“Se
amamos uma cidade, devemos admiti-lo”.
Se
a não amamos, também devemos admiti-lo. A primeira
afirmação é do coronel americano Cantwell, mais um
sólido personagem criado por Ernest Hemingway, escritor incisivo,
maravilhoso e exato. A sua obra obtém a mais larga audiência
em todo o mundo e constitui-se num depoimento de imensa valia sobre os
mais agudos problemas do homem de hoje. E o que há de pensar o leitor
do grande livro e ainda desta singela crônica a partir da constatação
feita por um militar ansioso por abandonar a vida da caserna e se entregar
ao sabor do tempo de vida que lhe resta e aos prazeres de uma vida marcada
pelo amor e pela beleza.
Em
“Na outra margem entre as árvores”, Hemingway apresenta o relato
contundente e sincero do coronel Cantwell, um velho combatente que passa
as últimas vinte e quatro horas de sua vida na estranha e bela cidade
de Veneza. Trata-se da narrativa de um mundo violento e conturbado, obtida
através da imagem de um homem bem ao gosto da literatura, do jornalismo
e do cinema contemporâneos. Veneza, a mais bela cidade do mundo,
como Paris ou outra qualquer, escapa aos sentidos, logra a percepção
mais refinada e arguta. Pois, uma cidade, por menor e anônima que
seja, é sempre um lugar (um des-lugar) indescritível em sua
essência e totalidade.
Foto: Arnaldo
Interata, 2006
Nem
mesmo o gênio de Hemingway, nem Ítalo Calvino com suas Cidades
Invisíveis, conseguiram esgotar tal realidade complexa, povoada
de tantos mistérios e possibilidades. E é sobre isso que
pretendo escrever, sem nem de longe querer imitar o estilo curto e pensamentos
claros do jornalista e escritor atento e exigente, que em Hemingway se
complementam e se realizaram ao longo de uma vida agitada e de final deliberadamente
escolhido. Gesto próprio de quem sabe a hora de entrar e de sair
de cena, sem juízos morais nem avaliações psicológicas.
Só o sujeito diante de seu destino; frente a um mundo quebrado e
à deriva. Perdido no seu motivo, tentando sobreviver e lidar com
a trágica morte da razão no pós-guerra. Uma razão
cada vez mais enfraquecida e questionada num período convencional
e imprecisamente denominado de pós-modernidade: tempo sem futuro,
sem esperança, sem critério e nem discernimento de princípios
e valores, cuja mórbida realidade todos vivemos.
E é justamente neste
ambiente que o coronel de 51 anos de idade, de modos rudes, mas sempre
desejoso de demonstrar amabilidade, sem nunca o conseguir por mais de dois
minutos, obriga-nos a pensar as relações que estabelecemos
com a cidade. O objetivo é colocar o leitor em uma encruzilhada,
na qual não há espaço para hipocrisias, jogos de poder,
sortilégios nem mascaramentos de qualquer natureza. A afirmação
direta e clara do coronel poderia se transformar, sem esforço, em
uma interrogação igualmente direta e clara: Por que as pessoas
conseguem nutrir sentimentos antagônicos, como o amor e o ódio,
em relação a uma mesma cidade?
Quando
o personagem de Ernest Hemingway se refere à cidade de Veneza, provavelmente
não está a pensar apenas nos seus aspectos físico-geográficos.
Ou apenas em suas riquezas naturais, como jazidas, nascentes d’água
potável, terras agricultáveis, pastagens e retalhos de florestas
que, por ventura, ainda resistem à fúria predatória
do “homo-economicus”. Semelhantemente a Calvino, estaria a pensar, sobretudo,
na riqueza de sua arquitetura urbana e humana. Não apenas em seus
traçados arquitetônicos, mas também neles, com suas
ruas, avenidas e ruelas. Suas pontes, viadutos e canais, bem ou mal iluminados.
Enfim, em seus edifícios religiosos, esportivos, suas catedrais
comerciais e financeiras. A tal olhar afiado e justo não faltarão,
sem dúvida, as favelas, os bairros clandestinos, os hospitais, creches
e lojas de quinquilharias chinesas, hotéis de terceira categoria,
casas de prostituição, restaurantes e motéis de luxo,
hospícios e presídios de segurança máxima.
Isso sem falar dos imensos depósitos de ferro-velho, do cemitério
público e do asilo. Uma cidade, para agradar ao sofisticado gosto
de um coronel com mais de meio século de vida, teria que ter museus,
galerias de arte e muitos bosques com árvores frondosas. Não
faltariam escolas e universidades, dignas deste nome, nem monumentos. A
cidade mesma seria uma ampla e rica biblioteca, uma obra de arte de inestimável
valor. Deveria ser um lugar aprazível, desses em que todos temos
vontade de morar e desfrutar cada fatia, até o incerto dia da morte,
dama de golpe exato e justo. Um lugar onde os loucos, os ignorantes, os
poetas, os doentes, os mendigos e andarilhos, os portadores de deficiência,
os viciados, os mortos e os diferentes não seriam discriminados
nem confinados em espaços especiais. Uma cidade só, para
todos! Seria uma cidade onde todos pudessem passear despreocupadamente,
sem o temor de serem olhados com desprezo ou ironia, fossem o que fossem.
Estivessem como e com quem estivessem. Uma cidade livre e justa, lírica
e feliz. Uma cidade adorável, como um livro aberto, ilustrado pelos
grandes pintores da humanidade, aos olhos de todos os seus habitantes e
visitantes. A cidade toda, toda vista e revisitada a partir de todos
os ângulos e pontos de vista.
Foto: Arnaldo
Interata, 2006
Estaria
o coronel Cantwell, apaixonado como estava pela condessa Renata, leve em
sua beleza e frescor, a pensar, principalmente, na maneira como as pessoas
se comportam, vestem e falam. Sobre o tipo de amizade e de solidariedade
que praticam. Sobre que tipo de cultura que seus habitantes produzem e
desfrutam. Sobre o que bebem e comem. Sobre os que não comem. Sobre
os que estão fora do mapa da cidade. Sobre a colorida e agradável
bagunça dos mercados e mercearias. Estaria refletindo sobre os valores
espirituais e estéticos que constituem e animam o cotidiano da urbe
e permeiam projetar um futuro inteligente e luminoso.
Veneza,
adorável cidade! Mas a cidade imaginada e desejada pelo personagem
de Hemingway talvez seja, em parte, a mesma cidade em que vivemos e nunca
observamos atentamente. Talvez seja a cidade com a qual sonhamos, para
viver o resto de nossas vidas. Justa, sincera e sem traições.
Pode ser, talvez, a cidade que todos necessitamos construir e não
ser dela apenas herdeiros, aventureiros, beneficiários e predadores.
Imaginária ou real, é
nesse lugar indescritível que desejo viver e morrer. Mais que a
Veneza do coronel Cantwell, uma cidade adorável.