"No Rio
do Samba e Batucada
do malandro e da mulata
em seus requebros
gentis".
(Aquarela Brasileira, Samba
Enredo do Grêmio Recreativo
Escola de Samba Império
Serrano, de Silas
de Oliveira, 1964)
Na cultura popular da cidade
do Rio de Janeiro, saltam à reflexão, dois personagens que
recebemos do passado, sendo possível preservar, restaurar e difundir
até hoje.sua origem nas relações de penetração
social e permanência. Tais personagens "míticos", construídos
num espaço de relações e confrontos entre as culturas
dominante e popular e com evidente raiz africana, movimentam-se articulando
e costurando, no conjunto de práticas corporais, as peculiaridades
que identificam seu povo no passado e na atualidade. Seu valor é
inquestionável e cabe pensar as tradições culturais
que expressam; são consenso coletivo e, como tal, bens culturais
intangíveis que diferenciam e evidenciam um jeito do ser do carioca.
São heróis sem capa ou espada e tem uma trajetória
não linear, repleta de acontecimentos diferenciados do padrão
considerado ideal para heróis. Estes mitos da cultura do Rio de
Janeiro são o malandro e a mulata. Para compreender os caminhos
que percorrem em sua dinâmica social no Rio de Janeiro, é
preciso observar o corpo em performance. Fica evidente que o movimento
de corpo solto e ágil presentifica a manutenção do
gesto ancestral africano e, mais especificamente, afro-carioca descendente.
A performance modelar aponta para normas de valores e condutas; uma síntese
de práticas corporais que também estão preservadas
em danças rituais e profanas sob outros vieses. Meneio de corpo
que associado ao ritmo, canto e dança vem servindo tanto ao trabalho,
à luta, à magia do ritual, ao fascínio da dança
profana, quanto à adaptação social.
Suas performances revelam,
além de um fim em si mesmo, a preservação de um lugar
histórico - o local de dançar o samba - o Mangue, nos anos
20. A forma de cadência sonora e ginga corporal revela-se como
uma prática social fixada no período em que se consolida
o samba urbano como música e, forma de dança enlaçada,
o samba de gafieira .
Desta forma, restauram costume e espaço ao apresentar seus padrões
estéticos e simbólicos.
Como símbolos, precisam
de palcos que os contenham e ao mesmo tempo lhes permita exercitar;
palcos para sua prática e permanência, vitrines para sua celebração.
Neste sentido, a dança do samba de gafieira abre-se como um sistema
ritualizado que estabelece um campo de permanência toda vez que é
performado.
É neste campo do samba
de gafieira como palco de performance e sobrevivência, que estudo
os "mitos" do malandro e da mulata.
Como os mitos estão
presentificados no corpo que dança?
O corpo, em performance,
além de tornar-se objeto da ação descritiva do mito
é, também e principalmente, a própria performance;
um fim em si mesmo. Os comportamentos são duplamente restaurados
e trazem em sua ação possibilidades de recriação
do antigo. Ao acontecer, o samba de gafieira apresenta duplamente
a performance corporal da cultura carioca: tanto uma eficiente ferramenta
e forma de legitimação da identidade abstrata e coletiva
- o mito -, como também uma performance estética do jogo
formal que acontece num tempo e espaço.
O malandro e a mulata são
mitos e, como tal, não são um "reflexo das condições
em que vive a grande maioria do povo", mas uma síntese metafórica
que sofre constantes escolhas e "transposições" de traços
e características que vão sendo selecionados ao longo dos
tempos. (Roger Bartra apud Canclini, 1997:
170) O que se observa é que estas matrizes corporais fixadas nestes
dois mitos afirmam a identidade de um grupo de brasileiros que se diferencia
dos demais; um grupo que, entre determinadas características, firma
um jeito peculiar de irreverência e de dançar e prefere, naturalmente,
o samba de gafieira.
O samba de gafieira consegue,
desta forma, resgatar constructos corporais pela ótica do Mangue,
onde foi forjado o mito da malandragem da mulata e do malandro; uma
certa imagem do carioca resgatada da cultura popular e de rua. Ao
mesmo tempo, os atuais bailes e festas populares apresentam na dança
do samba de gafieira, em conotações simbólicas e pelas
atividades do corpo, o significado de sua função contemporânea:
memória, prática e resistência. Os corpos, masculino
e feminino, que dançam o samba de gafieira surgem de uma construção
iniciada do fim do século XIX numa cidade identificada com a consagração
artística e o poder político, econômico e social. Neste
cenário antigos escravos procuraram inserir-se com seus costumes:
a macumba, o candomblé, a capoeira e os batuques, práticas
que não eram bem vistas em uma sociedade ávida de progresso
e civilidade em padrões europeus e franceses: uma "Paris dos Trópicos",
que deveria ser o cartão postal do país.
Antevendo a criação
do mito, o par já havia sido citado pelo padre jesuíta, conhecido
como Antonil, no século XVIII, "o Brasil é o inferno dos
negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos
...e das mulatas", em 1711.(apud revista Nossa História,
no. 3, 2004: 89)
O mundo popular urbano abre
caminho para a cultura negro-proletária de onde emerge o malandro,
que vive na orgia e no samba, bom na capoeira, na dança, esperto,
cheio de ginga e jogo: do carteado, da fala e do gesto. Via de regra
freqüentadores da vida noturna da cidade em bares tradicionais, o
malandro toca instrumentos musicais, principalmente o pandeiro e o violão,
além de cantar, compor sambas e dançar com perícia
e leveza; a mulata é a cabrocha que samba no pé e dança
com o seu parceiro.
MALANDRO
naquele tempo
atravessava a rua
um tipo de estranha ginga
pele e palavra morenas
movimentos felinos
luz negra em olhos de
gato
posso vê-lo no
meu sonho
jamais tocá-lo
não falo a sua
língua
ele entende a minha
me mostra a fronteira
entre o desejo e o mundo
e leva o desejo
como uma bandeira erguida
em meu sonho posso vê-lo
e nas festas da vida.
(Matos,
1982: 216)
Inicialmente, o malandro
é negro, pobre e transgressor. É carioca e habitante dos
inúmeros cortiços e favelas da cidade do Rio de Janeiro,
considerado preguiçoso pelas classes dominantes e, principalmente,
uma figura não confiável; na verdade, não é
honesto, nem ladrão - é malandro. Um dos principais
alvos de perseguição das políticas saneadoras e urbanísticas
da cidade, no início do século XX. Como sujeito do samba,
sabe como viver, não aceita empregos mal remunerados, considera-se
um "batalhador noturno" e usa o "samba como meio de auto-expressão";
se na origem portuguesa "malandro" é vagabundo, em outro sentido
malandro significa "bamba", palavra de origem Banto, que representa o "negociador,
um tipo de representante diplomático circulando entre os mundos
afro-brasileiro e a elite".
Este cidadão precário e alvo da cruzada antimalandragem,
corpo astuto e dançante, tem em si sua estratégia de sobrevivência.
Trata-se de um corpo esguio, habilidoso, usa navalha na barra da calça,
é rápido na finta e no ataque, por isso, temido e respeitado
pelos homens; está sempre bem vestido e perfumado e é bom
amante: logo, desejado pelas mulheres. Sabe ser galante e dançar
um bom samba de gafieira, com muita ginga e molejo; um bamba, considerado
extremamente perigoso. Usa bem seu corpo, seja na luta, na dança
ou no amor. Um ser da fronteira social e que também oscila entre
utopia e vida real, representa ao mesmo tempo os desejos e anseios populares
do "proletário, do negro, do oprimido" de ascensão social,
além de alimentar fantasias coletivas de viver pelo e para o prazer,
o "inimigo do batente". (Matos, 1982: 128)

MULATA
Não danço
tango
Nem swing e nem rumba
Gosto do choro
Do batuque e da macumba
Sou brasileira
Tenho a pele da cor de
sapoti
Gosto de samba porque
faz
Meu corpo sacudir.
(Quero um Samba, Wilson
Batista, s/d)
A mulata que dança
o samba de gafieira é também afro-descendente, alegre e portadora
de um belo corpo, generoso em curvas. Trata-se da cabrocha, da sambista
e porta-estandarte, da passista da escola da samba. Seus movimentos no
samba, tanto o samba no pé como no de gafieira, sempre têm
elementos da ginga, trejeitos de ombros e rebolado miudinho. Este corpo
feminino também é sensual; como o do malandro, sua imagem
está constantemente cercada de amores e crimes passionais. Faceira,
oscila entre dois tipos idealizados de mulher: a que sozinha sustenta considerável
número de filhos de antigos amores e a que dissimulada é
traidora e destruidora de homens e lares. Sua habilidade corporal
está em ser excelente sambista e conquistar os homens através
da dança, pelo seu requebro invejável. No andar, diferencia-se
das demais pelo passo miudinho
e rebolado.
Via de regra, são atribuídos à mulata dois padrões
de comportamento: o da figura feminina com poder e cruel frieza, ingrata
e traidora que abandona e destrói seu companheiro e o da "mulher
malandra", a mulher da orgia, que leva vida desregrada e transita sem pouso
fixo: que tem brilho e não é possível enquadrá-la
em qualquer tipo de comportamento porque é incontrolável;
rebelde às imposições da moral, amante da liberdade,
indiferente tanto ao bem-estar material quanto ao afetivo que a vida conjugal
lhe possa oferecer. Não se confunde com a prostituta, não
age por interesse financeiro ou à procura de segurança. Nestas
duas perspectivas o sujeito feminino é forte, tem caráter
ambivalente, dinâmico e vigoroso: a mulher livre e sensual é
mulher de ação e de movimento rítmico, promove o prazer
coletivo, não se pode tê-la. Não por muito tempo.
Quando ela dança
E com a mesma esperança
Todos lhe põem
o olhar...
Ela nasceu
Com o destino da lua
Para todos que andam
na rua
Não vai ser só
pra mim
(Quem há de dizer,
Lupicínio Rodrigues, s/d)
Ao dançar o samba
de gafieira mantém um duplo perfil que oscila entre a mulher submissa
que obedece ao comando do cavalheiro mas que, a qualquer momento, também
sabe usar da sua ginga e subverter a ordem de comando; como o malandro,
também considerada extremamente perigosa.
A figura da mulata é
confundida, nos anos 20 e 30, com a figura da baiana nos teatros de revista,
o que revela superficial conhecimento das matrizes negras. Uma das primeiras
aparições deste personagem é retratada na revista
Tim-Tim, de Souza Bastos, em 1893, onde uma mulher canta o Lundu, "O Mugunzá".
O que se nomeia como baiana
é, na verdade, a grande mãe negra africana ou afro-descendente,
a preta velha e sábia, geralmente iniciada, vendedora de quitutes,
ervas curativas e provedora da família. Esta mãe negra num
claro processo de branqueamento, desvalorização de gênero
e estilização vai virando a mulata, perdendo em sabedoria
e conhecimento e ganhando em sedução. Conforme perde em saber,
perde sua origem: logo, seu passado e enraizamento ancestral, ficando solta
na escala social; nem branca nem negra, nem séria trabalhadora /religiosa
e nem prostituta, entra no "desvio" aceita, enquanto jovem e desfrutável,
como fruta um - "pele de sapoti" - para ser comida por qualquer e,
qual fruta, é cheia de carnes e muito doce; velha, perde a utilidade.
A mulata de hoje assume
contornos musculosos: é alourada e tem cabelos lisos; deste modo,
as características da sensualidade, quadris fartos, ginga e malícia,
atribuídos originariamente à negra, migram para a mulata
numa "forma de apropriação/expropriação". Ao
virar mulata, deixa de ser "a nega do cabelo duro" ou "a boneca de piche
da cor do azeviche" e, assim como acontece com o malandro, novamente o
"modelo híbrido" é instaurado, o que descaracteriza o negro
e permite o devaneio do euro-brasileiro.
Os trajes urbanos desses
dois mitos têm características bem definidas: a mulata passa
da roupa tradicional de mucama, turbante, colares e chinelas rasteiras
para a sandália alta, saia ou vestido curtíssimo e blusa
sempre decotada ou pode chegar ao sumário biquíni, bordado
de paetês e glamurosa composição de penas e plumas
na cabeça, imortalizado pelas mulatas que dão shows para
turistas e são as famosas passistas das Escolas de Samba, como as
madrinhas de bateria. O malandro, que até os anos 30 tinha navalha
no bolso, lenço no pescoço, chinelo charlote, passa usar
a famosa camisa listrada, calça social larga e clara, geralmente
de linho branco, sapatos bicolores e o infalível chapéu de
palha; a esta versão acrescenta-se ainda o paletó de linho
e eventualmente uma bengala e gravata vermelha, assumindo a caricatura
do burguês engravatado.
O traje usado pelo malandro
é encontrado também em outro personagem masculino, bastante
conhecido na umbanda e no candomblé: "seu" Zé Pelintra. "Seu"
Zé, também mitológico, vem do Catimbó nordestino
onde ainda aparece, só que com trajes mais rurais. Por volta dos
anos 20 [1920] aparece no Rio. A figura do "Malandro Divino" aparece
também em outros lugares, em Cuba e Porto Rico. Um bamba,
ou seja, excelente negociador e diplomata, "Zé Pelintra representa
uma figura singular e transgressora, histórica e ficcional, que
pertence a vários universos a um só tempo".(Ligiéro,
2003: 34) A similaridade de trajes evidencia as características
urbanas assumidas por ambos os mitos, do malandro e "seu Zé Pelintra",
o que os aproxima e fideliza: o primeiro, o tipo profano da rua e
da boemia e o outro, também um diplomata, que oscila dentre o sagrado
e o profano. Ambos são matrizes afro-descendentes; mais especificamente,
afro cariocas.
Na, "passagem dos anos 20
para 30, pula-se da separação, da marginalização
quase absoluta do elemento negro para a absorção, pelo poder,
do discurso da mestiçagem" (Nelson Lima apud Lopes, 2000: 191).
A ascensão de elementos subalternos em símbolos nacionais
acontece na mesma década em que o samba de gafieira sedimenta-se
como dança social e de entretenimento e começa sua lenta
e contínua expansão para fora do gueto de origem: do
Mangue para os salões da classe média.
A partir dos anos 30 [1930]
o malandro e a mulata, juntamente com a feijoada, o samba e o carnaval,
passam a símbolos de uma cultura mestiça considerada
rica e forte justamente por ser resultado de misturas raciais.
Dos anos 30 para os 40, este
malandro sofre mudanças. Pressionado por políticas sociais
do Estado Novo, o malandro anti-herói vai migrando do negro mal
vestido para o campo do malandro mulato regenerado e já aparece
bem vestido. A representação do negro na sociedade vai progressivamente
adquirindo branqueamentos culturais no desenrolar do processo desta construção
simbólica, "neutralizadas numa sociedade utópica", num claro
sentido de desafricanização. No entanto, se perde alguma
característica de perigo iminente, não ganha total aceitação
social: "restou-lhe apenas a característica de extrema sensualidade"
e um olhar social menos desconfiado.
David Meltzer
define a figura do malandro já refinado, bem vestido e aproximado
do padrão burguês e branco:
O malandro literalmente
é um cavalheiro (gentleman) que não trabalha. A palavra cavalheiro
é usada propositadamente porque o malandro não é um
vagabundo na definição comum da palavra: ele é o tipo
que elevou a categoria do "não-trabalhar" ao nível profissional
ou a uma arte (...) O malandro tem o andar pomposo e empertigado desde
o começo, andando gingado como um pato. Tem o violão muitas
vezes e cheira a água de colônia Flórida. Tem um palito
de fósforo sempre em sua boca, bem próximo da sua guimba
de cigarro, molhada de saliva. Ele é sustentado por sua pobre e
querida velha mãe ou alguma prostituta, ou mesmo a Madame da casa
do bordel. Permanece toda a noite cantando, jogando cartas e brigando.
O malandro é sempre um bom jogador de Capoeira. Na verdade, o único
dinheiro real que ele faz por si, mas é usando sua bravura belicosa
para coagir eleitores nas eleições. Então ele não
é chamado malandro, mas "guarda-costas". O dinheiro invariavelmente
vai para roupas finas e novo violão." (apud Ligiéro,
2000: 66)
O malandro vai ficando branco.
Para o negro fica a perversidade do malandro. Já a astúcia
vai para o malandro mais clareado - o mulato claro, o arquétipo
afro-descendente vai sendo apropriado pelas classes médias, vai
branqueando e começa a adquirir conotações do antigo
almofadinha, tão bem fixado por J. Carlos e registrado por João
do Rio em seu personagem Jacques Pedreira, "menino de maus costumes", para
quem a vida é para se conquistar belas mulheres, damas preferencialmente,
e evitar, com o maior empenho, a tarefa menor de ganhar dinheiro com o
próprio trabalho.
Já no Estado Novo
(1937-1940), em paralelo a "uma proliferação de músicas
que exaltam a malandragem", a censura intensifica a repressão à
vadiagem, equiparando a ociosidade a crime, no artigo 136, da Constituição,
numa perseguição ao princípio básico do malandro
de "rejeição do trabalho, estratégia de sobrevivência
e concepção de mundo". (Oliven, 2000:
100)
Getúlio Vargas passa
a acolher com bons olhos a figura popular do "bom malandro" e, se por um
lado reconhece seu viés popular e de inteligência, tenta enquadrá-lo
como "trabalhador número um do Brasil", numa clara tentativa de
torná-lo o antimalandro. O malandro e a mulata inauguram, então,
novas estratégias de sobrevivência durante o Estado Novo.
Numa sociedade que quer se modernizar a todo custo e enriquecer rapidamente,
mas traz um passado escravista, o malandro e a mulata sobrevivem, embora
sofram constantes reconfigurações.
O que se observa é
que se os mitos da mulata e do malandro apresentam traços de exclusão
social no mercado de trabalho, por outro lado criam um viés
de liberdade e criatividade como forma de sobrevivência e rejeição
da ordem social. Se estes mitos podem estar no campo da opção
transgressora heróica, de ser marginal por princípio ético
e estético da subversão do status quo, podem, no entanto,
cair no submundo da "bandidagem" onde os direitos legais não são
respeitados. Estes mitos podem atuar com a inteligência da
pilhéria e bom humor, bem como com a agressão hostil do ato
de trapacear e ludibriar. De qualquer forma, mais que princípios
morais, sua marca principal ("malandro que é malandro não
denuncia o outro, vai a forra" ) e proposta ideológica da malandragem
está presente: a possibilidade de converter desvantagens em vantagem.
(Matos, 1982, 196)
Construídos e firmados
em um mesmo período malandro, mulata e samba de gafieira passam
a representar o aspecto corporal do carioca, pelo viés da
malemolência. O lendário malandro do bairro da Lapa
traz para a dança a sua pernada e, sempre pronto a passar o outro
para trás, dança o samba de gafieira como faz com a sua vida,
na precariedade, no desequilíbrio e muita arte.
A mulata apimenta o samba
de gafieira com seus requebros e sensualidade, misto de provocação
e sedução, traduzidos em movimentos rápidos de cruzadas
defensivas de pernas, samba no pé e esquivas para cada pernada do
malandro.
O malandro e a mulata, desta
forma, passam a se apresentar como representantes e mantenedores dos atributos
básicos dos dançarinos do samba de gafieira. Sua performance
se realiza em oposição ao discurso oficial, funcionando por
ser diferente dos padrões dominantes das demais danças de
salão, que enaltecem o refinamento, a elegância formal, a
submissão feminina e um alongamento do corpo para o alto, num discurso
corporal que procura manter-se no equilíbrio apolíneo. Esses
mitos em performance, com suas peculiares elegância e estética,
tratam da relação com um corpo que já foi escravo
e apresentam formas de dançar reveladoras das tradições
africanas. Dançam com igual elegância nas curvas e vieses
do corpo, oscilam entre subidas, descidas e torções corporais,
trabalham no desequilíbrio dionisíaco, brincam com o tempo
e o espaço. Como mitos, souberam resistir a padrões impostos
e sobrevivem na vida simbólica desta dança, através
de imagens alternativas do mundo. São símbolos locais de
identidade, que aspiram ao reconhecimento da sua cidadania, potencialmente
constitutivos de nossas realidades, expressão de um equilíbrio
instável e dinâmico, oscilando nas formas corporais do sensorialismo
afro-descendente.
Pesquisadora
do NEPAA (Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias),
professora de Técnicas Corporais na Universidade Estácio
de Sá, é preparadora corporal de teatro, Coreógrafa,
Diretora e Bailarina.
Samba
de Gafieira - uma forma urbana de dançar o Samba, que surgiu na
cidade do Rio de Janeiro na década de 20 (1920), no Rio de Janeiro,
em espaços populares e majoritariamente negros, difunde-se nas festas
populares da cidade, rompe reservas e preconceitos, populariza-se na sociedade.
Uma dança urbana, negra, com características da dança
européia, praticada como entretenimento social, sedimenta-se como
um jeito de ser da cidade e do carioca. Revigora-se, sempre inovadora,
atrevida, nos constantes modismos e tendências. Um fenômeno,
inicialmente considerado marginal, periférico, indecente, presente
em festas profanas e até religiosas, funciona como suporte para
que uma ginga corporal específica, de raízes negras, seja
evidenciada. (Zenicola, 2005:1)
O
dicionário Aurélio língua portuguesa afirma que a
palavra bamba derivou da palavra mbamba do idioma Quimbundo significando,
valentão. Na língua Quicongo, porém, a palavra bamba,
com idêntica grafia significa mercador, negociador, embaixador. Mas
no Brasil, a cultura oficial persiste em considerar o malandro apenas como
mbamba/brigão/vagabundo, em vez de vê-lo como bamba/negociador/embaixador
representante da sua cultura nas terras alheias".(Ligiéro, 2000:
67, n/pub.)
José
Carlos Rego define o miudinho como 'um movimento seqüencial do samba,
no qual o pé desliza. Na maioria das vezes, as pernas ficam
em uma posição ligeiramente arqueada de exercício
contínuo'.(1976)
"O
bamboleado é uma cadência natural, espontânea, explícita,
decorrência congênita, íntima, temperamental...o rebolado
dos glúteos nas danças e no andar despreocupado nas ruas,
permanente da lúdica angolana, fora a imaginária fonte poderosa
do que possuímos no Brasil. Modelo e formas fornecedoras do
elemento mobilizante inesgotável de potência envolvedora,
perturbando o metabolismo basal dos observadores. Esse balanço,
meneio de popas infatigáveis, em rotação incessante
de saracoteio tranqüilo e sexual, é Angola, Angola, Angola".(Cascudo,
2001: 155)
Que
em 1942 esteve no Brasil para roteirizar o filme não acabado It's
All True de Orson Welles
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASCUDO,
Câmara. Made in África: pesquisas e notas. São
Paulo: Global, 2001.
DINES,
Alberto. O paraíso das mulatas. In: Revista Nossa História,
Biblioteca Nacional, Ano I, no. 3, janeiro de 2004.
GARCIA CANCLINI,
Nestor. Culturas Híbridas: estratégias para entrar
e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.
LIGIÉRO,
José Luis. Carmem Miranda da cabeça aos pés: a
pequena notável e a performance afro-brasileira. USA: Universidade
de Nova York, tese de doutorado, não publicado, 2000.
LIGIÉRO,
José Luis. Malandro Divino. Rio de Janeiro: Record, 2003.
LOPES,
Antonio Herculano. Comentários 6, 7 e 8. In: Entre Europa
e África: A invenção do carioca. Rio de Janeiro:
Topbooks, 2000.
MATOS,
Claudia Neiva. Acertei no milhar: malandragem e samba no tempo de
Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
OLIVEN,
Ruben George. A sociedade brasileira no princípio desse século
vista através da música popular brasileira. In: Entre
Europa e África: A invenção do carioca.
Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
REGO,
José Carlos. Dança do Samba: exercício do prazer.
Rio de Janeiro: Aldeia, 1976.
ZENICOLA,
Denise Mancebo. Samba de Gafieira: performance da ginga. Tese de
Doutorado. Centro de Letras e Artes, UNIRIO. Não publicado, 2005.
|