A ação educativa intercultural das Escolas de Samba no Brasil: subsídios para refletir  sobre a relação entre local e global  nas estratégias comunitárias
 

Cristiana Tramonte
Socióloga, Educadora
Professora  da  Universidade Federal de Santa Catarina



 
 
 
 
 
 

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O carnaval é uma vivência cotidiana para o brasileiro. Em todas as classes sociais, em todos os momentos históricos do último século, anualmente, repete-se sempre o rito do carnaval. Justamente por ser tão próximo e tão cotidiano o carnaval apresenta tamanho fascínio: faz parte da identidade brasileira, da família, da memória, do presente e, certamente, terá lugar no futuro. No Brasil, ele ganha presença destacada como o traço maior da identidade cultural do país. “O país do carnaval”, entretanto, apresenta uma essência sob a capa da aparência pública do desfile.
 
 
 
Desvendar as relações, os significados, as estruturas, os protagonistas, os valores,  a história do carnaval , é falar muito do Brasil e seus atores fundamentais no processo de construção social.

 
 
 
As escolas de samba representam a mais original e bela criação artística do carnaval brasileiro, por sua vez, considerado o mais importante do mundo. Mas, além da originalidade e da beleza a escola de samba é, ainda hoje, a expressão máxima do viés fundamental da formação da cultura e do pensamento nacional: a cultura negra, de origem africana. Neste contexto, torna-se ainda mais relevante o estudo da história da resistência e organização das camadas populares de origem negra. Sua história de participação no carnaval é a da construção da hegemonia cultural no país promovida por aqueles que há mais de cem anos  eram escravos. Como superaram a opressão e desenharam o perfil da “brasilidade”, eis o que intriga e fascina.

 

Evidentemente, a história da construção da hegemonia das camadas populares de origem negra no carnaval brasileiro é uma história de conflitos, embates e acordos que se interpenetram e se transformam mutuamente; é  um caleidoscópio  de múltiplas facetas e dimensões que ora convivem, ora  antagonizam e que geram o movimento de construção da cultura como dimensão humana fundamental.
 
 
 

A escola de samba é uma prática cultural que processa e organiza as relações sociais, econômicas e políticas da parcela da população que aí convive no chamado “Mundo do Samba”. Sua prática desencadeia um processo pedagógico fundamental para os grupos sociais que em torno da escola de samba vivem, se organizam, criam, se relacionam, elaboram arte e realizam cultura. Este processo pedagógico foi dividido, para fins estritamente analíticos,  em  seis dimensões fundamentais: a pedagogia da ação social, da ação política, dos valores éticos e morais, da ação cultural, da ação escolar e da arte. Esta divisão está longe de espelhar a dinamicidade deste processo, mas pode apontar alguns temas para aprofundamento posterior.

 
 
A visão de pedagogia está fundada numa concepção de educação não como um processo de apropriação somente individual, mas como a construção de agentes coletivos no embate social onde a dimensão da cultura é fundamental. A educação como construção de cultura  leva em conta os processos pedagógicos que se forjam nas relações, mediatizados pelo mundo, como afirma o educador  Paulo Freire.
 

 
 
 

Copa Lord 1962



 
 
 
 

 
A população negra conquista passagem

 
 
Nos finais do século XIX, no Brasil, a perseguição  aos descendentes de africanos é incansável , apesar da Abolição da Escravatura em 1888. Sua música e dança - realizadas principalmente nos “cordões” - são reprimidas e  proibidas pelos poderes constituídos e a opinião pública é induzida a encarar sua arte e cultura como bárbaras e grosseiras, reforçando estereótipos negativos de sua presença social. Com o adensamento das cidades, os negros vão crescendo em número, principalmente no Rio de Janeiro, capital do país. Na época do carnaval as ruas são por estes ocupadas, os quais brincam  abertamente, juntamente com descendentes de imigrantes empobrecidos.  Além disso o espaço social dos ex-escravos principia lentamente a alargar-se  com as lutas pela Abolição da Escravatura. Embora impedidos de acessar aos lugares centrais, começam a executar sua música e dança nos pátios dos cortiços, vielas e becos. Inicialmente, estes grupos são espontâneos e não mantém sua organização para além dos dias do carnaval. Porém, à medida em que o Rio de Janeiro se moderniza, a população afro-brasileira vai alcançando uma relativa ascensão social através do acesso às novas frentes de emprego urbano que vão surgindo. Estes passam a integrar os escalões inferiores da pequena burguesia: são funcionários públicos, operários, donos de pequenos armazéns ou lojas, etc. Com a melhoria das condições de vida estes negros principiam a constituir grupos carnavalescos estáveis; surgem os ranchos, palavra de origem portuguesa que significava bando. Integrando este movimento de expansão social os ranchos já revelavam as transformações que começavam a ocorrer: da atuação mais “selvagem” para o “teatro lírico ambulante” ou ópera popular, como se denomina comumente os desfiles das escolas de samba.  Esta transformação do ritmo e da forma de apresentação vai “suavizar o conceito que os estrangeiros faziam das agremiações carnavalescas” . Não só o conceito dos estrangeiros começa a mudar: o espaço da cultura negra vai de tal forma alargando-se que se pode afirmar que há mesmo uma reterritorialização  do espaço através da  arte, contribuindo para romper a divisão do espaço social e aumentar o alcance da cultura negra no espaço e opinião públicos em geral. 

 
 
 

Construindo  hegemonia cultural 
 

Os ranchos começam logo a fazer sucesso, competindo com as  anteriores “Sociedades Carnavalescas”, clubes das elites brancas,  inclusive naquilo que era seu aspecto  mais atrativo: luxo e riqueza. A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz assim analisa este fenômeno: “Era a primeira vitória das camadas inferiores de cor na sua conquista do direito de participar dos folguedos carnavalescos de rua; ostentavam músicas e danças que eram suas, de visível origem africana, revelando certa valorização destes traços culturais”. As camadas privilegiadas da sociedade que, com suas Sociedades Carnavalescas haviam sido as promotoras dos eventos carnavalescos até então - ou ao menos o centro das atenções destes - passaram à posição de espectadoras passivas dos blocos, cordões e ranchos organizados pelos afro-brasileiros. 
 
 
 

Os ranchos foram o grande berço das escolas de samba. Mas o samba  vai ser o marco mais importante que determinará a forte influência da cultura de origem africana na sociedade brasileira dando continuidade - com muito mais vigor - ao processo de inserção cultural dos negros que o rancho já havia representado.

 
 
A penetração cultural dos negros foi um processo lento e difícil, fruto de sua grande habilidade política de trabalhar alianças e ir adentrando na chamada “sociedade branca” através de um processo que se pode denominar como construção de hegemonia. 
 

 
 
 
 
Protegidos da Princesa, 1962, em frente ao Palácio
 
 
 
 
 

O Samba como estratégia de expansão cultural

 
 
Apesar da abertura na opinião pública que os ranchos representaram, as reuniões e batuques dos afro-brasileiros continuavam sendo alvos de perseguições policiais e das autoridades. Isto exigia muita habilidade dos negros para ir construindo seu campo de alianças, a partir das concessões possíveis, ao mesmo tempo em que a resistência ocorria em  lugares seguros e estratégicos. Quando se fala em resistência, referimo-nos ao direito de tocar sua música, praticar sua religião, enfim, manter sua vida cultural. Pode-se mesmo supor que as táticas dos descendentes de africanos do início do século - quando constituíram seus grupos culturais - teriam o mesmo  espírito que  inspirará os movimentos pacifistas, personificados  no indiano Mahatma Gandhi e no negro norte-americano Martin Luther King, a  filosofia da “não-violência”. É o que atesta este depoimento do sambista Paulo da Portela

 
 
“Devemos impor a cultura e a arte de nossa raça respeitando e fazendo respeitar as normas e leis. O samba deve ser responsável e correto, cultivando a união e a não- violência”. 

 
Alguns estudiosos interpretaram esta tática como uma prova cabal da passividade do negro,  mas esta passividade pode ser questionada se levarmos em conta as estratégias de um processo onde a tentativa por parte dos negros de exercer a hegemonia cultural era evidente. Ora, querer ser um cidadão global, não desejar viver em guetos fechados, requerer ser reconhecido como não-inferior não significa necessariamente que o negro não tenha lutado - construindo suas organizações (e a escola de samba foi uma delas) e nelas buscando manter a direção. A busca da integração pode ser uma estratégia e não submissão. 

 

É através deste arcabouço de estratégias da população negra que o samba tão perseguido, vai  deixando de ser um elemento de exclusão social  para ser um instrumento de luta pela inserção. Aliás, não é por acaso que o samba vai terminar por hegemonizar a música nacional espalhando seu leque de  influência sobre os variados ritmos que se consolidam no país.
 
 
 

O samba é resultado, portanto do processo de reelaboração das formas musicais da cultura negra brasileira, até chegar, a partir da conjugação desses elementos, a ser o que é hoje: gênero-síntese da cultura nacional . E, sem dúvida alguma, uma expressão musical decorrente da implantação da civilização urbano-industrial.
 
 
Se os ranchos  representaram a presença definitiva do negro no carnaval brasileiro, isto não significa   que a população negra e miserável - que começa a avolumar-se resultado do crescimento urbano do início do século - tenha  tido a mesma oportunidade de organizar-se para o carnaval e nem que sua forma máxima de expressão - o samba e seus derivados - fosse aceito imediatamente como manifestação cultural  elaborada e legítima. Esta população vai encrustar-se nas periferias e principalmente nos morros da cidade do Rio de Janeiro e fornecer um caldo cultural riquíssimo  para a música brasileira. É neste ambiente pobre e miserável, em contato com sambistas de outros lugares da cidade, que vai se criar um estilo de composição que marcará a música brasileira  e de onde sairão as obras mais primorosas, cuja musicalidade e beleza poética impressionam  naquele momento até mesmo as preconceituosas elites.

 
 
 
 
 

Unidos da Coloninha, 1962



 
 
 
 

 
 
As escolas de samba:  o signo da brasilidade

 

É este ambiente cultural que dará origem ao que hoje é considerado um dos mais belos espetáculos da terra - o desfile das escolas de samba -  as  quais, para além do espetáculo que oferecem, representam uma  importante forma organizativa comunitária das camadas populares. 
 
 
 

Analisando a trajetória histórica específica  das escolas de samba de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina,  Brasil,  pode-se observar que estas promovem oportunidades de aprendizado fundamental para os componentes do chamado Mundo do Samba, rede humana que organiza o ideário, a memória e a coesão interna de seus participantes. O caráter pedagógico das escolas de samba - motor principal do Mundo do Samba -  se desdobra em múltiplos processos que se interrelacionam e se combinam representando uma oportunidade formidável de formação das classes populares as quais, muitas vezes, não tem acesso à outros espaços educativos, como a escola formal ou não participam de outras instâncias associativas. Os processos educativos promovidos pelas escolas de samba  levam em conta a ominidimensionalidade e a ominilateralidade do ser humano, ou seja, abrangem  variados aspectos essenciais da realidade humana e natural. As escolas de samba indicam que existe, na sociedade, uma energia de dimensões político-pedagógicas que possibilita às classes populares educarem-se entre si nas relações, tornarem-se conscientes, viverem conflitos e contradições e construirem cultura. O objetivo que congrega este universo é o desfile, o rito carnavalesco principal. Este rito exprime as relações sociais que o engendram e geram as estruturas necessárias à sua realização, como as instâncias organizativas das escolas de samba.

 
 
 

A Pedagogia da Ação Social

 
 
Uma das formas de aprendizado das escolas de samba de Florianópolis é a Pedagogia da Ação Social. Este aspecto desenvolve-se sobre dois eixos: viver em comunidade e relacionar-se com o “exterior” à comunidade. O aprendizado gesta-se na convivência com o igual e com o diferente, nos pequenos grupos e no coletivo. A estrutura administrativa e diretiva das escolas de samba visa organizar e refletir esta vivência social bem como responder aos seus anseios e promover seus valores. O aspecto comunitário da escola mantém a coesão interna e o espírito de solidariedade. O direito ao lazer passa a ser uma reivindicação comunitária. A Pedagogia da Ação Social das escolas de samba de  ajuda a promover também a auto-valorização da comunidade que a organiza, contribuindo para a construção da cidadania e para a auto-estima das populações que aí vivem. Reorganizando o universo valorativo dessas populações, os processos pedagógicos promovem a substituição do “malandro” pelo cidadão, ao mesmo tempo em que cumprem uma função “recuperadora” e preventiva da marginalidade social e suas conseqüências. Dentro desta função preventiva, a escola de samba propõe-se também a ser um campo de trabalho alternativo às classes populares de origem negra, cujo âmbito possível de atuação profissional ainda é imensamente restrito. A Pedagogia da Ação Social também se reflete nos pontos de conflito: promover a convivência e a aceitação mútua entre os diferentes, aproximar modernidade e tradição, “velhos” e “novos”, combinar características possíveis de serem articuladas, trabalhar os constantes embates e conflitos, recriando-se permanentemente também faz parte da função educativa. Assim, as escola de samba    cumprem uma função pedagógica de regulação das relações sociais.

 

Além da função reguladora, as escolas de samba de  cumprem também um papel mediador das relações sociais com setores que não integram a comunidade, buscando garantir o equilíbrio interno e externo entre comunidade e “forças externas”, negros e brancos, pobres e ricos, autenticidade e mercantilização e fortalecer alianças que contribuam para seu desenvolvimento. A luta por hegemonia determina as relações de força e poder nos diferentes momentos históricos. A construção do poder político nas escolas de samba é resultado de um intrincado sistema de relações que congrega instâncias internas e externas às escolas de samba. Por isso é necessário não confundir a aparência que emerge nos desfiles com a essência da organização real das escolas de samba. 
 
 
 

A construção de um processo coletivo enfrentando conflitos e antagonismos é o eixo da atuação da Pedagogia da Ação Social das escolas de samba que busca pautar suas ações por processos orientados na direção da democracia, exercitando a descentralização do poder e valorizando as escolas de samba como locus de brasilidade, de aglutinação da nacionalidade brasileira em sua diversidade de raças, classes sociais, culturas, religiões, etc. Promovendo esta convivência, busca atenuar o preconceito racial e social, proclamando o mito da sociedade igualitária e lamentando o curto espaço em que se realiza. Possibilitando a convivência de diferentes extratos sociais auxilia a ampliar o leque de alianças das classes populares de origem negra que detém a hegemonia do processo cultural e educativo.

 
 
 

A Pedagogia da Ação Política
 
 

Combinada à ação da Pedagogia Social, há a Pedagogia da Ação Política das escolas de samba   que atua principalmente no sentido de trabalhar o consenso nos níveis interno e externo e fazer conviver as diferenças político-partidárias, atrelando ou mantendo a autonomia da escola. Um dos alvos da Pedagogia da Ação Política é a descentralização das estruturas de poder e a adequação desta às novas exigências emergentes das transformações. Trata-se de promover instâncias decisórias e organizativas que aumentem a democracia interna e trabalhar com as oposições, de modo a manter o desenvolvimento e o equilíbrio interior ao Mundo do Samba. Esta convivência com a pluralidade e a diversidade promove, pedagogicamente o diálogo e a participação na construção do consenso. 

 

Faz parte da Pedagogia da Ação Política das escolas de samba a articulação das escolas de samba em torno de uma única entidade associativa que represente a totalidade das escolas e dialogue com o Poder Público. O processo educativo reside justamente no aprendizado da organização representativa, da autonomia, na superação da dependência e na prática das alianças políticas com outros setores. Na relação com o Poder Público o aprendizado constitui o exercício da cidadania, da prática dos direitos e deveres e da luta pela garantia de espaços já conquistados, como a participação do Estado na responsabilidade sobre os desfiles (ainda que somente como facilitador de gestões). 
 
 
 

Resultado desse exercício pedagógico é a elevação da capacidade e agilidade política de seus dirigentes para utilizar na prática conceitos como “formação de opinião pública”, “credibilidade”, “composição de forças”, etc. e também, a capacidade de elaborar propostas a partir de problemas concretos, como  por exemplo a questão financeira, os conflitos inter-classes, os conflitos de ponto-de-vista em relação às questões artísticas,  em relação à participação da comunidade  etc. 

 

Outro resultado da Pedagogia da Ação Política é o aprendizado da iniciativa junto a outros setores sociais ou seja, a maturidade que os dirigentes e organizadores atingem quando admitem suas próprias limitações na tomada de atitudes  de captação de recursos, um primeiro passo para a superação da dependência. 
 
 
 

Um  aprendizado democrático é o das instâncias de participação político-partidária e os limites desta, sendo questionadas abertamente as práticas anteriores de atrelamento das escolas a facções políticas. O envolvimento de dirigentes de escolas de samba com políticos tradicionais numa relação mesclada de paternalismo e clientelismo - uma prática relativamente comum no passado - será abertamente questionado nos anos 90. Não se deixar manipular, diferenciar posição política pessoal de prática política coletiva, perceber os limites e possibilidades da representação e da liderança, são outros aprendizados em curso na Pedagogia da Ação Política desenvolvida pelas escolas de samba de . Um exercício pedagógico relevante é a construção da credibilidade pública que desenvolverá nos componentes do Mundo do Samba habilidades e capacidades diversas tais como: maturidade política, senso de responsabilidade, noção de representatividade, visão  micro e macro da estrutura social, noção de âmbitos decisórios e de representação, etc.

 
 
 

A Pedagogia dos Valores Éticos e Morais
 
 

Para solidificar e garantir estes processos, o Mundo do Samba elabora um código de ética e moral que cumpre função educativa entre seus componentes. A Pedagogia dos Valores Éticos e Morais justifica-se em torno da “salvação do carnaval”. “Salvar o carnaval” é o grande elemento de unidade das escolas de samba, o ideal máximo. Quando a unidade interna ao Mundo do Samba se vê ameaçada por conflitos e dissensões, invoca-se a necessidade de “salvar o carnaval” para retomar a harmonia. A participação no carnaval e nas escolas de samba - cuja expressão máxima são os desfiles - é considerado uma necessidade tão premente quanto educação, saúde ou alimentação para os participantes do Mundo do Samba. Deste ponto de vista, os integrantes do Mundo do Samba rejeitam a visão que propugna a superioridade das instâncias da economia e da política sobre as instâncias da cultura e da religião e recusam a assumir o ponto de vista elitista, segundo o qual as classes populares deveriam preocupar-se exclusivamente com sua reprodução enquanto corpo físico e força de trabalho.  A prática dos integrantes das escolas de samba recupera o direito ao lazer e ao aspecto lúdico-espiritual como uma necessidade fundamental às quais as classes populares também tem direito. Ao mesmo tempo, através da arte, promovem o mundo da expressão simbólica como uma maneira legítima de discursar sobre a realidade. 

 

Sobre esses valores se funda o mito da democracia racial e social , que considera o carnaval das escolas de samba como a entidade máxima que congrega e fortalece o desenvolvimento de uma rede viva de relações, congregada no Mundo do Samba, aliando a força ritual do desfile à força mítica do carnaval. Pelo carnaval justifica-se o trabalho gratuito e todo tipo de sacrifício possível. Em torno da capacidade de sacrificar-se e de “salvar o carnaval” nascem os heróis deste mundo particular; todos aqueles que, em geral gratuitamente, lutam para que o desfile aconteça e a escola de samba sobreviva, geralmente os dirigentes, os organizadores e o “pessoal do bastidor, ou galpão”. Não são  consagrados heróis pelo poder político e econômico que possuem; são heróis míticos porque conseguem, através do esforço e do despojamento pessoal, “salvar o carnaval”, o maior bem da comunidade. 
 
 
 

Em torno desta premissa máxima constrói-se o valor da solidariedade, que emerge principalmente na última década no enfrentamento com o Poder Público, pelos motivos já apontados anteriormente. É no bojo destes elementos valorativos que  a “armação” (ou tramóia) é substituída pelo “trabalho sério”, significando um salto de qualidade nos valores éticos das escolas de samba - passar  das articulações nem sempre lícitas, às vezes feitas no passado, para o desenvolvimento de um trabalho constante, lícito, transparente, visível e público. A solidariedade é mantida a duras penas e percorre um caminho que possui momentos diferenciados que se interpenetram e influem no seguinte: durante o ano a solidariedade predomina; nos 2 ou 3 meses que antecedem o desfile ela sobrevive cercada de tensões; na avenida, a competição é aberta e não há lugar para solidariedade; a solidariedade rompe-se totalmente logo após o desfile com o descontentamento das perdedoras e as acusações mútuas. Rapidamente, quase concomitantemente, o descontentamento é expelido para fora do Mundo do Samba ( jurados ou Poder Público) a fim de manter a coesão interna e “salvar o carnaval”, e a fraternidade é retomada  tempos após os desfiles para predominar novamente no Mundo do Samba. Esta separação de espaços e tempos  em função de um objetivo coletivo é um dos resultados da Pedagogia dos Valores Éticos e Morais das escolas de Samba . O terreno fértil da solidariedade entre as escolas de samba é o campo da arte, do espaço possível para o espírito, para o lazer,  para a convivência, para o estabelecimento de relações amistosas. Neste sentido, pode-se afirmar que o “espírito carnavalesco” opõe-se ao espírito do capitalismo clássico que proclama as virtudes do trabalho incansável, da produtividade e da acumulação de riquezas como o valor máximo dos seres humanos. O espírito carnavalesco questiona a visão paternalista e autoritária que define as prioridades as classes trabalhadoras reduzindo-as a “corpo de trabalho” e proclama a ominidimensionalidade humana e a possibilidade de uma sociedade igualitária.

 

Outro signo de grande valor simbólico é  “vestir a camisa”. No período inicial das escolas de samba “vestir a camisa” significava adotar  uma única escola. Um dos resultados da Pedagogia dos Valores Éticos e Morais das escolas de samba de  é expandir este significado ao Mundo do Samba, ou seja, “vestir a camisa” passa a ser não a fidelidade a uma única escola mas a um projeto coletivo do qual o centro é  o carnaval e  o Mundo do Samba. 
 
 
 

O aprendizado ético e moral resulta também em  um “código de honra” que regula as relações, estabelece limites e elabora normas coletivas. Em troca do  rígido comportamento moral do indivíduo a escola de samba oferece  convívio social, respeitabilidade e todo um mundo alternativo onde se reinventa valores e inverte-se a lógica da sociedade atual. No Mundo do Samba não se condena os indivíduos à marginalidade por razões sociais ou econômicas, mas por transgressões de normas que o indivíduo conhece e que normalmente pode controlar, incentivando assim a autoconfiança e auto-estima. A Pedagogia dos Valores Éticos e Morais possibilita a educação comportamental de acordo com seus valores e, para isso, oferece um ambiente receptivo que propicia  condutas construtivas no Mundo do Samba, dando chances e oportunidades para aqueles que estão excluídos e são rejeitados por uma lógica que tem como premissa máxima o poder econômico. Além do aspecto do comportamento social em sentido mais amplo, também o comportamento sexual é rigidamente controlado, invertendo a aparência que os meios de comunicação de massa exploram no carnaval: na essência deste código ético e moral, não há lugar para  exploração sexual no ambiente das escolas de samba.

 
 
 
 
A Pedagogia da Ação Escolar

 
 
A Pedagogia da Ação Escolar das escolas de samba   considera que elementos da escolaridade formal são desenvolvidos pelas escolas de samba que tem potencialidade para penetrar em alguns vácuos da escola pública. A construção do enredo muitas vezes foi utilizado como aulas de história para crianças e para os integrantes mais próximos às escolas de samba; possibilita acesso a temas que a história oficial não registra, como personagens importantes das lutas sociais brasileiras. Os enredos funcionam como temas-geradores de conhecimento para as comunidades as quais, a partir do contato com o tema, apreendem e constróem diversos espaços de aprendizado, numa relação horizontal de troca de saberes. O enredo propicia também o  desenvolvimento de noções de dramaturgia, o registro da memória oral e a pesquisa da história local, contribuindo para o reconhecimento da comunidade nos níveis interno e externo. Além do enredo, a letra do samba contribui para o alargamento do universo cultural dos componentes e para a capacitação na elaboração poética. Como escola profissionalizante, as escolas de samba desenvolvem noções de artes plásticas, pintura, escultura, costura, serralheria, marcenaria, música, etc. As escolas de samba de  atuam com uma visão interdisciplinar de educação abarcando diversos campos de saberes que poderiam ser aproveitados pelas escolas públicas. Além do mais contribui para a manutenção da criança na escola e incentiva a aprendizagem, na medida em que organiza atividades que colocam como única pré-condição para participação, o bom desempenho escolar.

 
 
 
 

A Pedagogia da Ação Cultural
 

Uma das facetas da ação educativa das escolas de samba é a Pedagogia da Ação Cultural, fundada no princípio da valorização da “negritude”. Ou seja, apesar de buscar contemplar a pluralidade racial e social brasileira, o valor mais importante para legitimar uma escola de samba como veículo cultural é “ter negritude”.  Trata-se de uma inversão do preconceito racial e social vigente na sociedade. Além da afirmação das raízes culturais, a valorização da “negritude” significa também, no caso das escolas de samba de  um signo de resistência contra o desprezo que sofre a cultura afro-brasileira em relação à cultura germânica e outras de origem européia predominantes no estado de Santa Catarina.
 
 
 

Em torno da “negritude” também organizam-se diversas atividades comunitárias de caráter cultural como dança, música, etc. Se ter negritude atesta a legitimidade, “branquear” é sinônimo de perda de prestígio e de qualidade artística. O elemento mais importante da “negritude” é o samba, símbolo máximo  integrador e catalisador do Mundo do Samba, uma vivência concreta e cotidiana que supera a visão folclórica e conservacionista que por vezes lhe é atribuída. O samba promove a familiaridade, a convivência íntima no momento do lazer, regula toda uma rede de relações de apoio aos integrantes, contribui para a integração social e promove a criação artística coletiva. Em  a ênfase dada ao espetáculo visual em detrimento do musical provoca conflitos, rapidamente superados pela combinação entre estes elementos, novamente reagrupando modernidade e tradição. Apesar de aceitar a  modernidade, as escolas de samba não abrem mão das tradições culturais, que significam exatamente as raízes afro-brasileiras, uma preocupação particularmente presente em meados da década de 90, num processo de “retomada da autenticidade”.

 
 
 
 
A Pedagogia da Arte

 
 
A Pedagogia da Arte contribui para a diversificação do universo estético das classes populares. As discussões estéticas representam momentos preciosos de aprendizado de elementos artísticos. A questão da participação das classes médias principalmente na estética dos desfiles traz à tona uma polêmica que resulta em fecundas discussões sobre o significado social da arte popular e  seus modos de afirmação. Atualmente existe, como resultado deste processo, exigências artístico-visuais, além das musicais, também por parte das classes populares que frequentam o Mundo do Samba ou que simplesmente acompanham os desfiles, que não podem ser creditadas ao “sucesso” da influência das classes médias, mas que é resultado de um aprendizado das próprias classes populares no trabalho de elaboração dos desfiles e competição na avenida. Para os componentes do Mundo do Samba, beleza artística é fundamental porque promove a identidade com o espetáculo e o direito aos conhecimentos acumulados pela humanidade neste campo. Além do mais, a Pedagogia da Arte possibilita uma forma de conhecimento sensitivo que outros domínios de saberes não atingem.

 
 
Assim,  a Pedagogia das escolas de samba de Florianópolis deve ser considerada como o resultado de uma vitória das classes populares de origem negra as quais, por meio  de muita luta e capacidade organizativa, logram hegemonizar culturalmente o carnaval, dando-lhe sentido artístico, força cultural e social e potencializando sua organização como veículo fundamental de educação e formação.


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