A proposta conceitual
do Dogma 95
Este
filme – Festa de Família - é a primeira obra
do Movimento Dogma 95, criado por diretores dinamarqueses e que prega um
cinema mais simples, sem artifícios: câmera no ombro, som
direto, imagem sem iluminação artificial e sem crédito
do diretor. O Dogma 95 adota uma maneira radical do uso das técnicas
cinematográficas, utilizando-se de uma série de regras. Observa-se
como resultado, a ênfase à interpretação dos
atores e ao roteiro muito bem estruturado. Com o uso desses recursos, as
sensações são extrapoladas e jogadas ao espectador
de uma maneira muito eficiente, pela realidade das cenas. Festa de Família
parece ter sido feito em VHS caseiro, típico dessas reuniões
familiares.
Filmado
em vídeo com luz natural, as imagens quase sempre fora de foco,
é montado com um ritmo nervoso e trepidante. O filme perturba por
sua estética, que não é inovadora nem inédita.
O experimentalismo de Dogma 95 já foi testado, por exemplo, na nouvelle
vague francesa, no neorealismo italiano, no Cinema Novo. Convém
salientar que este filme ganhou 30 prêmios internacionais.
Os
críticos desta obra apontam que até hoje se discute se este
foi um movimento mesmo, ou apenas uma estratégia de marketing. Por
um lado, agradaram e provocaram uma reflexão no espectador por seus
temas delicados e suas histórias emocionantes, mas por outro desagradaram
alguns principalmente pela maneira ousada como foram realizados, muitas
vezes confundida com descaso para com as técnicas cinematográficas.
Pode parecer descaso, mas na verdade todos os planos, os enquadramentos,
os cortes, foram muito bem pensados e estudados, resultando em um novo
e autêntico jeito de fazer cinema.
Festa
de Família estreou em 1998 e causou um rebuliço no mundo
do cinema, onde os espectadores, acostumados a ver as evoluções
tecnológicas cinematográficas ano após ano, surpreenderam-se
com este filme e todo o retrocesso tecnológico proposital da fita.
Alguns consideraram pretensioso demais, mas pode-se dizer que Festa de
Família é muito mais do que uma revolução no
cinema: a história é fantástica, o ar teatral pela
falta de luz e músicas valorizaram ainda mais as interpretações
dos atores, que se superaram para trazer algo bastante convincente; os
ângulos de câmera tiveram que ser bem mais pensados, os cortes
eram ousados e davam um ritmo frenético às cenas mais intensas.
Enfim, em termos de tecnologia realmente Festa de Família parece
ser bem antigo. Agora em termos técnicos, mostrou ser superior a
qualquer outro filme grande da atualidade.
O
movimento Dogma 95, em contrapartida ao cinema hollywoodiano, tem na sua
proposta um cinema humano, no qual bons atores, bons roteiros e recursos
próprios da linguagem cinematográfica são suficientes
para produzir um bom filme. O diretor cria a intimidade necessária
para que haja identificação com os personagens. O diretor
e roteirista Thomas Vintenberg defende a volta aos valores tradicionais
do cinema, ignorando os grandes artifícios dos efeitos especiais
e do "design" eletrônico, apanágio dos mega-estúdios
de Hollywood. A única concessão do filme, ao estilo hollywoodiano,
é o happy-ending. Festa de Família tem uma narrativa clássica,
que se desenvolve linearmente no tempo e no espaço, com poucos flashbacks.
É uma história bem contada. Em resumo, o Dogma 95 propõe
um modo de fazer uso do cinema, um uso que transforma as relações
que a “realidade” tem com a câmera, impregnadas pelo cinema comum
de representação. A escolha de temas polêmicos não
é à toa, adota um modelo radical de apreensão da realidade,
um modelo antiburguês. As imagens feias, sem foco, tremidas, impedindo
o acesso ao sublime pede temas que se afastam da experiência do espectador.
A
história narrada
A temática gira em
torno de uma crítica ácida à família burguesa
e às relações humanas. A narrativa aborda relações
polêmicas, tabus e fontes constantes de denúncia na sociedade,
como o abuso sexual do pai com filhos, o suicídio, o aborto, o racismo
e a violência doméstica. Esse conjunto de ações
costura a trama de forma coesa.
A
festa é de comemoração aos 60 anos do patriarca desta
família dinamarquesa, Sr. Helge, proprietário de um hotel.
O núcleo familiar é composto pelos pais e quatro filhos:
os dois mais velhos, Christian e Linda eram gêmeos, sendo que Linda
(fica-se sabendo no início do filme, sem maiores informações)
suicida-se em um dos quartos do hotel alguns meses antes; há Heléne,
a filha antropóloga que convida o namorado negro para a comemoração
e Michael, que comparece com a esposa e três filhos pequenos. O início
do filme já traz a problematização das relações
de dominação e violência entre esposa e marido, quando
Michael a abandona junto com os filhos na beira da estrada para dar lugar
ao irmão Christian, no automóvel.
Ao
chegarem ao hotel, onde seria a festa, na recepção, Michael
descobre não haver uma reserva de quarto em seu nome e que, portanto,
não constava como convidado para o encontro. O irmão Christian
convence o funcionário e responsabiliza-se em alterar a disposição
do pai em não querer a presença de Michael na comemoração.
Aos poucos vão chegando os convidados: amigos e parentes mais distantes
dos patriarcas, são os representantes da sociedade local. Todos
estão felizes por fazerem parte do clã e o encontro provoca
o clima de confraternização. A cerimônia acontece a
partir de atos formalizados que compõem o ritual da festa, como
a recepção dos convidados pelos três filhos na porta
do hotel. O ambiente infesta-se de risos e brindes.
A
maior parte do filme se passa durante o almoço oferecido a Helge,
no qual a família vai mostrando suas características, seus
limites e conflitos. O drama passa a dominar as cenas, quando começa
o discurso do primogênito da família, Christian, que expõe
o que deveria ficar para sempre escondido: revela que ele e sua irmã
(que acabara de suicidar-se) foram violentados pelo pai durante a infância
- “Uma brinde àquele que matou minha irmã”. A partir desse
momento há a mobilização dos pais e irmão em
desqualificar a denúncia, alegando ser Christian portador de problemas
emocionais. Ele é afastado da festa e essa continua a fluir naturalmente.
Nesse
meio tempo, chega o namorado de Heléne em um táxi. É
recebido por Michael que, confundindo-o com um possível hóspede,
tenta dispensá-lo alegando o hotel estar fechado para uma comemoração
familiar. A irmã intercede apresentando-o namorado, que não
se comunica no mesmo idioma, e o irmão a questiona não acreditando
como ela podia ter convidado um “macaco” para a festa do pai.
Expulso
da sala de jantar após a revelação do abuso sexual
paterno, Christian dirige-se à cozinha, demonstrando aos espectador
que ali está seu amigo de infância, o cozinheiro. Sob as ordens
deste, os empregados escondem as chaves dos automóveis dos convidados,
impedindo-os de saírem da Festa e obrigando-os a permanecer até
que seja desvendado o verdadeiro caráter do patrão. O próprio
Christian quer ir embora mas o amigo/cozinheiro o impede. Ao tentar retornar
para o almoço, Christian é agredido e amarrado (pelos convivas
e pelo irmão) a uma árvore. A revelação de
Christian permanece minimizada e desqualificada pelos presentes.
O
namorado de Heléne sai em defesa de Christian e Michael o interrompe
cantando uma canção, cuja letra possui um conteúdo
grosseiro e racista. Os convidados acompanham Michael, denotando ser este
um valor compartilhado do grupo familiar extenso. Christian consegue retornar
e solicita à irmã que leia uma carta deixada por Linda. A
carta de forte conteúdo emocional dirige-se a Christian, justificando
seu suicídio pelos abusos sexuais do pai terem retornado em seus
sonhos. Neste momento, surte efeito a revelação: não
há mais como desqualificá-la, agora é a voz da irmã
suicida que fala. A festa chega ao fim, os convidados ocupam seus quartos
no hotel para partir no dia seguinte como o previsto.
Durante a noite Michael vai
à casa de pai e agressivamente responsabiliza o pai pela infelicidade
que vivem os filhos. É Michel, a “ovelha-negra da família”
mas, ao mesmo tempo o representante do establishment social burguês,
o marido machista, o irmão racista, o filho mal-criado, que confronta
o pai e o condena pelos atos cometidos contra o irmão Christian.
Na manhã seguinte
os convidados estão tomando o café da manhã e o Sr.
Helge pede a palavra e assume publicamente suas ações passadas.
A matriarca nada fala, acusada antes de nunca ter feito nada contra os
abusos do marido, novamente se cala. O filho Michael pede que ele se retire
para que o café transcorra normalmente e o filme acaba, abruptamente,
com a imagem do rosto de Christian.
A família de Helge
Percebe-se estes encontros
das famílias enquanto uma das formas ou estratégias tradicionais
dos indivíduos que buscam ordenar as mudanças e reformulações
da vida cotidiana agregadas à permanência de determinados
padrões sociais e culturais. Neste caso fílmico, realizado
em finais da década de 90, em meio a grandes transformações
sociais, resultantes do processo de globalização, observa-se
a permanência deste contexto de ação mais tradicional.
Percebe-se a importância da família como campo de análise
e de investigação sobre a reordenação de padrões
sociais e culturais, quando sabemos da incidência atual de cerimônias
tradicionais revestidas de novos componentes, como o Casamento ou as Festas
de Família,
Segundo
Anthony Giddens, as condições sociais
modernas são marcadas tanto pelos processos da globalização,
quanto da procura de contextos de ação mais tradicionais:
“
[...] A conexão {entre globalização e contextos de
ação tradicionais] são as conseqüências
desincorporadoras resultantes dos sistemas abstratos. Neste caso, as influências
causais são complexas e estão ligadas ao caráter multidimensional
da modernidade. [...] Tradição diz respeito à organização
de tempo e, portanto, também de espaço: é o que ocorre
também com a globalização, exceto pelo fato de que
uma corre em sentido contrário à outra. Enquanto a tradição
controla o espaço mediante seu controle do tempo, com a globalização
o que acontece é outra coisa. A globalização é,
essencialmente, a “ação à distância”; a ausência
predomina sobre a presença, não na sedimentação
do tempo, mas graças à reestruturação do espaço.”
(1997, p.118)
A
busca por ações mais tradicionais inclui rever “as suas origens”
e entende-se como origens a busca de um espaço capaz de formular
normas de vinculação. Portanto, rever esse contexto tem como
finalidade pensar na proposta que as Festas de Família traz – uma
forma criativa dos indivíduos de reordenar a tradição
sob a possibilidade de rever a si mesmo a partir de uma identidade compartilhada
e os seus sentimentos pessoais.
Essa
questão é abordada por Gilberto Velho
(1995), quando trata do estilo de vida urbano contemporâneo:
“[...]as crenças
e valores tradicionais não desaparecem necessariamente diante da
expansão das ideologias individualistas modernizantes. O fato da
sociedade ser, por natureza, multidimensional e heterogênea produz
alternativas e cria novos domínios. A não-lineraridade e
multidimensionalidade dos processos socioculturais é maximizada
nos centros urbanos cuja principal característica é a geração
de estilos de vida e visões de mundo diferenciados que, no limite,
levam à experiência da fragmentação.”
As
cenas do filme acenam precisamente para essa situação, podendo
ser observada com intensidade nas relações geracionais. Enquanto
o pai, o Sr. Helge, apresenta-se como um virtuoso pai, renomado profissional
e adepto à doutrina da maçonaria, os filhos mostram-se irreverentes
diante das expectativas e projetos que os pais neles depositaram. O filho
mais moço foi mandado à Suíça para aprimorar
os estudos, mas não os concluiu; Christian, que seria o sucessor
do pai nos negócios, foi para Paris e era proprietário de
um restaurante; e a filha Heléne, por fim, segundo os desejos do
pai seria advogada, havia optado por ser antropóloga. Essa descontinuidade
nos processos socioculturais familiares denota a diferenciação
da vida social que tem como características a não-linearidade
e a grande autonomia de mundos e domínios específicos.
A
aparente família bem estruturada, bonita, bem vestida; o pai deliberando
e exigindo rigorosamente um comportamento formalizado dos filhos na sua
festa de 60 anos, apresenta um modelo em uma dimensão maior, exterior,
que dá conta da exposição da família à
sociedade. É, na verdade, o estereótipo da família,
onde se tem os filhos bonitos e realizados, os pais orgulhosos do cumprimento
do dever. Já numa dimensão interna, mais íntima, as
relações fogem drasticamente aos padrões do que está
socialmente estabelecido: Michel e sua esposa brigam, ele tem uma amante;
há algo a ser investigado no quarto da irmã morta; o filho
primogênito que ainda não casou; a irmã que namora
um homem negro. Enfim, o filme se faz nessa luta entre o maior e o menor,o
aparente e o vivido; o exterior, o que os outros vêem e o interior,
o que cada um pensa e vive na família, nas suas experiências
concretas.
Em
"Festa de Família" Vintenberg parece fustigar a velha e tradicional
família patriarcal, rigidamente estruturada. E ele traz no entorno
do drama narrado, a dificuldade de lidar emocionalmente com as tensões
vividas em família. Entre elas, aparece o conflito maior, os abusos
sexuais do pai aos filhos. Entra-se aqui em dois dos mais fortes tabus
humanos: o incesto e a pedofilia. José Carlos Rodrigues, analisa
o tabu a partir da seguinte interpretação:
“
(...) O tabu isola tudo que é sagrado, inquietante, proibido ou
impuro; estabelece reserva, proibições, restrições;
opõe-se ao ordinário, ao comum, ao acessível a todos.
As pessoas e objetos tabu são sede de extraordinária energia
e de uma força incomum – espécie de carga elétrica
que se abandona incontinenti sobre o transgressor ou sobre aquele que não
se muniu dos cuidados rituais de conduta diante do objeto sagrado. A característica
principal do tabu é a de que não existem mediações
entre a transgressão e a punição, derivando a segunda
automaticamente da primeira. (RODRIGUES, 1979:26)
No
filme, Christian ao trazer a tona o tabu do incesto (agravado pelo da pedofilia,
pois os irmãos sofreram este abuso sexual quando crianças),
é sistematicamente desqualificado como louco, ou seja, demonstrando
que a família e a sociedade (representada pelos convivas que participam
da festa) prefere qualificá-lo como louco antes que o segredo, o
indizível, o proibido e inquietante ato paterno seja admitido socialmente.
Interessante observar a última tentativa de calar Christian: levá-lo
para a floresta que está na cercania da casa e amarrá-lo
a uma árvore. O ato de Christian, revelar algo que é tabu,
delatar o segredo, ameaça de tal forma a sociedade (burguesa) que
ela, simbolicamente, o retira da ordem da cultura, da civilização
(representada pela casa/mansão/hotel) e o joga na ordem da natureza.
Como que invertendo esta problemática conflituosa, pois é
o pai que atua de forma animalizada e não civilizada, a sociedade
burguesa se sente ameaçada não pelo ato em si mas pela revelação
desta desordem interna, pela explicitação do verdadeiro conteúdo
familiar em vez da manutenção das aparências virtuosas.
A Festa vista como ritual
O filme traz “etapas” bem
marcadas no evento. Há também o papel de um chefe de cerimonial,
encarregado de estabelecer esses “tempos” ritualísticos.
Compreende-se
Festa de Família como um acontecimento que tem se tornado
freqüente na sociedade contemporânea. O evento apresenta o aspecto
ambíguo da busca dos indivíduos da sua ancestralidade em
meio ao mundo moderno, onde a valorização da individualização
parece tornar as pessoas menos vinculadas a formas locais e fixas de solidariedade.
Vistas como rito - que busca
revivificar ou engendrar novas formas identitárias, sob novos comportamentos,
com as recomposições familiares requeridas pelas situações
contemporâneas – as Festas de Família podem ser percebidas
como instrumento de aprendizagem das tradições familiares,
implicando desse modo a continuidade das gerações, dos grupos
etários ou dos grupos sociais dentro dos quais elas se produzem.
O rito é um conjunto
de atos formalizados, expressivos e portadores de uma dimensão simbólica
que tem o sentido estabelecido a partir da ordenação que
propõe à desordem. Tem na sua essência a mistura do
tempo individual e o tempo coletivo e as suas ações simbólicas
são manifestadas por emblemas sensíveis, materiais ou corporais.
Ao
se perceber a festa com tempos e ações bem definidos, teatralizados,
observa-se a força emocional que agrega os participantes. A ruptura
desses tempos, ou a troca do “texto” que o ritual propõe, também
assume uma dimensão muito além do que seria se, a situação
em que ocorresse, não estivesse inserida num processo rituaístico.
As
etapas que o filme propõe iniciam com a recepção aos
convidados pelos filhos do homenageado. A seguir, os convidados foram dirigidos
a um salão onde se estabelece um ambiente de sociabilidade e onde
circulam, pela mão de garçons e garçonetes, canapés
e bebidas variadas. Após um tempo, entra o aniversariante acompanhado
da esposa e é recebido com palmas, abraços e cantos.
Segundo
Segalen (2002:110),
“[Um determinado
número de critérios]. É preciso que sejam repetidos,
coletivos, comportem uma forma qualquer de injunção, e que
o mediador do ritual assuma a forma de alguma coisa consumida em comum,
bebida ou comida.”
A
seguir, todos passam à sala onde será servido o almoço,
com a mesa disposta de uma maneira que todos interajam e que o homenageado
e a esposa ocupem um lugar de destaque. As bebidas são servidas
pelos garçons e iniciam os discursos que deveriam ressaltar qualidades
ao homenageado.
Os
oradores dos discursos estavam pré-determinados, sendo que havia
uma ordem hierárquica estabelecida: o aniversariante fez os agradecimentos
à presença e à importância de estar compartilhando
com os presentes aquele momento. A seguir, solicita a palavra o filho primogênito
que foge ao que propõe um discurso de homenagem: ele solicita ao
pai que escolhesse entre dois textos que havia preparado – “os banhos de
papai” e “histórias de papai” . O pai escolhe um e ele discorre
a verdade sobre o passado. Na seqüência, o avô propõe
um brinde com a tentativa de eliminar o mal-estar causado pelas declarações
de Christian. A partir desse momento, percebe-se que não há
mais continuidade ao ritual, instaura-se o caos.
Conclusão
O filme “Festa de Família”
traz um cruzamento intenso de situações que propiciam muitas
reflexões. A análise centra-se, resumidamente, em três
aspectos básicos: a proposta cinematográfica do grupo Dogma
95, a narrativa sobre o filme e as tensões que comportam as relações
sociais e familiares dentro de um contexto específico de um estilo
de vida dinamarquês urbano-contemporâneo e, por fim, a festa
enquanto um rito que propõe exteriorizar um sentido de coletividade
e estabelecer a reordenação de valores que permeiam as relações
interpessoais envolvidas, enquanto mostram-se em eventos próprios
para a resolução de conflitos e tensões mais amplas.
A
dimensão que emerge do texto proposto leva a uma reflexão
sobre as instituições sociais mais próximas aos indivíduos,
enquanto responsáveis pela construção das formas de
compreender e sentir a vida. Nessa forma de experimentar a vida, ao ser
revelada, traz o impacto, pois agrega-se às muitas denúncias,
entre elas, a de dramas como abuso sexual na infância que se ouve,
mas não os colocam dentro de um espaço que comporta, na coletividade,
a imagem do “sagrado”.
Contundente
crítica aos valores familiares burgueses, o filme Festa de Família
causou polêmica em festivais internacionais e atingiu a aprovação
da crítica e do público, recebendo vários prêmios.
Notas
O
presente artigo é fruto de aspectos que permeiam o estudo que está
sendo desenvolvido para a defesa de tese de doutoramento em Antropologia
Social (PPGAS/UFRGS) sob orientação da Profa. Dra. Cornelia
Eckert.
Utiliza-se
o conceito de festa a partir da noção de Villadary (1968:12):
“Nous verrons plus loin que la fête relève à la
fois de l’institution la plus réglementée et la spontanéité
la plus inattendue. Em tant que phénomène social, elle possède
dês règles, dês lois, une logique propre, qu’il est
aisé de retrouver dans la plupart dês cérémonies
et dans nombre de sociétés au cours de l’histoire. Partout,
lês fêtes provoquent dês rassemblements, elles unissent
dês groupes et dês gens quotidiennement separes ou éloignés
par lês obligations et lê travail, l’espace, lê temps.