Dentre
os inúmeros casos míticos narrados sobre a música
popular brasileira, particularmente sobre o samba na cidade do Rio de Janeiro,
há um deles que de maneira recorrente aparece nos livros e relatos.
É o que trata da música Pelo Telefone, primeiro samba registrado
na história da música popular.
Sobre
a composição
Pelo Telefone, duas ordens de questões
controversas se apresentam para reflexão: a primeira diz respeito
ao questionamento da identificação da música com o
ritmo samba e a segunda corresponde à polêmica sobre a autoria
da canção registrada na Biblioteca Nacional.
A
composição foi entendida, por diferentes atores sociais da
época e intérpretes contemporâneos, ora como tango,
maxixe ou samba, dependendo dos critérios classificatórios
acionados para seu entendimento.
Por
exemplo, Henrique Foréis Domingues, o Almirante, em seu livro No
tempo de Noel Rosa, nos informa que "a primeira exibição
do número, classificado como tango, deu-se no Cinema Teatro Velo,
à rua Haddock Lobo, Tijuca, a 25 de outubro daquele ano [1916]".
Mais adiante, o mesmo Almirante diz que o "êxito do samba (ou tango?)"
pôde ser confirmado numa apresentação em 3 de novembro.
Como se pode ler nos trechos escolhidos, por vezes um mesmo cronista entende
a música de maneira diferenciada ou indica dúvida sobre como
classificá-la adequadamente.
Outros
ainda vislumbram na canção a coexistência de informações
musicais e culturais de diferentes procedências. Estudioso da história
da música popular no Brasil, José Ramos
Tinhorão afirma, em sua obra Música Popular; um tema
em debate (1969), que no ano de 1917, a composição Pelo Telefone
"chamou a atenção para o ritmo do samba, que havia muito
tempo andava aqui e ali em tantas composições, verificou-se
que a música reunia - como em uma colcha de retalhos - reminiscências
de batuques, estribilhos do folclore baiano e sapecados do maxixe carioca".
Com
relação à controvérsia sobre a autoria de Pelo
Telefone, em particular sobre o contexto de sua elaboração
na casa e terreiro de Tia Ciata, na Praça Onze, algumas ponderações
se fazem necessárias.
Diversos
autores relatam que a região da Praça Onze, chamada de Pequena
África do Rio de Janeiro, serviu de lócus privilegiado para
o encontro e intercâmbio de pessoas oriundas de mundos socioculturais
distanciados, borrando, portanto, as fronteiras, viabilizando o contato
e, no limite, unindo "a sociedade fina e culta às camadas profundas
da ralé urbana" (Manuel Bandeira, apud Gardel:1996).
Hermano Vianna, em O Mistério do Samba (1995),
afirma, citando entrevista com o lendário pandeirista João
da Baiana, que personalidades como Irineu Machado, o senador Pinheiro Machado
e Hermes da Fonseca, posteriormente Presidente da República, freqüentavam
os terreiros nos "sambas" das "tias" baianas.
Na
casa da baiana Tia Ciata (ou Asseata), numa "execução de
partido-alto" em 1916, de acordo com Maria Thereza Mello
Soares (1985), teria sido composta coletivamente a música Pelo
Telefone, registrada por Ernesto dos Santos, o violonista Donga. De acordo
com os relatos de Almirante apresentados por Mello Soares, dessa roda de
samba participavam Hilário Jovino, Mestre Germano, a própria
Tia Ciata, João da Mata, Sinhô e o jornalista Mauro de Almeida,
que escreveu uns versos para a música, a qual foi intitulada Roceiro.
Donga teria apenas trocado o título da canção para
Pelo Telefone, "valendo-se da popularidade que gozavam na época
tais aparelhos que estavam sendo instalados em larga escala no Rio de Janeiro".
Seu registro fonográfico foi realizado pela Casa Edison, sendo Donga
apresentado como único autor do 'tango'
.
Por
este gesto, Donga foi criticado e hostilizado, sofreu campanha pela imprensa
que tomou partido do jornalista envolvido no caso, sendo alvo inclusive
de paródias musicais a "sua" canção. Alguns amigos
se afastaram dele, nos relata Mello Soares, porque ele não se defendeu
das acusações. O seu silêncio foi interpretado por
muitos como uma confissão de culpa.
Ora,
o que nos interessa destacar da situação social (SIMMEL,
1983) apresentada é a emergência da autoria, do autor e/ou
compositor como elemento diferencial com relação a um período
anterior da música brasileira. Não afirmamos ser esta a primeira
composição "assinada" da história da música
popular. O fato que pretendemos salientar então é que estamos
diante de um "drama social", no qual os atores passam a se incomodar de
maneira efetiva com a "atitude esperta" ou o "golpe" de um compositor ao
registrar como de sua autoria uma canção que teria nascido
coletivamente, como síntese das "reminiscências de batuques,
estribilhos do folclore baiano e sapecados do maxixe carioca". Nesse momento,
estabelecer-se-ia se, para utilizarmos as palavras de Carlos
Sandroni (2001), a consciência do problema autoral.
Chamamos
a atenção do leitor para a presença de Sinhô,
o denominado Rei do Samba, nessa roda de partido-alto na casa de tia Ciata.
A presença deste cantor no terreiro da velha baiana não se
dá por mera coincidência. Sinhô era conhecido por freqüentar
os bares, terreiros e favelas da cidade em busca de composições
que pudesse cantar - e também, em alguns casos, registrá-las
em seu nome. Noel Rosa, em entrevista em 1935, diz que Sinhô sempre
estava nos morros "para pegar os temas musicais e publicar... Não
dava parceria porque, na época, não havia nada disso".
As
palavras de Noel Rosa confirmam, portanto, uma mudança na maneira
de se compreender a autoria musical, com o advento da parceria nas composições,
indicando, por conseguinte, modificações significativas nas
relações entre cantores e compositores no mundo do samba.
Procuraremos
nos deter sobre a trajetória de alguns compositores populares, entre
eles Ismael Silva, Noel Rosa e Wilson Batista, responsáveis por
sambas antológicos e afeitos a transacionar suas composições
em troca de algum dinheiro. A escolha destes sambistas tem a ver com a
necessidade de pensar as interações que são estabelecidas
no mercado musical e em suas instâncias de mediação
entre universos culturais.
Por outro lado, a introdução
do dinheiro como meio possível de estabelecer relações
sociais no âmbito musical dá à questão em tela
da autoria, particularmente para a autonomia do objeto (canção/composição)
com relação ao seu produtor (SIMMEL:
1998), novos contornos que pretendemos analisar.
I
Georg
Simmel, em artigo de 1896 intitulado "O dinheiro na cultura moderna" procura
observar de que maneira, na modernidade, a introdução da
economia monetária é marcada por uma ambigüidade fundamental:
o dinheiro desempenha um papel central, tanto na constituição
da liberdade quanto da tragédia modernas.
Simmel
indica que a economia do dinheiro impôs uma distância entre
pessoa e posse, tornando a relação entre ambas mediada. O
dinheiro imporia, assim, por um lado, um caráter impessoal, anteriormente
desconhecido, nas atividades econômicas e, por outro, aumentaria,
proporcionalmente, a autonomia e a independência da pessoa.
De
maneira complementar, a economia do dinheiro teria viabilizado inúmeras
associações que somente exigem contribuições
monetárias de seus membros ou apontam para um mero interesse de
lucro. Estaríamos, então, diante de organizações
com caráter estritamente técnico, independente de colaboração
pessoal, libertando o sujeito de laços constrangedores da comunidade.
Em
suma, nas palavras de Simmel, foi a partir do momento "que o interesse
de um participante singular possa ser exprimido de maneira mais ou menos
direta em termos de dinheiro, este se entremeou entre a totalidade objetiva
da associação e totalidade subjetiva da personalidade - como
também se entremeou entre proprietário e posse - e passou
a proporcionar a ambas uma nova autonomia recíproca e uma possibilidade
de desenvolvimento". (p. 25) O advento da sociedade anônima de ações
seria o ápice desse desenvolvimento.
Na
opinião do autor, o dinheiro possibilitou a divisão do trabalho,
encadeando os homens de maneira irresistível, pois agora cada um
trabalha pelo outro. "O pagamento em dinheiro promove a divisão
de trabalho, pois, normalmente, só se paga em dinheiro para um desempenho
especializado (...) Não se paga (onde inexiste escravidão)
dinheiro para um homem como um todo com toda a sua especificidade, mas
sim para os seus desempenhos na divisão do trabalho. Por causa disso,
a formação da divisão do trabalho precisa de ampliação
da economia monetária e vice-versa". O dinheiro na era moderna,
portanto, instauraria muito mais laços entre os homens que nos estágios
da associação feudal e da reunião arbitrária.
"Assim
como o dinheiro em geral fez surgir uma proporção radicalmente
nova entre liberdade e compromisso, a reunificação, enfaticamente
estreita e inevitável, efetuada por ele provoca, por outro lado,
a conseqüência estranha de abrir um espaço extraordinariamente
vasto para a humanidade e para o sentimento de independência". (p.
28) Em outras palavras, estaríamos diante de uma situação
na qual se geraria um forte individualismo.
Na
conjunção entre economia monetária e divisão
social do trabalho, temos o acentuado desenvolvimento da cultura objetiva.
Simmel observa que o dinheiro deveria ser enxergado como um meio, nada
mais do que uma ponte para os valores definitivos. Entretanto, o dinheiro
passa a deixar de ser um objeto de valor meramente instrumental assumindo
o papel de um fim satisfatório em si mesmo - seja aquela satisfação
ilusória ou verdadeira - com tanta força, tanta extensão
e tanta influência na situação geral da vida. (p. 34)
Eis que emerge a máxima simmeliana na qual o dinheiro torna-se um
Deus moderno.
A
tragédia da modernidade reside no fato de apenas a cultura objetiva
se tornar crescentemente cultivada e rica, observa Simmel, seja em relação
à técnica, ciência ou arte, enquanto os indivíduos
se tornam, paradoxalmente, cada vez mais pobres e pouco cultivados. Nesse
sentido, a possibilidade da bildung e do projeto de autodeterminação
permanecem apenas como mera potencialidade. "Cada vez mais coisas que parecem
estar fora do alcance do intercâmbio monetário são
arrasadas por sua corrente incessante..." (p. 39)
*
No
caso do samba carioca, música popular que se consolidaria como brasileira
a partir dos anos 1930/40, conforme estudo de Hermano
Vianna (1995), a "corrente incessante" do intercâmbio econômico
atingiu-a na forma da compra e venda de composições e parcerias,
já na década de 20, na maioria dos casos envolvendo os compositores
e cantores de sucesso da época.
Ismael
Silva, conhecido como o Rei do Estácio, tem uma conhecida relação
comercial na venda de composições e parcerias para o cantor
Francisco Alves, considerado o melhor intérprete da música
popular brasileira nos anos 1920. Na pasta do compositor constante do arquivo
de Almirante, baseada no Museu da Imagem e do Som, há uma anotação
manuscrita em uma ficha, segundo Maria Thereza de Mello Soares, onde se
pode ler: "Vendeu Me faz carinho (1924) a Chico Alves que gravou como sendo
o autor. Idem, idem, Amor de malandro".
Em entrevista concedida à
revista Manchete, publicada em 15 de outubro de 1966, Ismael Silva confirma
a venda de duas composições para Francisco Alves:

Um dia, doente,
num hospital, fui procurado por Alcebíades Barcelos. Perguntou-me
se queria vender o samba ao Chico Viola. Cem mil-réis era o que
ele me oferecia. Aceitei depressa e o samba, que ficou sendo propriedade
dele, apareceu com meu nome. Depois vendi Amor de malandro por quinhentos
mil-réis, mas dessa vez eu não figurei na gravação
como autor. Fiquei zangado, é claro. O mesmo acontecia com outros
sambistas: vendiam músicas que surgiam como se fossem dos compradores.
(apud, Mello Soares: 1985; p. 81)
Maria Thereza M. Soares
observa, no entanto, que a música Amor de malandro, aparece na gravação
e na partitura como sendo de Francisco Alves, não havendo menção
ao nome de Ismael Silva. O mesmo acontece com a composição
Me faz carinho - a primeira canção mencionada na entrevista
e intermediada pelo compositor Alcebíades Barcelos, o Bide, que
sempre foi considerada por Ismael Silva como "sendo propriedade dele" -
Chico Alves.
Esse
comércio de canções envolvendo cantores e compositores
da música popular se concretizava por meio de cessão da autoria
ou parceria musical, dependendo do acerto, servindo, no caso do compositor,
para "divulgar" ou gravar suas composições, aplacar a "fome"
,ou ainda, pagar alguma dívida ou prestação que estivesse
atrasada
.
Em
entrevista concedida ao jornal O Globo, em 31 de dezembro de 1932, Noel
Rosa fala das transações das quais já participara:

Pergunta-se na cidade
constantemente: há compositores que compram samba? Eu posso afirmar
que há. Falo por experiência própria. Já vendi
muitos sambas. Você achará graça quando eu disser que
eu vendia os sambas exclusivamente pelo prazer de vê-los gravados.
Os sambas que eu vendia surgiam nos discos como sendo dos compradores.
Mas não me importava. O essencial era eu ter a certeza que os sambas
me pertenciam. Todo o resto era acessório. Dizia-se nas ruas: 'O
samba de fulano é ótimo'. Eu me enchia de orgulho, embora
o elogio fosse para o homem que comprara o samba. Assaltava-me às
vezes o desejo de sair gritando, tanto era o meu orgulho: 'Isso é
meu'. Já vendi muito samba e não me envergonho de confessá-lo
[...] Eu os vendia por uma verdadeira bagatela e eles davam bons lucros.
Naquele tempo eu era otário... (apud, Mello
Soares: 1985; p. 84)
O affair do "Chevrolet usado"
envolvendo Noel Rosa e Francisco Alves está contado no livro de
Almirante, No tempo de Noel Rosa, onde se podem encontrar os detalhes complicadíssimos
da transação:
As transações
entre Noel e Francisco Alves não eram apenas musicais. Noel comprou
de Chico um chevrolet usado e, para pagar, fez o seguinte trato: Chico
controlaria seus rendimentos com shows e direitos autorais das gravadoras,
separando 50% para pagamento da dívida. Além disso, algumas
composições do trio (Ismael/Chico/Noel) eram apenas de Noel
e Ismael, entrando Chico Alves apenas com o nome e a fama.
Um
aspecto a ser destacado desse comércio singular (Mello
Soares: 1985) é que não havia qualquer constrangimento
em admitir participação nesse tipo de negócio. Em
dezembro de 1979, o cantor e compositor Moreira da Silva, o Kid Morengueira,
ao ser indagado pelo jornalista Lúcio Aguiar, do tablóide
O Prelo, se alguma vez já comprara música de outro compositor,
afirma que sim, como também já vendera:

Vai na mosca, né?
Comprei sim. Foi do Zé com Fome, o Zé da Zilda. Ele veio
e me pediu para dar 150 mil-réis, que era para ele pagar o quarto.
E eu acho que isso não é vergonha. Comprar ou vender música
não é nenhuma desonra. [...] Vendi também, por que
não? Um amigo meu já me deu dinheiro e entrou em mais de
dez parcerias comigo; já é até sócio efetivo
na sociedade arrecadadora.
As
interações estabelecidas nessas transações
musicais, entre compositores e "comprositores", nem sempre contavam com
a anuência de todos os envolvidos. Por vezes se 'passava a perna'
em algum parceiro, avançando sobre seus direitos na composição.
Bruno Ferreira Gomes (1985), na biografia que faz de Wilson Batista, observa
não ser "novidade que Wilson foi um grande vendedor de músicas.
Vendia a música inteira, vendia a metade, e até a metade
dos parceiros dependendo da necessidade financeira. Só não
me constou que comprasse música, pois foi mestre em fazê-las.
[...] Wilson não era de lamentar a venda de uma música, especialmente
porque quando ele as vendia por inteiro, nunca faziam sucesso".(pp.
62 e 63)
Como se pode depreender dos
relatos apresentados acima, envolvendo Ismael Silva, Wilson Batista, Moreira
da Silva e Noel Rosa, verifica-se que a compra e a venda de composições
era prática bastante comum entre cantores e compositores, além
de casos nos quais a própria editora comprava os direitos das canções.
Tal prática não foi inaugurada pela "república" do
samba carioca, aparecendo desde os tempos do Império. Segundo Bruno
F. Gomes (1985), as músicas de Ernesto Nazareth estariam "todas,
ou quase todas negociadas, com recibos de compras, mas recibos até
ilegais, com vendas sórdidas mesmo, como se se tratasse das mais
prosaicas das mercadorias. E existe até sucessão nessas vendas;
todas muito bem respeitadas pelos editores que só não respeitam
o pagamento aos herdeiros do grande compositor". (p 79)
Os negócios com música
envolveram, portanto, pessoas provenientes de estratos sociais os mais
diversos e nem sempre a compra de determinada música resultava em
prejuízo exclusivo para o compositor. O relato de Gomes para as
vendas de Wilson Batista aponta um autor capaz de aquilatar se a composição
a ser vendida iria se tornar um sucesso ou se era canção
sem perspectiva de carreira comercial. Daí, então, os preços
mais ou menos caros para as músicas quando negociadas.
O
cotidiano e a boêmia dos cantores e compositores da época
envolviam certos locais de sociabilidade onde se viabilizava o encontro
entre estes atores. Para além da Zona do Mangue - região
de prostituição, por excelência, na cidade do Rio de
Janeiro dos anos 30 - e da Lapa dos cabarés e restaurantes de boa
comida, era a Praça Tiradentes, pelo menos até 1936, que
aglutinava os teatros com suas 'revistas musicais' e cafés que reuniam
em especial os compositores mais humildes (Noel Rosa, Roberto Martins,
Wilson Batista, Ataulfo Alves, entre outros), músicos e gente de
teatro. Para os compositores minimamente estabelecidos (Braguinha, Almirante,
Custódio Mesquita, Mário Reis, Lamartine Babo), o local onde
se fazia o 'ponto' era na rua Gonçalves Dias, ao lado da Confeitaria
Colombo, num bar que se chamava Café Papagaio.
Não
podemos esquecer o famoso Café Nice, ponto de convergência
de músicos e compositores depois do relativo declínio da
Praça Tiradentes, que em suas imediações apresentava
casas de diversões com orquestras e teatros. A criação
dos dois primeiros dancings da cidade, nas proximidades do Nice, consolidou
a importância do café para a confluência de músicos
e compositores, pois "onde existem músicos, existem compositores"
(Gomes: 1985). Em outras palavras, o Café Nice
se tornou lócus privilegiado de mediação (Cavalcanti:
1990; Gardel: 1995; Velho
& Kuschnir: 1996) e negociação social da realidade
para esses destacados nomes da música popular brasileira. "Muita
música boa foi feita ali, muitos negócios musicais ali se
confirmaram, muitas amizades ali nasceram e muitas ali findaram". (Gomes:
1985; p. 95)
II
Em
São Ismael do
Estácio; o sambista que foi rei (1985) Maria
Thereza de Mello Soares se indaga sobre as razões deste 'comércio
singular' desenvolvido entre cantores e compositores na cidade do Rio de
Janeiro. Depois de observar a existência de uma crescente indústria
cultural, que se expressava sobretudo através das emissões
e programas radiofônicos e de um público "inebriado pela novidade
que constituía o rádio como meio de comunicação
de massa", combinado a uma escassez relativa de canções,
Mello Soares apresenta a seguinte tese explicativa:
Cantores bem sucedidos,
jovens da classe média de melhor poder aquisitivo, iam buscar nos
redutos do samba carioca, onde predominavam compositores modestos, as músicas
que interpretariam no rádio e que lhes garantiam sucesso.
Por sua vez, tais compositores
- embora alguns já fossem até profissionais - necessitavam
desse canal de comunicação para lançar seus sambas
entre os brancos, a classe dominante que comprava discos e partituras.
Sem a divulgação pelo rádio, ao qual dificilmente
teriam acesso por iniciativa própria, suas composições
musicais estavam fadadas à restrita execução nos terreiros
e festejos pobres de seu bairro.
Como conciliar a situação
sem uma troca efetiva de interesses, sem o 'toma lá e dá
cá' da compra e venda do produto cultural? É claro que como
todo comércio, estava sujeito à exploração
de uma das partes, à realização até de negócios
escusos" (Mello Soares: 1985, p. 81).
Essa longa transcrição
se justifica por nela haver contido um elemento que nos parece primordial
para o entendimento das transações musicais realizadas pelos
diferentes indivíduos em interação (SIMMEL,
1983) no universo do samba carioca e que é apresentado
en passant
pela autora. Afirmando tratar-se de uma estratégia de comunicação
utilizada pelos compositores para lançar ou, poderíamos dizer,
fazer circular (BAKHTIN, 1987) suas composições
- mesmo que em parcerias duvidosas - para além dos antigos terreiros
das tias baianas da Praça Onze, parece-nos que Mello Soares não
percebe o novo estágio pelo qual a música brasileira, em
geral, estaria passando.
Acreditamos
que muitos compositores da época compreenderam a mudança
do contexto no qual suas canções eram executadas e partiram
para uma atitude que incorporava a lógica da indústria cultural,
em especial o rádio, veiculando e tornando públicos sua autoria.
Como observa Norbert Elias (1995) a propósito
da trajetória e dos esforços frustrados de Wolfgang Amadeus
Mozart para transformar-se em músico independente da corte e do
clero, somente a geração seguinte conseguirá realizar
este intento. No caso do samba brasileiro, estamos diante do reconhecimento
do caráter de autoria de um produto cultural que anteriormente era
apropriado e registrado em nome de alguns cantores de sucesso.
Dito
de outra maneira vale afirmar, então, que estamos saindo de uma
configuração de anonimato para as 'grandes massas' - já
que os personagens das rodas eram relativamente conhecidos em certos meios
- passando agora para uma na qual o reconhecimento da autoria já
começa a ser plausível, deixando para trás as restrições
impostas para se chegar às rodas de samba - vigiadas pela polícia
de costumes.
Carlos
Sandroni, em seu livro Feitiço Decente; transformações
do samba no Rio de Janeiro (1917-1933), corrobora nossa percepção
sobre a interação e a mediação existentes entre
cantores e compositores, afirmando que a "contribuição de
Francisco Alves [para compositores como Bide, Ismael e Bucy] não
foi tanto a de criar os sambas, mas, o que talvez fosse mais importante,
a de criar os próprios 'compositores de sambas' no sentido moderno
e profissional" (p. 149).
O
próprio Sandroni nos chama a atenção para as composições
das Escolas de Samba para o Carnaval, nas quais vários compositores
se associam contribuindo com algo para a autoria: "tem você que faz
o samba, o fulano que faz a letra, o sicrano que tem dinheiro [para a promoção],
mais o beltrano que é amigo da diretoria [da Escola], então
eles põem todo mundo como parceiro"
.
Este autor pondera que é esta cadeia de mediações
"que finalmente faz o samba existir como música popular, ao invés
de limitar a autoria a criadores isolados no alto de um morro ou de uma
torre de marfim".
**
Marco Antonio Silva, conhecido
como DJ Marky, é brasileiro, tem 28 anos e mora com a mãe
na zona leste de São Paulo. É especialista em drum'n'bass,
ritmo musical de natureza eletrônica, que valoriza bateria e baixo,
tendo sido premiado como melhor DJ em 2001 por uma revista inglesa. Quando
começou na profissão, falavam que drum'n'bass "era música
de periferia, de preto, de pobre".
Em seu novo disco a.a: 2,
DJ Marky realizou um remix ou remixagem com o também brasileiro
DJ Xerxes de Oliveira, para a música Carolina Carol bela, de Jorge
Ben - antes de ser Ben Jor - e Toquinho. "Sampleei três segundos
de guitarra e fizemos um loop. Sampleamos também duas frases. Em
princípio, não era para ser um remix. Ia se chamar Liquid
kitchen". Em outras palavras, os DJ's gravaram um pedaço e tocaram-no
repetidamente.
Sucesso
total nas pistas inglesas, o DJ londrino Brian Gee aconselhou Marky a registrar
a música e propôs a prensagem de um disco em vinil. "Quando
mandamos pra editora, disseram que não era música nossa,
que consideravam um remix do Ben Jor e do Toquinho. A gente abriu as pernas.
Tinha duas opções: lançar ou não. Como a música
já era sucesso nas pistas... O som é completamente diferente,
foi transformado. Tem acordes no fim que não existiam, nós
fizemos. No fim das contas, fiquei contente porque virou hit e as pessoas
sabem que a música é minha"
.
Como
se pode inferir pela entrevista do DJ Marky, a discussão sobre autoria
e composição musical continua na ordem do dia. Novos contextos
trazem consigo novas questões em torno da consciência do problema
autoral.
Notas
Mello
Soares informa que a canção foi lançada como tango,
“denominação genérica na época para classificar
toda a música popular criada no Rio de Janeiro, face ao sucesso
obtido pela música portenha”, sendo só mais tarde definida
como samba. Mello Soares discorda desta classificação, entendendo
Pelo Telefone como “um saltitante e brejeiro maxixe”.
De
acordo com o jornalista Bruno Ferreira Gomes, em seu livro Wilson Batista
e sua época, o compositor Wilson Batista teria dito em frente aos
guichês de pagamentos da União Brasileira de Compositores
(UBC) que “o mal do compositor é o estômago. Quando a fome
chega tudo pode acontecer...”.
Noel
Rosa pagou a compra de um automóvel usado, da marca Chevrolet, a
Francisco Alves através desse artifício.
Depoimento
de um membro da diretoria da Mocidade Independente de Padre Miguel, colhido
pelo autor. Este tipo de parceria é criticado pelos ‘compositores
autênticos’ que chamam-no pejorativamente de samba-condomínio.
A
entrevista com DJ Marky está no Jornal do Brasil de 27 de dezembro
de 2001.
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