Uma adorável cidade
João Evangelista Rodrigues

Jornalista, filósofo, escritor e fotógrafo


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Foto: Arnaldo Interata, 2006



 
 
 

“Se amamos uma cidade, devemos admiti-lo”.
 
Se a não amamos, também devemos admiti-lo.  A primeira afirmação é do coronel americano Cantwell, mais um sólido personagem criado por Ernest Hemingway, escritor incisivo, maravilhoso e exato. A sua obra obtém a mais larga audiência em todo o mundo e constitui-se num depoimento de imensa valia sobre os mais agudos problemas do homem de hoje. E o que há de pensar o leitor do grande livro e ainda desta singela crônica a partir da constatação feita por um militar ansioso por abandonar a vida da caserna e se entregar ao sabor do tempo de vida que lhe resta e aos prazeres de uma vida marcada pelo amor e pela beleza.

 
 
 
Em “Na outra margem entre as árvores”, Hemingway apresenta o relato contundente e sincero do coronel Cantwell, um velho combatente que passa as últimas vinte e quatro horas de sua vida na estranha e bela cidade de Veneza. Trata-se da narrativa de um mundo violento e conturbado, obtida através da imagem de um homem bem ao gosto da literatura, do jornalismo e do cinema contemporâneos. Veneza, a mais bela cidade do mundo, como Paris ou outra qualquer, escapa aos sentidos, logra a percepção mais refinada e arguta. Pois, uma cidade, por menor e anônima que seja, é sempre um lugar (um des-lugar) indescritível em sua essência e totalidade. 

 
 
 
 
 

Foto: Arnaldo Interata, 2006



 
 
 

Nem mesmo o gênio de Hemingway, nem Ítalo Calvino com suas Cidades Invisíveis, conseguiram esgotar tal realidade complexa, povoada de tantos mistérios e possibilidades. E é sobre isso que pretendo escrever, sem nem de longe querer imitar o estilo curto e pensamentos claros do jornalista e escritor atento e exigente, que em Hemingway se complementam e se realizaram ao longo de uma vida agitada e de final deliberadamente escolhido. Gesto próprio de quem sabe a hora de entrar e de sair de cena, sem juízos morais nem avaliações psicológicas. Só o sujeito diante de seu destino; frente a um mundo quebrado e à deriva. Perdido no seu motivo, tentando sobreviver e lidar com a trágica morte da razão no pós-guerra. Uma razão cada vez mais enfraquecida e questionada num período convencional e imprecisamente denominado de pós-modernidade: tempo sem futuro, sem esperança, sem critério e nem discernimento de princípios e valores, cuja mórbida realidade todos vivemos.
 
 
 

E é justamente neste ambiente que o coronel de 51 anos de idade, de modos rudes, mas sempre desejoso de demonstrar amabilidade, sem nunca o conseguir por mais de dois minutos, obriga-nos a pensar as relações que estabelecemos com a cidade. O objetivo é colocar o leitor em uma encruzilhada, na qual não há espaço para hipocrisias, jogos de poder, sortilégios nem mascaramentos de qualquer natureza. A afirmação direta e clara do coronel poderia se transformar, sem esforço, em uma interrogação igualmente direta e clara: Por que as pessoas conseguem nutrir sentimentos antagônicos, como o amor e o ódio, em relação a uma mesma cidade?


 
 
 
Quando o personagem de Ernest Hemingway se refere à cidade de Veneza, provavelmente não está a pensar apenas nos seus aspectos físico-geográficos. Ou apenas em suas riquezas naturais, como jazidas, nascentes d’água potável, terras agricultáveis, pastagens e retalhos de florestas que, por ventura, ainda resistem à fúria predatória do “homo-economicus”. Semelhantemente a Calvino, estaria a pensar, sobretudo, na riqueza de sua arquitetura urbana e humana. Não apenas em seus traçados arquitetônicos, mas também neles, com suas ruas, avenidas e ruelas. Suas pontes, viadutos e canais, bem ou mal iluminados. Enfim, em seus edifícios religiosos, esportivos, suas catedrais comerciais e financeiras.  A tal olhar afiado e justo não faltarão, sem dúvida, as favelas, os bairros clandestinos, os hospitais, creches e lojas de quinquilharias chinesas, hotéis de terceira categoria, casas de prostituição, restaurantes e motéis de luxo, hospícios e presídios de segurança máxima. Isso sem falar dos imensos depósitos de ferro-velho, do cemitério público e do asilo. Uma cidade, para agradar ao sofisticado gosto de um coronel com mais de meio século de vida, teria que ter museus, galerias de arte e muitos bosques com árvores frondosas. Não faltariam escolas e universidades, dignas deste nome, nem monumentos. A cidade mesma seria uma ampla e rica biblioteca, uma obra de arte de inestimável valor. Deveria ser um lugar aprazível, desses em que todos temos vontade de morar e desfrutar cada fatia, até o incerto dia da morte, dama de golpe exato e justo. Um lugar onde os loucos, os ignorantes, os poetas, os doentes, os mendigos e andarilhos, os portadores de deficiência, os viciados, os mortos e os diferentes não seriam discriminados nem confinados em espaços especiais. Uma cidade só, para todos! Seria uma cidade onde todos pudessem passear despreocupadamente, sem o temor de serem olhados com desprezo ou ironia, fossem o que fossem. Estivessem como e com quem estivessem. Uma cidade livre e justa, lírica e feliz. Uma cidade adorável, como um livro aberto, ilustrado pelos grandes pintores da humanidade, aos olhos de todos os seus habitantes e visitantes.  A cidade toda, toda vista e revisitada a partir de todos os ângulos e pontos de vista. 

 
 
 

Foto: Arnaldo Interata, 2006



 
 
 
 

Estaria o coronel Cantwell, apaixonado como estava pela condessa Renata, leve em sua beleza e frescor, a pensar, principalmente, na maneira como as pessoas se comportam, vestem e falam. Sobre o tipo de amizade e de solidariedade que praticam. Sobre que tipo de cultura que seus habitantes produzem e desfrutam. Sobre o que bebem e comem. Sobre os que não comem. Sobre os que estão fora do mapa da cidade. Sobre a colorida e agradável bagunça dos mercados e mercearias. Estaria refletindo sobre os valores espirituais e estéticos que constituem e animam o cotidiano da urbe e permeiam projetar um futuro inteligente e luminoso.

 
 
 
Veneza, adorável cidade! Mas a cidade imaginada e desejada pelo personagem de Hemingway talvez seja, em parte, a mesma cidade em que vivemos e nunca observamos atentamente. Talvez seja a cidade com a qual sonhamos, para viver o resto de nossas vidas. Justa, sincera e sem traições. Pode ser, talvez, a cidade que todos necessitamos  construir e não ser dela apenas herdeiros, aventureiros, beneficiários e predadores. 
Imaginária ou real, é nesse lugar indescritível que desejo viver e morrer. Mais que a Veneza do coronel Cantwell, uma cidade adorável.
 
 
 


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