Entre Nike e All Star: o consumo simbólico de calçados

Jonatas Dornelles
Doutorando em Antropologia Social – UFRGS

 

Era para ser uma festa ao estilo “Anos Oitenta”, tão em moda nessa “onda retrô” de agora. O ingresso não era dos mais acessíveis e o acesso geográfico era difícil. O resultado foi a presença de jovens com mais de trinta anos de idade, oriundos das classes médias e altas de Porto Alegre/RS. Os pés dos freqüentadores da festa chamaram a minha atenção. Boa parte deles eram calçados por tênis Nike Shox, que chegam a custar até quinhentos reais. 


 

Na década de oitenta esse modelo de tênis ainda não existia. Os jovens da festa escutavam músicas dos anos oitenta, mas estavam literalmente com os pés no século XXI. Mas por que boa parte deles usava essa marca específica? Existem várias marcas no mercado atualmente. A primeira resposta que surge é que tal modelo de tênis é um elemento de distinção social. Algo que, “grosso modo”, acontece também em um Campus de Universidade Pública, onde é comum ver-se nos pés dos jovens tênis da marca All Star e, mais raramente da marca Nike Shox. 
 
 

Por que um tipo de público escolhe uma marca de tênis e outro tipo outra marca? A seguir tentarei responder a essa pergunta. Aparentemente simples, ela nos remete a questões envolvidas com o consumo de bens materiais e a criação de redes sociais. As motivações dos dois tipos de consumidores nos possibilitam uma leitura sobre as características simbólicas dos bens.
 
 
 

A história dos tênis
 

A invenção do calçado tipo tênis coincide com a da borracha, ainda no século XIX. Em 1839, Charles Goodyear descobriu a borracha vulcanizada e aplicou na produção de pneus. Além das diversas aplicações da recém descoberta, o próprio Charles tratou de criar uma sola de borracha. Até então os sapatos ocidentais tinham sola de couro. Não tardou muito para as indústrias de calçados substituírem os solados antigos pelos modernos, feitos de borracha. Inicialmente esses calçados foram indicados para a prática esportiva. Eles possuíam sola de borracha, eram feitos de lona e amarrados com cadarço. Essa combinação os deixava leve. No final do século XIX, o que atualmente conhecemos como tênis, era chamado de cricket sandals .
 
 

Na mesma época, esses calçados também começaram a ser utilizados para a corrida, tanto as longas, como as maratonas, como as curtas. Na Inglaterra, Joseph William Foster produzia artesanalmente tênis para corrida (em 1958 essa marca se transformou na Reebok.). Em 1917 surgiu, nos Estados Unidos, a marca de tênis Keds. Uma vez que os Keds podiam ser lavado em máquinas de lavar, rapidamente esse produto se transformou em um exemplo da modernidade norte-americana. Em 1919 surgiu o All Star, que era unissex e possuía um formato em “cano alto” (quando o tênis engloba completamente o tornozelo). 
 
 

Ainda no início do século XX os tênis estavam fortemente ligados à idéia da borracha. Tanto que os nomes das companhias fabricantes faziam menção a isso. A fabricante do Keds se chamava “U.S. Rubber Company”  e a do All Star, “Converse Rubber Company”. Em 1922, na Alemanha, Alfred Adi Dassler fundou a marca "Adidas". Ela produzia, inicialmente, tênis para corrida e futebol. Cinqüenta anos depois, em 1972, nos Estados Unidos, surgiu a Nike. Inicialmente os tênis tinham o diferencial de facilitar a propulsão e o arranque do esportista, especialmente do corredor. A Nike inovou ao incorporar o tecido nylon na fabricação de seus produtos. 
 
 

Gradativamente, o tênis foi sendo incorporado ao vestuário do dia-a-dia. Esse processo foi longo e continua ocorrendo. Recentemente os fabricantes inventaram o “sapatênis”, que é uma "fusão" do sapato com o tênis. A vantagem principal do produto é, segundo seus fabricantes, a de ser uma peça para ser usada tanto em ocasiões formais, quanto nas informais. Esse tipo de produto mistura o revestimento em couro, que transmitem a impressãode formalidade (de sapato “social”), com desenhos e cores esportivas que transmitem a idéia de informalidade e conforto. 
 
 

Durante o século XX, entretanto, a opção pelo uso cotidiano do tênis era considerada uma "tomada de atitude" e a opção por um estilo de vida: jovem, confortável e informal. Existe uma história interessante que conta que o tênis se popularizou mesmo em 1980. Foi quando os meios de transporte na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, entraram em greve. Como precisavam caminhar até o trabalho, as americanas começaram a fazer esse deslocamento de tênis, já que o sapato de salto alto era incômodo para longas caminhadas.(de todo modo, era levado na bolsa para ser calçado no local de trabalho)..Na década de 1970, entretanto, o tênis fora marginalizado e associado às gangs nova-iorquinas.
 
 

A popularização do tênis também coincide com a evolução dos meios de comunicação e da publicidade no século XX. Como vários outros produtos, o tênis recebeu fortes investimentos publicitários. Sua popularização também está atrelada à massificação das atividades esportivas. Os Jogos Olímpicos da Era Moderna ainda são jovens e surgiram em 1896. Outro evento esportivo de dimensões mundiais, a Copa do Mundo de Futebol, surgiu apenas em 1930. A cada nova edição desses eventos, os investimentos financeiros são superados. Poderíamos até mesmo considerá-los como uma “indústria do esporte”. No entanto, essa seria outra história. O que merece ser mencionado aqui é que existe uma estreita relação entre a popularização dos tênis e o desenvolvimento dos eventos esportivos, assim como a prática esportiva de uma maneira geral. Mas essa associação pode parecer contraditória. Ora, se os tênis foram inventados para a prática desportiva e logo foram apropriados para o uso diário, como é que a sua popularização pode estar associada aos eventos esportivos? Tentando responder essa pergunta, poderíamos dizer que as peças de vestuário são consumidas simbolicamente e para além de suas qualidades funcionais. 
 
 

Nos eventos esportivos vultuosos, como os citados, surgem ídolos nacionais e, mesmo, mundiais. As empresas de materiais esportivos e de tênis (hoje em dia elas são uma coisa só) patrocinam e promovem tais esportistas. Fora dos eventos esportivos, os atletas participam de comerciais e propagandas das suas empresas patrocinadoras. Dessa maneira, cada vez mais o tênis vai sendo incorporado ao dia-a-dia. Calçando os tênis dos ídolos, os consumidores evocam as qualidades transmitidas pelo atleta, tais como beleza física, energia e jovialidade. Outro recurso utilizado é a promoção de artistas e personalidades do circuito da moda. O que gera a mesma relação entre consumo e evocação das qualidades do ídolo.
 
 

No Brasil as marcas internacionais de tênis surgiram somente na década de 1990, com a abertura comercial. Até então o mercado brasileiro era composto por marcas nacionais, exceto a Adidas. Hoje em dia o mercado de tênis no Brasil é divido em três segmentos: marcas premium, marcas nacionais e produtos sem marca . 
 
 

O segmento premium é aquele no qual os produtos são vendidos a mais de R$ 100,00. Dominam-no as marcas Nike, Reebok e Adidas. O principal modelo da Nike atualmente é o Nike Shox, que utiliza um tecnológico sistema de amortecimento de impacto. Ele pode facilmente ser encontrado ao preço de mais de R$500,00. O modelo All Star, da empresa Converse, é considerado nacional, já que os produtos comercializados no Brasil são produzidos aqui mesmo  e geralmente custam entre R$ 50,00 e  R$ 100,00.
 
 

A diferença entre os dois produtos é marcante. O All Star é feito de lona, tecido flexível e resistente. Sua sola é fina, entre 5 e 10 mm de espessura. A empresa fabricante (Converse) aposta na diversidade de modelos. É possível encontrar modelos em diversas cores e estampas. Estruturalmente ele é vendido nos modelos cano curto (ou sem cano), cano médio e cano longo. Atualmente existem algumas outras variações, como é o caso do revestimento em couro.
 
 

O Nike Shox chama a atenção pelo seu solado futurista, de “molas”  que funcionam para amortecer o impacto. Seu revestimento é sintético, de material que mescla nylon, borracha e até mesmo plástico. Internamente ele é acolchoado e macio. Ele também é oferecido em diversas cores e modelos. Basicamente, a diferença entre um e outro modelo é a quantidade de “molas” que possui. Quanto mais “molas”, mais caro.
 
 
 

O All Star hoje
 
 







Na Internet  existem diversas comunidades virtuais dedicadas a quem gosta do tênis All Star. No sistema de sociabilidade virtual do Orkut (www.orkut.com) basta fazer um procedimento de pesquisa simples: uma busca das comunidades cujo título inclua o texto “all star”. Se o leitor fizer esse procedimento, hoje [ano de 2007], verá que existem “mais de mil” comunidades dedicadas a esse tênis, como a imagem a seguir bem ilustra :
 
 
 
 

 
A diversidade de comunidades é imensa. Contendo o texto “All Star” no título, tais comunidades se dedicam a diferentes temas. Entretanto, todos eles giram em torno desse produto. A comunidade mais populosa possui 70.247 membros. Contando as comunidades com mais de mil membros, podemos perceber 48 comunidades. 


 

Os temas são dos mais variados. De maneira geral, nessas comunidades são exaltadas as qualidades do All Star ou algum tipo de comportamento condicionado ao seu consumo. Elas são freqüentadas por fãs desse tênis. Alguns títulos são interessantes e merecem serem trazidos aqui:
 

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Entre as 10 comunidades mais populosas dedicadas a tratar do assunto All Star, apenas uma (a número 8) é contrária ao tênis. Em cada uma dessas comunidades existe um pequeno texto dedicado a apresenta-la. Nas comunidades número 1 e 4 (na tabela anterior) existe uma finalidade comercial. Na primeira (All Star Life_Style), ocorre uma associação entre uma loja virtual e a comunidade virtual. Essa loja virtual investe muito nesse canal de comunicação. É possível perceber que essa loja organizou outras comunidades sob a temática do All Star, mesmo com títulos pouco comerciais (como é o caso de “Eu amo meu All Star”, ou “A parada agora é All Star verde”). A outra comunidade (Converse_ All Star) foi criada pelo “pessoal” da Converse, que é a empresa fabricante do All Star. Nelas são anunciados novos produtos, assim como são oferecidos preços especiais e promoções. 

 
 

Essa é uma situação interessante e que mostra que, mesmo aquela seção do ciberespaço dedicada à sociabilidade, vai sendo ocupada pelo mercado de consumo e a publicidade. Obviamente, é comum as empresas anunciarem em banners e pop-ups  nos sites de Internet. Basta o internauta  acessar tais sites para logo ser “bombardeado” por anúncios dos mais diversos. No entanto, a publicidade associada às comunidades virtuais é um caso relativamente novo. Ela é mais "sutil" e talvez possa ser comparada ao merchandising praticado nas telenovelas e filmes. 
 
 

Alguns outros títulos de comunidades podem ser citados, dada a criatividade de seus enunciados:
 
 
 


 
 
 

Podemos fazer algumas leituras desses títulos de comunidades. Nas comunidades A e H, como em outras tantas, é exaltado o fato de que o tênis All Star fica mais confortável com o longo tempo de uso. Associado a isso está o fato dele precisar estar “sujo”. O que acabaria realmente mostrando que ele tem muito uso. Essa é uma opinião comum entre os consumidores do All Star. Conversando com alguns deles foi recorrente o comentário de que o produto é confortável. Porém fica ainda mais confortável com o uso ininterrupto. 
 
 

Nas comunidades B, C e N  são feitas referências a ídolos. No primeiro caso existe uma associação com o personagem “Seu Madruga”, do seriado de televisão “Chaves”. No segundo caso é feita uma associação com o músico Nando Reis e uma música recentemente gravada. Nela o cantor faz menção ao All Star da cor azul, como o leitor pode acompanhar na letra da música “Estranho”:
 
 
 

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias mas a Terra avisto em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras, 
Satisfeito, sorri
quando chego ali
e entro no elevador
aperto o 12 que é o seu andar
não vejo a hora de te encontrar
e continuar aquela conversa 
que não terminamos ontem
ficou pra hoje. 
Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
Seu All star azul combina com o meu, preto, de cano alto
Se o homem já pisou na Lua, como eu ainda não tenho seu endereço
O tom que eu canto as minhas músicas para a tua voz parece exato 

 
Nas comunidades L e M já percebemos algumas provocações e tomadas de posições sociais a partir da opção do calçado. Na primeira delas o texto de apresentação diz o seguinte:

 
 
“Comunidade criada para todas as pessoas contra essa modinha de usar Nike Shox, tênis de 500 reais...Para pessoas que usam All Star, que além de muito mais barato, e muito mais bunito e muito mais style. All Star, Mais Que Um Calçado, Um Estilo De Vida!!!”

 
Na segunda o texto de apresentação diz o seguinte:

 
 
“Pra quem naum paga nem fudendo mais de 50 reais num tenis huahauahua naum precisa de mola no pé (ou pq ja nasceu com elas) ou pq naum precisa andar pulando pra ser alguém...pra quem quer ser normal e naum parecer um astronauta perdido pelas ruas enfim comunidade contra o modismo deste tênis infeliz...sou muito mais meu all star do q essa porra de nike shoks...nada contra quem usa mais putz façam caridade ao invés de buscar status... “

 
Nesse dois exemplos, as comunidades foram criadas para aproximar pessoas que gostam de All Star. E ainda, que se colocam em oposição ao tênis Nike Shox, da Nike. Dessa forma, fica manifestada a rivalidade em relação ao estilo de vida e a sua representação no consumo do calçado. As pessoas que usam All Star se consideram diferentes daquelas que usam Nike Shox. Os motivos são dos mais diversos. Economicamente, o All Star custa dez vezes menos o preço do Nike Shox. 
 
 
 
Em alguns momentos, os consumidores do All Star explicam que é pelo motivo “preço” que optam pelo tênis. No entanto, não é o único motivo, vindo a ser acrescentados diversos outros. O fato de ele ser confortável também é usado como explicação. No entanto, alguns consumidores dizem que ele é desconfortável, mas mesmo assim optam pelo produto. Além disso, vários consumidores (se não todos) sabem que o All Star possui um solado fino e com baixa absorção de impacto. Caminhar algumas horas com esse calçado pode causar feridas e dores nos pés. O que também faz com o produto não tenha muito tempo de duração. Logo o tecido que o reveste pode rasgar, assim como o fino solado. Esses consumidores também sabem que, em dia de chuva, o tênis rapidamente fica molhado. Mas mesmo assim eles continuam optando por esse modelo de tênis. 

 
 

Em uma das comunidades virtuais visitadas existia um fórum de discussão interessante, chamado “por que você usa All Star?” . Das 86 mensagens trocadas no fórum, grande parte fazia menção ao fato – concreto - do All Star ser “barato” e confortável. Em muitos casos, os participantes reclamavam que antes o tênis era vendido a um preço ainda inferior. E que agora, por estar na moda, ficou mais “caro” . 
 
 

As explicações mais abstratas se referem ao fato do All Star ter estilo, combinar com as roupas que a pessoa costuma usar e ser diferente do restante das outras marcas. Também existiam as explicações mais específicas. Tais como a que o tênis é um símbolo de rebeldia, que ele é usado por roqueiros e que ele não é usado por “pattys”  nem por “boys” .
 
 
 
 

O Nike Shox
 
 
 


 
 
 
 

Bastou digitar o texto “nike shox”, e foram localizadas 796 comunidades nas quais o título fazia algum tipo de menção a essa expressão, como mostra a figura a seguir:
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 

A comunidade mais populosa chama-se “Nike Shox” e conta com 64.025 membros, como mostra a tabela a seguir. Existem outras duas com o mesmo nome, que são as de número 7 e 10. Entre as 10 mais populosas, 4 são dedicadas aos contrários ao produtos. São as comunidades número 3, 4, 5 e 9. Contando somente as comunidades com mais de mil membros, percebemos que existem 24 em que o título faz alguma referência ao Nike Shox.
 
 
 
 

 
 
 

Existem interessantes títulos de comunidades dedicadas ao Nike Shox. Em uma delas é dito que “Nike Shox é pra poucos ”. Em outra, “Nike Shox eh tuudo!! ”. E ainda, “Eu tenho Nike Shox 12 molas! ”. Na primeira e na terceira citadas, existe uma explícita manifestação do status proporcionado pelo produto. Dizer que o tênis “é para poucos” significa exaltar a característica de distinção social do produto. O mesmo no caso de quem se associa a uma comunidade para informar que possui o modelo com preço mais elevado da linha Nike Shox .
 
 

Em muitas comunidades dedicadas ao Nike Shox existe material publicitário. Como é um produto de valor elevado e com bastante variação, muitos comerciantes acessam as comunidades, participam dos fóruns de discussão e anunciam ali seus produtos . Muitas vezes eles informam aos participantes da comunidade sobre suas promoções . Em alguns casos, os próprios participantes das comunidades alertam os demais sobre o fato de se tratar de um produto “pirata”. 
 
 

Um produto “pirata” é uma falsificação de um original. Atualmente existem imitações nos mais diversos segmentos, principalmente na área de vestuário. Uma peça de vestuário de uma marca famosa tem acrescentado ao seu preço o valor simbólico da grife . Existem determinados produtos com certa facilidade em serem “pirateados”. Seria difícil, por exemplo, “piratear” um automóvel  Ferrari.
 
 

Geralmente a “pirataria” se desenvolve entre os produtos com baixo custo de produção: bebidas, perfumes, discos de música (CDs), roupas e tênis. No caso das bebidas e perfumes os falsificadores costumam utilizar os rótulos e as garrafas originais, porém com um conteúdo falsificado. Em alguns casos, eles inclusive produzem as embalagens e as garrafas. No caso das roupas e dos tênis, basta produzir um modelo idêntico ao original e acrescentar uma etiqueta imitando a marca famosa. Com isso saem ganhando tanto os falsificadores quanto os consumidores desses produtos “piratas”. Os primeiros conseguem facilmente um mercado consumidor, por meio da fama da marca copiada. Os segundos conseguem, por meio de um produto com valor inferior ao original, obter tais bens de consumo que, geralmente, são utilizados como distintivos sociais.
 
 
 

O Nike Shox, diferentemente do All Star, entra nesse mercado de “pirataria”. Nas comunidades virtuais acompanhadas, foi possível perceber o quanto seus membros se preocupam com essa questão. Em uma delas o título é o seguinte: “Eu tenho um Nike Shox original”. Ela conta com 979 membros e diz o seguinte em seu texto de apresentação: “É só para as pessoas que são capazes ou tem coragem e, o principal, dinheiro ..!!!!”. 
Acompanhando o conteúdo dos fóruns nas comunidades, foi possível observar, em vários momentos, discussões em torno da questão “originalidade do produto”. Em alguns casos, os membros trocam informações sobre como constatar se o tênis é original ou falsificado. Em outros momentos, comerciantes que anunciavam produtos com valores inferiores aos praticados no mercado eram acusados de venderem tênis “pirateados”.
 
 

Acima disse que o All Star não entra no mercado de “pirataria”. No entanto, já existem no mercado modelos muito semelhantes. Em muitos casos, o nome do produto também é parecido. Dessa maneira, os fabricantes desses produtos tentam tirar uma certa vantagem da fama do All Star. E por que os falsificadores não “pirateiam” o produto, como fazem no caso do Nike Shox?. Ora, eles não falsificam o All Star porque o lucro seria pequeno. O custo de produção se aproximaria do preço final do produto, já que o All Star é um tênis “barato” mesmo. No caso do Nike Shox os falsificadores conseguem um lucro elevado em vista do preço elevado do produto. Ou seja, mesmo vendendo um produto “pirateado”, com preço inferior ao original, conseguem um lucro razoável. Basta fazer a seguinte conta: se o original custa R$ 500,00, então o pirateado pode ser vendido pela metade, e mesmo assim o falsificador obterá bom lucro. 
 
 

A estratégia de vendas da companhia Converse é produzir um produto com preço reduzido e, sendo assim, obter um lucro razoável na venda em massa do produto. Embora usem materiais diferentes em sua composição, dificilmente os dois tênis analisados têm custos de produção muito diferentes. A Nike explora a mão-de-obra de países “subdesenvolvidos” para obter uma maior margem de lucro em seus produtos. Já há um bom tempo seus tênis são produzidos no Sudeste Asiático, especialmente no Vietnã. Com isso quero dizer que, embora sejam confeccionados com materiais diferentes, os custos de produção entre os dois produtos não são tão diferentes como os preços finais praticados no mercado. Boa parte do preço final do Nike Shox é devido ao valor simbólico de sua marca. A Nike patrocina eventos esportivos vultuosos, assim como ídolos do esporte mundial. Consumir seus tênis se tornou uma marca de distinção e status sociais
 
 
 

Comparações e explicações
 
 
 

A escolha por um modelo de tênis, ou outro, nos remete a tradicionais questões ligadas ao consumo. Quando exploramos o surgimento do consumo percebemos o quanto suas motivações continuam contemporâneas. Daniel Roche (1998) trata do nascimento do consumo no século XVIII em solo Europeu. A partir de estudos de contabilidade e orçamentos da época, é traçado um mapa de como o consumo excedente vai tomando forma. Da mesma maneira e no mesmo contexto, vão surgindo gastos com lazer e poupança. O crescimento econômico na França do final do século XVIII propiciou o surgimento de um novo estilo de vida urbano, essencialmente dispendioso. Na perspectiva apontada por Roche, o surgimento do consumo ocorre quando os indivíduos estabelecem uma nova relação com o mundo. 
 
 

Agora o contexto é a Inglaterra do século XVIII. Se para Daniel Roche o consumo surge a partir de um excedente no orçamento, para Colin Campbell é preciso explorar a questão a partir do surgimento de uma nova mentalidade - ou atitude moral para com o consumo - paralelamente a fatores como gosto e moda. Em temos econômicos, os ricos tomaram a dianteira em desenvolver um consumo de luxo. Em seguida as classes médias seguiram esse tipo de comportamento. É nesse momento que surge a moda moderna, que se caracteriza pelo tempo acelerado de transformação (Campbell, 2001: 37). 
 
 

Paralelamente a esse contexto está a Revolução Industrial, em que predominava a produção de bens de consumo de luxo ao invés de bens de capital. Assim como Roche, Campbell associa o surgimento do consumo moderno ao surgimento do lazer, em que os gastos podem ser classificados como essencialmente supérfluos. Campbell também explica que a revolução do consumo foi um fenômeno de classe média, que surgiu também em decorrência de alterações de valores e atitudes (Ibid.: 55). 
 
 

O consumo em Thornstein Veblen está atrelado a uma questão econômica. Sendo assim, resulta de características ligadas ao poder aquisitivo e o tempo livre: ociosidade. Em meio à Revolução Industrial, consumir determinados bens (artigos de luxo, comidas e bebidas) significava mostrar certa riqueza. Gradativamente vai se criando um “gosto” que demonstra o quanto um Senhor é nobre e digno de status elevado. 
 
 

Como resultado dessa necessidade de se mostrar e de ser visto gastando, surge uma sociabilidade e uma rede de relações entre os que praticam oconsumo conspícuo. No lar o ócio da esposa de um senhor também é a maneira encontrada por este de mostrar que possui riquezas. Nesse caso é um esforço despendido que até mesmo se manifesta na decoração (Ibid.: 55). Na verdade Veblen está defendendo uma estética do consumo conspícuo, que se manifesta tanto na propensão a gastar como nos hábitos adotados pelo Senhor (ociosidade) e por seus dependentes.
 
 

Na perspectiva de Norbert Elias, o surgimento do consumo ocorre a partir de condições sociais específicas da sociedade de corte européia do século XVIII. Nela o consumo e o gasto de dinheiro adquirem a posição de meio de obtenção de status e prestígio. Na visão de Elias, o consumo ocorre por força social, e não por questões estritamente econômicas ou individuais. Alguns pesquisadores colocam o consumo ao lado do desperdício. No caso de Elias, esse desperdício nunca é desperdiçado e sim transformado em capital para a figuração social. Para Norbert Elias o consumo é representativo e existe uma coerção social para isso. 
 
 

Jeffrey Needell trata da formação do consumo europeu e sua influência no Brasil do século XIX. A moda moderna surgiu nas sociedades (Inglaterra e França) onde a burguesia ascendia. Até a Revolução Francesa o status social era “lido” por meio de tipos de roupas diferentes. Após isso o “bom gosto” começou a ser o indicativo do status de uma pessoa. “As pessoas se destacavam no anonimato do cenário urbano pela escolha ‘certa’, associada a um certo estilo de vida, sutilmente diferente daqueles que tinham apenas dinheiro” (Needell, 1988: 40). O ponto principal de seu estudo está a observação da existência de uma fantasia no consumo. Ou seja, existe um elemento de fetichismo na mercadoria que propicia, inclusive, a sua interiorização pela pessoa. 
 
 

Após essa breve visita aos autores clássicos, algumas relações podem ser traçadas com o evento da festa dos “Anos Oitenta” citada na introdução. Primeiramente, é importante destacar que o ingresso, sendo um gasto com lazer, acaba não sendo tão excêntrico. Ainda mais se lembrarmos que era um evento urbano dentro de um estilo de vida dispendioso. A grande concentração de Nike Shox atesta que ali estavam presentes um gosto e uma moda específicos. Conversando com alguns freqüentadores foi possível perceber que eram apenas trabalhadores e distantes de uma classe alta. É bem provável que tal modelo de tênis tenha sido absorvido como item de distinção social pela classe média. 
 
 

É impossível deixar de perceber que tal modelo de tênis é uma escolha supérflua. Ora, seu design é projetado para atividades esportivas, como corrida. Então, por que escolher um tênis de corrida para caminhar em uma festa? Ou no dia-a-dia? Pelo fato de tal modelo de tênis ser “caro”, não podemos esquecer que possui-lo serve para mostrar o quanto se costuma gastar com peças de vestuário. Também foi possível perceber que os freqüentadores da festa faziam parte de uma rede de relações próxima. E, sendo assim, talvez exista uma certa coerção social, tacitamente estabelecida, no sentido a consumir determinados bens. Algo que, em última instância, serve para destacar o indivíduo no anonimato da vida urbana.
 
 

Já a preferência pelo All Star não se remete exclusivamente a uma questão de preço ou conforto. Embora essas sejam as opiniões mais imediatas dos consumidores, a preferência por esse produto está atrelada a outras questões. De certo modo, o consumo por All Star subverte as noções clássicas de consumo. Existe um status em usar esse tênis, porém ele não é evocado por uma situação econômica privilegiada do indivíduo. O tênis é “barato”. Como foi citado em algum momento por um consumidor: “com um Nike Shox dá para comprar dez All Star”. Muitos artistas utilizam esse tênis. Para os consumidores anônimos, usar um All Star significa ser alguém informal, que preza o conforto pessoal e que não compactua com gastos exorbitantes em matéria de vestuário. Além desses significados, o All Star remete a uma postura retrô, de “coisa antiga”. Tal comportamento está muito presente no segmento de jovens que optam por esse tênis. Muitos desses jovens cultivam a moda e a opção por um estilo musical com referência aos anos de 1980. Muitos deles nasceram nesse período. Por outro lado, consumir um tênis “barato” e estar “na moda” pode ser muito interessante. Geralmente, os jovens que usam All Star são financeiramente dependentes de seus pais. Com pouco dinheiro, adquirir um tênis com preço inferior aos demais pode ser uma boa escolha. E enquanto àqueles que possuem recursos, mas optam pelo All Star?
 
 

Apropriado pela juventude, o tênis adquire uma imagem jovial. Ou melhor, transmite ao seu consumidor uma imagem jovem. Os bens materiais possuem essa capacidade de serem acrescidos de qualidades simbólicas. Disso se utilizam os publicitários que, promovendo tais características, acrescentam ao produto uma certa “magia”, um conjunto de potencialidades ou mesmo uma ilusão (o fetiche citado por Jeffrey Needell). Para o sujeito que consome All Star, estão presentes diversos motivos pela escolha, desde os mais concretos, como preço reduzido e conforto, como o imaginário de pertencer ao grupo dos que usam All Star: celebridades, pessoas jovens, pessoas despojadas, informais, roqueiros, etc.
 
 

Retomando a questão apresentada na introdução (por que um tipo de público escolhe uma marca de tênis e outro tipo outra marca?), podemos concluir, respondendo brevemente que escolher entre uma ou outra marca de tênis colabora para a própria constituição de grupo. Os exemplos das comunidades virtuais trazidos aqui nos indicam isso. Consumir um All Star ou um Nike Shox tanto serve para representar quem a pessoa pensa que é como, também, para aproxima-la de pessoas afins, consumidoras dos mesmos produtos. Consumir determinada marca de tênis serve, também, para representar os valores sociais que a pessoa cultiva. 

 
Bibliografia

CAMPBELL, Colin. "Como se explica a revolução do consumidor na Inglatera do século XVIII". In: A ética romântica e o espírito do consumo moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
NEEDELL, Jeffrey. A ascensão do fetichismo consumista. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. nº 8, vol.3, outubro de 1988.
ROCHE, Daniel. Consumo corrente e consumo de luxo. In: História das coisa banais: Nascimento do consumo nas sociedades tradicionais (século XVII-XIX). Lisboa: Teorema, 1998.
VEBLEN, Thornstein. Teoria da Classe Ociosa. São Paulo: Abril, 1980. 
 

Webgrafia

http://www.rami.com.br/dicas2.asp
http://sbrt.ibict.br/upload/sbrt1000-4.html
http://www.aprendebrasil.com.br/educacao_fisica/alunos/alunos11.asp
http://comarte.upf.br/index.php

Traduzindo para o português seria algo como “sandálias para cricket”, que é um esporte. Informação obtida em: http://www.runfree.com.br/moda/tenis_historia.htm.
Em português  algo como “Companhia de Borracha dos Estados Unidos”.
Informação obtida no site: http://sbrt.ibict.br/upload/sbrt1000-4.html.
No município de Picada Café, no Rio Grande do Sul.
Na verdade não são molas no sentido conhecido: de metal. Mas os consumidores assim a chamam.
Na presente investigação, a coleta de dados em comunidades virtuais na Internet foi feita, exclusivamente, no sistema de sociabilidade virtual do Orkut
Pesquisa realizada no dia 7 de janeiro de 2006, somente nas comunidades brasileiras com o idioma  português. Essa imagem é uma reprodução da tela projetada no monitor enquanto se realiza a pesquisa no site .
Imagens que são exibidas nos sites de Internet logo que o internauta os acessa.
Pessoa que usa a Internet.
Stuart Little é um personagem de  filme de animação. Ele é um pequeno rato branco.
O fórum de discussão é uma modalidade de comunicação com a troca assincrônica de mensagens. A pessoa pode enviar uma mensagem para o fórum que esta será publicada em uma página de Internet. Os visitantes da página poderão acompanhar as mensagens enviadas, assim como também enviar mensagens.
Atualmente, o modelo clássico (preto e cano médio) é vendido por, em torno, de R$50,00 em Porto Alegre/RS. No Rio de Janeiro/RS ele é vendido mais caro, chegando até a custar R$150,00. Em Montevideo/Uruguai o tênis pode ser comprado por R$80,00.
Patty é a abreviatura de “Patricinha”,  gíria para se referir à menina que, geralmente, é loira, usa sapato de salto alto e roupas caras da moda. O termo é utilizado de  forma relacional. Ou seja, utilizado por aquela menina que não se considera  Patty, para se opor àquela que é, mesmo que esta não se considere como sendo.
“Boy” é a versão masculina da “Patty”.
3270 membros
2511 membros.
2139 membros.
Como já citado, o Nike Shox possui “molas” (entre 4 e 12). Quanto mais “molas”, mais confortável o produto.  E, também, mais caro.
Em Porto Alegre/RS, o Nike Shox é vendido somente nos Shoping Centers, por onde transitam consumidores com maior poder aquisitivo, teoricamente.
Em se tratando de vestuário ou calçados, utiliza-se o termo grife para se referir à marca. Ou então ao estilista que desenha os modelos.
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