Morto em combate contra
os impérios da Espanha e Portugal, em 7 de fevereiro de 1756, Sepé
Tiaraju é lembrado por lutadores e lutadoras do povo brasileiro
que, 250 anos depois, ainda precisam gritar: “Esta terra tem dono!”
(Contracapa do livro “Sepé
Tiaraju 250 anos depois”, 2005)
A
cidade de São Gabriel, localizada na região centro-oeste
do estado do Rio Grande do Sul, entre os dias 4 e 7 de fevereiro de 2006,
foi palco de uma série de comemorações com o objetivo
de homenagear Sepé Tiaraju. Este texto pretende interpretar estas
atividades, enfocando as relações estabelecidas entre o passado
e o presente, no Rio Grande do Sul, a partir da análise do mito
de Sepé Tiaraju.
Foto:Ceres Brum
As
atividades de homenagem aos 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, coordenadas
pelo Comitê do ano de Sepé Tiaraju, iniciaram em 22 de junho
de 2005, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Nesta ocasião,
foi apresentado um projeto de lei e vários estudos a respeito de
Sepé Tiaraju. Neste sentido, foram promovidos seminários
e a elaboração do livro Sepé Tiaraju: 250 anos
depois, organizado pelo próprio comitê, reunindo artigos e
entrevistas sobre as Missões Jesuíticas e a figura histórica,
literária e política de Sepé Tiaraju.
É também neste
contexto das comemorações que se situa o projeto de lei 5.516,
de 2/12/2005, da Câmara das Deputados, que inscreve o nome de Sepé
Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria e a sanção
da lei estadual 12.366, de autoria do Frei Sérgio Görgen, de
3/11/2005, pelo governador Germano Rigotto, que institui o dia 7 de fevereiro
como data oficial do Rio Grande do Sul e Sepé Tiaraju como herói
guarani missioneiro rio-grandense.
A estas atividades se seguiram
as comemorações ocorridas entre os dias 4 e 7 de fevereiro,
em São Gabriel, ocasião em que o culto à memória
de Sepé Tiaraju alcançou proporções notáveis.
À história das Missões, encerrada no século
XVIII, se somou um novo capítulo – uma história da história
– a ressurgência do mito de Sepé, vivido por visitantes, estudiosos
das Missões, por movimentos sociais, autoridades, políticos,
comunidades indígenas, produtores rurais e os cidadãos locais.
Preparativos
Para
a realização das comemorações, em São
Gabriel, à atuação dos membros do Comitê se
somou também a de uma comissão local, nomeada pelo prefeito
municipal e composta por membros da administração municipal,
do legislativo local, do Movimento Tradicionalista Gaúcho, do exército,
de um folclorista e de um historiador, objetivando a operacionalização
do evento, com a recepção de autoridades e visitantes.
As semanas que antecederam
às comemorações na cidade formam pontuadas de muitos
preparativos e reuniões, e da construção de uma cruz
missioneira e de um oratório guarani, na Sanga da Bica (local em
que Sepé Tiaraju foi morto há 250 anos).
Ao clima de expectativa se
somou o de desinformação sobre a realização
das inúmeras atividades programadas. A população de
São Gabriel apenas possuía vagas referências sobre
as atividades que ocorreriam. Em nenhum momento a imprensa local publicou
a programação oficial do evento, que esteve disponível
apenas no local do acampamento.
Neste clima de desinformação,
a Farsul (Federação dos Agricultores do Rio Grande do Sul),
no Jornal Rural do mês de janeiro, manifestou-se encarando com um
certo exagero as manifestações previstas para as comemorações
alusivas a Sepé e o presidente do Sindicato Rural de São
Gabriel, Tarso Teixeira, enviou por e-mail o texto que transcrevo a seguir:
SEPÉ TIARAJU:
CHE GUEVARA DE COCAR?
O mês fevereiro
de 2006 reserva para a cidade de São Gabriel, no coração
da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, um acontecimento que está
sendo anunciado com grande pompa e circunstância em toda a mídia
estadual: uma programação especial comemorativa aos 250 anos
da morte do guerreiro indígena Sepé Tiaraju, cacique guarani
que lutou ao lado dos jesuítas espanhóis pela preservação
das terras dos Sete Povos das Missões nas mãos dos guaranis,
contra os efeitos do Tratado de Madrid de 1750, que deu a posse dos Sete
Povos aos portugueses em troca da Colônia de Sacramento. O guerreiro
indígena lutou contra as tropas de Portugal sob o incentivo da Companhia
de Jesus, e terminou morto em combate no dia 07 de fevereiro de 1756, junto
às cabeceiras da Sanga da Bica. As últimas notícias
dão conta de que a comissão organizadora prevê uma
presença de mais de 20mil visitantes, atraídos pelas comemorações
que tem apoio do Governo Estadual e o respaldo de personalidades do mundo
intelectual gaúcho. Justamente por conta de todo este marketing,
algumas reflexões se fazem oportunas.
Como sepeense de
nascimento, convivo desde muito cedo com a aura que sempre envolveu a figura
de Sepé Tiaraju. É sabido que a biografia do líder
guarani é cercada de poucos dados históricos e muitos mitos,
o que certamente contribui bastante para a fantasia e alguma deformação,
o que sempre se torna um desserviço ao verdadeiro interesse histórico.
Por força do mito que envolve o personagem, o nome de Sepé
Tiaraju tem sido apresentado por certa corrente de pesquisadores como um
revolucionário, uma espécie de precursor do socialismo nas
coxilhas gaúchas. Algo assim como um Che Guevara de cocar e lança,
imagem que se cristalizou no imaginário de muitos grupos que afirmam
se inspirar em seu exemplo para praticar ou apoiar invasões de terra
e outras mobilizações raivosas contra produtores rurais.
Estas organizações, que há pouco mais de três
anos estiveram em São Gabriel com uma postura agressiva e foram
repudiados pela população, estão agora entre as principais
entidades que organizam os festejos. Quem sabe, tendo fracassado em sua
primeira tentativa, busquem agora, com uma nova roupagem, propagar seus
valores antidemocráticos valendo-se da figuro do guerreiro guarani.
É bom frisar que organizações verdadeiramente emprenhadas
na cultura, como o Movimento Tradicionalista Gaúcho, retiraram-se
da Comissão Organizadora, por sentir no ar um forte cheiro de propaganda
ideológica e ranço revanchista.
É curioso
o interesse repentino destes senhores por história, querendo valer-se
de Sepé Tiaraju como um ícone do marxismo, da mesma forma
que Hugo Chavez utiliza a figura de Simon Bolívar para justificar
seus desmandos autoritários na Venezuela. Talvez porque os radicais
da ultra-esquerda sempre se considerem donos da história,
a “ vanguarda do proletariado” que conduziria a um socialismo inevitável.
Só que a mesma história já soterrou seus valores na
lata do lixo. Mais curioso ainda querer tratar de história gaúcha,
justamente estes grupos que abominam os valores do tradicionalismo
gaúcho, fortemente ligado ao campo e à imensidão das
coxilhas.
É
bom que saibam de antemão que não pegarão o povo gabrielense
desapercebido. A terra de São Gabriel, que sempre foi chamada de
“ Atenas Riograndense” pelo brilho intelectual de sua gente, tem um povo
que conhece a história, e que não permitirá abusos
em nome de uma ideologia autoritária, ultrapassada e que rejeita
os valores do gaúcho.(Teixeira: 2006
a)
O texto atribui uma conotação
negativa e de animosidade à realização das homenagens
a Sepé Tiaraju em São Gabriel. Opõe-se frontalmente
a elas, ao denunciá-las por seu caráter manipulatório
e ideológico. Segundo o autor, as apropriações efetuadas
do mito de Sepé possuem um caráter revanchista e se relacionam
à esquerda engajada, na deturpação do personagem histórico
e na sua transformação em herói revolucionário,
a ser utilizado em prováveis invasões de terra. Além
disto, o texto, ao alertar a população local sobre os interesses
envolvidos na realização dos festejos, enfatiza o caráter
mitológico de Sepé Tiaraju, remetendo a um “desserviço
ao verdadeiro interesse histórico”, efetuado pela existência
do mito e sua utilização.
Nos dias que antecederam
às comemorações, Tarso Teixeira enviou ainda o artigo
Sepé
Tiaraju e a máscara do frei, onde explicita sua revolta como
ruralista às comemorações previstas e as relaciona
explicitamente aos conflitos de terra ocorridos em São Gabriel entre
o MST e o ruralistas, no período de 2001 e 2003:
De mais a mais,
já se sabe que estes “festejos” pretendem apresentar Sepé
como uma espécie de Che Guevara de cocar. Nesta hora, é inspirador
lembrar o movimento da comunidade gabrielense contra a presença
do MST, em 2001, que foi denominado “Esta Terra tem Dono”. Naquela ocasião,
o povo gabrielense fez justiça à história de Sepé
como um guerreiro que lutou contra a desapropriação de suas
terras pelos colonizadores, portanto, A FAVOR DO DIREITO À PROPRIEDADE.
No entanto, alguns intelectuais que se julgam donos da história,
como Alcy Cheuiche, Antonio Cechin e tantos outros que agora colaboram
com estes festejos, insistem em pintá-lo como um pré-revolucionário
socialista, o que não tem amparo algum na veracidade dos fatos,
somente para justificar a pretensão de grupos que, ao arrepio da
lei, invadem propriedades e tentam desfigurar a formação
sócio-cultural de nossa região, ligada fortemente ao agronegócio,
que estes senhores insistem em combater. (Teixeira:
2006, p..2)
Nesta passagem, a revolta
de Tarso Teixeira é diretamente dirigida ao MST em relação
aos conflitos de terra ocorridos em São Gabriel e aos intelectuais
que produzem uma interpretação comunitária da experiência
missioneira ocorrida durante os séculos XVII e XVIII, a qual se
vincula Sepé Tiaraju. É interessante assinalar que,
nesta produção de sentido, Sepé Tiaraju é percebido
como símbolo protetor da propriedade privada da terra, um herói
que lutou contra a desapropriação, mas sem o caráter
revolucionário que caracteriza sua figura, por exemplo, nas interpretações
de Cheuiche e Cecchin. Nelas o brado de Sepé de “Esta terra tem
dono” significa a relação entre o presente e o passado de
uma herança de exclusão social no Rio Grande, a que se opôs
Sepé Tiaraju a mais de 250 anos e que continua atual, capaz de simbolizar
a luta dos movimentos sociais pela terra.Mas, apesar da franca oposição
por parte dos produtores rurais da cidade à presença do MST
e demais movimentos sociais nas comemorações previstas, São
Gabriel viveu um clima de expectativa e ebulição em torno
de Sepé. O renomado historiador local Osório Santana Figueiredo,
(que se define como autodidata), em 2005 escreveu o livro Vida e morte
de Sepé Tiaraju. Um texto “comemorativo aos 250 anos da
sua morte”, publicado com o apoio da Secretaria Municipal de Educação
de São Gabriel, para ser distribuído à população.
Segundo o autor, o texto
se constitui em um ensaio fruto de 50 anos de estudos e pesquisas sobre
a vida e morte de Sepé Tiaraju (2005:7) em
que, além de sua interpretação, baseada em fontes
documentais e bibliográficas, o autor também apresenta, ao
longo do texto, uma série de lendas sobre Sepé:
Por fim, chegamos a convicção
de que havia uma confusão entre as personalidades bem distintas
do capitão Tiaraju, da história dos Sete Povos, e o Sepé
da lenda e do mito. História é fato comprovado, e lenda é
o episódio fantástico, criado pela imaginação
inventiva dos povos. (Figueiredo, 2005, p.46).
A passagem efetuada pelo
autor, entre a narrativa verdadeira da história e a visão
fantasiosa da lenda, se dá através do texto “Desfazendo Equívocos”.
Este desmente que a frase “Esta terra tem dono” tenha sido proferida por
Sepé Tiaraju e a atribui, baseado nos estudos dos folcloristas Carlos
Galvão e Antônio Augusto Fagundes, ao cacique Guairacá,
que defendeu, com seus guerreiros aborígenes, a Província
Espanhola do Guairá, “200 anos antes de Sepé” (2005,
p. 46) .
Ante as posturas de Tarso
Teixeira e de Osório Santana Figueiredo, sobre o mito de Sepé
Tiaraju, é oportuno retomar a crítica de Pierre Bourdieu,
no texto Le mort saisit le vif: as relações entre
a história reificada e a história incorporada (1989,
p. 78), a fim de repensar as relações estabelecidas pelo
historiador na interpretação do passado.
Segundo Bourdieu, a narrativa
historiográfica é concebida e afirmada pelos historiadores
e reconhecida legitimamente como a representação do passado
verídico por excelência (por ser produto da história
como ciência balizada, e que possui o monopólio da interpretação
do que realmente ocorreu). Ele critica a defesa da neutralidade científica
e do ocultamento da também vivência de um mito, por parte
dos historiadores. Um mito que se estabelece nas atividades de interpretação
do passado, com a utilização das fontes. Uma atividade que
ocorre no presente, como uma busca da gênese, das origens, sendo
a geradora do poder da verdadeira história a ser contada. Uma história
que incute a busca das responsabilidades sociais, do que realmente ocorreu.
Ainda nesta linha interpretativa,
uma dupla observação: a vivência do mito é relegada
ao plano do irreal e do inverossímil por uma parcela de historiadores
que se reconhece como produtor da verdade científica e não
de mais uma versão do passado, a par de outras narrativas. Assim,
como eficácia simbólica, o discurso da isenção
do historiador se transforma em imaginário social, sendo vivido
como o mito da neutralidade científica.
O poder da ciência
é advogado pelos grupos que o incorporam como divisor de águas
e juízo de valor. Estão preocupados com a história
verdadeira. O não reconhecimento, de seu também interesse,
de interpretar o passado, se constitui na própria forma escolhida
para dele se aproximar, miticamente.
Em um momento de comemoração,
de re-lembrar e re-viver o passado, há uma nítida aproximação
entre a história e o mito, na medida em que a referência à
história (em termos de homenagens a um herói desaparecido
materialmente há 250 anos) se dá como tomada de posição
acerca deste passado histórico e se traduz em afirmações
de identidades presentes.
A história do mito
de Sepé Tiaraju
O
antropólogo Marc Augé (1994) discorre
sobre a mitificação da história situando-a como produção
simbólica dos grupos que a vivenciam. Essa leitura do passado, através
da construção da história mitificada como narrativa
inter-relacionada ao alargamento da capacidade de contar e viver a história,
conduz à reflexão sobre o processo de produção
simbólica como objeto da Antropologia e seus desdobramentos com
relação à manipulação da memória
a partir da construção de sentido ao narrar o passado, produzindo
identidades e pertencimentos.
Foto:Ceres Brum
A história mítica
referida por Augé corresponde às reflexões de Mircea
Eliade (1963, p. 27) de que
a história narrada pelo mito constitui um conhecimento de ordem
esotérica não somente porque é secreta e se transmite
ao longo de uma iniciação, mas também porque este
conhecimento é acompanhado de uma força mágico religiosa.
Assim, o mito pode ser pensado como linguagem para pensar o presente e
decifrá-lo na força mágica do que seria o fim dos
tempos da história como “única” detentora do poder de recontar
o passado e o re-figurar a seus fins.
A construção
da falsa oposição conceitual mito/logos é ainda estudada
por Gian Paolo Caprettini (1987, p. 102), quando
se refere aos processos para a realização de investimentos
sobre a verdade e a definição dos sentidos dessa contraposição
conceitual. O poder do mito, para ele, se relaciona ao sentido conferido
à história nas relações que estabelece via
narração com a memória dos eventos históricos
e com a verdade, não a partir da correspondência com o real,
mas pela ação prescritiva da sanção social.
Logo, o que define o mito
frente a outros gêneros narrativos não são apenas as
particularidades de seu conteúdo, ou a estrutura das histórias
que conta, mas as marcas aplicadas no seu exterior referentes as suas variações
e modalidades, onde a falsidade assume relevância de definição,
num modelo discursivo que tende ao ocultamento e a mistificação
do real. (Caprettini 1985, p. 95).
Pensar sobre as homenagens
a Sepé Tiaraju remete às relações que nós
gaúchos estabelecemos com o passado histórico no Rio Grande
do Sul e a diversidade de formas com que este passado alimenta o nosso
imaginário presente, quando o vivemos como mito.
Para entender o processo
de geração do mito devemos nos reportar ao século
XVIII, com a desestruturação dos Sete Povos das Missões
em virtude da Guerra Guaranitica (1754-1756), ocasião em que os
guaranis missioneiros lutaram contra os exércitos unidos das duas
coroas, se opondo à troca acordada entre as mesmas no Tratado de
Madri (1750) da Colônia do Santíssimo Sacramento, pertencente
a Portugal, pelos Sete Povos das Missões, possessão da Espanha.
É sobre esta disputa,
que culminou com a troca de territórios entre as duas coroas, determinando
o processo de integração das Missões às possessões
lusas, e, posteriormente o Rio Grande do Sul ao Brasil, que a historiografia,
a literatura regionalista e a memória popular destacam a atuação
de Sepé Tiaraju.
Sepé foi o comandante
das tropas missioneiras, morto em 07/02/1756, nas escaramuças que
antecederam à Batalha de Caiboaté (10/02/1756). Esta culminou
com o massacre de cerca de 1500 índios e a derrota dos guaranis
missioneiros frente ao exército luso-hispânico. A Sepé
Tiaraju se atribui a expressão “Esta terra tem dono”, referência
atávica conhecida como o grito de Sepé, freqüentemente
percebida em representações que remetem à bravura
dos gaúchos, que se representam como seus descendentes.
As menções
a Sepé Tiaraju iniciaram já no século XVIII, com o
poema Uraguai (1769) de Basílio da Gama. Com a literatura
regionalista de João Simões Lopes Neto, através do
poema O Lunar de Sepé (1913), o mito de Sepé Tiaraju
se popularizou e, ainda hoje, pode ser percebido através da produção
de representações tendentes a homenageá-lo.
As constantes referências
a Sepé Tiaraju, por sua atuação na Guerra Guaranítica,
põem em relevo o seu valor simbólico na construção
das identidades regionais sulinas. Uma vez que, por um lado, o gauchismo
integra sua figura aos seus discursos designando-o como “primeiro caudilho
rio-grandense”, “fundador de uma genealogia de bravos” e, por outro lado,
existem disputas pelo poder de nomeá-lo como “bandeira” de transformações
sociais no estado.
Há inúmeros
CTGs (Centros de Tradições Gaúchas) e Piquetes, que
se referem em seus nomes a Sepé Tiaraju, bem como poesias e músicas
regionalistas, que narram sua história, e ainda há monumentos
que representam sua figura, narrativas tradicionais que o santificam e
o espetáculo de Som e Luz, encenado em São Miguel, que o
apresenta como herói, além de sua menção pelo
pacote turístico Caminho das Missões, que concebe Sepé
Tiaraju como o Guia dos peregrinos.
Além destas representações,
há duas polêmicas
atuais marcantes na história do mito Sepé. Verdadeiras disputas
de representações em torno de sua figura mitológica.
Mesmo sendo considerado como
um santo popular no Rio Grande do Sul
há a proposta de sua canonização por uma parte da
Igreja Católica, inspirada na Teologia da Libertação.
O processo de canonização é coordenado pelo irmão
marista Antônio Cecchin (também presidente do Comitê
do ano de Sepé Tiaraju). Porém, a canonização
de Sepé Tiaraju não é uma proposta unânime dentro
da Igreja Católica, uma vez que a própria Companhia de Jesus
opõe certos óbices ao processo, tais como algumas máculas
na biografia de Sepé Tiaraju apontadas pelo jesuíta Antônio
Rabuske (Jornal Zero Hora 21/01/2003).
A segunda polêmica
em torno de Sepé se relaciona a sua referência nos conflitos
de terra na região de São Gabriel, em 2003, onde, conforme
Görgen, (2004: 100) Sepé foi mencionado
pelo Movimento dos Sem Terra (MST), que batizou sua marcha de Sepé
Tiaraju. Ao longo da marcha, seu estandarte foi carregado como símbolo
da luta pela terra e Sepé passa a ser considerado como protetor
dos excluídos. Por seu turno, os ruralistas da região de
São Gabriel batizaram seu movimento de oposição aos
sem terra com o slogan “alerta: esta terra tem dono”, conforme já
referido.
Mas, apesar das disputas
e da enorme polêmica que paira sobre as apropriações
da sua figura e utilização pelos mais diversos grupos no
Rio Grande do Sul, antecedendo as comemorações relativas
aos 250 anos de sua morte, Sepé Tiaraju foi oficialmente transformado
em herói gaúcho e brasileiro para ser exaltado por todos,
como símbolo nativo, integrando o índio, por suas virtudes
brancas, ao imaginário regional e nacional.
Neste sentido, as representações,
aqui apresentadas, podem ser referidas enquanto necessidade de perpetuar
a memória de sua atuação e se relaciona a tomadas
de posição sobre o momento que Sepé protagonizou,
através das relações estabelecida com seu mito.
Sepé Tiaraju, 250
anos depois
As
reflexões anteriores demonstram o ambiente da comemoração
que se seguiria em São Gabriel. Um cenário pontuado por disputas
simbólicas entre a história oficial
e as memórias, ressignificadas nas narrativas dos atores sociais
envolvidos nas comemorações.
Paul
Ricoeur: (2000, p.747) analisa esta disputa
entre a memória e a história, referindo-se ao jogo entre
a fidelidade e a veracidade da representação do passado.
Neste jogo, ainda em aberto, apesar do poder de cientificidade da história,
há o reconhecimento da força da memória na construção
das identidades que atingem o leitor e, neste, o cidadão.
No momento das comemorações
em São Gabriel, cabe referir que as múltiplas memórias
com relação às Missões e a Sepé Tiaraju
possuem sua própria história. Esta confronta identidades
presentes e identidades passadas, em transformação, como
no caso do mito de Sepé Tiaraju, em suas diferentes vivificações.
As atividades de comemoração
iniciaram no dia 4/02/2006 com a montagem de um acampamento no Parque Farroupilha
de São Gabriel formado por vários movimentos sociais localizado
a 5 km da cidade e que contou com a presença de cerca de 5000 pessoas.
Durante quatro dias os Quilombolas, o Acampamento da Juventude, as entidades
que compõem a Via Campesina, as Comunidades Indígenas do
sul e do centro do Brasil, da Argentina e do Paraguai, além de um
Piquete de cavaleiros do MTG, permaneceram reunidos. Debateram em fóruns
plurais e heterogêneos a vida de Sepé Tiaraju, a experiência
missioneira e seu legado presente, em relação as suas lutas
sociais e seus interesses.
À noite, num palco
montado na Sanga da Bica (local onde tombou Sepé 250 anos atrás,
em 7/02/1756), se realizaram os shows musicais e encenações
teatrais. Nelas o mito de Sepé foi vivido duplamente, significando,
em suas múltiplas performances, por um lado, a visão dos
produtores dos espetáculos e, por outro, a recepção
do público presente, nas representações de Sepé
Tiaraju, com a produção de uma consciência histórica
a ser internalizada e vivida magicamente.
Majoritariamente, a vivência
do mito se deu com relação à frase de Sepé
Tiaraju; “Esta terra tem dono”, significada de diversas formas no evento.
O impresso com a programação se intitulava “Alto lá,
esta terra tem dono”
Foto:Ceres Brum
A
imprensa gabrielense transmitiu do acampamento, no domingo pela manhã,
um programa ao vivo, em que o repórter insistia em representar Sepé
Tiaraju como um cacique proprietário das terras missioneiras da
região de São Gabriel, ao entrevistar intelectuais e as lideranças
políticas presentes.
No mesmo programa radiofônico
se apresentaram os corais de crianças guaranis vestidas com tipoys
(trajes missioneiros do século XVIII), buscando inequívocas
relações com o passado. Trovadores de CTGs (Centros de Tradições
Gaúchas) locais elaboravam cuidadosos versos para homenagear Sepé
Tiaraju. Cuidado se justificava, porque o espaço das trovas e o
público diferia do seu palco e do vocabulário usual de glorificação
dos latifúndios.
Apesar da organização
conjunta das atividades por parte da Comissão Organizadora (Comitê
e Comissão Local) era perceptível uma certa divisão
de espaços e papéis. O acampamento correspondia ao espaço
majoritário dos movimentos sociais, de que a população
de São Gabriel participava como visitante, para comprar artesanato
e ver os índios presentes.
Estes “exóticos”,
ao entrarem nas dependências de um dos supermercados da cidade, causavam
temor aos consumidores e “aos caixas”, que interromperam momentaneamente
suas atividades. Por outro lado, à noite, durante os shows, o público
do acampamento efetuava o movimento inverso e se misturava à gente
de São Gabriel, como espectadores, no palco da Sanga da Bica, sob
a cruz missioneira, para assistir as apresentações dos artistas
que homenageavam Sepé.
No dia 4 de fevereiro, a
abertura do evento ocorreu com a encenação, em campo aberto,
de um teatro histórico sobre a vida de Sepé Tiaraju – Sepé
Tiaraju, o centauro. Neste épico, o herói foi apresentado
através de suas virtudes e valores cristãos de defesa da
honra, da liberdade e do apego à terra. Sua luta é mostrada
em relação à “civilização” das Missões,
sendo esta percebida como uma experiência comunitária e Sepé
Tiaraju como um líder possuidor de dotes sobrenaturais.
Nesta performance, as identidades
do índio guarani Sepé Tiaraju são invisibilizadas
(Souza 1998, p. 20), em relação ao líder
heróico missioneiro apresentado (um híbrido de identidades
liminares). Conforme menciona Thiesse (2000, p.16)
“todo o processo de formação identitária consistiu
em determinar o patrimônio de cada nação e difundir
seu culto”, cuja primeira etapa corresponderia à determinação
da herança dos antepassados, descobrindo quais deles seriam ascendentes
condizentes. Com Sepé, a formatação do herói
obedece a esta lógica e a pedagogia do mito, neste momento de comemoração,
está em viver “a história de sua história” (Thiesse,
1997,
p.74) através da recepção do teatro histórico
e da internalização de suas características exaltadas.
Porém, no caso de
Sepé Tiaraju, como já referi, a exaltação é
plural e se encontra em embate. No dia 6 de fevereiro de 2006, ocorreu
um grande ato de manifestação popular, na Coxilha de Caiboaté,
que dista 18 km do centro de São Gabriel e faz parte do distrito
de Tiaraju. No local, dois monumentos marcam a ocorrência da Batalha,
em que os guaranis missioneiros foram mortos. A atividade, apesar de uma
certa organização prévia, foi caracterizada pela espontaneidade
da ocupação do espaço, pelos índios e, demais
presentes, conforme descrevi no meu Diário de Campo:
- Descemos dos
ônibus e nos dirigimos à coxilha. Lá avistamos um monumento
(o marco de limites português), os índios iniciaram suas homenagens
a Sepé e aos mártires guaranis, cantando e dançando,
numa mística que se dirigiu, apenas num segundo momento, à
cruz de concreto que demarca o massacre dos guaranis na Batalha de Caiboaté.
Apesar de se escutar “este é o monumento do colonizador, vamos até
a cruz”, por parte de um dos lideres Quilombolas, os índios continuaram
a cantar e dançar em torno do marco.Nada importava, neste momento
de êxtase coletivo, parecia que o tempo havia parado. Tentávamos
retornar ao tempo de Sepé, mesmo antes das falas e da distribuição
de pequenos sacos de algodão para carregarmos até nossas
casas a terra manchada para sempre do sangue missioneiro,. marcando nossa
visita a Caiboaté.Sentíamos o passado tomar conta daquele
presente em busca de retorno e de arrependimento, pela terra que pisávamos
e pela chuva torrencial que desabou, após uma fala emocionada do
cacique guarani (em guarani), sem que houvesse tempo para a benção
cristã programada.A cerimônia se extinguiu em instantes.
Todos
correram para os ônibus encharcados, em direção
ao acampamento para o almoço. Frei Sérgio Görgen me
confidenciou, emocionado, no nosso retorno: “acho que esta é a primeira
vez que aqui se fala guarani, após a batalha, nestes 250 anos”.
(Diário de Campo 1. 6/02/2006).
Inegavelmente, aquele havia
sido o grande momento das comemorações ,
pelo fato do estar lá no local da Batalha de Caiboaté, e,
espacialmente, poder retornar ao passado, em uma data marcante, vivendo
de forma plural o mito de Sepé Tiaraju. E, igualmente, porque aquele
momento de comemoração extrapolou a história do mito
de Sepé Tiaraju, atingindo, em termos de produção
de uma consciência histórica mais abrangente, o mito Missão
como a Terra da Promissão.
Foto:Ceres Brum
Este mito, já presente
nos escritos jesuíticos do Pe. Antônio Sepp, no século
XVIII, é analisado por Brum (2005, p. 342) em
narrativas que exaltam as Missões como uma civilização
perfeita e igualitária, pontuada pelas benesses cristãs que
os jesuítas introduziram, oportunizando aos guaranis um momento
feliz na sua história, uma vez que a Missão, como terra da
Promissão é também associada a um momento de encontro
da terra sem males do povo guarani.
Na Coxilha de Caiboaté,
o passado interpretado do massacre dos índios guaranis foi revivido
a partir de um processo de identificação com o momento histórico
atual, em que os povos indígenas, quilombolas e Via Campesina lutam
pela terra.Estes processos de identificação, para além
da construção social das identidades, a que se refere Thiesse
(2000), quando analisa a formatação
do herói, implicou correlatamente, por parte destes comemoradores,
pertencimentos acionados às Missões como uma experiência
comunitária, suscitada por seus sentimentos, nesta busca de retorno
ao passado.
Foto:Ceres Brum
Tentando concluir
Este
feixe de narrativas em torno de Sepé Tiaraju e do passado das Missões,
percebidas através de representações com construções
de sentidos que se contrapõem, em um evento de proporções
gigantescas para o município de São Gabriel, mostra uma festa
de identidades plurais, conforme Oliven (1992, p. 106).
Estas identidades dizem respeito a fatos recentes e remotos, não
só em relação a Sepé Tiaraju, mas à
própria história de lutas e convicções envolvidas
através da menção de Sepé, ao viverem seu mito.
E, neste sentido, os debates e palestras, os cantos indígenas, a
mística dos movimentos camponeses, se constituem em narrativas relativas
à elaboração da memória coletiva.A memória
coletiva, segundo Todorov (2002, p. 155), corresponde
à produção de um discurso no espaço público,
refletindo uma imagem que um grupo ou uma sociedade deseja conferir a si
mesma, a partir das menções à figura de Sepé
Tiaraju. Para Ricoeur:
Estes eventos que
a gente diz em inglês “epoch making” tiram sua significação
específica de seu poder de fundar ou reforçar a consciência
de identidade da comunidade considerada sua identidade narrativa, assim
como a de seus membros. Estes eventos engendram sentimentos de uma identidade
ética considerável, seja no registro da comemoração
fervente, seja naquele da execração, da indignação,
da deploração, ver do apelo ao perdão.. (Ricoeur:1985,
p.339).Eu quero dizer que o horror como a admiração exerce
na nossa consciência histórica uma função específica
de individuação. ( p.340) .
O autor se refere a eventos
marcantes cuja significação é construída a
partir da potencialidade de provocar reações. A consciência
histórica é produzida dialeticamente no seio da comunidade
que re-figura o passado, através da narração ao se
expressar e identificar com o mesmo, no sentido de se sentir affecté-par-le-passé
(1985, p. 411). Mas, embora
se refira a um processo coletivo de pertencimento, os sentimentos de orgulho
ou de repulsa suscitados pela recepção do evento são
individualmente concebidos no sentido de que o passado é peculiarizado
pelo leitor.
Nas duas modalidades de comemoração
e execração apresentadas está subentendido, via menção,
a produção de significação gerada pelas emoções
potenciais que suscita uma tendência a apologização
(também observadas por Habermas (1990, p. 258) do passado para ser
utilizado no presente. A consciência histórica que engendra
consciência de identidade do grupo e vice-versa necessita e se desdobra
em ações tendentes a viver o passado no presente.
Trata-se, assim, de perceber,
via elaboração da memória coletiva, em que momento
e que atores efetuam a glorificação ou o acerto de contas
com o passado, no que tange a manutenção ou a transformação
do status quo, para perceber a dinâmica do mito.
Para Ricoeur (1985,
p. 347) a possibilidade de re-conceber o mundo se dá a partir
da narração entendida como ato que ordena o passado no presente
e aponta para o futuro. A autoridade do narrador se baseia na convicção
dos leitores/interlocutores de sua capacidade de dizer o que ocorreu. É
através do processo de criação nas narrativas que
ocorre a produção de uma consciência histórica
a ser festejada ou denunciada pelos leitores identificados com a visão
de mundo expressa nas representações.
Neste sentido, concluo que
o fascínio exercido por Sepé Tiaraju (um personagem histórico
vivido como mito) está justamente no seu poder de significar o presente
de quem o utiliza, transformando identificações com o passado
interpretado das Missões em pertencimentos a sua figura lendária,
presentificada nos interesses e sentimentos de quem os aciona.
Conforme Claude Lévi-Strauss
(1996, p. 241), o mito tem por objetivo resolver
as contradições entre o passado e o presente. No caso de
Sepé Tiaraju e do passado missioneiro, suas apropriações,
neste caleidoscópio de significações, “servem para
pensar” sobre as relações que estabelecemos com o passado
e sobre nossas identidades.
Identidades e pertencimentos
acionados na celebração de Sepé, herói gaúcho
e brasileiro, em que buscamos celebrar a todos e a cada um de nós
através da comemoração dos 250 anos de sua morte.
Sepé Tiaraju, índio guarani missioneiro, herói gaúcho
e brasileiro, que torna o passado presente, no mais amplo espectro da afirmação
do “Esta terra tem dono”.
A “construção”
de uma consciência histórica a ser internalizada se relaciona
a um trabalho de concepção do mito enquanto gerador de crenças
e catalisador de uma verdade passada a ser vivida no presente. Régine
Robin aborda este intrincado processo:
Os passados legendários,
tornados mitos antecipadores de utopias ou dos desastres, não são
apanágio nem dos historiadores, nem dos filósofos, nem da
ficção. Eles estão no coração da cultura,
sobre a cena do presente, ricos de toda a experiência do passado
que os tem, há muito reprisados, tecidos e destecidos. Apesar de
ser a ficção que inventa o passado, a História retifica
os aportes legendários. Doutra vez é a história que
constrói o mito. O discurso político o reforça dando
nascimento ao passado se penetrando em distâncias fabulosas. Acaba
ainda que seja a ficção que desconstrua este passado opaco.
Os discursos se fazem e desfazem. (Robin: 2003, p.61) 
Para
Robin, os destinos do mito são incertos, pois os discursos se fazem
e desfazem. O cenário do coração da cultura, em sua
dinâmica, é elucidativo, neste sentido. A respeito do mito
de Sepé Tiaraju, as polêmicas em torno de sua figura no momento
das comemorações pelos 250 de sua morte, em São Gabriel,
não se dissiparam.
No entanto, as comemorações
de Sepé neste momento são afetadas por um movimento pendular
da vivência do mito, em que da exaltação a-crítica
se passa a uma exigência de transformação radical através
de sua construção como símbolo dos excluídos.
As significações remetem ao universo simbólico dos
que clamam por terra e se identificam com a denúncia da exclusão
social no Brasil. Ou seja, estes comemoradores exigem uma modificação
do status quo, a partir das menções a Sepé Tiaraju.
Foto:Ceres Brum
Essa guinada radical, no
atual estado de vivência do mito, inclui também os índios
de diferentes nações que se fizeram presentes e atuantes
em São Gabriel.Os índios hiper-reais (Ramos:
1988) que, de atores invisibilizados, denunciados nas performances do herói
forjado com virtudes brancas, conforme referi anteriormente, conferiram
uma nova e importante significação ao mito: mostraram que
Sepé está presente no seu universo representacional, como
índio guarani, que lutou por suas terras no passado e reviveram
simbolicamente este triste passado de expropriados no presente, ainda em
busca da terra sem males. como elo de união entre o passado, o presente
e o porvir dos guaranis.
Notas
Júlio Quevedo se refere ao encontro de Sepé Tiaraju com a
Comissão demarcadora de limites, ocasião em que este se posicionou
sobre o direito à terra das Missões: “Neste momento, talvez
Sepé tenha proferido: esta terra é nossa”, ou seja, aquela
terra tinha dono e sua posse estava legitimada pela autoridade de Deus
e de seus Santos. Os jesuítas, fiéis ao papado de Roma –
autoridade capaz de legitimar qualquer território do mundo – haviam
convencido os guaranis do seu direito sobre aquele chão. Permitir
a entrada dos demarcadores era permitir que estes se apropriassem e profanassem
a terra que haviam recebido de Deus e de São Miguel.” (2000: 169).
Em Sepé Tiaraju missioneiro: um mito gaúcho (Brum:2006, 41)
apresento a questão ocorrida em 1956 em que o Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Sul, após uma enorme polêmica,
desaconselhou a construção de um monumento em homenagem ao
herói Sepé Tiaraju. O argumento da corrente de historiadores
vencedores se apoiava no caráter liminar das identidades de Sepé
Tiaraju (nem índio, nem brasileiro e tampouco espanhol ou português)
e na natureza revolucionária de sua luta na Guerra Guaranítica.
Na região central do estado há um município que se
chama São Sepé. Além disso, Aydos (2004: 31) se refere
ao culto de Sepé Tiaraju na Romaria da Terra que ocorre anualmente
na terça-feira de carnaval.
Quanto à história, é preciso referir a existência
de uma pluralidade de histórias em se tratando de Sepé Tiaraju
e das Missões. A historiografia missioneira, conforme Torres (1996:
387), produz um sentido histórico das Missões que deve
ser relativizado, uma vez que está relacionado à leitura
hispanófila ou lusitanófila da formação do
Rio Grande do Sul, envolvendo identidades de exaltação do
nacional e do regional. Isto se dá porque a desestruturação
do passado missioneiro implicou uma troca de territórios entre Espanha
e Portugal e a conseqüente incorporação do território
do Rio Grande do Sul ao Brasil.
O encerramento das atividades se deu no dia 7 de fevereiro, pela manhã,
com uma marcha dos movimentos sociais entre o trevo de acesso à
cidade e a Sanga da Bica. Após uma cerimônia mística
dos povos indígenas, as autoridades federais, estaduais e municipais
presentes e os representantes dos movimentos sócias e dos Guaranis
fizeram suas derradeiras homenagens a Sepé e aos guerreiros de Caiboaté.
Ces
événements, qu’on dit en anglais <<epoch-making>>,
tirent leur signification spécifique de leur pouvoir de fonder ou
de renforcer la conscience d’identité de la communauté considerée,
son identité narrative, ainsi que celle des ses membres. Ces événements
engendrent des sentitments d’une intensité éthique considérable,
soit dans le registre de la comémoration fervente, soit dans celui
de la exécration, de l’indignation, de la déploration, voire
de l’appel au pardon.Je veux dire que l’horreur comme l’admiration exerce
dans notre conscience historique une fonction spécifique d’individuation.
Tradução, Brum (2005, 48).
Les
passés légendaires devenus mythes, anticipateurs d’utopies
ou des désastres, ne sont l’apanage ni des historiens, ni des philosophes,
ni de la fiction. Ils sont au couer de la culture, sur la scéne
du présent, riches de toute l’experience du passé qui les
a, à maintes réprises, tissés et détissés.
Parfois c’est la fiction qu’invente le passé, l’Histoire rectifiant
les apports légendaires. D’autre fois c’est l’Histoire qui construit
le mythe, le discours politique, le renforçant, donant naissance
à un <<passé>> s’enfonçant dans des lointains
fabuleux. Il arrive encore que ce soit la fiction qui dèconstruisse
ce passé opaque. Les discours se font et se défont. Tradução
Brum (2005: 42).
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