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Este
artigo analisa as principais características dos períodos
moderno racionalista, moderno organicista e pós-moderno com o intuito
de identificar quais foram os aspectos de ruptura ou intensificação
desses momentos de transição, refletindo sobre os paradigmas
da complexidade e simplificação, que proporcionam diferentes
compreensões sobre a difusão e consumo da imagem singular,
tanto na arquitetura quanto no design de objetos e no urbanismo.
O
período moderno racionalista, traduzido por Mies van der Rohe pela
expressão “menos é mais”, é simplificador, homogeneizador
e universalista, na medida em que tenta padronizar as formas arquitetônicas
pelos materiais construtivos e pelo aspecto externo dos edifícios,
bem como pela implantação e estrutura das cidades. O período
moderno organicista, traduzido por Frank Lloyd Wright na expressão
“menos é mais somente quando o mais está em excesso”, rompe
com a padronização ao introduzir novos materiais construtivos
e formas arquitetônicas mais rudes e selvagens, tendendo a uma maior
complexização. No período pós-moderno a heterogeneidade
e a complexidade prevalecem. O uso de novos materiais, novas tecnologias
e softwares marcam uma composição arquitetônica eclética,
que mistura estilos, elementos e tempos numa forma única e por isso
são traduzidos por Robert Venturi pela expressão “menos é
chato”, evidenciando que a ausência de uma mistura de elementos não
serve.
Nesse
contexto da arquitetura pós-moderna, a imagem se intensifica como
uma das principais ferramentas para venda de objetos e cidades. A atual
competição entre as cidades embasada pela economia global
enfatiza a produção e difusão de imagens que são
configuradas para a (re)criação ou consolidação
da cidade como mercadoria. Assim, a imagem de cidades são estrategicamente
(re)criadas pelo poder público local juntamente com corporações
para que gerem “desejos de consumo” e traga valorização a
locais e, conseqüentemente, altas taxas de lucro para seus investidores
principalmente pela elevação do capital imobiliário.
Para
discutir sobre essa questão de produção e consumo
das imagens na contemporaneidade, presentes na economia global, escolhemos
como estudo de caso a cidade de Milão que (re)cria a sua imagem
como centro difusor da moda e do design, utilizando dos empreendimentos
feirísticos para venda de sua imagem/marca.
Do
less is more
ao less is bore
A
teoria da complexidade e simplificação discutida por Edgar
Morin (2000), estabelece (de maneira não definitiva), que o
paradigma da complexidade poderia determinar as condições
de uma visão complexa do universo, por meio do conjunto dos princípios
de inteligibilidade que liga uns aos outros. Estabelece também que
o paradigma da simplificação seria o conjunto dos princípios
da inteligibilidade próprios da cientificidade clássica e
que, ligados uns aos outros, produzem uma concepção simplificadora
do universo. As várias tentativas científicas que obedecem
ao paradigma da simplificação baseavam-se na idéia
de que a complexidade dos fenômenos podia e/ou devia resolver-se
a partir de princípios simples e de leis gerais.
A
complexidade não é o complicado, apenas tenta perceber a
relação complementar/antagônica entre as relações
de ordem/desordem/organização, ao invés da simplificação
por meio da soberania explicativa absoluta da ordem.
É
importante salientar que a simplificação tem como princípio
a universalidade, enquanto a complexidade parte do local e do singular,
transgredindo os limites da abstração universalista que elimina
a singularidade/ localidade/ temporalidade.
Compreender
a complexidade como receita ou fazer confusão entre complexidade
e completude é alguns dos maus entendidos que podem ser superados.
[...] O reconhecimento
da complexidade em arquitetura não nega o que Louis Kahn chamou
‘o desejo da simplicidade’. Mas a simplicidade estética que é
uma satisfação para o espírito deriva, quando válida
e profunda, da complexidade interior. A simplicidade do templo dórico
para os olhos é obtida por meio das famosas sutilezas da precisão
de uma geometria distorcida e das contradições e tensões
inerentes a sua ordem. O templo dórico pôde realizar a aparente
simplicidade através da real complexidade. Quando a complexidade
desapareceu, como nos templos do último período, a insipidez
substituiu a simplicidade (Venturi,
1995, p. 6).
As
racionalizações da arquitetura moderna racionalista em prol
da simplificação ainda são evidentes, embora mais
sutis do que os argumentos usados anteriormente. Elas são traduzidas
na famosa frase do arquiteto moderno racionalista Mies
van der Rohe que diz: “o menos é mais” (less is more),
no qual a simplificação deve estar predominantemente na forma
exterior do edifício.
Essa
frase foi considerada a “verdade absoluta” para os arquitetos racionalistas.
Nesse momento, todos os arquitetos deveriam seguir a mesma cartilha em
qualquer parte do mundo, demonstrando o seu caráter universal. Eles
partiam da concepção que a planta tinha mais importância
que a fachada, pois como disse Le
Corbusier (1973) “a planta era a geradora de tudo”, ou seja,
o projeto era resolvido na planta e a complexidade estava em resolver funcionalmente
os espaços interiores.
Os
arquitetos modernos racionalistas eram anti-passadistas, pois acreditavam
que as formas ‘tradicionais’ e a própria organização
social estavam ultrapassadas, necessitando ser reformuladas. Pertenciam
a um movimento revolucionário que visava construir um novo mundo
com formas mais coerentes e organizadas, no qual as cidades eram submetidas
a planos urbanos de larga escala, que promoviam um zoneamento monofuncional
e setorizava os espaços de acordo com as funções morar,
trabalhar, recrear e circular expressos na segunda Carta
de Atenas , elaborada em novembro de 1933 pelo CIAM
.
Os
arquitetos modernos racionalistas também defendiam com veemência
puritana a separação e exclusão de elementos, as linhas
e formas primárias, a desornamentação utilizando,
principalmente, materiais como concreto e vidro, assim, procurando uma
simplificação da arquitetura, principalmente na forma externa.
Para Robert Venturi
(1995, p. 4) , “a doutrina ‘menos é mais’ deplora a complexidade
e justifica a exclusão para fins expressivos”.
Posterior
ao movimento moderno racionalista, no período pós Segunda
Guerra Mundial, intensificou-se um outro momento na arquitetura moderna,
menos analisado e discutido, que foi a arquitetura moderna organicista
. Seus participantes procuravam um “diferencial” para a arquitetura, procurando
introduzir além do concreto e do vidro (usado na arquitetura moderna
racionalista) outros materiais como o tijolo, a pedra e a madeira
. Estes materiais eram usados para criar novas texturas e, conseqüentemente,
para explorar novas leituras e percepções da arquitetura,
culminando em formas mais rudes e selvagens. Com isso nos questionamos
se esses novos materiais e texturas já não foram o início
de uma procura da singularidade e do diferencial na arquitetura moderna?
Ou seria já um momento de transição entre o moderno
racionalista e o pós-moderno?
A
questão é que a arquitetura moderna organicista procurava
formas mais rudes e selvagens por meio da inclusão de alguns elementos
e suas justaposições. A frase que marcou este momento foi
do arquiteto moderno organicista Frank
Lloyd Wrigt , “o menos é mais somente quando mais é em
excesso” (less is more only when more is too much).
Observamos,
já nesse momento, possíveis indicativos contra a simplificação
e a universalização de alguns aspectos da arquitetura moderna
racionalista em favor da complexidade e da singularidade por meio das formas
e dos materiais utilizados.
Quase
que em paralelo ao movimento moderno organicista, intensificou-se um outro
momento denominado pós-moderno. Este movimento teve como base os
avanços das tecnologias comunicacionais e informacionais que proporcionaram
a criação de novos materiais e tecnologias construtivas,
além dos novos softwares de computador que alteraram a forma de
projetar, desenhar, fazer perspectivas e cálculos estruturais e
de materiais.
A
construção de alguns projetos arquitetônicos contemporâneos
não seria possível sem o desenvolvimento de novos materiais
tais como o concreto de alto desempenho (que permite menor tamanho e maior
resistência do material), as placas metálicas para revestimento
dos edifícios, os materiais pré-moldados, os sistemas de
automação, entre outros. O auxílio dos programas de
computador para desenhar e calcular também propiciou a “liberdade”,
a diversidade, a “excentricidade” de formas, tais como os museus Vitra
de (1987-1989) na Alemanha e o Guggenheim
de Bilbao (1993-1997) na Espanha, ambos de Frank Gehry, que se
tornaram marcos da arquitetura pós-moderna e da arquitetura desconstrutivista
.
Para
compreender o pós-moderno, o arquiteto Robert Venturi fez um “trocadilho”
com a famosa frase de Mies van der Rohe, dizendo: “o menos é chato”
(less is bore). Venturi
(1995, p. 4) relata que “onde a simplicidade não pode funcionar,
resulta o simplismo. A simplificação espalhafatosa significa
arquitetura insípida. Por isso menos é chato”.
A
marca da arquitetura pós-moderna é a postura para a tolerância
das diferenças. “Tudo se pode”, a “mistura” de elementos antigos
e novos, a “liberdade” para projetar, ousar, diferenciar. A arquitetura
pós-moderna, mesmo em suas diferentes linhas, procura exaltar a
singularidade das formas.
Na
arquitetura pós-moderna, a planta do edifício não
é mais a geradora de tudo, pois ela divide o espaço com as
fachadas, que nesse momento deixam de ser simplificadas. Conforme destaca
Venturi (2003) a antiga planta de um galpão pode abrigar uma fábrica
ou uma igreja, sendo a diferença marcada pelo painel presente na
fachada que informa qual o uso do prédio. É o que Venturi
(2003) denominou de “galpão decorado”. Este modelo de arquitetura
e urbanismo é baseado na cidade de Las Vegas, onde as fachadas passam
a ser vistas como imagens em movimento acelerado.
A
arquitetura, em alguns casos, não é somente um suporte da
informação, mas também a própria informação
com a materialização da imagem. Na atual economia global,
a imagem torna-se um instrumento fundamental para agregar valor aos produtos,
que podem ser desde um simples objeto até as cidades, criando marcos
de distinção que geram visibilidade a esses produtos, colocando-os
como objetos únicos. Nesse contexto, o auxílio da publicidade/propaganda,
do marketing urbano, do turismo, do design, entre outros, torna-se fundamental
para a construção de imagens singulares.
Harvey
(1989) relata uma comparação entre dois regimes de acumulação:
o modernismo fordista versus o pós-modernismo flexível. O
modernismo fordista se vincula a um capital fixo na produção
em massa, mercados estáveis, padronizados e homogêneos. Já
a flexibilidade do pós-modernismo é dominada pela ficção,
fantasia, imaterial (particularmente do dinheiro), capital fictício,
imagens, efemeridades e flexibilidade em técnicas de produção,
mercados de trabalho e nichos de consumo.
A
primeira contradição e conflito que pretendemos analisar
aborda a questão da possível ruptura entre o período
moderno e pós-moderno ou se no período denominado pós-moderno
houve apenas intensificações de aspectos do moderno.
A
pós-modernidade evidencia o pluralismo. Surgem novas posições
e posturas que se propõem a dividir o “espaço” com antigas
posições e posturas. Num primeiro instante propõe
aparentemente um momento de transição da homogeneidade para
a heterogeneidade, no sentido de tolerância a diversidade.
A
marca registrada da pós-modernidade é o pluralismo, ou seja,
a abertura para posturas novas e a tolerância para posições
divergentes. Na época pós-moderna, já não existe
mais a pretensão de encontrar uma única forma correta de
fazer as coisas, uma única solução que resolva todos
os problemas, uma única narrativa que amarre todas as pontas. Talvez
pela primeira vez desde o início do processo de industrialização,
a sociedade ocidental esteja se dispondo a conviver com a complexidade
em vez de combatê-la, o que não deixa de ser (quase por ironia)
um progresso (Denis, 2002,
p. 209).
Provavelmente,
esta pluralidade está ligada a alguns instrumentos destinados ao
consumo, como por exemplo as diferentes opções de celulares,
os vários modelos de roupas, as várias opções
de cremes para a pele. A diversidade é estratégica para questão
do aumento de consumo e não para os problemas sociais.
A
pós-modernidade está coesa à questão capitalista
e não à questão social. Denis (2002) analisa a pós-modernidade
sob o enfoque do design, por isso, o seu relato relacionando pós-modernidade
e pluralismo. Na análise sobre a produção e o consumo
dos objetos é compreensível a reflexão sobre a pluralidade.
Neste caso, o “diversificado” produz a renda.
Na
pós-modernidade a idéia de pensamento universal, tão
utilizada no modernismo, foi praticamente substituída pelas falsas
imagens de heterogeneidade e pluralismo.
A
pós-modernidade, segundo Lyotard
(1998), é o fim da crença em metanarrativas. No entanto,
essa concepção foi combatida por Habermas
(2002). Esse debate trouxe muitas contradições.
Muitos
acharam que se havia uma posição que dizia que ninguém
mais acreditava em metanarrativas, que essa posição era uma
forma de jogar toda e qualquer teoria fora, o que não é verdade.
Deve-se
salientar que na contemporaneidade a ação planejadora pode
ser concebida como uma ação comunicativa. De acordo com os
estudos de Habermas
(2002) o esgotamento do ideário da modernidade afasta o modelo de
planejamento centralmente organizado e orienta nossa análise para
um conjunto de idéias que valorizam a ação coletiva
espacialmente organizada, dessa forma, produzindo reflexões entre
as metanarrativas e micronarrativas.
A
rejeição das metanarrativas é importante para definirmos
alguns conceitos pós-modernos, pois são interpretações
teóricas de larga escala pretensamente de aplicação
universal, muito utilizadas no modernismo. Harvey
(1989, p. 18), relata que: