A
pesquisa sobre a Festa de São Benedito foi desenvolvida no espaço
da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Cuiabá
– Mato Grosso. Buscou estudar e compreender a Festa como estratégia
de educação e formação para a cidadania. Esta
pesquisa se refere à Festa realizada em torno de São Benedito,
santo negro, filho de escravos, nascido na Itália, e festejado também
em Cuiabá de maneira muito significativa há quase três
séculos, de modo que há cenário e espaço diferenciados
no que diz respeito à Itália e a realidade brasileira, mato-grossense
e cuiabana. A devoção a São Benedito em Cuiabá
tem seu marco inicial, segundo os relatos históricos, entre os anos
de 1719 e 1722.
Igreja de
São Benedito e Nossa Senhora do Rosário em Cuiabá,
Mato Grosso.
Foto: Dejacy Arruda
Abreu
Em Cuiabá a devoção
a São Benedito é tradição dos negros escravos
e ex-escravos, pessoas simples e pobres que parecem ter encontrado no santo
um alento de esperança diante da vida dura que levavam nas terras
cuiabanas. O culto a São Benedito e a tradição da
Festa nasceram junto ao povo sofrido, pobre e negro de Cuiabá.
Estudando!uma
Festa tradicional cuiabanidade, como a de São Benedito fui entendendo,
com o auxílio de fontes documentais e também de relatos atuais
dos devotos, que a Festa nasceu em terras mato-grossenses juntamente com
a conquista .
O tempo desta Festa, em Cuiabá,
é atípico. Ela não coincide com o nascimento, com
a morte e nem com a canonização do santo. Segue o calendário
da Festa do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, atualmente celebrada na
Igreja Matriz, a Catedral Metropolitana.
A do Divino foi considerada,
nessas terras, como a grande festa. A de São Benedito era uma Festa
menor, sem nenhum prestígio social. Por isso os devotos desse santo,
com as sobras da festa do Divino faziam a sua festa.
Produção da
paçoca
de pilão, comida tradicional da Festa de São Benedito
em Cuiabá
Foto: Dejacy Arruda Abreu
Com o crescimento da devoção
a São Benedito devido aos muitos milagres atribuídos a ele,
o santo se popularizou a ponto de ser considerado atualmente como protetor
da cidade, enquanto o Divino continuou sendo o padroeiro. Uma enquete dirigida
aos cuiabanos sob o título "O Santo e a Festa que têm a cara
de Cuiabá", feita pelo Jornal Diário de Cuiabá e publicada
no Caderno Especial de Cidades, traz o seguinte resultado:
Qual santo de devoção tem a cara de Cuiabá? Qual
festa popular tem a cara de Cuiabá?
São Benedito
60,6% Festa de São Benedito
67,6%
Senhor Divino
18,6% Festa do Senhor Divino
22,3%
São Gonçalo
12% Micarecuia
5,5%
Bom Jesus de Cuiabá
6,1% Carnaval
2,5%
Falar da devoção
a São Benedito em Cuiabá e de sua Festa na Praça do
Rosário é falar da cultura mato-grossense. Foi nessa diversidade
cultural, sobre a qual fala o historiador Costa e Silva, que localizei
os devotos do santo negro
Formada pela intrepidez
do bandeirante, pela bravura do negro escravo e pela inocência do
índio aguerrido, é a nossa cultura o que há de mais
representativo da herança congênita dessas três raças.
Representa a nossa história, a nossa memória social, as tradições,
técnicas, experiências, crendices e acúmulo de conhecimento
de quase três séculos de miscigenação racial.
Nessa simbiose de civilização está a cultura mato-grossense.
(Costa e Silva, 1997)
A Festa de São Benedito
chegou com as levas de migrantes que, pouco a pouco, ocuparam a região
que hoje é denominada Mato Grosso. Estes, instalaram-se no centro
de maior circulação de pessoas e de exuberância do
ouro: Cuiabá. Essas levas de migrantes provenientes dos quatro cantos
do país e outros tantos grupos estrangeiros, especialmente portugueses,
trouxeram em sua bagagem diferentes costumes, ritos e jeitos peculiares
de ser e viver. Essa Festa reflete certa síntese cultural dos vários
grupos étnicos, resultando na mestiçagem que vai revelando
as características próprias do povo mato-grossense: afro-ameríndio.
Descendente de negros trazidos para preação de índios
em terra de etnia Bororo em suas diversas denominações:Paiaguá,
Guaicuru, chapadense e tantos outros que ocupavam o território que
então abrangia o atual Estado de Mato Grosso do Sul, nos limites
do município de Camapuã, prolongando-se ao norte até
próximo ao que hoje chamamos "Nortão", a mil e duzentos quilômetros
acima de Cuiabá.
Evidencia-se na grande maioria
dos devotos da Festa de São Benedito a inclusão de elementos
culturais advindos do branco e do negro e do modo de sentir Bororo. Cuiabá
expressa uma certa síntese dos diversos segmentos culturais vivos
em Mato Grosso, por meio do folclore, da literatura, das artes plásticas,
do teatro, da música, do artesanato ou, mesmo, dos apetitosos pratos
da tradicional culinária cuiabana, os quais recebem especial atenção
como referência e chamariz nas Festas de São Benedito.

Procissão de
São Benedito, em Cuiabá, Mato Grosso, 2006
Foto: Dejacy Arruda Abreu
É
nesta voragem de mergulho numa humanidade singular, cuiabana, mestiça,
sincrética, que se derrama no corpo e na alma, que o processo de
criação de humanidade flui: processo educacional profundo,
artesanal, que supera as linhas de produção em série
da educação escolar, encharca o cotidiano das casas, dos
povoadores e emerge no espaço e tempo da Festa.
A investigação
desse objeto possibilitou compreender o sentido da Festa de São
Benedito num contexto cuiabano intercultural, quando emerge, reiteradamente,
uma simbologia espaço-temporal de diáspora que nega e afirma,
bem como produz e reproduz, educacionalmente e de forma coletiva, identidades
que carregam interesses contraditórios do ponto de vista econômico,
simbólico e político.
A Festa dentro desse contexto
de contradições se revelou como estratégia de educação
e formação para a cidadania. Ela, de diversas formas, oferece
aos festantes um aprendizado que tem a ver com seu próprio cotidiano,
sua participação e atuação social, seu estar
no mundo. Dentro desse espaço, chamo esse aprendizado via Festa
de ações educativas socializadoras compreendendo que é
esse o papel da Educação, seja ela formal ou não:
o de estabelecer diálogo comunicativo dos seres humanos entre si,
com os outros e com o mundo, de forma a fazê-los membros de sua sociedade,
integrando-os, homens e mulheres, no seu meio social e cultural como atores
e protagonistas de sua própria cidadania.
A devoção e
suas práticas possuem muitos aspectos formalmente não-religiosos:
a submissão aos mais velhos, o acolhimento e a reiteração
da tradição familiar local, a circunscrição
dos novos devotos na esteira da visão do mundo, dos valores e de
deveres contraídos com a comunidade; o compromisso com a vida, com
o respeito aos outros, com o reconhecimento dos mais pobres, e de justiça
distributiva, valores estes que são reconhecidos pela sociedade
e ligados a “pessoas de bem”.
Para entender o que acontece
no sentido de aprendizagem não formal, mas da convivência,
apóio-me na visão e percepção do antropólogo
Carlos Rodrigues Brandão (2002a, p. 141):
[...] todo acontecimento
da educação existe como um momento motivado pela cultura.
Mas toda cultura humana é um fruto direto do trabalho da Educação.
[...] aprendemos na e da cultura de quem somos e de quem participamos (grifos
do autor).
Apoiada
em Brandão no que se refere à Festa, concebo-a como tempo
e espaço de aprendizagem. O aprender na Festa pode estar misturado
com as coisas da vida e apresentar-se como cultura cotidiana, não
do rotineiro, mas como movimentos que transpõem para algo mais,
que fazem com que os envolvidos valorizem o que aprenderam e queiram fazer
dela a sua experiência, o seu aprendizado. O aprendizado aqui está
grávido de continuidade.
Originalmente a Festa nascida
da devoção ao santo negro constitui a expressão de
fé da comunidade cuiabana e mato-grossense negra, pobre e simples.
Apesar dos preconceitos de raça e de classe operantes no Brasil,
encontrei na Festa devotos brancos descendentes de portugueses, alemães,
italianos, junto com a população negra e indígena,
bem como membros da elite cuiabana festejando lado a lado com os socialmente
excluídos. Todos celebram a devoção a um santo que
não admitia racismo e discriminação, num mesmo tempo
e num mesmo espaço.
Com olhares e contribuições
de pesquisas diversas em torno da cultura brasileira e em especial de Mato
Grosso, busquei entender como o povo cuiabano celebra durante todo o tempo
a vida, preservando o tempo e o espaço da Festa e demarcando o espaço
deste evento como distinto dos demais espaços da cidade. Utilizei
a vertente fenomenológica de Merleau-Ponty (1999)
no que tange à noção de temporalidade. O conceito
de educação emancipatória foi buscado em Paulo
Freire (1997;
1999).
Também recorri à etnografia realizada pela Profa. Maria de
Lourdes De Lamônica Freire em Vila Bela da Santíssima Trindade
(1988) e aos conceitos basilares de Rita
Amaral (1996;
1998) sobre a festa e a significação do
festejar no Brasil.
Aqui abro um parêntese
ou outro veio de interlocução para dizer do "sobrevôo"
necessário para pelas Irmandades, posto que a Festa de São
Benedito estava nas mãos delas.
As
Irmandades eram formadas por grupos de pessoas leigas, organizadas, que
legalmente assumiam o cotidiano de vida das capelas, constituindo, de fato,
o poder local religioso e social. Em Cuiabá, essas Irmandades foram
responsáveis pela Igreja do Rosário e São Benedito,
uma vez que os padres, à época nessa região, constituíam
número pouco expressivo e a Igreja do Rosário não
era considerada ainda Paróquia, mas, sim, uma capela de devoção.
Nas mãos das Irmandades
de São Benedito toda a organização, arrecadação
e festeiros da Festa se mantiveram até a década de 80, quando
a paróquia, por meio de suas lideranças religiosas e leigas,
movidas pelo florescimento de pastorais e movimentos sociais, como que
toma a Festa do poder das Irmandades e passa a organizá-la e concretizá-la
na Praça do Rosário. A partir de 1982, devotos, independentemente
de sua posição e condição social, podiam ser
rei ou rainha da Festa de São Benedito.
Ocorreu-me, com o andamento
da pesquisa, o entendimento de que, para descrever ou simplesmente falar
dessa festividade dos cuiabanos, eu precisava como que descer ao "chão"
da Festa; colocar os pés nessa realidade com mais freqüência
e auscultá-la sem pressa. Essa escuta resultou de um envolvimento
maior com o objeto pesquisado e com a multidão dos devotos. Eu não
era uma pessoa a mais; tornei-me um rosto conhecido e cuja presença
logo alguém cobrava quando algum momento lembrava o santo..
Após um longo trajeto
que também se expressava na compreensão da Festa e dos seus
aspectos pedagógicos intencionais e espontâneos de aprendizado,
a pesquisa concluiu que a educação aqui referida esteve e
está presente de forma marcante nos processos que medeiam a Festa
justamente porque ela celebra o que se vive; celebra a vida do ser humano,
possui caráter ético, estético, político e
constitui, ontologicamente, o ser humano convidado a se criar (autopoiésis)
pelo chamado de estar a cada dia sendo. Portanto, não tem forma
previamente definida, ou única, porque se move no e ao ritmo do
tempo, como um quadro sem moldura, sem a inscrição de um(a)
único(a) autor(a), mas com a inscrição de todos(as)
os(as) autores(as). E no movimento da Festa, o aprendizado acontece.
As pessoas aprendem e ensinam
no movimento da Festa. São trocas de saberes sobre o seu limite
e o limite do outro, saber ouvir o diferente, acolher as experiências
e o respeito pela tradição. Assim, também eu fui ensinada
no aprendizado da Festa.Passei a aprender com ela, afinando-me, iniciando-me
nela, sendo educada por ela, educada em minha sensibilidade, em meu acolhimento,
em minha espiritualidade, em minha dimensão comunicativa e expressiva
para a solidariedade e o trabalho conjunto. Olhando-a por dentro e ao seu
avesso, lembrei-me de Carlos Rodrigues Brandão quandose refere à
cultura do outro, o diferente de "mim", numa troca mútua de experiências,
sem que um se sobreponha ao outro, mas que se comunique na cultura:
Festa São Benedito
em Cuiabá, Mato Grosso, 2006
Foto: Dejacy Arruda Abreu
[...] é que o outro
só se dá a compreender quando nós formos capazes de
decifrá-lo a partir do seu próprio ponto de vista. Isto significa
que devo ser capaz de, primeiro, pensar a cultura do outro, através
dos termos com que ela se pensa a si própria para, depois, então,
a partir daí, ser capaz de associar a compreensão de tal
cultura, com base em seu próprio ponto de vista, a minha lógica.
(1986, p. 9-17)
Sendo assim, a educação
simplesmente acontece em qualquer espaço de vivência das muitas
experiências humanas, como uma celebração de trocas
simbólicas de signos e significados para um determinado grupo. E
para esse grupo ela representa mais que a fala ou a escrita: ela provoca
movimentos no corpo por inteiro, envolvendo-o de tal maneira que o conduz
a se expressar, a comunicar o que a ele acontece. Por isso o corpo dança,
canta, pinta, sorri, experimenta, se alimenta, chora, contrai-se, atrai,
distrai-se, lança-se, abraça, silencia-se... O ser humano
como que comunica a outro humano o que lhe acontece com palavras e na ausência
delas.
Parece-me que, de certa forma,
o cotidiano de nossas famílias, ruas, escolas, igrejas, clubes e
outros tantos espaços permitem tecer relações de aprendizado
nas quais a vida e as experiências se misturam. Seja num ambiente
festivo informal, seja num formal, delineamos definições
de identidades que nos identificam com o que acreditamos ou não,
pelas quais lutamos ou não. O que estou buscando dizer é
que a educação acontece primeiramente longe de um espaço
fechado, demarcado, ensaiado e institucionalizado.
O direito ao exercício
da cidadania foi uma categoria que permeou esta pesquisa. A Festa abriu
fortemente a compreensão de um espaço social que suscitou
nos devotos e envolvidos com o santo um processo de tomada de consciência
da igualdade de todos perante a lei. O movimento social que é
percebido e na preparação e nos dias da Festa revelou o avanço
na compreensão do direito à cidadania que emergiu reiteradamente
dentro da sociedade contemporânea cuiabana.
Marilena Chauí (1984)
afirma que a luta pela cidadania implica uma conquista social e política
diferenciada, ampliando, assim, a análise sobre o tema no tocante
à democracia, com o que concorda Maria Vitória Benevides
(1994, p. 9) ao dizer que a cidadania ativa é aquela que institui
o cidadão como portador de direitos e deveres, mas, essencialmente,
criador de direitos para abrir novos espaços de participação
política. Isso me levou a compreender que cidadania carrega ações
de sentidos diversificados, pois ela emerge dos direitos e deveres de toda
sociedade, reconhecendo a todos como iguais perante a lei, devendo possivelmente
mover a sociedade para um processo de participação e compromisso
social. Foi numarealidade de cansaço, de lutas e de resistências
que a teimosia do povo cuiabano e mato-grossense encontrou espaços
na Festa de São Benedito ou os criou para manifestar sua indignação
e negação da ordem imposta. Esses espaços -seja o
da Festa ou seja o da Praça do Rosário em si-, são
lugares de fortalecimento da luta, de descarrego das tensões, do
medo e de toda forma de poder que produz a morte.

Devoção em
família
Foto: Dejacy Arruda Abreu
A
educação está presente na vida do ser humano, faz
parte ontológica da sua natureza. Ela acontece de formas diversas,
espontâneas
e carregando, de alguma forma, intencionalidades. Como pondera Brandão
(1995, p. 7):
Em casa, na rua,
na igreja ou na escola, de um ou de muitos, todos nós envolvemos
pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar.
A
educação nesta pesquisa foi entendida como aquela que invade
a vida e é aprendida através de concepções
diferentes, em mundos e culturas diversas. Com isso afirmo que a educação
não deve ser concebida deforma única, institucionalizada.
Observando a Festa e participando
de sua pedagogia organizacional, entendo que a Educação na
Festa e para além da Festa é a soma da tecedura de
diferentes processos, podendo ser eles pessoais, interpessoais e outros
que culminam na construção de “valores diversos”. Estes valores
poderão ser válidos para um dado grupo de acordo com sua
experiência, sem que haja um único grupo guardião do
saber válido, pronto e acabado, pois a educação ou
o conhecimento é a soma de experiências que podem ser válidas
para um grupo, mas para o outro pode não ter o mesmo valor. Nessa
experiência com o diferente, reconhece-se a importância da
diversidade cultural. A educação, portanto, pode ser
entendida como uma colcha de retalhos, formada por pedaços distintos,
descolados de seu todo. Concordo com Brandão (1995)
quando diz que “[...] não há uma forma única nem um
único modelo de educação; a escola não é
o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino
escolar não é a sua única prática e o professor
profissional não é o seu único praticante”.
A
Festa aqui estudada é entendida como instrumento educacional, dado
que nela se constituem identidades, finalidades, processos, projetos, congregando
a diversidade numa certa unidade precária que se encontra explicitada
por suas formas e conteúdos que geram, sustentam e garantem a vida,
a autonomia e a liberdade. Afirma o universal que somos e o singular de
que nos fazemos. De alguma forma o povo que festeja une-se e se identifica
com os elementos, símbolos ou espaços que a congregam. Há
algo que os torna diferentes, únicos e por isso universais, enquanto
humanidades concretas e empíricas.
A festa como instrumento, representada
pelo cotidiano, pelas famílias, pela experiência de vida,
é uma escola, cujo sujeito pedagógico é o próprio
povo, que orienta e revigora comportamentos, faz participar de crença
e valores, perpetuando um universo simbólico.
A Festa da Igreja do Rosário
e São Benedito não é exceção. Constitui
uma via fundamental de produções sociossimbólicas
que se entrelaçam em relações ressignificadas por
teias de sentidos que possuem alguns arrimos e tessituras no transcendente.
Tem sido expressão de negação, de alienação,
de fuga do conformismo, da individualidade vazia, mas que se inspira na
solidariedade, na luta de grandes projetos humanos e políticos.
O espaço da Igreja do
Rosário e São Benedito onde acontece a Festa produziu e continua
a produzir humanidades marcadas pelo desejo de democracia, de participação
e de igualdade. Produziu humanidades solidárias, algumas delas nossas
contemporâneas, as quais continuaram a ser inspiradoras da melhor
humanidade, como as Padre Emílio, Padre Teodoro Weber, Padre Ten
Cate, Vicente Cañas, mais recentemente Ari, Lourenço Fernandes,
e muito recentemente Maria Benvinda e Eudson de Castro Ferreira .
Estas humanidades não nasceram da forma como viveram e se expressaram.
Foram geradas no movimento de luta, de engajamento, provocado pelos conflitos
e na resposta generosa a eles.
Neste estudo do aprendizado
da Festa, foi possível entender que aquilo que não trazemos
ao nascer e de que impostamente ou de livre arbítrio precisaremos
quando adultos, é-nos dado pela educação situada numa
dada cultura. Quando digo que a Festa de São Benedito educa é
porque reconheço e identifico nela o que chamo aqui de educação
socializadora, capaz de desenvolver valores de forma autônoma e pessoal
e pôr chão na sensibilidade, significado nas relações,
compaixão nos conflitos, sede de justiça diante da maldade,
solidariedade na solidão. Estas são manifestações
que somente podem ser compreendidas como ações formatadas
pelas ações educativas que orientam as humanidades concretas
no sentido da solidariedade, do acolhimento do outro/diferente: a organização
solidária; a troca; a mútua ajuda; a tolerância nos
conflitos; a afinação no timbre da Festa; a doação
do trabalho para o santo; o compartilhamento da alegria, da fé e
da humildade exigida por São Benedito aos fiéis; a caridade
com os pobres; o compromisso ético-político cotidiano. O
que estou dizendo é que educação é um processo
inclusivo entrelaçado em dimensões decorrentes de processos
sociais globais diversos, longe de centrar o seu sentido último
em educação escolar institucionalizada que age, na maioria
das vezes, como uma agência de controle, produção e
reprodução utilizando mecanismos talvez inovadores ou conservadores
que reproduzem orientações dos grupos que as instituem .
Esse pensamento e olhar interpretativo sobre Festa de São Benedito
levaram-me a Durkheim (1955), trabalhado no livro
Educação e Sociedade de Luiz Pereira e Marialice Foracchi
(1976, p. 31),
o qual me ajudou a compreender como a educação é concebida
por esse autor em relação à sociedade: “Se a Educação
deve ser sociologicamente analisada como processo social inclusivo, é
legítimo conceber a sociedade como sendo, toda ela, uma situação
educativa”. Sob a perspectiva durkheimiana, a educação é
concebida como processo socializador, entendendo-se que uma geração
se coloca no “tempo” histórico, social, político, econômico
e cultural como mediadora da outra geração, considerada mais
nova, ou como quer chamá-la Durkheim (1955), geração
imatura, para com ela e nela concretizar ou inaugurar processos educacionais.
Para tanto, é importante que os currículos escolares sejam
adequados às peculiaridades de cada localidade e valorizem a cultura
como seu patrimônio histórico, artístico, cultural
e ambiental compreendida como tarefa paidêutica imprescindível.
Imagem
de São Benedito no interior da nave central da Igreja
Foto: Dejacy Arruda Abreu
Conclusão
Concluí
que a Festa de São Benedito pode ser vista para além de um
encontro espiritual, de confraternização popular, de consolidação
de uma unidade indistinta e pacífica. Ela não é um
mero espetáculo turístico religioso, folclorizado, que se
mantém estático no tempo, emoldurada como num museu, como
crítica Ortiz (1991, p. 37) ao se referir aos
folcloristas:
Os folcloristas criam museus
de tradições populares com o intuito de ‘salvar’ os resquícios
de uma época primeva. Mas, assim fazendo, eles se contentam em mirar
‘a beleza do morto’, pois seu objeto de estudo é o passado em vias
de extinção.
Ela é fruto de uma trama
em curso numa sociedade dividida em classes, com conflitos raciais vivos,
com conflitos políticos expostos a nu. Ela está prenhe de
vida. A Festa se constituiu, também, num espaço privilegiado
que fecunda, cria, reitera e recria as tradições consolidando
a raiz dos costumes do povo com os sentidos de suas vidas, mediada pela
cuiabanidade e pelas necessidades e desejos postos à mesa pelo tempo.
A Festa, circunscrita num espaço, recria a temporalidade ininterrupta,
à medida que os devotos festejam o santo com seus familiares. O
tempo flui, não há uma mera recordação do passado
festivo, o canto, a dança, a oração, o santo e o lugar
vão se constituindo como fontes simbólicas que emanam e recriam,
de novo, a vivência de um tempo aberto continuado. Cada um experimenta
o tempo a seu ritmo que se soma à experiência comum de todos(as).
O tempo cronológico, medido, controlado, é abolido pela transcendência
que se encarna em todos e em cada um(a).
Notas
Em Cuiabá chamavam-se conquistas às invasões de territórios
ameríndios.
As
pessoas (in memoriam) nomeadas aqui foram e continuam sendo força
emblemática da memória de luta, atuação e resistência
da Igreja do Rosário e São Benedito. Dentre elas temos os
padres jesuítas, o missionário jesuíta Vicente Cañas
que foi assassinado na luta pela demarcação das terras indígenas
em MT, ex-jesuítas, professor universitário, leigos comprometidos
com as causas sociais e políticas em Mato Grosso.
O
grupo hipoteticamente pode ser uma instituição como a igreja,
a escola, a família e outros
Webgrafia
SANTO
DE DEVOÇÃO - São Benedito, o protetor da cidade. Cuiabá.
Acesso em: 11 jun. 2006.
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