Reflexo
das grandes e rápidas transformações espaciais a partir
da década de 70, aglutinador das diversas formas de manifestação
e relações humanas, conflitos, contradições,
poluições, ocupações descontroladas enfim,
a cidade contemporânea se tornou sinônimo de desordem e caos
na configuração de um espaço complexo em sua essência.
A cidade também é o lugar do poder, da concentração
do capital e das suas diversas formas de produção, assim
torna-se um espaço que produz oportunidades de trabalho e, paradoxalmente,
apresenta as maiores desigualdades e carências para uma grande parcela
de sua população. Diante desse repertório de problemas,
o urbanismo vem se adaptando no decorrer dos últimos séculos
e tentando responder, em teorias ou projetos, às necessidades e
exigências desse espaço e suas condicionantes e variáveis
de fatores sociais, econômicos, culturais, políticos e, essencialmente,
ambientais.
O
agravamento progressivo dos processos de degradação ambiental,
a exploração descabida dos recursos e bens naturais resultou
na ameaça da economia e da qualidade de vida nas cidades. Ainda
na década de 70, a partir da constatação global dos
inúmeros problemas decorrentes do desenvolvimento da economia mundial
– industrialização e informatização – do processo
de globalização econômica e de segregação
social, é que se atentou à necessidade de ruptura de paradigma
na relação do urbanismo e seus novos conceitos de desenvolvimento
sustentado no equilíbrio com o meio ambiente. Nasce então
um novo conceito, citado e defendido com fervor em seminários, congressos
e publicações na área científico-acadêmica
dos mais diversos campos do pensamento humano, denominado Sustentabilidade
.
No
Brasil percebemos formas diversas de ocupações urbanas que
de acordo com cada momento histórico, político, econômico
ou social e conforme a inter-relação desses fatores, sempre
influenciaram a ocupação territorial. Nesse âmbito,
o padrão de qualidade ambiental dessas aglomerações
humanas permanece refém de cada época e de suas relações
com esses fatores, percorrendo o equilíbrio com a natureza, através
das aldeias indígenas, às urbanizações de extremo
impacto ambiental das cidades atuais, estas que desde o período
de colonização seguem padrões importados que pouco
se relacionam com as condições climáticas, econômicas,
culturais e sociais de nosso país.
Nos
projetos de urbanismo contemporâneo, ou até mesmo nas teorias
de cada área do conhecimento relacionadas ao tema, percebemos conceitos
diversificados e, muitas vezes superficiais ou pontuais de sustentabilidade,
nos quais se considera – como, por exemplo, no campo da arquitetura e urbanismo
– objeto de estudo apenas a delimitação do perímetro
urbano da cidade, esquecendo da relação entre espaço
urbano e rural e as diversas formas de interações ambientais
e climáticas entre os mesmos. Por outro lado, existem teóricos
conceituados internacionalmente e com rica produção acadêmico-científica,
porém pouco relacionada com a efetiva construção e
aplicação de seus estudos no espaço urbano. Esse último
fator talvez seja resultado da pouca inter-relação das diversas
áreas do conhecimento como a arquitetura, geografia, sociologia,
filosofia, engenharia, economia entre outras, ficando cada profissional
ou cientista recluso em sua área do saber e possuindo, dessa forma,
uma excelente produção, porém especifica. Outro determinante
importante é a influência e o poder exercido pelos interesses
econômicos, privados ou públicos, em cada região, que
emperram ou até mesmo barram a implantação de projetos
ambientais que visem o desenvolvimento sustentado em detrimento do lucro
imediato.
No
contexto nacional, existem tentativas – na maioria pública ou de
cunho político – de não permanecer tais estudos apenas no
plano inteligível, através da realização de
concursos públicos e licitações que focam seus objetivos
na melhoria do espaço urbano, tanto de áreas centrais como
periféricas. No entanto, poucos projetos são executados na
íntegra e, menor ainda ou mesmo inexistente é o número
de projetos que efetivamente obtiveram respostas positivas junto à
sociedade interessada.
Dentro
das discussões atuais de cidade sustentável ficam as indagações:
Como imaginar uma cidade bem planejada e com excelentes índices
de qualidade de vida à população, se existe no campo
a exploração indiscriminada de monoculturas, desmatamentos,
queimadas, poluição por agrotóxicos, assoreamento
dos rios etc? Por outro lado, como pensarmos em sustentabilidade local
ou regional se não minimizarmos as desigualdades sociais e econômicas
entre as diversas regiões do país?
O
grande desafio aos urbanistas do século XXI é encontrar as
respostas para a aplicação da sustentabilidade urbana diante
desse quadro de conflitos e desigualdades seculares que existe em nosso
país. Re-estruturar cidades sustentáveis negligenciando a
necessária prática de políticas públicas direcionadas
por planos de gestão e de educação ambiental torna-se
uma utopia distante. Não há urbanismo sustentável
sem envolvimento social e conscientização ecológica
da população, pois esses fatores são determinantes
para a viabilização de qualquer projeto urbano e minimiza
custos para a implantação e manutenção dos
mesmos, além de atuar como um mecanismo facilitador de acesso aos
escassos recursos existentes no país através do apoio e exigência
da própria população.
Devemos
pensar espaços diversificados, dinâmicos, centralizados, complexos
e arborizados, que propiciem o encontro das pessoas em espaços públicos
agradáveis e que proporcionem conscientização do cidadão
como agente ativo não só do espaço urbano, mas sim
de todo meio ambiente. Através dessas ações urbanísticas
re-estruturadoras do espaço e da consciência, talvez consigamos
minimizar todo esse processo de degradação ambiental, utilizando
fontes renováveis e recicláveis de recursos, energia e produção,
resgatando a relação equilibrada entre homem e natureza que
possuíamos no passado pré-industrial.
CONTEXTUALIZAÇÃO
AMBIENTAL URBANA
A
natureza nos ensina a trabalhar com elementos diversos que se adaptam de
acordo com cada lugar e suas respectivas características geográficas
(clima, hidrografia, geomorfologia, ecossistemas, meio ambiente). Dessa
maneira percebemos que as modificações da paisagem estão
diretamente relacionadas com sua localização, caracterizando-se
assim uma impressionante adequação da natureza ao longo de
milhões de anos e que, devido às condições
de cada região, reagem de maneiras diferentes às ações
antrópicas.
Um
exemplo claro da influência climática local em resposta às
ações humanas no espaço foi o estudo realizado por
Endlicher (1988), no qual este destaca o problema
da erosão do solo na Cordilheira da Oitava Região do Chile.
Em seu artigo publicado ele enumera diversas conseqüências derivadas
da produção agropecuária inadequada às condições
geográficas regionais, destacando a degradação da
paisagem, improdutividade e conseqüente impacto social sobre a agricultura
de subsistência local. Outro ponto capital diagnosticado é
o fato de que a retirada da mata nativa local resultou no processo de auto-degradação
do solo, devido às condições topo-climáticas
do lugar, sendo assim, mesmo após o abandono da agricultura em algumas
áreas da região o solo não consegue se recompor e
recuperar as condições naturais anteriores às ações
antrópicas. Como alternativa, Endlicher propõe formas de
produção e cultivo menos impactantes e que possuem respostas
ambientais eficazes para a região, destacando que é necessário
o investimento em pesquisas científicas direcionadas para cada lugar.
Observamos
na natureza exemplos claros de adequação às condições
geográficas de cada região, tanto na vegetação
tropical densa e alta da mata atlântica (de clima úmido e
com chuvas abundantes), como na arborização dispersa, de
troncos sinuosos e ásperos que protegem o caule e de raízes
profundas do cerrado (devido à necessidade de absorção
de água nas camadas mais profundas do solo durante os períodos
de seca), (Figura 1). Os animais, por sua vez, também vêm
a se adequar e contribuir para o equilíbrio desses ecossistemas.
Um exemplo disso são as escavações dos animais pedológicos
(como formigas, cupins ou minhocas), que contribuem para a absorção
da água das chuvas, aeração e aumento do volume de
matéria orgânica do solo, além de constituírem
formas construtivas interessantes de funcionamento e adaptação
às condições climáticas locais. Como apresenta
Olgyay (1963), citado por
Gouvêa
(2003), Os cupins constroem verdadeiras edificações que,
na escala humana, apresentariam centenas de metros de altura, ou mesmo
o pássaro típico da região do cerrado denominado “joão-de-barro”,
ambos executam suas construções de acordo com a orientação
do sol e ventilação do ar, com formas e materiais adequados
às condições e disponibilidades locais (Figuras 2
e 3).
Figura
1: Jacarandá do cerrado, árvore típica da região
com troco sinuoso, copa baixa e raiz profunda.
Fonte: Universidade Federal
de Minas Gerais.
Figura
2: Ninho de isópteros (Animais Pedológicos).
Fonte: www.jetcityjimbo.com
Nossos
antepassados nos deixaram diversas lições de adequações
construtivas às condições locais. Como os índios
que costumam localizar suas aldeias próximas às matas ciliares
dos rios, obtendo assim não só fácil acesso (através
do rio como meio de transporte) e utilização dos recursos
hídricos como também uma melhor ambiência climática.
Ainda temos as construções indígenas que, em si, já
apresentam características construtivas e uso de materiais inteligentemente
compatibilizados com as funções e determinações
climáticas do lugar (Figuras 4 e 5).
Figura
3: Ninho de casal de passarinhos João-de-Barro.
Fonte: www.oeco.com.br
Figura
4: Construção típica indígena, utilizada para
cultos religiosos, Aldeia Umutina, Barra do Bugres-MT.
Fonte: autor; Data: 15/04/2006
Figura 5: Construção
indígena com técnicas e estrutura de influência colonial
bandeirista,
Aldeia Umutina, Barra do
Bugres-MT.
Fonte: autor; Data: 15/04/2006
Durante
o processo de colonização portuguesa sabemos que houve uma
interessante adaptação e simplificação das
tecnologias construtivas advindas da Europa, mesclando-se técnicas
como a taipa-de-pilão, tijolo de adobe ou pau-a-pique com as coberturas
de sapê e as eficientes estruturas de madeira indígena, além
de se utilizar da mão de obra escrava africana que, mesmo antes
de desembarcarem no Brasil, já dominavam diversas técnicas
do uso da terra como construção. Aliás, o uso da terra
crua como material construtivo nos remete há milhares de anos, pois
existem registros datados desde 8.000 a.C. de construções
na China, Mesopotâmia, Oriente Médio, vários países
do continente africano ou mesmo na América Pré-Colombiana,
que determinaram o uso eficiente enquanto material de grande durabilidade
e na diminuição da transmitância de calor externo para
o interior das edificações.
No
Brasil, as casas bandeiristas do séc. XVII e XVIII possuíam
adequações climáticas e estruturais de acordo com
cada região, exemplos claros dessas adaptações são
as casas coloniais cuiabanas que utilizavam alvenaria estrutural espessa
de adobe, a cobertura mais alta do que o usual de telhas capa-canal (a
própria imperfeição de encaixe das telhas permitiam
a ventilação do ar) com grandes beirais, cômodos e
varandas bem ventiladas ao fundo, já que a tipologia urbana da época
não permitia o recuo do edifício em relação
às vias de acesso. A cidade colonial, por sua vez, também
respeitava a topografia e geralmente sua implantação se dava
ao longo dos rios, permitindo a utilização das bacias como
meio de transporte e melhor qualidade climática urbana. Utilizava-se
na pavimentação das ruas materiais que permitiam a infiltração
da água da chuva como, por exemplo, pedras, paralelepípedos
ou o próprio “chão batido”. Além da configuração
sinuosa de seu traçado urbano que remetia às cidades medievais
européias, chamadas de “caminho das mulas” por Le
Corbusier (1925)
, mas que certamente possuía maior relação com o pedestre
e seu caminhar, a cidade colonial tinha uma afinidade íntima com
a paisagem local e a vida no campo (Figuras 6 e 7).
Figura
6: Rua de traçado colonial típico do séc. XVIII, com
casas adaptadas ao estilo Neoclássico em Cuiabá-MT.
Fonte: autor; Data: 27/03/2006
Figura
7: Varanda-quintal adaptada ao clima local de uma residência cuiabana
em Cuiabá-MT, atual sede do IPHAN-MT.
Fonte: autor; Data: 27/03/2006
A
ruptura desse contexto de equilíbrio entre o espaço urbano
e natureza se deu com o processo de industrialização e as
conseqüências decorrentes como êxodo rural, rápida
urbanização e altos índices de desenvolvimento tecnológico
e econômico. A evolução gradativa e regional sede lugar
ao processo de globalização econômica de interesses
estrangeiros e do processo de massificação dos ideais de
consumo do capitalismo internacional. Essa nova relação de
domínio e influência do capital estrangeiro sobre os valores
regionais humanos e de meio ambiente tem contribuído para a disseminação
de desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais.
Atualmente
é comum a importação de equipamentos e tecnologias
desenvolvidas para as regiões de clima temperado da Europa ou Estados
Unidos, largamente utilizadas e difundidas no Brasil pelos interesses empresariais
e industriais, desrespeitando o clima e a cultura local. Alguns exemplos
são evidentes em relação aos edifícios tecnológicos
de corporações multinacionais, que exageram na utilização
de revestimentos metálicos e fachadas quilométricas de vidros
refletivos de “alto desempenho térmico” em cidades quentes como
Cuiabá, Brasília ou Goiânia, contribuindo para a formação
de ilhas de calor nesses centros urbanos, além de proporcionarem
um alto consumo de energia para o funcionamento dos equipamentos e sistemas
eletrônicos, condicionamento do ar e iluminação artificial.
Outro exemplo de tecnologia ultrapassada e prejudicial à saúde
é a utilização do cimento amianto, material comprovadamente
perigoso e proibido nos Estados Unidos, porém utilizado largamente
no Brasil para cobrir casas, principalmente da população
de baixa renda, e como reservatório de água para consumo
diário (Figura 8).
Figura
8: Exemplos de arquitetura “importada” idealizada por arquitetos brasileiros
nas cidades de Brasília e São Paulo, utilizam fachadas com
vidros espelhados de “alto desempenho” termo-acústico.
Fonte: Revista Projeto;
Data: 2005.
Percebemos
a extrema necessidade de discussões sobre as questões ecológicas,
especialmente no incentivo às pesquisas científicas brasileiras,
conciliando teoria e práxis com a aplicação de formas
sustentáveis de desenvolvimento do espaço urbano e rural,
em equilíbrio com a natureza e os valores regionais de cultura.
Essa postura vai de encontro aos interesses internacionais das grandes
potências que postulam a desaceleração da economia
mundial como forma de solução dos problemas ambientais do
globo. Sabemos que as mesmas são as maiores exploradoras e poluidoras
dos recursos naturais, negando e descumprindo acordos internacionais de
preservação e, paradoxalmente, cobrando das nações
menos desenvolvidas políticas de sustentabilidade questionáveis.
DESENVOLVIMENTO
DA CONSCIÊNCIA AMBIENTAL E DO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE URBANA
O
planeta Terra é um sistema vivo e de dinâmica evolutiva própria,
esta que determina processos cíclicos de surgimento ou desaparecimento
de montanhas, rios ou oceanos. Os vulcões e processo orogênicos
trazem à superfície novas formações rochosas,
enquanto que outros materiais sofrem com as intempéries climáticas
de ventos, águas ou geleiras.
Na
Terra os fenômenos climáticos alteram periodicamente as condições
de vida das espécies e, graças às condições
impostas pelos bilhões de anos de evolução, determinou-se
a existência da humanidade. Sobre a Terra vivemos, construímos
nossas cidades, retiramos tudo de essencial à manutenção
da espécie como a água, alimento, matéria-prima para
a produção de energia e fabricação de diversos
produtos para o consumo. Não obstante, é sobre ela que depositamos
nossos resíduos industriais ou domésticos que acarretam sérios
problemas ao meio ambiente devido à falta de tratamento adequado.
O
domínio do fogo coincide com as primeiras intervenções
humanas na natureza. A partir dessa época se dá a alteração
do meio natural pelo homem, posterior exploração e extração
mineral para fundição e manuseio do metal. Subentende-se
que a exploração mineral inicia-se há 40.000 anos,
na África, através da hematita utilizada na elaboração
de tintas para decoro. Entretanto, foi por volta de aproximadamente 8.000
a.C. que se deu a exploração do solo através da agricultura.
A partir de então a humanidade deixa de ser nômade e passa
a se fixar em regiões com recursos e possibilidades naturais, modificando
as características da superfície terrestre de acordo com
suas necessidades crescentes de desenvolvimento da civilização,
ao passo que a constante exploração dos recursos naturais
acarretou fortes impactos em determinadas regiões que culminaram
com o prejuízo à qualidade de vida.
A
própria história nos mostra exemplos de diversas civilizações
que se extinguiram por terem explorado, de maneira descontrolada, o ambiente
em que moravam. Na antiga Mesopotâmia, há séculos atrás,
o intenso uso de sistemas de irrigação acarretou a salinização
dos solos e sua impossibilidade de uso pela agricultura. Na América
Central pré-colombiana, a civilização Maia entrou
em decadência devido à má utilização
do solo, resultando em intensa erosão e escassez de água.
Ao
analisarmos o histórico de ocupação da Terra pelo
homem, percebemos que a população global que era cerca de
5 milhões há 10.000 anos, saltou para 250 milhões
no início da era Cristã e atingiu estimados 1 bilhão
de pessoas em 1850. Segundos estudos atuais, a população
global já ultrapassou 6 bilhões de pessoas, apresentando
uma evolução populacional de tendência em curva exponencial.
Por outro lado, a área de cultivo agrário cresceu 74% no
século XIX, em relação ao século anterior devido
ao desflorestamento intenso nos continentes da África, Ásia,
América do Sul e Central (Figura 9, 10 e 11).
Figura
9: Evolução populacional do mundo apresentando curva exponencial.
Fonte: ONU; Data: 2000
Figura
10: Crescimento populacional 2002-2050.
Fonte:
http://tsf.sapo.pt; Data: dez. /2002
Figura
11: Tabela de porcentagem populacional urbana por continente e taxa de
crescimento demográfico.
Fonte: http://tsf.sapo.pt;
Data: dez. /2002.
O
desenvolvimento tecnológico-científico da era industrial
também foi fator preponderante para o aumento da produtividade no
campo. O intenso uso de fertilizantes, agrotóxicos, técnicas
de plantio e desenvolvimento genético de sementes em laboratório
acompanha o crescimento da demanda de mercado e das complexas formas de
transporte e abastecimento.
O
consumo de matéria-prima mineral e energética está
diretamente relacionado com o índice de desenvolvimento humano,
assim quanto mais desenvolvida a nação, maior as necessidades
de suprimento, poder de consumo e conforto à população,
caracterizando uma relação direta entre desenvolvimento e
exploração dos recursos naturais.
Historicamente,
o modelo de colonização das nações européias
em franco desenvolvimento industrial a partir do século XVIII, se
caracterizou pelo desmatamento de extensas áreas verdes, visando
à extração e comercialização da madeira.
A área desmatada comumente se tornava espaço abandonado ou
destinado à pecuária extensiva, conforme o acesso aos meios
de informação e escoamento da produção.
Com
a retirada da mata nativa e substituição por vegetação
rasteira, a umidade relativa do ar, assim como o índice de fertilidade,
nitrogenação e quantidade de matéria orgânica
do solo tende a diminuir drasticamente. A ação da chuva passa
a ser mais intensa a partir do momento que o solo se torna mais exposto
aos agentes de intempéries, proporcionando o escoamento superficial
elevado do solo e perda da camada superficial (horizonte A), na qual se
concentra a terra mais fértil, e predomínio do solo mais
denso (horizonte B). Há um processo de compactação
do solo e intensificação da erosão. A perda de solo
resulta no processo de assoreamento das bacias hidrográficas e,
posteriormente, deposição de material sedimentar nos oceanos.
O
uso inadequado do solo se intensificou nas últimas décadas
com o desenvolvimento agroindustrial. A agricultura intensiva irrigada,
associada ao uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, e do
processo de mecanização e modernização da produção
que resultaram em impactos ecológico-ambientais e sociais. Devido
às praticas agressivas de produção, o solo tende ao
processo de salinização, além do risco de contaminação
das águas superficiais e subterrâneas, tendo em vista que
estas são de renovação e deslocamento lento, tornando
o processo de contaminação irreversível durante muitas
décadas ou séculos. Esse processo de “moderno” da agricultura
aumentou significativamente aos índices de produção,
mas trouxe reflexos sociais negativos diretos, pois contribuiu para a eliminação
de postos de trabalhos tradicionais no campo e intensificou a pressão
pela terra das culturas familiares e de subsistência, contribuindo
para o deslocamento de trabalhadores do campo para as áreas periféricas
das cidades. Dessa forma configura-se o processo de êxodo rural,
fenômeno comum a partir da década de 70 que culmina com o
desenvolvimento descontrolado das grandes cidades brasileiras.
Nos
países em desenvolvimento, de grandes carências econômicas
e sociais, existem índices de crescimento populacional muito superiores
aos dos países desenvolvidos, de expectativa e qualidade de vida
bastante elevadas. Estudos recentes revelam que a população
global tende a se estabilizar por volta do ano de 2050, quando a Terra
teria cerca de 10 a 11 bilhões de pessoas (Figuras 12 e 13).
Figura
12: Estimativa de crescimento populacional por continente de 2002 a 2050.
Fonte: Reuters; Data: dez.
/2002
Figura
13: Tabela de taxa de natalidade de 2002 a 2005.
Fonte: http://tsf.sapo.pt;
Data: dez. /2002.
Os
índices de consumo de matérias-primas e de energia nos países
desenvolvidos são elevadíssimos, resultando na produção
de grande quantidade de resíduos decorrentes desse processo. Nessa
busca pela qualidade de vida, os países em desenvolvimento tendem
a alcançar índices de consumo equivalentes aos dos países
industrializados. Entretanto, sabemos que diante desse contexto se atingiriam
níveis insustentáveis de consumo de matérias-primas
e energia, tendo em vista a capacidade limitada dos recursos naturais do
planeta. Assim, esses países devem propor formas alternativas e
sustentadas para se chegar ao desenvolvimento e à qualidade de vida,
evitando o desperdício e o consumismo exagerado dos países
desenvolvidos.
A
partir da década de 50 é que se iniciaram estudos relativos
aos processos de desenvolvimento, coincidindo com o período de independência
de muitos países colonizados. Na década seguinte, a Organização
das Nações Unidas (ONU), determinou o que seria a década
das Nações Unidas para o Desenvolvimento, idealizando que
a cooperação internacional refletiria no crescimento econômico
global através da transferência de tecnologias e ações
de fundos monetários internacionais, otimizando as relações
sociais dos paises menos desenvolvidos. No entanto, essas ações
se tornaram inócuas, pois se efetivou um quadro de dependência
tecnológica e econômica ainda maior, acentuando a crise social
nesses países com o Hemisfério Norte.
Durante
os idos de 1960 é que a questão ambiental foi tomada como
essencial a qualquer projeto de desenvolvimento. Até então,
inúmeros países consideravam desnecessário agregar
programas de preservação ambiental no processo e políticas
de desenvolvimento, logo se tinha a idéia errada de que era inerente
ao processo de industrialização a degradação
do meio. Nesse intuito, tornou-se conveniente aos países desenvolvidos
essa concepção equivocada, pois dessa forma se limitava à
instalação de indústrias poluidoras em seus territórios
ao passo que se transferiam tecnologias, garantindo matérias-primas,
barateando custos de produção com mão-de-obra excedente
e abundância de recursos naturais nesses países menos desenvolvidos,
estes que por sua vez disponibilizavam incentivos diversos à instalação
de multinacionais em seus parques industriais.
Ainda
no final da mesma década se deram as missões espaciais e,
posteriormente, a implantação de um sistema de monitoramento
e sensoriamento remoto via satélite, possibilitando controle de
ocupações, estudos e observações integradas
dos processos atmosféricos, climáticos e de mapeamento global
contínuo.
Durante
a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano
de 1972, em Estocolmo, foi determinada a interação conceitual
entre industrialização e preservação ambiental,
emergindo a idéia de “poluição da pobreza e eco-desenvolvimento”
como conseqüência da falta de desenvolvimento de uma nação.
Nos anos subseqüentes, a ONU teve uma postura política diferente,
discutindo e recomendando estratégias de distribuição
que objetivassem uma melhor divisão dos benefícios decorrentes
do desenvolvimento global, o que culminou na criação de uma
comissão de estudos aprofundados sobre os problemas mundiais de
ambiente e desenvolvimento. Em 1987 foi apresentado ao mundo o Relatório
Brundtland (Nosso Futuro Comum), dentro do qual estaria o novo conceito
denominado desenvolvimento sustentável, que determinava um sistema
harmônico de desenvolvimento social e econômico com o meio
ambiente do planeta. A partir de então, se tem o conhecimento da
importância de se estabelecer o equilíbrio entre meio ambiente
e justiça social, possibilitando melhor qualidade de vida global
e atendimento às necessidades básicas humanas, sem comprometer
os recursos naturais e a vida das gerações futuras.
Como
proposição resultante, o desenvolvimento sustentável
objetiva atender às necessidades básicas da grande maioria
da população mundial localizada nas nações
menos desenvolvidas, fomentando o equilíbrio ambiental e qualidade
de vida sobre o aspecto mundial.
No
Brasil, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre
o Meio Ambiente e Desenvolvimento no ano de 1992, sendo as questões
ambientais discutidas mundialmente nesse período. Foi apresentado
como resultado da Conferência um documento denominado de Agenda 21
, expressando um compromisso político das nações de
cooperarem harmoniosamente pelo desenvolvimento sustentável, pois
o mesmo documento determina que o crescimento demográfico e a pobreza
sejam questões de ordem internacional, portanto de responsabilidade
de todos os países. A Agenda 21 ainda estabelece que a solução
desses entraves nacionais dependa de projetos locais e regionais, vinculados
aos programas de meio ambiente e desenvolvimento integrados com apoio internacional.
Passados
quase 15 anos, os problemas levantados durante a Eco 92 não foram
combatidos e os compromissos de cooperação internacional
ficaram no âmbito das discussões teóricas. A nova ordem
econômica e social mundial agressiva, pautada na idéia da
“sociedade global”, na qual acontecimentos locais influenciam diretamente
o mundo todo, acentuaram ainda mais as discrepâncias e crises sociais
ou econômicas, sejam elas nacionais ou internacionais.
A
globalização representa um retrocesso em relação
aos preceitos do Desenvolvimento Sustentável, justamente porque
seus paradigmas estão centrados na idéia de concentração
de renda, consumo excessivo que geram desperdícios, injustiça
social e degradação ambiental. Paradoxalmente, a globalização
da economia fortalece as grandes corporações de capital transnacional,
pressionado governos dos países menos desenvolvidos a estabelecer
leis nacionais que priorizam o ideário neoliberal como medidas de
eliminação de tarifas alfandegárias, libertação
de fluxo de capitais
e privatização de serviços públicos
essenciais à população, colocando setores estratégicos
desses países em poder do capital privado.
Dentro
dessa ótica, torna-se impossível implementar políticas
públicas e estratégias alternativas de desenvolvimento regional
ou nacional, que visem o equilíbrio social e distribuição
de renda. A própria ONU, como um princípio de poder político
central no mundo, acaba se tornando um fórum de discussões
intermináveis que não tem força para pôr em
prática os compromissos assumidos junto às nações
de maior influência, estas que por sua vez, acabam priorizando seus
interesses através da mesma Organização.
AMBIENTE
URBANO SUSTENTÁVEL
A
cidade apresenta uma infinidade complexa de inter-relações
que devem ser entendidas, antes de tudo, numa ótica local e regional.
O grande desafio dos urbanistas atuais está em corrigir as legislações
ultrapassadas e as ações político-econômicas
(sem planejamento correto) que resultaram em verdadeiros desastres urbanos.
Os
interesses econômicos ou políticos não devem prevalecer
sobre o patrimônio público-social e a conseqüente qualidade
de vida urbana, para tanto se deve implementar discussões nas diversas
organizações e grupos da sociedade, propor soluções
aos problemas diagnosticados que resultem na elaboração de
Planos Diretores e Legislações Urbanas adaptados às
necessidades e potencialidades de cada região. Dentre as diretrizes
propostas para a reorganização do espaço urbano sustentável,
estabelecemos que:
1. A cidade deve
preencher seus vazios urbanos, minimizando custos de infra-estrutura e
se tornando mais densa. A prioridade na sobreposição de usos
compatíveis deve combater a setorização e zoneamento
rígido, o que diminui a segregação social e o impacto
ambiental;
2. A construção
de espaços públicos agradáveis, principalmente em
áreas degradadas ou desapropriadas, que permitam o convívio
das pessoas é uma proposta eficaz, principalmente quando associado
aos projetos de educação e conscientização
ambiental;
3. Adequação
do traçado urbano às condições: geofísicas
e geoambientais, tais como aspectos: geomorfológicos (endógenos
e exógenos), pedológicos, climáticos (insolação,
ventilação, temperatura e umidade), hidrológicos (análise
dos fluxos superficiais e subterrâneos) e o meio-ambiente (inter-relação
entre o homem, natureza e espaço ocupado);
4. A acessibilidade,
tanto para o sistema viário quanto para o fluxo de pedestres, é
um elemento definitivo na funcionalidade do espaço urbano. Propor
marcos arquitetônicos ou referências de localização
e sinalização adequada é ponto capital no deslocamento
de pessoas e utilização dos equipamentos públicos
de cultura, lazer, trabalho ou serviços. Nas zonas de baixa renda
deve-se procurar concentrar ofertas de empregos e serviços próximos
às residências, localizando pequenos pólos industriais
e de comércio;
5. Organizar a cidade
em um sistema policêntrico, definindo uma hierarquia de centralidade
dispersa (um centro principal seguido de sub-centros nas regiões
periféricas) e que concentre equipamentos e serviços nos
bairros. Isso evitaria o deslocamento e concentração excessiva
de pessoas e veículos na área central da cidade, minimizando
problemas e o impacto ambiental urbano;
6. Propor uma diversidade
urbana tipológica e morfológica, conjugando habitações
unifamiliares e multifamiliares de gabaritos múltiplos, que determinam
uma heterogeneidade formal e estética do conjunto urbano, o que
diminuiria o impacto causado por micro-climas e pelo processo de verticalização
resultante da densidade urbana concentrada;
7. Concentração
de comércio e serviços nas vias principais, ruas coletoras
ou espaços públicos, definindo usos e ocupações
que tornam a cidade densa, dinâmica, com diversidade de funções
e de baixo custo para implantação e manutenção;
8. Determinar um
sistema de espaços livres composto de praças, parques, largos,
reservas ambientais, avenidas ou ruas onde a locação dos
equipamentos sejam proporcionalmente dimensionados, de acordo com o número
de usuários locais, e estrategicamente localizados, conforme um
estudo viário e geográfico como também de organização
formal e hierarquização viária;
9. Mecanismos legais
e de fiscalização eficientes devem orientar o parcelamento
ambiental urbano, definindo uso e ocupação do solo, zoneamento
e legislação urbana (código de obras). Estes devem
obedecer às diretrizes traçadas claramente pelo Plano Diretor
Municipal que determinarão mecanismos antiespeculativos;
10. Minimização
das tensões sociais através de políticas públicas
voltadas para geração e distribuição de renda
para a população, programa de saúde de atendimento
amplo e eficiente, acesso à infra-estrutura urbana, democratização
da educação de qualidade e criação de áreas
de lazer, convívio e cultura. A inserção das periferias
e da grande população excluída da cidade legal nas
políticas sociais proporciona resultados diretos na formação
do ideal de cidadania, gerando indivíduos conscientes e participativos
no processo de melhoria da qualidade de vida urbana;
11. Equilíbrio
ambiental, social e econômico entre a área urbana e rural,
assim como um desenvolvimento sustentável entre regiões e
direcionadas para o interior, o que garantiria a estabilização
demográfica e de fluxos migratórios, melhoria da qualidade
de vida e de oportunidades de trabalho equilibradas no contexto nacional.
Após
o entendimento conceitual e ideológico de espaço urbano e
rural sustentável, deve-se estudar a implantação local
e regional de projetos que objetivem a maior eficácia ambiental
e social. Espaços arborizados (públicos ou privados), diversificados
e dinâmicos, que permitam o encontro de pessoas e se relacionem com
a complexidade e dinamismo dos lugares.
A
cidade deve ser organizada para a reciclagem e reaproveitamento da matéria,
proporcionando assim a diminuição na produção
de resíduos. Para tanto, a iniciativa pública deve orientar
e conscientizar a sociedade que, por sua vez, contribuiria na eficácia
das ações e fiscalização urbana.
A
malha urbana deve ser pensada de acordo com a redução nos
caminhos e trajetos percorridos pela população, definindo
que o cidadão realize a maioria das suas atividades diárias
sem a necessidade de utilização de automóvel ou transporte
público. A qualidade de vida da população urbana está
diretamente relacionada com o caminhar a pé, portanto incentivar
que o indivíduo caminhe até o trabalho, escola ou comércio
resulta em grandes economias de investimento na Saúde Pública.
A
arborização também é ponto capital na produção
de um espaço qualitativo, pois assim temos lugares sombreados e
melhores índices de umidade relativa do ar em períodos de
seca. Os rios e córregos, que antes eram poluídos e canalizados,
hoje não são entendidos como limitadores do desenvolvimento
do espaço urbano (como se pensava nas décadas de 70 a 90),
e sim como espaço de interesse ambiental e climático da cidade,
recebendo em suas margens vegetação ou mesmo parques públicos
lineares ao trajeto de sua bacia.
É necessária
a produção de novos espaços, como também a
recuperação e revitalização do patrimônio
histórico e das áreas degradadas da cidade, de forma que
minimizem gastos de energia e impacto ambiental na implantação
de projetos de melhoria e na manutenção dos mesmos.
Sabemos
que numa mesma cidade existem bairros de história, cultura, população,
características geofísicas e climáticas distintas
e que devem determinar projetos específicos e direcionados com suas
potencialidades. Da mesma maneira o urbanista, juntamente com o poder público,
deve compreender a região como um todo complexo e interativo, consciente
de que não é possível criar uma única cidade
sustentável e local sem pensar no regional, nas condições
do espaço rural e na relação com as cidades vizinhas.
O
ESTATUTO DA CIDADE E PLANO DIRETOR MUNICIPAL
O
crescimento horizontal desordenado tem se tornado um grave problema das
cidades brasileiras nas últimas décadas. Nas áreas
centrais de grandes cidades percebemos infra-estruturas subutilizadas,
a exemplo de conjuntos de edificações abandonadas ou em desuso,
lotes vazios supervalorizados em detrimento de outras áreas, muitas
vezes dos centros históricos, abandonados. Por outro lado, a cidade
continua a se espalhar através de novos núcleos habitacionais
de baixa qualidade, forçando o alargamento desnecessário
do perímetro urbano e retirando das proximidades centrais a população
de baixo poder aquisitivo. Nesse processo a cidade perde suas reservas
naturais e cinturões verdes, desmatando florestas, matas ciliares,
poluindo e canalizando rios e córregos, o que determina a degradação
ambiental que, em muitos casos, torna-se irreversível.
A
especulação imobiliária se utiliza do poder econômico
e político na implantação de loteamentos afastados
do centro urbano, obtendo lucros astronômicos com projetos de baixa
qualidade e custo, ao passo que transfere ao poder público de capital
coletivo as responsabilidades de infra-estrutura desses novos bairros.
De
acordo com o Estatuto da Cidade, o artigo 5 estabelece o parcelamento,
no qual a área ou edificação tenha uma utilização
obrigatória, ou seja, determina que o proprietário destine
um uso ao espaço (edificado ou não), através da utilização
legal pela prefeitura municipal do IPTU progressivo. A Lei também
estabelece o Direito de Superfície, que permite ao proprietário
conceder a terceiros o uso de solo, subsolo e espaço aéreo
do terreno. O Direito de Construir também é outorgado pelo
Estatuto, pois determina que o Plano Diretor origine áreas nas quais
os direitos de edificar estejam acima do coeficiente de aproveitamento
do solo, de acordo com a contrapartida social justificada pelo interessado.
Dessa forma a lei permite a ampliação de uma edificação,
já limitada pelos coeficientes de ocupação do município,
em troca da construção de praças públicas ou
casas populares.
Existem
outros instrumentos do Estado como Impacto de Vizinhança, Direito
de Preempção ou Operações Especiais que permitem
ao poder público implantar ações que visem a melhoria
da qualidade de vida da população urbana, entretanto a participação
e fiscalização da comunidade é elemento essencial
para que as inovações legais de Outorga do Direito de Construir
funcionem de forma positiva para a população e não
se tornem mais um benefício ao poder econômico, impactando
o meio natural e comprometendo ainda mais a qualidade de vida.
O
Estatuto ainda inova através do Usucapião Especial de Imóvel
Urbano, no qual determina para o indivíduo que tenha detenção
de área correspondente à 250 m² ou que tenha moradia
em favelas ou loteamentos ilegais durante um período mínimo
de 5 anos, sem oposição de possível proprietário,
terá posse definitiva legal desde que não seja proprietário
de outro imóvel urbano ou rural. Essa atribuição permite
ao Estado a regularização de milhares de moradias, principalmente
das ocupações ilegais da periferia urbana, possibilitando
a inclusão social, regularização urbana e a outorga
definitiva da escritura ao residente e legítimo dono. Ainda que
no Estatuto esteja garantida a preservação de áreas
ambientais, é essencial a aplicação de mecanismos
eficazes para fiscalização do estado associado à participação
da sociedade.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
No
contexto de “Mundo Globalizado”, o desenvolvimento sustentado deve se opor
a uma simples importação de conceitos e idéias sem
adequação às realidades locais ou regionais latino-americanas.
O ideário de sustentabilidade urbana no Brasil, com suas diferentes
relações espaciais, sociais e econômicas de nação
em desenvolvimento, não deve se espelhar nas propostas sustentáveis
implantadas ou idealizadas pelas nações desenvolvidas e suas
políticas de mercado neoliberal.
Já
que parcos recursos existem para a implantação de projetos
com demanda social nas nações em desenvolvimento, deve-se
realizar estudos precisos de elaboração e execução
dos mesmos, objetivando o resgate da qualidade de vida urbana a partir
dos interesses e do envolvimento social que, comumente, vão de encontro
aos propósitos vinculados ao poder político e econômico.
Outro
ponto capital na implementação de projetos urbanos é
seu caráter multidisciplinar, o que determina a interação
das várias áreas do conhecimento em harmonia com a sociedade,
aspectos legais, economia e as potencialidades regionais, tendo como foco
central a sustentabilidade além do perímetro urbano de cada
cidade. Não é permitido ao urbanista contemporâneo
compreender o desenvolvimento do espaço somente dentro do perímetro
local da cidade, negligenciando as relações sociais, econômicas,
políticas ou ambientais de uma região à outra.
Para
uma melhor orientação na elaboração e execução
do Plano Diretor Municipal, deve-se primeiramente realizar estudos geofísicos
e geoambientais (estudos de solo, vegetação, fauna, recursos
hídricos, topografia, clima etc.), para mais adequadamente se determinar
o planejamento do desenvolvimento urbano. Assim, também o controle
e orientação da ocupação urbana ou rural devem
estar amparados por ferramentas de mapeamento territorial contínuo,
associado aos estudos regionais de desenvolvimento.
Dentro
dos limites do perímetro urbano, definir uma cidade densa e diversificada,
com sobreposição de funções, áreas verdes
e espaços públicos de encontro, na qual se exige pouco deslocamento
motorizado e se minimiza o impacto ambiental, refletindo diretamente na
melhoria da qualidade de vida das cidades dos nossos dias.
A
existência de espaços verdes, baixo consumo de energia, projetos
de baixos custos de aplicação e manutenção,
programas de reciclagem e minimização de desperdício
associado às políticas de inclusão social certamente
proporcionaria cidades mais sustentáveis. Aliás, o fator
social é vital nesse processo, pois a participação
da população desde a elaboração dos projetos
estabelece uma relação de identidade e interesse da comunidade
para a implantação e manutenção dessas obras
urbanísticas.
Também
se deve observar exemplos de ações públicas centradas
na substituição das condições de miséria
por atitudes ecológicas, com cita Gouvêa
(2003) “trocar lixo coletado seletivamente numa favela, por alimentos,
como fez a Prefeitura de Curitiba ou organizar, nas periferias urbanas,
hortas comunitárias e medicinais”, tais atitudes bem sucedidas devem
ser experimentadas como forma de minimização mais direta
dos problemas sociais.
O
nostálgico regresso do urbanismo contemporâneo aos tempos
das cidades coloniais não deve ser tomado como um retrocesso conceitual,
mas sim como estudo de exemplos de valorização numa referência
ecológica empírica do caboclo brasileiro e da cultura milenar
indígena, respeitando as matas de galeria, localizando suas casas
de acordo com a topografia e utilizando materiais do lugar adequados às
condições climáticas regionais. A cidade sustentável
do futuro está muito mais relacionada com nosso passado, do que
com os ideais de desenvolvimento de nosso presente.
Notas
Sustentabilidade: “o desenvolvimento sustentável
é aquele que satisfaz às necessidades da geração
atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras
para satisfazer as suas”. Our Common Future, Comissão Mundial
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento,
Oxford University Press, 1987 (Informe Brundtland).
Le Corbusier (1887-1965), urbanista franco-suíço
precursor do movimento moderno do séc. XX criticava o desenho sinuoso
das cidades medievais européias que, segundo ele, era definido não
pelo “caminho do homem” – racional e reto porque sabe aonde quer chegar
– mas de acordo com o “caminho das mulas” – irracional e sinuoso – contrastando
com a idéia de racionalidade dos traçados modernos que visavam
a funcionalidade, a locomoção do automóvel e exaltação
geométrica.
Agenda 21 é o documento elaborado
em consenso entre governos e instituições da sociedade civil
de 179 países e aprovado em 1992, durante a Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no
Rio de Janeiro. A Agenda 21 traduz em propostas de ações
o conceito de desenvolvimento sustentável.
BIBLIOGRAFIA:
ACSELRAD,
Henri. A Duração das Cidades: Sustentabilidade e Risco
nas Políticas Urbanas. Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 2001.
Agenda
21. Conferência das Nações Unidas sobre o meio
ambiente e desenvolvimento. 2ª ed. Brasília: Senado
Federal, 1997.
BONDUKI,
Nabill. Habitat: As Práticas Bem Sucedias em Habitação,
Meio Ambiente e Gestão Urbana nas Cidades Brasileiras. 2ª
edição – São Paulo: Ed. Livros Estúdio Nobel,
1997.
CHOAY,
Françoise. O Urbanismo. São Paulo: Perspectiva,
1983.
CORBUSIER,
Le. Urbanismo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CORDANI,
U. G. As Ciências da Terra e a Mundialização
das Sociedades. São Paulo: Estudos Avançados, 1995,
v.9.
DEMENY,
P. A Perspective on Long-Term Population Growth. Popul. Develop.
Rev., 1984, v. 10.
DREW,
David. Processos Interativos Homem-Meio Ambiente / David Drew;
trad.: João A. Santos. – São Paulo: DIFEL, 1986.
ENDLICHER,
Wilfried. El Problema de la Erosión del Suelo em la Cordillera de
la Costa de la Octava Región. Chile: Revista de Geografía
Norte Grande, 15: 11-27, 1988.
Estatuto
da Cidade. Guia Para Implementação pelos Municípios
e Cidadãos. Senado Federal – Mesa Diretora/ Biênio
2005/06. Senado Federal/Ministério das Cidades/ Caixa Econômica
Federal/ Instituto Polis. Brasília: Inst. Polis, 2005.
FYFE,
W. S.; CALDWELL, W. G. E. “Earth Sciences and Global Development”, in IUGS
perspective. Episodes, 1996,
GOLDEMBERG,
J. Energy, Environment and Development. London: Earthscan
Pub., v.19.
GONZALES,
Suely F. N. & KOHLSDORF, Maria E. O Espaço da Cidade:
Contribuição a Análise Urbana. São
Paulo: Ed. Projeto Associados Ltda, 1985.
GOUVÊA,
Luiz Alberto. Biocidade: conceitos e critérios para um desenho
ambiental urbano, em localidades de clima tropical de planalto
. – São Paulo: Nobel, 2002.
GÜEL,
José M. F. Planificación Estratégica de Ciudades.
2ª ed. – Espanha, Barcelona: Ed. Gustavo Gili S.A., 2000.
GUERRA,
Antônio J. T. & CUNHA, Sandra B. da. (Organizadores). Geomorfologia
e Meio Ambiente. 3ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2000.
MULDER,
E. F. J.; CORDANI, U.G. Geoscience Provides Assets for Sustantable
development; Episodes, 1999, v.22.
NORSE,
D; JAMES, C.; SKINNER, B. J. ZHAO, Q. Agriculture, Land Use and Degradation.
In Dooge, J. C. I. ; Goodman, G. T.; La Rivière, J. W. M. ; Marton-Lefèvre,
J.; O’Riordan, T.; Praderie, F., editors, An Agenda of Science for
Environment and Development into the 21st Century. Cambridge University
Press, 1992.
OLGYAY,
V. Design With climate-bioclimatic approach to architectural regionalism.
New Jersey: Princeton University Press, Princeton, 1963.
RUANO,
M. Eco Urbanismo Entornos Humanos Sostenibles: 60 Proyectos.
Barcelona: Editora Gustavo Gili S.A., 1999.
RUEDA,
S. P. Ecologia Urbana, Barcelona la seva región metropolitana
com a referents. Barcelona: Beta Editorial S.A., 1995.
ZISWILER,
V. Extinct and Vanishing Species. New York: Springer-Verlag,
1967.