Arquitetura, deslocamento do imaginário religioso na paisagem urbana

Cristiane Ribeiro de Mello Araujo
Arquiteta e Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie



 
 
 
 
 

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Vitor Hugo nos demonstra que a arquitetura é uma linguagem que evidencia o que está acontecendo com a sociedade, no momento da sua construção. Partindo do entendimento de que é uma linguagem, a arquitetura deve transmitir uma mensagem impressa no espaço e não algo que não faça parte do discurso da comunidade que a utiliza. Kevin Lynch , no livro O urbanismo, diz que a imagem da cidade, assim como uma folha impressa, se for legível, poderá ser abrangente como um conjunto bem unido de símbolos reconhecíveis, facilmente identificáveis e facilmente integráveis dentro de um esquema (pattern) global.
 
 

As igrejas são facilmente identificáveis dentro do esquema global da cidade de São Paulo, hoje? O espaço sagrado protestante pode ser lido com facilidade? O que se tem transmitido ao individuo que passa pelas ruas de São Paulo? a igreja protestante tem transmitido um convite a entrar ou tem sua arquitetura camuflada? 


 
Uma pequena leitura através da arquitetura 
 
 
Teixeira Netto, no livro A construção do sentido na arquitetura, indaga quais são os elementos da linguagem arquitetural. E diz que são duas as grandes unidades sintagmáticas em que inicialmente se decompõe linguagem da arquitetura (e da urbanística): o discurso primeiro do espaço em si mesmo e o discurso estético do espaço.

 

Toda sociedade que continua no tempo enfrenta o problema de transmitir os seus sentidos objetivados de uma geração para a seguinte. Esse, problema é atacado por meio dos processos de socialização, isto é, os processos pelos quais se ensina uma nova geração a viver de acordo com os programas institucionais da sociedade. (BERGER, 1985:28)
 
 

A arquitetura é uma macro linguagem (visto que suas proporções, em geral, são maiores do que aquele que interpretam) cunhada para uso, e apreciação, de varias gerações. [...] a linguagem é um produto humano. Toda linguagem é resultado de uma longa história da inventividade, da imaginação e até do capricho do homem. (BERGER, 1985:25) 
 
 
 

O aprendizado do produto da linguagem é essencial porque principia da percepção e da memória em direção ao que ainda não é; segundo o autor italiano Vittorio Gregotti no livro Território da arquitetura, este exercício não é acidental ou gratuita violação do já estabelecido, mas sim busca contínua de uma ordem nova e instituição de uma nova possibilidade, de uma nova experiência do mundo. Conforme Teixeira Netto, a arquitetura (linguagem) é uma arte, é uma arte específica que necessita não de uma linguagem mais ou menos intuitiva com a qual o sujeito da criação artística lida e propõe sua obra, mas sim  de uma linguagem predefinida e que esteja ao alcance simultâneo do criador e do receptor. 

 
 
 
 
Como podemos observar no decorrer da história.

 
 

Desde a antiguidade, a arquitetura é usada como uma macro linguagem, fácil de distinguir quando andamos por ela, ou simplesmente a olhamos. Segundo Luiz Jorge Werneck Viana, em A Religião no Egito e na Babilônia:
 
 

As dimensões gigantescas e a imponência das pirâmides e zigurath atestam a capacidade dessas civilizações em congregar fantásticos recursos e esforços humanos, valendo-se de surpreendente tecnologia, a fim de obter os resultados desejados pelos que detinham o poder. (VIANA, 1973:2)

 

Ambas têm funções distintas: as pirâmides (egípcias) são túmulos e representam inconformidade com a morte e o desejo pela imortalidade; os zigurath (babilônicos) são templos que simbolizam a morada dos deuses. Representavam um meio de comunicação entre os mortais (terra) e o sobrenatural (céu). Conforme Berger, a objetividade da sociedade se estende a todos os seus elementos constitutivos. As instituições, os papéis e identidades existem como fenômenos objetivamente reais do mundo social. Pode conservar uma consciência de si mesmo como distinto do papel, que se refere ao que ele apreende como a sua “verdadeira identidade pessoal". Esses povos cada um a sua maneira, desejavam demonstrar aos outros povos que seus “deuses” eram poderosos, e os tornavam poderosos. Construindo assim a identidade que queriam demonstrar aos seus dominados (povos) ou pretensos dominadores.
 

 

Nessas culturas, a sociedade é sacralizada, e o soberano, uma divindade. A ordem social corre paralela à divina. Viana também cita que:


 
 
A aspiração manifestada pela monumental arquitetura egípcia e babilônica corresponde à sabedoria do pensamento religioso da Antiguidade. A inquietação humana levou à edifi-cação dessas obras arquitetônicas, e o significado de natureza religiosa que encerram persiste ainda em traços da cultura contemporânea. Zigurath e pirâmides indicam tam-bém, de modo simbólico, tanto o poder político como a formula intelectual capaz de ex-plicar a ordem universal e justificar as diferentes atribuições individuais, de acordo com as classes em que se dividia a sociedade. (VIANA, 1973:2)

 
Xavier Herrero, afirma que o sentido da linguagem é conseguir um “entendimento” entre, ao menos, dois sujeitos, que agem entre si, sobre algo. A arquitetura dos templos babilônicos e egípcios conseguiam atingir esse objetivo.

 
 
Voltemos bem no tempo, ao período em que a humanidade se dividia entre camponeses sedentários (habitantes das cavernas) e nômades guerreiros. O sedentário era o conservador da sua época, mostrando-se mais brutal e de massa corpórea mais pesada que o nômade (aventureiro), protótipo do democrata, armado, com suas esposas. O habitante da caverna se retirou para as co-linas e começou a construir cidades (queria se fixar); já o nômade era mais ágil e móvel, constru-iu uma morada adaptável, dobrável, a tenda. Os habitantes da cidade criavam os filhos à sombra das muralhas, e os aventureiros criavam os seus sob as estrelas. “Dizer que a sociedade é um em-preendimento de construção do mundo equivale a dizer que é uma atividade ordenadora, ou no-mizante.“ (BERGER, 1985:32) Segundo, o arquiteto americano, Frank Lloyd Wright (1869-1959), é dessa forma que se inicia a história das cidades pela simples necessidade de proteção, proteção esta que depois veio a gerar, nos filhos criados às sombras das muralhas, o instinto da obediência e do trabalho. E que bem posteriormente, quando se sentiram seguros, gerara no plano cultural a infinita busca pela liberdade. A habitação na cidade surgiu por conta de uma mudança social: comunicando as necessidades de proteção dos homens que deixavam a atividade de nô-mades e se fixavam no solo, e posteriormente ali exerciam uma atividade econômica.

 

Eliade afirma que se instalar num território equivale a consagra-lo. No caso dos sedentá-rios, implica uma decisão vital que compromete a existência de toda a comunidade.
 
 
 

“Situar-se” num lugar, organiza-lo, habita-lo – são ações que pressupõe uma escolha do Universo que se está pronto a assumir ao ‘cria-lo’. Ora, esse ‘Universo’ é réplica do U-niverso exemplar criado e habitado pelos deuses participa, portanto, da santidade da obra dos deuses. (ELIADE, 1992:36)
 
 
 

Retomando a nossa leitura arquitetural

Notamos através do escritor Victor Hugo (1802-1885), obcecado pelo tema da cidade, que desde a origem do mundo “a arquitetura é o grande livro da humanidade, a expressão principal do homem em seus diversos estados de desenvolvimento, seja como força, seja como inteligência” (CHOAY,1979:324).
 
 
 

A história de Israel, começa com os patriarcas e profetas, durante o século XX a.C. (cf. Pierucci, 1973:19). No período de Davi, com a unificação por ele realizada, esperava-se que fosse construído um templo que servisse como santuário nacional; mas ele não ousou contrariar a palavra de Deus que diz: “[...] não habitei casa alguma, mas, qual viandante, tenho me alojado sob tenda e sob um tabernáculo improvisado” (2 Samuel 7,6). O Templo só foi construído no reinado de Salomão, 971 a 932 a.C. Segundo Antonio Flávio O. Pierucci:
Salomão parece ter tido em mente objetivos não apenas religiosos mas também políticos, fazendo brilhar aos olhos das nações vizinhas a potencia e a riqueza do Estado israelita.
 

Construído no estilo das “capelas reais”, o Templo revelava, mesmo na disposição exterior, influencias Cananéia e egípcias. Com a ornamentação exuberante de flores e animais, com seu mobiliário e seus objetos carregados de simbologia, deve ter chocado os israelitas, apegados às tradições de simplicidade do culto de Javé. (PIERUCCI,1973:p27)
 
 
 

Apesar da majestosa construção, continuaram a existir os santuários locais até o séc. VII a.C., quando Josias proclamou o Templo de Jerusalém o único santuário legítimo de Javé e centro da religião nacional. Nessa época, o templo já estava em ruínas e passou a exercer seu verdadeiro papel como lembrança. O rei Acaz (735-716 a.C.), submetendo-se aos assírios e para agradar o rei assírio, mandou construir um altar em estilo assírio no Templo de Jerusalém, o que refletia a dependência de Judá com relação à Assíria.
 
 
[...] esses homens tinham formulado, ou formulavam, um estoque preciso de conceitos e de signos do qual retiravam os elementos para propor uma arquitetura onde cada elemento se define por si só e, ao mesmo tempo, em relação aos demais, num discurso que responde a determinadas necessidades do homem da época e que este compreende (TEIXEIRA NETTO, 2002:8)

 
 
Compreender o papel do espaço sagrado na vida das sociedades tradicionais, qualquer que seja o aspecto particular sob o qual se apresente esse espaço: lugar santo, casa cultural, cidade, “Mundo”. Deparamos em todo lugar com o simbolismo do Centro do Mundo, e é ele que nos permite entender o comportamento religioso em relação ao “espaço em que se vive”. O simbolismo do Centro explica outras séries de imagens cosmológicas e crenças religiosas: As cidades santas e os santuários estão no Centro do Mundo; Os templos são replicas de montanhas cósmicas; Os alicerces dos templos mergulham profundamente nas regiões inferiores. Os simbolismos aplicados: ao templo de Jerusalém – o rochedo sobre o qual se erguia o templo era o “umbigo da terra”.
 
 
Com a secularização (separação entre ordem pública e religiosa), torna-se um principio através do Código de Hamurábi (séc. XVIII a.C.), o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu uma existência profana, por essa razão, sente dificuldade cada vez maior em reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas.

 
 
 
Nas civilizações orientais o templo recebeu uma nova e importante valorização: não é somente uma imago mundi, mas também a reprodução terrestre do modelo transcendente. O judaísmo herdou essa concepção paleoriental do Templo como a cópia de um arquétipo celeste.
 
 
[...] se o Templo constitui uma imago mundi,é porque o Mundo como obra dos deuses, é sagrado. Mas a estrutura cosmológica do Templo permite uma nova valorização religiosa: lugar santo por excelência, casa dos deuses, o Templo ressantifica continuamente o Mundo, uma vez que o representa e o contem ao mesmo tempo. (ELIADE, 1992:56).

 
Os Templos, como modelos transcendentes, gozam de uma existência espiritual, incorruptível, celeste. Geralmente os projetos são revelados por sonhos. Os modelos do tabernáculo, de todos os utensílios sagrados e do Templo, do povo de Israel, foram criados por Deus desde a eternidade e Deus foi quem os revelou aos seus eleitos.

 

Séculos após, a civilização ocidental se viu profundamente marcada pela visão cristã do mundo, que influenciou as artes, as formas de organização política, os sistemas filosóficos, as concepções de direito. Havendo assim mais um deslocamento, no sentido de mudanças na sociedade, que muitas vezes passa do imaginário para o concreto, e volta a alimentar o imaginário.
 
 
 

Desde o ano 200 d.C., vários decretos imperiais se sucederam, visando a enfraquecer a nova religião. E a perseguição generalizada e sistemática procurou eliminar o Cristianismo: à medida que ele se expandia, tornava-se mais temido e a repressão se aguçava. Isso gerou um culto aos mártires, gerando uma importante vida cultural nas catacumbas. Elas foram utilizadas por um curto período, principalmente em Roma e seus arredores. E, conforme João Silvério Trevisan (TREVISAN, 1973:144), se tornaram, para os cristãos, um eloqüente símbolo de seu testemunho, significando a realização das palavras do evangelho: 

 
 
“Pela vossa constância alcançareis a salvação”. (Lc. 21,19)

 

Em 313, com edito de Milão, Constantino garantiu aos cristãos o direito de praticar livremente sua religião. Sua atitude pró-cristão tinha caráter eminentemente político. Conforme Trevi-san, “incentivou a construção de inúmeras igrejas que, só em Roma, somavam mais de quarenta.” (TREVISAN, 1973:145)
 
 
 

Segundo Viana, quando este fala das igrejas ortodoxas, (VIANA, 1973:356), “[...] a igreja, com sua arquitetura e afrescos, representa no espaço o que a palavra litúrgica representa no tempo: o reflexo, a antecipação do Reino de Deus.”

 

No Catolicismo Medieval, à luz de diferentes modalidades de or-ganização social e poder político, florescem novas formas de expressão artística e religiosa. Mui-tas intencionavam explicar o renascimento urbano iniciado no século XI.
 
 
 

Conforme Choay, em O Urbanismo, o arquiteto Camillo Sitte (1843-1903), era conhecedor da arqueologia medieval e renascentista, e idealizador de uma teoria e de um modelo de cidade que influenciaram os arquitetos germânicos e anglo-saxões a construírem as cidades-jardins. Já na Antigüidade Aristóteles dizia: “Uma cidade deve ser construída de modo a proporcionar a seus habitantes segurança e felicidade.” (SITTE, 1979:206). Vemos que havia uma necessidade que gerou uma determinada conformação do espaço (arquitetura e urbanística). Segundo Sitte, foi na Idade Média e na Renascença que as Belas-Artes tiveram lugar de honra. Ele mostra as relações entre os edifícios, os monumentos e as praças na Idade Média e demonstra que tal arquitetura foi feita com um propósito de separação e que esse foi atingido através de uma densidade estética:
 
 
A Piazza Del Duomo, em Pisa, encerra tudo o que a burguesia da cidade pôde criar em matéria de edifícios religiosos de uma riqueza e grandiosidade sem iguais. A esplêndida Catedral, o Campanário, o Batistério, o incomparável Campo-Santo não são separados por nenhum elemento profano ou banal. O efeito produzido por uma praça semelhante, separada do mundo e no entanto rica na posse das obras mais nobres do espírito humano, é considerável. Nem aqueles cujo sentido artístico é pouco desenvolvido, não podem es-capar da força dessa impressão. Não há ali que distraia nossos pensamentos e que nos faça lembrar da vida cotidiana. Os prazeres artísticos de quem contempla a nobre facha-da da Catedral não são absolutamente diminuídos pela visão de uma moderna loja de modas, pelos gritos dos cocheiros e dos carregadores ou pelo alarido de um café. Ali rei-na a paz. Podemos assim concentrar a atenção para apreciar plenamente as obras de arte acumuladas naquele lugar. (SITTE, 1979:207-207).

 
 
A cidade é um ser sempre vivo, segundo Marcel Poète  (1866-1950), o que significa que, aos dados geográficos é preciso acrescer os dados históricos, geológicos e econômicos. A fisionomia de uma cidade expressa seu caráter. Os traços econômicos do caráter servem para explicar os traços sociais, assim como a estes estão ligados os traços políticos ou administrativos. “A vida de uma cidade é, como a do homem, um combate perpétuo.” (CHOAY, 1979:284)

 
 
Os processos que interiorizam o mundo socialmente objetivado são os mesmos processos que interiorizam as. Identidades socialmente conferidas. O indivíduo é socializado para ser uma determinada pessoa e habitar um determinado. mundo. A identidade subjetiva e a realidade subjetiva são produzidas na mesma dialética (aqui, no sentido etimológico literal) entre o indivíduo e aqueles outros significativos que estão encarregados de sua socialização . (BERGER, 1985:29)
 
 
A religiosidade popular do século XIII nasceu a partir do meio urbano em fase de maturação. Assim também a arte das catedrais e a cultura das universidades, mesclando formas tradicionais e formas novas. Multiplicavam-se as imagens dos santos nas fachadas das catedrais, pois cada uma das corporações tinha um ou mais patronos. “As catedrais que puderam ser chamadas ‘Bíblias de pedras’, por sua decoração bíblico-didática, tendem a preferir o Novo ao Velho Tes-tamento”. (MOURA, 1973:405)

 
 
“A expressão máxima da arte no século XIII foi a catedral Gótica. [...] estilo gótico - forma original de linguagem artística que dominou os séculos XIII a XV do Ocidente Cristão” (MOU-RA, 1973, p 416) 

 
Iniciado na França, o estilo gótico, em sua primeira fase, só se exprimiu em escultura e vidraçaria. As paredes maciças da igreja românica foram trocadas por outras, mais leves e recortadas por nervuras de numerosos arcos. Não havia mais espaços para pintura mural. As linhas verticais, góticas, conduzem o olhar para o alto. A iluminação é seriamente estudada, gerando uma atmosfera sacra. A forma exterior também demonstra uma significação religiosa: a cruz, planta , formada pela nave e pelo transepto, é multiplicada no interior pelo cruzamento dos arcos e ogivas. Optam por formas assimétricas, ressaltadas na decoração e no formato irregular da fa-chada.
 
 
 
Esse estilo arquitetônico traduz uma natureza de aversão pelas formas geométricas puras, que caracterizam o estilo românico. Seu equilíbrio e sua harmonia são dinâmicos. Tem como distinção a volta à natureza expressa na escultura.
 
 
 
Mais do que religiosa, a arte do século XIII é uma arte a serviço da religião e da Igreja. Assim, o templo não deve ser apenas um local de culto, mas deve servir à edificação e instrução religiosa dos fieis. Tem uma finalidade pastoral e didática que a Igreja medieval procurou manter sob seu controle e orientação. (MOURA, 1973:416)

 
 
 
Nesse período, a catedral dedicava-se a centralizar a vida de uma cidade, divulgando sua cultura, grandeza e riqueza. A população orgulhava-se dela. Nessa época, tudo acontecia no tem-plo: exprimiam-se as artes plásticas; realizavam-se atos públicos mais solenes; refugiavam-se em caso de invasão; terminavam as festividades coletivas; encenava-se o teatro; os cultos educavam-se e moldavam-se às formas ainda precárias de música e canto popular.

 
 
[...] em suma, os grandes monumentos da história da arquitetura, os grandes nomes, es-tes têm uma linguagem específica, estes dominam um discurso: mas em volta de cada Notre-Dame de Paris, de cada palácio dos Doges há uma centena de habitações menos ou mais pobres que o cronista não registrou e de cuja linguagem não se fala porque sim-plesmente não existe. E neste caso se poderia dizer que também nos tempos modernos os arquitetos "falam", pois Mendelsohn tem uma linguagem, Loos tem uma linguagem, etc. (TEIXEIRA NETTO, 2002:8)

 
Uma linguagem arquitetural não é portanto privilégio das grandes obras ou dos grandes nomes: na verdade mesmo, ela é ainda mais rica quando se manifesta nas obras que passam despercebidas, naquelas para as quais os guias turísticos não apontam porque estão se servindo delas e nem pensam nisso: na malha viária, no jogo dos espaços, das cores. E tampouco essa linguagem é privilégio dos "tempos passados".(TEIXEIRA NETTO, 2002:10)
 
 
A data considerada por muitos historiadores como o fim da Idade Média é 29 de maio de 1453, quando os mulçumanos tomaram Constantinopla, colocando em crise a cristandade, promovendo mudanças na esfera secular: aparecimento de Estados secularizados no norte da Itália; deslocamento do comércio, como resultado de novas passagens abertas sobre o mar; novas descobertas geográficas; derrocada do mito imperial; aparecimento de uma economia monetária em lugar da agrária; descrédito do feudalismo; sede de saber e  redescoberta da Antiguidade clássica.

 
 
 
O fato da linguagem, embora tomado em si mesmo, pode logo ser visto como a imposição da ordem sobre a experiência. A linguagem nomiza impondo diferenciação e estrutu-ra no fluxo ininterrupto da experiência. (BERGER, 1985:33) 
 
 
É impossível usar a linguagem sem participar de sua ordem. Pode-se dizer que toda linguagem empírica constitui um nomos em formação, ou com igual validade, uma conseqüência histórica da atividade nomizante de gerações de homens. O ato nomizante original é dizer que um item é isto e, portanto, não aquilo. (BERGER, 1985:33) 

 
 
 
As mudanças que se acentuaram com o aparecimento da economia monetária geraram um novo nomos. As novas elites, os novos ricos, lêem, viajam e, em contato com outras mentalidades, podem formar um critério pessoal de conduta; por isso a simplificação espiritual proposta pelos humanistas. Após o Grande Cisma do Ocidente, Nicolau V fez de Roma a capital das letras e das artes e a biblioteca do Vaticano tornou-se uma das mais ricas. Ele encomendou traduções dos clássicos pagãos aos grandes humanistas (Brunellesco, Donatello, Boticelli, Michelangelo e Leonardo da Vinci – pintor, arquiteto, engenheiro, escultor e sábio), embelezou seu palácio, construiu e reformou inúmeras igrejas.

 
 
O século XV já forjava armas para o século XVI: multiplicavam-se os livros impressos; criavam-se universidades e escolas leigas; ofereciam-se oportunidades educacionais a camadas sociais inferiores; valorizava-se a interpretação direta das Sagradas Escrituras; o clero deixava de ter monopólio da cultura e até da teologia.

 
 
 
Maraschin afirma que o esplendor do século XIII era visível em suas monumentais igrejas e na harmonia síntese entre a vida civil e a religiosa. E ainda observa:
 
 
“Durante 15 séculos de Cristianismo, acreditava-se que o demônio tinha sido vencido pela majestade e poder de Jesus Cristo, expressos na arquitetura gloriosa das catedrais. As pias de água benta pareciam suficiente para combater a sedução do Maligno.[...] A-lém disso, as representações artísticas e arquitetônicas davam testemunho de uma força maior do que a desse ministro das trevas, representado, em geral sob enormes colunas das igrejas, como se fosse esmagado por elas.” (MARASCHIN, 1973, p 451)

 
 
As igrejas desse período estão igualmente repletas de esculturas, baixos-relevos, tapeçarias, vitrais e pinturas representando o Juízo Final, isso em diversas partes da Europa.

 

Em primeiro lugar, nenhuma obra de arquitetura possui um só significado: aliás, é uma característica do produto artístico comportar-se como uma fonte de significados diversos não só no plano da transformação de sua fruição no tempo, como também na disponibilidade orientada segundo um sentido a estratos de significados inclusive contraditórios, co-presentes naquilo que Freud denomina "as supra-determinações e condensações das formas expressivas". Podemos fazer com que o significado de uma arquitetura consista em sua maleabilidade, em seu "ser para" mas não em algo diverso daquilo que ela mes-ma indica ou significa. (GREGOTTI, 2001:26)
 
 
 

Conforme Teixeira Netto, “são os dois modos iniciais de semantização do espaço, e por certo dependem de uma ideologia e/ou produzem uma ideologia: sua significação dependerá das relações sociais nele examinadas  (das quais se pode secretar uma ideologia) [...]” (TEIXEIRA NETTO, 2002:119). A Reforma “rompe” com tudo isso, quando ensina que a salvação vem da fé. Na nova ordem de culto, publicada em 1523, Lutero acentuava a pregação como ponto central. O púlpito tornava-se lugar da comunicação da Palavra de Deus. Mas continuava-se a usar ex-templos católicos. Lutero nunca determinou que se tirasse a iconoclastia, pois não havia nele a intenção de rompimento mas de correção de algumas interpretações.

 

Paul Tillich escreve: 
 
 
 

[...] porque os líderes da igreja protestante não perceberam que havia expressivo poder num estilo artístico e porque eles não sentiram o impacto do passado católico romano no contraste entre o simbolismo do edifício e o simbolismo representado durante o trabalho protestante. ( Oliveira)

 
 
Lutero não intencionava romper com a igreja católica, portanto não houve um grande deslocamento no imaginário dele de como deveria ser a igreja. A linguagem arquitetônica sofreu algumas mudanças, mas foram poucas, e de modo geral ocorreram do lado de dentro. Um exemplo dessas poucas mudanças foi a retirada divisória que existia entre a nave e o coro.

 
 
 

América Latina

 
 
Conforme Maraschin, quando fala do Protestantismo na América Latina, o Luteranismo configurou-se como movimento religioso de grupos de imigrantes. “A Igreja alemã é conhecida no Brasil como Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e passou por demorado pro-cesso de aculturação. Só a partir de 1946 decidiu-se formar pastores no país [....]” (MARASCHIN, 1973, p 772)

 
 
 
Segundo Rubem A. Alves, ao falar do Protestantismo Contemporâneo, o século XIX representou, para o Protestantismo, o que o século XV representou para o Catolicismo. Os protestantes parecem sempre ter associado sua religião à razão de ser de seu progresso econômico. A estratégia missionária se firmou num triângulo - construir igrejas, construir escolas, construir hospitais, ou seja, curar a alma, curar a mente curar o corpo.

 
 
Os protestantes na América Latina foram freqüentemente perseguidos, humilhados e estigmatizados.Proibidos por lei de erguerem templos, construíam ‘casas de oração’: muitas delas foram apedrejadas ou queimadas. O protestante sentia-se discriminado e isolado em sociedades que se definiam como católicas. Não faltou aos protestantes agressividade e ódio contra os católicos. Consideravam o Catolicismo como símbolo de idolatria, de superstição, de ignorância, resíduo do mundo medieval já morto. (ALVES, 1973, p 979)

 
 
O Brasil é um país de colonização católica. Teve nos jesuítas uma estratégia  de implantação, que permitia segurança e visibilidade total da região a catequizar. Alem de se valer de uma legislação que assegurou a eles o domínio da linguagem arquitetônica “sacra”. Ainda utilizou-se de elementos do barroco para assegurar que sua imagem seria a dominante no tecido urbano das cidades brasileiras. Sua implantação é geralmente, no centro da cidade, com uma praça à sua frente ou localizada em frete ao termino de uma rua. A intenção é de a rua conduz ao interior da igreja, como se a igreja fosse uma continuidade da rua. E no caso da praça, e aberto um grande espaço no meio do caos urbano, que destaca a igreja, que conduz  ao “sagrado”.
 
 
Geraram assim durante séculos na nossa imaginação que igreja é uma arquitetura, se não gótica, próximo desse desenho. Quando falamos igreja algumas imagens surgem na nossa memória, como: a cruz, a torre, o sino e outros. Na Europa é comum ver-se esses símbolos também nas igrejas protestantes. Mas durante muitos anos, aqui no Brasil, parece que conforme disse Erasmo Braga: “o protestantismo é o retrato negativo da Igreja Católica com todos os inconvenientes do negativo”. (ALVES, 1973, p 979). E como afirma Berger, “O indivíduo se apropria da realidade das instituições juntamente com os seus papéis e sua identidade.” (BERGER, 1985:30) E ele demonstrou isso na linguagem arquitetônica de suas igrejas.
 
 
Essa imagem exerceu, conforme Weber, durante décadas a função de conservação da or-dem social, usando inclusive a arquitetura para lembrar à sociedade.

 
 
 
Para que o nomos de uma sociedade possa ser transmitido de uma geração para outra, de tal modo que a nova geração venha também a "habitar' o mesmo mundo social, deverá haver formulas legitimadoras para responder as perguntas que surgiram inevitavelmente nas mentes da nova geração. (BERGER, 1985:43) 

 
 
A arquitetura demonstra a evolução de uma sociedade, visto que ela é uma linguagem que não gera mudança social, mas reflete a evolução da sociedade. E a cidade necessita muito de uma verdadeira linguagem que substitua o amontoado de frases e signos arquitetônicos sem sentido, porque muitas vezes quem os recebe e utiliza não sabe o que significam, mas sente seus efeitos.

 
 
 
 

A legibilidade do espaço sagrado paulistano.
 
 

Como essa linguagem vem sendo usada hoje? Os signos que a compõem nem sempre são facilmente decodificados, quando lemos o tecido urbano. Algumas igrejas protestantes históricas, como por exemplo, as Igrejas Evangélicas de Confissão Luterana, objeto central da nossa pesquisa de mestrado, ainda se fazem ler, em nosso (con)texto urbano de São Paulo. A que se localiza no Cento de São Paulo é em estilo neo-gótico, foi a primeira igreja construída nesse estilo (inaugurada oficialmente em 1907). Já a que foi construída no bairro da Cantareira é de estilo moderno da década de 1970.
 
 
Em São Paulo, por exemplo, muitas vezes se passa diante de uma igreja, protestante e, dependendo da velocidade que se esta, não se diferencia o espaço sagrado do profano. Na maioria das vezes isso ocorre porque a instituição utiliza-se de um espaço que não foi originariamente construído para tal fim (em arquitetura isso se chama não espaço), como garagens, lojas, galpões, cinemas, indústrias e outros. Isso foi imputado na nossa cultura, através de múltiplos aspectos: pelas primeiras leis que não permitiam a construção de templos; porque o livro “sagrado”, bíblia, diz que nós somos o templo de espírito de Deus  e onde houverem dois ou três reunidos  Deus es-tará ali, tal possa se concluir que não há a necessidade de um espaço sacro; porque o Brasil é um país de “colonização Católica” e a esta ao se instalar no país já veio com uma política de instalação urbana contra-reformadora, e as igrejas protestantes quiseram diferir da arquitetura Católica-romana; porque as condições econômicas, do povo, não permitiam a compra de terrenos e fazer grandes construções; porque as condições urbanísticas desta metrópole direcionavam, principalmente as igrejas instaladas depois do meado do século XX, ao reaproveitamento dos espaços vazios.

 
 
 
Essas e outras condições levaram a tornar o não-espaço um espaço sagrado, identificado muitas vezes somente através do marketing (faixas, placas, folheto,...). No final do século XX e inicio do XXI, muitas igrejas já faziam uso da mídia televisiva, fazendo com que o culto que era objeto exclusivo do espaço sagrado invadisse as casas. Esse ato poderia gerar uma mudança nos hábitos sociais dos indivíduos atingidos por essa invasão, poderia simplesmente fazer com que o individuo não fosse mais ao espaço sagrado, gerando assim um esvaziamento dos templos (um espaço morto, por falta de dialogo).Mas não foi bem isso que ocorreu. Quando a igreja (diversas denominações), entrou na casa de milhões de indivíduos através da televisão, foi como se além da praticidade de ver e ouvir o culto em sua casa, tivesse se gerado um cardápio de opções que possibilitasse a escolha: do estilo de igreja que “me” agrada; do tipo de pensamento (ideologia) expresso que “eu” quero viver; e que tipo de sociedade a “minha” personalidade vai se adequar ou “eu” quero conviver. Provavelmente essas e outras idéias fizeram com que não houvesse uma reclusão aos lares. Fazendo com que as pessoas fossem a essa ou aquela igreja por esse ou aquele motivo.
 
 
 
 

 
 
 
Entre as igrejas “midiáticas”, a “Igreja Universal do Reino de Deus”, sob o discurso de melhor acomodar um numero grande de “irmãos”, construiu a sua catedral, na Av. João Dias – bairro de Santo Amaro. É um grande templo onde podemos  a ver alguns signos distintos da “igreja no salão alugado”, como carpete vermelho e vitrais  coloridos. Começa uma mudança na identidade desse grupo social. Ela começou oficialmente em 1977; sem condições de alugar um imóvel, o então pastor Edir Macedo iniciou as suas primeiras reuniões num coreto do Jardim do Méier - RJ. Depois foi alugada uma antiga fábrica. Ela tem nos últimos anos deixado de ser uma igreja de pequenos salões alugados para ter pelo menos uma grande igreja, de características arquitetônicas parecidas com a da sede, em cada capital e grande cidade do país demonstrando através da arquitetura a sua “prosperidade”.

 
 
 
 



 
 
 

A “Igreja evangélica Deus é amor”, tinha a sua sede em uma construção industrial, no bairro do Cambuci. Também teve seu inicio , em 1962, em um prédio comercial alugado. Utilizou durante décadas a construção industrial e a poucos anos atrás passou por uma grande mudança. Ela põe a edificação abaixo e constrói um templo de proporções faraônica  no mesmo lugar. Sua arquitetu-ra é simples no traçado, mas muito grande . Possui dois espaços reservados para culto (um menor e outro que podemos chamar de principal), possui vitrais, estacionamento um prédio administrativo, heliporto e tem a área interna do espaço em estilo de teatro arena. Interessante é notar que as proporções dessa igreja são enormes, mas ela não mudou a identidade do seu grupo, ela é simples como a anterior, e como o grupo que a freqüenta, porém muito grande.

 
 
 
 



 
 
 

Pouco tempo depois, próximo a essa igreja, foi construída mais uma “mega-igreja”. Outra “Universal” na Av. Celso Garcia – bairro Brás, que se não é maior que a catedral, chama muito a atenção e demonstra o que alguns chamam de “ostentação”. Esta ocupa um quarto do quarteirão é repleta de vitrais decorados e coloridos, como a outra possui tapete vermelho, tem uma luminária enorme em formato de cruz e imitando vital, tem torres laterais coroadas com cúpulas douradas, seu nome escrito na fachada em letras douradas, e também possui heliporto. 

 
 
 



 
 
 

Nessa mesma Avenida no sentido do bairro, no lado direito, quase em frente a “Universal” localiza-se do lado esquerdo, na esquina seguinte a “Igreja Assembléia de Deus do Belém”  outra igreja de proporções muito grandes. Ela ocupa aproximadamente um quarto do quarteirão mas tem como limite além da avenida, já citada, duas outras ruas de grande circulação. E fica num cruzamento, da Av. Celso Garcia, que tem logo na seqüência (ao lado) uma igreja católica que ocupa uma praça. O exterior da edificação nada mais é do que um caixote de estilo moderno em granito e vidro, com um detalhe no canto superior (o da avenida) que parece uma chama estilizada. Sua proporção parece que quase suprime a igreja católica ao lado, a ponto de podermos chamar a igreja católica de igrejinha.

 
 



 
 

Nessa imagem de satélite vemos no centro a Avenida Celso Garcia. Nela há um prédio de telhado branco com heliporto, que é a Igreja Universal do Reino de Deus.

 
 
 



 
 
 
 
 

É marcante que tem ocorrido grandes mudanças sociais na metrópole de São Paulo, pois, se no geral “ela” é “recheada” de igrejas protestantes, em sua maioria ilegíveis, temos esse novo fe-nômeno das mega-igrejas que tem mudado a paisagem urbana desta cidade.

 
 
 

Conclusão
 
 
 

Sobre o alicerce da linguagem, e por meio dela, é construído e edifício cognitivo e normativo que passa por “reconhecimento” numa sociedade. “Só uma parte relativamente  pequena desse edifício é construída de teorias desta ou daquela espécie, embora o "conhecimento" teórico se-ja particularmente importante porque contém usualmente o corpo das interpretações "oficiais" de realidade.” (BERGER, 1985:33) 

 
 
A pressuposição antropológica disso é uma exigência humana. A sociedade humana é uma ação de construção do mundo, é um edifício levantado frente às poderosas e estranhas forças do caos. A existência humana só é possível graças a comunicação permanente com o Céu, isto é com o sagrado (via religião). Conforme Eliade, não se pode viver sem uma “abertura” para o transcendente, ou seja não se pode viver no “caos”. É neste ponto que a religião entra significantemen-te em nossa discussão. O sagrado é apreendido como algo que "salta para fora" das rotinas nomos, do dia a dia. 

 
 
Por sagrado entende-se  uma qualidade de poder misterioso e temeroso, distinto do homem e todavia relacionado com ele, que se acredita residir em certos objetos da experiência . Essa qualidade pode ser atribuída a objetos naturais e artificiais, a animais, ou a homens, ou às objetivações da cultura humana. (BERGER, 1985:38) 

 
 
A relação entre a religião humana e a construção humana do mundo depende do tênue fio da conversação, tanto a identidade como o mundo, permanecem reaisl para ele enquanto ele continua a conversação. As representações da sociedade são imensamente mais resistentes. É a materialidade da linguagem em que se move a arquitetura, dotada de significado pelo fato de ser fisicamente aquela figura em que as formas se organizaram segundo um sentido. Vitor Hugo demonstrou-nos claramente que a arquitetura é uma linguagem que explana o que está acontecendo com a sociedade no momento da sua construção. 

 
 
Estes dois aspectos da fruição arquitetônica podem também ser formulados da seguinte maneira: o signo arquitetônico (que Barthes denomina em seus Elementi di Semiologia função signo) é decifrável, no que se refere a sua dimensão de significado, como um uso semantizado e não existem usos coletivos não semantizados ainda que seja em níveis diferentes. Se consideramos a questão do ponto de vista da lingüística, é interessante ressaltar como uma das definições mais convincentes da dimensão semântica do tipo seja precisamente a do significado como uso de Wittgenstein . Esta definição parece ser capaz de recuperar toda a complexidade do fenômeno (e certamente é a que melhor nos serve para a linguagem arquitetônica) propondo, ao nível da unidade semântica mínima, o significado como "encontro entre a série de usos da forma considerada na frase e a série de usos que, no âmbito da comunidade, se faz da própria forma" .(GREGOTTI, 2001:179-180)

 
 
A arquitetura reflete a evolução de uma sociedade, embora não gere mudança social. Ou  como diria Teixeira Netto: 

 
 
[...] se o processo de semantização e de suprassemantização de um espaço parece indeterminado e amplo, sendo sempre possível acrescentar um novo significado a um certo espaço de tal modo que não se pode legitimamente prever seu ponto culminante, o processo de dessemantização tem um ponto máximo possível além do qual não pode prosseguir e que é o ponto onde esse espaço perde todo significado, sentido ou significação, propondo-se como um espaço vazio, não-significante. (TEIXEIRA NETTO, 2002:122)

 
 
Assim observando a linguagem na arquitetura, percebemos que ela é uma medição, pela qual nós exprimimos, através de sinais, na busca de um entendimento intersubjetivo com respeito a algo real. A arquitetura existe como linguagem porque juntamente com os outros, continuamos a empregá-la e a nos identificarmos com ela e através dela. Dialogamos constantemente com o meio (urbis) e usamos os signos da arquitetura para transmitir as gerações, algo idealizado como a relação de poder, de segurança, de riqueza, etc.

 
 
É marcante que tem ocorrido grandes mudanças sociais na metrópole de São Paulo, pois, se no geral “ela” é “recheada” de igrejas protestantes, em sua maioria ilegíveis, temos esse novo fenômeno das mega-igrejas que tem mudado a paisagem urbana desta cidade. Já demonstrando o que o ultimo censo atesta, que é o crescimento do número de protestantes, ou evangélicos, no Brasil que já chega a 19% da população. A linguagem na arquitetura, como marcos imaginário, já estão demonstrando os deslocamentos do pensamento social.

 
 

Notas
 

Estudou arquitetura, psicologia e antropologia.
Historiador de Paris.
A expressão "outros significativos" também deriva de Mead. Ela teve aceitação geral na psicologia social americana.
Cf. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa Folha/Aurélio, Editora Nova Fronteira S/A: Rio de Janeiro, 1995, p 510: “4. Arquit. Representação gráfica da projeção horizontal de edifício, de cidade, etc.”
Um espaço não só pode como deve ser analisado a partir das relações sociais que nele se desenvolvem, as-sim como estas podem ser apreendidas através de suas projeções sobre o espaço.
  Militar.
Bíblia – Rm 8:9, I Co 3:16
Bíblia – Mt 18:20
Bíblia – At.4:48 e 17:24
“Diante dos vitrais [...] somos impelidos empreender essa viagem para dentro e para o alto, buscando os an-tigos elos que nos remetem a Deus. O edifício interage com o individuo e o envolve, integrando vivências, esperan-ças e significados recônditos, numa experiência pessoal, única e irrepetível.” (Requena C., 2000:12) “[...] vitrais, pois, pela sua beleza e luz, tocam a alma e atraem o olhar de qualquer pessoa, estudada ou não.” (Requena C., 2000:21)
somente para ilustração essa igreja é tão grande e comporta um numero tal de pessoas que  possui mais de 40 banheiros (proporções de um grande shopping center).
Como podemos ver na imagem de satélite a seguir. É o prédio de telhado azul.
Para uma clarificação do conceito do sagrado, cf. Rudolf Qtto, Das Heilige (Munique, Beck, 1963); Gera-dus van der Leeuw, Religion in Essence and Manifestation (Londres, George Allen & Unwin, 1938); Mircea Eliade, Das Heilige und das Profane (Hamburgo, Rowohlt, 1957). A dicotomia do sagrado e do profano é usada por Dur-kheim em seu The Elementary Forms of the Religions Life) (Nova York, Collier Books, 1961).
WITTGENSTEIN, Ludwig. Phi/osophische Untersuchungen. (Tradução inglesa Oxford, Blackwell, 1958).
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