.
Por
todo um processo de aculturação que se deu no transcorrer
de 500 anos por grupos dominantes, muitas das características genuínas
dos indígenas foram se perdendo e o turismo pode representar a preservação
dos elementos existentes, desde que se trate a gestão turística
de forma racional e equilibrada.
O
turismo deve significar uma alternativa social e econômica junto
a uma etnia tão excluída no decorrer da história do
Brasil. A origem, a língua, o credo, o artesanato, os ritos, a culinária,
podem representar uma condicionante importante ao turismo cultural do país
e um indutor a renda de comunidades tão necessitadas.
Para
se ter uma idéia, no Século XVI, o Brasil possuía
uma população indígena de quase 2 milhões e
meio de habitantes (IBGE, 2000). Com todo processo
de dominação colonial e posteriormente com a falta de priorização
do governo em torno das necessidades dos mesmos, verificou-se uma redução
substancial dessa etnia no Brasil.
Segundo
o IBGE (2000) a população indígena brasileira chegava
a pouco mais de 300 mil habitantes no início do século, estados
como a Bahia, berço da colonização portuguesa possuía
uma população de apenas 11 mil indígenas, enquanto
no Século XVI estimava-se uma presença de 149000 índios
no Estado.
Um
fato da dizimação dos índios nos últimos anos
está no resultado de que em 1500 se previa a presença de
1300 línguas originárias, enquanto nos dias atuais os relatos
indicam a existência de apenas 180 línguas típicas.
Isso reflete o processo de perda de tribos que jamais terão resgatadas
as tradições que ajudaram a formar a concepção
do Brasil.
E
o problema permanece, pois a perda de identidade, decorrente da globalização
e, além disso, a pobreza, assola grande parte das aldeias espalhadas
pelo país, já que a questão fundiária e a falta
de políticas inclusivas que favoreça e intensifique as atividades
produzidas pelos índios são entraves ao seu desenvolvimento.
Toma-se
como base duas comunidades no Sul da Bolívia, a primeira no extremo
Sul do antiplano boliviano, cuja comunidade vive baseada no trabalho de
pastoreio de ovelhas e tem como língua típica o quéchua.
A região é o 2° lugar mais visitado da Bolívia,
onde se encontra as lagoas altoandinas, com gêiseres, lagos e vulcões,
cujo fluxo no país só é menor em relação
ao Lago Titicaca, a média de visitas anuais é de 40000 turistas.
Os
problemas enfrentados pelo destino são invariavelmente as dificuldades
de locomoção, é preciso viajar de 10 a 12 horas em
veículo, como também a limitação de acomodação,
a falta de infra-estrutura impede o desenvolvimento turístico na
região, o que é uma realidade de quase todo continente sul-americano.
Mas
de acordo ao estudo de Axel Nielsen, Justino Calcina e Bernardino Quispe
denominado “Arquelogía, Turismo y comunidades originárias:
Una experiéncia en Nor Lípez”, o grande entrave do Turismo
sustentável numa das regiões de maior riqueza arqueológica
da região é o isolamento da comunidade indígena. De
acordo ao estudo afirma-se “O Turismo nesta região se desenvolveu
como um fenômeno espontâneo, sem planejamento algum e como
resultado de iniciativas privadas isoladas, e exógeno, já
que não foi eleito pela população local, a que tampouco
teve oportunidade em intervir em seu desenho, desenvolvimento ou administração”.
Aí
está o perigo e ao mesmo tempo a inoperância do Turismo em
relação à população local, pior, percebe-se
que a função da atividade é nociva já que é
uma demonstração efetiva de um planejamento mal estruturado
que se caracteriza pelo fato dos turistas levarem fragmentos de cerâmicas
ou outros elementos do lugar, causando prejuízos e danos irreversíveis
ao espaço
.
Ineficácia
do Turismo como atividade econômica em destinos mal-planejados, exemplo
do Sul da Bolívia.
Fonte: Elaboração
Própria
A
figura ilustra o sistema decorrente da participação local
que permanece com seus hábitos, sem participar do processo de formação
do Turismo no lugar, o que indica que a atividade se dá a margem
da sociedade autóctone, embora dependa do espaço físico
dos mesmos para existir. Com o processo de crescimento do Turismo surge
uma tendência de saída da população para atividades
secundárias relacionadas ao mesmo, o que causa desequilíbrios,
sobretudo econômicos a um grupo equilibrado, embora simples em receita
financeira.
Esse
tipo de prática deve ser completamente evitado naquilo que se baseia
para o Turismo étnico brasileiro e pode-se tomar como exemplo adequado
uma outra região do Sul da Bolívia próximo as divisas
com o Chile e Argentina, trata-se da região de Lakaya.
A
formatação da gestão turística na região
era diversa, pois os autóctones se dispuseram a contatar antropólogos
na região, no sentido de projetar o Turismo de maneira racional
e ordenada, não atuando com a passividade dos nativos oriundos de
Lípez. As primeiras medidas adotadas foi um resgate histórico
da região e os primeiros beneficiados dessa trajetória cronológica
de conscientização foram às crianças locais,
uma outra estratégia adotada resultou na construção
de um museu arqueológico, e finalmente, uma ação abrangente
de construção de um alojamento comunitário, agregado
a um plano de controle de resíduos e limitando a área de
visitação dos turistas.
Constata-se
na figura 2 a influência relacionada ao interesse dos turistas apreciadores
da natureza em estabelecer um contato com as comunidades anfitriãs
a título de conhecer e se relacionar com os povos de origem dos
respectivos centros receptores, tem-se percebido nos dias atuais um crescimento
do Ecoturismo e com isso a busca por sítios históricos torna-se
uma conseqüência natural, o que deve resultar em benefícios
a região sul-americana que dispõe de uma tradição
histórica resultante da trajetória dos povos indígenas.
O potencial de crescimento
do turismo étnico e de benefícios à comunidade em
regiões bem ordenadas.
Fonte: Elaboração
Própria
Uma
preocupação que se tem do Turismo étnico é
a perda de valor da cultura local, mas no caso indígena, essa diluição
da autenticidade já vem ocorrendo com o passar dos últimos
cinco séculos e, talvez o Turismo empregado de forma sustentável
seja a única forma de alcance da preservação genuína
daquilo que ainda existe na trajetória indígena no Brasil.
“O desenvolvimento
turístico levaria os nativos de pequenas sociedades hospedeiras
a abandonarem um modo de vida tradicional e independente do capitalismo
global para se inserirem em negócios locais incrementados pelo efeito
multiplicador do desenvolvimento turístico”.
Agrega-se
a isso a visão do antropólogo holandês Jeremy Boissevain,
diz ele “ao ser observados, examinados e questionados pelos visitantes,
os autóctones se dão conta de como diferem dos visitantes”
(Boissevain, 2005), por isso a necessidade de uma solidez cultural para
que os receptores não sejam alienados pelos turistas, com uma velha
idéia de concepção referencial dos visitantes como
exemplos de moda e correção sobre sua próprias filosofias
e história, é essencial que no processo de planejamento a
conscientização interna seja aplicada de forma ampla.
No
processo turístico verifica-se a necessidade de especificação
dos limites de cada um, ou seja, a naturalização do comportamento
local, para que disso se obtenha benefícios econômicos. O
autóctone não pode ser objeto para saciar os interesses dos
turistas, mas sim um agente que transmita sua cultura como signo de conhecimento
ao visitante.
Grünewald
(2003) acrescenta acerca da questão:
“Se o exótico,
o outro, é procurado em lugares distintos do de origem do visitante,
os habitantes desses lugares, de acordo com a perspectiva turística
deve se promover como esse exótico, a fim de ser atrativo no mercado
turístico”.
Duas
questões iniciais devem ser tratadas para o planejamento do Turismo
em terras indígenas, primeiro a questão fundiária
e os conflitos que existem com a não regulamentação
das terras indígenas e em segundo com a desconfiguração
da vida local, hoje poucas tribos ainda convivem em ocas, os rituais se
tornaram esporádicos e muitos costumes foram perdidos, já
que estes não vivem da agricultura de subsistência e sim dependem
diretamente das políticas de ajuda do governo.
Em
contraposição a esse direcionamento deve existir uma preocupação
para que a cultura indígena não se transforme numa encenação
para os visitantes, mas o ideal está na possibilidade do encontro
entre dois segmentos turísticos, o Turismo étnico e o Ecoturismo.
Disso está o potencial
para a prática compartilhada desses segmentos na Amazônia,
cerca de 48% do total de índios no Brasil encontra-se na região.
No entanto, não se tem conhecimento no Brasil de projetos turísticos
liderados por tribos indígenas, algo que pode ser implantado desde
que se empreenda com dinamismo e prioridade ações junto a
essas comunidades.
Entende-se
por Turismo indígena como (Programa Orígenes):
“Aquela atividade
turística abordada e manejada por comunidades e/ou famílias
indígenas, que se desenvolve em um espaço rural ou natural,
historicamente ocupado por povos indígenas, conjugando seus costumes
e tradições ancestrais e contemporâneas, fomentando
deste modo um processo de intercâmbio cultural com o turista”.
Para
não ser dependente dos agentes intermediários – operadores
turísticos e das grandes redes hoteleiras é preciso um compartilhamento
da estrutura governamental no que tange a financiamento e estímulo
ao cooperativismo, para que decorrente de sua própria estruturação
as comunidades indígenas possam comercializar e promover seus territórios
de modo a receber um número adequado de visitantes.
O
que acontece na região de Mapuche na Argentina, por exemplo, não
têm sido proveitoso as comunidades nativas, pois o Turismo vem se
projetando com a chegada de investimentos hoteleiros e isso tem desfigurado
a presença indígena, já que os hotéis fazem
a inserção dos autóctones não como parceiros,
mas como sub-empregados, geradores de mão-de-obra, já que
os índios tem sido choferes, instrutores de ski, ou guias, não
atuando assim como integrantes de uma história ancestral e marcante.
Como
se afirma no Programa Orígenes do governo chileno deve existir uma
“autogestão comunitária”, naqueles espaços com predominância
indígena, não havendo, por conseguinte uma utilização
inadequada dessas comunidades. Para tal, deve-se intensificar um trabalho
de qualificação e educação das tribos com a
finalidade de que os mesmos possam tomar decisões referentes ao
desenvolvimento turístico, sem exercer uma função
empregatícia em suas próprias terras.
No
caso chileno aplicam-se cursos de Higiene e manipulação de
alimentos / noções de administração e contabilidade
/ capacitação em primeiros socorros / capacitação
e avaliação de guias turísticos e formação
contínua no tema meio ambiente no relativo ao tratamento do lixo
inorgânico e orgânico produzido pela atividade turística
(Orígenes, 2003).
No
Brasil espera-se uma ação mais efetiva da Funai – Fundação
Nacional do Índio, que precisa fornecer apoio técnico e logístico
as diversas tribos interessadas no desenvolvimento do Turismo em suas respectivas
comunidades. Portanto cada cacique deve intermediar os contatos entre as
tribos e o órgão responsável do governo federal, este
requer maiores verbas para lograr os objetivos de inclusão dos índios
brasileiros.
É
preciso citar os elementos que explicam as razões da atividade turística
integrar uma composição econômica forte em relação
a outras estruturas, sobretudo a agricultura:
-
Forte potencial cultural
e natural no espaço habitado
-
Produção
agrícola em larga escala, o que remete aparatos técnicos
de alta tecnologia e capacitação humana, causando o isolamento
dos índios que desenvolvem um trabalho baseado na produção
em pequena escala.
-
Possibilidade de divulgação
e comercialização de artesanatos e peças produzidas
por mulheres, dinamizando assim a produção econômica
das tribos.
-
Estímulo à
preservação do ambiente natural e das respectivas culturas,
a título de valor turístico.
Na
figura visualiza-se o processo de formatação do produto turístico,
onde se pretende estabelecer as diretrizes as quais se poderá adotar,
com o objetivo de viabilizar o espaço turístico em regiões
indígenas. O estado tendo a função de projetar a infra-estrutura
necessária, como de auxiliar na divulgação, exercendo
uma parceria com os mesmos. Ao mesmo tempo, percebe-se a importante função
do cooperativismo, algo que pode se tornar bem-sucedido nas tribos, já
que a visão coletiva é muito forte, ao lado disso pode se
empreender ações conjuntas com Organizações
não governamentais.
Processo de Formatação
do Produto Turístico
Fonte: Elaboração
Própria
O
relacionamento com os operadores turísticos pode se tornar problemático,
primeiro por um comportamento de dominação por parte dos
mesmos em relação às populações anfitriãs,
segundo por estabelecer em comunidades indígenas a presença
de excursionistas e não turistas, ou seja, visitantes que passam
horas, conhecendo a estrutura da comunidade e não pernoitando como
é o ideal para que os autóctones venham a lograr benefícios
mais concretos da atividade turística, em terceiro lugar está
à problemática de que parte dos operadores não cumprem
a capacidade de carga, excedendo o fluxo de visitantes, o que pode causar
impactos sem precedentes na região, por isso no primeiro momento
de crescimento deve se processar uma relação individual de
promoção e comercialização. É importante
que se defina o fechamento dessas reservas indígenas para visitação
durante certo período do ano – seja em algumas datas sagradas –
ou em um dado espaço de tempo, visando o equilíbrio das comunidades,
com atos exclusivos dos nativosA importância do desenvolvimento turístico
junto às tribos indígenas vai mais além, pois pode
resultar na reunião de diversos atrativos turísticos em torno
de uma mesma região, tanto o etnoturismo, como o ecoturismo; agregando
valor ao produto turístico nacional. Além disso, existe a
variável de resgate da auto-estima de uma comunidade que no Brasil
corresponde a 0,2% da população brasileira (Funai,
2006), mas que tem um simbolismo que precisa ser divulgado e preservado.
Exemplos de como o Turismo pode resgatar as tradições indígenas
podem ser vistas no Chile, junto à comunidade Aymara, os mesmos
foram na metade da década de 90 ao governador da região pedindo
empregos, o governante afirmou que no momento não poderia conceder
o que desejavam, mas poderia estimular o desenvolvimento da região
através do Turismo, a resposta dos líderes era de que não
se sabia como iniciar o planejamento, logo o estado forneceu apoio técnico
e anos depois o cacique afirmou o seguinte (Orígenes, 2003):
“Todos nós
somos Aymaras, e isto (Turismo) nos fez valorizar nossa cultura, nossas
tradições. Começamos a refletir e dar-nos conta o
quão importante de nossa historia. Começaram a recuperar
os contos e lendas. Se fez uma catalogação das festas tradicionais
da zona. Todas estas coisas nos fizeram valorizar a cultura como tal”.
É disso que se espera,
que o Turismo seja capaz de proporcionar perspectivas de futuro, mediante
os índios brasileiros que se encontram diante de problemas tão
graves e sem alternativas econômicas a curto prazo.
Conclusão
A
realidade mostra que a situação de miserabilidade nas comunidades
indígenas é grande, isso pode ser constatado em estudos como
o que avaliou a situação nutricional de crianças indígenas
Pakaánova no estado de Rondônia, foi constatado que 45,8%
das crianças tinham baixa estatura e 26% tinham massa corporal insuficiente.
Observando que a população da tribo era de 2300 habitantes,
com a alta propensão de mortalidade alcança-se a conclusão
de que a durabilidade da geração Pakaánova é
curta (Escobar, Santos, Coimbra, 2003).
Outro
estudo relata que mais de 8% da população Panará no
Sul do Pará estava com tuberculose (Baruzzi, Barros, Rodrigues,
Souza, Pagliaro, 2001). No final da década de 80 verificou-se o
aumento no número de óbitos da tribo indígena Yanomami
no estado de Roraima decorrente de doenças como malária,
infecções respiratórias agudas, tuberculose, desnutrição
e doenças sexualmente transmissíveis (Pithon, Confalonieri,
Morgado, 1991). Recentemente também nos estados do Tocantins e Mato
Grosso do Sul foram registradas mortes de crianças em diversas etnias.
O
que se percebe é que as comunidades encontram-se atadas sem que
qualquer ação pública seja desenvolvida para alterar
uma situação que talvez em quantidade não seja tão
abrangente, mas em simbolismo prático não é diferente
ao que se aplicou há 500 anos pelos portugueses, visualiza-se com
isso um isolamento dos índios no Brasil.
O
que se espera é que o Estado seja capaz de corrigir sua inoperância
e de tal maneira enxergar na atividade turística uma alternativa
as condições de sobrevivência dos índios no
Brasil, atuando no estabelecimento de medidas sustentáveis e duradouras.
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