O
presente trabalho é resultado de uma investida etnográfica
na cena de música eletrônica da cidade de Salvador-Bahia,
com a atenção voltada para questões relacionadas ao
uso de psicoativos. É fruto de observação, entrevistas
e conversas informais e procura demonstrar a amplitude do universo que
compreende a música eletrônica, as clivagens que o mesmo comporta,
com o objetivo de relativizar a compreensão generalizada da existência
de relação entre o uso de psicoativos e a preferência
pela música eletrônica.
EM
PRIMEIRO LUGAR: O QUE SE ENTENDE POR MÚSICA ELETRÔNICA ?
Sob
a denominação “música eletrônica” repousam estilos
musicais variados e variáveis, entre os quais há de comum
o fato das músicas serem produzidas de forma binária
, possuindo, porém, dentro de cada gênero/subgênero,
estrutura, velocidade, timbres e climas característicos
. A expressão generalizadora “bate-estaca” é muito utilizada,
especialmente de forma pejorativa, para denominar a música eletrônica.
No entanto, esta compreende um vasto universo musical, do qual a House,
o Tecno, o Drum and Bass e o Trance são os principais
gêneros. Embora seja comumente relacionada às pistas de dança,
a música eletrônica abrange também estilos não
dançantes como, por exemplo, o Trip Hop, o Illbient,
e o IDM (Intelligent Dance Music). Os gêneros também
se subdividem. A House, por exemplo, pode ser apreciada nas vertentes
Deep,
Funky, Tech, Minimal, Soulfull,
Hard,
Freak, Tribal ou Progressive. O Trance pode
ser Euro, Psy, Goa, Morning, Progressive,
Fullon,
Dark, Tech ou Hard e assim por diante
. O surgimento da música eletrônica está relacionado
a vários eventos, dispersos ao longo do planeta e dos anos. Sem
alongar ou entrar em aspectos polêmicos, serão citados os
principais acontecimentos relacionados à emergência do que
viria a ser, no Brasil, a partir de meados dos anos 90, conhecido como
música eletrônica.
Experimentações
com sons "sintéticos" são conhecidas desde fins do século
XIX. Em relação à música pop, mais especificamente
ao que hoje corriqueiramente se denomina “música eletrônica”,
pode-se dizer que a história começa com o Kraftwerk,
grupo alemão cujos componentes experimentavam produzir música
a partir de recursos puramente eletrônicos, no final da década
de 60. Esses artistas abriram precedente para a produção
de uma música pop baseada em sons que não eram comumente
associados com música, como o ruído de um trem em movimento,
vidro quebrando ou buzinas de automóveis, por exemplo, sempre evocando
o contexto tecnológico e a vida nas sociedades industriais.
Na
década de 70 encontra-se outro elemento relevante para o surgimento
não somente do que viria a ser conhecido como música eletrônica,
mas também de um contexto para sua fruição e formação
de uma cultura relacionada, que é consolidação, com
o advento da “disco music”
, da frequência aos nightclubs - ambientes fechados onde as
pessoas se reuniam para dançar um som reproduzido mecanicamente.
Além da freqüência aos espaços de dança,
é importante ressaltar que a música House, o primeiro
dentre os estilos do que viria um dia a ser conhecido como música
eletrônica, começou a tomar forma no início da década
de 80, a partir de influências da música Disco, com
suas linhas de baixo melódicas e ritmo bem marcado, herdados, por
sua vez, do funk.
Em
textos que relatam o surgimento da House, sempre aparecem em destaque
dois nightclubs e seus respectivos DJs (disc-jocqueis): o Paradise
Garage, de New York - clube de freqüência multirracial
(e “multissexual”), onde atuava o cultuado Larry Levan - e o Warehouse
(cujo nome batizou o gênero), de Chicago, onde Franckie Knuckles,
considerado o criador da House, comandava o som. A segregação
entre brancos e negros, homossexuais e heterossexuais não era a
atitude que predominava nesses clubes, ao contrário do que costumava
ocorrer em outros ambientes nos Estados Unidos. Como afirma Cheeseman no
artigo "History of House": “the emphasis was in the music”. Esses
acontecimentos datam da primeira metade da década de 80. Quase ao
mesmo tempo, em Detroit, Derrick May e Kevin Saunderson davam ao mundo
uma versão menos “soulfull” e mais robótica do som
produzido em New York e Chicago, originando mais um gênero de música
eletrônica: o Tecno
.
No
fim da década de 80, com a chegada da House e do Tecno
americanos ao velho continente e com a popularização de aparelhos
eletrônicos como o sampler (que tem a capacidade de armazenar
e reproduzir uma amostra selecionada de som em qualquer velocidade, adequando
os trechos selecionados à escala musical), surge na Inglaterra a
“Acid House”, estilo no qual a construção musical
se dava através de colagens de sons diversos e de trechos de outras
músicas, além de explorar bastante o som da TB 303, aparelho
construído para simular linhas de baixo que, desprezado pelos músicos
“tradicionais”, foi alçado à categoria de objeto de culto
pelos produtores de música eletrônica. Também não
se pode esquecer, ao contar esta história, da influência da
cultura dos Sound Systems, trazida pelos imigrantes jamaicanos para
os EUA, vez que esta teve um papel importante na origem do rap,
em fins da década de 70 do século passado. O Rap (que
significa Rhythm and Poetry) é um estilo musical no qual
a figura do DJ, elemento importante no que viria a ser chamado futuramente
de cultura clubber, era também uma peça-chave.
A
partir dos anos 90, a música produzida para pistas de dança
foi, durante algum tempo, considerada de forma unívoca, sendo categorizada
como "Dance Music". Com a consolidação e expansão
do estilo, a denominação genérica de “Música
Tecno” começou a ser utilizada, sendo substituída depois
pela expressão "Música Eletrônica", já que “Tecno”
é, na verdade, a denominação de um gênero específico.
Como
visto neste pequeno histórico, o que hoje se chama de música
eletrônica é fruto do cruzamento de vários movimentos,
em várias partes do globo. O contexto histórico do surgimento
da ME, envolve ainda aspectos como a criação, popularização
e conseqüente barateamento de aparelhos como sintetizadores e grooveboxes,
assim como de computadores, além do desenvolvimento e disseminação
de softwares destinados à produção musical. Esses
também foram fatores de potencialização do gênero
pois, embora usados por músicos de todos os tipos e estilos, é
na música eletrônica que tais recursos adquirem papel central,
não só na produção das faixas mas também
na própria concepção musical, pensada e elaborada
a partir dos mesmos.
Um
elemento que define a música eletrônica, ao lado de características
estéticas específicas – como determinados andamentos, timbres
e texturas - e do modo de composição – binário, é
sua associação com o underground. O termo underground
adjetiva produtos culturais cuja intenção artística
sobrepuja a intenção comercial, e que são produzidos,
executados, divulgados e/ou distribuídos de forma alternativa. Assim,
mesmo que sejam construídas de forma binária e que possuam
timbres e texturas aproximados, faixas de caráter mais pop não
se encaixam na definição de música eletrônica
como música underground.
De
acordo com esta ótica, predominante no meio da música eletrônica,
a música tocada na maioria dos clubes direcionados à freqüência
homossexual – segmento social costumeiramente associado ao estilo – não
é considerada exatamente como eletrônica, visto que nesses
locais são executadas as vertentes de caráter mais comercial,
baseadas em fórmulas, da House Music.
DIFERENTES
SONS, DIFERENTES PÚBLICOS, DIFERENTES IDENTIFICAÇÕES
Na
Inglaterra, as primeiras festas de música eletrônica – as
Raves - eram misturadas em termos de som e de público. Nessas
festas, os participantes eram todos ravers e dançavam ao
som de música “tecno”. Com o tempo, aquela música foi se
especificando, gerando subgêneros, ganhando nomes diferentes, e públicos
mais específicos foram se formando. As maneiras de desfrutar daquela
música também foram se diferenciando. Fortaleceu-se a associação
de determinados costumes, preferências e objetos - inclusive substâncias
psicoativas - com os diferentes gêneros de música eletrônica.
Assim, embora não exista uma correlação necessária,
existe uma convergência / associação consagrada entre
determinados segmentos sociais e alguns subgêneros da Música
Eletrônica. Por exemplo: a House é constantemente associada
aos gays e, ao menos em São Paulo, onde a cena Drum’n Bass foi muito
forte no início deste século, o estilo é associado
a jovens pobres das periferias, em sua maioria negros e afrodescendentes,
denominados “cibermanos” (ou clubbers-favela, como já chegaram a
ser chamados, segundo Palomino (p.244. Já
o Tecno e o Trance são mais comumente associados à
preferência de jovens brancos pertencentes às camadas média
e alta.
Assim,
a fragmentação dos estilos foi acompanhada por uma diferenciação
do público e dos contextos de fruição. Deste modo,
as festas de Drum and Bass se tornaram bem diferentes das festas
de Eletro, por exemplo, que, por sua vez, também são
bem diferentes das festas de Trance
.
Antes
de prosseguir, é preciso frisar que não se pretende examinar,
aqui, a exatidão de tais correlações ou fazer um acompanhamento
do processo da diferenciação musical ou de público.
O objetivo do presente trabalho é dar uma idéia geral sobre
a cena de música eletrônica de Salvador-Bahia, procurando
evidenciar as clivagens existentes e também desvelar aspectos relativos
ao uso de psicoativos.
A
FORMAÇÃO DA CENA DE SALVADOR
Embora
seja consenso que a primeira festa de música eletrônica em
Salvador tenha sido promovida pelo Dj Lúcio K, no dia 13 de agosto
de 1993, no Solar do Unhão, pode-se falar realmente em uma cena
de música eletrônica - compreendendo cena como rotina de acontecimentos
/ regularidade - conforme conceitualiza Duarte - a partir de 1999.
Só
para deixar registrado, um pouco antes disso, Salvador já havia
possuído uma cena de Djs. Nesta época, havia na cidade um
circuito dedicado ao Miami Beat ou House Miami, estilo musical
caracterizado por batidas eletrônicas quebradas e vocais melodiosos.
A história desta cena, contada pelo Dj Lucio K., que foi um dos
expoentes do estilo, é curiosa. Segundo ele, em meados da década
de 80, um dos poucos locais onde era possível adquirir discos importados
era uma loja carioca localizada em Copacabana, que recebia os singles
da parada norte-americana. De acordo com Lúcio K., os discos do
Top Ten americano eram rapidamente adquiridos pelos Djs do Rio de Janeiro.
Assim, restava aos Djs baianos, em uma época em que não existia
internet e as fontes de informação eram escassas, confiar
nas sugestões dos vendedores da loja, que indicavam os discos que
sobravam, faixas, justamente, da cena de Miami e Porto Rico - na verdade
discos de Freestyle - que também conseguiam boas colocações
na parada americana, por venderem bastante entre os jovens americanos de
ascendência latina. Aos poucos os Djs baianos assumiram o estilo
e várias danceterias - termo que era usado para designar as festas
e espaços onde se podia ouvir e dançar o Miami - surgiram
em Salvador, formando, na periferia da cidade, um circuito de festas e
eventos. Ainda hoje existem apreciadores do Miami, que costumam se reunir
nas danceterias Pop Dance (na Rua Carlos Gomes, Centro) e Emoções
(no Engenho Velho de Brotas), espaços remanescentes de uma cena
que, vinte anos atrás, incluía diversos bairros populares
de Salvador, como Liberdade, São Caetano, Periperi, Paripe...
Voltando
especificamente ao que depois viria a ser categorizado como música
eletrônica, antes de 1999, o que havia em Salvador eram iniciativas
esparsas. Tem-se conhecimento, por exemplo, de uma festa ocorrida em 1996
numa barraca de praia em Itapoã, assim como de uma série
de festas denominadas Ogumadélica, ocorridas no ano de 1998. O som
dessas festas não possuía ainda caráter segmentado.
Na primeira edição da Ogumadélica, por exemplo, na
qual estive presente, foi possível escutar faixas de artistas e
grupos como Fatboy Slim, Chemical Brothers, Prodigy
e Kraftwerk, por exemplo.
A
partir de 1999 é que os primeiros coletivos de música eletrônica
– Pragatecno e Soononmoon – começaram a atuar de forma
mais sistemática. Foi quando, também, um circuito de festas
gays itinerantes, que reivindicavam o status de raves / festas de
música eletrônica, começou a se desenvolver e com isso
surgiram produtoras voltadas para a promoção deste tipo de
evento, como Idéia Fixa e Oops Up.
Como
no início da era das raves, na Inglaterra, também
no início da cena de Salvador as festas de música eletrônica
misturavam públicos e estilos musicais. Já as festas itinerantes
atraíam majoritariamente um público gay masculino e restringiam
o som às vertentes mais comerciais da House Music, incluindo ainda,
por vezes, música pop brasileira remixada ou clássicos da
“Disco Music”. Mas também possuíam características
de acordo com o que prescrevia a cartilha clubber: eram divulgadas através
de e-mails e flyers
, traziam Djs como atração principal, pista com iluminação
de boate, lounges
com pufes e almofadas e, por vezes, stands de roupas alternativas e adereços
característicos. Em relação ao contexto musical e
de entretenimento da cidade, essas festas podiam perfeitamente ser consideradas
alternativas, apesar de trazerem, em termos de som, o que era considerado
lixo pelos conhecedores de música eletrônica. Com isso, estabeleciam-se
polêmicas entre os aficcionados – que ansiavam por música
eletrônica “legítima”- e os produtores desses eventos, acusados
de se aproveitar do carisma que a música eletrônica começava
a adquirir para promover festas com som comercial.
Nos
anos 00, a música eletrônica tornou-se “hype” e com
isso atraiu o interesse da mídia e de grandes corporações,
dando origem a um fenômeno interessante: a realização
de festas de perfil comercial, porém com a presença de Djs
prestigiados no underground. Essas festas costumam atrair especialmente
adolescentes e indivíduos que almejam participar dos contextos que
estiverem desfrutando de prestígio na mídia. Em Salvador
este tipo de evento começou a ocorrer há cerca de três
anos, formando um pequeno mercado “mainstrean” de festas de música
eletrônica. Assim, a cidade hoje conta também com eventos
de caráter nitidamente comerciais, mas que levam o som de Djs respeitados
no underground a um público não especializado.
Com
tudo isso, hoje já é possível dizer que Salvador possui
uma cena de música eletrônica. Esta é modesta e sobrevive,
especialmente, graças aos esforços dos coletivos
que atuaram para formá-la e continuam movimentando-a até
hoje, ao manter uma rotina de festas, além de cuidarem da promoção
de cursos de Djs, seminários, etc. Quanto às produtoras mais
comerciais, representam iniciativas esparsas e pontuais, cujo objetivo
é mais restrito e imediato: a obtenção de lucro, sem
compromisso com a formação de público ou manutenção
da cena. Entretanto, é inegável que acabam por contribuir
neste sentido, por exemplo, ao fazer circular informação
a respeito desta música, na mídia, ou ao trazer Djs de outros
estados, cujos custos dos altos cachês, além das passagens
e hospedagem, os torna inacessíveis para as produções
de perfil underground.
Este
foi um esboço rápido da formação da cena de
música eletrônica em Salvador. Procurou-se apresentar as principais
informações, de uma maneira geral, no sentido de ilustrar
como se configurou a cena e se deu a formação de seu público.
É interessante evidenciar que o presente trabalho é resultado
do investimento de uma componente da cena, mais especificamente, da cena
House da cidade, onde atua como DJ há mais de cinco anos. Neste
sentido, representa uma iniciativa empreendida por uma testemunha, que
escreve, em grande parte, sobre o que viveu e presenciou, sobre uma realidade
que ajudou a construir, com todas as vantagens e desvantagens que esse
fato pode trazer para um trabalho de caráter científico.
EM
QUE SENTIDO ESTÁ SENDO USADO O TERMO CENA
Cena
é, segundo Duarte,
“uma subcultura quanto tem visibilidade (...) é a efervescência
contínua de uma cultura específica (...) É o povo
se reunindo sempre em torno de algo, num ´point`”. Assim,
de acordo com Duarte “O que chamamos de cena é nada mais que uma
comunidade se encontrando sempre para consumir o que elas gostam e se identificam,
culturalmente”
.
Em
Salvador, a música eletrônica já possui um público
fiel e uma rotina de eventos. Com base neste ponto de vista, é possível
afirmar, portanto, que a cidade possui uma cena de música eletrônica.
Outra razão para destacar o termo, é porque o mesmo é
utilizado pelos freqüentadores e aficcionados para definir o conjunto
de iniciativas relacionadas à promoção da música
eletrônica, de festas e eventos onde a música eletrônica
é o motivo – e o que dá o tom - dos encontros. A cena, neste
caso, é uma abstração, que procura circunscrever o
universo relacionado à musica eletrônica, e é utilizado
para referir-se a este, seja em nível musical, mundial, nacional,
regional ou local. Assim, fala-se, por exemplo, na “cena de House”,
na “cena brasileira”, na “cena do Nordeste”, na “cena de São Paulo”,
e assim por diante.
A
CENA HOUSE E A CENA TRANCE
Levando
em conta a segmentação de som e público da qual se
falou anteriormente, é mais adequado dizer que Salvador conta, na
verdade, com, pelo menos, duas cenas de música eletrônica,
duas rotinas diferenciadas de eventos, constituídas em torno da
House e do Trance, que são as vertentes de maior destaque
na cidade, e que têm, por isso, a capacidade de promover identificações
além da questão musical, possuindo, pode-se dizer, potencial
para formar identidade.
A
cena House e a cena
Trance possuem algumas características
em comum, como a apreciação de música binária
reta, a divulgação dos eventos via internet e flyers, os
Djs como atração principal das festas, etc. No entanto, dão
origem a contextos de apreciação bem diferenciados, como
será visto a seguir.
Embora
binária e reta, a música Trance é bem diferente
da música House, assim como a cultura que se associa a ambas.
O Trance é mais acelerado, geralmente mais melódico
e impõe climas bem diferentes dos da House. Os públicos
também são diferenciados, a começar pela questão
do gênero e da orientação sexual. As “baladas” de House
contam com afluência predominante de homossexuais do sexo masculino,
enquanto que nas festas de Trance, pelo que foi possível
perceber até o momento, a proporção de homens e mulheres
é bem equilibrada e os homossexuais – de qualquer sexo - não
têm presença predominante. Em relação à
geração, nas festas de House é possível
encontrar pessoas de idades variadas, sendo muito comum a presença
de pessoas acima dos trinta anos. O público do Trance parece,
de maneira geral, em média, ser mais jovem, aparentando estar, em
sua maioria, abaixo dos trinta anos. Os contextos de apreciação
também são diversos.
Em
Salvador, a cena House possui, em relação ao som, uma face
comercial e outra alternativa. Os eventos ocorrem principalmente à
noite, em boates e locais pequenos, e costumam ser restritos ao perímetro
urbano. Em relação ao uso de psicoativos, além do
álcool, que é bastante usado, foi possível testemunhar
/ ouvir testemunhos acerca do uso de maconha, cocaína, ketamina
(special k), poppers (nitrito de amila) e ecstasy.
Entretanto, embora tenha sido possível levantar a presença
dessas substâncias, a utilização de psicoativos não
parece ser parte fundamental do estilo de vida dos freqüentadores
da cena House, ao menos em Salvador. O uso é geralmente discreto
e o excesso não é algo comum, sendo poucas as vezes em que
foi possível testemunhar cenas de abuso, a exemplo de pessoas caídas,
desmaiadas ou cometendo insanidades como comer areia ou ficar amigo de
tocos de árvore
, por exemplo. Até mesmo em relação ao álcool
o abuso não é notório, se é que existe em proporção
que mereça registro. Sobre o aspecto do uso de drogas – ou, na verdade,
da “falta” de drogas ilícitas - na cena House de Salvador,
é interessante registrar os comentários emitidos por apreciadores
desta música, em épocas diferentes, no sentido de explicar
porquê esta cena, especialmente em sua faceta alternativa, sobrevive
com tanta dificuldade: um deles falou que o que faltava em Salvador era
“droga”. O outro disse que o que faltava em Salvador era um “dealer”
na porta das festas. Uma Dj de São Paulo, quando soube da incipiência
da cena de Salvador, logo perguntou se não era “por falta de droga”.
Interessante que, nessas opiniões transparece a consideração
da droga como aditivo para uma cena constituída em torno da música.
A
cena Trance é a cena de eletrônica que “bomba
” em Salvador. Embora conte com eventos em locais fechados, tais como boates
e casa de shows, costuma também se materializar em locais afastados,
às vezes fora do perímetro urbano, a exemplo de sítios
e reservas. É o caso das famigeradas Raves
, que costumam durar 24 horas, às vezes até mais
. Depois das festas, são tradicionais os afters
e chill-outs
. Na cena Trance, o apreço por civilizações
perdidas e culturas orientais é característico e se revela
em ações como a distribuição de calendários
maias ou nas mandalas e símbolos esotéricos que costumam
compor o ambiente das festas, onde predominam fluorescências, especialmente
nas cores laranja e roxo, realçadas pelo uso da luz negra. Ilustrações
de divindades como Shiva
ou Ganesha constantemente
figuram nas ambientações, e muitas vezes aparecem nas vestes
dos freqüentadores
. Essas características das festas parecem evidenciar que o contato
com a natureza e a associação com o misticismo são
elementos muito valorizados pelos freqüentadores da cena Trance.
O mesmo acontece em relação à psicodelia e à
expansão da consciência. Neste sentido, o uso de psicoativos
é, aparentemente, parte importante da cultura e do estilo de vida
relacionados ao Trance. Até o momento, foi possível
presenciar o uso ou ouvir testemunhos acerca do uso das seguintes substâncias:
álcool, maconha, haxixe, cocaína, ketamina, lança
perfume, salvia divinorum, DMT, ecstasy e ácido lisérgico.
Na cena Trance, o uso de drogas é largo e facilmente perceptível
inclusive para um observador pouco familiarizado. O excesso também
é notório, sendo grande a quantidade de pessoas “fritando
” nas festas. Sobre este aspecto, é possível encontrar, na
internet, fotologs e páginas do Orkut dedicadas à questão,
a exemplo do “Frito passa
mal”, onde estão expostas fotos de pessoas “muito loucas” nas
Raves,
seguidas de comentários dos visitantes das páginas sobre
o estado de “fritação”. Em relação aos excessos,
foi possível ouvir diversos relatos: sobre uma pessoa que passou
a noite com a cabeça enterrada em um arbusto e outro que apanhou
um punhado de areia no chão e ofertou aos céus, comendo a
areia, em seguida, por exemplo.
Outras
pistas autorizam a conclusão de que o uso de psicoativos faz parte
do estilo de vida relacionado ao Trance. Por exemplo: é comum
que festas e projetos tenham nomes que aludem à substâncias
psicoativas, como Yagé e Infected Mushroom – nomes de projetos musicais
- ou DMT CHAOS CLUBE, nome da festa cuja segunda edição foi
realizada pelo coletivo baiano Soononmoon no dia 11 de maio de 2002,
em uma casa noturna do Rio Vermelho chamada Open Gate, ou ainda
DIVINORUM, nome de um projeto que leva o psytrance ao público
de Curitiba, nos dias de quinta feira
. No site
do já citado Soononmoon,
coletivo que atua na cena Trance baiana, consta o registro de uma
experiência com “salvia divinorum”. Na lista de discussão
mantida pelo coletivo, o universo dos psicoativos costuma ser constantemente
debatido.
O
Drum and Bass é também um estilo que conta com apreciadores,
em Salvador. No momento, entretanto, a cena Drum and Bass tem sido pouco
movimentada. Mas pensando em momentos anteriores, em que esta cena esteve
mais ativa, em relação ao uso de psicoativos, não
se pode afirmar que esses estiveram ausentes das festas de Drum and
Bass, entretanto, se havia consumo deste tipo de substância,
este nunca foi excessivo, nem tampouco notório, segundo, inclusive,
informação prestada por um dos entrevistados.
O
USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS NOS CONTEXTOS DE FRUIÇÃO
DE MÚSICA ELETRÔNICA DE SALVADOR
Para
falar sobre o uso de drogas na cena de música eletrônica –
ou melhor, nas cenas
House e Trance - de Salvador, foram
selecionados, para a realização de entrevistas, dois freqüentadores
assíduos, usuários habituais de psicoativos. Sobre a cena
de Trance fala um rapaz de 29 anos, que se define como heterossexual
e residente com a família no Rio Vermelho. Sobre a cena House, fala
um rapaz de 25 anos, que se define como bissexual e divide apartamento
no Itaigara com um amigo. Este segundo informante, embora houseiro, costuma
também freqüentar raves e festas de Trance. Por este
motivo, pôde ensejar comparações entre as duas cenas,
o que se revelou bem interessante.
Os
dois rapazes possuem, em comum, além da faixa etária, o fato
de fazerem uso freqüente de psicoativos nos contextos de fruição
de música eletrônica. Durante os depoimentos, que foram gravados,
ambos foram encorajados a falar tanto de sua experiência pessoal
quanto da perspectiva geral, na cena (s) que freqüentam.
O
informante apreciador de House já experimentou cocaína, ketamina,
ecstasy, maconha, álcool, LSD, cigarro, GHB e poppers, mas
costuma usar, habitualmente, maconha (“everyday”) e ketamina. Sua
droga de festa preferida é o ecstasy, porque “é a melhor
forma de você absorver a música, porque você fica muito
mais sensível a tudo, e a música, então, entra e tal...”.
Entretanto, relatou que, como tem sido difícil achar tal psicoativo
em Salvador, têm usando, atualmente, cocaína. Esta dificuldade
de encontrar ecstasy é corroborada por outras pessoas, que,
por conta deste fato, compraram/utilizaram ketamina, lança-perfume
(no carnaval de 2006) ou optaram por não usar nada.
Para
o houseiro, a associação geral entre drogas e música
eletrônica:
“tem
uma parte verdade, mas tem uma parte que a galera aumenta muito, tipo...
têm pessoas que, como associam dessa maneira, acha que você
deve ir para a festa eletrônica usar, entendeu ?”. Entretanto,
acredita que a droga pode ter um papel na cena, opinião que transparece
quando emite a seguinte frase:
“se uma pessoa tomasse
ecstasy
pela primeira vez na balada de House, ela nunca mais ia querer deixar
de ir numa balada de House. Mesmo que não tome, mas, tipo,
acho que a possibilidade ia ser maior de ela querer ir numa cena... numa
balada de House”.
Em
relação à cena House de Salvador, confirmando
as impressões obtidas através de observação,
relata que o uso de drogas ilícitas se dá em pequena escala,
o que atribui, em parte, à dificuldade do acesso. Sobre o padrão
de uso nos ambientes onde predomina a música House, ele afirma
não ser muito comum a ocorrência de abusos
, mesmo de álcool: “passar mal, sair carregado da boate, essas
coisas assim ? impossível.”.
Para
amparar suas conclusões, como a cena House de Salvador é
pequena e tem “pouca” droga, este informante algumas vezes se utilizou
da dinâmica da cena House de São Paulo. Assim, aponta
o ecstasy, de modo geral, como a droga preferida dos apreciadores
de House, tanto no circuito comercial quanto no alternativo. Diferencia,
porém, as finalidades do uso nos dois contextos. Para ele, os usuários
que preferem o circuito
underground – seu caso - usam a droga porquê
se tornam capazes de absorver melhor a música. Explica este fato
com um exemplo pessoal:
“eu tomo porque vou me sentir muito bem, vou
ouvir uma música ótima e a música vai, sacou, vai
me satisfazer ali naquele momento, vai ser lindo”. A cena de House
comercial é associada, pelo entrevistado, com a “pegação”,
a qual julga ser a finalidade maior dos encontros em tal contexto. O público
da House comercial, segundo ele, usa droga para “curtir” a música,
mas também para incrementar a pegação, já que
o ecstasy deixa a pessoa mais “fofinha”, mais “facinha”, ou seja,
mais receptiva à paquera e ao sexo, elementos que admite estarem
muito presentes na cena House.
O
informante houseiro é também freqüentador da cena Trance,
na qual, afirma, o ácido lisérgico é a droga mais
utilizada / preferida. E se propõe a explicar porquê:
“como a música
Trance
é uma música muito mais forte e com características
mais psicodélicas, é a mesma coisa do ácido. O ácido
é uma onda muito mais forte, muito mais psicodélica também,
muito mais visual, e como as festas de Trance também têm
muita decoração, psicodélica, visualmente, assim,
aquela coisa bem chocante, é uma coisa alimentando a outra. Da mesma
forma que é o ecstasy para festa House/clube”.
Conclui,
assim, que cada droga potencializa a fruição de um determinado
estilo de som/ambiente. Sobre o padrão de uso na cena Trance,
ele diz que as pessoas costumam misturar drogas, “principalmente com
maconha, e como ácido não tem muito problema com bebida,
com álcool também”. Ainda sobre o padrão de uso
do povo do Trance ele diz que “é muito” “inclusive tudo”
(todas as drogas), principalmente ácido, em gota, cristalizado,
etc.
Sobre
abusos, ele diz que acontecem, pois como há na cena House
aqueles que usam e vão “para pegar, para se drogar e pegar, eu
acho que tem também os abusados da cena Trance, que só vão
para se drogar (...)”. Sobre o aspecto da paquera e do sexo, ele diz:
“e nem tem muita viagem de pegação (...) você vai
na cena Trance e ninguém pega ninguém. É muito difícil”
.
Para
ele, a droga tem mais um papel na dinâmica das festas de Trance,
já que a música “é forte, rápida, então
cansa”. Como as festas duram muitas horas, até dias, a droga
teria também o papel de garantir a energia para que os freqüentadores
permaneçam nos ambientes, dançando durante tanto tempo. A
dança, segundo ele, também é diferente:
“No Trance
é muito dançar batendo o pé no chão. Muito
diferente na cena de House, porque a música não é
sempre reta, reta, você pode se balançar e dançar de
qualquer maneira, mas no Trance não, é aquela música
reta” (...) “Tem dancinha pulando corda, também”.
O
informante apreciador de
Trance também já experimentou
várias drogas e, neste sentido, citou: DMT, salvia divinorum,
peiote, mescalina, ácido lisérgico – em forma de papel, gotas,
gel, microponto, cristal - cápsula de vento, ketamina, benzina,
ressalvando que esta última foi somente uma vez e “nunca mais”.
Sua droga de festa preferida é o ácido lisérgico,
que consome habitualmente em festas de Trance.
O
informante tranceiro acha que a associação corrente entre
drogas e música eletrônica se dá porque esta é:
“uma música
muito sensitiva (...) não tem uma letra lhe conduzindo numa viagem,
é uma viagem muito pessoal, no som há vários timbres,
ninguém nunca ouviu aquele instrumento lá, estranho, então
não tem assim um cara, uma mulher falando qualquer coisa. É
uma viagem muito pessoal”.
Segundo
ele, por isso tem muita gente que acha que “só funciona se tomar
alguma coisa”. Neste sentido, diz que muita gente nova pergunta como
é que se consegue “ouvir aquela música sem tomar alguma
coisa”. Para ele, entretanto, esta relação não
é de necessidade, embora esta relação esteja estabelecida
“no imaginário, sim, com certeza”.
Ele
explica sua preferência pelo ácido porque “sente a música
de outra forma”. Segundo ele:
“o ecstasy
também dá essa sensação de, de outra coisa
e tal, mas o ácido é diferente, a viagem é muito profunda,
acho que a viagem do ecstasy é bem no corpo, bem, bem, no
corpo e a viagem de ácido é muito mais na mente, mais no
outro mundo, lá”.
Embora
afirme que “a malucada”, os tranceiros mesmo, preferem ácido
e que a “playboyzada” e as “patricinhas” preferem ecstasy,
ao mesmo tempo diz que “não tem uma preferência no Trance,
usa de tudo, e junto, de preferência”. Instado a explicar
o significado deste “tudo”, exemplificou:
“tipo pingar dez
gotas (de ácido) numa garrafa de um litro d´água, dez
gotas, e botar uns quadrados
ali dentro também, três balas
e misturar tudo e todo mundo tomar. Tem muito isso também, tem uma
coisa que eu percebo no Trance, que, principalmente com ácido,
o cara não quer tomar sozinho, ele quer que todo mundo tome em volta,
os amigos, uma galera que estiver por perto, assim, roda a garrafa. Não
fica ninguém surtado, mas fica todo mundo maluquinho junto”.
Relatou
que, além dessas misturas, é costume ainda beber cerveja
e fumar maconha, regularmente, ao longo da festa.
Ainda
sobre o padrão de uso, relatou que:
“no Trance
tem uma cultura de tomar tudo. Acho que é porque a música
é surreal demais, então a galera que ficar louca o máximo,
entendeu ? E já não sabe mais se é da música,
se alguém falou do lado, se tá na cabeça, a viagem...
Eu vejo que no Trance tem muito isso, de a galera querer alcançar
mesmo ... sair mesmo do lugar (...) Entrar em outra história”
Sobre
a dinâmica das festas, confirma a longa duração como
uma tradição e revela que é costume ter “depois
dela o after. E depois um after do after...” Segundo ele:
“enquanto
tiver um Dj tocando ... não precisa nem ter um neguinho em pé,
lá, dançando. Se o Dj tiver a fim de tocar, vai para algum
lugar, monta (o som) e fica lá”. Isso porquê “também
é tempo de passarem as paradas. Que o negócio do ácido
é que acaba a festa e tem duas horas que neguinho tomou um ácido
e aí tá batendo, e quer ir para algum lugar para gastar a
onda dele. Aí à medida que o cansaço vai batendo em
um e outro a festa vai terminando aos poucos”.
Ou
seja, a cultura do after, segundo o entrevistado, está relacionado
ao consumo de psicoativos.
Segundo
o informante tranceiro, a organização do line up
“tem muito a ver com o peso e a velocidade”. Mas a relação
com o uso dos psicoativos também se evidencia: “É foda
neguinho tá chegando na festa ainda não tomou nada e tá
aquela darkzeira máxima, poderosa” (...) “bota um cara que toca
um Dark (estilo de Trance) mais bacaninha...”. Em Salvador, atualmente,
o Dark Trance é, segundo o informante, o estilo de maior
prestígio. Por ser mais rápido e denso, costuma ser tocado
nos horários de pico. O Morning Trance também desfruta
de prestígio e é, segundo o informante, mais colorido, ideal
para o amanhecer. O Progressive ou um Dark “mais bacaninha”costumam
ser reservados para o início e o fim das festas, quando as pessoas
estão ainda entrando no clima ou voltando da viagem.
Indagado
sobre o significado do termo “fritar”, corrente na cena, aproveitou o momento
para desvendar a relação entre a música e a droga.
Segundo ele, fritar:
“é
essa hora que você não sabe que porra tá acontecendo.
Se alguém falou com você ou se você achou que alguém
falou ou queria que alguém falasse, se falou alguma coisa na música
(...) Muito louco. Aí que Eletro (outro estilo de música
eletrônica) não dá, falta muito...”
Indagado
sobre o perfil dos freqüentadores, respondeu que tem todo tipo de
gente na cena. O perfil do público, segundo ele, “é muito
diversificado, principalmente agora que a cena tá bombando”.
A observação, no entanto, não confirma sua afirmação,
dado ser perceptível a presença majoritária de indivíduos
jovens, brancos, em sua maioria, e, aparentemente, pertencentes às
camadas médias. O fato das festas ocorrerem fora do perímetro
urbano, já seleciona o público, vez que é necessário
possuir carro ou dinheiro para táxi, o que inviabiliza, de maneira
geral, o comparecimento de indivíduos menos favorecidos. Assim,
mesmo que seja possível encontrar, nas festas de Trance,
como disse o informante, “playboy”, “psicólogo” e
“vagabundo”, todos parecem estar inseridos, em relação
à condição sócio-econômica, em categorias
aproximadas.
Como
já relatado, nas festas de Trance a proporção
de homens e mulheres é equilibrada e, segundo o informante, rola
muita “azaração” mas não sexo. Diz ele: “como é
que consegue trepar, doidão, maluco... de ácido, então...”
CONSIDERAÇÕES
A
música eletrônica foi, até pouco tempo atrás,
trilha sonora exclusiva de eventos de caráter alternativo, por vezes
à margem da lei, organizados exclusivamente por seus apreciadores.
Chega, porém, ao grande público, no terceiro milênio,
muitas vezes em eventos para milhares de pessoas, sob o patrocínio
de companhias transnacionais
, gerando em alguns clubbers a nostalgia por uma época considerada
mais romântica e espontânea. No Brasil, não faz muito
tempo que a música eletrônica começou a aparecer na
grande mídia e que a moda dos clubes ganhou as ruas. Interessante
é que hoje, até a música-tema de tradicionais programas
de televisão, como, por exemplo, o Fantástico, da Rede Globo,
ganharam roupagem de acordo com a cartilha eletrônica. Do mesmo modo,
artistas da MPB passaram a se valer do talento de Djs para dar novas roupagens
às suas composições ou para fazer versões dançantes
de seus sucessos. Até no carnaval da Bahia já existem trios
elétricos que trazem Djs não somente como acompanhantes de
músicos e estrelas, mas como atração principal, vide
o Bloco da Skol, no qual, na terça-feira do carnaval de 2006, apresentaram-se
exclusivamente Djs ou o trio eletrônico de Daniela Mercury, há
cinco anos atraindo multidões no domingo de carnaval.
Se
tudo isso denota certa ascensão da música eletrônica
e o prestígio adquirido pela cultura a esta relacionada, por outro
lado, festas dedicadas ao estilo, especialmente as raves, vêm
se tornando alvo de perseguição, por parte de políticos
e autoridades policiais
. No Pará, a realização de eventos deste tipo foi
até mesmo proibida oficialmente (ver edição da Folha
de São Paulo de 21 de novembro de 2005). Este tipo de ação
é justificada com o argumento de que na cena de música eletrônica
existe grande consumo de drogas.
A
associação entre drogas e música eletrônica
é reforçada de várias maneiras. Na novela “O Clone”,
da Rede Globo, uma vinheta
Tecno era utilizada no momento em que
apareciam na tela personagens que, na trama, eram usuários compulsivos
de drogas. Situações como esta reforçam, sutilmente,
uma associação que já é corrente. Do mesmo
modo, reportagens de teor sensacionalistas não param de ser produzidas.
Neste sentido, apreensões de drogas feitas em festas de música
eletrônica costumam ser amplamente noticiadas, geralmente de maneira
sensacionalista, contribuindo para formar/reforçar no senso comum
a idéia de que este tipo de evento, de maneira geral, constitui
território livre para consumo massivo de drogas, o que gera protestos
veementes dos adeptos da cena.
Por
tudo isso, é inegável a importância de tratar do uso
de psicoativos na cena de música eletrônica a partir de uma
abordagem cultural, que fuja do oportunismo das agências oficiais
de repressão ou do sensacionalismo da mídia, investir no
desvelamento dos padrões e significados do uso em tais contextos,
o que seria útil, por exemplo, para subsidiar propostas para reduzir
os danos que o uso desinformado ou o abuso podem, certamente, causar.
Tendo
em vista esses fatores, para tentar compreender os significados que assume
o uso de drogas na cena de música eletrônica, sua relação
com o estabelecimento de contextos diversos e o seu papel na dinâmica
das cenas específicas, este trabalho procurou abordar, em nível
ainda exploratório, o tema do uso de psicoativos na cena de música
eletrônica de Salvador. Neste sentido, procurou trazer uma explicação,
de forma geral, sobre o que é música eletrônica, mostrar
sua amplitude, apresentar os principais estilos e também dar uma
idéia de como se compõe a cena de música eletrônica
na cidade de Salvador, evidenciando suas fronteiras e fazendo um levantamento
das substâncias ilícitas que são consumidas de forma
mais constante neste meio.
Certamente
não seria prudente falar em conclusões a partir de uma modesta
incursão inicial, como é o caso do presente trabalho, cujas
afirmações ainda não foram corroboradas por observações
continuadas ou pela aplicação sistemática de entrevistas.
Entretanto, informações interessantes foram obtidas, especialmente
quando se pensa que o universo relacionado à música eletrônica
é um aspecto da realidade ainda pouco explorado pelas Ciências
Sociais, havendo pouca bibliografia sobre o tema. O mesmo ocorre com a
formação de comunidades relacionadas a preferências
estéticas. Em relação às possibilidades de
investigação, a observação sugere a da relação
do uso de psicoativos com as comunidades musicais, seu papel na dinâmica
dos eventos e na formação das subjetividades, em tais contextos.
Saindo
do campo da amplitude das possibilidades de investigação
que o investimento na cena de música eletrônica pode oferecer,
e já que ainda não é possível falar em conclusões,
cabe então expor, pelo menos, as intrigas deixadas por esta incursão
inicial.
Como
se tentou demonstrar, a música eletrônica é um termo
generalizante, que circunscreve um conjunto de estilos musicais e culturas
bem diferentes. Somente este aspecto já deixa evidente que não
é possível falar em uma relação automática
entre drogas e música eletrônica. Esta seria uma generalização
grosseira, reducionista, sendo necessário contextualizar as afirmações
neste sentido, de acordo com as nuances que esta música e os comportamentos
a ela associados podem assumir.
Além
disso, a pouca quantidade de drogas que, segundo freqüentadores, circula
na cena
House de Salvador (ou na pequena cena de Drum and Bass)
é outro dado que permite relativizar a associação
generalizante entre drogas e música eletrônica. Aliás,
a própria existência da cena de House de Salvador (ou
da pequena cena de Drum and Bass), já seria suficiente para
confrontar tal associação, vez que esta é uma cena
perfeitamente constituída, mesmo com toda a dificuldade, relatada
por informantes, em obter ecstasy – droga supostamente preferida
por apreciadores de House e relacionada a esta cena. Por outro lado, na
cena Trance, a droga parece ter presença e papel relevante,
o que, por sua vez, não significa que este aspecto possa ser automaticamente
derivado do fato da música Trance ser eletrônica.
Nas
entrevistas, informações e idéias interessantes surgiram.
Primeiramente sobre o estabelecimento no imaginário da relação
entre drogas e a preferência por música eletrônica.
Esta idéia, tornada corrente por uma atuação sensacionalista
da mídia, parece favorecer, justamente, um posicionamento dos indivíduos
neste sentido, o que está sintetizado na frase do informante houseiro:
“tem uma parte
verdade mas tem uma parte que a galera aumenta muito, tipo... tem pessoas
que, como associam dessa maneira, acha que você deve ir para a festa
eletrônica usar, entendeu?”
Também
por conta desta associação corrente, a droga pode passar
a ser considerada como um aditivo para a cena, opinião que se evidencia
quando alguns frequentadores da cena de House fazem afirmações
como: “falta um dealer na porta das festas” “falta droga nesta cidade”
ou quando uma DJ de São Paulo, no início de fevereiro de
2006, perguntou se não seria por falta de droga que a cena House
da cidade não evolui (em termos numéricos).
Nas
entrevistas aparece a consideração de que cada droga potencializa
a fruição de um determinado estilo de som e vice-versa. Deste
modo, o ecstasy é associado à House e o ácido
lisérgico ao Trance, por exemplo. E até dentro do
mesmo gênero, alguns sub-estilos são considerados mais propícios
para o desfrute dos efeitos dos psicoativos -e vice-versa - como a fala
do tranceiro esclarece:
“a viagem do Dark
que eu vejo que facilita a viagem do ácido, por exemplo, é
que é cheio de coisas, dá muito espaço para você
gastar sua onda ali, tem muita informação para você
processar, você tá lá doidão e ouvindo Eletro,
a cabeça cheia de coisa e o som não te ajuda, o som fica
lá só mantendo o ritmo e não tem nada para você
ficar pensando”.
Nas
falas, especialmente as do tranceiro, transparece a compreensão
de uma relação dicotômica, e até mesmo hierárquica,
entre corpo e mente e, neste sentido, o lócus da ação
dos diferentes psicoativos também são vistos como diferenciados.
Assim, a partir dos depoimentos dos entrevistados, é possível
inferir que, em sua interação com a música, o ecstasy
parece ser compreendido como propiciador de uma experiência mais
corporal e o ácido como propiciador de uma experiência mais
mental, o que parece ser relacionado, pelos informantes, à preferência
musical.
Assim,
na cena Trance, o ecstasy, cuja experiência da viagem
seria “bem, bem no corpo”, seria preferido pela “playboyzada” e pelas “patricinhas”,
enquanto que a “malucada, mesmo” preferiria o ácido lisérgico,
cuja viagem “é mais no outro mundo, lá”. Na cena House,
embora o ecstasy tenha sido definido como a droga preferida, haveria
uma distinção em relação aos objetivos do uso
dos gays que preferem um som mais conceitual e dos que preferem uma House
mais comercial. Os primeiros usariam, na hipótese do houseiro, para
sentir melhor a música, enquanto que os gays que ouvem House
comercial, usariam para incrementar a “pegação”.
As falas abaixo exemplificam:
Houseiro:
“O ecstasy é mais na cena House porque é uma
coisa mais de pele, e normalmente as pessoas que gostam mais de House são
as pessoas que querem pegar mesmo, querem ficar mais clubezinho, mais quentinho,
mais no escuro, assim...”
Tranceiro:
“o ecstasy também dá essa sensação de,
de outra coisa e tal, mas o ácido é diferente, a viagem é
muito profunda, acho que a viagem do êxtase é bem no corpo,
bem, bem, no corpo, e a viagem de ácido é muito mais na mente,
mais no outro mundo, lá”.
Outra
consideração que emerge é que, a partir da preferência
musical e da preferência por uma determinada substância ou
do objetivo de uso, são inferidas características de personalidade,
como a fala anterior do houseiro sinaliza. O tranceiro também dá
uma pista neste sentido:
Tranceiro: “os malucos
mesmos gostam de ácido, a playbozada gosta muito de ecstasy, as
patricinhas, principalmente, elas tem medo de ácido, tem medo de
surtar, de perder a noção, de ficar maluca, comer areia...
não gostam muito de ácido” (...) “a malucada mesmo gosta
muito de ácido”.
Entrevistadora: Mas gosta
do Trance também... ?
Tranceiro: “Gostam
do trance também – gosta, ouve em casa, baixa, compra disco,
tem, troca, vem perguntar que música é aquela”...
Transparece,
nessas falas, como citado anteriormente, a compreensão da relação
entre mente e corpo como dicotômica (e hierárquica). Em relação
às drogas, o efeito do ácido é remetido à mente
e, por isso, a uma “viagem” mais profunda. O ecstasy, ao que parece,
é associado à uma fruição mais “corporal” e
por isso mais “superficial”, sendo preferido pelos gays que ouvem música
comercial ou pela “patricinhas” e playboys, categorias de menor prestígio
dentro da cena de música eletrônica underground,
o que sinaliza também para uma dimensão de legitimação
e estabelecimento de hierarquia, a partir da preferência ou do uso
de determinadas substâncias.
Para
finalizar, é preciso lembrar, mais uma vez, que essas são
somente pistas iniciais, na verdade, impressões e hipóteses
a serem ainda devidamente interrogadas e investigadas, mas que já
sinalizam que a “viagem” pode ser bem interessante.
Notas
O
termo “binário” refere-se à utilização do computador
como ferramenta.
Atualmente,
o computador já é utilizado por artistas dos mais diversos
estilos. Portanto, elementos como os citados ajudam a conferir características
do estilo eletrônico às produções.
Na
verdade, não é somente em relação à
música eletrônica que isso ocorre. No rock, por exemplo, também
existe segmentação: rockabilly, hard rock, heavy metal, death
metal, funk metal, new metal, punk rock, pós punk, new wave, grunge,
entre outros
Este
estilo ficou conhecido no Brasil como "Discoteca".
Foram
todos negros os precursores da House, Tecno, Eletro, Hip Hop e Drum'n bass
(subgêneros de música eletrônica). Excetuando-se o Trance,
pode-se dizer que a música eletrônica tem origem negra.
Hoje
em dia, as raves, por exemplo, são, na maior parte das vezes, festas
de música Trance, embora em São Paulo ocorram algumas raves
de Tecno.
Filipetas
confeccionadas em formato de postal, produzidas em papel especial, e que
são geralmente objeto de esmerado cuidado gráfico. Os flyers
são distribuídos / depositados em locais frequentados pelos
apreciadores de música eletrônica, numa estratégia
típica para divulgar festas e eventos específicos.
Espaços
para descanso.
Além
dos pioneiros Soononmoon e Pragatecno, existem ainda os coletivos Audiotrix
(com Djs de House e Tecno), Amplex (House), U-Groove (Drum and Bass, Dub
e Rap), Booh (Drum and Bass), Enviroment Sound, Miclets e Grilo, (dedicados
ao Trance).
O
grifo não existe no texto original
O
informante da cena Trance relatou ter testemunhado essas duas situações.
Gíria
da cena para designar o que faz sucesso.
Atualmente,
as raves praticamente se tornaram festas exclusivas de trance.
Existem
raves que duram sete dias.
After-hours
são festas depois da festa. Em sua significação original,
denominavam festas que começam pela manhã, geralmente em
clubes.
Chill
outs são reuniões que acontecem depois das festas. Seriam
eventos onde a música é mais suave, para propiciar a aterrisagem
depois do frenesi das festas/raves/clubes.
Um
freqüentador explicou que essas associações devem-se
ao fato de que as primeiras festas de Trance ocorreram em Goa, na Índia.
Fritar,
segundo um freqüentador de festas de trance, que também é
usuário de psicoativos, é “essa hora que você não
sabe que porra ta acontecendo. Se alguém falou com você ou
se você achou que alguém falou ou queria que alguém
falasse, se falou alguma coisa na música”. Resumindo: quando se
está “muito louco”.
Fonte:
www.eletrogralha.com.br.
Ver
http:// www.soononmoon.org/zumo.
Posteriormente,
será necessário definir critérios para determinar
o que configura “abuso”. Para o presente trabalho, por seu caráter
inicial, aceita-se uma conotação de senso comum.
Pastilhas
de LSD.
Gíria
para designar os comprimidos de ecstasy.
Sequência
dos Djs.
Vide
Skol Beats, Tim Festival, Nokia Trends, Bavaria Vibe, entre outros.
A
execração e até mesmo perseguição legal
às raves não é um fenômeno recente ou exclusivo
do Brasil, tendo ocorrido em outros países, como a Inglaterra, por
exemplo, país onde se originou, no final da década de oitenta,
esta forma de fazer festa.
Webgrafia
http://planeta.terra.com.br/arte/pragatecno/textoclaudio2.html
http://music.hyperreal.org/library/history_of_house.html
www.fotolog.com/frito_passa_mal
www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1681068
www.soonomoon.org/zumo
www.pragatecno.com.br
www.eletrogralha.com.br
Bibliografia
Palomino,
Érika. Babado Forte: moda, música e noite na virada
do século XXI. Ed. Mandarim, São Paulo, 1999.
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