.
A
intenção deste trabalho é lançar um olhar sobre
as mensagens informadas pelas revistas femininas juvenis para entender
de que forma estas mensagens se tornam referências do mundo social
de meninas na faixa de 10 a 19 anos e que aspectos da cultura de massa
podem ser percebidos nestas referências. Mais especificamente queremos
entender, neste momento, como a questão da sexualidade feminina
é tratada nas mensagens classificadas pelas revistas como de “comportamento”
e em que medida certos aspectos da dominação masculina estão
presentes no discurso destas revistas que fazem parte do contexto da cultura
de massa.
Neste
sentido, nossa base empírica compreende o estudo de quatro revistas
de circulação nacional (Capricho, Atrevida, Toda Teen e Smack!)
de caráter bastante semelhante, tanto no conteúdo quanto
na forma de estruturação editorial, bem como no preço
de venda em banca de jornal. Assim como o conteúdo e a estruturação
editorial, a forma gráfica também é bastante semelhante:
todas apresentam textos curtos, fotografias e ilustrações,
cores quentes e uma diagramação de página que segue
a tendência estética dos websites na Internet. Percebemos
ainda que em todas as revistas estudadas a linguagem coloquial tem uma
presença marcante que aponta para a pretensão de uma certa
intimidade entre enunciador e leitor.
Tomando
por base as informações disponíveis nos websites das
editoras, verificamos que as revistas se dirigem a um tipo de público
específico, feminino, cuja abrangência etária está
entre 10 a 19 anos, e que, em certo sentido, está de acordo com
a construção moderna da fase adolescente.
“O
primeiro adolescente moderno típico foi o Siegfried de Wagner:
a música de Siegfried, pela primeira vez exprimiu a mistura de pureza
(provisória), de força física, de naturismo, de espontaneidade
e de alegria de viver, que faria do adolescente o herói do nosso
século XX, o século da adolescência” (ARIÈS,
P., 1981, p-46).
Segundo
Morin, “pode-se considerar que quatorze anos é a idade de acesso
à cultura de massa adulta: é a idade em que já se
vai ver filmes de todos os gêneros (exceto, evidentemente, os censurados
, em que já se fica apaixonado pelas revistas, em que já
se escutam os mesmos programas de rádio ou de televisão que
os adultos” (MORIN, E., 2002, p-39).
Assim,
os possíveis interlocutores com os quais as revistas “dialogam”
são os que na perspectiva moderna ocidental, podem ser situados
numa fase de transição - entre a que se considerou infância
e a que se pode chamar de maturidade. Pelo conteúdo das mensagens
analisadas, percebemos que as revistas trazem informações
sobre as várias maneiras de desempenhar papéis nos grupos
sociais (família, escola, grupos de amigos, etc.). Nas palavras
de Goffman (2001), na cotidianidade estamos sujeitos
a várias formas de representação do “eu” e esta representação
ocorre de forma consciente ou inconsciente, de acordo com um cálculo
prévio que fazemos sobre as expectativas dos outros atores sobre
nós.
Acreditamos
na possibilidade das revistas se tornarem uma referência do mundo
social deste público porque, entre outras razões, elas fazem
a mediação entre um enunciador que tenta se apresentar como
sendo “adolescente” que se dirige a um possível grupo de leitores,
cujos dilemas e anseios são semelhantes.
Neste
sentido, percebemos que as revistas buscam um certo reconhecimento do seu
discurso pelos leitores, principalmente porque com muita freqüência
os “adolescentes” são os próprios enunciadores, ou seja,
são os que contam sobre seus dilemas e anseios, são aqueles
que fazem parte do mesmo mundo social do público para o qual a revista
se destina.
Desta
forma, a capacidade de persuasão deste tipo de mensagem da cultura
de massa é potencializada porque este público se encontra
numa fase da vida em que, segundo Morin (2002), sua personalidade social
ainda não está cristalizada e o adolescente busca uma conciliação
das várias formas de representação do “eu” com a procura
de integração social.
Na medida em que as revistas
são uma espécie de manual para aceitação e
obtenção de distinção social de um certo público,
elas definem se este público está ou não de acordo
com a moda e trazem informações sobre formas certas e erradas
de comportamento. Supomos que elas se tornam uma referência que expressa
o mundo social deste público e que, ao mesmo tempo, é tomada
por ele como um referencial.
Referências
sociais na cultura de massa
Como
Morin observou,
“a cultura de massa
tende a integrar os temas dissonantes da adolescência em suas harmonias
padronizadas. Tende a instituir um ‘Olimpo dos menores de vinte anos’ com
Prometeus aprisionados em Ganymèdes. A cultura de massa arremata
a cristalização da nova classe de idade adolescente, fornece
heróis, modelos, panóplias. Ao mesmo tempo, tende a enfraquecer
as arestas, a atrofiar as virulências” (MORIN,
E., 2002, p-156).
Com
base nesta reflexão, modernamente podemos supor que, da mesma forma
que os antigos gregos encontravam nos deuses mitológicos a explicação
e a expressão de seu espírito, os indivíduos vivem
na cultura de massa encontram nas celebridades e na espetacularização
da indústria cultural uma oferta de referências, que em certo
sentido são normativas, e que estão disponíveis para
sua projeção e identificação, para informar
o seu padrão de comportamento e para situar sua posição
no meio social em que vive. Para Morin, a cultura de massa se revela como
cultura porque “constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens
concernentes à vida prática e à vida imaginária,
um sistema de projeções e significações específicas”
(MORIN, E., 2002, p.15).
Neste sentido, a cultura
de massa, gerada a partir da produção da indústria
cultural, da qual as revistas são um resultado, cria um sistema
de projeções e identificações específicas
tomando a imagem pública dos artistas que fabrica, ou dos que atingem
uma consagração no campo artístico da cultura, e coloca-os
numa espécie de “Olimpo”, ou seja, faz deles uma referência
social que transmite, segundo Serra & Santos (2003),
um estilo de vida ideal, perfeito, que interage com o público através
da sedução que desperta nas pessoas o desejo de mimetizar
os indivíduos famosos e bem sucedidos na sociedade.
A
revista feminina juvenil pode ser considerada um meio de comunicação
de massa, por suas características de uniformidade da mensagem transmitida
pelo mesmo meio a milhares de consumidoras, pela comunicação
unilateral sem possibilidade de resposta em pé de igualdade por
parte do espectador/receptor e pelo poder persuasivo da mensagem, baseado
na exaltação social da origem, ou seja, na autoridade simbólica
do próprio meio.
No
tocante à crítica à indústria cultural realizada
em 1947 por Adorno e Horkheimer, percebemos que as revistas em estudo,
que fazem parte do conjunto de meios de comunicação de massa
da contemporaneidade, podem ser um manual feminino “juvenil”, entre outras
razões porque ela oferece para o público leitor não
só a imagem das personalidades consagradas neste mundo social, mas
as formas de mimetizar a sua maneira de ser e de viver, bem como a própria
maneira de consumir a revista.
A
revista enquanto um manual é mais um dos produtos da indústria
da diversão, que é dirigida a um espectador que não
necessita de pensamento próprio, uma vez que o seu produto prescreve
toda a reação.
Por
outro lado, nas palavras de Morin (2002), a cultura
de massa não é uma cultura paralela às demais (religiosa,
erudita, política, nacional, etc). Trata-se de uma forma de cultura
que se integra as demais. Na contemporaneidade vivemos em uma sociedade
pluricultural na qual o indivíduo pode, ao mesmo tempo, trabalhar
no sistema financeiro, ser budista, torcer pelo Flamengo, freqüentar
salas de concerto de música “erudita”, fazer questão de assistir
“a novela das oito”; etc. Por isso podemos dizer que a cultura de massa
é universalizante e, ao mesmo tempo, é incorporada às
outras culturas. Desse modo, ainda que os meios de comunicação
efetivamente massifiquem a mensagem junto à massa de consumidores,
isto não significa que a cultura de massa reproduzida será
uniforme.
Entendemos
assim, que a cultura de massa, surgida a partir da sociedade industrial
moderna, se por um lado valoriza a individualidade por outro, permite um
certo grau de solidariedade social que é mediado pelos produtos
da indústria cultural.
Segundo
José Carlos Rodrigues (Inédito),
“a cultura de massa constitui assim uma espécie de território
comum, algo como um idioma partilhado entre os diversificados indivíduos,
grupos, classes sociais, nacionalidades, realidades regionais...”. De certo
modo pode-se dizer que a cultura de massa foi uma invenção
da modernidade para dar conta do processo de comunicação
entre os indivíduos diante do processo de desagregação
das esferas culturais e de individualização das relações
sociais que caracterizam a sociedade industrial. Assim, através
de produtos simbólicos, esta cultura gera uma certa “afinidade”
entre os “desagregados” que permite a comunicação, uma vez
que já não se é totalmente igual, mas tampouco totalmente
diferente.
Segundo
Zygmunt Bauman (1980) a uniformização
na cultura de massa decorre, não da diversidade das formas de representação
social dos diversos espectadores/receptores, mas da universalização
de certas condições de vida e situações sociais
que impedem a diversificação da seletividade da recepção.
Neste sentido, ao considerar a revista como um manual do jogo social
“juvenil” feminino – que informa regras para ganhar ou perder – estamos
considerando que a proposta de universalização dos comportamentos
femininos, contida nas revistas, se insere na prática da cultura
de massa e que seu sucesso depende da existência de uma homogeneidade
acrítica de adolescentes diferentes que se referenciam no mesmo
tipo de produto da indústria cultural consumido.
Percebemos
a partir de uma reflexão inicial acerca dos esquematismos da produção
industrial da cultura – que estabelecem um tipo de produto para cada tipo
de consumidor - que a existência de revistas femininas juvenis no
Brasil foi fruto da criação de uma indústria nacional
e do sucesso de uma segmentação do mercado editorial dividida
por gênero e por faixa etária, com o objetivo de atender um
grupo de consumidoras dispostas a se inserir no sistema da cultura de massa.
Renato
Ortiz (2001) demonstra que a partir dos anos 60, a indústria
editorial brasileira pôde se modernizar com a importação
de novos maquinários, o que repercutiu não só na qualidade
dos produtos existentes, como abriu a oportunidade de esta lançar
novos produtos para um mercado cada vez mais receptivo.
Percebemos
que a implementação de uma indústria cultural no Brasil
promoveu mudanças na forma de “relacionamento com a cultura, uma
vez que definitivamente ela passa a ser concebida como um investimento
comercial” (ORTIZ, R., 2001, p-144).
A
questão da sexualidade e da dominação masculina no
contexto das revistas
Segundo
Ortiz (2001), a Editora Abril, a partir dos anos 60
“busca atingir o público feminino, setorizando sua produção:
fotonovelas (linha já inaugurada anteriormente), costura (Agulha
de Ouro), cozinha (Forno e Fogão, Bom Apetite), moda (Manequim),
decoração (Casa Cláudia), assuntos gerais (Claudia).
Embora
venhamos a tratar deste assunto mais adiante, não poderíamos
nos furtar à reflexão sobre a existência de traços
de dominação masculina na estruturação deste
público feminino pela Editora Abril, nos anos 60.
Admitindo
que, assim como as revistas femininas adolescentes são, ou buscam
ser referências do mundo social deste grupo, estas publicações
dos anos 60 também eram ou procuravam ser as referências do
mundo social feminino da época.
Portanto,
o que estamos questionando neste ponto, não são quais eram
as referências dos anos 60, mas por que estes assuntos (fotonovelas,
costura, cozinha, moda, decoração e assuntos gerais) eram
tratados pela Editora como femininos, por que uma destas revistas não
poderia tratar de mecânica, por exemplo, já que muitas mulheres
dirigiam na década de 60, que fora muito marcada inclusive por diversas
“conquistas”?
Na
tentativa de responder a estas inquietações vejamos o que
Bourdieu (1999) nos diz:
“Magnífica
recordação, tornada possível pela comparação
com esta espécie de efeito Pigmalião invertido ou negativo,
que se exerce tão precoce e tão continuamente sobre as mulheres
e que acaba passando totalmente despercebido (sendo, por exemplo, na maneira
pela qual os pais, professores e colegas desestimulam – ou melhor não
estimulam – a orientação das moças para certas carreiras,
sobretudo as técnicas ou científicas: ‘Os professores dizem
que somos mais frágeis e então...acabamos acreditando nisso’,
‘Passam o tempo todo repetindo que as carreiras científicas são
mais fáceis para os meninos, então, forçosamente...).
E compreendemos que, por essa lógica, a própria proteção
‘cavalheiresca’, além de poder conduzir ao seu confinamento ou servir
para justifica-lo, pode igualmente contribuir para manter as mulheres afastadas
de todo contato com todos os aspectos do mundo real ‘para os quais elas
não foram feitas’ porque não foram feitos para elas” (BOURDIEU,
P., 1999, p-77)
Pretensamente
definidas como uma fonte de informação para meninas, vimos
que as revistas podem ser referências do seu mundo social e que portanto,
elas abordam determinados assuntos que parecem interessar este público
como, por exemplo, testes de personalidade, dicas de moda e beleza, notícias
de celebridades da TV e do Cinema (o que usam, o que fazem, lugares por
onde viajam, os seus gostos…), horóscopo, sexualidade e anúncios
de roupas, calçados, produtos de beleza e acessórios.
No
conjunto de revistas analisadas, escolhemos quatro reportagens cujo conteúdo
aborda a questão da sexualidade feminina e seu comportamento afetivo.
Assim, queremos entender neste momento, como as mensagens consideradas
pelas revistas como sendo de “comportamento”, tratam a questão da
sexualidade feminina e como o conteúdo destas mensagens se relaciona
com o contexto da cultura de massa e, em que medida, a questão da
dominação masculina analisada por Pierre Bourdieu (1999)
aparece no discurso destas revistas. As reportagens escolhidas se referem
às edições de maio de 2006 das quatro revistas analisadas
(Capricho, Atrevida, Toda Teen e Smack!), por serem edições
que entre outros assuntos trata a questão do dia dos namorados (12
de junho).
A
primeira delas é “Cama para dois”, publicada em Capricho. A escolha
da matéria em discussão se deu não apenas por observarmos
que esta, na categoria comportamento, ocupa maior extensão em relação
às outras, mas principalmente, por considerarmos esta a matéria
que contém uma quantidade de informações sobre a questão
da afetividade que supera as demais da mesma edição. A matéria,
que ocupa cinco das 116 páginas da revista, está na sessão
– Vida Real.
A
primeira página é composta pelo título na cor vermelha
e em tamanho maior do que os outros textos e por um pequeno texto que reafirma
o título: “sonho de consumo: cama de casal no quarto com livre acesso
para o namorado. Quase todo mundo quer. Mas como funciona mesmo?” Ao lado
deste texto vemos a foto de um cartão de papel que contém
várias dobraduras que se abrem para formar um quarto em tons pastéis
em cujo centro está uma cama de casal. Discretamente aparece a inscrição
“no travesseiro ao lado”, seguida de uma seta que aponta para o outro travesseiro.
A
matéria começa com fotos de meninas de 17 a 22 anos com seus
respectivos parceiros, que “na vida real”, obtiveram autorização
dos pais para leva-los para dormir em casa. Relevante destacar que o tratamento
fotográfico dado aos entrevistados pela revista, é o mesmo
que se observa nos anúncios de moda. Assim, observamos que as fotos,
tanto as das pessoas da “vida real”, quanto as das que trabalham como modelos
fotográficos, obedecem um mesmo critério estético.
Se por um lado isso confere beleza à fotografia, por outro homogeneíza,
num mesmo discurso, modelos profissionais e “atores da vida real”.
Além
das fotos, a matéria traz depoimentos das meninas sobre a questão.
Traz também os conselhos da revista para que a leitora que, assim
como as meninas da matéria, já conquistou esta autorização,
possa
manter o “direito de levar o seu lindo para dormir em casa”, assim como
seis tipos de argumentos diferentes para aquela que ainda não conseguiu
a autorização, iniciar a conversa com os pais.
Os
tipos são sugeridos em tópicos cujo título está
centralizado na cor rosa e com tipologia diferente das demais sobreposto
à foto de um travesseiro. O título é seguido do texto:
“Não é fácil. A maior parte das famílias ainda
não deixa – e talvez nem vá deixar – seu namorado dormir
em casa. Mas existem alguns argumentos para, pelo menos, iniciar a conversa...”.
Percebemos neste ponto que a argumentação é precedida
por uma espécie de explicação editorial do assunto,
que se por um lado tenta consolar a leitora, por outro lhe informa sobre
métodos para a persuasão dos pais.
Vejamos
os tópicos onde percebemos as respectivas técnicas de persuasão
observadas:
-
“É mais seguro
estar em casa com um namorado que eles conhecem do que estar com meninos
que eles nunca viram”.
Técnica:
ameaçar os pais.
-
“Vai ser estranho no começo,
mas depois todo mundo se acostuma a tomar café da manhã juntos.
Pode ser até divertido”.
Técnica:
insistir até eles deixarem.
-
“Você fica mais responsável,
não vai querer desapontar seus pais já que eles lhe deram
esse voto de confiança”.
Técnica:
mostrar que tem responsabilidade.
-
“O namoro vai ser mais
verdadeiro. Ele vai conviver mais com a sua família. Conhecer você
melhor. Isso deixa tudo mais claro entre vocês”.
Técnica:
mostrar a seriedade da relação para os pais.
-
“Seus pais vão poder
participar mais da sua vida, já que você vai querer passar
mais tempo em casa”.
Técnica:
mostrar que os pais vão poder exercer mais controle.
-
“Os gastos diminuem e
as mentiras acabam. Você não vai mais ter que inventar histórias
pra ficar com seu namorado”.
Técnica:
mostrar que os pais vão gastar menos e que vão ouvir menos
mentiras.
Podemos
perceber que ao inserir esta matéria na sessão: Vida Real,
a revista Capricho busca, de uma certa forma, uma aproximação
com uma certa realidade que está presente no mundo social do seu
público, principalmente quando ele é o entrevistado. Das
três meninas entrevistadas, uma delas, de 17 anos, ficou grávida,
mas segundo a matéria, a gravidez não se revelou problema
para ela ou para a família que, ao contrário “deu força”.
Neste sentido, percebemos que se por um lado o tratamento da matéria
busca a legitimidade do mundo social da leitora, por outro é capaz
de dizer como a vivência sexual se torna um sonho de consumo e com
quais direitos e deveres ela deve ser exercida.
A
segunda matéria escolhida está na revista Atrevida. Sob o
título “Amor tamanho família” ocupa duas das 124 páginas
da publicação. A primeira mostra uma foto da atriz Paola
Oliveira – que na novela “Belíssima” da Rede Globo vive a história
de uma personagem que é apaixonada pelo primo, interpretado pelo
ator Cauã Raymond. Fazendo referência ao contexto da trama
amorosa da novela, a atriz segura um coração com a foto do
ator. Logo após o título, uma caixa de texto traz em destaque
a seguinte mensagem: “Se apaixonar por um primo (e vice-versa) é
muito comum. Se está vivendo uma experiência dessas, veja
o que fazer para não entrar numa roubada”.
A
matéria então continua na página seguinte trazendo
depoimentos de especialistas, uma psicóloga e um hematologista e
depoimentos da atriz e de uma menina de 14 anos que manteve um namoro com
o primo durante um ano, terminado por conta das dificuldades na família.
O depoimento da atriz Paola Oliveira, “a gente sabe que o amor entre primos
é algo muito comum, que sempre rola (...)”, em certo sentido reafirma
o título da matéria da revista e faz uma espécie de
mediação entre aquilo que a revista resolve considerar próprio
do interesse do mundo social de seu público e o universo ficcional
da novela, outro produto da indústria cultural que também
trabalha com as relações de projeção-identificação.
A
noção de família e a proibição ou permissão
de casamentos em um dado grupo são questões complexas associadas
a determinadas formas de parentesco que variam de cultura para cultura.
No entanto, o que nos interessa aqui é destacar que a matéria
estabelece uma espécie de diálogo com a novela, mostrando
como ela é parecida com a “vida real”, e como é fácil
a leitora se identificar com o que está assistindo ou lendo. Todavia,
na medida em que ela insere depoimentos de pessoas que viveram a mesma
questão e quando acrescenta informações científicas
sobre o assunto, percebemos novamente, assim como na matéria anterior
uma busca de legitimação do discurso e uma normatização
para a vida afetiva. Como na revista Capricho, a matéria de Atrevida
traz conselhos que pretendem ensinar a sua leitora como lidar com esta
situação “muito normal”.
A
terceira matéria, que está na revista Toda Teen, traz o título
“40 Dicas para conquistar...”. Em tipologia menor segue o subtítulo:
“... um gato e passar o dia dos namorados bem acompanhada”. A matéria,
que ocupa três páginas das 84 da revista foi escolhida por
ser a única que trata da questão do Dia dos Namorados, bem
como por supormos que estas “dicas” nos ajudariam a compreender a forma
pela qual as revistas podem se tornar um manual do jogo social “juvenil”
feminino. As dicas são precedidas de uma foto com um casal de jovens
modelos se beijando e seguem em ordem numérica. A matéria
termina com dicas de pessoas famosas (Felipe Dylon, músico, os atores
Marco Antônio Gimenez e Dado Dolabella e a atriz Daniele Suzuki),
acompanhadas de suas respectivas fotos precedidas de um pequeno título
na cor rosa com fundo magenta dizendo: “vai na deles”. Percebemos que,
se por um lado, assim como na matéria anterior da revista Atrevida,
esta matéria procura fazer a mediação entre a ficção
e a realidade, ela também toma os depoimentos destes agentes da
cultura de massa como uma espécie de referência para o alcance
do sucesso social.
Neste
momento, reunimos algumas “dicas” nas quais acreditamos ser possível
observar tanto uma espécie de discurso normativo das regras do jogo
afetivo que prescreve o que é permitido ou proibido, quanto alguns
elementos próprios da dominação masculina, principalmente
no que diz respeito à mulher enquanto ser percebido.
Iniciamos
com a dica número 22: “O garoto puxou um papo, converse naturalmente
com ele. Seja você”. Inicialmente percebemos que a revista aponta
para a valorização de uma certa subjetividade da leitora,
todavia esta valorização é desconstruída na
medida em que o uso do imperativo dos verbos conversar e ser estabelece
aquilo que a leitora deverá fazer para conquistar o parceiro, ou
seja, percebemos que o discurso aponta para um tipo de pensamento “seja
você, mas se quiser arranjar um namorado você tem que ser natural”.
Vejamos
a “dica” número 20: “Faça o jogo do ‘tô te sacando,
mas estou de boa’. Como funciona? De longe, olhe para o menino quando ele
tiver conversando com os amigos. Uma hora ou outra ele vai olhar para você.
Quando isso acontecer, dê um sorrisinho e desvie o olhar”. Nesta
“dica”, percebemos uma espécie de receita que prescreve toda a situação
e ainda explica exatamente o que a leitora deve fazer, e como fazer, para
ser percebida, bem como para ter sucesso na conquista de um parceiro para
o Dia dos Namorados.
Outra
“dica”, número 26: “Mas nada de beijar assim que estiverem sozinhos.
Causar uma certa insegurança vai prender a atenção
do menino e deixá-lo ansioso”. Nesta “dica”, ao contrário
das duas anteriores percebemos a existência de um discurso que, se
por um lado proíbe a leitora de beijar rapidamente seu parceiro,
por outro lhe oferece recompensa no jogo afetivo. Outra proibição
pode ser observada na dica número 29: “Ou seja, nada de cenas de
ciúme, provocações e cobranças”.
Para
Bourdieu (1999), tudo na gênese do habitus
e nas condições sociais de sua realização concorre
para fazer da experiência feminina do corpo o limite da experiência
universal do corpo-para-o-outro: incessantemente exposto à objetivação
operada pelo olhar e pelo discurso dos outros. Neste sentido, vejamos algumas
“dicas” que tratam a questão da percepção:
-
Dica número 3: “Não
descuide do visual em momento algum, nem pra ir à padaria. Vai que
você encontra ele lá?”
-
Dica 32: “Demonstre que continua
sendo uma menina antenada e que se cuida. Ele vai perceber que você
é uma menina especial e diferente das outras garotas”.
-
Dica 36: “Faça questão
de ficar linda sempre (sempre mesmo) que saírem”.
Assim,
observamos que a matéria traz informações não
apenas sobre as maneiras de agir, mas indica a sob que condições
a menina será percebida pelos meninos, ou seja, qual o padrão
estético ela deverá seguir e como ela deve se comportar diante
do sexo oposto.
Desta
forma, por supor que a revista pode ser uma das referências sociais
deste público acreditamos que a valorização deste
tipo de informação pela revista pode ser decorrente das reações
ou das representações, que segundo Bourdieu (1999), o corpo
feminino suscita nos outros e na própria percepção
do seu corpo pelas meninas. Neste sentido, suas reações são
elas mesmas, construídas sobre esquemas de percepção
de si, do outro e de si a partir do outro, nos quais as meninas depositam
suas estruturas fundamentais (sucesso/fracasso, forte/fraco, etc).
A
quarta e última matéria em análise está na
revista Smack!. A escolha desta matéria se deve ao fato de ser a
de maior extensão na edição, no que tange ao comportamento
afetivo. A matéria ocupa quatro das 68 páginas da revista
e traz o título “Tinha que ser ele?!”, em letras maiores que as
demais e na cor roxa. A página seguinte mostra o subtítulo:
“O que acontece quando o cara de quem você está a fim é
justo o amigo do seu irmão”. A matéria é ilustrada
com desenhos que reforçam o conteúdo do título, mostrando
em close uma menina em meio aos vários corações na
cor rosa e um pouco atrás, dois meninos que apertam às mãos
e olham para a menina.
A
matéria conta com depoimentos de meninas que se relacionaram afetivamente
com os amigos se seus irmãos, bem como traz uma “explicação”
de uma psicóloga que tenta demonstrar por que estes relacionamentos
podem ser freqüentes e como a leitora pode lidar com a questão.
Entre
as afirmações da profissional destacamos: “é muito
comum que a irmã mais nova tenha alguma quedinha por alguém
da turma do irmão”. Neste sentido, podemos perceber que o discurso
técnico-científico utilizado por este meio de comunicação
de massa, confere uma certa normalidade que de certa forma, segundo Serra
& Santos (2003), “cumpre uma função de sedução
e legitimação, trabalhando a concepção de moral
do certo e do errado, premiando os que acertam e seguem à risca
os mandamentos da ciência e culpando os que erram e não os
seguem”.
A
página seguinte oferece três tipos de irmão:
-
“O anjo da Guarda” – quando
o irmão é favorável e colaborativo com este tipo de
relação.
-
“O (quase) diabinho” –
quando o irmão é um censor do relacionamento.
-
“O futuro companheiro”
– que indica uma espécie de meio termo entre os tipos anteriores.
Cada
tipo é ilustrado com desenhos da menina com o respectivo irmão,
cujas expressões variam segundo o tipo determinado. A matéria
termina com um teste que propõe à leitora descobrir se o
seu irmão é do tipo aliado ou inimigo: “Descubra se, na hora
da paquera, seu irmão está no seu pelotão ou do outro
lado do front”. O teste conta com cinco perguntas sobre o assunto e apresenta
três resultados possíveis para a tipificação
do irmão: aliado, neutro, inimigo.
Percebemos,
que matéria aborda determinados parâmetros de proximidade
e de distanciamento afetivo e que tal distância pode ser manipulada
pelo discurso midiático na medida em que determinadas posições
são tipificadas no campo da disputa simbólica. Segundo José
Carlos Rodrigues (1980), “cada modalidade de relação
social envolve distância; e toda relação social é,
de certa forma, uma manipulação de posições
que se situam em pontos diferentes do espaço social”.
Com
base nas matérias analisadas e no material bibliográfico
em referência, percebemos que a tipificação dos atores
sociais em categorias pode indicar se as revistas criam ou se referenciam
em determinados modelos de personalidade, ou de comportamento, e que estes
modelos informam como falar, o que falar, como se mostrar socialmente,
como seduzir, o que ler, etc. Estes modelos identificativos fazem parte
da cultura de massa, a qual, segundo Morin (2002),
dirige-se naturalmente para a promoção dos valores femininos.
A mulher modelo desenvolvida
pela cultura de massa tem a aparência da boneca do amor. As publicidades,
os conselhos estão orientados de modo bastante preciso para os caracteres
sexuais secundários (cabelos, peitos, boca, olhos), para os atributos
erógenos (roupas de baixo, vestidos, enfeites), para um ideal de
beleza delgado, esbelto – quadris, ancas, pernas. A boca perpetuamente
sangrenta e o rosto pintado seguindo um ritual são um convite permanente
a esse delírio sagrado de amor, que embota, evidentemente a multiplicidade
quotidiana do estímulo.
(MORIN,
E., 2002, p-141).
A
partir da análise do pensamento de Pierre Bourdieu sobre o ser feminino
enquanto ser percebido, pressupomos que a presença da sexualidade
no conteúdo das revistas femininas inicialmente analisadas não
é gratuita.
Na
análise do conteúdo editorial verificamos que as revistas
informam um certo padrão de feminilidade disponível para
o consumo material e simbólico. Daí porque supomos que este
padrão conviva em certa tensão com o mundo social das meninas.
Percebemos
que a cultura de massa tende a integrar os temas dissonantes da adolescência
em suas harmonias padronizadas, fornecendo heróis, modelos, armaduras
e, ao mesmo tempo, enfraquecendo as arestas e atrofiando as virulências.
Vimos
que as revistas podem apresentar certos referenciais que supostamente contribuem
para a formação do padrão de gosto e que tais referenciais
evidenciados nas relações de consumo - material e simbólico
- de certos modelos de feminilidade ganham sentido nos diferentes níveis
sociais com os quais as revistas se relacionam a partir da importância
atribuída ao produto consumido.
Notas
Cabe
esclarecer que o texto de Edgar Morin foi escrito em 1962, num momento
em que os adolescentes nada tinham de “bem comportados”, daí porque
pensamos que esta “censura” elucidada pelo autor era relativa.
Entre
as fotonovelas editadas pela Editora Abril, está Capricho,
que somente anos depois, tornou-se aquilo que entendemos por uma
“revista feminina adolescente”.
Bibliografia
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