Fruto Proibido
Anne Finger  e   Alan Holdsworth

Tradução de Rita Amaral e Flávio Amaral


 
Antes de se tornar uma paraplégica, DeVonna Cervantes, moradora de Los Angeles, gostava de tingir seus pelos púbicos com “cores divertidas”: turquesa, roxo, preto. Depois que DeVonna se tornou deficiente, uma sua amiga esteticista foi à unidade de reabilitação e, como um presente de Natal, tingiu os pelos púbicos de DeVonna de rosa-choque. Porém, não existem coisas tais como “partes íntimas” em um hospital de reabilitação. Logo, a equipe, que viu sua tintura enquanto estava lhe introduzindo uma sonda, enviou o psiquiatra da equipe para vê-la. Cervantes conta que ele lhe disse:
 
 
“Eu sei que é muito duro aceitar que você perdeu sua sexualidade, mas você não precisa chamar a atenção deste modo”. 

 
Cervantes gastou o restante dos 50 minutos de sua sessão argumentando com ele e, talvez o único verdadeiro milagre sobre o qual já ouvi, convenceu-o de que ele estava errado – que este era um comportamento normal para ela. 
 
 
 
 
A história de Cervantes não apenas ilustra a lamentável ignorância por parte de um especialista médico, igualando sensação genital a sexualidade, como mostra, claramente, a determinação de uma mulher deficiente para definir sua própria sexualidade. Infelizmente, não são apenas os especialistas médicos os culpados de ignorância sobre os direitos e necessidades sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência. Os movimentos por liberdade sexual e reprodutiva têm prestado pouca atenção aos temas da deficiência. E o movimento pelo direito ao aborto tem cruelmente explorado, algumas vezes, o medo a respeito de "fetos defeituosos" como uma razão para a legalização do aborto.

 

Foto: Rasso Bruckert

 
 
 
Como o foco inicial do movimento feminista foi dado por mulheres que eram majoritariamente não-deficientes (como também jovens, brancas e de classe média), a agenda dos direitos reprodutivos tendeu a focalizar o direito ao aborto como tema central. Já para as mulheres deficientes, os direitos de gerar e criar filhos estavam em risco maior. Em sua crônica “Hannah”, Zoe Washbum chora a filha que quis ter e o aborto que foi coagida a fazer:
 
 
 
 “... então ela foi ao médico e deixou-o sugar Hannah para fora com seu aspirador a vácuo... A família acariciava seu cabelo enquanto ela chorava e chorava porque seu ventre estava vazio e Hannah não apenas morrera, mas jamais pudera nascer. Eles olhavam para seu corpo estranhamente deformado e pensavam consigo mesmos: Graças a Deus acabou”.
 
 
 
Já os movimentos pelos direitos dos deficientes não colocam os direitos sexuais à frente de sua agenda, certamente. A sexualidade é, freqüentemente, fonte de nossa mais profunda opressão; é, também, a fonte de nossa mais profunda dor. É mais fácil para nós falarmos sobre – e formularmos estratégias para mudar – discriminação no emprego, educação e moradia que falar sobre a exclusão da sexualidade e da reprodução. Do mesmo modo, embora isto esteja mudando, os movimentos dos direitos dos deficientes nos EUA tenderam a concentrar suas energias no convencimento dos legisladores e em criar uma imagem do “deficiente eficiente”.

 
 
 



 
 
 

Barbara Waxman e eu publicamos uma vez um artigo na Disability Rag sobre a decisão da Suprema Corte dos EUA que estabelece como crime atos sexuais “não-naturais”, apontando o efeito que isso teria para as pessoas deficientes – especialmente aquelas que não pudessem manter um intercurso sexual do tipo “padrão”. A Rag recebeu, então, uma carta perguntando como se poderia esperar que “o deficiente” fosse sequer aceito como “normal” enquanto defendemos tais repugnantes idéias.
 
 

 
Dado que a reprodução é vista como um tema feminino, é freqüentemente relegado a uma posição secundária, apesar de ser crucial que os movimentos dos direitos dos deficientes comecem a lidar com isso. Talvez a situação mais deprimente exista na China, onde um número de províncias proíbe casamentos entre pessoas com deficiências de desenvolvimento e outras, a menos que as partes tenham sido esterilizadas. Na Província de Gansu, mais de 5000 pessoas foram esterilizadas desde 1988. Oficiais do governo na província de Szechuan estabeleceram que:

 
 
 “Não deve ser permitido a casais que tenham doenças hereditárias sérias, incluindo psicose, deficiência mental e deformidade, gerar crianças”.

 
 
Quando são encontradas mulheres deficientes grávidas, elas são, algumas vezes, sujeitadas a abortos forçados. Mas a despeito da ampla crítica feita às políticas populacionais da China, quase não existem protestos após essas revelações. 
 
 
 

Mesmo na ausência de proibições claras, o pensamento de que as pessoas deficientes não deveriam ter filhos é comum. Mulheres e homens deficientes ainda são, algumas vezes, objeto de esterilizações coagidas e forçadas - incluindo histerectomias realizadas sem outra justificativa médica a não ser prevenir o “incomodo” da menstruação. 


 
 
 
A apresentadora de Los Angeles Bree Walker tem uma deficiência geneticamente transmissível, ectrodactilia, que resulta em ossos fundidos em suas mãos e pés. Grávida de seu segundo bebê, no ano passado ela viu sua gravidez ser objeto de uma chamada para um programa de rádio. A locutora Jane Norris informou os ouvintes, num tom chocado e desolado de voz, que o filho de Bree tinha 50% de chance de nascer com a mesma deficiência. 
 
 
 
 “É justo colocar uma criança no mundo sabendo que existem dois golpes contra ela no nascimento? É socialmente responsável?”
 
 

Quando um expectador objetou que isso não era problema dos outros, Norris argumentou: “É problema de todo mundo”.E muitos ouvintes concordaram com o ponto de vista de Norris. Um expectador, horrorizado, disse: “E não são apenas suas mãos – são seus pés também. Ela tem [pausa dramática] que usar sapatos ortopédicos”.

 
 
 

O pensamento de que as pessoas deficientes não deveriam ter filhos é, certamente, ligado à noção de que não deveriam nem mesmo ser sexuadas. Embora, como no caso do silêncio da sociedade sobre a sexualidade das crianças, este pensamento exista simultaneamente a um amplo abuso sexual. Algumas autoridades estimam que as pessoas com deficiências são provavelmente duas vezes mais vítimas de estupro e outras formas de abuso sexual que a população em geral. Enquanto a história de estupro e abuso sexual de pessoas deficientes ainda precisa ser contada e enquanto nós precisamos encontrar meios pra acabar com isso, o foco atual na exploração sexual de pessoas deficientes pode em si mesmo se tornar opressivo.

 
 
 

Como diz Bárbara Faye Waxman, antiga Diretora do Planejamento Familiar de Deficientes de Los Angeles: 


 
 
 “A mensagem para crianças deficientes é a de que sua sexualidade será percebida por meio de sua vitimização sexual... Não vejo uma única menção de que coisas boas possam acontecer, como prazer, intimidade, como maior compreensão de nós mesmos, o amor por nossos corpos”. 

 
 

Foto: Rasso Bruckert







Waxman vê nisso um efeito de “dupla visão negativa” para pessoas deficientes, para as quais existem poucos -se existir algum- modelos de sexualidade e, praticamente, nenhuma expectativa social de que elas possam se tornar seres sexuados.
 
 
 

O pensamento de que nós somos e deveríamos ser assexuados parece existir perpassando um amplo leque de culturas. Ralf Hotchkiss, famoso por desenvolver cadeiras de rodas em países do terceiro mundo, tem viajado amplamente pela América Latina e pela Ásia. Ele diz que enquanto os pensamentos variam “de cultura para cultura, de subcultura para subcultura”, ele vê, por quase todo lugar por onde viaja, “extrema irritação [por parte de pessoas deficientes] com a assunção estereotipada que as pessoas fazem sobre sua sexualidade ou sua ‘falta dela’". Ele também observa:

 
 
 “Nos países da América Latina, uma vez que eles ouvem que eu sou casado, a próxima pergunta é sempre: que idade tem seus filhos?"

 
 
Alguns desses preconceitos estão consagrados na lei. Nos EUA, “desincentivos maritais” permanecem uma barreira significativa. Para explicar esse sistema bizantino brevemente: os benefícios (incluindo cuidados de saúde pagos pelo Estado) são largamente reduzidos -e, algumas vezes, até eliminados - quando uma pessoa deficiente se casa. Tom Fambro escreve sobre suas próprias dificuldades com o sistema:

 
 
 “Eu sou um homem negro de 46 anos de idade com paralisia cerebral. Há alguns anos encontrei uma jovem senhora que foi sexualmente atraída por mim (um verdadeiro milagre)”. 

 
 
Embro soube, entretanto, que ele perderia seu benefício e, mais crucialmente, seus benefícios médicos, se ele se casasse. 

 
 
 “As pessoas nos dizem que deveríamos apenas viver juntos... mas como nós dois somos renascidos em Cristo, isto é impensável... A Administração da Seguridade Social imagina que as pessoas deficientes não se apaixonam, casam, fazem sexo ou têm uma vida pessoal. Ao contrário, nós temos que ser eunucos sexuais. Eles são cheios de merda”.
 
 
Instituições – sejam hospitais tradicionais ou, eufemisticamente denominados, “lares”, “escolas” ou as novas "comunidades de facilitação de cuidados", – freqüentemente proíbem totalmente  o contato sexual entre seus residentes. Ou recriminam relacionamentos gays e lésbicos, permitindo apenas os heterossexuais. Lésbicas e gays deficientes podem, também, ver sua orientação sexual ser presumida como um padrão. 

 
 


 
A restrição do acesso à informação sexual ocorre tanto no plano legal quanto no social. A Livraria do Congresso dos Estados Unidos é uma fonte primária de material para cegos e outros deficientes que necessitam de imprensa especial. A livraria foi instruída pelo Congresso, em 1985, a não mais tornar disponível a revista Playboy em braille ou em fitas. E os serviços de transmissão que provêm telecomunicação entre pessoas surdas e ouvintes têm, algumas vezes, se recusado traduzir falas explicitamente sexuais. No seu poema “Olhar”, a poeta cega Mary McGinnis escreve sobre um mulher sendo assistida por homens videntes enquanto toma banho nua.

 
 
… os garotos sentados na beira do lago
olhavam para ela, mas ela não podia vê-los...
e suas pele, cabelos, camisas e cintos
permaneceriam incógnitos 
porque ela não poderia ir até eles e
dizer: agora, como é o justo, deixem-me tocar os lugares
de seus corpos que vocês escondem,
é minha vez – não fujam ou sentem sobre suas mãos -, 
deixem-me contar seus anéis, suas cicatrizes,
os pelos de seus narizes...
 

Foto: Rasso Bruckert



 
 
 
 

Citei poetas algumas vezes neste texto; alguns ativistas dos direitos dos deficientes agora vêem que enquanto  precisamos de mudanças em leis e políticas, o desenvolvimento da cultura é a  chave para conquistar nossa liberdade. Escritores e artistas deficientes são trabalhadores das formas, trabalho  freqüentemente poderoso em fúria e afirmação. Em 'Superfície e Entranhas  “de Cheryl Marie Wade, ela escreve:

 
 
Ele é pobre em músculos e seus ossos pontudos adequados às minhas patas nodosas. Eu tenho um pouco de celulite e olhos verdes marcados pela meia-idade. Estamos trocando sonhos profundos e superficiais e fantasias de antigos corpos, não deficientes, e eus reais: dançarinas de botas de saltos altos fazendo amor nos telhados negros e em obscuros corredores nus . [...] Contradições na noite estrelada de guerras interiores e seres não totalmente unidos e completos. Juntos nós dizemos, em suspiros: “sim, esmagados e queimados e, sim, cantando ”.
 
 
 
 

Foto: Rasso Bruckert







Alan - pernas quentes e amor no corpo

"Estou em uma praia da Grécia. A temperatura está em 90ºF, mas eu ainda estou de calças compridas. Ao meu redor, um punhado de homens veste uma variedade de shorts confortáveis e extravagantes. Você nota que eu tenho essa perna. Essa perna ruim. Esta perna, não eu, você compreende, teve polio  quando eu tinha um ano e não é normal.
 

 
 
Se eu a cobrir, eles talvez não a percebam por enquanto, pelo menos até que eu levante. Essa perna foi meu passaporte para ser intimidado e apelidado na escola e, também,  temido e superprotegido,  para me escudar das duas coisas. Durante  minha adolescência,  procurei participar, ser aceito, ser um deles. Normal... fisicamente apto. O fato de que havia pessoas “piores do que eu”, como dizia minha mãe, não me interessava. Não me era permitido ser um amante, nem mesmo das garotas que se aproximavam de mim. Eu era o amigo no qual podiam confiar porque a minha sexualidade me era negada por ambos os sexos. 
 
 
 
Por volta dos 16, eu ia para as discotecas dançar sozinho. Isso teve fim quando eu me vi refletido num espelho. Aos 17,  encontrei um amor. Eu estava grato, muito grato e muito possessivo... depois de seis meses, ela estava cansada. Eu estava devastado e permaneci celibatário pelos próximos 7 anos. Eu não podia encarar o sofrimento de ouvir que eu não era normal por alguém que  amei. Eu também era o único homem deficiente do mundo. Acho que é difícil, se você odeia você mesmo, ou uma parte de você mesmo, esperar que alguém lhe ame .
 
 
 
Aos 24,  tive meu primeiro longo relacionamento que terminou quatro anos depois e, desde então, eu tenho sempre estado num relacionamento. Todas essas mulheres eram fortes e elas me ajudaram a me abrir, relaxar e ser menos possessivo. Elas também me introduziram na política. 
 
 
 
Pelos próximos 12 anos, a despeito de minha perna, eu me desenvolvi. Quando  tinha 34,  arrumei um emprego que me dava a oportunidade de trabalhar com um grupo de pessoas com deficiências cognitivas. Eu resisti a isso fortemente. Afinal, o que eu sabia sobre eles? Depois de um ano de persistência de uma colega não-deficiente,  cedi e comecei uma parte do trabalho  que mudou minha vida. Após uns poucos meses,  percebi que seus temas eram os mesmos que os meus.

 
 

Foto: Rasso Bruckert



 
 
 

Eu experimentei com eles a negação  de sua sexualidade, o controle de suas vidas por pais, profissionais e cuidadores. Eu tive raiva e, sem notar, me tornei para sempre afiliado ao movimento dos deficientes. Foi então que eu resolvi que eu resolvi minha própria crise de identidade. Eu olhei novamente para as minhas pernas e vi duas pernas diferentes, mas ambas de igual valor.
 
 
 
Eu comecei  o processo de reclamar meu corpo para mim mesmo e de me orgulhar de quem eu era. Os mitos de normalidade partiram-se como vidro de espelho e pela primeira vez o meu todo estava apto a expressar a mim mesmo e a minha sexualidade como homem deficiente. Finalmente, eu estava partindo de onde eu realmente estava e me sentia bem com isso.
 
 
 
Enquanto homem deficiente, proveniente da classe trabalhadora, me havia sido negada não apenas a vivacidade sexual, mas também participação no racismo e sexismo explícito que engolfava os homens com os quais eu cresci. Como uma vítima da injustiça, eu nunca vi o lugar do castigo. A despeito das cicatrizes da intimidação, dos apelidos e da exclusão, eu havia recebido presentes que eu nunca havia percebido.
 
 
 
 
Foto: A. Davenport, s/d
 
 
 
Então, de volta à praia na Grécia  e agora  usando o mais vexaminoso par de shorts fluorescentes. Minha companheira, uma Mulher Deficiente, está seduzindo, de longe, com um sorvete, nossa filha, Jasia, de 15 meses, e todos estão olhando para nós. Eles têm olhado por toda a minha vida. A diferença é que agora é problema deles e não meu.
 
 
 
Usar shorts, para algumas pessoas, é uma coisa trivial; mas para mim é uma demonstração prática de minha libertação como homem deficiente. Eu amo meu corpo, é o único que eu tenho e nós vamos estar juntos por um longo tempo".
 
 

Notas

Título original: Forbidden Fruit, publicado em New Iinternationalist, 233 - July 1992. 
Anne Finger é professora de literatura inglesa na Universidade Estadual de Wayne, Detroit, EUA. Em seu livro Past Due (Women`s Press, 1990) ela descreve sua experiência de gestação como mulher deficiente.
Alan Holdsworth é um poeta, cantor e compositor, residente em Londres, que, com o nome Johnnie Crescendo, excursiona com seu show Tragic But Brave.
N.T.: No original Side and Belly'
N.T.:No original: He is wilty muscle sack and sharp bones fitting my gnarly paws. I am soft cellulite and green eyes of middle-age memory. We are side and belly trading dreams and fantasies of able-bodied former and not real selves: high-heel booted dancers making love from black rooftops and naked dim doorways
N.T.: No original: ...Contradictions in the starry night of wars within and being not quite whole together and whole. Together in sighs we say yes broken and fire and yes singing.
N.T.: Poliomielite


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