Pós
1960: Arte e Vida na cidade
Abordar
a inserção da arte - neste artigo em especial, a performance
- no espaço da cidade significa antes de tudo falar da relação
entre arte e vida. Tratamos de uma arte que extrai a sua poética
do real, na externalidade, do que é vivo na cidade, do que o humano
atualiza em suas relações simbólicas e valorativas
contemporâneas. A arte contamina e contamina-se com o mundo vivido,
permanentemente, como um fenômeno que se apresenta ao homem de forma
continuamente renovada.
A
cidade em sua complexidade, a cidade em sua polifonia, a cidade em sua
dimensão artística, suas contradições e ambigüidades,
não se deixa compreender ou explicar como um todo sob um único
ponto de vista, mas através de seus índices, rastros, margens,
sob várias óticas em diversidade, como tessitura de multiplicidade.
Atuar
neste texto contexto seja como ator-cidadão, seja como historiador,
antropólogo, arquiteto, urbanista, artista exige uma postura de
permanente questionamento do real; uma pergunta que, em primeira instância,
se dirige à questão dos limites: o limite entre o artista
e seu público, o limite entre a obra e seu fruidor, entre palco
do teatro e palco da vida cotidiana. Mais além, os limites entre
público e privado na cidade contemporânea ambígua e
plural que somatiza espaços de dominação, de poder,
de celebração, de exclusão.
Qual a postura da arte?
Mascarar ou expor, problematizar o real? De que modo a arte lida com os
“lugares”, ou com os “não lugares”? Certamente, é apostar
que o real deve ser renovadamente sentido, compreendido e explicado pelo
homem em todas as suas instâncias – mítica, racional, existencial
e social.
Se
para Heidegger, construir é uma extensão do ser homem que
primeiro é e depois habita conferindo ao lugar uma dimensão
de presença metafísica, que pensar do “lugar” contemporâneo
referido ao homem que hoje habita? Este homem habita uma cidade, uma complexidade.
Para
o arquiteto Ignasi Sola-Morales:
Segue possível
a construção do lugar. Não como desvelamento de algo
permanentemente existente. (...) Não se trata de propor uma arquitetura
efêmera, instantânea e passageira. O que se defende nestas
linhas é o valor dos lugares produzidos pelo encontro de energias
atuais, graças à força de dispositivos projetuais
capazes de provocar as extensões de suas ondulações
e a intensidade que sua presença produz. O lugar contemporâneo
deve ser um cruzamento de caminhos (...) uma fundação conjuntural.
(Sola-Morales,1995, p.124)
Nossa
investigação no campo da história e da crítica,
trata de obras artísticas que, via externalidade, como abertura
ao real, tenham ultrapassado as limitações das categorias
de representação (passado) e determinação (futuro)
através de uma dialética própria dos sistemas abertos.
Assim,
ao lidar com situações para as quais se tenha atribuído
um valor historicamente, a arte pretende se inscrever na tessitura de um
processo de construção de mundo e de memória que não
é um resgate, mas sim uma dialética que acolhe a diferença
e a multiplicidade.
Para
nós, o “lugar” assim descrito é um entre passado e futuro.
Assim como a memória é uma construção presente,
é também um campo de tensão entre “experiência”
e “expectativa” (Reinhardt Koselleck).
Merleau-Ponty
descreve o pensamento dialético como aquele que admite ações
recíprocas e interações. Segundo o autor, a boa dialética
encara sem restrição a pluralidade das relações
e a ambigüidade, uma dialética sem síntese, que não
redunda em uma outra positividade. A significação aparece
não como uma tese ou ideal, mas como uma tendência.
Trata-se
de um modo de pensamento que abre seu próprio caminho, inteiramente
subordinado a seu conteúdo, de quem recebe incentivo, mas não
um reflexo ou cópia de um processo exterior; é o engendramento
de uma situação a partir de outra.
Uma
das tarefas da dialética, como pensamento de situação,
pensamento em contato com o ser, é sacudir as falsas evidências,
denunciar as significações cortadas da experiência
do ser, esvaziadas, e criticar-se a si mesma na medida em que se venha
a tornar uma delas. (Merleau-Ponty,1964,p.93)
É
preciso que os agentes contemporâneos, os “atores” da cidade, questionem
e assim percebam a paisagem urbana como abertura a formas outras de experiência,
voltando-se inclusive para o que se deixava “esquecido”.
Poderíamos
associar um processo “arqueológico”, para usar o termo de Michel
Foucault, com um processo poético em que o imaginário e o
simbólico exploram a riqueza de significações do mundo;
um jogo em que a realidade é potência criativa. Não
podemos deixar de mencionar o trabalho no campo da arte de Robert Smithson
combinando diferentes meios (fotografia, filme, trabalhos de terra, texto
etc) para combinar imaginário, simbólico e real, interpretando
o presente como uma ficção onde se encontram passado e futuro,
como a exemplo das máquinas escavadoras, dinossauros contemporâneos.
As
experiências da arte pós 1960 resultaram em uma maior flexibilidade
dos limites entre os próprios meios artísticos, não
mais separados por especificidades técnicas, mas aproximados como
dimensões do sensível do corpo, senciente. Os trabalhos encontram
sentido na própria relação do espectador com a obra,
em sua experiência no tempo e no espaço, em sua “presentidade”
(presentness, termo do artista americano Robert Morris).
Escultura,
pintura, teatro, música e dança muito se aproximam entre
si se colocando em um tipo de relação de abertura para com
o “mundo da vida”, ou ainda uma situação, um contexto. Como
aponta Argan, tratando da superação da noção
de objeto artístico autônomo, “o protagonista da experiência
estética passa a ser o ambiente, enquanto espaço em que os
indivíduos e grupos sociais se inserem e vivem, enquanto o outro,
no sentido mais amplo, com que se defronta o si”. (Argan,
1992, p.589)
A
autonomia da obra de arte como algo que possui uma verdade em si a ser
revelada é posta em cheque, questiona-se a “aura” do objeto artístico
e também o artista como um agente específico e privilegiado,
cuja posição se destaca acima dos demais. A arte se aproxima
da vida e questiona o limite entre o popular e o erudito, reforçando
a noção de arte como ação e não, representação.
Assim,
trabalhos como apresentações de teatro que utilizam o real,
palco da vida, como palco de suas performances, esculturas, instalações
de arte ou mesmo obras de arquitetura que exploram a relação
do sujeito, agente da cidade ou ator do cotidiano como um modo de participação,
questionam e recriam o modo de experiência pública/ privada
dos espaços urbanos.
No
campo do teatro, a investigação sobre a flexibilização
dos limites entre arte e vida será tratada através de performance
de Richard Schechner tal como exposta em seu livro Performance Theory.
No campo “arquitetura entre escultura”, partiremos do trabalho do artista
contemporâneo Vito Acconci que se destaca por seu trânsito
entre diversas disciplinas, também a performance.
Em
seus trabalhos - performances, vídeos, instalações,
projetos arquitetônicos - Acconci questiona diretamente os limites
entre os espaços público e privado: a casa do artista e o
museu, o praça como lugar de ações espontâneas,
a exposição do caráter público dos locais de
moradia dos sem-teto, o caráter da cidade como palco das ações
e ficções humanas.
Para
o artista, o homem só se descobre quando mergulha no outro, participa
e se identifica como coletivo. Em seus trabalhos, Acconci explora o lugar
da arte face ao caráter dinâmico e contraditório do
espaço público, que entende não como o espaço
de teatral onde ação e público se separam – e que
Richard Schechner também irá questionar - mas como o espaço
da galeria onde realiza suas performances. A arte que se dá não
em um espaço, mas através do espaço: “background:
where the pieces were live” (Acconci, 1977), o espaço
é proposto como motivo para a ação do público
em sua performance cotidiana. Mas, afirma Victor Turner, “não há
um espelho entre arte e vida, vida e arte, exatamente como um espelho plano,
mas um espelho matricial; a cada troca, experiência, algo novo é
adicionado e algo antigo é descartado. Os homens aprendem pela experiência,
por um processo contínuo de mudança”. (Turner apud. Schechner,
p.191)
Para
Richard Schechner, a performance como arte restitui a dimensão do
mito e do imaginário da cidade, tanto no campo estético quando
no social. Os valores simbólicos da cidade estão diretamente
ligados à noção coletiva de espaço, de comunhão
e participação.
Este
é, portanto um dos papéis da arte: renovar a experiência
do urbano.
Performance
Social e Performance Estética
A
interpretação da sociedade como um teatro é uma concepção
antiga. Platão enunciou o mundo como um grande teatro – tradição
que ficou conhecida como Theatrum Mundi. Nesta visão, a vida
humana é como um espetáculo de fantoches encenado pelos deuses
(Lima, 2000, p.307). Ou ainda, o mundo é um
espetáculo dirigido por Deus e representado pelos seres humanos,
visão que ficou generalizada na Idade Média.
A
partir do Renascimento e, principalmente no período Barroco, a imagem
do mundo como teatro está relacionada a uma nova noção
de público: todos são espectadores uns dos outros, a vida
diária é uma grande encenação, uma aparência.
O célebre historiador Jacob Burckhardt constrói sua história
cultural do Renascimento ampliando a noção de arte a todas
as esferas de ação humana. Para Rousseau a cidade renascentista
é um palco de representação do eu.
A
praça é este palco: “o lugar onde os desconhecidos podem
se encontrar e utilizar suas ‘máscaras’” (Lima,
2000, p.308). Esta concepção encontra paralelo na definição
de Schechner de Performance Social: as máscaras são os próprios
papéis sociais desempenhados na vida cotidiana.
Na
Performance social, os espaços urbanos, historicamente, se delinearam
como monumentais espaços cênicos, tomando o sujeito como um
observador contemplativo do espetáculo da cidade que ergueu símbolos
arquitetônicos do poder.
Definindo
Performance Social e Performance Estética, Schechner salienta que
os políticos, ativistas, militantes, terroristas, todos usam técnicas
teatrais para dar suporte à ação social e que os artistas
usam ações da vida social como tema para de sua arte. Vida
e arte trocam experiências de performance em todas as suas manifestações;
e, nesse sentido, considera que a experiência da performance pode
restituir tanto à vida quanto à arte elementos referentes
à dimensão simbólica do homem.
Schechner
compreende a performance como um modo de comportamento que caracteriza
qualquer atividade e, mais restritamente, uma atividade feita por um indivíduo
ou um grupo na presença de e para outro indivíduo ou grupo
(Schechner, 1977, p.30).
É
também, para o autor, uma manifestação que transita
entre os pólos do “ritual” (mecanismos para garantia de força
e poder) e do “entretenimento” que estabelecem entre si uma tensão
dialética. Para definir esta tensão, o autor usa a imagem
de gêmeos acrobatas, nenhum está no topo ou abaixo, estão
em uma dinâmica, e o teatro é uma mistura de ambos (Schechner,
1977, p.123).
No
caso da Performance estética, a proposta teatral busca evidenciar
um espelhamento entre o real e a cena que utiliza o espaço urbano
para promover uma maior identificação entre público
e ator.
Para
Schechner, o “teatro de rua” restitui a função da festa à
cidade, recupera a memória dos espaços simbólicos
através da criação artística, apontando para
a dimensão mítica da cidade muitas vezes perdida na saturação
e ilegibilidade da cidade. O teatro, para o autor, viria se realizar como
modo de recriação do espaço urbano, abrindo-se e abrindo-o
dialeticamente.
Assim,
o conceito de performance pode ser entendido como ação humana
em todos os meios artísticos - música, poesia, artes plásticas
e teatro – como participação algo que se dá
também no envolvimento dos atores/ agentes urbanos em festas religiosas
e até manifestações cívicas que cumprem um
papel de memória de seus bens simbólicos.
Andreas
Huyssen esclarece que “a memória vivida é ativa, viva, incorporada
no social – isto é, em indivíduos, famílias, grupos,
nações e regiões”. (Huyssen,
2000, p.36-37). Para Gilberto Velho, “memória, identidade e projeto”
constituem o campo da cultura, algo que é necessário se pensar
na contemporaneidade e diante das questões também de uma
flexibilização de limites identitários e o questionamento
de noções totalizantes de projeto. A abertura ao real e à
diferença são ainda questões éticas e de relação
de suma importância diante dos conflitos sociais.
Desde
1960, a arte assumiu, em muitos casos, posturas de protesto, reinvindicando
o status do “marginal” (e lembramos de Helio Oiticica), daquilo que é
deixado à margem, fora das grandes narrativas legitimadoras de poder,
fora do circuito que transforma a arte e a cultura em objeto de consumo.
A
postura do artista não é vivenciar a memória como
uma “alegoria do patrimônio”, lembrando a expressão de Françoise
Choay.
O
artista retoma as formas nobres não para repeti-las, e sim para
criar. Portanto, a performance em sua dimensão criativa e artística
tem a função de no espaço urbano trazer o passado
para o presente valorizando a própria linguagem simbólica
da paisagem – a sua dimensão de lugar ou, melhor os seus múltiplos
indícios ou fragmentos, as camadas de significação
presentes ou possíveis de serem escavadas da sedimentação
temporal da paisagem.
O
lugar, mais que espaço físico, algo delimitado e instaurado
pela atividade simbolizadora do homem, esforço de sua imaginação
e produto da construção de sua memória coletiva –
que Vittorio Gregotti chama de “lugar antropogeográfico”.
Arte
e Lugar
A
relação entre homem e espaço geográfico se
instaura desde as comunidades primitivas através do processo de
simbolização. Schechner nos relata que os primeiros teatros
foram os ‘centros de cerimônia’; não eram ‘espaços
naturais’, mas ‘espaços culturais’ na medida em que o homem intervinha
sobre ele.
A
transformação do espaço em lugar significa escrever
sobre ele, daí surgiram os primeiros marcos nos centros de cerimônia
– monumentos simbólicos. Os centros de cerimônia tinham a
função de, através da performance, garantir harmonia
nos campos político, religioso, econômico às comunidades
(Schechner, 1977, p.156-7).
Manifestações
rituais da Antiguidade criaram simbolicamente para a cidade a noção
de genius loci que garantiria aos habitantes o equilíbrio da comunidade
como nos explica Evelyn Lima:
A escolha do lugar
tanto para a construção como para uma cidade tinha um valor
preeminente no mundo clássico: a ‘situação’, o sítio,
era governado pelo genius loci, pela divindade local, uma divindade de
tipo intermediário que presidia tudo que ocorria naquele lugar (Lima,
2000, p.159).
Esta
noção retomada por arquitetos como Aldo Rossi, após
a década de 1960 quando da crítica à cidade funcionalista,
em defesa da dimensão simbólica do espaço urbano.
O genius loci foi associado em arquitetura à noção
de “tipo”, permanente nas configurações espaciais de um lugar,
no tempo, e que deveria ser tomado como um modo de construção
de memória, passado no presente, referenciado ao próprio
ser, o habitar historicamente dos homens em uma situação
cultural.
Contemporaneamente,
e nas cidades modernas, é muito difícil encontrarmos situações
em que se possa definir propriamente a totalidade de um espaço urbano
como lugar; quase sempre, encontramos a tensão que chamamos de lugar
entre não–lugar, para teoricamente problematizar a noção
de planejamento e controle das ações na cidade.
A
paisagem contemporânea muitas vezes se converte em lugar de passagem
e não de permanência. E o que é experienciar esta realidade?
Talvez
como eventos situados. É o que se dá nas ações
de performance estética que suscitam o questionamento da própria
performance social.
Um
trabalhos interessantes, sintonizado com esta proposta é o Teatro
del Mondo (1979-1980) do arquiteto Aldo Rossi – uma arquitetura itinerante
e flutuante, referenciada à tradição veneziana, que
em seu percurso transformava a paisagem, tornando-a ela mesma um novo cenário,
palco da performance em que arte e vida se entrelaçam.
A
experimentação dos espaços da cidade, convertidos
em locais de festa, jogo e de participação, trabalhando com
os modos de apropriação dos espaços pelos indivíduos,
criativamente sugere uma outra espécie de envolvimento dos habitantes/
atores com as suas cidades.
O
cidadão urbano não é dono do espaço público
que, em princípio, a ele caberia usufruir. Uma das alegrias do Carnaval
é poder dançar, brincar em espaços que normalmente
nos são proibidos em nosso dia-a-dia. É uma alegria enorme,
há uma incrível sensação de liberdade quando
conseguimos participar desse espaço, penetrá-lo, estabelecer
um relacionamento afetivo, mais profundo com ele. (RIOARTE. Apud. Cardoso,2000,
p.200).
Assim,
o teatro de rua que utiliza o espaço público como espaço
cênico, torna possível a reversibilidade entre “real” e “ficcional’
ou “real” e “imaginário”, também simbólico. O relacionamento
afetivo com o espaço é fruto dos laços simbólicos
e imaginários que e podem estabelecer com o real, com o cotidiano.
No
espaço da cidade, a praça é historicamente considerada
um centro de cerimônia, é “uma forma urbana que marca o imaginário
da população como referencial físico e afetivo. É
fato que a memória coletiva se apega aos espaços e aos símbolos
físicos” (Lima, 2000, 336). A própria
configuração física da praça a sugere como
um palco cercado por edificações que configuram um cenário
urbano, repleto de símbolos de “imaginabilidade” tal como na compreensão
de Kevin Lynch para quem uma imagem é capaz de estruturar a percepção
do ambiente pelo observador.
Segundo
Camillo Sitte uma praça “libertaria a alma do homem moderno da maldição
da solidão urbana e do medo do vazio e do imenso trepidante. O espaço
anônimo, graças à delimitação de uma
área de praça tem o poder de converter-se em cenário
de infinita riqueza urbana” (Lima, 2000, p.98). Para este arquiteto, a
praça se caracteriza, então como um espaço não
anônimo, que precisa de expressão, que precisa da criação,
que precisa de imaginário. A praça destituída dos
valores simbólicos e de passagem se torna um mero lugar de passagem
que pretende retomar como um espaço efetivamente público,
apropriado pelo coletivo.
Teatro
e performance no espaço urbano
A
praça é, historicamente, um local da performance social,
desde a Ágora grega, e depois nas Praças de Comércio,
catedrais medievais e, finalmente, no uso cênico da perspectiva no
planejamento dos espaços urbanos da cidade Barroca configurando
as praças das igrejas e dos palácios do poder.
A
partir do século XIX, a exemplo de Paris, a rua é também
passarela dos costumes e da moda, ditando as regras do jogo social. Todas
elas, expressões de performance ligadas à intenção
ritual na constituição de mitos do poder e da auto-afirmação.
Na
Grécia, as festas religiosas são dramas representados nos
teatros ao ar livre. Os odeons eram pequeninos teatros destinados unicamente
a audições musicais. O espaço da performance estética
é aberto ao espaço da performance social, dialogando entre
si e aproximando as noções de vida e arte.
Na
Idade Média, os Mistérios eram encenados nos pátios
das igrejas e nas praças públicas; não evocavam os
mistérios da fé, mas tinham a função de serviço
público através do ensinamento sob a forma de diversão
como em Roma e na Grécia. Nesse período, quase todas as cidades
européias tinham em seus espaços públicos inúmeras
manifestações artísticas. Além das farsas representadas
em palcos móveis, saltimbancos, acrobatas, trovadores e bufões
se exibiam em praças, largos, feiras e lugares de peregrinação.
(Cardoso, 2000, p.99-100).
Sobre
a experiência da performance no espaço público medieval
garantindo ao cidadão ‘senso de pertencer’ e identificação,
destaca-se que aqueles que caminhavam pela cidade medieval em suas atividades
cotidianas, num cortejo de guilda ou que tomavam parte de uma procissão
religiosa, passavam por todas aquelas experiências estáticas
e, no próprio voltar e retornar da procissão, viam-se de
antemão como num espelho, observando as outras partes da cerimônia;
daí que o participante e o espectador se identificavam, diferente
do que ocorre em paradas formal em linha reta.
Esta
relação de espelhamento entre o participante e o espectador
é a razão pela qual se vai a uma performance; segundo Schechner:
“testemunhar eventos miméticos que relacionam o espectador ao seu
próximo” (Schechner, 1977, p.32).
O
teatro de rua declinara na Renascença e “o entretenimento popular
tomou predominantemente os teatros públicos elisabetanos. (...)
Todos os teatros foram fechados em 1642 pelos puritanos; e só foram
reabertos na restauração de 1660 os teatros exclusivos das
as classes mais altas” (Schechner, 1977, p.190).
É
a partir daí que a encenação deixa o espaço
público e passa a ocupar o edifício teatral, institucionalizando
a separação entre público e platéia, um modelo
que para Schechner se encontra esgotado:
O
teatro atrás de proscênios, em lugares fixos, para uma audiência
fixa, relatando historias como se tivessem acontecido para outros acabou.
Pelo menos este tipo de teatro não preenche as necessidades de muitas
pessoas, como o antigo teatro por ele mesmo, combinando rito e entretenimento.
Estas necessidades incluem a interatividade entre os grupos como uma das
formas de remediar a correria dos mecanismos tecnológicos. (Schechner,
1977, p.146 – grifo nosso)
A
partir da segunda metade do séc XX, muitos diretores experimentais
exploraram inúmeras possibilidades de espaços não
tradicionais. O teatro pôde ser visto nas ruas, parques, fábricas
e armazéns, muitas vezes em locais marginais.
A
proposta deste teatro é revelar o significado e o potencial dos
espaços, fazendo das estruturas cênicas uma parte calculada
da própria experiência. Nesse sentido o espaço urbano
se revela como potência inclusive para novas experiências cotidianas,
é a arte revitalizando os usos dos espaços e provocando mudanças
na forma de percepção do cidadão do seu espaço
cotidiano.
Quando
o Teatro se propõe a fazer do espaço urbano o espaço
cênico, procura afirmar a relação entre o que está
sendo representado e a vida real. Ao mesmo tempo em que explicita o valor
artístico do espaço, revela a cidade como um espaço
da performance. Assim, o espaço da performance estabelece uma profunda
relação com a ação que nele se desenvolve.
Tendo
a cidade como cenário, a performance é capaz de promover
uma mudança da experiência estética e também
social: “o teatro é concebido para entreter e algumas vezes para
causar mudanças na percepção, em pontos de vista,
em atitudes: em outras palavras, fazer com que os espectadores reajam ao
mundo do drama social de novas formas”. (Schechner, 1977, p.61)
É
nesse sentido que a performance pode restituir à cidade tanto a
dimensão da festa quanto de mito e participação, desvalorizadas
após as intervenções urbanas do funcionalismo modernista
quando a cidade é entendida como máquina, como campo da técnica,
e, contemporaneamente, como palco do consumo desenfreado.
Teixeira
Coelho aponta em Moderno Pós Moderno: “não há mais
festas nas grandes cidades, nem festa, nem recreação, nem
vida afetiva. (...) De todas as antigas funções da cidade
restaram a do trabalho (massacrante), a do morar (indigno) e a do deslocar-se
(eterno)”. (Coelho, 1995, p.73)
Como
exemplo de renovação urbana a partir do teatro, os Festivais
de Teatro nos anos 60 e 70, nas cidades européias, tomam os espaços
urbanos para performances artísticas transformando por vezes, cidades
inteiras em grandes teatros, mesmo fora do período desses festivais.
(Carlson ApudCardoso, p.198).
Também
os grupos como “Ta na Rua”, nos anos 1980, que promoveram uma incursão
teatral em vários locais da cidade do RJ, buscaram espaços
livres, como alternativa às paredes institucionalizadas das salas
de espetáculo.
De
um modo geral, os diretores teatrais que utilizaram as ruas e outras localizações
urbanas não tradicionais, não desejavam repetir suas performances
em um espaço específico, mas sim buscar espaços novos
para cada produção, espaços cujo significado existente
provia um elemento importante para a performance, elementos urbanos e estratos
simbólicos.
Estas
novas experiências teatrais foram influenciadas pelo conceito de
teatro defendido por Artaud que preconizava o abandono da representação
pela ‘presentação’, que acontece aqui e agora, aproximando
a arte da própria vida – e como dissemos a propósito das
artes plásticas da década de 1960, de uma experiência
de “presentness”, no espaço real e no tempo real.
Também
no teatro Laboratório de Grotowsky, no segundo movimento do grupo,
o local não era mais o teatro tradicional, mas sítios especiais
que assumiam uma significação especial quando neles era feita
a encenação que, por sua vez, retirava daquele local uma
significação que o trabalho não teria fora daquele
contexto.
Esta
relação entre arte e vida, aproximamos de modo ampliado da
noção de “site specific” da Land Art e de intervenções
urbanas como Clara, Clara, 1983, na Place de la Concorde em Paris, de Richard
Serra, quando a obra de arte reinventa o lugar, dele extrai sua poética
e só adquire sentido na relação que com ele estabelece.
Posteriormente,
o grupo de Grotowsky se desfaz e os membros se dedicam a experiências
com leigos -vivenciando de cenas aqui e agora, em lugares insólitos.
Segundo o diretor, ninguém representa para ninguém, prevalecendo
uma experiência poética de um tempo e de um espaço.
Público e platéia se fundem, os papéis se misturam,
o público é também artista e nessa condição
age criativamente sobre seu meio ambiente possibilitando a si o resgate
da dimensão imaginária do espaço público. Algo
muito próximo das experiências performáticas do artista
Vito Acconci.
“O teatro pós-moderno
deixará de apresentar espetáculos, feitos por alguns e consumidos
por outros, para organizar experiências teatrais onde não
há separação entre público e platéia:
todos atuam, ninguém apenas assiste” (Coelho,
1995, p.80).
A
propósito, Schechner ressalta que a nossa cultura está sozinha
em demandar do publico um comportamento uniforme separando palco e publico
e o publico dos que não são nem performance nem público.
Para este autor, o espaço contemporâneo do teatro deve ser
“usado concretamente e organicamente como algo a ser moldado, modificado,
para se lidar com. A organização mais simples é uma
área aberta com a performance no centro e o público por todos
os lados” (Schechner, 1977, p.61). Esta é
a definição do próprio espaço da praça
que deve ser tomado, nesta perspectiva contemporânea, como um cenário
urbano da performance por excelência.
Completando
o quadro de “retorno ao espaço público”, nos anos 60, destaca-se
a sua utilização por formas rituais de performance como esclarece
Cardoso: as “grandes procissões, paradas e manifestações
políticas que voltaram a ser planejadas, servindo de referência
para antigos caminhos e marcos simbolicamente importantes no contexto da
cidade” (Cardoso, 2000, p.198).
Estas
manifestações revelam um desejo de retomada do caráter
público da cidade a partir da presença das funções
cultural e estética. Para Schechner, o desejo do cidadão
de participação e de expressão no seu próprio
ambiente nada mais é que um desejo original de unidade que se aplica
a:
-
pessoa - não corpo e
mente
-
famílias - não
indivíduos
-
comunidades - não governantes
e governados
-
empregos como prazer - não
o trabalho alienado
-
arte onde se está - não
em museus afastados
-
um mundo em paz - não
guerras e rivalidades
-
homem uno à Natureza
- não a exploração ecológica. (Schechner, p.39)
Não
podemos crer, ingenuamente que se trata de uma proposta de solução
de problemas; é mais a sua problematização e exposição,
flexibilizando os limites entre público e privado, diante da apropriação
do espaço urbanos de modo corporativo, totalitário e excludente
também instituições “públicas”. Trata-se de
uma tensão própria da contemporaneidade, também uma
questão ética.
Arte
e Performance no “Espaço Público”
As
ações do já referido artista contemporâneo Vito
Acconci questionam justamente o sentido público dos espaços.
Há uma intenção de criticar as restrições
feitas aos pedestres no espaço público e também as
arquiteturas “estáticas” e puramente funcionalistas. Para Acconci
um lugar é público quando:
1) suas formas são
públicas, quando são publicamente usáveis, quando
se pode nelas sentar, andar, engatinhar, percorrer, viver; 2) seu significado
é público, seus significados publicamente acessíveis,
o lugar é constituído de convenções, imagens,
sinais, objetos que qualquer um de qualquer cultura possa reconhecer automaticamente,
naturalmente; 3) seu efeito é públicos, seus efeitos são
publicamente instrumentais, o lugar forma tanto o público que o
utiliza e quanto o agente público que o organiza. (...) Um espaço
é público quando mantém a ordem pública ou
modifica a ordem pública. (Acconci, 1977,
p.421)
Para
o artista, lugares públicos podem funcionar tanto como “prisão”
– garantindo uma ordem – quanto como “fórum” – onde suas convenções,
imagens, sinais, são invertidos, colidem uns com os outros, são
quebrado em partes, de modo que as convenções sejam desestabilizadas
e ao mesmo tempo expostas: “o espaço se torna ocasião para
discussão, que pode se tornar um argumento, que pode se tornar uma
revolução” (Acconci, 1977, p.421).
É
neste sentido que em seu trabalho performático Acconci se desloca
do lugar do artista para tornar-se, em suas palavras, um “instrumento”,
um participante das ações que se apresentam no espaço
público. Quando transita no campo da arquitetura, lida com o lugar
da arte face ao caráter performático, mas também plástico
do espaço público. No projeto More Balls for Klapper Hall
Plaza, 1995, Queens College, EUA, esferas de concreto iluminadas do interior
formam, a partir de diferentes recortes de superfície, dispositivos
de mobiliário urbano diferenciados para serem utilizados pelos habitantes
em uma praça. A luz é ainda um elemento atrativo importante,
conferindo dramaticidade à paisagem. Às duas esferas existentes
foram adicionadas no átrio sete esferas de tamanhos diferentes que,
ao contrário das originais, extrapolam a função meramente
decorativa para se tornarem parte da cena urbana e serem instrumento criativo
para a realização de performances cotidianas: ler, comer,
namorar.
No
projeto ArteCidade 2002
,
Acconci reapropria um espaço urbano do Largo do Glicério,
São Paulo: um local de passagem, um “nó” urbano, espaço
intersticial entre grandes estruturas viárias e edificações
institucionais, entre elas um esqueleto vazio de propriedade municipal.
Partindo
deste não-lugar, o artista implanta um “dispositivo urbano-arquitetônico”
para “abrigar” a população sem domicílio fixo já
residente no local, incorporando sua ocupação nômade
e transitória, por considerar que são eles os agentes do
espaço público e que o seu tipo de ocupação
nômade e transitória que deve ser alvo de atenção
dos demais agentes sociais.
As
estruturas propostas são semitransparentes e não vedadas,
os banheiros, tanques para lavar roupa, locais de refeição
e lazer são abertos e o acesso livre em toda área, os limites
entre público e privado se tornam praticamente inexistentes. Acconci
não tenta esconder a condição de vida dos moradores
de rua, nem tenta criar para eles uma privacidade que já não
têm; o artista evidencia a exposição pública
a que estão sujeitos. As práticas precárias dos usuários
são ponto de partida para a proposta de soluções viáveis
e que lhes garantam auto-suficiência, a exemplo do recolhimento da
água da chuva feito através de “instalações”
nos postes. São as próprias condições da vida
nas ruas que geram o programa.
Ao
mesmo tempo, sua condição é exposta como “teatro da
vida”, algo que comumente não é percebido, experienciado
no cotidiano da cidade, ao contrário, é deixado à
margem, ignorado, como se estes habitantes não fossem partícipes
da mesma dimensão do urbano.
* * *
Neste
artigo apontamos a saída da obra de arte da galeria extraindo sua
poética do “real’, dos “sitios” e “lugares” e a saída do
teatro das casas de espetáculo como um modo de aproximação
entre arte e vida.
A
noção de performance foi o caminho escolhido para realizar
uma aproximação entre a noção de agente social
participante da vida urbana e a noção de público partícipe
da obra de arte nas manifestações do teatro e da arte contemporânea
que diretamente buscam relacionar-se com uma situação, uma
cena da vida nas cidades.
Quando
o espaço urbano torna-se espaço cênico, questiona e
incita uma reflexão sobre os valores dos espaços. Assim também,
a arte contemporânea, explorando a noção de performance,
aproxima os atores sociais do próprio espaço onde transitam,
onde habitam. Aproxima as esferas social e estética, vida e arte
como um modo de posicionamento diante da realidade contemporânea
complexa, multifacetada cuja dimensão de transitoriedade desafia-nos
à compreensão das noções de identidade, memória
e planejamento e do que venha a ser o “lugar contemporâneo”. Como
um diálogo interdisciplinar, a arte nos oferece perguntas e nos
incita às perguntas nos demais campos do conhecimento.
Notas
“Arte/Cidade
é um projeto de intervenções urbanas, que se realiza
em São Paulo desde 1994. (...) Reunindo artistas e arquitetos, internacionais
e brasileiros, voltados para situações urbanas complexas,
o projeto visa desenvolver repertório _ técnico, estético
e institucional _ para práticas artísticas e urbanísticas
não convencionais”. ARTECIDADE. Disponível em: <http://www.pucsp.br/artecidade>
Acesso em: 04/03/2006.
Webgrafia
ARTECIDADE.
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