No
início de nossa pesquisa ,
a identidade do migrante parecia unívoca, opondo-se à
dos natalenses e de outros migrantes originários de diferentes regiões
do país. No entanto, a distinção dos grupos ativos
na história festiva recente de Natal (ao longo do século
XX) permitiu estabelecer uma primeira fronteira entre duas grandes representações
identitárias relativas à origem territorial do tecido social
urbano, ou seja: os citadinos e aqueles de origem migrante- do interior
(considerados aqui como a zona rural ou aglomerados urbanos populacionalmente
menos densos que a capital). Tal pesquisa revelou que as possibilidades
de distinção eram muito mais amplas do que as categorias
“matuto/ caipira”, “migrante” ou “citadinos” poderiam abarcar; seria preciso
definir internamente estas distinções. O problema, precedentemente
anunciado por Lévi-Strauss , é que
[…] aucune des sociétés
constituant un échantillon fortuit ne semble tenir pour acquise
une identité substantielle: elles la morcèlent en une multitude
d’éléments dont, pour chaque culture, bien qu’en termes différents,
la synthèse pose un problème. (Lévi-Strauss, 1977,
p.11).
Dentre os migrantes instalados
na cidade de Natal percebe-se uma população citadina socialmente
bem integrada, ocupando posições sociais valorizadas da vida
urbana como vereadores, empresários, comerciantes, profissionais
liberais. Outros, muito mais numerosos, são integrados em posições
e atividades pouco valorizadas. Para esses últimos a experiência
migratória não trouxe uma verdadeira assimilação:
em Natal, a maioria dessa população vive com empregos precários
alternados com fases de desemprego. Pouco escolarizados, a maioria não
é especializada e permanece mal remunerada. A habitação
(lugar e propriedade) surge como um segundo elemento importante de distinção
social: alguns tiveram acesso à casa própria nos setores
que a cidade reconhece como “populares” ou “periféricos”, mesmo
quando espacialmente centrais. Não por acaso, nesses bairros se
observa uma grande fidelidade à festa junina.

Dançarinos matutos
apresentam coreografia de quadrilha no festival da televisão Cabugi,
em 2001. (Natal/RN)
Percebe-se,
finalmente, que a festa se transformou num campo social citadino onde se
confrontam diferentes versões desse migrante. Nesse contexto, podemos
falar de uma identidade de migrante em Natal? Quais são suas referências
principais? Como circunscrevê-la e quais os limites de uma definição
dessa natureza ? Finalmente, como ela integra o universo rural e o citadino?
Nuances
da identidade de migrante
Uma
primeira aproximação da identidade reafirma os termos do
debate antropológico datado de fim dos anos 1970 : “l’identité
se situe non seulement à un carrefour, mais à plusieurs”.
Neste sentido, Lévi-Strauss também ressalta que a identidade
só pode ser apreendida “dans l’effort des sciences humaines pour
[la] dépasser et voir que son existence est purement théorique:
celle d’une limite à quoi ne correspond en réalité
aucune expérience.””.(Lévi-Strauss,1977:332).
Intrinsecamente dinâmica e bonne à penser, a identidade
de migrante em Natal é descontínua e relacional: apesar de
atrelar-se à uma identidade de origem, a dinâmica do poder
econômico e simbólico se superpõe às demais
referências dessa identidade oferecendo inclusive sinais diacríticos
próprios à sua definição, como indica Morice
(1993:359): “les
limites des dépenses vestimentaires et les stigmates physiques font
obstacle à [leur] volonté de se mêler au reste de la
population
Considerando também
que a “etnicidade é essencialmente a forma de interação
entre grupos culturais operando dentro de contextos sociais comuns” (Cohen
apud
Cardoso de Oliveira, 2006), tal
dinâmica se manifesta na totalidade das relações sociais
cotidianas e extraordinárias- como as festas e rituais-, marcados
segundo DaMatta (1983:41)
pela dramatisation, c’est à dire la condensation d’un aspect,
élément ou relation mis en lumière, en relief [et]
insoupçonné auparavant, lorsqu’il n’était qu’un élément
de situations, relations et contextes quotidiens. Tal dramatização
trazida pelo ritual desencadeia repostas sociais que permitem o reforço
de uma ideologia dominante, mas podem também inaugurar um tempo
social de criação e abertura em direção do
futuro:
[...] E é
por isso que o papel da cultura não se esgota em sua função
diacrítica, enquanto marcadora de identidades nas relações
interétnicas. A variável cultural no seio das relações
identitárias não pode, assim, deixar de ser considerada,
especialmente quando nela estiverem expressos os valores tanto quanto os
horizontes nativos de percepção dos agentes sociais inseridos
na situação de contato interétnico e intercultural.
(Cardoso de Oliveira, 2006, p. 35).
Ao longo do século
XX, a instalação urbana das populações socio-economicamente
desfavorecidas, majoritariamente originárias do “interior” do estado,
foi marcada por uma profunda distância entre as motivações
gerando a iniciativa migratória e suas possibilidades efetivas de
sucesso (Souza, 1980). A maioria se instalou nos setores
pouco interessantes à especulação imobiliária:
nesse sistema - de modo geral-, quanto mais tardia é a chegada do
migrante, mais distante do centro da cidade será o endereço
de sua instalação. Além dos obstáculos materiais
opostos a seu sucesso migratório, ele teve que se confrontar com
a representação dominante e negativa do “matuto”, inscrito
no imaginário da população natalense desde os anos
1930 e presente até nossos dias:
[...] assim, o matuto
é o “selvagem”, que se opõe claramente ao citadino, não
somente pela sua maneira de vestir e pelos universos e referências
opostos: eles são moral e essencialmente diferentes.[...] sua caricatura
cristaliza os instrumentos quotidianos de ascendência dos setores
sociais dominantes sobre os trabalhadores urbanos de origem migrante. Esta,
exógena e estigmatizante, lembra quanto é redutora a representação
do migrante como um ‘ex-rural’. (Chianca, 2006,
p.55- 56).
Esse processo político-cultural
conhecido como “labelisação” é exógeno e concerne
a identidade coletiva dos migrantes na sua exo-definição:
[…] Dans les situations
de domination, l’imposition d’un label par le groupe dominant a un véritable
pouvoir performatif: le fait de nommer a le pouvoir de faire exister dans
la réalité une collectivité d’individus en dépit
de ce que les individus nommés pensent d´une telle appartenance
a une telle collectivité. (Poutignat & Streiff-Fenart, 1955,
p. 57).
Se a exo-definição
nem sempre revela a “vontade de estigmatizar pejorativamente um grupo”,
o matuto é uma representação fortemente negativa do
homem “rural”. Apesar de Antônio Cândido (1987)
haver buscado definir o caipira, a imagem que se imortalizou foi a do “Jeca
Tatu” de Monteiro Lobato”,
esboçada no “Urupês”, de 1918. Essa referência “injusta,
brilhante e caricatural”, segundo o próprio Cândido, foi incorporada
ao imaginário citadino (Chianca, 2006)
e consolidada posteriormente através da popularização
massificada do Biotônico Fontoura
. Outras personagens ulteriores reforçam sobremaneira essa imagem
do caipira, como o Jeca Tatu de Mazzaroppi
, e o Chico Bento, criado em 1961
e publicado como histórias em quadrinhos de Mauricio de Souza.
Assim
como ocorre com o cativante Jeca de Mazaroppi, Chico Bento revela toda
a ambigüidade da representação citadina do homem rural:
bochechudo e simpático, ele é de um lado “obtuso, ignorante
[e] incapaz de responder às mínimas exigências da escolaridade;
[sendo que] de outro lado identificamos nele dotes louváveis: amigo,
filho amoroso, defensor da natureza, criança de bom coração
e de boa índole”, como salienta Silva (1988: 256).
Na sociedade heterogênea
e complexa de Natal, a designação de “migrante” reúne
numa primeira grande “família” a totalidade dos citadinos de origem
migrante, ignorando sua localidade de origem e situação sócio-econômica
anterior ou posterior à migração. Freqüentemente,
no entanto, pelas associações que comporta, tal identidade
de origem permanece oculta, ao ponto de ser negada segundo a circunstância.
Sendo assim, ela só é cotidianamente empregada como referência
aos trabalhadores e setores populares urbanos, constantemente discriminados
e inferiorizados na sua condição “matuta”, como revelou esse
entrevistado:
[…] é a mesma
coisa de você chegar, estar na sua casa, recebendo uma visita de
uma pessoa matuta que vem lá do interior do estado, e de repente
tem uma autoridade, uma pessoa da capital. Automaticamente você vai
dar mais atenção à pessoa que é da capital,
à autoridade. (C.O.)
Esta “etiqueta” de matuto
cria no entanto uma “[...] solidarité réelle entre les
gens ainsi désignées, ne serait-ce parce que, du fait de
cette nomination commune ils sont collectivement l´objet d´un
traitement spécifique”(Poutignat & Streiff-Fenart,
1955
p. 158). Durante o São João, -quero dizer: em circunstâncias
“extraordinárias”-, esta etiqueta pode tornar-se valorizada, já
que aqueles que a assumem ou reivindicam contam com o apoio moral e mesmo
financeiro de seus semelhantes e de toda a cidade. Ora, freqüentemente
esta ajuda não é desinteressada, mas durante esse momento
festivo todos os atores festivos decisores (organizadores de festas e festivais,
jurados de concursos, mídia, intelectuais, produtores culturais
públicos e privados, comerciantes, políticos e Igreja, entre
outros) organizam e atualizam as representações correntes
sobre o “matuto” e o interior. Esse processo testemunha uma preocupação
de revisão ideológica dos símbolos e representações
coletivas acerca dos migrantes, atestando o dinamismo próprio das
identidades.
Uma
memória do desenraizamento
Umas das primeiras referências
identitárias permitindo distinguir o grupo de migrantes e os “demais”
é o passado migratório e a comunhão de uma memória
coletiva construída a partir de um território “abandonado”.
Esta memória é ativada, segundo Poutignat & Streiff-Fenart
(1995:177)
par
[…]
l’exhibition de certains attributs qui sont tenus comme la marque d’origine
commune [et] suffit à elle seule à conforter l’idée
d’un lien généalogique présumé.
Já que o «interior»
é a origem suposta (e creditada) comum aos migrantes de todas as
origens sociais, como eles a imaginam após tê-la deixado?
O que eles pensam da capital de estado onde eles moram no presente? Como
eles representam o citadino e o interiorano,duas categorias não-
pejorativas, mas, ambas, “labelizantes”? Enfim, para eles, o que é
o matuto?
Dois casais matutos posam
para uma foto.Jovens da quadrilha matuta Arraial Filhos da Mãe,
em 2001 (Natal-RN).
Se
“interiorano” é todo aquele que tem suas origens “no interior”,
esta categoria etnônima (Lévi-Strauss & Benoist apud
Cardoso de Oliveira, 2006) surge
nas representações locais como uma categoria de assimilação,
compreendendo aqueles que tiveram sucesso na sua integração
citadina; morando em bairros valorizados, em residências confortáveis
e ocupando postos de trabalho socialmente valorizados. Já “matuto”
é uma “exodefinição” empregada para designar aqueles
que vivem em bairros distantes, periféricos, marginais ou pobres,
os excluídos do mercado de trabalho ou em situação
de precariedade social, à margem de uma integração
citadina. Eles constituem uma “cidade à parte”, como explicitam
certas expressões correntes em Natal, onde morar na zona Norte é
viver “do outro lado”:
“[...] -A zona Norte é
aquela coisa mais simples, mais humilde. (…) até porque lá
em zona Norte… é muito discriminada, assim: “- fica pro outro lado
do rio, não sei o quê!.” (I.T.).
No entanto, durante a festa
todos desejam se tornar matutos, o que ordinariamente corresponderia a
uma regressão social. Junto aos demais citadinos, os interioranos
se “esquecem de si” durante a festa, divertindo-se se possível às
custas de si mesmos.
Objetivando
recompor teoricamente as bases da identidade migrante em Natal, precisamos
insistir no fato de que essa identidade não se constrói -
como poderia parecer-, apenas a partir de uma localização
geográfica ou familiar, apesar de constatar-se a referência
permanente a um território de origem comum freqüentemente reivindicado
como principal fonte simbólica deste grupo. Ela também não
se fundamenta sobre o pertencimento a uma comunidade política, lingüística
ou religiosa, nem exprime o desejo de pertencimento a nenhum grupo fenotípico
humano particular.
Ora, tal identificação
possui uma base empírica complexa; com efeito, o Rio Grande
do Norte possui cidades interioranas muito heterogêneas e que a definição
geral de “interior” não comporta, porque esta subentende cidades
médias (como Mossoró), pequenas cidades (como vilarejos e
povoados) e áreas rurais (como sítios e fazendas). A este
amálgama se superpõe um elemento de confusão: a divisão
política do país em estados federais com capitais administrativas
e políticas. Associadas ao papel político predominante das
“capitais” sobre os “interiores”, estas sutilezas embaralham a população
que confunde de modo geral as capitais com os estados:
“[...] -E tua família
vem de Natal ou de um interior?”.
“Não, não,
de Fortaleza, do interior de Fortaleza”.(R.O.)
Vemos que o poder simbólico
da capital é amplo e representa uma referência formal e categórica
da definição de um estado, ultrapassando a indeterminação
do impreciso “interior”. Com efeito, encontramos aqui o […] éloignement
géographique et social qui permet de donner pureté et homogénéité
à un milieu hétérogène et hiérarchisé,
como afirma Jean-Loup Amselle (apud Quiminal :2000:114).
O
binômio “capital/ interior” permanece a grande oposição,
definindo a fronteira simbólica entre “o grupo de nós e o
dos outros”, entre os que são originários da primeira e os
que vêm de alhures. Mas, como sublinha F. Barth (1969,
p. 213), "les groupes ethniques ne sont pays simplement ou obligatoirement
fondés sur l’occupation de territoires exclusifs", reais ou
imaginados. Uma segunda grande referência das fronteiras étnicas
é a existência de símbolos e valores reconhecidos como
comuns, e que desencadeiam, também, um reconhecimento mútuo
de parte de pelo menos dois atores: “[...] identifier quelqu’un d’autre
comme appartenant au même groupe ethnique que soi implique que l’on
partage avec lui des critères d’évaluation et de jugement”,
ainda segundo F. Barth (1969:213).
Oriol salienta também que essa semelhança de ethos deve preencher
três funções, quais sejam:
[…] se poser dans l´ambiguïté
d’une référence simultanée à la nature et à
la volonté; se prêter également à l’objectivation
et à l’intériorisation; [e finalmente] pouvoir marquer une
opposition entre les groupes étendus (apud Poutignat
& Streiff-Fenart, 1995:213).
Se
a festa junina parece representar uma das fontes simbólicas citadinas
do migrante do interior é porque ela sintetiza as emoções
subjetivas e os significantes objetivos dessa identidade, podendo ser amplamente
reivindicada por todos os grupos citadinos como uma marca distintiva. Assim,
a representação dominante sobre a festa junina difundida
em Natal desde os anos 1930 foi construída sobre valores e práticas
festivas locais e dispersas, e a partir de então reagrupadas na
“capital” sob a égide de uma tradição festiva unívoca
e oficial (Chianca,
2006). Aprendida com a família
e na escola ainda na infância, esta festa faz parte da estrutura
emocional dos citadinos, no processo que Berger & Luckmann (1986,
p. 180) sintetizam: "[…] la socialisation primaire implique plus
qu’un simple apprentissage cognitif. Elle prend place dans les circonstances
qui sont fortement chargées émotionnellement". Assim,
algumas práticas festivas aumentam o "amor à festa", transmitido
de geração em geração, e explicitado por um
dos organizadores de concursos de quadrilha de Natal: valendo-se
da sugestiva metáfora de um processo hereditário, ele afirma
que
“[...] -Isso tá
no sangue. Eu, desde que eu sou criança que eu faço...eu
já puxei quadrilhas na escola...desde que eu sou criança
eu brinco de São João.”. (C.P.)
Outro informante nascido
em Natal nos anos 1970 e filho de pais migrantes descreve a mesma “interiorização
da realidade” e “sedimentação subjetiva” da qual falavam
Berger & Luckmann (1986:96-97):
“[...] - As pessoas dançavam porque elas gostavam realmente da quadrilha,
desde sua infância. Assim como... toda uma árvore genealógica,
como cultura, não é?”. A experiência social e intersubjetiva
constitui a base da tradição citadina; "[…] partagée
par plusieurs individus”, sedimentada e marcada nas memórias "en
tant qu’entités reconnaissables et mémorables [...] finissant
par s’incorporer dans un stock commun de connaissances". Objetivada
através de um sistema de códigos, ela "[…] peut être
enseignée à toute nouvelle génération ou même
diffusée dans une collectivité totalement différente"
ainda segundo Berger & Luckmann (1986:96-97).
Enquanto tradição
“interiorana” instaurada na "capital" e como um valor simbólico
vinculado a um território, sua transposição no contexto
urbano se apresenta a seus atores como o resultado de uma mecânica
demográfico-cultural; como se a festa houvesse seguido os migrantes
ou sido transportada na sua bagagem:
“[...] Eu, pessoalmente,
eu sou do interior. Eu sou daqui da cidade vizinha de Macaiba. Eu não
sou da capital, e nós viemos de lá com essa tradição.”.
Nesta construção,
dominante à presente, a festa “retrata” o interior.
Nos concursos de quadrilha junina
promovidos pelas televisões locais (uma delas subsidiária
da Rede Globo), essa marca coletiva é salientada durante a publicidade
da transmissão do mesmo, reforçando sua generalidade ao conjunto
do Estado: “[...] -Saia de casa mas não deixe o Rio Grande do Norte”.
A televisão convida seu público a se reconhecer na festa,
no evento (o concurso) e no produto (o programa), como afirmava um dos
seus organizadores:
“[...] -É
por aí que a gente tenta alcançar a emoção
do participante, do telespectador.” (R.O.).
A festa junina realiza a
interface do social e do individual através da mídia, dos
eventos oficiais e daqueles de caráter privado, familiares ou mais
amplos, espontâneos ou preparados, numa relação dual
e reflexiva entre “[...] l’identification et l’auto identification, entre
l’identité objectivement attribuée et subjectivement appropriée.”
(Berger & Luckmann, 1986:181).
Nos
testemunhos, a festa é ligada a um desdobramento: como valor familiar,
pessoal e ao mesmo tempo comum ao território do “interior”. Perguntado
sobre seus costumes festivos, um informante que migrou para Natal com os
pais ainda na infância, nos anos 1950, resume essa reflexividade:
[...] Os meus [costumes
festivos] vieram da família, do interior. Porque a gente ia ao interior
quando nós viemos estudar aqui, nós... no tempo de São
João, durante as férias a gente ia pro interior. Porque lá
a gente brincava, a gente dançava a quadrilha, a gente se vestia
de matuto, assava o milho na fogueira.”.(H.G.)
O “rural” é simbolicamente
recomposto por meio de elementos que sedimentam uma memória coletiva.
Grupo de quadrilha estilizada
no festival da televisão Cabugi, em 2001. (Natal/RN).
Memória
da migração: família, cidade e festa
Dentre os elementos festivos
que parecem compor os emblemas culturais mais marcantes da festa junina
citadina, algumas práticas podem ser consideradas como “rurais”,
como a fogueira e o consumo intensificado do milho verde. Outros, como
a quadrilha e a roupa de matuto foram “aprendidos” na capital, ou através
dela. Foi assim que um filho de casal de migrantes nascido em Natal não
lembrava da quadrilha pelos seus pais: “[...] eles contavam que havia bailes
de forró (...) quadrilhas, se havia eu não sei. Minha mãe
nunca me falou.”
Se esse informante usa sua
memória pessoal para lembrar os fatos da memória coletiva
é porque esta compreende a invenção e a recomposição
de “traços ancestrais” à luz das dinâmicas sociais
e políticas atuantes em cada sociedade (Augé, 2001).
Estes serão socialmente informados e compõem a “filiação
inversa” da qual fala Lenclud (1987) lembrando a
importância das narrativas dos filhos na construção
presente das tradições:
[…] Dans toutes
les sociétés, y compris les nôtres, la tradition est
une “rétro-projection” (...) loin que les pères engendrent
les fils, les pères naissent des fils. Ce n’est pas le passé
qui produit le présent mais le présent qui façonne
son passé. La tradition est un procès de reconnaissance en
paternité”.(p. 118)
Composta de lembranças
e esquecimentos, a tradição se aproxima do presente de seus
atores que a acionam como “[...] une donnée de départ
qu´il faudrait “récupérer” pour atteindre tel
ou tel objectif”, como afirma Hoffmann (2000,
p. 49). Assim ela é informada essencialmente pelos processos
sócio-identitários ativos no momento de sua formulação,
quer dizer; os migrantes recuperam sua tradição festiva (ou
esquecem-na) seguindo motivações, representações
e símbolos capazes de articular sua memória coletiva presente.
Isso explica porque um dos nossos informantes já havia “esquecido”
a festa junina da sua cidade de origem (Tibau), de onde migrou aos 16 anos,
estando há 10 anos instalado em Natal. Quando questionado, afirmou
primeiramente que lá, antigamente, não havia festas juninas:“[...]
-E hoje?” “Nada, quer dizer: hoje tem. (...) todo ano
tem quadrilhas, quatro, cinco grupos.(...) em cada vilarejo o pessoal faz
um grupo”. Depois, tentamos novamente saber do seu passado: “[...]
Tinha isso: o pessoal mais velho inventava as pastoras, esse negócio”.
Ele se referia ao pastoril, então insisti: “-Mais nada?
Nem fogueira nem nada!?.” E finalmente: “- Fogueiras sim, isso tinha.”.
Esquecer
ou negar rituais pré-migratórios não significa que
eles sejam “[...] inauthentiques ou que les acteurs qui la revendiquent
puissent être taxés de mauvaise foi.”. Ao contrário,
isso revela o fato “[...] qu’une identité ethnique [est] toujours
d’une certaine manière créé ou inventée”,
como afirmam Poutignat & Streiff-Fenart (1995:180-181).
Nas narrativas dos migrantes crescidos na capital, fogueiras, matutos,
milho e quadrilhas permanecem “emblemas” festivos facilmente reconhecíveis
e com os quais os migrantes marcarão mais eficazmente sua memória
e identidade:
[...] Eu sou do
tempo em que se fazia roupas pra brincar o São João. Pra
usar, durante a semana. Tinha que ter as roupas, senão não
era festa pra gente. (...) A gente morava na avenida 10 [bairro de Alecrim,
em Natal], que era considerado na época [nos anos 1960] um bairro
distante! Era como um interior hoje. (...) A gente fazia bonecas de sabugos
de milho porque geralmente em casa a gente fazia um panelão de canjica.
E inventava quadrilhas... mil coisas... (I.H.)
Este informante –de aproximadamente
45 anos- apresenta a nostalgia de um tempo passado, quando se reciclavam
objetos cotidianos para brincar e quando seu bairro de infância parecia
“um interior”. Pelas suas referências discursivas ele assume seu
pertencimento a uma tradição citadina fortemente vinculada
a valores identificados ao interior, como a simplicidade dos jogos e a
sociabilidade de vizinhança.
Outra importante referência
da construção da memória festiva citadina festiva
é a divisão social dos papéis festivos. Segundo algumas
narrativas, os grupos familiares se dividem em dois blocos geracionais:
os pais, geralmente migrantes, são especialistas da transmissão
de certas tradições festivas como as fogueiras/ fogos de
artifício e as comidas de milho- tarefas masculinas e femininas,
respectivamente. Nos testemunhos recolhidos
, a distinção geracional também tinha um papel importante
na distribuição das tarefas: os pais apareciam como guardiões
do patrimônio pré-migratório e tudo que mantinha relação
com o território “abandonado”. Alguns depoimentos revelam como essa
transmissão se fazia, no cotidiano:
[...] Os ensaios da quadrilha
eram aqui, na rua (...) meu pai olhava sentado. Ele dava sua opinião
(...) e falava muito sobre o cangaço de Lampião (...). E
minha mãe falava dos vestidos, dos babados (...) porque minha mãe
conheceu esse tempo dos vestidos rodados... (H.H.).
Entre outros, Lampião
e Maria Bonita compõem o “panteão” das personalidades que
servem
de referência à
reconstrução do “interior”. Grupo de quadrilha matuta no
festival Quatrocentão em 2001 (Natal/RN).
Na
capital, além da transmissão dos saberes, os pais só
participavam dos eventos ligados à família- como a cozinha
e a fogueira- enquanto que as crianças e jovens cuidavam daqueles
ligados à sociabilidade com a vizinhança e a socialização
mais ampla dos saberes: “[...] -E teus pais, participavam? –Só preparando
a comida, ajudando a preparar essas comidas (...) e papai fazia a fogueira
e tudo o mais, mas não dançava quadrilha.”. (O.I.).
Na festa urbana, as crianças
mantém a sociabilidade não só entre vizinhos, mas
também entre amigos, namorados e noivos, propiciada pela organização
e execução coletiva das quadrilhas e arraiais .
O testemunho seguinte (de R.O.) reforça inclusive a tese de Roger
Bastide (1997) segundo a qual– apesar da inversão das estações
com relação à Europa- o sucesso de adaptação
da festa ao Brasil deveu-se às práticas rituais ligadas à
fertilidade, garantidas no plano social por meio das alianças matrimoniais
entre famílias próximas:
“[...] -Eu me lembro
porque eu participava. Eu comecei a 10, 12 anos e... é interessante:
minha primeira... como se diz? Minha primeira... a menina que eu escolhi
pra parceira na quadrilha, é minha esposa hoje.”.
Das reminiscências,
surge a lembrança do ambiente festivo:
“[...] -Era um negócio
saudável, sem brigas. E toda a rua ajudava, vinha olhar, se animava.”.
Ao longo do século
XX, em Natal, a festa revelou a procura da “reconstituição”
do ambiente rural ou do interior, por meio dos bosques ou arraiais (Chianca,
2006).
Mesmo nos anos de 1970, quando o trânsito automobilístico
já era intenso na cidade, ninguém hesitava em bloquear o
tráfego a fim de instalar um arraial para dançar quadrilha
na sua rua. Os laços de vizinhança reforçados pela
festa parecem compor uma das mais intensas e agradáveis lembranças
de todos os testemunhos e surgem como uma característica do “interior”
que se recria- ao menos na festa junina- na capital.
Conclusão
: -"Olhe! eu estou aqui"
Se
as quadrilhas e arraiais participam da construção de um universo
de memória, elas são uma fonte de orgulho e auto-afirmação,
porque no contexto migratório estes acontecimentos sociais amplos
fornecem uma referência sociocultural positiva aos migrantes e seus
filhos. Para os jovens (filhos e netos de migrantes sócio-economicamente
desfavorecidos), a festa é uma ocasião de encontro socialmente
valorizada que fornece uma possibilidade suplementar de inserção
social. Ela os conforta e mobiliza a investir voluntária e pessoalmente
na festa:
“[...] -Meu pai
(...) gostava muito da quadrilha. Quando eu voltava pra casa, e era tarde
da noite, ele perguntava logo: “-e aí? Como foi?, vocês ganharam?”
(C.V.).
Outra dançarina lembra
dos esforços da sua mãe, para vesti-la convenientemente:
“[...] -Eram uns
vestidinhos simples, sem brilho, só o pano, mas isso custava caro
na época... Eu me lembro que minha mãe “se enforcava” pra
pagar as roupas de todos, mas ela não queria saber: ela adorava
aquilo.”. (I.T.)
O São João
é um momento ritual em que os migrantes de Natal re-ocupam a capital,
a fim de transformá-la num “grande interior”, o que se observa nos
bairros mais afastados do centro da cidade, onde habitam as populações
menos favorecidas e de migração mais recente:
[...] em cada
rua você vê uma fogueira, você vê o interior na
cidade, você vê as bandeiras... só falta o balão,
mas se vê os fogos...Talvez não aqui, em Petrópolis
[bairro central e de elite sócio-econômica], mas você
vê na zona Norte. Lá você vê ruas e ruas com fogueiras.”
(H.G.) .
Esse mesmo entrevistado define
o que é a “festa do interior”:
“[...] as bandeirinhas, a
fogueira, a palha do coqueiro, a canjica e a pamonha, as adivinhações
de casamento. Eu fui padrinho de fogueira de não sei quantas pessoas
lá na zona Norte. (...) Todo mundo brincando na rua, isso se encontra
ainda.”.
Em Natal é nesse tempo
idealizado a partir do presente que os migrantes encontram suas referências,
reforçando
seus laços identitários citadinos, já que no cotidiano
a identidade de interiorano não é fácil de assumir.
Divididos entre o orgulho de pertencer a um universo rural valorizado na
festa e na memória familiar, em contrapartida à construção
ideológica hegemônica que eles percebem, os interioranos se
incomodam com a representação dominante e pejorativa do matuto.
Esta
ambigüidade se revela nos discursos dos participantes da festa de
Natal: por um lado eles afirmam uma memória coletiva estreitamente
vinculada ao interior e, por outro lado, insistem no reforço da
emancipação- suave, mas progressiva- com relação
a esse passado, pelo menos no contexto cotidiano. Nesta démarche
eles adotam uma atitude dividida entre a compaixão e a admiração
sincera daqueles que permaneceram no interior, e que para eles seriam “bons
e ingênuos”:
[...] Nessa quadrilha
que eu vi (…) a ingenuidade deles, os gestos, (…) o jeito daquelas meninas
dançar (...) bem inocente (...) aquela coisa carente, aquela coisa
gostosa. (…). Quer dizer, era como eu, como eu me vejo. (…) Quer dizer
eu ainda tenho dentro de mim essa inocência toda, sabe? Eu faço
por fazer, por gostar. E do interior eu vejo isso.” (H.H.)
As representações
correntes opõem, assim, territórios aos quais se associam
qualidades morais de seus habitantes: os do interior sendo “mais puros”
que os da capital, mas ocupando, na realidade, um lugar menos importante
na hierarquia citadina. Com tais representações sobre o interiorano,
os citadinos de origem migrante revelam quanto a ideologia dominante tem
sucesso na identificação do personagem matuto com os migrantes
pobres. Percebe-se como as festas juninas estão longe de provocar
uma transformação radical na estrutura social: depois da
festa, ninguém deseja assumir tal caricatura. A festa só
realiza uma reinvenção provisória de sua hierarquia
cotidiana na medida em que ela coloca o matuto no centro da vida social
e, mesmo assim, para lembrar que ele é o bouffon da capital.
Diferentemente do Carnaval,
em que o mecanismo fundamental está fundado na inversão dos
papéis habituais do tempo ordinário recriando o mundo “ao
contrário”, podemos dizer que as festas juninas não invertem
nem recriam a ordem. Além das imagens do “agricultor” e do “homem
rural”, que são especialmente reificadas durante a festa, sua organização
permanece limitada, regulamentada e controlada pelo statu quo da cidade,
sobretudo pela Prefeitura, vereadores, mídia e outras “autoridades
festivas”. O São João provoca no entanto “[...] um déplacement
complet d’éléments d’un domaine à un autre d’où,
normalement, ils sont exclus.” (Da Matta, 1983,
p. 81).
Assim, durante o tempo da
festa as “imagens rurais e agrícolas”, ordinariamente postas
de lado, aproximam-se da capital para reintegrar as diferenças cotidianas-
de origem e posição social- sob a máscara do matuto,
personagem habitualmente negado, mas que consolida a coesão social
ordinária no contexto festivo. Essa “comunhão social” se
reproduz nas roupas e na valorização, provisória e
reforçada, dos valores e práticas de um interior rejeitado
em tempo ordinário.Todavia, ela esboça uma verdadeira inversão
quando os citadinos pobres dos bairros periféricos, conjuntos e
favelas, cotidianamente mal considerados e pouco honrados pela sociedade,
ocupam o centro da cena, propondo seus projetos estéticos e coletivos
nos concursos de quadrilhas. O matuto se apresenta, então, como
um personagem antepassado, um herói mítico comum a todos,
representando o passado comum da maioria dos habitantes da capital, não
mais no registro estigmatizado atribuído cotidianamente, mas como
símbolo de uma memória valorizante e positiva. Essa é,
ao nosso ver, a perspectiva da quadrilha estilizada; uma nova interpretação
da dança junina “tradicional” (Chianca, 2007).
Vestimenta e postura corporal
de uma dançarina de quadrilha estilizada.
Festival da televisão
Cabugi, em 2001 (Natal/RN).
O alcance dessa afirmação
identitária se revela na fala de um jurado de concurso de quadrilhas,
E.S. que expõe - a título conclusivo para os fins desse artigo-
como as festas juninas se transformam- num campo de expressão política
por meio das identidades então acionadas:
[...] As [quadrilhas]
da Zona Norte elas dançam (…) com mais vontade, com mais garra.
Eu acho que por serem mais sofridos eu creio que seja isso : eles dão
mais o sangue, dão mais o suor. (…) As de lá tem mais garra,
(…) eles batem o pé no chão com mais garra do que as quadrilhas
daqui [do lado de cá da cidade]. O povo daqui dança, mas
é uma dança assim mesmo; só pra constar. (…) As daqui
não tem aquele fervor, aquele ânimo que as quadrilhas de lá
da zona Norte.(…) Deixe-me pensar aqui, por que que elas tem tanta garra…
Eu acho que é uma forma de elas se mostrarem à sociedade
porque elas são, na maioria das vezes são excluídos,
é um povo excluído. E um povo que não tem voz,
é um povo que não tem vez. (…) então eu acho que é
isso que (…) motiva eles terem essa garra, essa vontade toda, de estar
na televisão, de: -olhe! eu estou aqui! eu estou aqui!. Porque eles
não são ouvidos, eles não têm vez, eles são
pessoas reprimidas. Então eu acho que é uma forma de se manifestar,
de gritar, de dizer: -olhe! eu estou aqui .. É isso.
Notas
Realizada
em 2001 na cidade de Natal (RN) como pesquisa de campo para a tese de doutorado
defendida em 2004 sobre quadrilhas juninas, migração e festa.
Onde
são explicados os princípios fundamentais da higiene cotidiana
quanto ao perigo dos microorganismos para a saúde geral das pessoas.
Segundo o site oficial de Monteiro Lobato, a tiragem desse folheto atingiu
o recorde de “100 milhões de exemplares no centenário do
escritor [sendo essa publicação] considerada a peça
publicitária de maior sucesso na historia da propaganda brasileira’.
(www.lobato.com.br
capturado
em 25/04/2004).
Ao
todo entrevistamos 31 adultos de 17 a 65 anos de idade, dos quais 29 têm
origem migrante (pais ou ele mesmos) com perfil profissional variado como
comerciários, intelectuais, empregados na construção
civil, hotelaria, mídia, indústria, funcionários públicos,
vereadores, estudantes.
Os
arraiais são os espaços de excelência da festa junina
urbana. Para conhecer melhor esses territórios festivos, ver Chianca,
2006, p.104-118.
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