Resenha
Investigando as Relações entre Futebol e Violência

Graziele Ramos Schweig
Curso de Ciências Sociais

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
 

Torcer, lutar, ao inimigo massacrar: Raça Rubro-Negra
Rodrigo de Araújo Monteiro
Editora FGV, 2003. 
120 páginas.
 

O futebol, desde sua vinda para o Brasil, no início do século XX, tem sido considerado uma das mais emblemáticas manifestações da cultura brasileira. Tradicionalmente um espaço onde a rivalidade pode ser expressa simbolicamente de forma lúdica, uma partida de futebol envolve vaias, gritos e xingamentos, expressões não permitidas, normalmente, na vida cotidiana. Entretanto, desde o começo dos anos de 1990, o país tem presenciado um aumento do número de casos de violência física nos estádios. Enfrentamentos abertos entre torcidas envolvendo paus, pedras e até bombas, são indicadores de uma violência que extrapola o nível proveitoso e lúdico que faz parte de qualquer jogo.
 
 

São justamente as causas desse tipo de violência entre torcidas de futebol o objeto de investigação de Rodrigo de Araújo Monteiro, em seu livro "Torcer, lutar, ao inimigo massacrar: Raça Rubro-Negra!", resultado de sua dissertação de Mestrado defendida na UERJ, sob orientação de Alba Zaluar, que escreve um longo prefácio ao livro. O trabalho de Monteiro é produto do Subprojeto Redes de Tráfico e Estilos de Consumo em Três Bairros do Rio de Janeiro, coordenado por Alba Zaluar e que deu origem à Série "Violência, Cultura e Poder", da qual o livro de Rodrigo de Araújo Monteiro faz parte. Assim, investigando a associação entre futebol e violência, Monteiro opta por abordar a experiência da torcida Raça Rubro-Negra do Flamengo, realizando um trabalho de campo com duração de oito meses (entre 1998 e 1999). A torcida, fundada em 1977, registra mais de 50 mil componentes, conta com complexa estrutura administrativa e reivindica o título de maior torcida de futebol do país. A partir deste universo, por meio de observação participante e entrevistas semi-estruturadas com membros da torcida, o autor busca indicar algumas razões que expliquem o fenômeno da violência no futebol brasileiro.
 
 

Monteiro aponta a emergência do tema do futebol na literatura acadêmica brasileira, embora ainda incipiente para a importância deste fenômeno social. Segundo ele, o esporte foi considerado por uma análise de cunho marxista e visto, durante muito tempo, como forma de alienação e dominação política. O futebol só ganha novas interpretações a partir dos anos 80, como as de Arno Vogel, Simone Lahoud Guedes, José Sérgio Lopes e Roberto da DaMatta. A despeito da pouca bibliografia sobre futebol, Monteiro limita ainda mais suas referências teóricas ao deixar de dialogar com a tradição de trabalhos sobre a temática da violência no Brasil, que não são mencionados mas que poderiam dar importante contribuição à compreensão de seu objeto. Deixando de lado os trabalhos sobre violência e alegando a escassez de estudos sobre futebol no Brasil, o autor opta por recorrer a trabalhos europeus sobre violência no futebol, como o caso dos hooligans, e centra-se, principalmente, em três autores: Bill Buford, Eric Dunning e Norbert Elias.
 
 

Monteiro não transpõe o modelo inglês para o futebol brasileiro, o que é um de seus méritos, mas busca identificar aproximações e distanciamentos entre as características da violência presentes no Brasil e na Inglaterra. Diferentemente da Inglaterra, a violência nos estádios brasileiros não tem o conteúdo nacionalista e muitas vezes xenófobo que caracteriza os torcedores hooligans. Por outro lado, é a partir da violência enquanto expressão da masculinidade que podemos aproximar os dois países. No contexto de uma sociedade urbano-industrial que restringe espaços coletivos para a liberalização das emoções, o futebol seria um lugar privilegiado para o exercício controlado da violência, proporcionando um ritual "mágico", onde a construção de uma identidade viril guerreira se contrapõe à construção da identidade afeminada do inimigo. Citando Norbert Elias, Monteiro sugere que nas situações de violência aberta há uma inversão do processo civilizador, pois esta mesma violência extrapola a dimensão simbólica e controlada, única permitida por aquele processo.
 
 

O autor faz uma retrospectiva histórica do futebol desde sua importação da Inglaterra como esporte da elite até sua popularização e profissionalização. Segundo Monteiro, o futebol brasileiro é caracterizado por um modelo de gestão empresarial, copiado do futebol europeu. Neste modelo, há dois tipos de grupo ligados ao clube: os profissionais, ou seja, ou jogadores e demais empregados, os quais não assumem uma ligação afetiva com o clube de forma a não comprometer sua presença no "mercado" e, por outro lado, os amadores, que correspondem àqueles que possuem uma ligação passional com o clube, incluindo-se aí os torcedores. 
 
 

 Monteiro dedica os dois últimos capítulos de seu livro à apresentação dos dados etnográficos de sua pesquisa. São feitos uma descrição da estrutura administrativa e um histórico da torcida Raça Rubro-Negra. Monteiro menciona as reuniões semanais, o ritual de ir à sede comprar ingressos para os jogos, os cânticos a caminho do estádio e as situações de enfrentamento com inimigos, isto é, torcidas rivais, envolvendo o uso de paus e pedras, além do roubo de pertences, principalmente o roubo e a queima de bandeiras e camisetas de torcedores oponentes. Segundo Monteiro, há uma expectativa geral de que haja confronto violento entre torcidas e, conseqüentemente, uma frustração coletiva quando isso não acontece. 

 

 
Concluindo, o autor apontar as causas da violência nos estádios fazendo referência a um processo, em curso nos grandes centros urbanos, de "dessensibilização da sociedade em relação à vida humana e à violência" (p.111). Segundo ele, este processo é conseqüência da fragilidade do monopólio estatal da força, o qual tem por correlato o crime organizado e o tráfico de drogas. Contribuindo para este quadro, somam-se a descrença no jogo político e a desmoralização das forças policiais, também envolvidas com o tráfico. Outro aspecto que contribui para a violência é a falta de representatividade dos torcedores nos clubes de que fazem parte. Isso se dá devido à implantação do modelo de gestão empresarial, o que faz com que o "mercado" e as multinacionais que patrocinam os times venham em primeiro lugar, fazendo com que o torcedor, que tem uma relação de paixão com o time, não tenha participação nas decisões do clube. Monteiro aponta, ainda, como causa, a crise da masculinidade que faz o homem buscar o futebol como refúgio para explicitar valores de virilidade. Segundo o autor, há um "retrocesso do processo civilizatório" (p.102), e, também, o fato dos torcedores parecerem "ter desaprendido o que Norbert Elias chama de 'habitus civilizado'" (p.109). Isso faz com que os torcedores extrapolem as regras e normas estabelecidas e protagonizem confrontos diretos ao invés de deslocá-los para manifestações não-violentas. No entanto, Monteiro argumenta que a interdição das torcidas organizadas não resolveria o problema da violência, uma vez que a rivalidade existe independentemente de sua manifestação formal. Para ele, deve-se identificar interlocutores nas torcidas para buscar a viabilização do convívio pacífico.

 
 
Uma das críticas possíveis ao livro de Rodrigo Monteiro refere-se ao descompasso entre as conclusões apresentadas pelo autor e as descrições etnográficas incluídas no livro. Isso acontece quando deparamos com afirmações gerais sobre o "processo civilizador" e com a comparação em relação à situação européia sem, contudo, estas mesmas afirmações se articularem com as observações de campo, presentes nos capítulos de cunho etnográfico. Além disso, nestes capítulos, sente-se falta de personagens-chave, os quais poderiam enriquecê-los a partir de suas trajetórias e subjetividades particulares. Não há menção a torcedores em específico e, sintomaticamente, não são  explicitadas a forma de inserção do pesquisador e suas interações neste universo, o que é descrito com um certo distanciamento que não condiz com os oito meses de trabalho de campo vivenciados pelo autor.Esta crítica se liga a outra, com relação às escolhas teóricas de Monteiro. Uma distância entre teoria e empiria que poderia ser suprida com uma mudança de referencial teórico. O autor poderia ter se referido mais detidamente ao futebol como um ritual, podendo dar maior ênfase ao aspecto antropológico do fenômeno da violência ao se aproximar da tradição da Antropologia da Performance e estudos como os de Stanley Tambiah a respeito dos riots no Sul da Ásia, considerados espaços de erupção de violência coletiva. Além dos mencionados estudos antropológicos a respeito da violência no Brasil, pouco referidos pelo autor, essa tradição antropológica também poderia oferecer contribuições pertinentes, bem como comparações mais profícuas para a análise da relação entre violência e futebol, dando outro estatuto aos elementos apresentados pelo próprio Monteiro em sua descrição etnográfica. 
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