemônica do
poder, era pai libertador do povo pobre e sofrido (Dussel, 2000).
Moisés levantava a serpente do deserto para que vista, o povo identificasse
a cura e a morte que ela poderia vir a provocar. A serpente empírica,
biológica, a só, no deserto, ainda que evocasse fecundidade,
ritos pagãos, divindades outras, não implicava nenhum perigo
sem seu contraponto. O contraponto surge na intersecção de
uma outra versão de universo, com pretensões à globalidade
totalitária, que se apresenta assimiladora e guerreira contra as
culturas que não domina. Surge da unificação das doze
tribos de Israel que não tinham poder significativo de representação
política, até o momento no qual Moisés as constitui,
pela aliança, um só Povo e brindou essa aliança com
uma Constituição – o Decálogo – e, com uma única
referência eterna de soberania: Javé. O Decálogo é
o impulso instituinte da unificação e a condição
do que virá a surgir: será um povo da promessa e Javé
será o seu único Deus. A negociação das tribos,
o sacrifício das identidades culturais de origem, são o grande
pacto social da constituição de um germe de ‘raça’
com pretensões de hegemonia. Não é distinto do que
ocorrerá em 622, na Hégira, quando seus ‘primos’ árabes,
também sem significação política, párias,
com muitas etnias, sob a aliança do Islã, adquirem a mesma
pretensão de sua universalidade, tendo Muhammad seu profeta, o Corão
como sua constituição e Alá como único Deus.
A festa de São Benedito
sofreu desde os primórdios, ao que parece, o cerceamento dos brancos,
dos que tinham recursos e dos que tinham poder. Os brancos assimilaram
a festa, garantiram a impossibilidade de sua universalização
desordenada, reduziram o poder negro à diáspora, tomaram
a irmandade. A existência da diáspora, porém, gerou
ambigüidades e contradições. Em Cuiabá e Mato
Grosso, desde os registros e grafites dos viajantes registraram a presença
de negros islâmicos, moçárabes, na região da
baixada Cuiabana, sobretudo Diamantino. Negros islâmicos que somados
à cultura Bantu, hegemônica, menos pública e mais reservada
em suas manifestações, gerou uma cultura rizomática,
na sua subterraneidade silenciosa e devastadora. Os levantes não
foram poucos no Brasil, a partir, inclusive, de outras Igrejas do Rosário,
como a revolta do Malês. A Igreja do Rosário, lugar da irmandade
dos homens pretos, tinha a função de com o ouro de aluvião,
das minas, alforriar ou garantir a fuga de negros quilombolas. A diáspora,
se sempre promoveu guetos, como o de Varsóvia durante a guerra,
unindo judeus, servia para organizá-los. Na resistência, o
povo considerado por Jesus como povo de dura cerviz, terminava por promover
o etnocentrismo, que realçava a diferença, e os livrava da
pior morte, a morte identitária. A festa de São Benedito,
sob uma irmandade sitiada, refém do poder da "branquidade" que sempre
se auto-proclamou ‘raça’, estabelecia os sentidos eugênicos
a serem celebrados, os valores da humildade, da servidão, da obediência
em contradição com a rebeldia, a revolta e a afirmação
da negritude, interditadas. Serviu ainda, para emoldurar São Benedito,
negro, na "branquidade" de seus hinos:
Feliz mil vezes
quem preserva imaculada, santa flor...
Tal como lírio alvinitente
que ao sol desponta em plena luz...
Seu
desnaturamento simbólico e seu travestimento na ideologia branca
expressavam a aniquilação da negritude e sua virtude contraposta
alvinitente. A Igreja do Rosário foi, na contramão, na década
de 1980 o lócus donde se retrabalhou, num grande coletivo, as vivências
das simbólicas populares e negras, ampliando sua compreensão.
Ensejou que aspectos de sua inesgotável polissemia emergissem, enriquecendo
a vida humana e de fé. Essa ação foi importante para
que se criassem e recriassem dimensões inteiramente novas e transformadoras
das vivências simbólicas, enriquecidas nas suas múltiplas
significações, incluindo movimentos considerados reacionários
e pouco ortodoxos como a Liga dos Apóstolos da Caridade, irmãos
rezadores e pregadores, deslegitimados por viverem com companheiras as
quais tinham se separado, e poderiam servir de escândalo ou incentivo
de ruptura com as prescrições eclesiásticas. Eles
oravam nas casas. Isso ocorreu graças, a um retrabalho das representações
e signos, entre estas, a redicção da negritude eclipsada
do Hino de São Benedito.
Belas mãos
negras consolavam
o irmão aflito em
sua cruz
Quem via longe perguntava:
“É Benedito ou é
Jesus?”
Aos ‘beneditos’ desta vida,
Negros, mestiços
e os sem pão,
Clamam por outro Benedito
Para fazer um mundo irmão!
Os versos que se acrescentaram
ao hino produziram uma linguagem contraditória à "branquidade"
da primeira estrofe. A dimensão negra aparece como libertadora.
A primeira festa que assisti,
já sediado, na condição de coadjutor de Teodoro, foi
belíssima. Havia uma devoção que tirava as pessoas
de casa às três ou quatro horas da madrugada e as trazia à
Igreja do Rosário. Ali, naquele espaço, cada um tinha como
que seu lar, sua casa, sua habitação. Pés no chão,
como nos terreiros onde a batida deles acorda os Orixás, manifestavam,
também, a disponibilidade de viver na fidelidade. Os conflitos existiam
e eram negociados, mas a palavra e a direção, não.
E o consenso se dava pela intermediação da mística
invisível, mas real, de cada pessoa intermediada por sua devoção
ao Santo. Conflitos, agruras, sofrimentos dolorosos, São Bendito
era o irmão, o pai e a mãe. Nele a alma se apaziguava e a
sua festa era a devolução, em parte, por seus devotos, ao
tanto que dele se recebia, no cotidiano.
São Benedito, para Teodoro,
não era alguém longínquo, tanto quanto o era para
o povo. Vivia da confiança nele. Os problemas todos eram postos
na mão de São Benedito. Havia entre ele e a população
cuiabana um mesmo pulsar, uma mesma comunhão. Você, leitor,
já imaginou um padre ancião, de cabelos brancos, compridos
e amarrados atrás com uma fitinha vermelha improvisada, com um ‘rabo
de cavalo' “saracoteando" à frente de um grupo de congada do negros
de Vila Bela da Santíssima Trindade, pulando feito menino nas ruas
de Cuiabá? Superego diluído, sem se preocupar, a qualquer
momento, o que estariam pensando seus adversários?
Em certa missa, cujas fotos
existem, a Ialorixá de candomblé, Dona Maria, paramentada
a rigor, com seus filhos-de-santo, chegam no finzinho da Igreja e ficam
lá, quase que escondidos face à atmosfera racista existente
na Igreja do Rosário. É, de repente, chamada à frente,
com uma imensa alegria radiante e com desmesurado carinho espalhafatoso,
com abraços, elogios, alegria pura e livre do Pároco, queria
que enfeitassem com suas presenças o altar de São Benedito
durante a missa. Ou...intimidades, que aqui conto. Na parede da Secretaria
da Paróquia havia um lindo cartaz, fotografia em que, num gradiente
de verde a vermelho, se divisava um fuzil, donde pendia um Rosário:
homenagem a padre Camilo Torres que havia aderido à guerrilha. Tinha
ganhado o quadro em Havana. Teodoro e eu éramos pacifistas, mas
ele, como eu, pensávamos no direito de defesa e de sobrevivência
das populações sob genocídio e guerra. Ele voltara
eufórico do retiro espiritual do ano, como bom jesuíta e
me dizia. “Rezei muito. Mas, na minha contemplação, o momento
mais alto dela, vi Camilo Torres e Che Guevara junto com Jesus, abraçados.
Camilo Torres e Che Guevara são santos que temos que venerar; deram
a vida em martírio pela justiça e pela libertação
do povo... como Jesus”.
A missa de festa, durante o
tríduo, sempre me fascinava. Leváramos a celebração
do espaço estreito da Igreja à praça, donde nunca
mais saiu. A missa sempre tem início muito cedo. Às quatro
horas da manhã grande parte das pessoas lá está, sentada
aguardando a Missa que será iniciada, irretorquivelmente, às
cinco horas. Ela decorre num silêncio que somente é rompido
pela alegria do cântico, pela exultação e pela beleza
das liturgias populares, cheias de símbolos, gestualidades, danças,
cantos e uma musicalidade forte de cunho popular libertador. Nestes momentos
de silêncio, as primeiras luzes da alvorada e o canto dos pardais
e dos sabiás juntam-se ao sereno forte de julho, que desce, preguiçoso,
acordando o espírito. Há, ali, escancaradas beleza e profundidade
místicas, momentos de contemplação e atenção.
A festa, porém, oportunizara
uma apropriação privada de certa elite que trocava de funções
e dominava, como ocorria com o Estado e com o município, o controle
diuturno das mesmas famílias, que atrelavam espaços públicos
para dominação política, racismo, privilégios
e interesses de classe. Tinham, há muitos anos, cooptado a irmandade.
O horário da missa, com
precisão britânica, era tabuado – atraso era coisa inadmissível!
Às cinco horas eu era empurrado pelos que me cercavam, pela porta
da sacristia, à nave central, sem qualquer chance de me opor. Mas,
naquela primeira festa, em que estive na condição de celebrante
e coadjutor paroquial, os festeiros tiveram que ser aguardados, vieram
da ‘casa da festa’ completamente bêbados, a ponto de terem de ser
carregados para a frente, por outras pessoas, falando alto; estar ali era
um castigo, ali estava a elite da cidade! Os recursos da festa angariados
foram utilizados para interesses de um grupo que se apropriara da festa.
As funções de coordenação da festa realizadas
pelos reis e rainhas eram ‘rifadas’ entre aqueles que compravam a irmandade
por meio das doações de ‘jóias’, tipo leilão:
quem dá mais? Os recursos tomados das ofertas nas ruas, de devotos,
por meio da Bandeira que percorria as ruas, ficavam integralmente na Paróquia
para suas atividades pastorais para todo ano. Mas, as doações
mais significativas iam para a conta em nome do Rei. lá entravam
dinheiro de autarquias, firmas, secretarias de estado, grandes grupos econômicos
ligados à classe política que desfrutava do espaço
de fé, cultural e turístico para manutenção
de curral eleitoral e de favores aos mais pobres em troca da fidelidade
ao doador. Isso doía a Teodoro. Até a festa em que, no Ginásio
do Bairro da Lixeira, foi anunciada a doação para os pobres
e para a população, de um guaraná quente e uma pequena
bolsa de alimentos. A pessoas expostas ao sol desde as primeiras horas
do dia até 13 horas da tarde. A fila se arrastava, aproximadamente,
por mais de um quilômetro. Os recursos e as doações
da festa entregues ao Rei, - divulgada a informação pelos
meios de comunicação, - foram utilizados para a Reforma do
Clube Dom Bosco, o qual interditava, por seu regimento e, por sua prática,
a entrada de negros. Pagamento de passagens e hospedagens fornecidas pelos
festeiros a parentes que moravam em outras cidades do país, feitas
doações sob alegação de turismo. Teodoro não
teve forças, de sozinho, enfrentar esse escárnio que sofria
há muitos anos. E já criara várias situações
para expor publicamente seu protesto. Um deles ocorreu quando levou São
Benedito, com toda a comitiva dos festeiros paramentadas a rigor e grandes
saltos, para o desvio do percurso marcado para o centro da cidade, até
a rua empoeirada do ginásio da Lixeira onde estava o povo. Apesar
dos gritos de protesto dos festeiros, contraditados em sua coordenação,
Teodoro preparava o terreno para a guerra: se ‘apossou’ de São Benedito
e provocou risos e apoio dos mais sofridos. Já havia acontecido
o mesmo, no ano anterior, Teodoro levara os festeiros ao Bairro da Canjica,
quase favela. Em seus sermões, este inesquecível, contava
do dia da Festa quando São Benedito depois de andar de comunidade
em comunidade e voltar para a Igreja do Rosário, tinha conversado
com ele, para saber como ele avaliava a Paróquia do Rosário,
as comunidades e o que lá acontecia. São Benedito falou de
sua surpresa e!do carinho que encontrou na sua visita às comunidades
pobres; mas no Bairro Canjica, o andor quase caiu, tropeçando num
arame de reserva de terra. Ele teve medo de ser preso ou despejado!. Comentou-lhe,
ainda, São Benedito, o desconforto na última viagem, quando
enfrentara o luxo e na riqueza de um certo templo central, onde os pobres
sofriam estigmas e preconceitos. Ele tinha achado isso muito ruim.
A festa naquele ano gerou protesto
da irmandade. Não devolveram as insígnias que davam continuidade
cíclica à festa. Elas realizavam a conexão histórica
dos festejos. Interrompia-se, desta forma, a tradição. Os
festeiros levaram as insígnias para suas casas. E decidiram realizar
uma outra festa de S. Benedito da irmandade fora da Igreja do Rosário,
em outra paróquia. A imprensa, controlada, via de regra, pela classe
política dominante, fez intensa campanha de desmoralização,
vazado no único argumento, que encontrava eco na população
cuiabana: a festa de São Benedito havia sido destruída pelos
padres que vinham de fora, que não eram cuiabanos e expropriavam
a tradição cultural do povo da terra. Essa festa já
não se realizaria sem o apoio das firmas, empresas e dos ricos.
Os panfletos deixavam claro que se tratava de ‘subversão da ordem’
realizada por comunistas. Houve abaixo-assinados para remoção
do pároco. Os desembargadores pagaram matéria nos jornais
e distribuíram folhetos em praça pública conclamando
a população contra o “ataque da igreja e dos padres às
tradições populares”. Em suma, tenho ouvido, por anos a fio,
que a Festa de São Benedito já não existia, tinha
sido descaracterizada, morrera, assassinada, traiçoeiramente. No
outro ano, uma outra paróquia alocou a festa de São Benedito
e anunciou: “Iº Ano da Tradicional Festa de S. Benedito”. No Primeiro
fim de setembro, terá lugar, em 2007, a “18 Festa Tradicional de
S. Benedito”. Vão-se vinte anos! Houve, por parte do bispo local
muita pressão sobre Teodoro, para que tudo ficasse, na verdade,
do jeito que estava, que não houvesse dissensões, que constituiria
um escândalo desnecessário, pedisse desculpas e trouxesse
a irmandade de volta. Ainda assim, quando verificou que se tratava de decisão
coletiva e sacramentada, procurou os festeiros dissidentes e conseguiu
que eles entregassem as insígnias à diocese; e o bispo, pessoalmente,
reconduziu-as à Igreja do Rosário. Vitória importante
para nós. Permitiu que a Festa da Igreja do Rosário tomasse
uma inteireza significativa do ponto de vista de sua função
de animação pastoral e de cunho religioso. No ano seguinte,
com o entusiasmo das comunidades, o carinho da população
e alguns doadores, por vezes anônimos, a festa redobrou em beleza,
participação e arrecadação. O Rei que retomou
a tradição era um devoto de São Benedito, pobre e
negro, da periferia: seu Dito do Canjica. E a rainha, Dona Ana Cruz, natural
da região quilombola de Vila Bela, estreitamente ligada à
comunidade do Rosário, Nossa Senhor do Carmo! A dimensão
estética, acústica, visual, a arte, a beleza passou a ser
parte da festa. Ela se constituía, também, num espetáculo
simples e direto, comunicativo, que tomava a Praça. A grande procissão
se ampliou, trabalhando a Campanha da Fraternidade, a procissão
das luzes, a música, os fogos; a Praça era lugar da tradição
popular, do cururu, do siriri, da congada, do baile popular. A visibilidade
da negritude de São Benedito permitiu missas-afros, danças
e o retorno à história de um São Benedito negro, carinhoso,
justo e vingativo contra aqueles que aniquilam os empobrecidos e injustiçados.
Tínhamos na festa uma nova orientação.
Esta mudança não
seria absorvida com facilidade. No ano seguinte, decidimos pela realização
da Missa dos Quilombos, texto de Pedro Tierra e D. Pedro Casaldáliga
e música de Milton Nascimento. Então vivo, o grande artista
plástico, Maurílio Barcellos pintou um Cristo negro, painel
de três metros e meia de altura, que tinha a mão esquerda
aberta e a mão direita com o punho fechado. A Missa dos Quilombos
seria celebrada à noite. Pela manhã, contudo, havia uma Missa
cujo tema era o Chamado Universal à Santidade. Convocamos Dona Maria,
Ialorixá, para conduzir com seus filhos e filhas-de-santo, as oferendas
para o altar. Coordenando tudo ao mesmo tempo, esqueci da hora das ofertas.
E já não era possível retomá-la. Falei ao meu
companheiro: quem sabe Dona Maria entraria na Comunhão. Conversei
com ela ficou muito emocionada. Ela levou oferendas da terra, da água,
dos ramos verdes, das frutas, legumes ao altar. Quando retornou a comunhão
se processava. Ela chegou pertinho do meu ouvido e perguntou: Será
que posso cantar um canto para Jesus? Respondi-lhe: “Claro, com certeza,
Dona Maria”. Ao toque dos atabaques cantou um ponto de Oxalá.
Havia mal estar, olhares de fúria. Mas tudo voltara ao normal. Ela
insistiu: “Será que eu posso cantar um canto de Nossa Senhora?”.
"Com, certeza, Dona Maria". Antes dos atabaques a invocação:
“Iemanjá, Iemanjá!” sob o ritmo cadenciado dos atabaques.
Na Igreja do Senhor do Bonfim, tudo bem; mas no Rosário, em Cuiabá...?
Você já viu um ataque de abelhas africana em um grupo? Era
o que parecia. O silêncio da comunhão se transformou pela
primeira vez em balbúrdia. A rainha, então, subiu as escadarias
e clamava em alta voz: “Meu Deus, se padre Emílio estivesse
aqui, e visse essa gente, ele estaria se remoendo na tumba!”
A missa sequer acabara e
os telefones do Rosário não paravam; o primeiro a telefonar,
o Bispo. Teodoro o atendeu. Ouviu: “O senhor é responsável
por essa anarquia... Esse é o limite...” Mãe Maria
queria ir à igreja rezar, mas ficou sem coragem. Fui até
ela e ela me perguntou: "será que eu posso entrar?" Respondi: "Essa
Igreja, Mãe Maria, é mais sua do que minha; é de todos
nós. Entre à vontade. Eu espero. Vou levá-la depois
à sua casa.”
O desânimo tomou conta
de todos nós. Lembro-me de ter dito. “Erramos; vamos mudar a programação
da noite. Vamos cancelar a Missa dos Quilombos. Vai ficar ainda pior”.
Padre Tomás Lisboa, jesuíta, vivia na aldeia com o grupo
minoritário, recém contatado, dos Enawenê-Nawê,
ponderou. “Não! Esse é o momento mais importante de evangelização.
O conflito é importante e é ocasião de mudança!
Deixem; eu vou rezar a missa nessa noite! ”
Simplificando: Tomás
pôs todo mundo no texto da Missa dos Quilombos. Tomás engolira
o espírito de Elias; com a pena atravessada nas narinas, no seu
rosto indígena queimado, o corpo atarracado e pequeno, era um extraordinário
orador. Ali estava, à frente, no primeiro banco, a classe política;
inclusive o governador. Tomás comenta, antes do Pai Nosso. “Vejam
esse Cristo Negro feito por um artista plástico... para esta celebração.
A mão esquerda dele aberta para os pobres, os pequenos, os oprimidos,
os estrangeiros, os de outras religiões.... Mas a mão direita
está fechada, com o punho cerrado para bater na cabeça dos
opressores, aqueles que enganam e dominam o povo...”
Claro que piorou e melhorou.
Minha ficha caiu muitos dias depois. Aqueles que se revoltaram não
eram os que eram cristãos católicos alinhados com toda a
extensão de sua ortodoxia, mas aqueles que, acreditando no universo
simbólico, e, por vezes, fiéis também do Congá
ou do Candomblé, eram tomados pela ambigüidade das expressões
de fé concorrentes, em espaços que deveriam articular-se
em separado.
A festa de São Benedito
recebia, assim, o impacto de uma nova teologia e espiritualidade ligada
à CNBB. De sorte que as missas da Igreja do Rosário davam
espaço, nas homilias, de sínteses em lâminas de retroprojetor,
de parte do documentos de Medellin, Puebla, dos documentos Evangelii Nuntiandi,
da Gaudium et Spes ou da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,
as Diretrizes Pastorais da Igreja no Brasil, fonte de legitimação
da pastoral que tínhamos, numa colegialidade, escancarada, que se
contrapunha às orientações em Cuiabá conectadas
quase sempre às orientações da Arquidiocese do Rio
de Janeiro. Nossa defesa contra os ataques de que éramos uma “Igreja
trotskista e de Candomblé” e, portanto, Igreja paralela, mostrava
que o paralelismo não era privilégio da Igreja do Rosário.
Importantes figuras em nossas
festas foram D. Helder Câmara, D. Luciano Mendes de Almeida, Dom
Celso Queiroz, D. Pedro Casaldáliga, D. Moacir Grecchi, do Acre,
Frei Davi da Pastoral do Negro, Padre do Carmo - da Bahia. No apoio aos
Direitos humanos: Dalmo Dallari, Hélio Bicudo, Pedro Wilson, Márcia
Miranda, Paulo Schilling, Carlos Alberto Maldonado, Agostinho Veit. Na
teologia e espiritualidade, Teólogos da Libertação,
Leonardo Boff, Frei Carlos Mesters, Marcelo Barros, Benedito Ferraro, Arturo
Paoli, Francisco Taborda e João Batista Libânio. No campo
da Educação Sérgio Haddad, Carlos Rodrigues Brandão,
Agostinho Castejon, Padre Paulo Englert, Frei Nery, Celso Vasconcelos,
Danilo Gandin. No campo da Saúde: José Renan Esquivel, Elsa
Ferreira Lobo, Enelinda Scalla, Júlio Muller, Luís Scalla.
Era a atmosfera de ligação,
formação, acompanhamento, que mantinha uma unidade de proposta,
uma força e expressão da caminhada, que ligava o local com
o universal. Os festivais de música, cartazes, pinturas, poesias
criavam formas estéticas e expressivas que oportunizaram vivências
coletivas da alegria e da festa. Eles sempre precediam a festa de São
Benedito, assim como estudos, conferências e debates que traziam
ao nível da reflexão os grandes temas da política,
da educação, da Igreja e do Direitos Humanos. Em 2007, nesta
mesma esteira, Dejacy de Arruda Abreu expôs à noite, na Igreja,
sua dissertação de Mestrado, que em parte eu orientei e em
parte Profa. Drª Rita Amaral.
As festas eram, desde então,
grandes sínteses dos acontecimentos mais importantes do ano. Retomavam
documentos da Igreja, os anos temáticos da UNESCO, a Campanha da
Fraternidade e acontecimentos de impacto. Tenho a impressão que
o que projetou, em grande parte, a dimensão da festa de São
Benedito, do ponto de vista comunicacional, foram as múltiplas linguagens,
sua dimensão simbólica, acústica, visual, que abriam
uma perspectiva emocionante do evento e que continua maravilhando as pessoas
que dela tomam parte. Ponto decisivo da festa, entretanto, parte da mística
de ter sido São Benedito cozinheiro do seu mosteiro e depois mestre
de noviços. É a comida das cozinheiras de São Benedito,
promesseiras, que garantem a centralidade do alimento e da bebida nas festas
de Cuiabá. Estas linguagens permitiram que a festa, ainda que ampla,
se massificasse sem deixar perder a comunicação, a vivência
da vida da fé de cada crente. Tudo isso, contudo, seria somente
invólucro se não houvesse por dentro, um conteúdo
subjetivo, uma vivência de significado que cada devoto constrói
a seu modo, na sua vivência pessoal e comunitária, na sua
significação única, e que empresta sentido aos sentidos
daquilo que é, comunitária e intensamente, vivido. Sempre
acreditei que, se a festa de São Benedito não existisse,
seria uma loucura inútil tentar criá-la sem sua base de sustentação
cultural que trama a solidariedade de um evento de todos.
Houve, é verdade, uma
reforma litúrgica no Vaticano II, que chegou ao nosso país
por volta de 1964 e que destronou os santos, desautorizando muitos que
eram devoção popular. Apostava-se, à corte típico
da modernidade, na centralidade do evento crístico, retirando todo
o aparato popular e a piedade popular nos santos, na busca de uma purificação
da fé de todo o sincretismo. As igrejas foram apressadas nesta direção.
Na Igreja do Rosário,
nosso movimento foi às avessas. Tratava-se de ampliar a compreensão
dos signos, ressignificando-os, e introduzindo neles outras experiências
que ligassem sua memória aos eventos contemporâneos.
Essa memória não
conclui coisas definitivas. Ela aponta o caminho da festa como uma mediação
educativa para vivências e políticas em uma sociedade monocultural
que produz a invisibilidade, a negação de toda a diferença.
Sociedade que se confronta com a promulgação de universalidades
a serviço da modernidade, das formas neoliberais e de totalitarismo
monocultural. Contra-hegemonia que juntos desenvolvemos, nascida no espaço
de Igreja, mas que atuava na sociedade, revalidando a rebeldia, revalorizando
o diverso, desconfiando dos processos instituídos que negligenciassem
a dimensão instituinte e criadora. A Igreja do Rosário toda,
via festa, girava em torno dela, como seu epicentro. Instaurava uma percepção
da inconclusão que somos como pessoas e como instituição
eclesial que precisa de pontes e desafios com outras alteridades. Afirmava
em sua prática que todo o movimento é movimento permanente
rumo à metamorfose. Não vale que o coração
vivo dos processos, seja morto, freqüentemente, pela reiterada afirmação
da tradição, da mesmidade, da mumificação da
tradição, perdendo a seiva instituinte e criadora. Há
na luta da construção de novas significações
um papel importante de trazer visibilidade às coisas que circulam
nos entre-lugares e nos tempos negados. As coisas mais importantes, não
por serem espirituais, apenas, mas por serem demasiado cósmico-telúricas,
por estarem demasiado perto dos olhos, não as enxergamos, diria
Wittgenstein (1979). Pois é no invisível que reside em grande
parte, a vida. Perder a capacidade de sempre mudar outra vez, e de novo,
é perder em grandes porções nossa própria humanidade.
Foi isso que aprendi e que compartilho nesse quase etnográfico “memorial
[da Festa] de um pároco de uma aldeia-quase- cidade”.
Notas
Doutor
em Currículo Educação pela PUCSP, Coordenador do Grupo
de Pesquisa Movimentos Socais e Educação (GPMSE), colaborador
do Grupo de Pesquisa Educação Ambiental (GPEA), membro da
SIPEQ.
Circunscrição
eclesiástica autônoma e independente do bispo local.
Eudson
de Castro Ferreira; Lucilo Libânio de Souza (Nonô); Irmã
Dineva; Felinto Ribeiro Neto; Artemis Torres; Dona Nair Francisco (Bairro
Planalto); Inácio Werner; Edna Amaral, do Leblon; Sr. Dito do Bairro
Canjica; Dona Adelaide, do Pedregal; Nildes Magalhães do Rosário;
Dalva e José Maria Rorigues da Lixeira; Seu Antônio do Canjica;
Gilney Viana; Wilmon do Bairro Carumbé; Enelinda Scalla – atualmente
vereadora PT; João Monlevade; Glorinha Albuez; Valdir e Dora Bertúlio;
Lúcia Palma; Sr. Armandinho de Rosário Oeste e um número
quase infindo de pessoas. Entre os contatos com a Igreja, os pastores da
IECLB, Arteno Spellmeyer, Teobaldo Franz, Hans Trein, Geraldo Sach e membros
da Igreja Luterana, Dieter Metzner, Vilmar Schrader. Muito importante,
na época, o Diretório Central dos Estudantes e a Associação
Mato-grossense de Estudantes e um significativo número de pessoas
ligadas ao movimento estudantil. De outro lado, D. Pedro Casaldáliga
e os companheiros de sua prelazia; D. Tomás Balduíno, em
Goiás; D. Máximo Biénnes em Cárceres; D. Fernando,
em Goiânia; D. Osório em Rondonópolis.
O
fascinoso e o terrificante.
Emílio
Reihner, Padre jesuíta, nosso companheiro, mais idoso, recentemente
falecido de câncer, pessoa muito estimado pelos pobres, de extraordinária
solidariedade, mas apologético contra rituais afros.
Bibliografia
CERTEAU,
Michel de. A invenção do cotidiano: 1. A arte
de fazer. 5ª ed. Tradução de Efraim Ferreira Alves ,
Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
DUSSEL,
Enrique. Ética da Libertação. Na Idade
da globalização e da Exclusão. Tradução
Ephraim Ferreira Alves; Jaime Clasen e Lúcia M. E. Orth. RJ:Petrópolis,
2000.
GEERTZ,
Clifford. A interpretação das culturas. Rio
de Janeiro: LTC, 1989.
PASSOS,
Luiz Augusto. Currículo Tempo e Cultura. Tese de doutorado.
São Paulo: PUCSP, 2003. 483p.
WITTGENSTEIN,
Ludwig. Investigações filosóficas In Ludwig
WITTGENSTEIN. Tradução José Carlos Bruni.
2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. [Os Pensadores]

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