Mães-de-Santo, mães de tanto. O papel cultural das sacerdotisas dos cultos afro-brasileiros
Rita Amaral

Antropóloga, PhD.
Pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana
Universidade de São Paulo.



 
 

  

 “E quem vive, olha, quem tem fé em Nossa Senhora, você não passa fome, não anda descalça. Nossa Senhora ajuda, a gente trabalha. Tá agora sem dinheiro, de repente aparece qualquer coisa pra vender, alguém vem, encomenda qualquer coisa, aí faz, vende, já chega o dinheiro. Então a gente nunca passa assim aquela dificuldade, não passa. Agora, se você tiver assim um dinheiro, que ganhou em nome de Nossa Senhora, você compre uma vela pra ela, entendeu? Divida. Não coma só. Porque se você comer só, aí que é tá o perigo “. (Equede Dadi, da Irmandade da Boa Morte, apud Machado, 1997:72/73)”.
 

Equede Dadi, da Irmandade da Boa Morte.
Foto: Adenor Gondim (Bahia Imagens), 2004

 
 

É praticamente impossível pensarmos sobre a cultura brasileira e sua multifacetada identidade sem consideramos a intensa contribuição das várias formas de religiosidade em sua composição e, nestas, a capital presença das mulheres, sejam elas freiras, missionárias, mães-de-santo, catequistas ou outras . Todas contribuíram, como o vêm fazendo até hoje, para a educação, formação, socialização e caracterização da identidade nacional. No que diz respeito à presença religiosa feminina, o conjunto formado pelas sacerdotisas das religiões afro-brasileiras, o das mães-de-santo, merece ênfase em razão do contexto histórico discriminatório e exclusivo em que sua atuação se deu e pelas múltiplas esferas da cultura em que esta se inscreveu. Além disso, durante os últimos quatro séculos, o sentimento religioso manteve unidas em torno delas muitas comunidades afro-descendentes, a despeito da imposição da religião católica hegemônica, o que significou a possibilidade de preservação das práticas culturais coletivas como as danças e jogos. Enfrentando violências extremas, as comunidades negras organizadas em torno das mães-de-santo (as famílias-de-santo) foram capazes de resistir e de preservar seus valores. Estas mulheres souberam, ainda, abrir espaço na cultura que lhes negava o direito à diferença, sem deixar de receber entre os seus quaisquer pessoas que a elas recorressem em busca de conselhos e ajuda espiritual, não discriminando, por sua vez, raça, cor, gênero, ideologia, religião ou classe social.


 
 
A liderança religiosa feminina e sua hegemonia nas religiões afro-brasileiras têm sido bastante estudadas  e as explicações e implicações apontam sua influência no sentido das permanências e transformações dos elementos culturais de origem africana na sociedade brasileira. Diversamente do que ocorre em muitas outras, nas religiões afro-brasileiras as mulheres ocupam as principais posições hierárquicas. Aos homens se reservam os cargos auxiliares, ministeriais, embora seja crescente o número de sacerdotes, o que, inclusive, ocorre sob as graças das mães-de-santo, que não se recusam a iniciar homens, dando mostra de que seu poder não se estabelece sobre disputas e sim sobre alianças, como bem o demonstram a história das religiões afro-brasileiras e a biografia das mães-de-santo de norte a sul.
 
 
 
Podemos dizer, sem exagero, que a cultura afro-brasileira foi sustentada, em grande parte, pela força feminina nos terreiros e irmandades, de onde se espraiou pela sociedade, passando a constituir alguns dos mais marcantes valores da cultura nacional . O samba, os afoxés, maracatus, cirandas, congadas, jongo, bois-bumbá e outras manifestações culturais em que os elementos culturais de origem africana se encontram presentes, em geral tiveram, ou ainda têm, como ponto de referência e união uma mãe-de-santo ou “tia” (modo pelo qual se costumava chamar as ebômis com altos cargos nos terreiros ou as mães-de-santo do rito angola, da umbanda e outros ritos).
 
 
 
Em épocas em que a exclusão das mulheres era agravada por sua origem étnica e de classe, a mulher negra, pobre, pouco ou nada escolarizada, ainda mais excluída, muitas vezes encontrou nos terreiros o espaço de afirmação de sua identidade como mulher e como ser político, gestando ali, lentamente, a mudança cultural, afastando aos poucos as marcas da escravidão e obtendo o reconhecimento social como guardiã de uma significativa parcela de valores da cultura nacional. A antropóloga Ruth Landes, em seu livro A Cidade das Mulheres, de 1932, observou que a mulher negra exercia, inclusive, uma importante influência modernizadora na cultura brasileira, já que por tradição herdada dos costumes africanos e por contingências da escravidão e do período pós Abolição, eram economicamente ativas e independentes. Eram mulheres que tomavam suas próprias decisões, o que lhes era possível porque para viverem contavam com seu próprio trabalho, geralmente como cozinheiras, lavadeiras, costureiras, amas-de-leite, amas-secas, vendedoras de acarajé, quindins, canjica e outros quitutes , criadas, padeiras, quitandeiras etc. Esta liberdade e independência ecoavam em sua autoridade no candomblé (e vice-versa), oferecendo o contraponto matriarcal ao desabrido domínio dos homens em toda a vida nacional e latina da época . Ruth sublinhou, ainda, o fato de que as mulheres do candomblé não se prostituíam, mesmo sendo muito pobres. Que eram sexualmente donas de si, mas nem por isso comercializavam seus corpos. Eram mulheres capazes e livres numa época em que o feminismo ainda começava a ser tematizado no Brasil  (Landes, 2002. [1932]).
 
 
 
Testemunhas dessa vitalidade e do poder feminino que extravasa os limites dos terreiros foram inúmeras sacerdotisas das religiões afro-brasileiras, como as do candomblé baiano, dentre quais se destacaram e se destacam Ia Nassô, Mãe Aninha, mãe Bada, mãe Ondina, mãe Senhora, mãe Menininha do Gantois, as mães Estelita, Filinha e todas as mães da secular Irmandade da Boa Morte, entre muitas outras. Em distantes regiões do país não foi diferente e os nomes de Mãe Andresa, da Casa das Minas e de Mãe Dudu, da Casa de Nagô, em São Luis do Maranhão , de Mãe Nanã de Aracaju, de Sergipe  e de mãe Moça da Oxum em Porto Alegre , entre outros, são atualmente referência para outras mães, vivas e igualmente atuantes e zelosas de seus filhos e de sua cultura religiosa. Mãe Stella de Oxossi  e mãe Olga de Alaketu , de Salvador, mãe Beata de Iemanjá  e Omindarewá  (acadêmica francesa, branca que adotou a religião como filha de Joãozinho da Goméia), do Rio de Janeiro e Sandra de Xangô, de São Paulo, além de tantas e tantas outras sacerdotisas anônimas, são representantes vivas da força de resistência, luta, solidariedade, proteção, amor e doação que fizeram das mães-de-santo as mães de tantos e de tanto. A seus nomes seria preciso juntar ainda os de todas as mães-pequenas, jibonãs, equedes, iamorôs e ialaxés, suas auxiliares imediatas, muitas delas carinhosamente chamadas pelos filhos-de-santo de mãe-criadeira.
 
 
 
Apenas o exemplo de mãe Aninha, já seria suficiente para se ter idéia da extensão do papel de uma mãe-de-santo em sua comunidade religiosa, dos entrelaçamentos destas comunidades com seu entorno e de sua presença e influência, direta ou indireta, nos rumos tomados pela história das religiões afro-brasileiras e até mesmo do país. Do lugar que ocupam na cultura brasileira. Mas ao lado do nome da matriarca do Ilê Opô Afonjá, de Salvador, Bahia, podem ser citados outros exemplos de mães-de-santo que inscreveram seu nome na história por sua visão, coragem e independência e, principalmente, por viverem em profundidade seu papel de mães. Mulheres que garantiram a seus filhos um mundo melhor onde viverem. Que ultrapassaram barreiras de preconceitos que pareciam intransponíveis, construídas pelo sistema sócio-religioso brasileiro branco, patriarcal e católico.
 
 
 
Escolhi alguns exemplos que tipificam a ação das mães-de-santo fora da esfera religiosa para mostrar de que modo a ação da mulher negra e religiosa foi sutil, inteligente e eficaz ao aproveitar todas as brechas sociais, todas as oportunidades de diálogo que a história lhes apresentou, como de resto os negros brasileiros sempre souberam fazer, como bem observou Júlio Braga:
 
 
 
... o negro soube criar e soube valer-se de situações sociais e culturais que lhe permitiram, de alguma maneira, alcançar resultados práticos, necessários à consolidação de alguns de seus interesses fundamentais... Toda vez que interessou aos propósitos de suas reivindicações sociais o negro soube, com extrema competência, aproveitar-se da situação social em que vivia. Conduziu seu projeto maior de ascensão social com habilidade, sabendo negociar, aproveitando as raras ocasiões favoráveis para sedimentar bases sólidas que ainda servem de substrato às diferentes frentes de lutas (1995:18).
 
 
 
Mãe Aninha
 
 

Foto: Heróis de Todo o Mundo






Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, nascida em 1869, na Bahia, era uma negra alta e majestosa, vestida à moda da Costa e com os braços cheios de pulseiras, conforme descrição do sociólogo norte-americano Donald Pierson (1971). Era filha de Xangô, poderoso orixá dos trovões, e uma das mulheres negras comerciantes da antiga Baía de São Salvador. Os que a conheceram foram unânimes em afirmar sua inteligência, elegância, beleza, generosidade e seu poder de decisão. Impunha respeito e simpatia. Era carismática. Diz-se que não sabia escrever, mas falava francês e tocava piano. Vestia-se à moda africana, usando o pano da Costa nos ombros, rendas e muitos balangandãs, como se vê em algumas fotos, e era conhecida por seu espírito intrépido. Hospedava em sua casa as filhas-de-santo que não tinham onde morar, e o pagamento por isso era a ajuda na elaboração dos doces e quitutes que Aninha vendia em Salvador. Com esta atitude, qualificou para a cozinha e o comércio muitas mulheres negras, que passaram a viver disso. Edson Carneiro diz que ela sustentava com recursos pessoais, parentes, agregados e filhos-de-santo. Esta independência financeira de Aninha foi fundamental à consolidação do Ilê Opô Afonjá e um exemplo para as líderes que a substituíram mais tarde no comando do terreiro de candomblé . Além de contar com seus próprios recursos financeiros, Aninha provava ser livre intelectualmente. Seu domínio dos conhecimentos ligados à religião e suas sólidas argumentações fizeram dela uma das mães-de-santo mais procuradas pelos interessados em conhecer o culto aos orixás, já que muito do que Aninha sabia sobre rituais realizados na África aprendera com Bamboxê Obiticô e observando as velhas tias, herdeiras da fundadora Iá Nassô. Ela também aprendeu muito com o babalaô Martiniano do Bonfim, seu grande amigo e fonte de apoio quando ela decidiu deixar o terreiro da Casa Branca e fundar seu próprio Ilê. Com cerca de 30 anos de idade já tinha filhas-de-santo. Donald Pierson, Ruth Landes, Edson Carneiro e outros muito beberam dos conhecimentos desta mãe-de-santo e os espalharam pelo mundo. Em Cartas de Edson Carneiro a Arthur Ramos (1987), coletânea organizada por Vivaldo da Costa Lima e pelo historiador Waldir Freitas Oliveira, mãe Aninha e Martiniano do Bonfim surgem como duas das personagens mais importantes do candomblé na década de 30.

 
 
 
Donald Pierson, em Brancos e pretos na Bahia (1971), comenta a grande autoconfiança de mãe Aninha, observando que ela expressava sempre a própria opinião, ainda que polêmica. Era amiga de padres e com eles discutia em pé de igualdade. Pierson narra que numa discussão com um padre que afirmara que ela não tinha autoridade espiritual para realizar rituais religiosos por não ter sido ordenada pelo Papa, Aninha perguntou imediatamente se Moisés fora ordenado pelo Papa. Embora discutisse pontos de discordância com os padres, era católica praticante e membro de irmandades religiosas como a da Boa Morte, a do Rosário dos Pretos, a de Bom Jesus dos Martírios e a de São Benedito. As irmandades aumentavam seu prestígio e certamente ofereciam a segurança do pertencimento à religião hegemônica em caso de perseguição. Isto não significa que tivesse medo, pois escondeu em seu terreiro intelectuais perseguidos pela polícia política do Estado Novo, entre eles Edson Carneiro, Jorge Amado e Aidano Ferraz. Ela os enviou a São Gonçalo do Retiro, longe do centro da cidade, lugar em que para se chegar era preciso andar muito e subir um íngreme e alto morro. O refúgio no terreiro teria aproximado Edson Carneiro e Jorge Amado do candomblé. E a partir deles, outros passaram a enxergar os cultos afro-brasileiros de modo menos negativo.
 
 
 
Em audiência que  obteve do presidente Getúlio Vargas, mãe Aninha teria solicitado  liberdade de culto para o candomblé, um dos momentos decisivos da história das religiões afro-brasileiras. O encontro de mãe Aninha com o presidente (de quem se tornaria amiga ) foi um momento crucial na mudança de perspectiva com relação às perseguições policiais aos terreiros. Diz-se que foi ela quem conseguiu  que o presidente assinasse o Decreto que condenava qualquer interferência nos hábitos da religião .
 
 
 
Foi Aninha, também, quem primeiro estabeleceu uma política de alianças do terreiro com a intelectualidade baiana, criando, no Opô Afonjá, o ministério de Xangô com 12 obás e seus suplentes. Para os cargos foram escolhidos homens de expressão social e política que defendiam, por sua vez, os interesses do Opô Afonjá e do candomblé, de forma mais geral. Mais tarde, com mãe Senhora, ser obá de Xangô como Carybé, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Camafeu de Oxossi, Vivaldo da Costa Lima, Muniz Sodré e outros homens ilustres  na sociedade baiana e nacional, passou a constituir honraria, pois as cadeiras são vitalícias e os nomes indicados pelo orixá do trovão . Foi Aninha também quem iniciou o ritual da Lavagem do Bonfim, que se tornou um dos mais importantes eventos baianos.
 
 
 
O desempenho de Aninha, portanto, prova  a  tese de Ruth Landes sobre o papel modernizador da mulher negra no Brasil. Ela foi capaz de iniciar uma política de diálogo com a sociedade, de modo flexível e inteligente, abrindo espaços de respeitabilidade para sua religião, suas sucessoras e para sacerdotisas de todo o país. Ao estender a mão aos de fora, inclusive aos brancos, Aninha fez o gesto de boa vontade, continuado por mãe Senhora , que permitiu ao candomblé tornar-se menos temido, mais conhecido e até mais atraente.
 
 
 
O candomblé, pelas mãos e vozes de suas mães, ganhou projeção nacional, o que se pode atestar nas letras de dos sambas de Vinícius de Moraes e Toquinho (“A bênção, mãe/ Senhora-Mãe/, Menina-Mãe/ Bahia...),  nas canções de Dorival Caymmi (O consolo da gente, ai/ ta no Gantois/ e a mãe da doçura, hein? / ta no Gantois/ Olorum quem mandou essa filha de Oxum/ tomar conta da gente/ de tudo cuidar/ Oraieie-ô/ Ai, minha mãe/ (Menininha do Gantois) e outros, na literatura de Jorge Amado, nas fotografias de Pierre Verger, nos quadros de Carybé, nas obras científicas de numerosos sociólogos, antropólogos e historiadores. Nesse sentido, as mães-de-santo baianas foram as mães da mudança do ponto de vista sobre a cultura religiosa de origem africana, possibilitando sua valorização. Depois delas, ou a seu lado, muitas outras mães-de-santo, em outros lugares do país e de outras vertentes das religiões afro-brasileiras, representaram papéis imprescindíveis, se não em nível nacional ao menos em nível local, resistindo à força do catolicismo, que tentava sufocar todas as crenças religiosas, e da ideologia do embranquecimento da cultura nacional.
 
 
 
 
Tia Ciata
 

 
Foto: http://www.acordacultura.org.br/

Tia Ciata Foto: Heróis de Todo o Mundo

 
 

Admirável mãe-de-santo que inscreveu  seu nome na história brasileira foi Ciata de Oxum, a famosa tia Ciata, responsável pela união, em torno de seu candomblé na Cidade Nova, da comunidade que ficou conhecida como a Pequena África do Rio de Janeiro (Moura, 1983) e onde o samba-de-roda, o samba-de-angola e outros ritmos se mesclaram para dar origem ao primeiro samba gravado no Brasil. A esta modalidade de samba seguiram-se as que hoje conhecemos: samba-de-morro, partido alto, samba-corrido, samba-batucada, de rancho, de breque, samba-choro e samba-canção. Do Rio de Janeiro, tia Ciata foi, talvez, a mais famosa mãe de santo, além de mãe do samba .

 
 
 
Nascida na Bahia, Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), como outras “tias” baianas, migrou para o Rio de Janeiro, à época capital do país e ambiente de intensas atividades culturais. Ali as oportunidades de trabalho eram mais diversificadas e muitas das tias baianas para lá se dirigiram com seus maridos, como tia Ciata, tia Amélia (mãe do compositor Donga), tia Perciliana (mãe do compositor João da Baiana), tia Veridiana (mãe de do compositor Chico da Baiana) e outras.
 
 
 
Tia Ciata morava na rua Visconde de Itaúna, onde abriu uma casa para vender comida baiana, lugar onde muitos trabalhadores se reuniam para comer, beber, jogar bacará, pinguelim e outros jogos de azar e, sobretudo, para tocar e cantar choros e sambas. Vestida  como as "filhas-de-santo" baianas, Ciata vendia seus quitutes e, numa atitude empresarial avançada, alugava roupas semelhantes  para outras vendedoras, mantendo uma equipe de ambulantes nas ruas (Lisboa Junior, 2000).
 
 
 
Casada com João Batista da Silva, também negro e baiano, que havia cursado alguns anos de medicina em Salvador e que ocupava o cargo de funcionário do gabinete do Chefe da Polícia, Ciata estava razoavelmente protegida em sua casa contra as tempestuosas batidas policiais de repressão à macumba, ao samba e à capoeira. Por isso, e por seu carisma, reunia em torno de si uma comunidade de sambistas, chorões, jogadores, filhos e filhas-de-santo. Segundo Pixinguinha, cujo apelido era Ogum Bexiguento, "tocava-se choro na sala e samba no quintal". Isto porque o choro era permitido pela polícia, enquanto o samba era considerado música de marginais, reprimida e, durante algum tempo, até proibida. Sambava-se no quintal sem que a polícia batesse à porta.
 
 
 
"Lá se podia reforçar os valores do grupo, afirmar seu passado cultural e sua vitalidade criadora recusados pela sociedade. Lá começam a ser elaboradas novas possibilidades para esse grupo excluído das grandes decisões e das propostas modernizadoras da cidade”. (Moura, 1983).
 
 
 
Como era comum às mães-de-santo da época, Ciata cultuava seus orixás e ao mesmo tempo era católica, personagem infalível na Festa da Penha. Suas festas para Cosme e Damião e para sua Oxum eram afamadas  e concorridas. Depois de louvar os orixás, ia para o quintal exibir seus dons de partideira . Ali aconteciam as rodas de partido-alto e dançava-se o "miudinho ", no qual dizem que Ciata, como uma perfeita filha de Oxum, era inigualável. Também era improvisadora, cantadeira, passista e cozinheira, como suas irmãs no santo, as outras tias, e juntas mantinham os fogões de lenha acesos por dias seguidos, com os quitutes quentinhos para quem chegasse para "brincar o samba" em seu casarão. As festas chegavam a durar uma semana (Lisboa Junior, 2000).
 
 
 
Sua popularidade era enorme e por isso respeitada como se fosse a mãe de tantos filhos sambistas que no Carnaval desfilavam seus ranchos diante de sua casa. O mesmo se dava com pessoas de todas as camadas sociais da cidade do Rio de Janeiro. Tia Ciata e seus filhos-de-samba popularizaram o ritmo que ela, entre outros, levaram de Salvador para o Rio de Janeiro, difundindo essa cultura para seus descendentes e para os que delas se aproximaram, extravasando seu papel de sacerdotisa dos deuses africanos e dos cultos e ritos ancestrais para o de incomparável festeira, mãe-de-santo e mãe do samba.
 
 
 
Outras mães, em diferentes lugares e épocas se encarregaram de outros filhos. Os maracatus, os afoxés, o jongo , as congadas , moçambiques  e outras práticas culturais de origem africana, sempre tiveram uma mãe por eles. Ou uma tia que alimentou o corpo e  o espírito coletivo, propiciando e motivando a organização de verdadeiros espetáculos como os desfiles dos maracatus e afoxés, entre outros.
 
 
 
Mãe Badia
 

Mãe BadiaFoto: JC Online 




Outras mães-de-santo intimamente ligadas à conservação das tradições afro-brasileiras religiosas ou a elas ligadas foram Dona Santa, Dona Madalena de Ogum e a legendária Badia –a Senhora dos Carnavais recifenses–, Sinhá e  Iaiá (mãe e tia de Badia, respectivamente), mães e tias ligadas às nações de maracatu de Recife,  em Pernambuco. Foram responsáveis por sua continuidade e, no caso de Badia, também pela conquista de espaços de legitimidade sociocultural dessa expressão ao mesmo tempo religiosa e profana.

 
 
 
A ligação da cultura africana com a música e a dança é tão forte que o maracatu pode ser tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, o maracatu é manifestação lúdica dos grupos religiosos de culto jejê-nagô do Recife, assim como os afoxés o são na Bahia. Como a religião é vivida plenamente por seus fiéis, as marcas do ethos criado pela experiência religiosa se expandem para todas as dimensões da vida pessoal, inclusive as do lazer e do cotidiano (Amaral, 1992). Nos maracatus são realizadas cerimônias propiciatórias para a obtenção da proteção dos Orixás, do sucesso das apresentações e da realização dos desfiles sem incidentes. Além disso, as calungas são bonecas iniciadas, que representam os ancestrais e seus orixás sob nomes de nobres e fidalgos, recebendo e prestando reverências de natureza religiosa . Alguns dos grandes líderes do xangô de Recife e Olinda estão na retaguarda dos maracatus, como foi o caso do oluô Luiz de França, Dona Madalena de Ogum e outros.
 
 
 
Maria de Lourdes da Silva, Badia, costureira, casada e sem filhos, foi uma das principais mães do maracatu. Viveu sua vida no bairro recifense de São José, reduto de descendentes de escravos libertos tornados trabalhadores de baixa renda. A morada de sua família (Rua Vidal de Negreiros, 143) ficou conhecida como Axé das Tias do Pátio do Terço (devido à proximidade com a Igreja do Terço) ou Casa das Tias, constituído e liderado por xangozeiras; entre elas, Badia. A Igreja do Terço foi construída por escravos e, segundo alguns historiadores, a área próxima teria sido um cemitério dos negros escravizados.

 
 
Badia era conhecida por atender os que a procuravam oferecendo conselhos . Segundo Motta & Brandão (2002:62): “uma magopsicoterapeuta do maior destaque”. Recebia em sua casa pessoas poderosas da sociedade pernambucana e de outros lugares, com as quais estabeleceu alianças, ganhando fama e prestigio. Políticos, jornalistas, advogados, foliões e carnavalescos freqüentavam a casa de Badia, que fez dela o quartel general de sua crença e das brincadeiras de carnaval. Presidia a misteriosa Sociedade de São Bartolomeu (santo sincretizado em Exu, em Recife), formada por gente de diferentes origens, estratos sociais e confissões religiosas, como alguns xangozeiros “disfarçados” (Motta & Brandão 2002). A Sociedade se reunia para comemorar o santo aos 24 de outubro, na casa de Badia, com ladainhas, cânticos em latim e, na Igreja do Rosário dos Pretos, perto no Pátio do Terço, com missa.
 
 
 
Foi Mãe Badia quem estabeleceu, juntamente com o sociólogo e jornalista Paulo Viana, na década de 1960, o encontro das nações de maracatu no Pátio do Terço para a cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos.  Nesta noite, sempre uma segunda-feira de Carnaval, os maracatus se encontram no Pátio do Terço e tocam até meia-noite, quando fazem silêncio em reverência aos antepassados arrancados de sua terra e escravizados, revividos pela corte do maracatu. São feitas orações e os ancestrais são convidados, juntamente com Iansã, para fazerem parte da cerimônia. Os tambores ecoam forte, as luzes se apagam. Tochas iluminam o pátio. Pombas brancas são soltas e voam livres na noite. Paz, harmonia e sossego são pedidos aos orixás. O povo, em silêncio, levanta as mãos para receber as bênçãos. Mas os maracatus voltarão a tocar, mostrando o quão belo é o Recife pegando fogo na pisada do maracatu.
 
 
 
Olê, olê olá, negada olha a linha,
Sustenta esta pisada,
Nosso Rei, nossa Rainha
 
 
 
A idéia da cerimônia surgiu a partir da homenagem que as nações de maracatu prestavam aos orixás, por ocasião do carnaval, diante do Axé das Tias, onde as calungas, representantes dos ancestrais, dançavam. Para retribuir a honraria e homenagear os maracatus e seu simbolismo, Badia se empenhou em garantir esse encontro cerimonial que hoje integra a programação oficial do carnaval pernambucano, sendo visto como um de seus momentos mais sublimes.
 
 
 
Em 1977, Badia abrigou, também, em sua casa a agremiação Clube Carnavalesco as Coroas de São José. Atualmente, mais de 20 nações de maracatu participam da cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos. Alguns desses grupos são seculares, como o Nação Elefante, fundado em 1800 e o Maracatu Leão Coroado, de 1863. De acordo com matérias publicadas pelos jornais pernambucanos, sua contribuição para o Carnaval de Pernambuco não foi esquecida e seu nome é sempre lembrado e homenageado por agremiações famosas, a exemplo do Vassourinhas, Lenhadores e Bloco Saberé.
 
 
 
Dessa múltipla relação com o poder secular, mágico e espiritual, Badia, que nunca teve filhos carnais, embora tivesse adotado Lúcia, tornou-se a emblemática mãe do maracatu, juntamente com outras como dona Santa, do Maracatu Leão Coroado e Dona Madalena do Maracatu Elefante. A casa onde viveu é hoje o Centro Cultural Casa de Badia, dedicado à cultura afro-brasileira nos carnavais.
 
 
 
 
 
Mãe Malvina
 

Outra admirável  mãe-de-santo, desta vez da umbanda e de Florianópolis, foi a popularíssima Mãe Malvina, ou Dona Malvina, cuja presença e relevância no cenário sócio-religioso da ilha é registrada por Cristiana Tramonte (2001) em seu trabalho sobre as religiões afro-brasileiras em Florianópolis, Santa Catarina.

 
 
 
Mãe Malvina é considerada a introdutora dos cultos afro em Florianópolis, onde, em 1947, fundou seu terreiro de umbanda, o Centro Espírita São Jorge, oficialmente registrado em 1953 e, provavelmente o primeiro a tocar os atabaques em Florianópolis. Tramonte cita a existência de mais duas mães, dona Didi e dona Clarinda, que reuniam em suas casas médiuns umbandistas, mas que, segundo lhe pareceu, não tocavam atabaques devido à forte repressão policial aos cultos de origem africana neste período (Tramonte, 2001:77). Malvina teria sido, portanto, a primeira a tocar, enfrentando o perigo.
 
 
 
Nascida em 1910 em Itajaí, Santa Catarina, Malvina Arioso de Barros, tecelã negra e pobre, católica, somente por volta dos trinta anos sentiu os sinais da mediunidade: crises epiléticas que a obrigaram a sair do emprego na tecelagem e buscar auxílio na umbanda do Rio de Janeiro, para onde foi, em 1941, com seu marido. Na volta, abriu seu terreiro no então distante bairro de Coloninha, à Rua Felipe Neves. A distância do centro lhe garantia a necessária segurança contra as perseguições policiais e reclamações da vizinhança. Ali realizava seus toques e recebia seu Ogum Guerreiro, Vovó Maria Conga de Angola, Caboclo Munhangaba e Cabocla Jurema (Tramonte, 2001:76/77). Mas,  mesmo procurando o isolamento, mãe Malvina não conseguiu escapar das perseguições . Sua filha narra:
 
 
 
“Eu escutava minha mãe contar que sofreu muito com o Coronel Estrogildo. Esse homem chegava nos terreiros... e levava os tambores para a delegacia. Ela passou muito trabalho. Os vizinhos que não aceitavam diziam que aqui dançavam mulheres nuas, que era casa de putaria”. (Juracy, filha carnal de mãe Malvina, apud Tramonte, 2001:79).
 
 
 
O fim da perseguição a seu terreiro só se deu, segundo a opinião de Juracy, quando Malvina se casou novamente, com um marinheiro que depois se tornou policial, o que excluiu sua casa do circuito das que sofriam este vexame.
 
 
 
“Parou a perseguição. Autorizaram”. (apud Tramonte, 2001:79).
 
 
 
Com o passar do tempo, mãe Malvina foi conquistando simpatias, tornando-se popular e influente, mesmo vivendo numa sociedade majoritariamente branca, de origem européia, cristã e com preconceitos raciais bastante arraigados. Seu prestígio e carisma como mãe-de-santo e a beleza de suas festas de São Jorge e de Preto-Velho fizeram dela uma personalidade pública reconhecida por seu poder de conciliação (e, claro, seu poder mágico), reverenciada por boa parte da sociedade local (Tramonte, 2004). Políticos conhecidos, como Esperidião Amim, Ângela Amim e Cezar Souza freqüentaram a casa de Malvina, além de milhares de pessoas.
 
 
 
Por seu território religioso transitaram os mais diversos segmentos sociais - dos mais pobres às elites - todos estes, por interesses diversos, levando em conta sua influência. Entretanto, esta foi uma árdua construção que, em seus primórdios, demandou o enfrentamento de convenções sociais, coragem física e espírito desbravador (Tramonte, 2002:03).
 
 
 
 
No artigo Festejando os Pretos Velhos: da senzala ao reinado, as estratégias da Umbanda no período autoritário em Santa Catarina (2004), em que analisa os mecanismos de afirmação da umbanda na Grande Florianópolis no período da ditadura militar, Tramonte nos dá a conhecer a atuação de Mãe Malvina -pioneira e principal liderança afro-brasileira em Florianópolis- e suas táticas de afirmação no espaço religioso e social: a tradução cultural de suas crenças pelas vias do sincretismo e da festa. A seus santos e orixás de devoção oferecia grandiosas e concorridas festas, como as de Cosme e Damião, São Jorge, caboclo Munhangaba e a de Vovó Maria Conga, em 13 de maio. Malvina se tornou tão conhecida que uma reportagem do jornal O Estado, de 1978 (que informa também a presença de 400 pessoas participando do evento), diz:
 
 
 
"Da rua que passa em frente ao centro, poucos sabem o nome, sendo mais conhecida como rua do Centro da D. Malvina, assim como a elevação no local é conhecida como Morro da D. Malvina".(apud Tramonte, 2004).
 
 
 
 
O nome de Mãe Malvina ainda hoje constitui uma referência valiosa para a cultura afro-brasileira em Florianópolis, para a qual, como boa filha de Ogum, abriu caminhos e conquistou território. As palavras do babalorixá Omobaomi em entrevista a Cristiana Tramonte resumem a importância destas mães da cultura afro-brasileira entre as quais brilha Malvina, como uma das mães da liberdade de credo:
 
 
 
"Hoje, graças a Deus, a gente tem essa liberdade, mas custou muitos tetos de terreiros quebrados, muitas mães-de-santo desdentadas porque apanhavam da polícia, muito sofrimento” (Apolônio Antonio da Silva, babalorixá Omobaomi, apud Tramonte, 2002).
 
 

 

Sylvia de Oxalá
 
 


 

Sylvia de OxaláFoto: Mundo Negro





Sylvia de Oxalá, mãe-de-santo paulista, nascida em 1935, assumiu prematuramente o cargo de ialorixá, por desígnio dos orixás no jogo de búzios, após a morte de seu tio e pai-de-santo, Caio de Xangô, em 1984. Sendo ainda considerada iaô, pois nessa época contava apenas três anos de iniciação, sofreu grande discriminação no meio religioso. Mas sua sagacidade, dedicação e empreendedorismo fizeram dela, talvez por ironia dos deuses, a mãe do reconhecimento do candomblé paulista.

 
 
 
Negra alta, forte, de voz doce e cativante, Sylvia estudou enfermagem e comércio exterior e depois se tornou a executiva proprietária de uma empresa de trading entre o Brasil e diversos países africanos. Muito antes de se iniciar no candomblé  viajara para diferentes países da África, várias vezes. Conta que adorava a vida noturna, as reuniões com os amigos e que costumava viajar com seus amigos para a Argentina a fim de dançar tango nas casas em moda na época. Aos 40 anos, contudo, após ser vitimada por um acidente vascular cerebral, diminuiu muito suas atividades e se aproximou do terreiro de seu tio. Algum tempo depois sofreu novo "derrame", sendo este fato interpretado como um chamado para a iniciação por parte de Oxalufã.
 
 
 
Sucedendo seu tio na liderança do Axé Ilê Oba, viu-se na contingência de perder o grande terreiro, à época com mais de 200 filhos e filhas-de-santo,  para a família biológica, católica, que, embora herdando muitas outras propriedades do empresário e pai-de-santo, não concordava em abrir mão do imóvel onde se localiza o ilê. Sylvia tentou trocar propriedades pelo imóvel onde se assentavam todos os fundamentos do terreiro e o sonho de seu tio, sem nada conseguir.
 
 
 
Em 1986, ao receber um grupo de universitários que desejava estudar o candomblé, Sylvia percebeu a oportunidade de conseguir auxílio para a tentativa de um audacioso último recurso de salvação do terreiro: pedir seu tombamento ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico, Arqueológico e Turístico) como patrimônio cultural paulista. Estes estudantes envolveram seus professores na discussão da proposta e para fortalecer a ação dos intelectuais, a mãe-de-santo buscou também alianças com empresários e, por meio destes, com políticos e artistas. Fartamente documentada, pediu ao CONDEPHAAT, numa atitude inédita, o tombamento do próprio terreiro. Cada membro do Conselho que conhecia mãe Sylvia e o Axé Ilê Obá ia aos poucos se encantando com a beleza e o vigor do culto aos orixás e, quatro anos depois, o terreiro, fundado em 1972, era tombado como patrimônio cultural paulista, sendo o fato comemorado com grande pompa na Festa de Xangô, patrono do terreiro, com a presença de empresários, intelectuais e políticos (Amaral, 1991 e 1992). Não faltaram críticas a esse “inusitado” processo de reconhecimento  do  candomblé paulista, mas o tempo se encarregou de mostrar o acerto da decisão do órgão de estado quando outros candomblés desapareceram com a morte de seus líderes (Amaral, 1994).
 
 
 
Depois de garantido o espaço do culto, Sylvia estabeleceu projetos sociais para o terreiro, como a distribuição de cestas básicas à população carente dos arredores do terreiro e atendimento odontológico no próprio Axé Ilê Obá. Bancou uma oficina de artes onde são fabricadas e pintadas imagens de Iemanjá e que por isso recebe o nome de Oficina Odô Iyá, um projeto de qualificação de mão-de-obra apoiado pelo artista plástico Hugo Negrini. Hugo é um dos obás de Xangô do terreiro, pois Sylvia não hesitou em seguir o exemplo de Aninha sempre que pôde. Durante algum tempo sediou a Rádio Ilê, uma rádio comunitária, e já foi várias vezes ao exterior, inclusive à sede da ONU e a Moscou, a convite de ONGs e Secretarias, para falar sobre seus trabalhos e receber homenagens. Foi a primeira mãe-de-santo do candomblé paulista a receber a Medalha Anchieta e é freqüentemente escolhida para representar o candomblé paulista em eventos ecumênicos.
 
 
 
Sylvia é muito discreta, mas sabe-se que ela atende políticos dos níveis municipal ao federal, artistas e grandes empresários, com os quais estabelece alianças que lhe permitem realizar seus projetos, cujos principais são, atualmente, a criação da escola afro-brasileira, uma escola confessional para os filhos dos adeptos do candomblé e a realização de um antigo sonho de seu tio: um seminário para a ordenação de sacerdotes e sacerdotisas do candomblé. Mesmo com planos tão grandiosos, mãe Sylvia de Oxalá não perde de vista o ensinamento de suas ancestrais e mantém em funcionamento uma lojinha onde vende material de limpeza, (como convém a uma filha de Oxalá), geralmente produzido no terreiro. Ela, que não se casou nem teve filhos carnais, adotou dois e é mãe de centenas de filhos-de-santo e de filhos de outros tantos sem recursos e que recorrem a ela e às mães do terreiro, onde, sabem, sempre se encontra um bondoso Oxalá disposto a fazer renascer as esperanças que se perdem. 
 
 
 
 
 
Mãe Mirinha do Portão
 

Altamira Maria da Conceição, a Mãe Mirinha (1924-1989), conhecida como Mirinha do Portão foi outra mãe-de-santo, desta vez do rito angola, que mudou a vida dos que a conheceram e que fez reconhecer na Bahia, território nagocrático, a legitimidade do candomblé angola. Iniciada na religião aos 9 anos de idade pelo prestigiado  Joãozinho da Goméia (no terreiro de São Caetano, que hoje não mais existe ), mãe Mirinha fundou o São Jorge Filho da Goméia em 1948, quando tinha 24 anos.

 
 
 
Seu terreiro em Portão, no município de Lauro de Freitas, é mais conhecido como terreiro de mãe Mirinha do Portão e foi a primeira casa de candomblé da Bahia a ser tombada pelo governo do Estado, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), em 15 de abril de 2004. Conhecido por guardar e difundir as tradições bantu na Bahia, o terreiro de Mãe Mirinha teve em sua fundadora uma extrovertida líder espiritual e comunitária.
 
 
 
Mirinha foi a grande parteira da comunidade de Portão, uma região à época  tão distante e inacessível que a falta de transportes impedia mesmo que suas moradoras se dirigissem com facilidade para clínicas e hospitais na hora imprevista do nascimento de seus filhos. Talvez considerando esse contexto é que Mãe Mirinha tenha resolvido cursar Enfermagem; para melhor ajudar a comunidade. Foi ela, também, que insistiu com o então governador da Bahia, Roberto Santos, para que implantasse um hospital no lugar, conseguindo que fosse criado o Hospital Menandro de Farias, que atende hoje a toda região de Lauro de Freitas. Por sua atuação na região, o pólo turístico localizado à margem direita do rio Joanes recebeu o nome de Terminal Turístico Mãe Mirinha do Portão.
 
 
 
Antes de morrer, cuidando para que não se perdesse o terreiro, mãe Mirinha, usando estratégia semelhante à de mãe Sylvia, em São Paulo, solicitou ao IPAC o tombamento do São Jorge Filho da Goméia, um dos poucos bantu de Salvador, garantindo aos inkices sua presença no universo religioso local e nacional, ao lado dos orixás iorubas.
 
 
 
Conclusão
 

Seria impossível fazer justiça, neste espaço, a todas as mães-de-santo, negras, mulatas ou brancas, de todas as regiões do país, que de alguma forma contribuíram para que a cultura afro-brasileira saísse dos grilhões e das senzalas e fosse ocupando as ruas com os afoxés e maracatus, as noites, com sambas e jongos, as mesas de refeição, com seus pratos e temperos, a língua nacional, com seus termos próprios, os livros de contos e científicos, a música popular brasileira, o cinema, as novelas, os palácios de governo e a Internet. Elas são milhares, no tempo e no espaço, mas podem ser simbolizadas em nomes sempre repetidos como orações, quando se conta a história de sua cultura. Mulheres que sabiam e ensinaram, como Dadi, da Irmandade da Boa Morte, que "Não pode é comer sozinha. Se comer sozinha, aí é que tá o perigo". Conhecimento também tido e transmitido por outras mães, já falecidas ou vivíssimas, como Andresa, Dudu, Nanã de Aracaju, Luíza, Nicinha, Nitinha, Nilzete, Stella, Beata, Angelina, Alaísia, Juju, Dalva, Zefinha, Das Dores, Moça, Manodê, Sandra Epega, Santinha, Estelita, Filinha, Ernestina, Meruca, Meninazinha, Dagmar, Hilda, Celeste, Deni, Gui Lupe, Cantulina, Wanda, Cotinha, Cleusa, Dadá, Dona Elda, Dona Rosinete, Dona Mariú e tantas outras. Mães-de-santo, de jongo, de sambas e maracatus, de congos, de quitutes, de ritmos, de tantas esperanças e tantos refúgios, de tanta bravura e, especialmente, de tanta arte, tanta beleza e tanta cultura que elas cuidadosamente protegeram e protegem sob as asas rendadas de seus ojá-ori.


 
 
Notas
 
Parece oportuno lembrar aqui o exemplo importante de Luciana de Abreu (1847-1880) professora gaúcha, negra, defensora dos direitos das mulheres, que foi a primeira mulher gaúcha a discursar em público, na tribuna da Sociedade Partenon Literário, organização abolicionista e republicana que defendia o direito das mulheres à instrução, e que as primeiras organizações de mulheres criadas no Brasil tinham causa abolicionista. Entre elas estava a Sociedade das Senhoras Libertadoras, lideradas por Maria Tomásia Figueira, Elvira Pinho e Maria Correia do Amaral, que promoviam atos pela abolição percorrendo o interior do Ceará e fundando associações até 1884, quando a Assembléia Legislativa provincial aboliu a escravatura no Ceará. (cf. Shumacher, 2003).
Ver Birman, 1995, Prandi, 1996, Segato, 1995, Bernardo, 2003 e muitos outros. 
As relações e a interpermeabilidade entre as religiões afro-brasileiras e a cultura nacional têm sido objeto de uma ampla pesquisa (envolvendo estas relações nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife e São Luiz), que eu e Vagner Gonçalves da Silva vimos realizando desde 1999, com financiamento da FAPESP.
A palavra quitute, de origem africana (kitutu) parece ter se incorporado ao vocabulário português justamente pela presença dessas vendedoras nas ruas, que os ofereciam brincando com os passantes dizendo: aceita um kitutu (indigestão)? 
As mulheres em geral não participavam de grupos de conversa masculinos e sua presença não era permitida à mesa quando havia visitas. Não podia estar nas ruas quando anoitecesse. A mulher estava sujeita aos desejos do marido em quase todos os assuntos, esperando-se dela obediência e submissão. Sendo preparada para o papel de esposa e mãe, a situação da mulher viúva era também muito difícil, recebendo assistência de parentes. A que permanecia solteira encontrava-se em situação ainda mais desvantajosa, tanto econômica como socialmente, pois permanecia sob o controle dos pais e, na falta destes, de irmãos, tios ou.mesmo cunhados. 
Ruth Landes termina o livro escrevendo sobre as mulheres do candomblé: "Penso que elas ajudam a engrandecer o Brasil. Acreditarão os americanos que haja um país em que as mulheres gostam dos homens, se sentem seguras e à vontade com eles e não os temem?" (Landes, 2002:316).
Mãe Senhora também manteve durante muitos anos uma quitanda de nome A vencedora, na rampa do Mercado Modelo, e mãe Stella de Oxóssi, enfermeira, também foi dona de loja.
Depois de Aninha, muitas mães de santo freqüentaram palácios de governos.
Mãe Aninha viajou ao Rio de Janeiro outras vezes. Diz-se, no meio religioso, que para prestar seus serviços religiosos a Getúlio Vargas, de quem se tornou amiga. Um desses rituais pedia aos orixás a recuperação da família do presidente de um acidente de automóvel sofrido na estrada Rio-Petrópolis. Numa dessas viagens, plantou o axé do Ilê Opô Afonjá do Rio de Janeiro, no subúrbio carioca de Coelho da Rocha. (Correio da Bahia, 10/03/2004).
No IV Colóquio Luso-Brasileiro, o Opô Afonjá abriu suas portas para pesquisadores e cientistas, oferecendo-lhes o amalá de Xangô (comida votiva do orixá). Jorge Amado, na época já um  obá, recebeu os congressistas com as seguintes palavras: "Sede bem vindos a esta casa de Xangô e que as graças dos orixás protejam vosso amor à cultura, vossa dedicação a estudos tão importantes para nós, brasileiros. Os escravos venceram no tempo os senhores de escravos e hoje Xangô reina na Bahia, em que pesem os múltiplos e terríveis métodos empregados para apagá-lo de nossa memória" (Diário de Notícias, Salvador, 30/08/1959),
Mãe Senhora foi a mãe-de-santo que consolidou nacionalmente o prestígio do Opô Afonjá. Para saber mais a respeito de sua biografia e trajetória religiosa veja Santos & Nóbrega, 2000.
Bebiana, irmã de santo de Tia Ciata foi, por sua vez, personagem central na primeira fase dos ranchos de Carnaval.
Declarou-se, inclusive, co-autora, com Hilário Jovino, do polêmico samba Pelo Telefone.
Forma de dançar o samba com os pés juntos e passos minúsculos, que exige equilíbrio, destreza e elegância.
Dança de roda, espécie de samba, que só é dançado à noite e se movimenta em sentido anti-horário. É acompanhada por tambores próprios de jongo, como o candongueiro e o caxambu.
Drama coreografado em que os figurantes representam, entre cantos e danças, a coroação de um rei do Congo.
Dança guerreira de origem bantu, sem enredo, ao som de instrumentos de percussão, semelhante às danças de combate das congadas, no qual o ritmo é marcado com entrechoques de bastões.
A dança com as calungas tem caráter religioso e é obrigatória na porta das Igrejas, representando um "agrado" à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Quando o maracatu visita um terreiro homenageia os orixás. A calunga é levada nas mãos de uma dama do paço, sempre mantida erguida na altura dos seios. Essa boneca jamais vai ao chão ou é abaixada.
As mães afro-brasileiras e suas religiões desempenham muitas vezes o papel de elemento reorganizador psicológico para as estressadas classes médias urbanas ao recoloca-las diante da real simplicidade das necessidades humanas. As palavras da equede Dadi, da Irmandade da Boa Morte, de Cachoeira, são exemplares do exercício do papel maternal representado por estas mães religiosas mesmo para os não iniciados: "A gente cuida do ispírito da gente e dos ôtro também. [...] pur ixemplo [...] você sente, digamos, qualqué problema assim, diz assim: ô Dadi, eu tô aqui, cum dô, sentino uma dô de cabeça, tô aqui mal, ficano tonta... Eu, se num pudé lhe dá, dizê: ó, tome um banho, num sei quê... Vô, eu vô. Purque num toma tal remédio, fica aqui, toma um num sei quê, discansa um pouquinho, tome um banho, relaxe e tal... Aí convessa... lhe bota você à vontade, uma convessa sadia... aí você vai relaxá, se você, às vez, até dorme, quando acorda, já tá boa. E isso vai passando, é pur isso que quando chega assim uma pessoa aflita, assim, cheia de problemas, aí, ah!... senta aqui, vamo convessá... aí convessa e vai, e convessa aqui, convessa ali e calma, e tá cum fome, a gente dá cumida; tá discalça, dá sapato ou num sei quê lá... já sai ali, chega chorando e sai dando risada. Cansa de acontecê, cansa de acontecê". (Dadi em entrevista a Machado, 1996).
Toada de maracatu Negrada olha a linha (domínio público)
Mesmo morando numa ilha, Malvina ia a Tramandaí, no Rio Grande do Sul, para as homenagens a Iemanjá.

 

Webgrafia

Luiz Américo – A História da MPB

NordesteWeb

Jornal do Commercio

Correio da Bahia

 
 
 
Bibliografia
Amaral, Rita. O tombamento de um terreiro de candomblé em São Paulo. In Comunicações do ISER, no. 41, Rio de Janeiro, 1991.
Amaral, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. Um estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulistano. Dissertação de Mestrado, FFLCH / USP, São Paulo, 1992.
Amaral, Rita. “Povo-de-Santo, Povo de Festa - a centralidade da festa de candomblé como potência estruturante da religião“. In  Os Urbanitas Revista de Antropologia Urbana, INTERNET - SÃO PAULO, V. 1, no. 1, 2004. 
Amaral, Rita. A Morte do Pai-de-Santo. Implicações e dificuldades para a continuidade dos terreiros de candomblé In: BOLETIM DA ABA no. 22, março. Associação Brasileira de Antropologia, Florianópolis, 1994.
Amaral, Rita. Xirê! O modo de crer e de viver do candomblé. EDUC / Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2002.
Azevedo, Thales de. As Elites de Cor numa Cidade Brasileira. Um estudo de ascensão social & Classes Sociais e Grupos de Prestígio, EDUFBA, Salvador, 1996.
Bernardo, Teresinha. Negras mulheres e mães. Lembranças de Olga de Alaketu. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2003.
Birman, Patrícia. Fazer estilo, criando gêneros. Possessão e diferenças de gênero em terreiros de Umbanda e Candomblé no Rio de Janeiro. Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1995.
Birman, Patrícia. Yalorixás do Recife In: Cadernos de Antropologia e Imagem. Rio de Janeiro: , v.7, p.171 - 173, 1998.
Brandão, Maria do Carmo & Motta, Roberto. Adão e Badia: carisma e tradição no xangô de Pernambuco. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Dantas, Beatriz Góis. Nanã de Aracaju: trajetória de uma mãe plural. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Dion, Michel. Omindarewá uma francesa no candomblé - em busca de uma outra verdade Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2002.
Corrêa, Norton F. Mãe Moça da Oxum: cotidiano e sociabilidade. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Ferretti, Sérgio. Andresa e Dudu – Os Jeje e os Nagôs: apogeu e declínio de duas casas fundadoras do tambor-de-mina maranhense. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Joaquim, Maria Salete. O Papel da liderança religiosa feminina na construção da identidade negra Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2001.
Landes, Ruth. A Cidade das Mulheres, Editora da UFRJ, Rio de Janeiro, 2002.[1932].
Lima, Vivaldo da Costa. A família-de-santo nos Candomblés Jeje-Nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais. Mestrado em Ciências Humanas / UFBA, Salvador, 1977.
Lisboa Junior, Luiz Américo. A Presença da Bahia na Música Popular Brasileira Ed. Musimed, Brasília, 1998.
Lisboa Junior, Luiz Américo. 81 Temas da Música Popular Brasileira Ed. Agora, Itabuna, 2000.
Machado, Jucinete Maria. Irmandade da Boa Morte. A Comunicação do Mistério. Projeto Experimental para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social. Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1997.
Martins, Cléo & Lody, Raul (orgs.) Faraimará: o caçador traz alegria Mãe Stella - 60 anos de iniciação. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2001.
Moura, Carlos Eugênio Marcondes de. (org.) Candomblé: Religião do Corpo e da Alma tipos psicológicos nas religiões afro-brasileiras. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2003.
Moura, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. FUNARTE, Rio de Janeiro, 1983.
Oliveira, Waldir Freitas & Lima, Vivaldo da Costa. Cartas de Édison Carneiro a Artur Ramos, de 4 de janeiro de 1936 a 6 de dezembro de 1938. Coleção Baianada, Editora Corrupio, Salvador, 1987.
Pierson, Donald. Brancos e pretos na Bahia (estudo de contacto racial). Cia. Editora Nacional. São Paulo, [1942] 1971 (publicado originalmente sob o título Negroes in Brazil: a study of race contact in Bahia, University of Chicago Press)
Prandi, Reginaldo. Herdeiras do Axé. Hucitec, São Paulo, 1996.
Rios, Luís Felipe. A fluxização da umbanda carioca e do candomblé baiano em Terras Brasilis e a reconfiguração dos campos afro-religiosos locais. In: CD-ROM Naya 2000, UBA/Equipo Naya, 2000.
Santos, José Félix dos & Nóbrega, Cida (orgs.) Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora: saudade e memória. Editora Corrupio, Salvador, 2000.
Santos, Jocélio Telles dos. Menininha do Gantois: a sacralização do poder. In: Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Schumacher, Schuma. Primeira onda feminista. In: Mulher, 500 Anos atrás dos Panos – Artigos. (Disponível via www no URL http://www.mulher500.org.br/artigos_detalhe.asp?cod=9), REDEH - Rede de Desenvolvimento Humano, Rio de Janeiro, 2003.
Segato, Rita Laura. Santos e Daimones UNB, Brasília 1995.
Silva, Vagner Gonçalves da. (org.) Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira. Editora Selo Negro, São Paulo, 2002.
Theodoro, Helena. Mito e Espiritualidade - mulheres negras.  Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2000.
Tramonte, Cristiana Com a Bandeira de Oxalá - Trajetórias, Práticas e Concepções das Religiões Afro-Brasileiras na Grande Florianópolis. Diálogo Cultura e Comunicação, UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí) e Lunardelli Editora, Florianópolis, 2000.
Tramonte, Cristiana. Aspectos sociais das religiões afro-brasileiras: convivendo na diversidade para uma integração sem barreiras. In: TERCER CONGRESO VIRTUAL "Integración sin Barreras en el Siglo XXI". Red de Integración Especial, Madrid, 2002.
Tramonte, Cristiana. Festejando os Pretos Velhos: da senzala ao reinado, as estratégias da umbanda no perÍodo autoritário em Santa Catarina. In: Os Urbanitas –Revista  de Antropologia Urbana. Ano 1, no. 01, Edição Aguaforte, (disponível via WWW no URL www.osurbanitas.org/tramonte2004a.html ), São Paulo/Internet, 2004.
Yemonjá, Mãe Beata de. Caroço de Dendê. A sabedoria dos terreiros. Como ialorixás e babalorixás passam conhecimentos a seus filhos. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2000.
Site Meter