FESTA DE FAMÍLIA - uma reflexão sobre valores familiares e estilo de vida a partir de uma análise fílmica

Maria Cristina Caminha de Castilhos França
Doutoranda em Antropologia Social pelo PPGAS/UFRGS



 
 
 
 
 

 
A proposta conceitual do Dogma 95
 
Este filme – Festa de Família - é a primeira obra do Movimento Dogma 95, criado por diretores dinamarqueses e que prega um cinema mais simples, sem artifícios: câmera no ombro, som direto, imagem sem iluminação artificial e sem crédito do diretor. O Dogma 95 adota uma maneira radical do uso das técnicas cinematográficas, utilizando-se de uma série de regras. Observa-se como resultado, a ênfase à interpretação dos atores e ao roteiro muito bem estruturado. Com o uso desses recursos, as sensações são extrapoladas e jogadas ao espectador de uma maneira muito eficiente, pela realidade das cenas. Festa de Família parece ter sido feito em VHS caseiro, típico dessas reuniões familiares.
 
 
Filmado em vídeo com luz natural, as imagens quase sempre fora de foco, é montado com um ritmo nervoso e trepidante. O filme perturba por sua estética, que não é inovadora nem inédita. O experimentalismo de Dogma 95 já foi testado, por exemplo, na nouvelle vague francesa, no neorealismo italiano, no Cinema Novo. Convém salientar que este filme ganhou 30 prêmios internacionais.

 
 
 
Os críticos desta obra apontam que até hoje se discute se este foi um movimento mesmo, ou apenas uma estratégia de marketing. Por um lado, agradaram e provocaram uma reflexão no espectador por seus temas delicados e suas histórias emocionantes, mas por outro desagradaram alguns principalmente pela maneira ousada como foram realizados, muitas vezes confundida com descaso para com as técnicas cinematográficas. Pode parecer descaso, mas na verdade todos os planos, os enquadramentos, os cortes, foram muito bem pensados e estudados, resultando em um novo e autêntico jeito de fazer cinema.

 
Festa de Família estreou em 1998 e causou um rebuliço no mundo do cinema, onde os espectadores, acostumados a ver as evoluções tecnológicas cinematográficas ano após ano, surpreenderam-se com este filme e todo o retrocesso tecnológico proposital da fita. Alguns consideraram pretensioso demais, mas pode-se dizer que Festa de Família é muito mais do que uma revolução no cinema: a história é fantástica, o ar teatral pela falta de luz e músicas valorizaram ainda mais as interpretações dos atores, que se superaram para trazer algo bastante convincente; os ângulos de câmera tiveram que ser bem mais pensados, os cortes eram ousados e davam um ritmo frenético às cenas mais intensas. Enfim, em termos de tecnologia realmente Festa de Família parece ser bem antigo. Agora em termos técnicos, mostrou ser superior a qualquer outro filme grande da atualidade.

 
 
O movimento Dogma 95, em contrapartida ao cinema hollywoodiano, tem na sua proposta um cinema humano, no qual bons atores, bons roteiros e recursos próprios da linguagem cinematográfica são suficientes para produzir um bom filme. O diretor cria a intimidade necessária para que haja identificação com os personagens. O diretor e roteirista Thomas Vintenberg defende a volta aos valores tradicionais do cinema, ignorando os grandes artifícios dos efeitos especiais e do "design" eletrônico, apanágio dos mega-estúdios de Hollywood. A única concessão do filme, ao estilo hollywoodiano, é o happy-ending. Festa de Família tem uma narrativa clássica, que se desenvolve linearmente no tempo e no espaço, com poucos flashbacks. É uma história bem contada. Em resumo, o Dogma 95 propõe um modo de fazer uso do cinema, um uso que transforma as relações que a “realidade” tem com a câmera, impregnadas pelo cinema comum de representação. A escolha de temas polêmicos não é à toa, adota um modelo radical de apreensão da realidade, um modelo antiburguês. As imagens feias, sem foco, tremidas, impedindo o acesso ao sublime pede temas que se afastam da experiência do espectador.

 
 
 
A história narrada
 

A temática gira em torno de uma crítica ácida à família burguesa e às relações humanas. A narrativa aborda relações polêmicas, tabus e fontes constantes de denúncia na sociedade, como o abuso sexual do pai com filhos, o suicídio, o aborto, o racismo e a violência doméstica. Esse conjunto de ações costura a trama de forma coesa. 


 
 
A festa é de comemoração aos 60 anos do patriarca desta família dinamarquesa, Sr. Helge, proprietário de um hotel. O núcleo familiar é composto pelos pais e quatro filhos: os dois mais velhos, Christian e Linda eram gêmeos, sendo que Linda (fica-se sabendo no início do filme, sem maiores informações) suicida-se em um dos quartos do hotel alguns meses antes; há Heléne, a filha antropóloga que convida o namorado negro para a comemoração e Michael, que comparece com a esposa e três filhos pequenos. O início do filme já traz a problematização das relações de dominação e violência entre esposa e marido, quando Michael a abandona junto com os filhos na beira da estrada para dar lugar ao irmão Christian, no automóvel. 

 
 Ao chegarem ao hotel, onde seria a festa, na recepção, Michael descobre não haver uma reserva de quarto em seu nome e que, portanto, não constava como convidado para o encontro. O irmão Christian convence o funcionário e responsabiliza-se em alterar a disposição do pai em não querer a presença de Michael na comemoração. Aos poucos vão chegando os convidados: amigos e parentes mais distantes dos patriarcas, são os representantes da sociedade local. Todos estão felizes por fazerem parte do clã e o encontro provoca o clima de confraternização. A cerimônia acontece a partir de atos formalizados que compõem o ritual da festa, como a recepção dos convidados pelos três filhos na porta do hotel. O ambiente infesta-se de risos e brindes. 

 
 
A maior parte do filme se passa durante o almoço oferecido a Helge, no qual a família vai mostrando suas características, seus limites e conflitos. O drama passa a dominar as cenas, quando começa o discurso do primogênito da família, Christian, que expõe o que deveria ficar para sempre escondido: revela que ele e sua irmã (que acabara de suicidar-se) foram violentados pelo pai durante a infância - “Uma brinde àquele que matou minha irmã”. A partir desse momento há a mobilização dos pais e irmão em desqualificar a denúncia, alegando ser Christian portador de problemas emocionais. Ele é afastado da festa e essa continua a fluir naturalmente.

 
 
Nesse meio tempo, chega o namorado de Heléne em um táxi. É recebido por Michael que, confundindo-o com um possível hóspede, tenta dispensá-lo alegando o hotel estar fechado para uma comemoração familiar. A irmã intercede apresentando-o namorado, que não se comunica no mesmo idioma, e o irmão a questiona não acreditando como ela podia ter convidado um “macaco” para a festa do pai.

 
 
Expulso da sala de jantar após a revelação do abuso sexual paterno, Christian dirige-se à cozinha, demonstrando aos espectador que ali está seu amigo de infância, o cozinheiro. Sob as ordens deste, os empregados escondem as chaves dos automóveis dos convidados, impedindo-os de saírem da Festa e obrigando-os a permanecer até que seja desvendado o verdadeiro caráter do patrão. O próprio Christian quer ir embora mas o amigo/cozinheiro o impede. Ao tentar retornar para o almoço, Christian é agredido e amarrado (pelos convivas e pelo irmão) a uma árvore. A revelação de Christian permanece minimizada e desqualificada pelos presentes.

 
 
 
O namorado de Heléne sai em defesa de Christian e Michael o interrompe cantando uma canção, cuja letra possui um conteúdo grosseiro e racista. Os convidados acompanham Michael, denotando ser este um valor compartilhado do grupo familiar extenso. Christian consegue retornar e solicita à irmã que leia uma carta deixada por Linda. A carta de forte conteúdo emocional dirige-se a Christian, justificando seu suicídio pelos abusos sexuais do pai terem retornado em seus sonhos. Neste momento, surte efeito a revelação: não há mais como desqualificá-la, agora é a voz da irmã suicida que fala. A festa chega ao fim, os convidados ocupam seus quartos no hotel para partir no dia seguinte como o previsto. 
 
 

Durante a noite Michael vai à casa de pai e agressivamente responsabiliza o pai pela infelicidade que vivem os filhos. É Michel, a “ovelha-negra da família” mas, ao mesmo tempo o representante do establishment social burguês, o marido machista, o irmão racista, o filho mal-criado, que confronta o pai e o condena pelos atos cometidos contra o irmão Christian.

 
 

Na manhã seguinte os convidados estão tomando o café da manhã e o Sr. Helge pede a palavra e assume publicamente suas ações passadas. A matriarca nada fala, acusada antes de nunca ter feito nada contra os abusos do marido, novamente se cala. O filho Michael pede que ele se retire para que o café transcorra normalmente e o filme acaba, abruptamente, com a imagem do rosto de Christian.


 
 
 
 

A família de Helge

 

Percebe-se estes encontros das famílias enquanto uma das formas ou estratégias tradicionais dos indivíduos que buscam ordenar as mudanças e reformulações da vida cotidiana agregadas à permanência de determinados padrões sociais e culturais. Neste caso fílmico, realizado em finais da década de 90, em meio a grandes transformações sociais, resultantes do processo de globalização, observa-se a permanência deste contexto de ação mais tradicional. Percebe-se a importância da família como campo de análise e de investigação sobre a reordenação de padrões sociais e culturais, quando sabemos da incidência atual de cerimônias tradicionais revestidas de novos componentes, como o Casamento ou as Festas de Família,


 
 
Segundo Anthony Giddens, as condições sociais modernas são marcadas tanto pelos processos da globalização, quanto da procura de contextos de ação mais tradicionais:
 
 
 

“ [...] A conexão {entre globalização e contextos de ação tradicionais] são as conseqüências desincorporadoras resultantes dos sistemas abstratos. Neste caso, as influências causais são complexas e estão ligadas ao caráter multidimensional da modernidade. [...] Tradição diz respeito à organização de tempo e, portanto, também de espaço: é o que ocorre também com a globalização, exceto pelo fato de que uma corre em sentido contrário à outra. Enquanto a tradição controla o espaço mediante seu controle do tempo, com a globalização o que acontece é outra coisa. A globalização é, essencialmente, a “ação à distância”; a ausência predomina sobre a presença, não na sedimentação do tempo, mas graças à reestruturação do espaço.” (1997, p.118)


 
A busca por ações mais tradicionais inclui rever “as suas origens” e entende-se como origens a busca de um espaço capaz de formular normas de vinculação. Portanto, rever esse contexto tem como finalidade pensar na proposta que as Festas de Família traz – uma forma criativa dos indivíduos de reordenar a tradição sob a possibilidade de rever a si mesmo a partir de uma identidade compartilhada e os seus sentimentos pessoais.
Essa questão é abordada por Gilberto Velho (1995), quando trata do estilo de vida urbano contemporâneo:

 
 
“[...]as crenças e valores tradicionais não desaparecem necessariamente diante da expansão das ideologias individualistas modernizantes. O fato da sociedade ser, por natureza, multidimensional e heterogênea produz alternativas e cria novos domínios. A não-lineraridade e multidimensionalidade dos processos socioculturais é maximizada nos centros urbanos cuja principal característica é a geração de estilos de vida e visões de mundo diferenciados que, no limite, levam à experiência da fragmentação.”

 
As cenas do filme acenam precisamente para essa situação, podendo ser observada com intensidade nas relações geracionais. Enquanto o pai, o Sr. Helge, apresenta-se como um virtuoso pai, renomado profissional e adepto à doutrina da maçonaria, os filhos mostram-se irreverentes diante das expectativas e projetos que os pais neles depositaram. O filho mais moço foi mandado à Suíça para aprimorar os estudos, mas não os concluiu; Christian, que seria o sucessor do pai nos negócios, foi para Paris e era proprietário de um restaurante; e a filha Heléne, por fim, segundo os desejos do pai seria advogada, havia optado por ser antropóloga. Essa descontinuidade nos processos socioculturais familiares denota a diferenciação da vida social que tem como características a não-linearidade e a grande autonomia de mundos e domínios específicos.

 
 
A aparente família bem estruturada, bonita, bem vestida; o pai deliberando e exigindo rigorosamente um comportamento formalizado dos filhos na sua festa de 60 anos, apresenta um modelo em uma dimensão maior, exterior, que dá conta da exposição da família à sociedade. É, na verdade, o estereótipo da família, onde se tem os filhos bonitos e realizados, os pais orgulhosos do cumprimento do dever. Já numa dimensão interna, mais íntima, as relações fogem drasticamente aos padrões do que está socialmente estabelecido: Michel e sua esposa brigam, ele tem uma amante; há algo a ser investigado no quarto da irmã morta; o filho primogênito que ainda não casou; a irmã que namora um homem negro. Enfim, o filme se faz nessa luta entre o maior e o menor,o aparente e o vivido; o exterior, o que os outros vêem e o interior, o que cada um pensa e vive na família, nas suas experiências concretas. 

 
 
Em "Festa de Família" Vintenberg parece fustigar a velha e tradicional família patriarcal, rigidamente estruturada. E ele traz no entorno do drama narrado, a dificuldade de lidar emocionalmente com as tensões vividas em família. Entre elas, aparece o conflito maior, os abusos sexuais do pai aos filhos. Entra-se aqui em dois dos mais fortes tabus humanos: o incesto e a pedofilia. José Carlos Rodrigues, analisa o tabu a partir da seguinte interpretação:
 
 

“ (...) O tabu isola tudo que é sagrado, inquietante, proibido ou impuro; estabelece reserva, proibições, restrições; opõe-se ao ordinário, ao comum, ao acessível a todos. As pessoas e objetos tabu são sede de extraordinária energia e de uma força incomum – espécie de carga elétrica que se abandona incontinenti sobre o transgressor ou sobre aquele que não se muniu dos cuidados rituais de conduta diante do objeto sagrado. A característica principal do tabu é a de que não existem mediações entre a transgressão e a punição, derivando a segunda automaticamente da primeira. (RODRIGUES, 1979:26)


 
No filme, Christian ao trazer a tona o tabu do incesto (agravado pelo da pedofilia, pois os irmãos sofreram este abuso sexual quando crianças), é sistematicamente desqualificado como louco, ou seja, demonstrando que a família e a sociedade (representada pelos convivas que participam da festa) prefere qualificá-lo como louco antes que o segredo, o indizível, o proibido e inquietante ato paterno seja admitido socialmente. Interessante observar a última tentativa de calar Christian: levá-lo para a floresta que está na cercania da casa e amarrá-lo a uma árvore. O ato de Christian, revelar algo que é tabu, delatar o segredo, ameaça de tal forma a sociedade (burguesa) que ela, simbolicamente, o retira da ordem da cultura, da civilização (representada pela casa/mansão/hotel) e o joga na ordem da natureza. Como que invertendo esta problemática conflituosa, pois é o pai que atua de forma animalizada e não civilizada, a sociedade burguesa se sente ameaçada não pelo ato em si mas pela revelação desta desordem interna, pela explicitação do verdadeiro conteúdo familiar em vez da manutenção das aparências virtuosas.

 
 
 
 

A Festa vista como ritual

 

O filme traz “etapas” bem marcadas no evento. Há também o papel de um chefe de cerimonial, encarregado de estabelecer esses “tempos” ritualísticos. 


 
 
Compreende-se Festa  de Família como um acontecimento que tem se tornado freqüente na sociedade contemporânea. O evento apresenta o aspecto ambíguo da busca dos indivíduos da sua ancestralidade em meio ao mundo moderno, onde a valorização da individualização parece tornar as pessoas menos vinculadas a formas locais e fixas de solidariedade. 
 
 

Vistas como rito - que busca revivificar ou engendrar novas formas identitárias, sob novos comportamentos, com as recomposições familiares requeridas pelas situações contemporâneas – as Festas de Família podem ser percebidas como instrumento de aprendizagem das tradições familiares, implicando desse modo a continuidade das gerações, dos grupos etários ou dos grupos sociais dentro dos quais elas se produzem.

 
 

O rito é um conjunto de atos formalizados, expressivos e portadores de uma dimensão simbólica que tem o sentido estabelecido a partir da ordenação que propõe à desordem. Tem na sua essência a mistura do tempo individual e o tempo coletivo e as suas ações simbólicas são manifestadas por emblemas sensíveis, materiais ou corporais.


 
 
Ao se perceber a festa com tempos e ações bem definidos, teatralizados, observa-se a força emocional que agrega os participantes. A ruptura desses tempos, ou a troca do “texto” que o ritual propõe, também assume uma dimensão muito além do que seria se, a situação em que ocorresse, não estivesse inserida num processo rituaístico.

 
 
As etapas que o filme propõe iniciam com a recepção aos convidados pelos filhos do homenageado. A seguir, os convidados foram dirigidos a um salão onde se estabelece um ambiente de sociabilidade e onde circulam, pela mão de garçons e garçonetes, canapés e bebidas variadas. Após um tempo, entra o aniversariante acompanhado da esposa e é recebido com palmas, abraços e cantos. 

 
 
 

Segundo Segalen (2002:110), 
 
 
 

“[Um determinado número de critérios]. É preciso que sejam repetidos, coletivos, comportem uma forma qualquer de injunção, e que o mediador do ritual assuma a forma de alguma coisa consumida em comum, bebida ou comida.”
 
A seguir, todos passam à sala onde será servido o almoço, com a mesa disposta de uma maneira que todos interajam e que o homenageado e a esposa ocupem um lugar de destaque. As bebidas são servidas pelos garçons e iniciam os discursos que deveriam ressaltar qualidades ao homenageado.
 
 
Os oradores dos discursos estavam pré-determinados, sendo que havia uma ordem hierárquica estabelecida: o aniversariante fez os agradecimentos à presença e à importância de estar compartilhando com os presentes aquele momento. A seguir, solicita a palavra o filho primogênito que foge ao que propõe um discurso de homenagem: ele solicita ao pai que escolhesse entre dois textos que havia preparado – “os banhos de papai” e “histórias de papai” . O pai escolhe um e ele discorre a verdade sobre o passado. Na seqüência,  o avô propõe um brinde com a tentativa de eliminar o mal-estar causado pelas declarações de Christian. A partir desse momento, percebe-se que não há mais continuidade ao ritual, instaura-se o caos.

 
 
 
 
 
Conclusão
 

O filme “Festa de Família” traz um cruzamento intenso de situações que propiciam muitas reflexões. A análise centra-se, resumidamente, em três aspectos básicos: a proposta cinematográfica do grupo Dogma 95, a narrativa sobre o filme e as tensões que comportam as relações sociais e familiares dentro de um contexto específico de um estilo de vida dinamarquês urbano-contemporâneo e, por fim, a festa enquanto um rito que propõe exteriorizar um sentido de coletividade e estabelecer a reordenação de valores que permeiam as relações interpessoais envolvidas, enquanto mostram-se em eventos próprios para a resolução de conflitos e tensões mais amplas.

 
 
A dimensão que emerge do texto proposto leva a uma reflexão sobre as instituições sociais mais próximas aos indivíduos, enquanto responsáveis pela construção das formas de compreender e sentir a vida. Nessa forma de experimentar a vida, ao ser revelada, traz o impacto, pois agrega-se às muitas denúncias, entre elas, a de dramas como abuso sexual na infância que se ouve, mas não os colocam dentro de um espaço que comporta, na coletividade, a imagem do “sagrado”.
 
 
Contundente crítica aos valores familiares burgueses, o filme Festa de Família causou polêmica em festivais internacionais e atingiu a aprovação da crítica e do público, recebendo vários prêmios.

 

Notas

O presente artigo é fruto de aspectos que permeiam o estudo que está sendo desenvolvido para a defesa de tese de doutoramento em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS) sob orientação da Profa. Dra. Cornelia Eckert.
Utiliza-se o conceito de festa a partir da noção de Villadary (1968:12): “Nous verrons plus loin que la fête relève à la fois de l’institution la plus réglementée et la spontanéité la plus inattendue. Em tant que phénomène social, elle possède dês règles, dês lois, une logique propre, qu’il est aisé de retrouver dans la plupart dês cérémonies et dans nombre de sociétés au cours de l’histoire. Partout, lês fêtes provoquent dês rassemblements, elles unissent dês groupes et dês gens quotidiennement separes ou éloignés par lês obligations et lê travail, l’espace, lê temps


 
Bibliografia:
BECK, Ulrich. “The Cosmopolitan Society and its enemies”. In: Theory, Culture and Society. London: Sage, 2002.
BOTH, Elizabeth. Família e rede social. RJ: F. Alves, 1976.
FESTA DE FAMÍLIA. Título Original: Dogme 1 – Festen. 106 minutos. Dinamarca, 1998. Distribuição: October Films. Direção Thomas Vinterberg. Roteiro: Mogens Rukov e Thomas Vinterberg. Produção: Brigitte Hald. Direção de Fotografia: Anthony Dod Mantle. Edição: Valdis Oskarsdóttir
GIDDENS, A., BECK, U., LASH, S. Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. SP: UNESP, 1997.
RODRIGUES, José Carlos. O Tabu do corpo. RJ: Achiamé, 1979.
SEGALEN, M.Ritos e Rituais Contemporâneos. RJ: FGV, 2002.
VELHO, G. “Estilo de Vida Urbano e Modernidade”. In: Estudos Históricos, vol.8. RJ, 1995.
VELHO, G. Individualismo e Cultura: Notas para uma Antropologia da Sociedade Contemporânea. RJ: Jorge Zahar, 1997.
VELHO, G. Subjetividade e Sociedade: uma experiência de geração. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
VILLADARY, Agnès. Fête et vie quotidienne. Paris: Les Éditions Ouvrières, 1968.

Webgrafia
www.festen-lefilm.com
www.octoberfilms.com/thecelebration 


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