O Império da Fé: a carreata de São Jorge do Império Serrano
Fábio Pavão

Antropólogo, doutorando em Antropologia
Universidade Federal Fluminense

 

As festas religiosas das “comunidades de samba”
 

 
Abril no Rio de Janeiro. O sol do outono ainda é intenso, aquecendo as ruas dos subúrbios cariocas distantes da brisa marinha que refresca as regiões mais valorizadas do município. Nesta parte pouco conhecida da cidade maravilhosa, as referências simbólicas são outras. O Cristo Redentor ainda pode ser visto, mas pequeno e distante, atrás de alguns dos vários morros que serpenteiam o relevo. Ao invés do sinuoso calçadão da orla, o suburbano convive com o muro cinza da linha do trem, que se estende rumo ao infinito até desaparecer no horizonte. 

 
 
 
O samba e as agremiações carnavalescas parecem ser um dos poucos elos de ligação entre os subúrbios e a “identidade carioca”, badalada e propagada pela mídia. Nos meses que antecedem o carnaval, turistas de várias partes do planeta vivem a experiência quase exótica de se aventurarem, seguindo por tortuosas ruas de tráfego confuso, dos hotéis da Zona Sul até as distantes quadras de ensaio das Zonas Norte e Oeste. Contudo, o que esperar encontrar numa escola de samba em abril, pouco tempo após o fim da Quaresma?
 
 
 

As agremiações carnavalescas seguem um calendário comum de atividades, que envolve todas as etapas da preparação e culmina com o imponente espetáculo no Sambódromo, momento em que todos os mistérios e segredos são revelados. Entre março e julho ocorre o período de “entressafra”, caracterizado pelas decisões em relação ao planejamento, resolução de questões políticas e, principalmente, pelas poucas atividades nas quadras de ensaio. É o período em que o público que encara as escolas de samba apenas como uma diversão sazonal, ou seja, freqüentam os ensaios somente nas vésperas do carnaval, desaparece, como desaparece, também, a grande mídia interessada nas celebridades do momento, cooptadas pela assessoria de imprensa das próprias agremiações. 

 
 
 

São importantes no calendário de atividades de qualquer escola de samba, entretanto, datas comemorativas como o aniversário da agremiação ou o dia do santo padroeiro. Independentemente do período em que ocorram, estas ocasiões são marcadas por festas capazes de mobilizar os membros do grupo, que se entregam a uma série de atividades que revelam aspectos importantes sobre a organização das escolas de samba e a subjetividade dos sambistas. Especialmente nas cerimônias em homenagem aos santos de devoção, o sincretismo muitas vezes parece demonstrar incoerência ao se alternarem rituais católicos e afro-brasileiros, ou mesmo trazendo tons de cinza para as rigorosas classificações oficiais.

 
 
 

De fato, religião e carnaval, pelo menos nos discursos oficiais, parecem separados por uma rígida dicotomia que demarca e diferencia o “sagrado” e o “profano”. Inúmeros são os exemplos de disputas jurídicas entre agremiações carnavalescas e a igreja católica, sempre implacável em evitar a “contaminação” de seus símbolos sagrados. A comercialização dos desfiles cariocas, que envolve o interesse de importantes segmentos da sociedade como o poder público e os braços da indústria turística, especialmente a rede hoteleira e as agências de viagens, parece não flexibilizar a rigidez do maniqueísmo religioso. Todavia, na informalidade das quentes ruas suburbanas, ao som de sambas antológicos intercalados por momentos de oração, a fé assume sua própria coerência ao longo dos percursos das tradicionais carreatas.

 
 
 

Uma carreata, em poucas palavras, é uma procissão realizada por automóveis, muito comum nas festividades das agremiações carnavalescas para seus santos de devoção. Em comparação com as tradicionais procissões católicas, as carreatas permitem um deslocamento espacial rápido e abrangente, cumprindo um roteiro de atividades intenso e permitindo o congraçamento entre grupos sociais relativamente distantes. Os sinais e símbolos da agremiação, utilizados como sinais diacríticos para distinguir as diversas comunidades de samba em interação, seja no interior do chamado “mundo do samba” ou na sociedade abrangente, adquirem aqui também a função de demarcar os veículos que fazem parte do cortejo. 

 
 
 

Todas as escolas de samba prestam homenagens aos seus santos de devoção. Realizadas em forma de grandes festividades, muitas vezes tomam as ruas do bairro e envolvem toda a vizinhança. A carreata é uma forma comumente utilizada nestas comemorações, mas não é a única. Na Portela, cujos santos padroeiros são Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião, além do orixá Oxossi, os eventos começam com a alvorada matinal e terminam apenas à noite, tendo a carreata (quando realizada), papel apenas secundário, permitindo que os componentes percorram os bairros adjacentes e sigam até a igreja de São Sebastião mais próxima, reverenciando o santo que também é padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. 

 
 
 

Nestas festividades, alternando homenagens ao orixá e ao santo cristão, articulando livremente a simbologia católica e afro-brasileira, os sambistas fiéis fazem pedidos pessoais como obtenção de emprego, conquistas amorosas, saúde, paz e outros e também pedem sucesso para a agremiação no desfile carnavalesco, razão maior da existência de uma escola de samba. Em outras palavras, os sambistas aproveitam as homenagens para estabelecer um canal pessoal com o santo, buscando favorecimentos individuais, mas, ao mesmo tempo, reforçam os laços de solidariedade do grupo, orando pela vitória da coletividade. 

 
 
 

As carreatas, expressões da religiosidade popular tipicamente urbana, momentos importantes de uma festividade que por essência mescla carnaval e fé, expressam, assim, esta dupla função pelas ruas da cidade. É esta “carnavalização do sagrado” que podemos encontrar na quadra do Império Serrano sempre no final do mês de abril. É quando o bairro de Madureira, acostumado ao batuque inconfundível de uma bateria, ao gingado manelolente das passistas e ao rodopiar vigoroso das velhas baianas, torna-se o ponto de partida para o desfile da imagem de São Jorge e seus devotos motorizados. Os atores sociais são os mesmos. A comoção popular é contagiante. Os sorrisos refletem a alegria e a descontração dos imperianos  que, sempre confiando na lança do santo guerreiro, orgulhosos da herança deixada por seus baluartes, fazem da festa um momento de esperança em dias melhores, transformando a devoção em samba:

 
 
 

O meu Império é raiz, herança
e tem magia pra sambar o ano inteiro
imperiano de fé, não cansa
confia na lança, do santo guerreiro
e faz a festa porque Deus é brasileiro


 
 
 

O Império Serrano e suas “comunidades”

 
 
 

Foto: Império Serrano

 
 
 
 

De todas as festas religiosas promovidas por escolas de samba do Rio de Janeiro, a mais conhecida e "badalada" é a Carreata de São Jorge, organizada pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano em homenagem ao seu padroeiro. Cruzando diversos bairros do subúrbio carioca, a procissão motorizada parte de Madureira arrastando uma legião de apaixonados pela agremiação, uma das mais tradicionais da cidade, fundada em 1947.  Considerada uma das “quatro grandes” do carnaval carioca, a agremiação viu, nas últimas décadas, seu prestígio ser abalado pela instabilidade política interna e pela influência crescente dos mecenas do jogo do bicho no carnaval, que alterou drasticamente as relações de poder na organização da festa e no interior das próprias escolas de samba. 

 
 
 

Autores como Silva e Oliveira Filho (1981) e Valença e Valença (1981), que descreveram a história do Império Serrano e de seus principais baluartes, são unânimes em afirmar que, desde o surgimento, a agremiação tem como princípio fundamental a democracia. Nascida no seio da comunidade da Serrinha, localizada entre os bairros de Vaz Lobo e Madureira, rica em manifestações culturais de origem africana como o jongo e as diversas vertentes do samba, a “corte imperial” do samba carioca é originária de uma antiga escola chamada Prazer da Serrinha, presidida de forma autoritária por um senhor chamado Alfredo Costa. Após o carnaval de 1947, sambistas como Molequinho, Eulália, Fuleiro e Elói Antero Dias (que anos mais tarde entrariam para a galeria dos vultos sagrados da cultura popular carioca), cansados dos desmandos do líder da antiga escola local, resolvem seguir rumo próprio e fundar uma nova agremiação que não repetisse os erros da anterior.

 
 
 

Logo nos primeiros anos, a agremiação, em grande parte formada por trabalhadores da estiva, demonstrou que seria uma das mais importantes escolas de samba da cidade. Enquanto o Prazer da Serrinha oscilava em colocações intermediárias, as quatro vitórias seguidas do Império Serrano em seus primeiros desfiles elevaram a auto-estima dos moradores da localidade, que ganharam respeito das demais “comunidades de samba”. Representados pelo Império Serrano, os sambistas da Serrinha atravessaram as três décadas seguintes brilhando no carnaval à medida que as escolas de samba se consolidavam como a mais importante manifestação da cultura popular do Rio de Janeiro. 

 
 
 

Com a crescente comercialização dos desfiles, que gerou a burocratização e a especialização da estrutura interna das agremiações carnavalescas, processo demonstrado por autores como Goldwasser (1975) e Leopoldi (1978), o Império Serrano passou a ter dificuldades para acompanhar as transformações que estavam em curso. A valorização da democracia como um bem inviolável, que se impõe sobre os imperianos com a força de qualquer mito de fundação, contrasta com a visão recorrente nas outras escolas de samba, que entendem o poder centralizador do bicheiro como elemento capaz de gerar a estabilidade necessária para o sucesso do grupo. De fato, não é difícil ouvir nas várias agremiações do “mundo do samba” discursos de que as “escolas democráticas” estão inevitavelmente divididas em correntes políticas opostas, cisão que é refletida no quotidiano das quadras de ensaio e nos desfiles carnavalescos, quando a união em torno do mesmo objetivo é essencial (Pavão, 2005, p. 55).

 
 
 

Para o imperiano orgulhoso de sua história, nada mais contraditório que receber ordens da “mão-de-ferro” de um patrono bicheiro que, como mostrou Cavalcanti (2006), foi responsável pelo grande investimento nas escolas de samba a partir de meados da década de 1970. Concomitantemente à ascensão de agremiações dirigidas por novos patronos, as seguidas disputas políticas do Império Serrano, muitas delas resolvidas apenas por decisões judiciais, são os exemplos mais lembrados por quem defende a “estabilidade” gerada pelos bicheiros. Hoje, sem triunfar nos desfiles carnavalescos desde 1982, amargando várias vezes o rebaixamento na rigorosa hierarquia das escolas de samba, os imperianos, com o orgulho ferido, seguem em busca da combinação perfeita entre união e democracia, esperando que a fé em seu padroeiro renda dias melhores, isto é, a volta da paz, da união e das grandes conquistas.

 
 
 

Como em qualquer grande agremiação carnavalesca, as redes de sociabilidade do Império Serrano se estendem para muito além das fronteiras da comunidade da Serrinha, núcleo original da escola de samba. Como demonstramos em outras ocasiões (Pavão, 2005 e 2006), uma série de fatores endógenos e exógenos ao espetáculo carnavalesco vem transformando a definição original de “comunidade” de escola de samba comumente associada a uma localidade carente em sua vizinhança imediata. Elaboramos, para compreender as atuais comunidades de escola de samba, os conceitos de “comunidade tradicional” e “comunidade eletiva”.

 
 
 

Por “comunidade tradicional”, como o nome indica, entendemos os indivíduos que vivem no núcleo original da agremiação, muitos ligados por laços de vizinhança, amizade ou parentesco aos baluartes da escola. No caso do Império Serrano, a comunidade da Serrinha. Todavia, embora a “comunidade tradicional” da “corte imperial” seja uma das mais valorizadas entre todas as agremiações, muito em função da ausência do patrono bicheiro, que construiu nas escolas sob sua influência uma nova hierarquia baseada em sua confiança e relações pessoais, as transformações na cidade e na própria localidade afastam progressivamente seus moradores do quotidiano da agremiação.

 
 
 

Entre os principais fatores que motivam este processo, podemos citar o crescimento das igrejas evangélicas, que ampliam sua influência sobre as comunidades carentes do Rio de Janeiro. Apesar do morro da Serrinha despontar como um foco de resistência da cultura e da religiosidade afro-brasileira, seus moradores não estão imunes ao processo de evangelização que nas últimas décadas ganhou força nas grandes regiões metropolitanas. Vários são os relatos de sambistas tradicionais que deixaram o samba por incompatibilidade com a nova vida religiosa. Como outro fator, podemos citar também o surgimento de novas manifestações culturais mais acessíveis aos jovens, como o funk e o hip-hop. Ao cooptarem principalmente jovens de baixa renda, estes novos gêneros musicais acabam limitando o surgimento de novos sambistas na Serrinha e em outras comunidades afins. Por fim, não podemos deixar de citar o recrudescimento do tráfico de drogas. Não é possível ignorar que a Serrinha faz parte de um conjunto de comunidades em constantes conflitos envolvendo quadrilhas rivais. No meio desta disputa, a agremiação vê sua antiga comunidade se fragmentar diante de tantos interesses divergentes. 

 
 
 

Por “comunidade eletiva”, entendemos os indivíduos que, independente do local de moradia ou mesmo classe social, estão ligados à agremiação por afinidade, tendo a vivência e as relações sociais construídas na agremiação carnavalesca um importante elemento para suas identidades. Muitos dos participantes da carreata que veremos adiante cruzaram de automóvel a cidade, deixando suas residências na Zona Sul para curtir a festa em Madureira. Longe de ser uma exceção ou movimento sazonal, são pessoas que participam ativamente das redes de sociabilidade costuradas na escola de samba , participando de todas as atividades ao longo do ano, desde simples reuniões burocráticas até os mais concorridos ensaios.

 
 
 
 

 

Foto: Império Serrano







Ao mesmo tempo em que as “comunidades tradicionais” se transformavam, a incorporação das grandes escolas de samba pela indústria do entretenimento cooptou um publico novo, de origem diferenciada, mas fundamental para as engrenagens das escolas de samba atuais. Podemos usar o pensamento de Giddens para entender este processo. Para este sociólogo inglês, uma das características da modernidade é o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua posterior reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço. Os mecanismos de deslocamento (desencaixe) tiram as relações sociais e as trocas de informação de contextos sociais específicos, mas ao mesmo tempo oferecem oportunidades de reinserção (reencaixe) (Giddens, 1991, p. 196). No Império Serrano, as transformações na Serrinha - e da própria cidade do Rio de Janeiro -, afastam a “comunidade tradicional” do quotidiano da escola de samba mas, ao mesmo tempo, a difusão do samba pela indústria cultural faz com que a paixão pela agremiação ultrapasse as fronteiras locais, arregimentando um outro público que se identifica com a escola, respeita seus baluartes e se reconhece na história de vitórias e de defesa da democracia que marca a trajetória da “corte imperial”. Isso faz com que, apesar das constantes transformações da manifestação cultural e da sociedade que está ao seu redor, o Império Serrano (e as grandes escolas de samba de forma geral), se revitalizem com a incorporação de indivíduos de outras regiões, reconstruindo as redes de sociabilidade que injetam vida na manifestação cultural. Basta um olhar despretensioso para perceber que grande parte dos diretores atuais do Império Serrano não vive em sua “comunidade tradicional”, mas são fundamentais para o funcionamento da escola. 

 
 
 

É esta massa heterogênea de indivíduos que, orgulhosos e vestindo fantasias verde-e-branca, pisam forte o asfalto da Marquês de Sapucaí em fevereiro. Iluminados pelos holofotes do carnaval, são apenas imperianos escrevendo novas páginas em um livro repleto de histórias que alternam alegrias e tristezas. Com a força de seu canto uníssono, tentam afastar as adversidades recentes e reencontrar, no final da avenida, seguindo o facho dourado que emana da majestosa coroa imperial, o caminho das vitórias hoje ausentes. Em abril, sob as bênçãos do santo guerreiro, novamente são apenas imperianos, compartilhando a fé no padroeiro ou no orixá, sambando e orando pelas ruas do subúrbio em busca de dias melhores.


 
 
 
 

A carreata de São Jorge
 

No primeiro domingo após o dia 23 de abril, dia de São Jorge, os imperianos despertam sabendo que terão um compromisso que mistura fé e carnaval. A quadra da agremiação, em pleno centro de Madureira, bairro que reúne a maior quantidade de estabelecimentos comerciais do município do Rio de Janeiro, recebe com os portões abertos os devotos sambistas, muitos deles vestindo camisas com as cores da escola e a imagem do santo padroeiro. Algumas pessoas vêm de bairros distantes, obstruindo com seus veículos as já estreitas calçadas. Outros chegam a pé, atravessando a passarela de cimento que, localizada exatamente ao lado da quadra de ensaios, passa sobre a via férrea e permite a união entre os dois lados da Avenida Ministro Edgard Romero. É este caminho que é feito pelos moradores da Serrinha, que esperam encontrar lugar em um dos ônibus que, já posicionados, servirão de transporte para os vários segmentos da agremiação, como baianas, diretoria, alas importantes e velhas guardas. 
 
 
 

No interior, a imagem de São Jorge, enfeitada, repousa em lugar de destaque, junto ao palco, aguardando o início do cortejo. Os imperianos que entram fazem questão de prestar homenagens. No alto, próximo ao teto, outra imagem do santo, permanente em seu pequeno altar, parece observar o movimento. O clima é de total descontração. Uma fanfarra do colégio Apollo 12, de Santa Cruz, Zona Oeste da cidade, faz uma apresentação, mostrando suas músicas e coreografias para pessoas que parecem encantadas. Não é muito comum, no subúrbio carioca, ver uma banda com trajes típicos ingleses ou simplesmente ouvir o som de gaitas. Talvez seja algo tão exótico como sambistas fantasiados de penas e plumas para um britânico. 

 
 
 

No lado de fora, a chegada de um potente carro de som, o mesmo que embala os ensaios pré-carnavalescos, aumenta a expectativa. A alternância de sambas, pagodes e músicas religiosas forma uma pequena aglomeração. As primeiras latas de cervejas são abertas, iniciando uma troca constante de bebidas e comidas (regra tácita entre os participantes que marcará todas as etapas do evento). Os imperianos preparam com bastante carinho seus quitutes e enchem de cerveja caixas de isopor. Mesmo aqueles que, por descuido ou desconhecimento dos costumes, não levam em seus veículos bebidas e comidas, são convidados a participar desta grande regra de comensalidade entre sambistas.

 
 
 

Os políticos que mantêm suas velhas práticas assistencialistas, transformando o subúrbio carioca em curral eleitoral urbano, aproveitam a festividade para conseguir a simpatia dos sambistas. Na ausência do patrono bicheiro, muitos contribuem para o carnaval da agremiação, aproveitando a carreata para associar, por meio de bandeirinhas ou camisetas, as imagens do político, da escola e do santo. Também a política interna do Império Serrano, sempre bastante conturbada e polêmica, tem na festa um momento crucial. O ano de 2002 marcaria uma importante eleição interna, fazendo com que os dois candidatos a presidente da escola mandassem confeccionar camisas, faixas e santinhos. Neste ponto, a atual presidente, candidata a reeleição, leva visivelmente vantagem, pois o locutor do carro de som oficial, ao longo do cortejo, não cansa de exaltar os feitos de sua administração. Assim, a carreata, além de ser utilizada pelos políticos que têm base eleitoral na região, também é um momento importante no processo político interno da agremiação, sobretudo numa escola que, como já foi dito, tem a luta pela democracia como “mito de fundação”. 


 
 
 
 
 

Foto: Império Serrano






Apesar de marcado para as 10h, o início do cortejo pode sofrer atraso se alguma personalidade importante para a história da agremiação não chegar em tempo, evidenciando um evento sem compromisso com o rigor do horário e sujeito às pressões das relações pessoais. No ano de 2003, por exemplo, apesar dagrande aglomeração na entrada da quadra de ensaios, a carreta só começou após a chegada de “Tia” Eulália, uma das últimas fundadoras vivas, falecida poucos anos depois, que desfrutava de grande respeito junto aos integrantes da escola de samba. Somente após a chegada de todas as personalidades importantes, independentemente do horário, a imagem que repousa próximo ao palco é conduzida, por mulheres, até a entrada da quadra, onde é colocada sobre uma viatura do corpo de bombeiros, responsável pelo transporte da berlinda ao longo do percurso. Os fogos estouram no céu e anunciam que a imagem de São Jorge, sob uma grande coroa, símbolo do Império Serrano, vai começar seu passeio pelo subúrbio.

 
 
 

A primeira parte do percurso é feita a pé. No ano de 2003, um senhor fantasiado de Carlitos fazia malabarismos com sua bengala pela Estrada do Portela interditada, seguindo em direção a Oswaldo Cruz. Animando o Charles Chaplin suburbano, a fanfarra tocava e realizava suas coreografias para a alegria das pessoas aglomeradas na calçada. Alguns segmentos importantes da escola, como ala das baianas e diretoria, seguem também a pé, acompanhando a berlinda levada pelo carro do corpo de bombeiros em velocidade bastante reduzida. O carro de som convoca a participação de todos e exalta a escola e seu padroeiro.

 
 
 

Próximo à quadra da rival, ou co-irmã, como os sambistas preferem chamar, Portela, os vários segmentos que participam do cortejo a pé embarcam em seus carros e ônibus, que os aguardavam sobre as calçadas. Alguns ciclistas partem na frente, carregando bandeiras do Brasil e do Império Serrano, iniciando o papel de batedores que farão ao longo do percurso. Tendo como referência o veículo dos bombeiros conduzindo a imagem do santo, os imperianos seguem em direção à primeira parada, exatamente o quartel do corpo de bombeiros mais próximo, para que os soldados possam prestar homenagem ao santo que também é padroeiro da corporação. 

 
 
 

A primeira solenidade é simples e rápida. Os bombeiros no interior do quartel saem e reverenciam a imagem, enquanto o locutor, com o auxílio dos potentes auto-falantes do carro de som, narra os acontecimentos para quem não consegue visualiza-los. Logo em seguida, o cortejo volta a se movimentar, desta vez seguindo em direção à igreja de São Jorge mais próxima, em Quintino Bocaiúva, também no subúrbio. O percurso é de apenas três quilômetros, mas atravessa algumas das vias mais movimentadas da região. As bandeirinhas pela janela dos automóveis ajudam a identificar os participantes da carreata, diferenciando os fiéis do tráfego regular e quotidianamente confuso da cidade. Diante da igreja metodista de Cascadura, algumas crianças se aglomeram no portão e vaiam a passagem dos sambistas devotos, gerando uma disputa religiosa inesperada que parece animar ainda mais os imperianos. 

 
 
 

A igreja está localizada em uma pequena elevação na Rua Clarimundo de Melo, uma movimentada via de ligação entre as grandes regiões de Madureira e Méier. Sob fogos e gritos eufóricos do locutor, a carreata dá um verdadeiro nó no trânsito local, já prejudicado pela grande concentração de barraquinhas que, aproveitando as festividades promovidas pela paróquia, tomam conta da calçada e obrigam os pedestres a caminharem pelas ruas. Todo o tráfego regular, incluindo inúmeras linhas de ônibus nos dois lados da via, precisa aguardar o fim da cerimônia para continuar em movimento. Empolgados com a presença dos imperianos, os fiéis que já estavam no local pedem para que os motoristas buzinem, no que são prontamente atendidos. Na festa pelas ruas de Quintino, fogos, buzinas, músicas religiosas, samba e o grito do locutor se confundem.

 
 
 

Com a imagem diante da igreja, o padre local desce para recepcionar os visitantes. Todo o ritual na seqüência acontecerá na rua. A igreja permanece fechada, com a porta cerrada para os sambistas. Erguendo seu hissopo e lançando água benta, o sacerdote abençoa a imagem do santo e as pessoas que se aglomeram ao redor. O trânsito, até então totalmente parado, apenas se movimenta lentamente quando a imagem e o carro de som deixam o local. Os demais veículos da carreata pedem para também receber um pouco da água abençoada, estendendo o braço para fora da janela. Durante quase trinta minutos, pacientemente, o padre abençoa os fiéis motorizados, que, após receberam as bênçãos do sacerdote católico, seguem dispersos em direção a um centro umbandista localizado no bairro de Todos os Santos, na região do Grande Méier, ainda no subúrbio.
 
 
 
 

Foto: Império Serrano

 
 
 

No meio do caminho, a imagem pára na esquina das ruas Piauí e Honório, onde é recebida por um grupo de amigos conhecido como “clube da esquina”, que já realizava uma festa no local. Os veículos estacionam na rua, bloqueando completamente a circulação da via. Os sambistas descem e festejam em volta do carro de som. Até então, diante da igreja, os potentes autofalantes entoavam canções católicas. Naquela esquina, os sambas antigos transformam as ruas no palco de um grande baile carnavalesco. Aproveitando o clima de euforia, a então presidente Neide Coimbra anunciou o enredo para o ano de 2004, que seria uma reedição de um dos mais conhecidos sambas da escola, cantado em 1964.  O anuncio do enredo oficial, um dos momentos mais aguardados da preparação carnavalesca, confere a esta parada, a princípio a menos representativa, uma grande importância. Em poucos minutos, o anúncio já tinha virado notícia nos sites dos grandes jornais cariocas na internet.

 
 
 

Pouco metro adiante, a carreata chega ao centro espírita “Caminheiros da Verdade”. Os líderes religiosos do local aguardam os imperianos na entrada e cumprimentam pessoalmente a presidente da agremiação. O oficial do corpo de bombeiros, conferindo importância para a solenidade, toca sua potente corneta. Ao entrarem, a maioria se dirige diretamente para a grande imagem do padroeiro próximo ao altar, formando uma longa fila. Os gritos eufóricos de "Ogum Ilê!" são constantes. Os fiéis se benzem com o manto vermelho da imagem e não esquecem de passa-lo nos filhos.  As cadeiras começam a ser ocupadas ao poucos, dando início a um breve ritual comandado pelos religiosos locais. A presidente da agremiação tem, também, lugar de destaque. Horas depois de ter realizado orações e preces católicas, é ela quem comanda os cânticos em homenagem ao pai Ogum, acompanhados pelas palmas da platéia. Suas ações podem ser consideradas a síntese do sincretismo do próprio grupo. 

 
 
 

Uma constatação importante sobre esta parada é que, ao contrário do que ocorre na igreja católica, que permanece fechada, o centro espírita abre suas portas para os sambistas. Enquanto o ritual católico acontece na rua, onde a imagem trazida pelos imperianos é abençoada pelo sacerdote, a cerimônia umbandista ocorre no interior do "centro", com os fiéis se dirigindo e pedindo proteção diante da imagem do templo. Contudo, nem todos entram no “centro”. Grande parte dos imperianos permanece em seus carros, aproveitando o momento para conversar, tomar cerveja e ouvir sambas. Com um olhar mais atento, é possível perceber que a maioria dos sambistas que adentram o templo estão acompanhando a procissão motorizada nos ônibus da escola, que servem principalmente aos moradores da Serrinha e diretores da agremiação. Terminada a cerimônia, é hora de retornar para os veículos.

 
 
 

Seguindo em direção aos “subúrbios da Leopoldina ”, o cortejo atravessa vários bairros, cruzando com outras procissões e festividades em homenagem a São Jorge, o que evidencia a grande popularidade que o santo guerreiro desfruta no Rio de Janeiro. O destino dos sambistas é o bairro de Ramos, onde está localizada a sede da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, agremiação afilhada do Império Serrano. A imagem pára novamente às 14h. Em um bar próximo da quadra de ensaios, a velha guarda gresilense  aguardava os fiéis imperianos, iniciando uma animada confraternização entre dois grupos que, mesmo vivendo em constante disputa, possuem importantes ligações históricas.

 
 
 

Tal fato expõe as redes de sociabilidade que, no mundo do samba, como já demonstrara Cavalcanti (2006), se estende para além das fronteiras geográficas da cidade. Também entre as escolas de samba, o apadrinhamento de uma agremiação gerava uma aliança que suscitava obrigações mútuas. A “escola grande", ou seja, de maior capacidade econômica, auxiliava sua afilhada menor que, como sinal desta aliança, adotava as cores ou símbolos da madrinha. A referência à nobreza, a coroa como símbolo e o verde e o branco de suas bandeiras indicam os laços entre a Imperatriz Leopoldinense e o Império Serrano. 

 
 
 

Prática comum até a década de 1970, a comercialização dos desfiles parece ter enfraquecido os velhos laços de compadrio entre as agremiações carnavalescas. O auxílio das grandes escolas ainda é fundamental para aquelas que não dispõem de capacidade financeira, mas os laços de solidariedade são construídos de outras formas, como a relação pessoal ou dependência profissional entre os líderes das escolas pequenas com os presidentes ou patronos das grandes agremiações. Em algumas situações, como na relação entre o Império Serrano e a Imperatriz Leopoldinense, a situação se inverteu ao longo dos anos. Hoje mais estável, política e financeiramente, a afilhada está em condições melhores que a madrinha. Os antigos laços, assim, tendem a desaparecer, permanecendo vivos apenas na memória dos mais idosos. Todavia, por meio da devoção a São Jorge, esta antiga aliança é reforçada anualmente, especialmente pela reciprocidade entre os veteranos sambistas das velhas guardas, que a mantêm viva apesar das transformações das relações no carnaval

 
 
 

Após compartilharem os quitutes preparados pelos gresilenses, e vários discursos exaltando os vínculos entre as duas agremiações, o cortejo deixa o bairro de Ramos e retorna para Madureira, ponto de partida, tendo como última parada a comunidade da Serrinha. Ao entrarem pelas ruas de acesso à localidade, os veículos são recebidos com fogos. Muitos sambistas devotos que moram no local terminam sua participação, descendo dos ônibus e retornando para suas casas. Nos veículos, a preocupação no rosto de alguns participantes de classe média é visível. O medo de alguma ação do tráfico de drogas que domina o local assusta, embora todos saibam ser pouco provável. 

 
 
 
 
 
 

A fanfarra desce e se apresenta para a comunidade. O clima é de festa e harmonia, mas é neste momento que a fragmentação da “partida sociedade carioca” se torna mais evidente. Aqui se desfaz a utopia de uma suposta homogeneidade, ou seja, não são mais apenas imperianos devotos do santo padroeiro, mas indivíduos de classes sociais e origens diferenciadas. Alguns fazem a volta e seguem direto para a quadra, enquanto outros estão em casa. É neste momento, também, que o grupo se volta para dentro. Se antes havia reforçado a aliança com outro grupo afim, agora, ao reencontrar sua origem, revitaliza os laços internos, aproximando-se de sua “comunidade tradicional”. Esta é também a parada preferida dos políticos que pretendem angariar votos na próxima eleição e dos candidatos do pleito interno da escola. Como demonstrou Ribeiro (2003), em sua bela análise das manifestações culturais da comunidade da Serrinha, a presidente Neide Coimbra se esforçou para reconstruir as redes de sociabilidade desfeitas no processo de comercialização que, como vimos, resultou na perda de prestígio dos baluartes e da própria agremiação (Ribeiro, 2003, p. 102). Assim, a passagem pela Serrinha faz parte de uma estratégia política da diretoria, visando o fortalecimento da agremiação, bem como sua própria reeleição, promovendo a reaproximação com seu núcleo original. 

 
 
 

Próximo às 16h, após quase sete horas circulando pelas ruas do subúrbio, os veículos estacionam perto da sede. Os fogos novamente explodem no céu, anunciando que a festa retorna ao ponto de partida. Enquanto a berlinda é reconduzida para a frente do palco principal, os participantes, cansados mas felizes, tomam seus lugares no interior da quadra de ensaios. A fanfarra faz sua última apresentação, numa espécie de despedida. Para os jovens músicos, tocar numa escola de samba,  apresentar-se pelas ruas de Madureira e na comunidade da Serrinha, também havia sido uma experiência nova e gratificante. Pedindo a atenção de todos, a incansável presidente ainda encontra forças para comandar um “Pai Nosso” e uma “Ave Maria”, encerrando as atividades religiosas. Como não poderia ser diferente, o evento termina com um animado show de samba e pagode, que invade a noite. Após um dia inteiro de preces, as esperanças estão mais uma vez renovadas.


 
 
 

 
Foto: Império Serrano
 

 
 

Conclusão

 
Pelo menos desde a Idade Média, a “religião oficial” entende o carnaval como um perigo em potencial. Com a força de seus dogmas, ergueu ao longo da história uma espécie de “muralha de Adriano”, na tentativa de separar “hábitos e costumes bárbaros” da “pureza ritualística” cristã. A dicotomia entre elementos “sagrados” e “profanos” precisava ser rígida para que, mantida a fronteira, evitasse qualquer tipo de contaminação. É assim que, em seu formato mais recente, o “carnaval comercial” (que movimenta cifras milionárias e faz pulsar setores importantes da economia carioca), está envolvido em constantes polêmicas com a igreja católica, sobretudo pela utilização de imagens sagradas em seus “ainda profanos espetáculos”. 
 
 
 

Na “religiosidade popular”, contudo, as fronteiras entre o “sagrado” e o “profano” são bem mais fluidas, de forma que os dois pólos com freqüência se misturam no imaginário dos fiéis.  É o povo que, superando aparentes contradições, constrói sua religiosidade no dia a dia, apropriando-se livremente dos símbolos religiosos disponíveis e costurando os sentidos de uma coerência própria. É esta liberdade criativa que, tornando mais elástica a rígida dicotomia, vibra o sincretismo e aproxima as procissões religiosas das festas carnavalescas, fornecendo lógica para uma fusão aparentemente antagônica. É por isso que, como já afirmara Roberto DaMatta (1997, p. 67), a vida ritual de uma determinada sociedade não precisa ser necessariamente coerente e funcional, podendo conter elementos competitivos e coerentes, expressivos de modos diversos de perceber, interpretar e atualizar a estrutura social .

 
 
 

Em sua etnografia sobre o Círio de Nazaré, Alves (1980) chama a atenção para o fato do “sagrado” e do “profano”, nesta instituição da sociedade paraense, longe de serem opostos absolutos, constituírem-se em categorias que operam simultaneamente. Enquanto avança pelas ruas de Belém, a procissão do Círio preserva em sua organização uma clara diferenciação entre seus “espaços em movimento”, estando no centro, definido pelo autor como “núcleo estruturado”, onde predomina o simbolismo da religiosidade oficial, as autoridades políticas e eclesiásticas. Todavia, na parte externa, ou seja, na periferia do cortejo, seria possível perceber um comportamento mais informal, carnavalesco e “profano”, onde podemos verificar que a procissão é também uma festa sincrética.

 
 
 

Autores como Steil já chamaram a atenção para o fato das festas e romarias serem espaços privilegiados para se observar o sincretismo religioso, pois podem apresentar uma sobreposição de símbolos e significados que são acionados pelos mesmos autores de acordo com os seus interlocutores ou a ação estratégica a que se articula o seu discurso (Steil, 2001, p. 30).  Livres das grades impostas pela religiosidade oficial, a religiosidade dos sambistas imperianos revela uma construção peculiar, que se apropria dos símbolos disponíveis e cria suas próprias referências, acionando-a de acordo com o contexto. Neste processo consiste a lógica e a coerência da religiosidade do sambista fiel.  A contradição do sincretismo, em suma, existe apenas na visão dos sacerdotes oficiais ou mesmo de pesquisadores que, insistindo em separar a realidade em compartimentos demarcados, ignoram os constantes fluxos de referências culturais que perpassam a vida urbana.

 
 
 

Esta afirmação nos remete a Magnani (1998), para quem o universo simbólico e a visão de mundo das classes populares não estão estruturados com a rígida dicotomia entre a “ordem” e a “desordem”, que alguns estudos tradicionais insistem em buscar interpretando gestos e ações. Ao contrário, muitas ações possuem coerência na coexistência de discursos que ao mesmo tempo negam e afirmam, valorizam e desqualificam, respeitam e ridicularizam, que é comum no universo simbólico desta parcela da população. Em relação às festas religiosas das comunidades de samba, repletas de significados aparentemente antagônicos, como as paradas obrigatórias na igreja católica e no centro umbandista, o sincretismo é o resultado da bricolagem dos sambistas que se apropriam de elementos diversos para construírem a lógica da sua religiosidade. Em outras palavras, as festas religiosas possuem uma importância para a subjetividade das comunidades de samba que, atravessando o tênue limite entre o “sagrado” e o “profano”, buscam suas referências pelas ruas da cidade. 

 
 
 

Carreatas em devoção aos santos padroeiros são comuns em grande parte das agremiações carnavalescas cariocas. Também na Portela é comum as imagens de São Sebastião e Nossa Senhora da Conceição, padroeiros e protetores da escola, atravessarem os bairros suburbanos ao lado da grande águia, símbolo da agremiação. Assim como no Império Serrano, o evento comunica não apenas a religiosidade sincrética do grupo, mas também revela importantes nuances de suas relações sociais. Podemos concluir que estas carreatas são uma adaptação das antigas procissões religiosas ao modo de vida urbano. De certa forma, além dos santos de devoção, está-se homenageando também o predomínio do automóvel nas modernas sociedades, especialmente sua facilidade e possibilidade de deslocamento, permitindo o contato entre grupos distantes em um grande centro urbano como o Rio de Janeiro. Acostumados a transformar o “asfalto em passarela”, como diz a letra de um samba antológico do Império Serrano, o sambista fiel faz de sua “procissão religiosa peculiar” um momento particular de congraçamento e expressão de fé, costurando pela malha rodoviária da cidade laços de solidariedade. 

 
 
 

A dinâmica da vida urbana possibilita que as comunidades de samba, na devoção aos santos padroeiros, transportem seus territórios na velocidade dos automóveis, demarcando com seus corpos e símbolos sua presença pelas ruas de uma grande região metropolitana. Processo semelhante de ocupação do espaço urbano pode ser verificado nos mais diversos grupos sociais. Glória Diógenes, para citarmos apenas um exemplo, ao analisar as torcidas organizadas de futebol e seus símbolos, demonstra como as faixas dos torcedores são utilizadas para demarcar territorialidade, promovendo o ordenamento da cidade. O território, a partir de uma dimensão de comunicação e representação encenada por seus atores, assume no estádio a condição de um “território em movimento”, que pode ser conduzido através de imagens, atos e palavras movimentando-se pelo corpo dos torcedores (Diógenes, 1999, p. 03 e 04).  Em relação às escolas de samba e blocos do Rio de Janeiro, Santos percebe que as bandeiras e estandartes possuem a função de demonstrarem a ocupação das ruas, evidenciando a preocupação de marcar presença, identidade e território através de seus símbolos (Santos, 1999, p. 51).

 
 
 

Desta forma, nas alegres carreatas religiosas não são apenas as imagens religiosas que são transportadas. As comunidades de samba transformam o percurso por onde passam em parte de seu território, o que podemos perceber pela presença constante dos símbolos da agremiação para demarcar o espaço pelo qual a carreata avança, sejam eles as bandeiras nas cores verde e branca, que identificam os imperianos devotos no tráfego comum da cidade, ou a grande coroa dourada sobre a berlinda do santo. As carreatas, então, ao facilitarem o deslocamento, permitem, além de um dinamismo bem maior na expressão da religiosidade complexa e fragmentada dos sambistas cariocas, a integração entre grupos distantes na geografia da cidade, atualizando alianças que poderiam desaparecer diante das transformações da cidade e do “mundo do samba”.

 
 
 

A carreata de São Jorge do Império Serrano, a mais conhecida e complexa entre todos os eventos similares realizados por escolas de samba cariocas, tem seu percurso planejado para promover, pelas ruas da grande cidade, a integração com o poder público, a expressão da religiosidade sincrética e o reforço das alianças internas e externas da escola, como destacamos abaixo:

 
 
 

Corpo de bombeiros - Relações com o poder público
Igreja católica - Expressão da religiosidade católica

Centro espírita - Expressão da religiosidade umbandista
Imperatriz Leopoldinense - Reforço de laços no interior do mundo do samba
Serrinha - Reforço de laços no interior da própria “comunidade tradicional"
 
 
 

Assim, diante da heterogênea composição das escolas de samba atuais, a fé em São Jorge renova a utopia carnavalesca de uma sociedade igualitária. É a “carnavalização do sagrado” que invade as ruas do subúrbio, que faz desfilar sob o quente sol do outono carioca a fanfarra e seus trajes ingleses, um sorridente Charles Chaplin fiel aos trejeitos típicos e, principalmente, uma imagem que, dependendo do contexto, é saudada como São Jorge ou Ogum. Fazendo alianças e estreitando laços de solidariedade, os imperianos confirmam sua fé pelas ruas da cidade . A fé na democracia como valor inviolável. A fé na certeza de que vale a pena prestigiar seus baluartes. A fé na importância de continuar sendo uma “escola de samba de verdade”, como gostam de afirmar.


 
 
Quem disse que a vida tem que ser dividida em compartimentos? Sentada num banco do centro espírita, a velha baiana trás na mão um inseparável terço. Concentrada, tendo em volta os gritos de “Ogum Ilê”, faz sua prece para São Jorge e Nossa Senhora Aparecida. Sim, nossa Senhora da Aparecida. Se São Jorge é o santo de devoção do Império Serrano, a baiana se declara devota da padroeira do Brasil. Toda contradição é relativa no Império da Fé. 

 
 

Notas

Este artigo é resultado de uma pesquisa sobre a carreata de São Jorge do Império Serrano que teve como foco principal o acompanhamento da preparação e das atividades realizadas nos dias 28/04/2002 e 27/04/2003. A princípio, uma etnografia sobre a festa deveria gerar uma monografia de pós-graduação em Sociologia Urbana. Todavia, como é comum na vida acadêmica, o andamento do curso motivou a mudança do objeto de estudo. Os dados coletados foram agora resgatados e servem de base para este artigo. Muitas das observações e análises preliminares contaram com a participação da antiga companheira e também pesquisadora Lucimar da Rosa Pellegrini, a quem por direito tenho que dar parte dos créditos.
Por “mundo do samba”, entendemos a expressão, amplamente utilizada pelos sambistas, para delimitar o universo de pessoas envolvidas diretamente com as escolas de samba, formando um grupo que compartilha valores e significados comuns, que os distinguem da sociedade abrangente independente de suas filiações particulares. Nos estudos antropológicos, foi utilizada pela primeira por José Sávio Leopoldi (1978), que a define como uma expressão corrente que circunscreve um conjunto de manifestações sociais e culturais que emergem nos contextos em que o samba predomina como forma de expressão musical, rítmica e coreográfica, tendo nas escolas de samba instituições e constituindo um fenômeno importante para a experiência social de um grupo significativo de pessoas.
Nome pelo qual são conhecidos os torcedores do GRES Império Serrano.
Samba enredo do GRES Império Serrano para o carnaval de 2006, de autoria dos compositores Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Sena, Aluízio Machado e Elmo Caetano. 
A denominação “quatro grandes” é comumente utilizada, por jornalistas e pesquisadores do carnaval carioca, como referência às quatro escolas de samba que dominaram os desfiles até meados da década de 1970: Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro. A partir desta data, especialmente com o apadrinhamento de outras agremiações até então menores pelos bicheiros, outras escolas passaram a disputar campeonatos: Mocidade Independente e Padre Miguel, Beija-Flor e Imperatriz Leopoldinense. 
Na geografia do Rio de Janeiro, “subúrbios da Leopoldina” são os bairros cortados pela linha férrea que tinha como ponto de partida a antiga Estação da Leopoldina. Os bairros ao longo da via que partia Central do Brasil são conhecidos como “subúrbios da central”. Hoje em dia, entretanto, apesar da distinção continuar existindo no linguajar carioca, a Estação da Leopoldina está desativada e a Central do Brasil é o terminal final de todas as composições ferroviárias do Rio de Janeiro.
Nome pelo qual são conhecidos os membros e torcedores da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, oriundo das iniciais GRESIL: Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense.
“Aquarela do Brasil”, de Silas de Oliveira, considerado por muitos o maior compositor de samba enredo de todos os tempos, cantado no carnaval de 1964 e reeditado em 2004.
A frase “uma escola de samba de verdade” é utilizada pelos imperianos para, diante do processo de comercialização do carnaval, estabelecer uma diferença em relação às escolas que, beneficiadas pelo dinheiro dos patronos e pela badalação da mídia, passaram a disputar as primeiras colocações. A frase indica que a valorização das tradições do passado assume, para o Império Serrano, a condição de resistência ante as transformações que supostamente estariam descaracterizando a manifestação cultural.
 
 
 
 
 
Webgrafia

 
Amaral, Rita. Festa à Brasileira: sentidos do festejar no país que "não é sério". Tese de Doutoramento em Antropologia Social defendida no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, EbooksBrasil, São Paulo, [1998] 2000 .
 
 
 
 
Bibliografia
 
ALVES, Isidoro Maria da Silva. O carnaval devoto: um estudo sobre a festa de Nazaré, em Belém. Petrópolis: Vozes, 1980.
BARBOSA DA SILVA, Marília Trindade e OLIVEIRA FILHO, Arthur L.Filho de Silas de Oliveira – Do Jongo ao Samba de Enredo, Rio de Janeiro: MEC/Funart, 1981.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.
DAMATTA, Roberto. Carnaval, malandros e heróis: por uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
DIÓGENES, Glória. Territorialidade e violência: novos ritos de ordenação urbana nas grandes metrópoles In: ENCONTRO ANUAL DA ANOPCS, 23., Caxambu, 1999.
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
GOLDWASSER, Maria Júlia. O Palácio do Samba: estudo antropológico da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
LEOPOLDI, José Sávio. Escola de samba, ritual e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1978.
MAGNANI, José Guilherme C. Festa no pedaço: Cultura popular e lazer na cidade. São Paulo: Hucitec/UNESP, 1998
PAVÃO, Fábio Oliveira. Uma comunidade em transformação: modernidade, organização e conflito nas escolas de samba. Dissertação (Mestrado em Antropologia) PPGA/UFF, Niterói, 2005.
PAVÃO, Fábio Oliveira.  O samba e a vida carioca. In: REUNIÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 25., 2006, Goiânia. CD-ROM V.1.0. 


RIBEIRO, Ana Paula Alves. Samba são pés que fecundam o chão....Madureira: sociabilidade e conflito em um subúrbio musical. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – PPCIS/UERJ, Rio de Janeiro, 2003.
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. O batuque negro das escolas de samba. In: Estudos afro-asiáticos, Rio de Janeiro,n.35, 1999.
STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e cultura. In:VALLA, Victor Vincent. Religião cultura popular.  Rio de Janeiro: DP & A editora, 2001, p.9-40.
VALENÇA, Rachel e VALENÇA, Suetônio. Serra, Serrinha, Serrano: O Império do Samba, Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1981.


Site Meter