Eram
nove horas da noite quando finalmente cheguei em casa. Moro numa rua de
mão única bastante movimentada e bem perto de um shopping
center. Para entrar na garagem do meu prédio é preciso vencer
uma verdadeira corrida de obstáculos. Nunca sou a primeira, mas
sempre acabo cruzando a linha de chegada.
Assim que embiquei o carro na
entrada da garagem subterrânea vi meu filho adolescente conversando
com uma garota, sentada em sua bicicleta, em frente ao prédio onde
moramos.
Abri
a janela para dar um alô e meu filho gritou:
-
“Mãe! Essa é a garota do vaso!”
Olhei
para ela, uma garota bonita, muito graciosa em suas tranças, na
exuberante juventude de seus quatorze anos. Fiz um aceno para os dois e
desci a rampa até o subsolo feliz da vida. Com aquela frase, uma
pequena história havia se fechado e eu tinha sido o link, o elo
de ligação entre aquela garota e meu filho.
Neste
momento em que escrevo, estou na São Paulo de 2004, mas para explicar
esta história é preciso voltar oito anos no tempo e milhares
de quilômetros no espaço, até julho de 1996 em Israel,
o ponto no tempo-espaço em que os quatro jovens Yair Goldfinger,
Arik Vardi, Sefi Vigiser e Amnon Amir, fundaram uma nova empresa de Internet
chamada Mirabilis.
Os
quatro jovens perceberam, na época, que um número crescente
de pessoas interagia com servidores web, navegando, fazendo downloads,
trocando mensagens, porém esses milhões de pessoas estavam
conectadas à Internet, mas não estavam interconectadas. Faltava
apenas um elo perdido para que além de interagir com os servidores
toda essa gente pudesse interagir entre si. O elo perdido era a tecnologia
que permitiria que os internautas localizassem uns aos outros na rede e
criassem canais de comunicação
peer-to-peer (P2P,
ou de parceiro-para-parceiro, numa tradução livre), de forma
fácil, simples e direta. E foi assim que Yair, Arik, Sefi e Amnon
criaram a tecnologia pioneira de comunicação instantânea.
Quatro
meses depois de fundar a Mirabilis, foi lançada a primeira versão
do ICQ, letras cuja pronúncia
em inglês formam a expressão "I seek you" ou, "eu procuro
você". Imediatamente um pequeno grupo de usuários adotou o
programa e em pouquíssimo tempo uma reação em cadeia
gigante explodiu, fazendo com que centenas, milhares e centenas de milhares
de usuários adotassem o ICQ, gerando a maior taxa de download da
história da World Wide Web.
A
eficiência do aplicativo e as possibilidades de comunicação
instantânea on-line geraram o maior case de Word-of-mouse, a famosa
divulgação boca a boca. Não foi preciso anunciar o
ICQ, ele falava por si só. Seus usuários apaixonados tornaram-se
evangelizadores ferrenhos, divulgando o programa para todos os amigos,
parentes, conhecidos, tanto no mundo real quando no virtual.
A Mirabilis criou toda uma nova
filosofia de relacionamento que permite encontrar pessoas, saber se elas
estão ou não disponíveis, receber alertas quando elas
se conectam, além da troca de arquivos de imagem, texto, voz. Uma
nova linguagem surgiu com o ICQ, com terminologia própria. Sem contar
o som característico do oh-ho, reconhecido em qualquer
lugar do mundo.
Em
Maio de 97, segundo o próprio site, os adeptos do ICQ já
eram 850 mil. Novos serviços foram criados e oferecidos aos usuários,
na mesma velocidade que cresciam os downloads e os prêmios para o
serviço.
Dois
anos depois de ser fundada a Mirabilis foi comprada pela gigante America
On-line, criando o ICQ Inc. e tornando seus fundadores merecidamente milionários.
O
ICQ tornou-se a comunidade que mais cresce no mundo, o programa mais popular
entre todos os downloads de todos os tempos, a maior comunidade multilínguas.
Hoje, se você quiser se inscrever no ICQ como um novo usuário
seu número de registro, o UIN, Universal Internet Number, estará
acima dos 150 milhões.
Não
sei precisar em que ano conheci o ICQ, mas foi pelo rádio, ouvindo
um quadro sobre informática na rádio Jovem Pan AM. Em termos
de Internet, faz muito tempo, porque meu UIN tem apenas sete dígitos
e está na casa dos dois milhões (UIN - 2.748.040, ou para
ficar parecendo um número de telefone, 274 8040). Dentro da comunidade
do ICQ ter um número com sete dígitos ou menos denota um
certo ar garboso, pois prova que a pessoa aderiu relativamente cedo.
Hoje
existem muitos outros programas de comunicação instantânea
como o Messenger
da Microsoft, mais moderno e preferido por adolescentes de todo o mundo.
Há também o AIM e outros softwares. Mas o ICQ ainda tem seu
espaço no mundo da web.
Fato
é que esses quatro rapazes criaram a Mirabilis e o ICQ em Israel,
no ano de 1996, um programa que tenho até hoje instalado em meu
computador, com o mesmo UIN e sei encontrar qualquer pessoa que faça
parte deste imensa comunidade.
Foi
assim que reconheci um número num vaso de plantas na esquina do
meu prédio, numa manhã em que saí para correr pelo
bairro, como costumo fazer diariamente. Assim que vi o UIN escrito à
mão com giz de cera azul, sobre a tinta branca do vaso com uma palmeirinha,
simpatizei com a nova forma de comunicação. A pessoa que
usou o vaso para divulgar seu contato sabia que só quem fizesse
parte da comunidade ICQ reconheceria o código e saberia como encontra-la.
Não
costumo levar caneta e papel para correr, mas tenho o hábito de
carregar uma câmera digital muito fina, um dos primeiros modelos
da Casio Exilim, e decidi fotografar o vaso e o número para adiciona-lo
à minha lista quando chegasse em casa e fazer contato com a pessoa.
Assim
que terminei o percurso e cheguei em casa, conectei a câmera, subi
a foto e adicionei o número, que não estava on-line. Em questão
de minutos, um alerta me avisou que ela tinha acabado de se conectar.
Entrei
em contato com ela, me apresentei e disse que tinha visto seu UIN no vaso
de plantas. Ela achou graça. Disse que seu nome era Carol, que tinha
quatorze anos e morava no bairro, num prédio próximo ao vaso.
Pedi permissão para subir a foto no meu blog, divulgar seu icq e
contar a história. Ele permitiu. Conversamos mais um pouco e eu
disse que tinha um filho da mesma idade que ela. Carol disse que algumas
de suas amigas estudavam na mesma escola que ele, mas ela não o
conhecia.
A
foto fez sucesso no blog. Muitos dos leitores adicionaram Carol, conversaram
on-line com ela, fizeram amizade. Achei tudo muito simpático. E
quando meu filho chegou em casa, passei o contato de Carol no ICQ pra ele.
Os dois ficaram amigos, mas eu não soube do resto da história.
Até
o momento que cheguei em casa, com o carro, e vi meu filho com aquela garota
bonita, de tranças, sentada sobre sua bicicleta: a garota do vaso.
Nunca
pensei que um vaso de plantas numa esquina pudesse ser usado como mídia,
que um número fosse de fato universal, que dois adolescentes que
moram no mesmo quarteirão fossem virar amigos graças a quatro
jovens em Israel.
Mas
aconteceu. E essa é a beleza da comunicação.
Adoro correr. Adoro me comunicar.
Adoro a Internet.