“Bem aventurados os que choram”: um estudo antropológico do Clube do Choro de Porto Alegre

Marina Bay Frydberg
Doutoranda em Antropologia Social
UFRGS

 
 
Quando Deus criou o mundo perguntou aos anjos o que achavam dele.
 Falta-lhe uma única coisa, disseram: ’o canto de louvor ao criador’. 
Assim, Deus criou a música, o gorjeio dos pássaros, o sussurro dos ventos, 
o murmúrio do mar e plantou a melodia no coração do homem. 
Fernando Becker – Cd do Clube do Choro de Porto Alegre

 
 

O choro é um gênero musical urbano que surgiu no Brasil no final do século XIX. Nesses mais de cem anos de existência o choro já fez muito sucesso, tocado nas rádios e em muitas festas e casas por todo o país. Mas atualmente o choro não é um gênero musical presente nos meios de comunicação de massa. Por este motivo, tem-se a idéia de que choro é música que não se toca mais. Esta pesquisa  investigou de que forma a música, e mais especificamente o gosto pelo choro, é capaz de construir identidades e ao mesmo tempo estabelecer um tipo de sociabilidade específica. Para tanto tem-se  como universo o Clube do Choro de Porto Alegre, grupo que se reúne todas as quintas-feiras para tocar e cantar o que seus membros chamam da “boa música popular brasileira”. 
 
 
 

Este trabalho foi realizado por meio da observação sistemática dos encontros semanais do Clube do Choro de Porto Alegre durante os anos de 2002 e 2003, além de entrevistas com os oito músicos e com a apresentadora que compõem o grupo.
 
 

A música, principalmente, o choro, foi o elemento motivador do surgimento do Clube do Choro em Porto Alegre há dezoito anos. Este  clube desmistifica a idéia de que o choro seja música do passado e que, atualmente, esteja reduzido a poucos devotos do gênero. Seus encontros semanais reúnem em média 250 pessoas que utilizam o Clube como lugar para encontrar amigos, criar vínculos sociais e, principalmente, afirmar sua identidade. 


 
 
 
 
 
“Naquele Tempo”: O Clube do Choro de Porto Alegre

 
Da reunião de amigos para tocar música popular brasileira todas às segundas-feiras no Centro Ítalo Brasileiro nasceu a idéia do clube . Idéia que se consolidou no dia 22 de novembro de 1989 com a fundação do Clube do Choro de Porto Alegre, sociedade civil e sem fins lucrativos. O Clube do Choro tem como primeira finalidade, segundo o seu estatuto, a “promoção, estímulo e divulgação da música popular brasileira, com destaque para o gênero choro”.  Outra proposta do Clube do Choro é “a realização de concertos, festivais, espetáculos musicais, organização de conjuntos, regionais e de outras formas de apresentação musical”. 
 
 

Sem sede fixa, o Clube do Choro começou seus encontros no Glória Tênis Clube. Passaram por muitos outros clubes como o Floresta Aurora, o Teresópolis, o Clube do Comércio e o Solar Palmeiro. Chegaram, então, ao Ypiranga Futebol Clube onde realizam encontros todas as quintas-feiras, das nove da noite à uma da manhã. 


 
 
 
O Clube do Choro funcionava sem uma organização rígida e sem um regional fixo; quem quisesse participar só precisava levar o seu instrumento e tocar. Somente na gestão atual do Clube , que tem na presidência Runi, vice-presidência Paulo e tesouraria Myrian, foi que se formou um regional fixo, com fardamento identificando-os. Estabeleceu-se, também, uma ordem: até às dez e meia da noite só se toca choro instrumental e depois desse horário "abre-se" para o público cantar, normalmente sambas e serestas. Alguns músicos trazem os seus instrumentos e fazem uma participação especial. 
 

 

O Clube do Choro tem quatro categorias de sócios, segundo o seu estatuto. São eles: os sócios fundadores, os sócios contribuintes, os sócios remidos e os sócios honorários. Qualquer sócio pode participar das eleições do Clube do Choro votando ou sendo votado. Para assistir aos encontros semanais do Clube do Choro não é necessário ser filiado; as reuniões musicais são abertas ao público em geral.
 
 
 

É importante salientar que o Clube do Choro de Porto Alegre e o choro em geral na cidade têm claro em sua formação a importância de unir pessoas com capacidade de fazer convergir músicos em torno de si ou de uma idéia. 

 
 

Na história do Clube nota-se a presença de dois indivíduos que, em épocas diferentes, reuniram pessoas para a consolidação dos encontros. Alguns músicos do Clube referem-se à importante e agregadora participação de Lúcio do Cavaquinho, um dos mentores da idéia do Clube e seu primeiro presidente, desde o tempo dos encontros no Centro Ítalo Brasileiro. Lúcio do Cavaquinho foi quem reuniu os músicos que há mais tempo participam do Clube e que foram idealizadores e fundadores do Clube do Choro de Porto Alegre. 

 
 

Posteriormente,, a presença de Zeno, outro presidente do Clube, também congregou e atraiu novos músicos para o Clube, determinando a formação atual dos músicos do regional. Lúcio do Cavaquinho e Zeno foram fundamentais para a constituição e consolidação do Clube do Choro. Por meio de sua  aptidão para unir pessoas, ambos criaram o Clube do Choro e não o deixaram morrer. Esses dois personagens estão sempre presentes na história da inserção dos músicos no Clube:

 
 
 
A minha história no Clube do Choro se deu por volta de 1994, 1995. Porque eu fazia parte do regional Vibrações, do Lúcio Quadros, Jessé Silva, Rogério, os netos do Túlio Piva; eu fazia parte, também, do regional do Teatro São Pedro (no qual o Lúcio do Cavaquinho tocava) e também do grupo Lamento. Tinha outros regionais, só grupos de choro, que eu fazia parte. E o Jessé e o Lúcio [do Cavaquinho] já faziam parte do Clube do Choro. Mas eu entrei bem depois no Clube do Choro;, eu comecei a freqüentar bem depois, em 95 e 96. Essa época, mais ou menos, eu comecei a freqüentar o Clube do Choro. (Runi – percussão, surdo)
 
 

As presenças de Lúcio do Cavaquinho e de Zeno foram fundamentais para a criação de um espaço concreto para o choro em Porto Alegre. Espaço que deu voz ao choro e aos seus admiradores. Mas que espaço é este e o que ele proporciona?


 
 
 
 
“Se Acaso Você Chegasse”: O Espaço e seus Significados
 

Um prédio branco de dois andares, com toldo verde e amarelo, sede do Ypiranga Futebol Clube, segunda entrada ao fundo do corredor. Ete é o lugar em que todas as quintas-feiras ocorrem os encontros do Clube do Choro. Nos outros dias da semana este lugar, ao lado de uma cancha de bocha, é uma sala de jogos com mesas de sinuca, ‘fla-flu’ e outros divertimentos. Umas poucas mesas ficam dispostas ao lado do bar, exclusivo para sócios do Ypiranga Futebol Clube se encontrarem ou descansarem depois de alguma partida. Às quintas-feiras, no entanto, este lugar se modifica e se transforma no Clube do Choro de Porto Alegre.


 
 

A movimentação tem início por volta das seis horas, bem antes do Clube do Choro começar a funcionar. As mesas de jogos são retiradas do local e colocadas em um canto do salão. Depois, são distribuídas cadeiras e mesas por todo o local. As mesas recebem toalhas verdes e amarelas. As cadeiras dos músicos são distribuídas uma ao lado da outra, ficando dispostas diante de uma churrasqueira que tem sua boca coberta por um quadro com o nome "Clube do Choro de Porto Alegre" escrito em verde e amarelo (cores do Ypiranguinha). 

 
 
 

À frente das cadeiras são colocadas duas mesas, para os músicos. Na pia, ao lado da churrasqueira, é montada a mesa de som. Uma mesa grande é posta em frente aos músicos e é chamada de "mesa da diretoria": ali os sócios pagam suas mensalidades e os cantores se inscrevem para cantar. 

 
 
 

A distribuição dos músicos em linha reta, ou seja, cadeiras uma do lado da outra e no mesmo nível das outras mesas, chama a atenção no Clube do Choro. As rodas tradicionais de choro acontecem geralmente em círculo ou, se forem rodas entendidas como apresentações, normalmente ocorrem sobre um palco. Mas no Clube do Choro de Porto Alegre nenhuma dessas duas distribuições acontece., Isso porque é um encontro entre iguais, sejam eles músicos ou público. Segundo Magnani (1998, p.30), é nas atividades de lazer que “os trabalhadores podem falar e ouvir a sua própria língua” E o Clube do Choro é, para essas pessoas, um importante espaço de lazer. Para que sejam iguais é necessário que não haja uma hierarquização entre eles, mesmo que espacial. Dessa forma, a distribuição dos músicos no Clube do Choro possibilita o contato e o diálogo permanente entre aqueles que o formam. Ou, como diz Simmel (1983, p.173), “visto que é abstraída da arte ou do jogo, a sociabilidade demanda o mais puro, o mais transparente o mais eventualmente atraente tipo de interação, a interação entre iguais”.

 
 
 

Assim, o espaço que todos outros dias da semana apresenta um determinado significado, nas quintas-feiras tem este significado mudado e a relação dos usuários com o espaço também. 

 
 
 

Torres (2000) entende o lazer como uma importante prática de sociabilidade que permite a criação de vínculos entre as pessoas e os espaços urbanos. E é a sociabilidade do Clube do Choro que cria a ligação entre as pessoas e o espaço do Clube.


 
 
 
Vejamos a distribuição espacial do Clube do Choro:

 
 
 

O Espaço do Clube do Choro. Autoria: Maria Inês Bay, 2003. Fonte: Acervo pessoal.
 
 

O Espaço do Clube do Choro. Autoria: Maria Inês Bay, 2003. Fonte: Acervo pessoal.


 
O Clube do Choro possui capacidade para mais ou menos 150 pessoas sentadas, mas passam pelo Clube, segundo a direção, em média 250 pessoas a cada quinta-feira. A distribuição espacial das pessoas pode estar relacionada com o interesse que as traz ao Clube. 

 
 
 
As pessoas que freqüentam o clube por causa da música, para escutar o choro, normalmente ficam nas mesas mais próximas aos músicos (mesas verdes) e poucos conversam entre si. Quando conversam, normalmente são comentários sobre a música ou os músicos. Nessas mesas pode-se observar atentamente a performance dos músicos, fator importante para quem gosta de música. Essas mesas ficam normalmente reservadas em nome do Clube do Choro para os freqüentadores mais assíduos ou eventualmente a vinda de algum amigo ou parente dos músicos. 
 
 
 

As pessoas que freqüentam o Clube do Choro para encontrar amigos e conversar, enfim, para estabelecer laços de sociabilidade, sentam-se longe dos músicos e não prestam muita atenção neles (mesas brancas). Elas gostam de choro e alguns até cantam, mas sua atenção não está voltada exclusivamente para os músicos e sua performance . O encontro e a conversa com amigos são fundamentais para essas pessoas. O que Simmel (1983, p.177) entende como “o legítimo propósito de si mesma”: a conversa tem na sociabilidade o único objetivo, é uma forma pura de reciprocidade. 

 
 
 

Há um outro grupo, na maioria homens, que fica de pé atrás da mesa da diretoria. Este é um lugar privilegiado para a observação dos músicos, pois fica bem à sua frente . Estas pessoas vão ao Clube do Choro pela música, fato que as faz preferirem ficar de pé a sentar em uma mesa de onde seja impossível visualizar os instrumentistas.

 
 
 

Já sabemos como essas pessoas se distribuem no Clube do Choro e os significados que atribuem ao espaço. Mas quem são estas pessoas?


 
 
 

“Gente do Choro”: O Público e a Sociabilidade

 
O público, em sua maioria, tem mais de cinqüenta anos de idade, é de classe média e média baixa e muitos são negros. Podemos dizer que, normalmente, metade do público é composta por mulheres. Homens e mulheres vão ao Clube do Choro em quatro formações: em casais, em grupos de casais, em grupos de homens ou de mulheres e sozinhos. As pessoas que chegam sozinhas dificilmente permanecem nesta situação enquanto estão no Clube; normalmente encontram amigos ou conhecidos e se juntam a eles. Nota-se, nesses encontros, a permanência da formação de grupos só de um dos sexos. São, geralmente, homens que chegam sozinhos e encontram outros homens formando, assim, grupos somente de homens.
 
 
 

As pessoas chegam ao Clube do Choro em três tempos diferentes. Há pessoas que chegam e saem cedo. Pessoas que chegam cedo e saem somente no final. E pessoas que chegam tarde e saem somente no final. As pessoas que chegam cedo e saem somente no final são as que vão ao Clube do Choro pela música e procuram sentar perto dos músicos. 
 
 


 

“Mulheres também choram”. Autoria: Marina Bay Frydberg; Porto Alegre, 2002. Fonte: Acervo pessoal
 
 

Mulheres também choram. Autoria: Marina Bay Frydberg; 2002. Fonte: Acervo pessoal


 
Pode-se classificar em dois os grupos que freqüentam o Clube do Choro de Porto Alegre.  Um primeiro grupo, que freqüenta o Clube há mais tempo e vai assistir aos músicos onde que quer que eles toquem, e o grupo que começou a freqüentar o Clube mais recentemente, geralmente pela proximidade do local do Clube de suas residências Eles não possuem importância diferenciada, mas representam construções de identidades de formas distintas. As pessoas que freqüentam o Clube do Choro há mais tempo têm uma identidade de chorão constituída, enquanto as que começaram a freqüenta-lo recentemente estão, na maioria das vezes, construindo a identidade de chorão agora. 
 
 
 

O Clube do Choro é um importante espaço de lazer, pois as pessoas que freqüentam esse ambiente não encontram muitos outros lugares na cidade para freqüentarem devido à sua faixa etária. Ir ao Clube do Choro significa criar um tipo de sociabilidade específica que está, para a maioria, ligada à música. 

 
 
 

Esta compreensão da sociabilidade fica muito clara na fala de um dos participantes do Clube do Choro que canta e que depois de uma apresentação agradece dizendo: “muito obrigado, gente, pelo carinho de vocês; é isso que ainda faz a gente sair na noite”. Neste agradecimento verifica-se a importância do Clube enquanto espaço de sociabilidade e de reciprocidade. 


 
 

A sociabilidade para estas pessoas está diretamente vinculada à música e é através dela e do gosto e prazer de escutá-la que se criam relações e formam-se redes de sociabilidade. Para algumas pessoas está ligado a este espaço único de diversão a construção de uma "família". Como Myrian nos conta:
 
 
 
 

Pessoas que já estão aposentadas e tu vê muita mulher sozinha, um grupo de três, quatro mulheres. Então são aposentadas, ou separadas ou mesmo solteiras que não é em todos lugares que dá para tu ires. Ali acaba se tornando uma família, acaba todo mundo se conhecendo. Ali todo mundo se conhece. É uma extensão da família. (Myrian – apresentadora e cantora)

 
 
Esta fala de Myrian mostra o Clube do Choro enquanto espaço de lazer único e afetivo (uma família). Isto possibilita, segundo sua fala, a presença de mulheres não acompanhadas por homens, o que identifica a moral e os valores dessas pessoas. Mas a construção de uma família no Clube do Choro somente é possível porque é proibido dançar no Clube. A proibição da dança, justificada por não haver lugar adequado, mantém o Clube como lugar não sexualizado, já que a dança é uma forte forma de sexualização e de contato corporal entre as pessoas. Dessa forma, o Clube do Choro não é um lugar de flerte, de namoro. Não que isto não ocorra, mas o flerte e o namoro se dão entre pessoas que já vêm juntas. Fato que demonstra ainda mais a característica familiar do Clube.
 
 
 

O Clube do Choro é um lugar de encontro, de conversa, de descontração. A não sexualização do lugar não está, evidentemente, ligada a não sexualização das pessoas. Muitas pessoas vêm acompanhadas de namorados e namoradas e muitos encontros acontecem no Clube. Mas o Clube não é um ambiente excitado que proporcione encontros amorosos. O namoro e o flerte não são os objetivos principais que levam as pessoas ao Clube do Choro. Elas vêm pela música, mas também pelas amizades que o Clube criou ou que nele são mantidas.

 
 
 

O lazer descrito aqui está referido a um espaço de falar e ouvir a sua própria voz. O lazer como o encontro dos iguais, socialmente e musicalmente falando, e do espaço do lazer, ou seja, o Clube do Choro, enquanto construção de uma sociabilidade familiar e musical. Mas por que o Clube do Choro e o choro e não outros lugares e gêneros musicais?

 
 
 
 
 
“Noites Cariocas”: Os Encontros do Clube do Choro de Porto Alegre

 
Os encontros no Clube do Choro podem ser entendidos como espaços de festa. A importância social da festa já foi estudada por muitos autores dentro das ciências sociais. Mas a festa foi normalmente estudada dentro do campo da religião, como ritual religioso ou expressão de religiosidade (Amaral, 2000 [1998]). Durkheim acredita que:

 
 
 
[...] toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas características da cerimônia religiosa, pois, em todos os casos, ela tem por efeito aproximar os indivíduos, colocar em movimento as massas e suscitar assim um estado de efervescência, às vezes meio de delírio, que não é desprovido de parentesco com o estado religioso. Pode-se observar também, tanto num caso como no outro, as mesmas manifestações: gritos, cantos, música, movimentos violentos, danças, procura de excitantes que elevem o nível vital, etc. (Durkheim, 1996, p.547)

 
 
As reuniões no Clube do Choro possuem estas características , pois elas têm a capacidade de reunir e aproximar pessoas em torno de um objetivo comum, o choro, e também de causar estados de emoção próximos da efervescência coletiva, o coro junto com a música ou as palmas. Essa efervescência coletiva tem como maior propulsor a música. É através da música ou incentivado por ela que as maiores manifestações coletivas de emoção acontecem no Clube do Choro. Manifestações de emoções que levam a construção de uma identidade comum. Identidade que está sendo construída através do gosto pela música (choros, sambas e serestas), mas, também, da emoção que esta gera nas pessoas. 

 
 
 
No Clube do Choro acontecem duas formas de manifestações do público. Uma primeira manifestação, que classifico como formal, ou seja, a participação do público no espaço destinado, no encontro, para as pessoas cantarem ou instrumentistas tocarem. E uma segunda manifestação que classifico como informal, as palmas e o coro do público. 
 
 
 

As palmas acontecem no Clube do Choro em dois momentos, primeiro no começo da música e depois no final. No começo da música as palmas são para a música que está sendo tocada ou cantada, ou seja, para a escolha do repertório. No final da música o público novamente aplaude só que agora as palmas são para a interpretação da música. A lógica dos aplausos se aproxima do que Mauss escreveu no “Ensaio sobre a dádiva”: dar, receber e retribuir (Mauss, 2003). As palmas são, no Clube do Choro, uma forma de reciprocidade, de diálogo entre os músicos e o público. Os primeiros aplausos que indicam uma boa escolha da música geram um estímulo para uma boa performance que se ocorrida gera novos aplausos que geram expectativa da escolha de uma boa música e assim sucessivamente. É durante todo o tempo dar, receber e retribuir. 

 
 
 

O coro como manifestação informal é o acompanhamento da música ou normalmente do refrão da música. Ele representa, também, um momento de diálogo entre o público e os músicos, só que este diálogo se dá simultaneamente. Estas manifestações, aplausos e coro, podem ser entendidas segundo Mauss como ações simbólicas, pois:

 
 
 

[...] todas as expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória dos sentimentos dos indivíduos e do grupo, são mais que meras manifestações, são sinais de expressões entendidas, quer dizer, são linguagem. Os gritos são como frases e palavras. É preciso emiti-los, mas é preciso só porque todo o grupo os entende. É mais que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifesta-los aos outros pois assim é preciso fazer. Manifestar-se a si, exprimindo aos outros, por conta dos outros. (Mauss, 1979, p.153)

 
 
 

Os aplausos e o coro são uma forma de o público dialogar com os músicos. Eles são, sem dúvida, uma forma de linguagem compreendida por todos os participantes do Clube do Choro. E estas expressões se fazem necessárias para que essas pessoas (re)construam e mantenham a sua identidade de chorão. Estas manifestações são, assim, o momento onde a identidade de chorão do público é reafirmada e mantida.

 
 
 

Outra forma de manutenção e reafirmação da identidade de chorão está no modo como o público escuta a música. Moraes (1985) acredita na existência de três maneiras dominantes de ouvir: ouvir com o corpo, ouvir emotivamente e ouvir intelectualmente. O acompanhamento do ritmo da música com o corpo (uma espécie de dança) que acontece sentado ou em pé do lado da mesa sem sair do lugar são manifestações de quem ouve com o corpo. Segundo Moraes (1985, p.63) “ouvir com o corpo é empregar no ato da escuta não apenas os ouvidos, mas a pele toda, que também vibra ao contato com o dado sonoro: é sentir em estado bruto”.

 
 
 

A expressão do ouvir emotivamente que é entendida por Moraes (1985) como o uso da música para despertar ou reforçar algo já latente em quem escuta se dá através de manifestações de carinho como abraços e beijos. Estas manifestações de carinho só ocorrem entre as pessoas que vêm acompanhadas ao Clube do Choro. O amor é, nas músicas tocadas no Clube do Choro, o tema que mais gera este tipo de manifestação e maneira de ouvir. Já a forma intelectual de ouvir acontece através da conscientização de que a música tem como base estrutura e forma (Moraes, 1985, p.68) e é expressa através do acompanhamento rítmico com a mão batendo na mesa. 

 
 
 

A organização e a distribuição dos tipos de música em dois momentos no Clube do Choro, primeiro choro e depois sambas e serestas, acontecem há pouco tempo, mas são respeitadas em todos os encontros. Há uma primeira parte do encontro em que só se toca choro; parte respeitada por todos os participantes. Todos os freqüentadores sabem que cantar só é permitido depois que o próprio regional do Clube abre este momento. Eles o fazem através de um "ritual" que acontece todas as quintas-feiras. Um dos músicos do Clube é apresentado e são expostas as suas virtudes como cantor. Ele inicia, então, cantando um número de músicas não definido. Geralmente começa cantando músicas mais lentas, como serestas, e depois vai aumentando o ritmo da música até chegar ao samba, ápice da sua apresentação e da animação do público. 

 
 
 

A partir deste momento os músicos são chamados pela apresentadora para virem cantar duas ou no máximo três músicas. Este "ritual" e esta organização criaram uma tradição que é mantida e respeitada em todos os encontros do Clube do Choro.


 
 

Outra característica desta tradição é a necessidade de que qualquer participação formal do público , cantar ou tocar, passe pela "mesa da diretoria" que posteriormente chama e apresenta os inscritos. Esta necessidade da apresentação também foi uma tradição inventada há pouco tempo, mas que é muito bem aceita, pois a apresentação valoriza a participação dos músicos e cantores no Clube do Choro. 

 
 
 

Para Durkheim (1996) a importância da religião e da festa está no entendimento destas como um lugar capaz de rejuvenescer o espírito cansado do trabalho cotidiano. O Clube do Choro é entendido por seus músicos da mesma forma como nos mostram Cebolinha e Barbosa:

 
 
 

A importância é tanto quanto a minha família. Acho que cada um de nós pensa assim. Claro que em primeiro lugar está a família da gente. Mas vamos dizer que em segundo lugar é o Clube do Choro. Isso aqui é uma família tanto quanto a nossa. Coisa que, chova ou não chova, se a pessoa tá meio gripada vem de qualquer jeito porque aqui a gente cura. Cura doença do coração, doença da alma, cura tudo, né. (Cebolinha – cavaquinho)


 
 
Tem um valor, pra mim, inestimável. Porque a música é um bálsamo pra alma da gente. Quando eu estou meio magoado ( eu sou um homem de uma sensibilidade incrível - eu não sei porque eu sou assim -a minha sensibilidade é incrível).. então pra mim a música está, no dia que eu parar de tocar deu para a minha bolinha. Eu fico pela bola sete mesmo. Eu to em casa e toca o telefone: "- estamos aqui reunidos no barzinho". Eu vou pra lá. Todo mundo, a gente já está acostumado. A música pra mim é a segunda alimentação, tanto mental. É uma coisa fabulosa, eu sou doente por música. (Barbosa – gaita)

 
 
Essa fala demonstra a importância da música, não só como formadora de identidade, mas também como veículo de emoção e de prazer. A emoção oriunda da música e o prazer de cantar ou tocar estão muito presentes no Clube do Choro e são fundamentais para a (re)construção da identidade de chorão e o rejuvenescimento do espírito das pessoas que o fazem.  Mas que identidade é esta que está sendo (re)construída no Clube do Choro?

 
 
 

“Mistura e Manda”: A Identidade através da Música
 

O repertório tocado e cantado no Clube do Choro e que gera emoção e participação do público pode indicar uma série de outras identidades, além da identidade de chorão, que também estão sendo afirmadas e mantidas nos encontros musicais. A primeira identidade que é (re)construída no Clube do Choro por meio da música é a identidade brasileira. Apenas pela escolha do choro, música genuinamente brasileira, já poderíamos dizer que esta identidade está sendo afirmada e mantida. Mas, mais do que isso, músicas que exaltam as características da identidade brasileira como a malandragem, o samba e o jeitinho brasileiro são, recorrentemente, tocadas e cantadas (Oliven, 1989).
 
 
 

As marchinhas de carnaval são um dos gêneros musicais que possibilitam de forma muito entusiasmada a afirmação da identidade brasileira. Quando são cantadas, além de um coro emocionado, as músicas geram acompanhamento com as mãos e até através da dança. Esse gênero musical também remete o público ao passado, pois na faixa etária em que os freqüentadores do clube se enquadram, as músicas mais tocadas nos carnavais eram as marchinhas. A música (re) constrói  a identidade brasileira e ativa no público a memória de um passado vivido por boa parte dos freqüentadores . Desta forma, ela afirma a identidade brasileira não só pelas suas características de brasilidade, mas também pela vivência pessoal dos participantes. 

 
 
 

A identidade brasileira é mantida, também, por meio de músicas que adquiriram significados nacionais em determinado contexto histórico. É o caso da música ‘Deixa a vida me levar’ de Serginho Meriti e Eri do Cais que foi imortalizada na voz de Zeca Pagodinho. Esta música foi eleita o hino do pentacampeonato de futebol que o Brasil conquistou em 2002. E é tocada em todos os encontros do Clube do Choro sempre acompanhada pelo coro e até palmas do público. Esta música exalta a identidade brasileira através do significado atribuído a ela depois da Copa de 2002, da conquista no futebol a que ela remete e de características tidas como brasileiras presentes na letra, como a alegria mesmo nos momentos difíceis.

 
 
 

Outra identidade afirmada no Clube do Choro é a identidade gaúcha. Mas a identidade gaúcha afirmada no Clube não é a mesma afirmada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, identidade rural que exalta a bravura do homem do campo (Oliven, 2006). Por mais que as afirmações da identidade gaúcha se dêem por meio da música tradicionalista, no Clube do Choro a identidade gaúcha é (re)construída pelas músicas de Lupicínio Rodrigues. Mesmo que as músicas falem de amor, a origem gaúcha do autor e o universo que ele canta possibilitam uma identificação com o público e os músicos. As letras das músicas de Lupicínio são geralmente cantadas em coro pelo público e geram grandes emoções. A identidade gaúcha afirmada e mantida no Clube do Choro é uma identidade urbana e boêmia que muito é exaltada nas músicas de Lupicínio e que é claramente explicitada no texto da contracapa do primeiro Cd do Clube:


 
 
 
 
Inicialmente se imaginava que o Clube do Choro fosse uma efêmera tertúlia de músicos diletantes, porém aos poucos, afirmou-se como um marco referencial na noite porto-alegrense, irmanando seresteiros boêmios e notívagos insones, lamentosos, murmurosos, carinhosos e amorosos, que encontram nesta plangente música o bálsamo e o consolo para lenir seus desvanecidos amores e paixões de outrora que, impiedosamente, insistem em fustigar-lhes a alma com dardos pontiagudos de nostalgia e saudades. (Fernando Becker – texto escrito para a contracapa do primeiro Cd do Clube do Choro)
 
 
Este texto explicita várias características valorizadas na formação da identidade dessas pessoas. A escrita tem um estilo antigo no qual são utilizados palavras, termos e expressões escolhidas para a construção de uma identidade que lembre o passado. O choro é, muitas vezes, considerado uma música antiga, mas que permanece até os nossos dias, valorizando certas características da formação da identidade da época em que foi criado. 

 
 
 
Características como ser "boêmio, lamentoso e murmuroso" estavam presentes desde os primeiros choros. A música como bálsamo para a alma e também como forma de curar amores está presente no sentido que muitos dos músicos do Clube do Choro dão à música e também ao próprio Clube enquanto espaço onde ouvir esta música. 
 
 
 

A valorização do amor e a construção de um homem que chora e sofre por este amor é outra característica que diferencia a identidade gaúcha afirmada no Clube do Choro com a exaltada no Movimento Tradicionalista Gaúcho. O homem construído por este movimento tem por características a bravura e a coragem e não a sensibilidade e o sofrimento por amor. A construção dessas diferentes identidades masculinas propicia a construção de identidades femininas também diferentes. A identidade gaúcha no Movimento Tradicionalista é uma identidade masculina que vê na figura da mulher a sustentação para o homem. O papel da mulher é diferente nas músicas do Lupicínio Rodrigues que servem para a afirmação da identidade gaúcha no Clube do Choro. A mulher é, nas músicas do Lupicínio, um ‘mal necessário’. Capaz de ‘virar a cabeça de um homem’ a mulher é quem possibilita o amor. Amor que geralmente traz dor, mas que é totalmente necessário à formação desta identidade. 


 
 
 
Outras três identidades são (re)construídas no Clube do Choro. A primeira é a identidade italiana, por meio do seu tipo de música característica e que é tocada como choro. A segunda é identidade portuguesa dos fados que são cantados por um dos assíduos freqüentadores e que geram grande emoção. E a terceira é a identidade latina afirmada em tangos e boleros que, além de tocados, são também muito cantados no Clube do Choro. Estas três identidades não incluem todo o público, mas parte dele. Em nenhum momento a afirmação de qualquer uma dessas identidades provoca a negação de outra. Todas essas identidades podem ser afirmadas por uma única pessoa. E principalmente, todas elas possuem espaço no Clube do Choro para serem afirmadas e mantidas por meio da música. Mas como essas identidades foram construídas?
 
 
 
 
 
 
“Oito Batutas”: Os Músicos e suas Trajetórias
O Regional do Clube do Choro, ou seja, o grupo de músicos, é formado por Barbosa na gaita ponto, Sampaio no violão, Cebolinha e Madruga no cavaquinho, Enio no cavaquinho, bandolim e voz, André no pandeiro e Runi e Paulo no surdo. Eles são oito músicos e uma apresentadora, Myrian. Eles têm idades que variam entre sessenta e setenta anos, exceto o André que tem trinta e dois anos. São todos de classe média e brancos.

 
 
 
 

Oito batutas. Autoria: Marina Bay Frydberg, 2002. Fonte: Acervo pessoal

Oito batutas. Autoria: Marina Bay Frydberg, 2002. Fonte: Acervo pessoal




A identidade do choro está, no Clube do Choro, ligada a uma opção da maturidade, exceto no caso do André que será estudado separadamente. O gosto por este gênero musical pode ter vindo de antes, mas a necessidade do choro e dos encontros no Clube enquanto característica constitutiva de uma identidade própria só ocorreu na idade adulta. 
 
 
 

No Clube do Choro o gosto por um determinado gênero musical possibilita a formação de uma identidade cultural. Esta identidade está constantemente em oposição a outras identidades ligadas à música. Eles não são, por exemplo, os pagodeiros nem os tradicionalistas, eles são os chorões. Esta idéia foi expressa claramente na fala do Enio:
 
 

Já aprendi a tocar cavaquinho tocando a música popular brasileira. Nunca fui de regionalismo, nunca tive jeito para regionalismo. O rock, apesar de nos anos 60 eu já estar com dezoito anos, não fez minha cabeça. Nunca fui de rock. (Enio – cavaquinho, bandolim e cantor)

 
 
Essa identidade cultural e social só é construída na idade adulta, fato comprovado pela faixa etária tanto dos músicos quanto do público. Eles têm todos mais de sessenta anos e foram introduzidos na música por meio de outro gênero musical que não o choro, como nos contam primeiro Barbosa e depois Cebolinha:
 
 
 
 
Meu pai tocava em baile para ajudar o orçamento da família, aquele negócio todo. Ele tocava música tradicionalista, gauchesca. Era tudo empiricamente, não tinha nada planejado. E eu comecei a pegar o acordeom escondido dele; a minha mãe trazia a chave. E foi uns seis ou oito meses aí consegui aprender duas ou três músicas sozinho. E um dia a minha mãe disse pra ele: "dá a gaita que ele vai tocar uma música para ti". "Deixa de ser boba mulher o guri nunca pegou em gaita e vai tocar uma música!?". Não confiava em mim, e a mãe tanto insistiu que ele concordou: "tá; vamos ver então". Aí eu fiz umas duas músicas que eu sabia e aí não me largou mais. Aí eu fiquei dono da situação. Aí todas as festas que ele ia ele me convidava e eu ia junto. Uma pra carregar a gaita e a outra para tocar. A música do estilo dele. (Barbosa – gaita)
 
 
 
Eu comecei na época da Jovem Guarda, com guitarra. Eu comecei com violão, aprendi com violão, quebrado. Aí fui aprendendo, aprendendo e depois passei pra guitarra. Guitarra solo que eu sempre gostei de solo. Ai eu comecei a participar de conjuntos. (Cebolinha – cavaquinho)

 
 
O relato dos dois músicos ilustra sua inserção na música em outro gênero musical. E também indica a influência familiar. Todos os músicos tinham na família alguém que tocava, seja a mãe, o pai, o irmão, outro familiar ou pessoa próxima à família. Sob a influência familiar eles aprenderam a tocar, mas nenhuma dessas influências era de um músico reconhecido. Eles são os primeiros em suasfamílias a terem um reconhecimento social pelo meio da música. Outro relato que ilustra bem está questão é o de Paulo:
 
 
 
[...] A minha família é de músico, o meu cunhado tocava acordeom, o meu sogro tocava violão. Então a gente começava a se reunir, eu gostava de música e gosto até hoje. E aí começou aquele regional de família a se reunir nas festinhas de final de semana. E foi aí que eu comecei a tocar, a pegar instrumento, acho que eu tinha uns quatorze, quinze anos. (Paulo – surdo)

 
 
O choro surge para esses músicos como uma opção da maturidade, ainda que o gosto pelo choro seja anterior; eles só se tornaram músicos de choro quando adultos. A identidade de chorão só se constrói na maturidade e, para muitos deles, somente com a entrada no Clube do Choro. Barbosa e Madruga relatam o encontro deles com o choro, que aconteceu antes do Clube do Choro:
 
 
 
Choro eu comecei a tocar muito depois. E,u tocava quase só música de baile. Depois que eu saí da faculdade e me senti estabilizado aí eu ganhei um disco do Jacob [do Bandolim] e "pô, mas que coisa linda isso daqui". Chorinho é coisa muito linda. Comprei mais disco e foi disco, disco, disco... E aí comecei a estudar tudo de ouvido. Aí vinha Jacob, [Ernesto] Nazareh, Pixinguinha. Então, eu comecei a gostar do chorinho. (Barbosa – gaita)

 
 
 
Com quinze eu comecei a aprender. Mas, agora, gostar do choro, mesmo, honestamente, foi depois dos cinqüenta anos de idade. Depois dos cinqüenta anos de idade (eu tô com sessenta e sete). Depois dos cinqüenta anos é que realmente eu passei a gostar do choro mesmo. (Madruga – cavaquinho)

 
 
Ou o caso do Enio, que, realmente, só se integrou com o choro com o seu ingresso no Clube:

 
 
 
Sim, eu conhecia; porque todos aqueles músicos que tocavam no Clube do Choro naquela época eram músicos conhecidos. Eu é que era um dos desconhecidos. Porque justamente pelo fato de eu não estar no meio deles, porque eu só tocava em baile. Eu tinha conjunto que só tocava em baile, então eu não era daquele gênero de música deles. Então eu posso me considerar na roda deles um novo. Eu era músico antigo, mas no meio deles eu era novo. (Enio – cavaquinho, bandolim e cantor)

 
 
Outro elemento importante na formação da identidade desses chorões é que a dedicação à música só ocorreu depois da aposentadoria ou de uma situação financeira estável. Principalmente entre os músicos, esse discurso é recorrente. A música e o lazer estão sempre em contraposição ao trabalho. Eles só se tornaram músicos depois que deixaram de ser, por exemplo, funcionário público, contador ou enfermeiro. Como nos contam Myrian e Sampaio:

 
 
 
Mas namorei um que tocou violão desde os treze anos e cavaquinho desde os quatorze anos de idade, então continuou em casa aquele gosto pela música. Mas aí eu cantava só em casa com ele, né? Isso até me aposentar. Aí quando eu me aposentei, as filhas já estavam casadas, então ficou aquele vazio não tinha mais quase nada para fazer. (Myrian – apresentadora e cantora)
 
 
 
Eu toco profissional depois que eu me aposentei. Porque a minha profissão mesmo é contador; eu sou contador. Agora aposentado, já. Contador de companhia de seguros, eu trabalhei na Previdência do Sul trinta e nove anos. Aí, quando eu me aposentei que eu comecei a tocar profissionalmente. Porque não dava tempo, não havia condições. (Sampaio – violão)
 
 
 
A música e o lazer estão nestas falas em oposição ao trabalho. Esta característica permite dizer que a identidade de chorão construída no Clube do Choro é, também, uma identidade em oposição ao trabalho. Tanto que as características vinculadas a essa identidade, como a boêmia e o amor, não são valorizadas no âmbito do trabalho e sim do lazer. A construção de uma identidade de chorão reflete o contexto social e a posição dessas pessoas. 

 
 
 
O lazer, para Magnani (1998, 2000) pode ser pensado, dentro de uma visão mais tradicional, em contraponto ao trabalho. O lazer nasce, assim, do pensamento dicotômico entre tempo de trabalho e tempo livre. O lazer no Clube do Choro está ligado à oposição entre tempo livre e tempo de trabalho. Os encontros, por serem noturnos, identificam esta dicotomia. A noite, para maioria das pessoas, representa o tempo livre que é desfrutado às quintas-feiras para ouvir choro e encontrar amigos. Ou como nos diz Cucó:
 
 
Ainda que celebrada de maneira cíclica e repetitiva, a festa nos aparece como um fugaz período de ruptura com o cotidiano: transforma os ritmos da vida e os comportamentos habituais, tem que ver com o extraordinário, com o ócio generalizado, com a espontaneidade e os desejos não realizados, com a desordem e o ruído. (Cucó, 1993, p.9

 
 
Na fala dos músicos esta dicotomia é tão presente que a dedicação à música, ou ao Clube do Choro, só se fez possível depois que se aposentaram. A música só começa a fazer parte da identidade deles depois que o trabalho já não o faz, ou seja, a identidade de chorão somente pode ser construída depois que a identidade de trabalhador se desfez. A partir do fim da ligação com o mundo do trabalho se faz necessário um outro tipo de constituição da identidade dessas pessoas, feita por meio da música ou, mais especificamente, do choro, fato comprovado na fala do Sampaio:
 
 
 
Olha, eu sempre aconselho a pessoa que vai se aposentar que tenha um hobby. Porque a pessoa que está acostumada naquela rotina do trabalho, trinta e nove anos como eu trabalhei... Se a pessoa pára, a única coisa que ela vai esperar é a morte. Então, eu dou graças a Deus por ter um hobby; a música pra mim é um hobby. Se eu toco profissionalmente, se eu ganhar, tá bom; se eu não ganhar, tá bom, também. Então o meu hobby, como aposentado, é a música. (Sampaio – violão)

 
 
Mais que uma explicação sobre a necessidade de se ter algo para fazer, as palavras de Sampaio indicam a necessidade da construção de uma identidade, já que a de trabalhador não os identifica mais depois da aposentadoria. Nem todos os músicos do Clube do Choro são aposentados, mas devido à faixa etária do grupo, todos fazem parte de uma parcela da população que, no Brasil, não é mais considerada economicamente ativa, mesmo que necessitem trabalhar para sobreviver.
 
 
 

Essa trajetória similar entre os músicos do Clube do Choro tem uma aparente exceção: André. Como todos os outros chorões, ele tinha na família músicos e aprendeu a tocar muito cedo, mas, ao contrário dos outros, foi introduzido na música por meio do choro. Ele ingressou no Clube do Choro em 1992, quando tinha menos de vinte anos. O gosto pelo choro surgiu na época do renascimento do gênero em Porto Alegre com o projeto ‘O Choro é Livre’ no Theatro São Pedro. A trajetória diferenciada, ou como poderíamos dizer precoce, não indica uma identidade diferenciada em relação aos outros. A mesma paixão pelo choro que liga os outros músicos ao Clube do Choro é a que também o liga. Como André diz:


 
 
 
Meu pai tocava violão, mas meu pai não é profissional. Tocava choro, samba, seresta, valsa. E eu descobri o Teatro São Pedro, “O choro é livre”, e me apaixonei, que tinha vários grupos em Porto Alegre. Aí eu pensei: eu quero me enturmar, mas o que que eu vou fazer? Aí eu fiquei sabendo do Clube do Choro.  (André – pandeiro)
 
 
 

Este exemplo sugere que alguns jovens aderem ao choro, mostrando, assim, a continuidade e vitalidade desse gênero musical. O resto é choro...


 
 
 
Notas

Pesquisa inicialmente realizada para a monografia de conclusão do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul sob orientação do Professor Doutor Ruben George Oliven. 
Gostaria de agradecer ao pessoal do Clube do Choro de Porto Alegre: Barbosa, Cebolinha, Enio, Runi, André, Madruga, Paulo, Sampaio, Myrian e Nice pelo carinho com que me acolheram ao grupo e principalmente por terem me ensinado a amar um pouco mais a ”boa música popular brasileira”.


 
 
 
Bibliografia
 
CUCÓ, Josepa (org.) Músicos y Festeros Valencianos. Valencia: IVAECM, Generalitat Valenciana, 1993. 

DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MAGANANI, José Guilherme C. Festa no Pedaço: Cultura Popular e Lazer na Cidade. São Paulo: Hucitec/ UNESP, 1998.
MAGANANI, José Guilherme C. Quando o Campo é a Cidade: Fazendo Antropologia na Metrópole. In: MAGNANI, José Guilherme C. e TORRES, Lilian de Lucca.  Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana. São Paulo: Fapesp, 2000.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a Dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
MAUSS, Marcel. A Expressão Obrigatória dos sentimentos. In: OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Mauss: Antropologia. São Paulo: Ática, 1979. 
MORAES, J. Jota de. 1985. O que é Música. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
OLIVEN, Ruben George. A Parte e o Todo: a diversidade cultural do Brasil-nação. Petrópolis: Vozes, 2006.
SIMMEL, George. Sociabilidade – um exemplo de sociologia pura e formal. In: MORAES FILHO, Evaristo. George Simmel: Sociologia.  São Paulo: Ática, 1983.
TORRES, Lilian de Lucca. Programa de Paulista: Lazer no Bexiga e na Avenida Paulista com a Rua da Consolação. In: MAGNANI, José Guilherme C. e TORRES, Lilian de Lucca.  Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana. São Paulo: Fapesp, 2000.
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