O choro na Lapa: comunicação, movimento musical e revitalização do Rio Antigo

Claudia Góes
Mestranda em Comunicação e Cultura
Escola de Comunicação/UFRJ



 
 
 
 
 
 

A  reocupação do bairro teve uma ligação direta com o fortalecimento nas últimas décadas do movimento musical do samba-choro, a partir das reformas de infra-estrutura no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Este momento permitiu a abertura de  inúmeros bares e casas de shows  na Lapa e, conseqüentemente,  o surgimento de diversos grupos musicais compostos por jovens, além  do  retorno  dos  músicos “da antiga”, os chamados “chorões”,  ao bairro. Atualmente,  a região que compreende a Rua do Lavradio, a Praça Tiradentes e a Cinelândia, conhecida como Rio Antigo e, o entorno  da praça Mauá, está se reestruturando e recebendo em suas casas noturnas, centros culturais, bares e restaurantes, diversos estilos musicais onde o samba e mais precisamente o choro são um dos principais  responsáveis pela  reocupação dos  antigos casarios e  dos novos espaços  que surgem a cada dia. 
 
 
 
 
Breve história do choro 

 
 
Dizer que a música popular feita no Brasil é caracterizada por sua riqueza é essencial para defini-la. A história da música popular do Brasil acontece quando do encontro entre a música dos jesuítas e a música dos indígenas. Ela se tornaria mais forte no final do século XVII, com o lundu e a modinha, de cunho intimista, amoroso e sentimental. Já no século XIX  surge o choro e os conjuntos de chorões — nome que se dá aos músicos que integram os conjuntos de choro — que adaptam formas musicais européias  ao gosto brasileiro. 
Os primeiros  grupos de chorões eram  compostos  por flauta, violão e  cavaquinho. No final do século XIX são incorporados instrumentos de sopro e corda, tais como o bandolim, o flautim e a clarineta. Em termos de estrutura musical, o choro costuma ter três partes (ou duas, posteriormente), que seguem a forma rondó (sempre se volta à primeira parte, depois de passar por cada uma). 

 
 

A obra de Ernesto Nazareth foi fundamental para a formação da linguagem do gênero.  Pixinguinha também foi essencial,  pois introduziu elementos da música afro-brasileira e da música rural nas polcas, valsas, tangos e schottische. Outro músico importante na história do choro foi Jacob do Bandolim, famoso por seu virtuosismo e também pelas rodas de choro que promovia em sua casa, nos anos de 1950 e 1960.  Jacob também fundou um importante grupo de choro,  o Época de Ouro.
 
 
 

O choro acabou por tornar-se o gênero mais representativo da música brasileira por seu caráter de elo  entre diversos segmentos sociais e estéticos que  persiste até hoje. Pode-se pensar o choro como uma síntese primordialmente instrumental de toda uma história musical brasileira. 

 
 
 
 

História da Lapa

 
O  bairro da Lapa no Rio de Janeiro é historicamente ligado à música. Seus cabarés, teatros e cafés eram o ponto de encontro de músicos, artistas, intelectuais e também de malandros. A Lapa se destaca ainda por suas obras arquitetônicas como a Sala Cecília Meireles, o Passeio Público, a Escola Nacional de Música e os Arcos da Lapa. Mas nem sempre foram brilhantes a noites do bairro. Com a sucessivas crises econômicas do país,  a região conheceu épocas de decadência. Só a partir de 1980 com o Projeto Corredor Cultural é que antigos prédios abandonados foram restaurados fazendo surgir no local diversos centros culturais e casas de espetáculos. 

 
 
 
Entre os anos 80 e 90,  o bairro foi rejuvenescido com a presença de jovens de diferentes camadas sociais. O freqüentador da Lapa naquela época eram jovens entre 15 e 24 anos de diferentes classes e identidades culturais.  Sem dúvida foi nessa  época que se instalou ali o Circo Voador com suas oficinas de teatro, dança e espetáculos musicais

 

A reforma urbanística da rua do Lavradio foi o marco para a revitalização da região que passou a atrair uma série de investidores e produtores musicais com suas casas de espetáculos, bares e restaurantes.  Por sua vez, a Lapa passou a agregar profissionais ligados ao mundo da música atraindo assim  músicos de outras regiões da cidade. Primeiramente surgiu o Empório 100, bar de samba-choro montado num antiquário no número 100 da Rua do Lavradio. Em seguida surgiu o Carioca da Gema na Rua Mem de Sá e depois vieram o  Semente, a Casa da Mãe Joana, o Espaço Constituição,  o Sacrilégio, o  Dama da noite, o Estrela da Lapa,  entre outros. Hoje, a  Lapa é um ponto de encontro de todas as tribos idades e classes sociais e é  lá na esquina da Rua Joaquim Silva que se encontra o Bar Semente, um dos precursores do choro nessa nova fase da Lapa. 
 
 
 
 
 

Revitalização do bairro
 

 
Assim como o samba, há muito o choro faz parte da cena musical da Lapa. Em meados da década de 90,  houve uma grande proliferação de espaços com   rodas de choro que tinham como  público profissionais liberais, músicos, jornalistas, escritores e estudantes. Por sua vez, a prefeitura junto com a iniciativa privada passou a fazer  melhorias na região  restaurando  e  tratando da conservação de antigos prédios da época colonial e imperial. 

 
 
Portanto, pode-se afirmar que o circuito do samba-choro refletiu significativamente na reformulação dos espaços  da  região.  Em números: apenas no triângulo Lapa, Cinelandia e Praça Tiradentes, existem atualmente 52 casas de shows que têm em sua  programação grupos de choro e de samba, são elas: Antiqua Sappore , Bobadela ,Carioca da Gema , Casa da Mãe Joana , Castelo dos Democráticos, Centro Cultural Carioca , Centro Cultural Memórias do Rio , Comuna do Semente , Cordão da Bola Preta, Dama da Noite,  Ernesto, Mangue Seco Cachaçaria , Rio Scenarium,  Sacrilégio , Samba e Feijão  e Teatro Rival. 
Para Plínio Quintão Fróes, comerciante da Rua do Lavradio,  a  reforma  da rua , inaugurada em 4 de maio de 2002,  foi o marco inicial  para a revitalização da região: 
 
Antes disso a rua do Lavradio só era notícia quando o assunto fedia: quando chovia e entrava meio metro de água nas lojas, a Lavradio ia para o jornal como a “porta-bandeira”. Com a Feira do Rio Antigo, ela passou a ser motivo de notas simpáticas e espontâneas dadas pela mídia. Isso trouxe para a rua mais gente, e conseqüentemente, houve uma demanda maior pelos imóveis. Os antiquários empoeirados passaram a pintar as paredes, a limpar os móveis, a construir banheiros.  Foi o momento da construção da auto-estima do comerciante local. 

 
 

Podemos dizer que de tempos em tempos a Lapa viveu  o que  Jerzy Kociatkiewicz e Monika Kostera denominaram de “espaços vazios”. Para os autores as ruas pobres, distritos perigosos e periferias,  são exemplos de espaços vazios:
 
 

lugares a que não se atribui significado. Não precisam ser delimitados  fisicamente por cercas ou barreiras. Não são lugares proibidos, mas espaços vazios, inacessíveis porque invisíveis. S ... o fazer sentido é um ato de padronização, compreensão, superação da surpresa e criação de significado, nossa experiência dos espaços vazios não inclui o fazer sentido. (BAUMAN, 2001,  p. 120).
 
 
 

De alguma forma, esse processo de revitalização da Lapa e Centro do Rio nos leva a acreditar que a Lapa não se inclui mais  nesses  espaços vazios. Acreditamos  que  a música, em especial o samba e o choro se tornaram o que Caiafa chamou de  a “força criadora” do repovoamento da região. “A força criadora das cidades vem, precisamente do ato de se chamar à rua e de se ocupá-la.” (CAIAFA, 2001, p.130).Mas a ocupação dos espaços  tem uma dependência direta com  o poder público. Sobre as dificuldades enfrentadas pela ACRA (Associação dos Comerciantes do Rio Antigo),  em relação ao poder público, Fróes, que faz parte da diretoria, tem  as seguintes observações:

 
 
Aqui o poder público não faz nada. As iniciativas são todas privadas, nós não temos incentivo nenhum a não ser a liberação de IPTU quando restauramos a fachada. Eles têm que ver que a Lapa de hoje é um sucesso. A Lapa é um caso raro no Brasil porque é uma revitalização que veio de baixo para cima. Se você olhar bem no Recife Antigo e  no Pelourinho, foi injetado uma grana alta pela prefeitura, pelo governo do estado que emprestou dinheiro para reforma do casario. Aqui podemos fazer coisas pequenas e prioritárias com um custo infinitamente menor do que o que se está investindo na Cidade da Música na Barra. Por exemplo: o trecho que vai da Praça Tiradentes até a Cinelândia recebeu o título oficial de Pólo Cultural Histórico Gastronômico do Novo Rio Antigo. 

 
 
 
Tranformada em pólo cultural, será mais fácil tirar do papel o projeto que é a menina dos olhos da ACRA: o Corredor Iluminado. A Rioluz está mapeando os principais pontos turísticos da região para dispor uma iluminação diferenciada. Assim, o turista poderá percorrer todo o trajeto até a Lapa sem medo. As ruas Gomes Freire e Mem de Sá receberão uma nova iluminação que substituirá as lâmpadas de mercúrio pelas de vapor de sódio. Segundo Angela Leal, dona do Teatro Rival e vice-diretora da ACRA, uma  pesquisa realizada pela DataUFF/Sebrae,  demonstrou que 90% dos frequentadores daquela região se sentem seguros no local.  Mesmo assim,  a ACRA ainda pretende  solicitar a criação de uma delegacia de atendimento ao turista 24 horas;  um plano de trânsito noturno e a ampliação dos estacionamentos rotativos com o apoio da CET-Rio5
 
Jane Jacobs observa que a melhor medida de segurança nas ruas de uma cidade são as próprias pessoas. Uma rua habitada não precisa de polícia. De fato, a violência é muito mais provável nas regiões despovoadas, onde as pessoas preferem permanecer entre conhecidos em ambientes familiares, onde o espaço público está abandonado. São os desconhecidos em torno de nós que facilitam o nosso acesso, ao circularem conosco pelo espaço da cidade. A ocupação coletiva é a nossa garantia. É a mistura urbana, a concentração e a circulação, o contágio em  plena rua que garantem a nossa presença e a nossa liberdade de circular e, portanto, a nossa relação ativa com a cidade. (CAIAFA, 2001, p.130)

 
 
 
Ainda sobre  a idéia de  repovoamento da cidade (CAIAFA 2001), imaginamos o bairro da Lapa no Rio de Janeiro como a cidade da qual fala a autora. Acreditamos  que  o choro produziu o “repovoamento da cidade”, nesse  caso,  a Lapa. Sobre a ocupação do espaço, a autora comenta. 

 
 
Ainda uma outra faceta das cidades é a densidade da população. Os meios urbanos são meio densos, concentram ao mesmo tempo em que criam as possibilidades de dispersão, de circulação, de acesso.  De diferentes maneiras em cada configuração urbana, a história das cidades envolve o povoamento, a ocupação do espaço. Trata-se de uma ocupação coletiva, da produção de espaços públicos. Parece-me que  esse coletivo urbano se caracteriza por possibiltar, de alguma forma, uma experiência com a alteridade. Nesse espaço coletivo, se dá a mistura propriamente urbana, uma dessegregação, eu diria, mesmo que provisória e local. Cria-se um espaço de contágio com  outros e estranhos onde há uma imprevisibilidade que o confinamento familiar não permite, onde há mesmo ou pode haver uma criatividade maior dos processos subjetivos. (CAIAFA, 2001, p.125)

 
 
Bauman (2001) cita: “uma cidade é um assentamento humano em que estranhos têm chance de se encontrar”. O autor  comenta que esse encontro não tem necessariamente que partir de um encontro anterior. Para ele, um encontro entre estranhos pode acontecer sem referências e sem lembranças. 

 
 
o encontro de estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também um evento sem futuro (o esperado é não ter futuro), uma história para “não ser continuada” uma oportunidade única a ser consumada enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra ocasião. (Bauman, 2001, p. 111) 

 
Sobre  essa convivência entre estranhos na Lapa, Fróes diz:

 
 
a Lapa tem a  capacidade de ter tudo convivendo em harmonia. Tem os travestis que estão ali na Lavradio com a Mem de Sá  ao lado de  uma série de bares maravilhosos como  o Estrela da Lapa, o Odisséia, o Carioca. Os travestis transitam nas portas e não tem nenhum conflito. Aqui, as meninas da Tiradentes trabalham  ao lado do Centro Cultural Carioca e não incomodam. Então, acho que isso já é da tradição do carioca: conviver com as diferenças 

 
Baumam (2001)  comenta que a vida urbana requer habilidades que Richard Sennet denominou de civilidade. Esta acontece dentro de espaços ondes as pessoas se relacionam como pessoas públicas sem serem cobradas a tirar suas máscaras. Civilidade para ele é:

 
 
a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados com o nosso peso. (Baumam 2001, p. 112)

 
O autor  afirma ainda  que civilidade é a capacidade de interação entre estranhos e o que caracteriza o espaço público onde acontece esse encontro é a “ dispensabilidade dessa interação”. Logo, a  Lapa que  sempre foi um espaço  de  encontro entre diversos grupos de pessoas com determinado gosto e comportamento, pode ser vista como um espaço de encontro entre estranhos.  Para  Caiafa (2001) “estar entre estranhos é livrar-se em algum grau de sua identidade ou sua definição.”

 
 
 
 
O  papel dos meios de comunicação, a relação  samba e  choro no crescimento da região  e  o público da Lapa

 
 

Atualmente, o sucesso do bairro deve-se também ao apoio que a mídia têm dado às novas casas de espetáculos e aos shows e movimentos culturais populares que acontecem nas ruas do bairro.  Fróes afirma que agora a mídia tem olhares mais atentos ao que acontece na Lapa.
 

 
A participação da mídia tem uma importância fundamental. A gente sempre teve uma mídia espontânea muito grande. Quando a gente pagava vez por outra um anunciozinho, não dava o mínimo resultado. A notinha tem muito mais força, muito mais credibilidade perante o leitor do que uma mídia paga. No caso, o Jornal do Brasil e O Globo sempre deram respostas mais imediatas porque atingiam mais o nosso público alvo. Temos também o apoio da Rádio MPB, mas eu  não acredito que a mídia de rádio possa  trazer centenas de pessoas para um evento ou show . Tem também o site  Agenda Samba-Choro, que é direcionada ao público do choro e do samba e é bastante visitado. 

 
 
 
Já  a relação do samba e do choro com a Lapa há muito é conhecida.  O antropólogo Hermano Vianna (1998) relatou como  o samba se tornou  o símbolo da identidade nacional brasileira,  e mais recentemente o músico Henrique Cazes (2000) escreveu sobre a historia do choro no Rio de Janeiro. Para alguns atores sociais da história atual da Lapa é fato que o movimento musical do samba e do choro  tem ligação direta com o  boom da Lapa atual. Fróes comenta:

 
 
(...) o choro surgiu aqui com a Chiquinha Gonzaga na praça Tiradentes onde aconteciam os espetáculos, os bailes com as polkas e com o maxixe.. Depois  foi vindo o choro. Dos  seis teatros que tinham na rua do Lavradio, todos tinham espetáculos de música européia,  ópera, operetas, polkas e também o maxixe. Já na praça Tiradentes com os seus espetáculos, o samba foi ocupando os salões.  Com o samba veio o choro. Aqui  na nossa região, o que eu me recordo é que era uma região muito triste, uma rua depredada, uma rua em que não se ouvia música, não se ouvia samba nem choro. Mas eu vi renascer o samba e o choro. Eu era um freqüentador habitual do Empório 100. Acredito que hoje o samba e o choro devem ocupar cerca de 80% da programação das casas da Lapa, Lavradio e Tiradentes, incluindo o Teatro Rival na Cinelândia. 

 
Uma pesquisa encomendada pela ACRA e  realizada pelo DataUFF/Sebrae, confirmou que  68% do público que freqüenta a região da Cinelândia, Lapa, Lavradio e Tiradentes, vai  em busca de entretenimento ligado à  cultura brasileira. 

 
 
O público  não vem só em busca do lazer. Esse é um dado muito significativo. É um público classe média, média alta, de todos os níveis e de todas as idades. A massa maior está entre trinta e cinqüenta anos, composto por pessoas que trabalham em museus, centros culturais, estudantes e professores universitários Pessoas ligadas ao universo da cultura e da educação, é um público muito grande e muito expressivo. Mas, existe também  um público significativo de turistas estrangeiros, que vem para o país querendo conhecer a música, o povo. É um turismo cultural,  que deve ocupar cerca de 20 a 30%, das casas de espetáculos. 

 
 

Do  outro lado do movimento, um importante depoimento sobre o papel da música,  do choro,  especialmente,  na questão da ocupação dos espaços no RJ,  é do músico  Maurício Carrilho:
 
 
 

O que está acontecendo na Lapa é apenas uma vitrine.  A música popular brasileira nasceu no Rio. Aqui nasceu o choro, foi a primeira manifestação de música urbana brasileira.  Como a capital federal era aqui é lógico que as raízes que foram plantadas ainda são muito fortes. Mas já houve tempo melhor. Hoje é muito desrregulado, você tem uma rede de restaurantes e de casas de espetáculo que são propriedade de espanhóis,  que mostram espetáculos de péssima qualidade, e nós temos uma grande quantidade de trabalhos maravilhosos de música brasileira que não são mostrados. A gente conta nos dedos as cidades no mundo que podem ser reconhecidas pela música. É  Sevilha na Espanha, com a  música flamenca, em New Orleans é o  Jazz, em Buenos Aires o tango e no Rio  o samba e o choro.  Isso acontece com poucas cidades e o Rio não usa essa capacidade. Nós não temos  uma secretaria de integração da produção musical com o turismo. Se temos  o Pão de Açúcar e o Corcovado por que não temos um conjunto de música típica tocando nesses lugares? Quando se vai na Disney,  tem conjunto de Rock e  de todos os  tipos  de  música americana se apresentando lá. Na verdade, existe uma ignorância total de nossos governantes. São pessoas totalmente despreparadas, porque não conhecem a história da cidade, não sabem dar valor ao patrimônio que a gente tem e que sustenta a música do Rio ate hoje 

 
 
Maurício afirma que esse movimento está acontecendo na cidade toda e servindo de ocupação de novos espaços. Confirmando as palavras do chorão, o  movimento de reocupação dos espaços da cidade, via música,  está  acontecendo também em outros locais. São espaços já conhecidos como circuito off-Lapa do samba –choro. O mais frequentado é a região Mauá-Santo Cristo-Gamboa. Esses locais, historicamente conhecidos pela presença de grandes músicos, sambistas e compositores,  estão sendo revisitados impulsionado pelo movimento musical inaugurado por um grupo de amigos que formam o  conjunto O Fabuloso eu Canto Samba e do Bloco Escravos da Mauá. A região da Polícia Federal e da Rua Sacadura Cabral, na praça Mauá,  passou a ser ocupada  por pessoas vindas  de outros locais da cidade para se divertirem nas noitadas de samba e choro que acontecem no Largo de São Francisco da Prainha,  às sextas feiras,  e das novas casas de espetáculo como o  Trapiche Gamboa e  Cabaret Kalesa,  de segunda a domingo. Essa região, frequentada  em outra época basicamente por estivadores do Cais do Porto e moradores do Morro da Conceição tornou-se  mais íntima para um grande número de jovens músicos, estudantes etc.
 
 
 
 
Mercado Imobiliário: A Lapa se prepara para um novo momento.

 
 
Se  choro ganhou nova vida com a revitalização da Lapa e adjacências,  a região também voltou a brilhar com a sua presença Mas se essa retomada  tem até agora reflexos tímidos sobre  a indústria da música,  para o  mercado imobiliário,  o cenário é outro. Um dos principais projetos da prefeitura para a cidade nesta segunda administração do Prefeito César Maia, é a revitalização do Centro com estímulo à moradia e o projeto Rio-Cidade na Rua do Riachuelo.
 
Seis anos após a fundação do Distrito Cultural  da Lapa  que estende-se do Largo da Lapa até o final da Rua do Lavradio, estão sendo lançados novos imóveis para a classe média no bairro. O maior exemplo disso é o Condomínio Cores da Lapa na Rua do Riachuelo. Com 688 apartamentos de 1, 2 e 3 quartos, o empreendimento teve todas as suas unidades vendidas nas primeiras horas de lançamento. O condomínio  pretende oferecer a seus moradores, serviços  que não existem na Lapa, como academias de ginástica, cinemas e  lojas especializadas. A empresa responsável pelo empreendimento já está à procura de um outro espaço para a construção de novos condomínios. 

 
 
 
Assim, o perfil do novo morador da Lapa já começa a ser traçado. Em declaração dada ao Jornal do Brasil,  o subprefeito do Centro Histórico, Roberto Rocco, diz que: 
 
(...)  a região tem uma estrutura extraordinária que estava sendo subutilizada. Não vai haver conflito entre o público boêmio e as famílias que virão. A região central ficava sem função de segunda a sexta, a partir das 18h, e agora terá que criar novos equipamentos 
A força do  investimento que está sendo programado para a região tem recebido o apoio das esferas governamentais.  Em depoimento ao Jornal O GLOBO,  o secretário municipal de Urbanismo, Alfredo Sirkis, diz que: 

 
 
(...) o uso residencial da Lapa vai gerar mercado, qualificar o comércio e exigir melhorias. Sirkis listou três áreas que estão na mira de empreiteiras: a Avenida Beira-Mar, no Aterro do Flamengo, a Praça da Cruz Vermelha e a Zona Portuária. 
No último mês a Lapa ganhou um movimento denominado Eu Sou da Lapa (www.eusoudalapa.com.br), que tem o objetivo de divulgar  a vocação residencial do bairro. Mas nem todos jogam confetes à reconfiguração imobiliária do local. Proprietário de um apartamento  na Rua do Riachuelo, Arthur Arruda,   professor do Instituto de Psicologia da UFRJ, afirma que o perfil do morador daquela região já está mudando:

 
 
(...) a Lapa vem sofrendo aos poucos fortes influências  do projeto Rio-Cidade, pois com  as obras no local e a construção de novos condomínios  oferecendo regalias que não existiam anteriormente, atraiu um outro tipo de morador, uma classe média começa a chegar no local. Na verdade  isso irá trazer  uma reformulação no comércio em geral. Lojas de marcas conhecidas, academias, cinemas e outros serviços deverão se instalar no bairro  para atender a esse novo morador. Mas isso tudo trará  conseqüências diretas para a região como aumento de IPTU, do valor dos condomínios e da descaracterização dos becos e ruelas, em função do número  de carros que irão circular nesses espaços 
Para  Fróes, a especulação imobiliária começou muito antes. Ele afirma que o momento inicial da busca por imóveis na área foi a partir da  reforma da Lavradio:
 
 
(...)  com a obra da Lavradio, com o sucesso do Empório 100, as outras casas foram surgindo e, no momento de reinauguração da rua, começou uma grande especulação imobiliária. As pessoas apareceram querendo comprar os espaços degradados da rua para abrir bares, restaurantes, ou casas com música.Isso a gente viu não só na Lavradio, mas na região como um todo.  Se você tem uma rua nova, reformada, urbanizada, certamente você vai ter melhorias na região, pois as pessoas querem estar numa região em que essas melhorias estão acontecendo 
 
A  freqüência  e  a futura permanência da classe media alta na região da Lapa implicará  também na abertura de bares e restaurantes “chiques”, onde se paga couvert e alta consumação,  além de preços exorbitantes de bebidas e comidas. Essa  descaracterização atingirá diretamente  a boemia, que é a marca do bairro. Para a psicóloga Amana Mattos, freqüentadora das noites da Lapa, há uma  manobra social que é retirar as pessoas das ruas e esquinas: 
 

o antigo  perambular e atual “rolé” pelas ruas para  se ouvir um choro ou um bom sambinha nas rodas de esquinas está ficando cada vez mais difícil. Hoje em dia isso só é possível se você tiver grana para pagar couvert. É uma Lapa enclausurada nos bares de classe média alta. 


 

A cena se repete no Centro do Rio. A atual população da Lapa, pelo que tudo indica,  será expulsa e obrigada  a morar na periferia e nos morros pois só  ficará  na Lapa aquele que puder pagar IPTU e condomínios caros,  quem tiver poder aquisitivo para consumir os novos serviços disponibilizados pelo comércio mais requintado que começa a se instalar na região.
 
 
 

Baumam (2001) afirma  que alguns espaços públicos servem para transformar cidadãos em consumidores. A Lapa corre o  risco de perder seus botecos e lojas de  esquina   e   virar um grande “templo de consumo” -  ao ar livre - como pensa George Ritzer. Muito se fala da Lapa na mídia, mas pouco se falou sobre a questão da especulação imobiliária, das  transformações  físicas,  socioculturais  e suas conseqüências.  Se por um lado a Lapa não é mais um espaço vazio,  por outro essa  ocupação consumista poderá transformar o bairro e seu entorno  em uma grande Copacabana,  um grande centro de consumo que, mesmo com um  belo passado , aos poucos foi perdendo o glamour. 

 
 
 

Notas

Jornalista, radialista e  mestranda em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ. Pesquisadora do NEPCOM (Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação. Atualmente, desenvolvendo a pesquisa: Comunicação, Cultura e a Indústria da Música do Estado do Rio de Janeiro, coordenada pelo Prof. Dr. Micael Herschmann. E-mail: claudinhagoes@gmail.com
Ver CARRANO, Paulo e NAZARÉ, Josiane. Experimentando espaços e identidades – A jovem Lapa carioca. Pesquisa realizada pela Universidade federal Fluminense.
Entrevista concedida a autora  por  Plínio Fróes, comerciante, dono do Antiquário Antiqua Center, do restaurante Rio Scenarium e da Cachaceria Mangue Seco, no Rio de Janeiro em novembro de 2005.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com o compositor e  violonista Mauricio Carrilho, dono da Acari Records, gravadora especializada em choro.
Depoimento de Roberto Rocco,  subprefeito do Centro Histórico do Rio de Janeiro,  ao  Jornal do Brasil (JB on line),  em  novembro de 2005. 
Depoimento de Alfredo Sirkis,  secretário municipal de Urbanismo, ao Jornal O Globo, em 27/11/05.
Entrevista com Arthur Arruda, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2005.
Entrevista com Plínio Fróes, op. cit
Entrevista com Amana  Mattos, realizada  em 02 de dezembro de 2005.

 

Webgrafia:

Agenda Samba-Choro
http://www.samba-choro.com.br

JB on-line
http://www.jb.com.br
 
 
 

Bibliografia:

AGENDA SAMBA-CHORO. www.samba-choro.com.br. RJ. 2005.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2001
CAIAFA, Janice. Conversações.in Revista Contracampo Niterói v. 10/11 p.239 1º e 2º semestre      2004 – Edição Especial/Número Duplo.
CAIAFA, Janice.  Povoar as Cidades. Revista Fronteiras – estudos midiáticos vol. III Nº 2 – dezembro de 2001
CAZES, Henrique. Choro: do Quintal ao Municipal. Rio de Janeiro. Ed. 34.1998.
DAMATA, Gasparino. Antologia da Lapa, Vida Boêmia no Rio de Ontem. Rio de Janeiro. Ed. Leitura S.A. 1965.
Pesquisa mostra força do Novo Rio Antigo. Jornal Capital Cultural, nº 67 nov 2005.
Um novo Eldorado imobiliário na cidade. O Globo, 27 nov 2005
VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro. Co-edição UFRJ/Jorge Zahar Editor. 2.ed. 2002.


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