Arquitetura pós-moderna: ruptura ou intensificação de aspectos do moderno?

Cláudio Lima Ferreira
Arquiteto  e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Campinas

&

Melissa Ramos da Silva Oliveira
 Arquiteta  e  doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UNICAMP



 
 
 
 
 
 
 
 

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Este artigo analisa as principais características dos períodos moderno racionalista, moderno organicista e pós-moderno com o intuito de identificar quais foram os aspectos de ruptura ou intensificação desses momentos de transição, refletindo sobre os paradigmas da complexidade e simplificação, que proporcionam diferentes compreensões sobre a difusão e consumo da imagem singular, tanto na arquitetura quanto no design de objetos e no urbanismo. 
 
 
O período moderno racionalista, traduzido por Mies van der Rohe pela expressão “menos é mais”, é simplificador, homogeneizador e universalista, na medida em que tenta padronizar as formas arquitetônicas pelos materiais construtivos e pelo aspecto externo dos edifícios, bem como pela implantação e estrutura das cidades. O período moderno organicista, traduzido por Frank Lloyd Wright na expressão “menos é mais somente quando o mais está em excesso”, rompe com a padronização ao introduzir novos materiais construtivos e formas arquitetônicas mais rudes e selvagens, tendendo a uma maior complexização. No período pós-moderno a heterogeneidade e a complexidade prevalecem. O uso de novos materiais, novas tecnologias e softwares marcam uma composição arquitetônica eclética, que mistura estilos, elementos e tempos numa forma única e por isso são traduzidos por Robert Venturi pela expressão “menos é chato”, evidenciando que a ausência de uma mistura de elementos não serve. 

 
 
Nesse contexto da arquitetura pós-moderna, a imagem se intensifica como uma das principais ferramentas para venda de objetos e cidades. A atual competição entre as cidades embasada pela economia global enfatiza a produção e difusão de imagens que são configuradas para a (re)criação ou consolidação da cidade como mercadoria. Assim, a imagem de cidades são estrategicamente (re)criadas pelo poder público local juntamente com corporações para que gerem “desejos de consumo” e traga valorização a locais e, conseqüentemente, altas taxas de lucro para seus investidores principalmente pela elevação do capital imobiliário.

 
 
 
Para discutir sobre essa questão de produção e consumo das imagens na contemporaneidade, presentes na economia global, escolhemos como estudo de caso a cidade de Milão que (re)cria a sua imagem como centro difusor da moda e do design, utilizando dos empreendimentos feirísticos para venda de sua imagem/marca. 
 
 
 
Do less is more  ao less is bore

 
A teoria da complexidade e simplificação discutida por Edgar Morin (2000), estabelece (de maneira não definitiva), que o paradigma da complexidade poderia determinar as condições de uma visão complexa do universo, por meio do conjunto dos princípios de inteligibilidade que liga uns aos outros. Estabelece também que o paradigma da simplificação seria o conjunto dos princípios da inteligibilidade próprios da cientificidade clássica e que, ligados uns aos outros, produzem uma concepção simplificadora do universo. As várias tentativas científicas que obedecem ao paradigma da simplificação baseavam-se na idéia de que a complexidade dos fenômenos podia e/ou devia resolver-se a partir de princípios simples e de leis gerais.

 
 
A complexidade não é o complicado, apenas tenta perceber a relação complementar/antagônica entre as relações de ordem/desordem/organização, ao invés da simplificação por meio da soberania explicativa absoluta da ordem.

 
 

É importante salientar que a simplificação tem como princípio a universalidade, enquanto a complexidade parte do local e do singular, transgredindo os limites da abstração universalista que elimina a singularidade/ localidade/ temporalidade.
 
 
 

Compreender a complexidade como receita ou fazer confusão entre complexidade e completude é alguns dos maus entendidos que podem ser superados. 
 
[...] O reconhecimento da complexidade em arquitetura não nega o que Louis Kahn chamou ‘o desejo da simplicidade’. Mas a simplicidade estética que é uma satisfação para o espírito deriva, quando válida e profunda, da complexidade interior. A simplicidade do templo dórico para os olhos é obtida por meio das famosas sutilezas da precisão de uma geometria distorcida e das contradições e tensões inerentes a sua ordem. O templo dórico pôde realizar a aparente simplicidade através da real complexidade. Quando a complexidade desapareceu, como nos templos do último período, a insipidez substituiu a simplicidade (Venturi, 1995, p. 6).

 

As racionalizações da arquitetura moderna racionalista em prol da simplificação ainda são evidentes, embora mais sutis do que os argumentos usados anteriormente. Elas são traduzidas na famosa frase do arquiteto moderno racionalista Mies van der Rohe  que diz: “o menos é mais” (less is more), no qual a simplificação deve estar predominantemente na forma exterior do edifício.
 
 
 

Essa frase foi considerada a “verdade absoluta” para os arquitetos racionalistas. Nesse momento, todos os arquitetos deveriam seguir a mesma cartilha em qualquer parte do mundo, demonstrando o seu caráter universal. Eles partiam da concepção que a planta tinha mais importância que a fachada, pois como disse Le Corbusier (1973)  “a planta era a geradora de tudo”, ou seja, o projeto era resolvido na planta e a complexidade estava em resolver funcionalmente os espaços interiores.

 
 
Os arquitetos modernos racionalistas eram anti-passadistas, pois acreditavam que as formas ‘tradicionais’ e a própria organização social estavam ultrapassadas, necessitando ser reformuladas. Pertenciam a um movimento revolucionário que visava construir um novo mundo com formas mais coerentes e organizadas, no qual as cidades eram submetidas a planos urbanos de larga escala, que promoviam um zoneamento monofuncional e setorizava os espaços de acordo com as funções morar, trabalhar, recrear e circular expressos na segunda Carta de Atenas , elaborada em novembro de 1933 pelo CIAM.
 
Os arquitetos modernos racionalistas também defendiam com veemência puritana a separação e exclusão de elementos, as linhas e formas primárias, a desornamentação utilizando, principalmente, materiais como concreto e vidro, assim, procurando uma simplificação da arquitetura, principalmente na forma externa. Para Robert Venturi (1995, p. 4) , “a doutrina ‘menos é mais’ deplora a complexidade e justifica a exclusão para fins expressivos”.
Posterior ao movimento moderno racionalista, no período pós Segunda Guerra Mundial, intensificou-se um outro momento na arquitetura moderna, menos analisado e discutido, que foi a arquitetura moderna organicista . Seus participantes procuravam um “diferencial” para a arquitetura, procurando introduzir além do concreto e do vidro (usado na arquitetura moderna racionalista) outros materiais como o tijolo, a pedra e a madeira . Estes materiais eram usados para criar novas texturas e, conseqüentemente, para explorar novas leituras e percepções da arquitetura, culminando em formas mais rudes e selvagens. Com isso nos questionamos se esses novos materiais e texturas já não foram o início de uma procura da singularidade e do diferencial na arquitetura moderna? Ou seria já um momento de transição entre o moderno racionalista e o pós-moderno?

 
 
 
A questão é que a arquitetura moderna organicista procurava formas mais rudes e selvagens por meio da inclusão de alguns elementos e suas justaposições. A frase que marcou este momento foi do arquiteto moderno organicista Frank Lloyd Wrigt , “o menos é mais somente quando mais é em excesso” (less is more only when more is too much).

 

Observamos, já nesse momento, possíveis indicativos contra a simplificação e a universalização de alguns aspectos da arquitetura moderna racionalista em favor da complexidade e da singularidade por meio das formas e dos materiais utilizados.
 
 
 

Quase que em paralelo ao movimento moderno organicista, intensificou-se um outro momento denominado pós-moderno. Este movimento teve como base os avanços das tecnologias comunicacionais e informacionais que proporcionaram a criação de novos materiais e tecnologias construtivas, além dos novos softwares de computador que alteraram a forma de projetar, desenhar, fazer perspectivas e cálculos estruturais e de materiais. 
 
A construção de alguns projetos arquitetônicos contemporâneos não seria possível sem o desenvolvimento de novos materiais tais como o concreto de alto desempenho (que permite menor tamanho e maior resistência do material), as placas metálicas para revestimento dos edifícios, os materiais pré-moldados, os sistemas de automação, entre outros. O auxílio dos programas de computador para desenhar e calcular também propiciou a “liberdade”, a diversidade, a “excentricidade” de formas, tais como os museus Vitra de (1987-1989)  na Alemanha e o Guggenheim de Bilbao (1993-1997)  na Espanha, ambos de Frank Gehry, que se tornaram marcos da arquitetura pós-moderna e da arquitetura desconstrutivista .

 
 
 
Para compreender o pós-moderno, o arquiteto Robert Venturi fez um “trocadilho” com a famosa frase de Mies van der Rohe, dizendo: “o menos é chato” (less is bore). Venturi (1995, p. 4) relata que “onde a simplicidade não pode funcionar, resulta o simplismo. A simplificação espalhafatosa significa arquitetura insípida. Por isso menos é chato”.
 
A marca da arquitetura pós-moderna é a postura para a tolerância das diferenças. “Tudo se pode”, a “mistura” de elementos antigos e novos, a “liberdade” para projetar, ousar, diferenciar. A arquitetura pós-moderna, mesmo em suas diferentes linhas, procura exaltar a singularidade das formas. 

 
 
 
Na arquitetura pós-moderna, a planta do edifício não é mais a geradora de tudo, pois ela divide o espaço com as fachadas, que nesse momento deixam de ser simplificadas. Conforme destaca Venturi (2003) a antiga planta de um galpão pode abrigar uma fábrica ou uma igreja, sendo a diferença marcada pelo painel presente na fachada que informa qual o uso do prédio. É o que Venturi (2003) denominou de “galpão decorado”. Este modelo de arquitetura e urbanismo é baseado na cidade de Las Vegas, onde as fachadas passam a ser vistas como imagens em movimento acelerado. 

 
 
A arquitetura, em alguns casos, não é somente um suporte da informação, mas também a própria informação com a materialização da imagem. Na atual economia global, a imagem torna-se um instrumento fundamental para agregar valor aos produtos, que podem ser desde um simples objeto até as cidades, criando marcos de distinção que geram visibilidade a esses produtos, colocando-os como objetos únicos. Nesse contexto, o auxílio da publicidade/propaganda, do marketing urbano, do turismo, do design, entre outros, torna-se fundamental para a construção de imagens singulares.

 
 

Harvey (1989) relata uma comparação entre dois regimes de acumulação: o modernismo fordista versus o pós-modernismo flexível. O modernismo fordista se vincula a um capital fixo na produção em massa, mercados estáveis, padronizados e homogêneos. Já a flexibilidade do pós-modernismo é dominada pela ficção, fantasia, imaterial (particularmente do dinheiro), capital fictício, imagens, efemeridades e flexibilidade em técnicas de produção, mercados de trabalho e nichos de consumo. 


 

A primeira contradição e conflito que pretendemos analisar aborda a questão da possível ruptura entre o período moderno e pós-moderno ou se no período denominado pós-moderno houve apenas intensificações de aspectos do moderno. 
 
 

A pós-modernidade evidencia o pluralismo. Surgem novas posições e posturas que se propõem a dividir o “espaço” com antigas posições e posturas. Num primeiro instante propõe aparentemente um momento de transição da homogeneidade para a heterogeneidade, no sentido de tolerância a diversidade. 
 
 
 

A marca registrada da pós-modernidade é o pluralismo, ou seja, a abertura para posturas novas e a tolerância para posições divergentes. Na época pós-moderna, já não existe mais a pretensão de encontrar uma única forma correta de fazer as coisas, uma única solução que resolva todos os problemas, uma única narrativa que amarre todas as pontas. Talvez pela primeira vez desde o início do processo de industrialização, a sociedade ocidental esteja se dispondo a conviver com a complexidade em vez de combatê-la, o que não deixa de ser (quase por ironia) um progresso (Denis, 2002, p. 209).

 

Provavelmente, esta pluralidade está ligada a alguns instrumentos destinados ao consumo, como por exemplo as diferentes opções de celulares, os vários modelos de roupas, as várias opções de cremes para a pele. A diversidade é estratégica para questão do aumento de consumo e não para os problemas sociais. 
 
 

A pós-modernidade está coesa à questão capitalista e não à questão social. Denis (2002) analisa a pós-modernidade sob o enfoque do design, por isso, o seu relato relacionando pós-modernidade e pluralismo. Na análise sobre a produção e o consumo dos objetos é compreensível a reflexão sobre a pluralidade. Neste caso, o “diversificado” produz a renda. 
 
 
 

Na pós-modernidade a idéia de pensamento universal, tão utilizada no modernismo, foi praticamente substituída pelas falsas imagens de heterogeneidade e pluralismo. 
 
A pós-modernidade, segundo Lyotard (1998), é o fim da crença em metanarrativas. No entanto, essa concepção foi combatida por Habermas (2002). Esse debate trouxe muitas contradições. 

 
 
 
Muitos acharam que se havia uma posição que dizia que ninguém mais acreditava em metanarrativas, que essa posição era uma forma de jogar toda e qualquer teoria fora, o que não é verdade.
 
Deve-se salientar que na contemporaneidade a ação planejadora pode ser concebida como uma ação comunicativa. De acordo com os estudos de Habermas (2002) o esgotamento do ideário da modernidade afasta o modelo de planejamento centralmente organizado e orienta nossa análise para um conjunto de idéias que valorizam a ação coletiva espacialmente organizada, dessa forma, produzindo reflexões entre as metanarrativas e micronarrativas.

 
 

A rejeição das metanarrativas é importante para definirmos alguns conceitos pós-modernos, pois são interpretações teóricas de larga escala pretensamente de aplicação universal, muito utilizadas no modernismo. Harvey (1989, p. 18), relata que:

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