A
reocupação do bairro teve uma ligação direta
com o fortalecimento nas últimas décadas do movimento musical
do samba-choro, a partir das reformas de infra-estrutura no Centro da cidade
do Rio de Janeiro. Este momento permitiu a abertura de inúmeros
bares e casas de shows na Lapa e, conseqüentemente, o
surgimento de diversos grupos musicais compostos por jovens, além
do retorno dos músicos “da antiga”, os chamados
“chorões”, ao bairro. Atualmente, a região que
compreende a Rua do Lavradio, a Praça Tiradentes e a Cinelândia,
conhecida como Rio Antigo e, o entorno da praça Mauá,
está se reestruturando e recebendo em suas casas noturnas, centros
culturais, bares e restaurantes, diversos estilos musicais onde o samba
e mais precisamente o choro são um dos principais responsáveis
pela reocupação dos antigos casarios e
dos novos espaços que surgem a cada dia.
Breve
história do choro
Dizer
que a música popular feita no Brasil é caracterizada por
sua riqueza é essencial para defini-la. A história da música
popular do Brasil acontece quando do encontro entre a música dos
jesuítas e a música dos indígenas. Ela se tornaria
mais forte no final do século XVII, com o lundu e a modinha, de
cunho intimista, amoroso e sentimental. Já no século XIX
surge o choro e os conjuntos de chorões — nome que se dá
aos músicos que integram os conjuntos de choro — que adaptam formas
musicais européias ao gosto brasileiro.
Os
primeiros grupos de chorões eram compostos por
flauta, violão e cavaquinho. No final do século XIX
são incorporados instrumentos de sopro e corda, tais como o bandolim,
o flautim e a clarineta. Em termos de estrutura musical, o choro costuma
ter três partes (ou duas, posteriormente), que seguem a forma rondó
(sempre se volta à primeira parte, depois de passar por cada uma).
A
obra de Ernesto Nazareth foi fundamental para a formação
da linguagem do gênero. Pixinguinha também foi essencial,
pois introduziu elementos da música afro-brasileira e da música
rural nas polcas, valsas, tangos e schottische. Outro músico importante
na história do choro foi Jacob do Bandolim, famoso por seu virtuosismo
e também pelas rodas de choro que promovia em sua casa, nos anos
de 1950 e 1960. Jacob também fundou um importante grupo de
choro, o Época de Ouro.
O
choro acabou por tornar-se o gênero mais representativo da música
brasileira por seu caráter de elo entre diversos segmentos
sociais e estéticos que persiste até hoje. Pode-se
pensar o choro como uma síntese primordialmente instrumental de
toda uma história musical brasileira.
História da Lapa
O
bairro da Lapa no Rio de Janeiro é historicamente ligado à
música. Seus cabarés, teatros e cafés eram o ponto
de encontro de músicos, artistas, intelectuais e também de
malandros. A Lapa se destaca ainda por suas obras arquitetônicas
como a Sala Cecília Meireles, o Passeio Público, a Escola
Nacional de Música e os Arcos da Lapa. Mas nem sempre foram brilhantes
a noites do bairro. Com a sucessivas crises econômicas do país,
a região conheceu épocas de decadência. Só a
partir de 1980 com o Projeto Corredor Cultural é que antigos prédios
abandonados foram restaurados fazendo surgir no local diversos centros
culturais e casas de espetáculos.
Entre
os anos 80 e 90, o bairro foi rejuvenescido com a presença
de jovens de diferentes camadas sociais. O freqüentador da Lapa naquela
época eram jovens entre 15 e 24 anos de diferentes classes e identidades
culturais. Sem dúvida foi nessa época que se
instalou ali o Circo Voador com suas oficinas de teatro, dança e
espetáculos musicais
A
reforma urbanística da rua do Lavradio foi o marco para a revitalização
da região que passou a atrair uma série de investidores e
produtores musicais com suas casas de espetáculos, bares e restaurantes.
Por sua vez, a Lapa passou a agregar profissionais ligados ao mundo da
música atraindo assim músicos de outras regiões
da cidade. Primeiramente surgiu o Empório 100, bar de samba-choro
montado num antiquário no número 100 da Rua do Lavradio.
Em seguida surgiu o Carioca da Gema na Rua Mem de Sá e depois vieram
o Semente, a Casa da Mãe Joana, o Espaço Constituição,
o Sacrilégio, o Dama da noite, o Estrela da Lapa, entre
outros. Hoje, a Lapa é um ponto de encontro de todas as tribos
idades e classes sociais e é lá na esquina da Rua Joaquim
Silva que se encontra o Bar Semente, um dos precursores do choro nessa
nova fase da Lapa.
Revitalização
do bairro
Assim como o samba, há
muito o choro faz parte da cena musical da Lapa. Em meados da década
de 90, houve uma grande proliferação de espaços
com rodas de choro que tinham como público profissionais
liberais, músicos, jornalistas, escritores e estudantes. Por sua
vez, a prefeitura junto com a iniciativa privada passou a fazer melhorias
na região restaurando e tratando da conservação
de antigos prédios da época colonial e imperial.
Portanto,
pode-se afirmar que o circuito do samba-choro refletiu significativamente
na reformulação dos espaços da região.
Em números: apenas no triângulo Lapa, Cinelandia e Praça
Tiradentes, existem atualmente 52 casas de shows que têm em sua
programação grupos de choro e de samba, são elas:
Antiqua Sappore , Bobadela ,Carioca da Gema , Casa da Mãe Joana
, Castelo dos Democráticos, Centro Cultural Carioca , Centro Cultural
Memórias do Rio , Comuna do Semente , Cordão da Bola Preta,
Dama da Noite, Ernesto, Mangue Seco Cachaçaria , Rio Scenarium,
Sacrilégio , Samba e Feijão e Teatro Rival.
Para Plínio Quintão
Fróes, comerciante da Rua do Lavradio, a reforma
da rua , inaugurada em 4 de maio de 2002, foi o marco inicial
para a revitalização da região:
Antes
disso a rua do Lavradio só era notícia quando o assunto fedia:
quando chovia e entrava meio metro de água nas lojas, a Lavradio
ia para o jornal como a “porta-bandeira”. Com a Feira do Rio Antigo, ela
passou a ser motivo de notas simpáticas e espontâneas dadas
pela mídia. Isso trouxe para a rua mais gente, e conseqüentemente,
houve uma demanda maior pelos imóveis. Os antiquários empoeirados
passaram a pintar as paredes, a limpar os móveis, a construir banheiros.
Foi o momento da construção da auto-estima do comerciante
local.
Podemos
dizer que de tempos em tempos a Lapa viveu o que Jerzy Kociatkiewicz
e Monika Kostera denominaram de “espaços vazios”. Para os autores
as ruas pobres, distritos perigosos e periferias, são exemplos
de espaços vazios:
lugares
a que não se atribui significado. Não precisam ser delimitados
fisicamente por cercas ou barreiras. Não são lugares proibidos,
mas espaços vazios, inacessíveis porque invisíveis.
S ... o fazer sentido é um ato de padronização, compreensão,
superação da surpresa e criação de significado,
nossa experiência dos espaços vazios não inclui o fazer
sentido. (BAUMAN, 2001, p. 120).
De
alguma forma, esse processo de revitalização da Lapa e Centro
do Rio nos leva a acreditar que a Lapa não se inclui mais
nesses espaços vazios. Acreditamos que a música,
em especial o samba e o choro se tornaram o que Caiafa chamou de
a “força criadora” do repovoamento da região. “A força
criadora das cidades vem, precisamente do ato de se chamar à rua
e de se ocupá-la.” (CAIAFA, 2001, p.130).Mas a ocupação
dos espaços tem uma dependência direta com o poder
público. Sobre as dificuldades enfrentadas pela ACRA (Associação
dos Comerciantes do Rio Antigo), em relação ao poder
público, Fróes, que faz parte da diretoria, tem as
seguintes observações:
Aqui
o poder público não faz nada. As iniciativas são todas
privadas, nós não temos incentivo nenhum a não ser
a liberação de IPTU quando restauramos a fachada. Eles têm
que ver que a Lapa de hoje é um sucesso. A Lapa é um caso
raro no Brasil porque é uma revitalização que veio
de baixo para cima. Se você olhar bem no Recife Antigo e no
Pelourinho, foi injetado uma grana alta pela prefeitura, pelo governo do
estado que emprestou dinheiro para reforma do casario. Aqui podemos fazer
coisas pequenas e prioritárias com um custo infinitamente menor
do que o que se está investindo na Cidade da Música na Barra.
Por exemplo: o trecho que vai da Praça Tiradentes até a Cinelândia
recebeu o título oficial de Pólo Cultural Histórico
Gastronômico do Novo Rio Antigo.
Tranformada
em pólo cultural, será mais fácil tirar do papel o
projeto que é a menina dos olhos da ACRA: o Corredor Iluminado.
A Rioluz está mapeando os principais pontos turísticos da
região para dispor uma iluminação diferenciada. Assim,
o turista poderá percorrer todo o trajeto até a Lapa sem
medo. As ruas Gomes Freire e Mem de Sá receberão uma nova
iluminação que substituirá as lâmpadas de mercúrio
pelas de vapor de sódio. Segundo Angela Leal, dona do Teatro Rival
e vice-diretora da ACRA, uma pesquisa realizada pela DataUFF/Sebrae,
demonstrou que 90% dos frequentadores daquela região se sentem seguros
no local. Mesmo assim, a ACRA ainda pretende solicitar
a criação de uma delegacia de atendimento ao turista 24 horas;
um plano de trânsito noturno e a ampliação dos estacionamentos
rotativos com o apoio da CET-Rio5
Jane
Jacobs observa que a melhor medida de segurança nas ruas de uma
cidade são as próprias pessoas. Uma rua habitada não
precisa de polícia. De fato, a violência é muito mais
provável nas regiões despovoadas, onde as pessoas preferem
permanecer entre conhecidos em ambientes familiares, onde o espaço
público está abandonado. São os desconhecidos em torno
de nós que facilitam o nosso acesso, ao circularem conosco pelo
espaço da cidade. A ocupação coletiva é a nossa
garantia. É a mistura urbana, a concentração e a circulação,
o contágio em plena rua que garantem a nossa presença
e a nossa liberdade de circular e, portanto, a nossa relação
ativa com a cidade. (CAIAFA, 2001, p.130)
Ainda
sobre a idéia de repovoamento da cidade (CAIAFA 2001),
imaginamos o bairro da Lapa no Rio de Janeiro como a cidade da qual fala
a autora. Acreditamos que o choro produziu o “repovoamento
da cidade”, nesse caso, a Lapa. Sobre a ocupação
do espaço, a autora comenta.
Ainda uma outra
faceta das cidades é a densidade da população. Os
meios urbanos são meio densos, concentram ao mesmo tempo em que
criam as possibilidades de dispersão, de circulação,
de acesso. De diferentes maneiras em cada configuração
urbana, a história das cidades envolve o povoamento, a ocupação
do espaço. Trata-se de uma ocupação coletiva, da produção
de espaços públicos. Parece-me que esse coletivo urbano
se caracteriza por possibiltar, de alguma forma, uma experiência
com a alteridade. Nesse espaço coletivo, se dá a mistura
propriamente urbana, uma dessegregação, eu diria, mesmo que
provisória e local. Cria-se um espaço de contágio
com outros e estranhos onde há uma imprevisibilidade que o
confinamento familiar não permite, onde há mesmo ou pode
haver uma criatividade maior dos processos subjetivos. (CAIAFA, 2001, p.125)
Bauman
(2001) cita: “uma cidade é um assentamento humano em que estranhos
têm chance de se encontrar”. O autor comenta que esse encontro
não tem necessariamente que partir de um encontro anterior. Para
ele, um encontro entre estranhos pode acontecer sem referências e
sem lembranças.
o encontro de estranhos
é um evento sem passado. Freqüentemente é também
um evento sem futuro (o esperado é não ter futuro), uma história
para “não ser continuada” uma oportunidade única a ser consumada
enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas
para outra ocasião. (Bauman, 2001, p. 111)
Sobre
essa convivência entre estranhos na Lapa, Fróes diz:
a Lapa tem a
capacidade de ter tudo convivendo em harmonia. Tem os travestis que estão
ali na Lavradio com a Mem de Sá ao lado de uma série
de bares maravilhosos como o Estrela da Lapa, o Odisséia,
o Carioca. Os travestis transitam nas portas e não tem nenhum conflito.
Aqui, as meninas da Tiradentes trabalham ao lado do Centro Cultural
Carioca e não incomodam. Então, acho que isso já é
da tradição do carioca: conviver com as diferenças
Baumam
(2001) comenta que a vida urbana requer habilidades que Richard Sennet
denominou de civilidade. Esta acontece dentro de espaços ondes as
pessoas se relacionam como pessoas públicas sem serem cobradas a
tirar suas máscaras. Civilidade para ele é:
a atividade que
protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar
juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade.
As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das circunstâncias
do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam.
A civilidade tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados
com o nosso peso. (Baumam 2001, p. 112)
O
autor afirma ainda que civilidade é a capacidade de
interação entre estranhos e o que caracteriza o espaço
público onde acontece esse encontro é a “ dispensabilidade
dessa interação”. Logo, a Lapa que sempre foi
um espaço de encontro entre diversos grupos de pessoas
com determinado gosto e comportamento, pode ser vista como um espaço
de encontro entre estranhos. Para Caiafa (2001) “estar entre
estranhos é livrar-se em algum grau de sua identidade ou sua definição.”
O
papel dos meios de comunicação, a relação
samba e choro no crescimento da região e o público
da Lapa
Atualmente,
o sucesso do bairro deve-se também ao apoio que a mídia têm
dado às novas casas de espetáculos e aos shows e movimentos
culturais populares que acontecem nas ruas do bairro. Fróes
afirma que agora a mídia tem olhares mais atentos ao que acontece
na Lapa.
A
participação da mídia tem uma importância fundamental.
A gente sempre teve uma mídia espontânea muito grande. Quando
a gente pagava vez por outra um anunciozinho, não dava o mínimo
resultado. A notinha tem muito mais força, muito mais credibilidade
perante o leitor do que uma mídia paga. No caso, o Jornal do Brasil
e O Globo sempre deram respostas mais imediatas porque atingiam mais o
nosso público alvo. Temos também o apoio da Rádio
MPB, mas eu não acredito que a mídia de rádio
possa trazer centenas de pessoas para um evento ou show . Tem também
o site Agenda Samba-Choro, que é direcionada ao público
do choro e do samba e é bastante visitado.
Já
a relação do samba e do choro com a Lapa há muito
é conhecida. O antropólogo Hermano Vianna (1998) relatou
como o samba se tornou o símbolo da identidade nacional
brasileira, e mais recentemente o músico Henrique Cazes (2000)
escreveu sobre a historia do choro no Rio de Janeiro. Para alguns atores
sociais da história atual da Lapa é fato que o movimento
musical do samba e do choro tem ligação direta com
o boom da Lapa atual. Fróes comenta:
(...) o choro surgiu
aqui com a Chiquinha Gonzaga na praça Tiradentes onde aconteciam
os espetáculos, os bailes com as polkas e com o maxixe.. Depois
foi vindo o choro. Dos seis teatros que tinham na rua do Lavradio,
todos tinham espetáculos de música européia,
ópera, operetas, polkas e também o maxixe. Já na praça
Tiradentes com os seus espetáculos, o samba foi ocupando os salões.
Com o samba veio o choro. Aqui na nossa região, o que eu me
recordo é que era uma região muito triste, uma rua depredada,
uma rua em que não se ouvia música, não se ouvia samba
nem choro. Mas eu vi renascer o samba e o choro. Eu era um freqüentador
habitual do Empório 100. Acredito que hoje o samba e o choro devem
ocupar cerca de 80% da programação das casas da Lapa, Lavradio
e Tiradentes, incluindo o Teatro Rival na Cinelândia.
Uma
pesquisa encomendada pela ACRA e realizada pelo DataUFF/Sebrae, confirmou
que 68% do público que freqüenta a região da Cinelândia,
Lapa, Lavradio e Tiradentes, vai em busca de entretenimento ligado
à cultura brasileira.
O
público não vem só em busca do lazer. Esse é
um dado muito significativo. É um público classe média,
média alta, de todos os níveis e de todas as idades. A massa
maior está entre trinta e cinqüenta anos, composto por pessoas
que trabalham em museus, centros culturais, estudantes e professores universitários
Pessoas ligadas ao universo da cultura e da educação, é
um público muito grande e muito expressivo. Mas, existe também
um público significativo de turistas estrangeiros, que vem para
o país querendo conhecer a música, o povo. É um turismo
cultural, que deve ocupar cerca de 20 a 30%, das casas de espetáculos.
Do
outro lado do movimento, um importante depoimento sobre o papel da música,
do choro, especialmente, na questão da ocupação
dos espaços no RJ, é do músico Maurício
Carrilho:
O
que está acontecendo na Lapa é apenas uma vitrine.
A música popular brasileira nasceu no Rio. Aqui nasceu o choro,
foi a primeira manifestação de música urbana brasileira.
Como a capital federal era aqui é lógico que as raízes
que foram plantadas ainda são muito fortes. Mas já houve
tempo melhor. Hoje é muito desrregulado, você tem uma rede
de restaurantes e de casas de espetáculo que são propriedade
de espanhóis, que mostram espetáculos de péssima
qualidade, e nós temos uma grande quantidade de trabalhos maravilhosos
de música brasileira que não são mostrados. A gente
conta nos dedos as cidades no mundo que podem ser reconhecidas pela música.
É Sevilha na Espanha, com a música flamenca,
em New Orleans é o Jazz, em Buenos Aires o tango e no Rio
o samba e o choro. Isso acontece com poucas cidades e o Rio não
usa essa capacidade. Nós não temos uma secretaria de
integração da produção musical com o turismo.
Se temos o Pão de Açúcar e o Corcovado por que
não temos um conjunto de música típica tocando nesses
lugares? Quando se vai na Disney, tem conjunto de Rock e de
todos os tipos de música americana se apresentando
lá. Na verdade, existe uma ignorância total de nossos governantes.
São pessoas totalmente despreparadas, porque não conhecem
a história da cidade, não sabem dar valor ao patrimônio
que a gente tem e que sustenta a música do Rio ate hoje
Maurício
afirma que esse movimento está acontecendo na cidade toda e servindo
de ocupação de novos espaços. Confirmando as palavras
do chorão, o movimento de reocupação dos espaços
da cidade, via música, está acontecendo também
em outros locais. São espaços já conhecidos como circuito
off-Lapa do samba –choro. O mais frequentado é a região Mauá-Santo
Cristo-Gamboa. Esses locais, historicamente conhecidos pela presença
de grandes músicos, sambistas e compositores, estão
sendo revisitados impulsionado pelo movimento musical inaugurado por um
grupo de amigos que formam o conjunto O Fabuloso eu Canto Samba e
do Bloco Escravos da Mauá. A região da Polícia Federal
e da Rua Sacadura Cabral, na praça Mauá, passou a ser
ocupada por pessoas vindas de outros locais da cidade para
se divertirem nas noitadas de samba e choro que acontecem no Largo de São
Francisco da Prainha, às sextas feiras, e das novas
casas de espetáculo como o Trapiche Gamboa e Cabaret
Kalesa, de segunda a domingo. Essa região, frequentada
em outra época basicamente por estivadores do Cais do Porto e moradores
do Morro da Conceição tornou-se mais íntima
para um grande número de jovens músicos, estudantes etc.
Mercado
Imobiliário: A Lapa se prepara para um novo momento.
Se
choro ganhou nova vida com a revitalização da Lapa e adjacências,
a região também voltou a brilhar com a sua presença
Mas se essa retomada tem até agora reflexos tímidos
sobre a indústria da música, para o mercado
imobiliário, o cenário é outro. Um dos principais
projetos da prefeitura para a cidade nesta segunda administração
do Prefeito César Maia, é a revitalização do
Centro com estímulo à moradia e o projeto Rio-Cidade na Rua
do Riachuelo.
Seis
anos após a fundação do Distrito Cultural da
Lapa que estende-se do Largo da Lapa até o final da Rua do
Lavradio, estão sendo lançados novos imóveis para
a classe média no bairro. O maior exemplo disso é o Condomínio
Cores da Lapa na Rua do Riachuelo. Com 688 apartamentos de 1, 2 e 3 quartos,
o empreendimento teve todas as suas unidades vendidas nas primeiras horas
de lançamento. O condomínio pretende oferecer a seus
moradores, serviços que não existem na Lapa, como academias
de ginástica, cinemas e lojas especializadas. A empresa responsável
pelo empreendimento já está à procura de um outro
espaço para a construção de novos condomínios.
Assim,
o perfil do novo morador da Lapa já começa a ser traçado.
Em declaração dada ao Jornal do Brasil, o subprefeito
do Centro Histórico, Roberto Rocco, diz que:
(...) a região
tem uma estrutura extraordinária que estava sendo subutilizada.
Não vai haver conflito entre o público boêmio e as
famílias que virão. A região central ficava sem função
de segunda a sexta, a partir das 18h, e agora terá que criar novos
equipamentos
A
força do investimento que está sendo programado para
a região tem recebido o apoio das esferas governamentais.
Em depoimento ao Jornal O GLOBO, o secretário municipal de
Urbanismo, Alfredo Sirkis, diz que:
(...) o uso residencial
da Lapa vai gerar mercado, qualificar o comércio e exigir melhorias.
Sirkis listou três áreas que estão na mira de empreiteiras:
a Avenida Beira-Mar, no Aterro do Flamengo, a Praça da Cruz Vermelha
e a Zona Portuária.
No
último mês a Lapa ganhou um movimento denominado Eu Sou da
Lapa (www.eusoudalapa.com.br), que tem o objetivo de divulgar a vocação
residencial do bairro. Mas nem todos jogam confetes à reconfiguração
imobiliária do local. Proprietário de um apartamento
na Rua do Riachuelo, Arthur Arruda, professor do Instituto
de Psicologia da UFRJ, afirma que o perfil do morador daquela região
já está mudando:
(...) a Lapa vem
sofrendo aos poucos fortes influências do projeto Rio-Cidade,
pois com as obras no local e a construção de novos
condomínios oferecendo regalias que não existiam anteriormente,
atraiu um outro tipo de morador, uma classe média começa
a chegar no local. Na verdade isso irá trazer uma reformulação
no comércio em geral. Lojas de marcas conhecidas, academias, cinemas
e outros serviços deverão se instalar no bairro para
atender a esse novo morador. Mas isso tudo trará conseqüências
diretas para a região como aumento de IPTU, do valor dos condomínios
e da descaracterização dos becos e ruelas, em função
do número de carros que irão circular nesses espaços
Para
Fróes, a especulação imobiliária começou
muito antes. Ele afirma que o momento inicial da busca por imóveis
na área foi a partir da reforma da Lavradio:
(...)
com a obra da Lavradio, com o sucesso do Empório 100, as outras
casas foram surgindo e, no momento de reinauguração da rua,
começou uma grande especulação imobiliária.
As pessoas apareceram querendo comprar os espaços degradados da
rua para abrir bares, restaurantes, ou casas com música.Isso a gente
viu não só na Lavradio, mas na região como um todo.
Se você tem uma rua nova, reformada, urbanizada, certamente você
vai ter melhorias na região, pois as pessoas querem estar numa região
em que essas melhorias estão acontecendo
A
freqüência e a futura permanência da classe
media alta na região da Lapa implicará também
na abertura de bares e restaurantes “chiques”, onde se paga couvert e alta
consumação, além de preços exorbitantes
de bebidas e comidas. Essa descaracterização atingirá
diretamente a boemia, que é a marca do bairro. Para a psicóloga
Amana Mattos, freqüentadora das noites da Lapa, há uma
manobra social que é retirar as pessoas das ruas e esquinas:
o antigo perambular
e atual “rolé” pelas ruas para se ouvir um choro ou um bom
sambinha nas rodas de esquinas está ficando cada vez mais difícil.
Hoje em dia isso só é possível se você tiver
grana para pagar couvert. É uma Lapa enclausurada nos bares de classe
média alta.
A
cena se repete no Centro do Rio. A atual população da Lapa,
pelo que tudo indica, será expulsa e obrigada a morar
na periferia e nos morros pois só ficará na Lapa
aquele que puder pagar IPTU e condomínios caros, quem tiver
poder aquisitivo para consumir os novos serviços disponibilizados
pelo comércio mais requintado que começa a se instalar na
região.
Baumam
(2001) afirma que alguns espaços públicos servem para
transformar cidadãos em consumidores. A Lapa corre o risco
de perder seus botecos e lojas de esquina e
virar um grande “templo de consumo” - ao ar livre - como pensa George
Ritzer. Muito se fala da Lapa na mídia, mas pouco se falou sobre
a questão da especulação imobiliária, das
transformações físicas, socioculturais
e suas conseqüências. Se por um lado a Lapa não
é mais um espaço vazio, por outro essa ocupação
consumista poderá transformar o bairro e seu entorno em uma
grande Copacabana, um grande centro de consumo que, mesmo com um
belo passado , aos poucos foi perdendo o glamour.
Notas
Jornalista, radialista e mestranda em Comunicação e
Cultura pela ECO/UFRJ. Pesquisadora do NEPCOM (Núcleo de Estudos
e Projetos em Comunicação. Atualmente, desenvolvendo a pesquisa:
Comunicação, Cultura e a Indústria da Música
do Estado do Rio de Janeiro, coordenada pelo Prof. Dr. Micael Herschmann.
E-mail: claudinhagoes@gmail.com
Ver CARRANO, Paulo e NAZARÉ, Josiane. Experimentando espaços
e identidades – A jovem Lapa carioca. Pesquisa realizada pela Universidade
federal Fluminense.
Entrevista concedida a autora por Plínio Fróes,
comerciante, dono do Antiquário Antiqua Center, do restaurante Rio
Scenarium e da Cachaceria Mangue Seco, no Rio de Janeiro em novembro de
2005.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com o compositor e violonista Mauricio Carrilho, dono
da Acari Records, gravadora especializada em choro.
Depoimento de Roberto Rocco, subprefeito do Centro Histórico
do Rio de Janeiro, ao Jornal do Brasil (JB on line),
em novembro de 2005.
Depoimento de Alfredo Sirkis, secretário municipal de Urbanismo,
ao Jornal O Globo, em 27/11/05.
Entrevista com Arthur Arruda, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2005.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com Amana Mattos, realizada em 02 de dezembro de
2005.
Webgrafia:
Agenda Samba-Choro
http://www.samba-choro.com.br
JB on-line
http://www.jb.com.br
Bibliografia:
AGENDA
SAMBA-CHORO. www.samba-choro.com.br. RJ. 2005.
BAUMAN,
Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro. Jorge
Zahar Ed. 2001
CAIAFA,
Janice. Conversações.in Revista Contracampo
Niterói v. 10/11 p.239 1º e 2º semestre
2004 – Edição Especial/Número Duplo.
CAIAFA,
Janice. Povoar as Cidades. Revista Fronteiras – estudos
midiáticos vol. III Nº 2 – dezembro de 2001
CAZES,
Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. Rio de Janeiro.
Ed. 34.1998.
DAMATA,
Gasparino. Antologia da Lapa, Vida Boêmia no Rio de Ontem.
Rio de Janeiro. Ed. Leitura S.A. 1965.
Pesquisa mostra força
do Novo Rio Antigo. Jornal Capital
Cultural, nº 67 nov 2005.
Um novo Eldorado imobiliário
na cidade. O Globo, 27 nov 2005
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Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro. Co-edição
UFRJ/Jorge Zahar Editor. 2.ed. 2002.