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Francisco Pereira
Passos nasceu em 29 de agosto de 1836, no Município de Piraí,
Estado do Rio de Janeiro. Faleceu em 12 de março de 1913, a bordo
do navio Araguaia, em viagem para a Europa. Filho de Antônio Pereira
Passos, o Barão de Mangaratiba, e Dona Clara Oliveira Passos, Francisco
foi criado numa grande fazenda de café, nomeada “Fazenda do Bálsamo”,
situada no município fluminense de São João Marcos
que, antes de ser elevado à condição de vila por D.
João VI em 1813, pertencera à vila e município de
Resende e atualmente é distrito de Rio Claro.
O engenheiro Pereira Passos
Pereira
Passos fez seus primeiros estudos na casa paterna e ao completar quatorze
anos de idade, seguindo o costume da oligarquia rural, seu pai determinou
que fosse estudar na Corte, matriculando-o no Colégio São
Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro, no qual completou seus estudos
preparatórios. Foram seus colegas de turma Floriano Peixoto e Oswaldo
Cruz. Em março de 1852, ingressou na Escola Militar, futura Escola
Politécnica do Rio de Janeiro, obtendo em 24 de dezembro de 1856
o grau de Bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas,
que lhe dava direito ao diploma de Engenheiro Civil. Pereira Passos foi
marcadamente influenciado pelas idéias positivistas que ganharam
força no Brasil após a II Revolução Francesa.
Tornou-se amigo de outro ilustre colega de turma: Benjamin Constant que
se tornaria um dos arautos do republicanismo no Brasil.
Como outros jovens bem nascidos
de seu tempo, Pereira Passos ingressou na carreira diplomática e,
em 1857, foi nomeado adido à legação brasileira em
Paris, onde permaneceu até fins de 1860. Neste período, completou
seus estudos de Engenharia na École Nationale des Ponts et Chaussées,
na qual foi admitido em 04 de setembro de 1858 e freqüentou, como
ouvinte, os cursos de arquitetura, estradas de ferro, portos de mar, canais
e melhoramentos de rios navegáveis, direito administrativo e economia
política. Praticou depois como engenheiro na construção
da Estrada de Ferro Paris-Lion-Mediterranée, nas obras do
porto de Marselha e na abertura do túnel no monte Cennis. Também
assistiu a uma das fases mais delicadas da reforma empreendida por Georges
Eugène Haussmann, Prefeito do Departamento de Seine (1853-1870)
nomeado por Napoleão III. Sob o calor e os auspícios da Revolução
Liberal de 1848, dos escombros dos bairros populares mais densos de Paris,
arrasados, viu emergirem os contornos da nova metrópole que serviria,
mundialmente, de modelo para renovações urbanas similares.
No período de dezoito anos (1852 a 1870), Georges Eugène
Haussmann remodelou todo o espaço urbano de Paris, envolto na necessidade
de conter o crescimento das jornadas proletárias e impor a nova
ordem social e política, pois a econômica já se desenvolvia.
Deste cenário político pode-se dizer que emergiu o urbanismo
francês em sua versão moderna - baseado em ruas largas, grandes
avenidas e bulevares...
Os contatos com a Europa
foram decisivos em dois aspectos fundamentais da formação
profissional de Pereira Passos: a Engenharia Ferroviária e o Urbanismo.
De volta ao Brasil, em 1860,
Pereira Passos dedicou-se à construção e à
expansão da malha ferroviária brasileira, num momento em
que a economia cafeeira crescia em importância. Foi partícipe
na construção da ferrovia Santos-Jundiaí, inaugurada
em 1867, que muitos embaraços traria ao Império. Substituto
de J. Whitaker na comissão encarregada dos estudos e exploração
do traçado de prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II até
o Rio São Francisco (1868), trabalhou decisivamente na integração
da primeira à malha ferroviária nordestina; em conseqüência,
em setembro de 1869 foi nomeado Engenheiro-Presidente da E. F. D. Pedro
II.
Em 10 de dezembro de 1870,
foi alçado ao cargo de consultor técnico do Ministério
da Agricultura e Obras Públicas. No ano seguinte, em companhia do
Barão de Mauá, viajou novamente à Europa, na condição
de Inspetor Especial das Estradas de Ferro subvencionadas pelo governo
imperial, o qual confiou-lhe a delicada missão de firmar, em Londres,
um acordo liqüidando a questão do "capital garantido" à
E.F. São Paulo Railway, que ligava Santos a Jundiaí. Permaneceu
na Europa até a assinatura definitiva do acordo em 1873.
Sua outra tarefa na Europa
teve um caráter mais técnico. Durante a sua permanência
em Londres, Pereira Passos teve oportunidade de visitar vários países
da Europa. Na Suíça, conheceu a estrada de ferro que subia
o Monte Righi, com rampas de até 200, utilizando um sistema novo,
com trilho central dotado de encaixes, nos quais uma roda dentada se apoiava
para impulsionar o trem. A pedido de Mauá, Pereira Passos estudou
este sistema, mais tarde usado na subida da serra para Petrópolis.
O primeiro trecho foi construído por iniciativa de Mauá e
ligava Porto Mauá a Raiz da Serra. Foi a primeira estrada de ferro
construída no Brasil. Pereira Passos usou esta técnica, de
cremalheira, na expansão do trecho entre Raiz da Serra e Petrópolis
- cidade onde morou em seu retorno ao Brasil - e na construção,
em 1882, da primeira estrada de ferro turística do país,
a Estrada de Ferro Corcovado.
Nesta mesma época,
a convite do Barão de Mauá, Pereira Passos adquiriu e assumiu
a direção do Arsenal de Ponta da Areia, inaugurado pelo próprio
Mauá dez anos antes e em condições precárias
desde o fim da Guerra do Paraguai. Modernizado por Pereira Passos, o arsenal
passou também a produzir trilhos, vagões etc. Mas, por ausência
de uma política protecionista, voltada aos interesses nacionais,
a empresa sucumbiu, anos depois, frente à concorrência externa
e aos ventos de liberalismo econômico.
Continuando sua escalada
pública, em 1874 foi nomeado Engenheiro do Ministério do
Império, presidido então pelo Conselheiro João Alfredo
- conhecido por seus ideais abolicionistas. Com o novo cargo, Pereira Passos
ficou com a incumbência de acompanhar todas as obras de engenharia
do governo imperial.
Um pouco mais tarde, por
solicitação do Conselheiro, Pereira Passos integrou a comissão
responsável por apresentar um plano geral de reformulação
urbana para a capital, que deveria prever alargamentos de ruas, construções
de grandes avenidas, arrasamentos de morros, canalizações
de rios e mangues e outras medidas de grande impacto para uma cidade “reconhecidamente
insalubre e exposta a toda sorte de doenças e epidemias”.
Do levantamento, realizado
nos anos 1875 e 1876, resultaram dois relatórios extremamente minuciosos
que serviram de esboço para o futuro plano diretor da cidade - sob
a Administração Pereira Passos.
Entre 1876 e 1880, Pereira
Passos dirigiu a E.F. D. Pedro II. No período, conduziu a ampliação
da estação da Corte e as construções do ramal
ferroviário e da estação marítima, na Gamboa.
Este complexo foi inaugurado em junho de 1880. Neste ano, Pereira Passos
viajou de novo para a Europa. Durante sua estada em Paris, no inverno de
1880 a 1881, freqüentou cursos na Sorbonne e no Collége
de France e escreveu uma nota contendo "Renseignements statistiques
sur les chemins de fer au Bresil", que foi publicada na Revue Generale
des Chemins de Fer em julho de 1881. Na mesma ocasião, visitou
fábricas, empresas de transporte, siderúrgicas e obras públicas
na Bélgica e na Holanda. Em abril de 1881, foi contratado como engenheiro
consultor pela Compagnie Générale de Chemins de Fer Brésiliens
que detinha os direitos para a construção de uma ferrovia
no Paraná, ligando o porto de Paranaguá à capital
da província, Curitiba.
Ao regressar ao Brasil, com
plenos poderes para resolver todos os assuntos técnicos relativos
à ferrovia do Paraná, Pereira Passos fixou-se naquela província,
e, em 1882, após a ferrovia entrar em operação, voltou
ao Rio de Janeiro e assumiu a presidência da Companhia de Carris
de São Cristóvão, em substituição ao
Visconde de Taunay. Em 1884, após sanear a empresa, propôs
aos seus maiores acionistas a aquisição do projeto do italiano
Giuseppe Fogliani, de construção de uma grande avenida. A
proposta foi aprovada pelos trinta maiores acionistas, a concessão
foi obtida, mas a idéia não chegou a sair do papel. Contudo,
era uma antecipação da futura Avenida Central, que seria
construída em sua gestão como prefeito da capital da república,
vinte anos depois, tornando-se o grande marco de sua administração.
Após diversas proposições,
segundo Vaz e Cardoso, foi “o projeto de Bernard Savaget, de 1890, que
deu a melhor solução para a nova avenida: uma pequena inclinação
em relação às demais ruas permitiria à Avenida
passar rente às encostas dos morros, sem túneis ou arrasamentos”.
Vencera a proposta de mar a mar, centrada na valorização
do porto do Rio.
No período republicano,
Pereira Passos foi designado fiscal na construção da Estrada
de Ferro Bahia - São Francisco, de 573km de extensão, inaugurada
em 1896.
O Prefeito Pereira Passos
Antecedentes
Um período bastante
tumultuado adveio com a Proclamação da República em
15 de novembro de 1889. De fato, o Império fora duramente golpeado
com a Abolição da Escravatura (1888), iniciativa exigida,
sobretudo, pelo capital inglês. Outros fatores contribuíram
para tanto, como a influência do republicanismo francês e a
opção gradual da elite cafeeira pelo uso da mão-de-obra
assalariada.
São emblemáticos
desta conjuntura: a cassação dos títulos de nobreza,
a instalação do Governo Provisório, a Revolta da Armada,
a ditadura dos marechais e sua transição para a República
Civil, efetuada através do voto direto censitário.
Da primeira eleição
direta republicana redundou o governo de Prudente de Moraes (1894-1898),
que enfrentou forte depressão econômica proveniente do Encilhamento
(1888-1891), como ficou conhecida a crise provocada pela política
econômica mal dimensionada de Rui Barbosa. Já o governo Campos
Salles (1898-1902) buscou sanear política e economicamente o país.
Utilizou-se, para isto: do Funding Loan (1898), do acordo da dívida;
da execução de um plano financeiro; e da política
dos governadores.
No Governo Rodrigues Alves
(1902-1906), a República conseguiu, enfim, respirar aliviada. Convidado
então pelo Ministro da Justiça J. J. Seabra a colaborar com
o novo governo, Pereira Passos exigiu poderes discricionários para
assumir o cargo de Prefeito do Distrito Federal. Com base nesta solicitação,
foi aprovada, em 29 de dezembro de 1902, lei especial que adiava as eleições
do Conselho Municipal (poder legislativo) e estabelecia plenitude de poderes
ao Prefeito. A este era vetado apenas criar e elevar impostos. Estavam
dadas as condições de execução do gigantesco
e controvertido plano de reforma da Cidade, elaborado em 1875.

Neste período, o Rio
de Janeiro enfrentava graves problemas sociais, acentuados pelo rápido
e desordenado crescimento. Com o declínio do trabalho escravo, a
cidade passara a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e
de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades de trabalho assalariado.
Entre 1872 e 1890, a população duplicou, passando de 274
mil para 522 mil habitantes. A explosão demográfica e, sobretudo,
o aumento da pobreza agravaram a crise habitacional que perdurava desde
meados do século XIX. Na Cidade Velha e suas adjacências,
área central do Rio, o problema era mais acentuado, pois nesta área
se multiplicavam as habitações coletivas e eclodiam as violentas
epidemias de febre amarela, varíola e cólera-morbo que conferiam
à cidade fama internacional de porto sujo. Este quadro favorecia
o discurso articulado dos higienistas sobre as condições
de vida na cidade, os quais propunham intervenções drásticas
para a restauração do equilíbrio da cidade, vista
como um "organismo doente". O primeiro plano urbanístico para o
Rio de Janeiro foi elaborado entre duas epidemias muito violentas (1873
e 1876), mas graças à estabilidade político-econômica,
a duras penas alcançada no governo Campos Sales, Rodrigues Alves
pôde promover, entre 1903 e 1906, o ambicioso programa de renovação
urbana da capital.
Apoiada nas idéias
de civilização e beleza, de regeneração física
e moral, a reforma urbana, tratada como questão nacional, sustentou-se
no tripé: saneamento, abertura de ruas e embelezamento e objetivou
a atração de capitais estrangeiros para o país. Com
a reforma, houve intensa valorização do solo urbano da área
central, determinante na expulsão da população de
baixa renda ali concentrada. Cerca de mil e seiscentos velhos prédios
residenciais foram demolidos. Parte considerável da imensa massa
atingida pela remodelação permaneceu no centro, em suas franjas
e fendas deterioradas, pois a Zona Norte e os subúrbios, apesar
do rápido crescimento, não constituíam alternativa
de moradia para os que sobreviviam de biscates ou recebiam diárias
irrisórias. Apenas os de remuneração estável
e suficiente para as despesas de transporte, aquisição de
terreno, construção ou aluguel de uma casa mudaram-se para
a Zona Norte e os subúrbios. Desta forma, ao lado das tradicionais
habitações coletivas que se disseminaram nas áreas
adjacentes ao centro (Saúde, Gamboa e Cidade Nova), surgiu nova
modalidade de habitação popular: a favela. Em fins de 1905,
uma comissão nomeada pelo governo federal para examinar o problema
das habitações populares constatou que as demolições
de prédios iam além de todas as expectativas, forçando
a população a "ter a vida errante dos vagabundos e, o que
é pior, a ser tida como tal". O relatório da mesma comissão
fazia referência ao Morro da Favela, atual Providência - "pujante
aldeia de casebres e choças, no coração mesmo da capital
da República, a dois passos da Grande Avenida". A partir de então,
o termo favela designaria, de forma genérica, o mais destacado ícone
da segregação social no espaço urbano da cidade.
O mandato
Em O Rio de Janeiro de
Pereira Passos: Uma cidade em questão II, Giovanna Rosso Del
Brenna (org.) divide a Administração Pereira Passos em quatro
fases: 1902-1903 - Projetos e Estratégias; 1904 - O ano das Demolições;
1905 - Repressão e Consenso; e 1906 - O Ano das Inaugurações.
Nomeado em 30 de dezembro
de 1902, Pereira Passos assumiu no mesmo dia e, desde os primeiros momentos,
iniciou uma série de atos e decretos com o propósito de extirpar
velhos hábitos citadinos e impor uma disciplina consoante à
nova ordem republicana, comprometida que estava com os capitais franceses
e ingleses em sua fase imperialista - calcada no escoamento da produção
fabril e na exportação de capitais.
Exemplares neste particular
foram os decretos de 09 de janeiro de 1902 que proibiram, no Centro da
Cidade, o comércio ambulante de leite, efetuado com o auxílio
do gado bovino, a venda de miúdos de reses em tabuleiros descobertos
e a venda de bilhetes lotéricos em ruas, praças e bondes.
Outro decreto suspendeu construções
e obras de reforma, em quinze freguesias da cidade, sem licença
da Prefeitura. O decreto de 11 de abril de 1903 regulou a “apanha e extinção
de cães vadios”. Como resultado, foram capturados 2.212 cães
só entre abril e maio daquele ano, chegando a mais de vinte mil
cães, dois anos depois. Outras proibições decretadas:
esmola nas ruas, pingentes dos bondes, cuspidura no assoalho do bonde e
criação de porcos no Distrito Federal.
Após alguma preparação
de campo, iniciou-se, ainda naquele abril, um pequeno ensaio de demolições
para alargamento e extensão de ruas e avenidas. Quase ao mesmo tempo
foi apresentado o plano de remodelação da cidade.
As ações republicanas
se pautavam no discurso sobre a necessidade de sanear e higienizar a cidade,
livrá-la das doenças, impor à população
novos hábitos e atitudes, condizentes com as descobertas recentes
da Biologia e da Medicina, ampliar espaços, ordená-los, embelezá-los,
modernizá-los. É claro que, por trás desta ideologia,
estava a consolidação, entre outros, dos interesses: da oligarquia
cafeeira, de escoamento de sua produção com ampliação
das estradas de ferro e do Porto do Rio; das construtoras francesas; das
companhias inglesas de energia e bondes; e da nascente indústria
automobilística norte-americana.
Marcado por um conjunto grande
de demolições, 1904 foi um ano de insatisfações
e muitos questionamentos jurídicos, efetuados, sobretudo, por moradores
e comerciantes do Centro. Ao mesmo tempo, Pereira Passos sofreu pesadas
críticas da imprensa, o que, aliás, foi uma constante em
seu governo.
O processo de desapropriação
e despejo, aliado à instauração da vacinação
obrigatória, liderada pelo ministro Oswaldo Cruz, redundou na Revolta
da Vacina, iniciada em 14 de novembro de 1904, após a revolta da
Escola Militar na Praia Vermelha. Com forte adesão popular, a revolta
durou sete dias e resultou na decretação de estado de sítio,
prorrogado por Pereira Passos até fevereiro de 1905, e no desterro
dos insurretos (os chamados “quebra-lampiões”) para o Acre.
No ano de 1905, novas ações
repressivas e taxativas foram adotadas a fim de garantirem o grosso das
inaugurações do ano seguinte, o último do seu mandato,
tais como: desapropriações e demolições, a
política do “Bota-Abaixo”; criação de um imposto de
25% para a renovação do calçamento das ruas, cobrado
aos proprietários de imóveis; etc.
Em março de 1906,
frente às enchentes que assolaram a cidade, o governo foi acusado
de negligenciar o atendimento às vítimas, sobretudo as dos
subúrbios. Os volumosos empréstimos também foram objeto
de críticas. Ironizava-se o modus faciendi do governo, como numa
charge da época: “Derrocam-se casebres; constroem-se palácios...”
Em vez do Zé Pereira... a burguesia, a Belle Époque e o seu
glamour.
Apesar das críticas,
é inegável que o mandato de Pereira Passos mudou definitivamente
o perfil da Cidade. Sua atuação privilegiou as regiões
que atualmente compõem as Áreas de Planejamento 1 e 2 e resultou
num incrível e colossal remodelamento da cidade. Dentro de uma perspectiva
ideológica pragmático-positivista e de evidente compromisso
com os capitais franceses e ingleses, a "cidade colonial" cedeu lugar,
de forma definitiva, à "cidade burguesa", moderna, do século
XX, que tinha como parâmetros as metrópoles européias.
Após as reformas empreendidas na Administração Pereira
Passos o Rio de Janeiro, remodelado e saneado, recebeu o título
de “Cidade Maravilhosa”.
Principais Obras da Administração
Pereira Passos
1903: inauguração
do Pavilhão da Praça XV (21/06); prolongamento da Rua do
Sacramento (atual Avenida Passos) até a Rua Marechal Floriano (27/06);
inauguração do Jardim do Alto da Boa Vista (11/10); início
do alargamento da antiga Rua da Prainha - atual Rua do Acre;
1904: término
do alargamento da antiga Rua da Prainha - atual Rua do Acre (fevereiro);
demolições do morro do Castelo (08/03); construção
do Aquário do Passeio Público (18/09); Melhoramento da Rua
13 de Maio.
1905: início
da construção do Theatro Municipal (03/01); inauguração
da nova estrada de rodagem da Tijuca (04/01); alargamento e prolongamento
da rua Marechal Floriano até o largo de Santa Rita (02/02); decreto
de alargamento da Rua do Catete (28/04); alargamento e prolongamento da
Rua Uruguaiana (setembro); Decreto de construção da Avenida
Atlântica em Copacabana (04/11); inauguração da Avenida
Central (atual Av. Rio Branco), marco da Administração Pereira
Passos (15/11); inauguração da Escola-Modelo Tiradentes (24/11);
Decreto de abertura da Rua Gomes Freire de Andrade, entre a Rua do Riachuelo
e a do Núncio (29/12); Decreto de abertura da Avenida Maracanã
(30/12).
1906: alargamento
da Rua da Carioca (janeiro e fevereiro); inauguração da fonte
do Jardim da Glória (24/02); inauguração da nova Fortaleza
na Ilha de Lage (28/06); inauguração do palácio da
exposição permanente de São Luiz (futuro Palácio
do Monroe), para os trabalhos da 3ª Conferência Pan-Americana
(22/07); inauguração do alargamento da Rua Sete de Setembro
no trecho entre a Av. Central e 1º de Março (06/09); conclusão
da obras de melhoramentos do porto do Rio de Janeiro e do Canal do Mangue
(09/11); inauguração das obras de melhoramento e embelezamento
do Campo de São Cristóvão - jardim e escola pública
(11/11); inauguração da Avenida Beira-Mar (23/11); melhoramento
do Largo da Carioca; inaugurações dos quartéis do
Méier, da Saúde, São Cristóvão e Botafogo;
aterramento das praias do Flamengo e Botafogo, com construção
de jardins; Construção do Pavilhão Mourisco, em Botafogo;
construção do Restaurante Mourisco, próximo à
estação das barcas, no Centro; melhorias no abastecimento
de água para a capital.
Além destas, merecem
registro: melhoramentos da zona suburbana do DF; saneamento da Cidade;
arborização de diversas áreas da cidade; renovação
do calçamento da cidade; e inauguração de calçamento
asfáltico; alargamento da Rua Camerino; abertura da Avenida Salvador
de Sá; canalização do Rio Carioca (da Praça
José de Alencar ao Cosme Velho); construção da Avenida
Atlântica; inauguração da Escola-Modelo Rodrigues Alves,
no Catete; liberação de verbas para a construção
da Biblioteca Nacional; início da construção do novo
edifício da Escola Nacional de Belas Artes; iniciam-se as obras
do edifício do Congresso Nacional; e criação do novo
Mercado Municipal.
Realizações
de Pereira Passos
O Plano de Melhoramentos
da Cidade do Rio de Janeiro
O Plano de Melhoramentos
da Cidade do Rio de Janeiro foi elaborado, entre 1875 e 1876, pela Comissão
de Melhoramentos dirigida por Pereira Passos, que o implementou, cerca
de trinta anos depois, na condição de Prefeito. As grandes
obras preconizadas pela comissão - de salubridade e saneamento,
abertura e alargamento de ruas, criação de praças
e parques, retificação e embelezamento de logradouros, canalização
de rios, obras viárias, remodelação arquitetônica
das edificações e outras - mudariam o aspecto do Rio. Nas
palavras do próprio Pereira Passos, as "ruas estreitas, sobrecarregadas
de um tráfego intenso, sem ventilação bastante, sem
árvores purificadoras e ladeadas de prédios anti-higiênicos"
deveriam dar lugar a "vias de comunicação duplas e arejadas".
As avenidas tornaram-se o principal instrumento da remodelação
da cidade, atendendo a dois objetivos: a circulação urbana
e a transformação das formas sociais de ocupação
dos espaços abertos pelas novas artérias. A reforma urbana
desafogou o intenso tráfego entre o Centro e os diversos bairros
da cidade. Porém a questão da circulação urbana
não se restringia à estrutura física da cidade, mas
também os meios de transporte, considerados incompatíveis
com o tráfego urbano. A Prefeitura promoveu, então, a regulamentação
do transporte de carga, com alteração nas dimensões
de veículos, proibição de rodas que esburacassem as
ruas e interdição de veículos de tração
animal que sujassem os logradouros. Além disto, propiciou a modernização
da estrutura dos serviços públicos, com reorganização
das redes subterrâneas de abastecimento de água e gás,
o esgotamento sanitário, as redes aéreas de telegrafia e
telefonia e, ainda, a previsão de postes de iluminação
elétrica pública. Outro aspecto da reforma urbana foi o banimento
de atividades rurais, como estábulos, criadouros e hortas, do centro
da cidade. Em nome da higiene e da beleza foram proibidos os antigos quiosques
de madeira que vendiam alimentos e a exposição de artigos
em umbrais e vãos de portas em vias públicas, permitidos
apenas em vitrines. A Prefeitura também reprimiu o que considerou
como maus hábitos e costumes: urinar e cuspir nas ruas, embaralhar
cabos de energia elétrica, acender fogueiras, soltar fogos de artifícios,
pipas e balões, festas populares, sagradas e profanas, como: carnaval,
batuque, serenata, cultos afro-brasileiros e bumba-meu-boi. Projeto de
lei encaminhado ao Conselho Municipal visava acabar "a vergonha e a imundície
injustificáveis dos em mangas-de-camisa e descalços nas ruas
da cidade".
Após a reurbanização,
a Cidade do Rio de Janeiro, anteriormente marcada por traços coloniais,
deixou de ser conhecida como “Capital da Morte” e passou a ser chamada
de “Cidade Maravilhosa”.
Cidade mapeada
Na virada do século
XIX para o XX, os esforços de redefinição do ambiente
urbano caracterizaram os projetos de intervenção urbanística
da administração municipal, com reflexo na produção
cartográfica sobre a cidade. A renovação modernizadora
do espaço urbano da Administração Pereira Passos redefiniu
os parâmetros da imagem cartográfica do Rio de Janeiro.
Pereira Passos, num dos primeiros
atos como prefeito, incorporou a Comissão da Carta Cadastral à
Diretoria de Obras e Viação, submetendo a cartografia ao
programa de obras da Prefeitura. Em 1903, uma carta foi incluída
no texto da mensagem do prefeito que anunciava seu plano de reformas urbanas.
Também o relatório de conclusão de trabalhos, a Mensagem
de Ouro, de setembro de 1906, incluiu a imagem cartográfica da cidade
que registrava a intervenção urbanística realizada.
A mesma base cartográfica, elaborada pela Comissão da Carta
Cadastral, serviu a inúmeras outras plantas publicadas no mesmo
período e nos anos seguintes. É importante frisar que estas
plantas registraram uma imagem especial da cidade. Curiosamente, a paisagem
natural foi incorporada nesta cartografia, destacando parques e praças
arborizados, no seio do espaço urbano, e enfatizando os trabalhos
de paisagismo no ambiente urbanizado. Além disto, o poder público
recorreu à divulgação da ilustração
cartográfica do seu programa de ações sociais, transformando
a cartografia em instrumento legitimador das ações governamentais.
Por isto mesmo, as áreas públicas, campo de ação
do poder público, foram destacadas nas cartas elaboradas e o arruamento
tornou-se o tema básico, com valorização de praças
e ruas.
As plantas da Cidade do Rio
de Janeiro dos primeiros anos do século XX têm como título:
melhoramentos executados ou projetados. As plantas que apresentavam temas
como arruamento, relevo e hidrografia, passaram a apresentar as obras em
execução, não concluídas. Esta característica
da imagem cartográfica confere uma natureza processual, ao contrário
do caráter estático, em geral identificado com a geografia.
Os novos mapas evidenciavam, como autores, a Prefeitura do Distrito Federal,
associada ao nome de Pereira Passos e, em menor destaque, o Governo Federal.
A imagem cartográfica abrangia a área que se estende do morro
do Pasmado, junto à enseada de Botafogo, até a região
próxima do canal do Mangue, alcançando o início do
bairro de São Cristóvão, ou seja, a região
diretamente afetada pelas reformas urbanas, excluindo as áreas não
contempladas pelo projeto urbanístico, mas também sob controle
do poder municipal. Se toda a área do município fosse incorporada
à imagem da cidade, seria evidenciada a ação localizada,
restrita, do Estado.
A "Caderneta de Campo"
Quando esteve em Londres
(1870 a 1872), Pereira Passos publicou um livro intitulado Caderneta
de Campo. Um trabalho notável de grande utilidade para os
engenheiros brasileiros que se destinavam ao trabalho ferroviário
e, mais tarde, aos engenheiros rodoviários.
A estrada de ferro de
cremalheira
Pereira Passos introduziu
o uso do sistema com trilho central dotado de encaixes, nos quais uma roda
dentada se apóia para impulsionar o trem, conhecido como cremalheira,
no trecho entre Raiz da Serra e Petrópolis e na construção
da Estrada de Ferro do Corcovado.
A Estrada de Ferro Corcovado
Esta foi a primeira estrada
de ferro turística do Brasil. Foi um sonho que Pereira Passos acalentou
durante muitos anos, juntamente com os engenheiros seus amigos, Marcelino
Ramos, Lopes Ribeiro e João Teixeira Soares. Em 1872, de forma audaciosa,
Pereira Passos constituiu a Cia. da E.F. do Corcovado considerado, na época,
um empreendimento temerário.
Hino à Bandeira
Nacional
O Boletim do 1º Trimestre
de 1906 da Intendência Municipal, publicado pela Diretoria Geral
de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística, da Prefeitura
do Rio de Janeiro, apresenta a letra e a partitura do Hino à Bandeira.
O Prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, solicitou ao poeta Olavo
Bilac que compusesse um poema em homenagem à Bandeira, encarregando
o professor Francisco Braga, da Escola Nacional de Música, de criar
uma melodia apropriada à letra. Em 1906, o hino foi adotado pela
prefeitura, passando, desde então, a ser cantado em todas as escolas
do Rio de Janeiro. Aos poucos, sua execução estendeu-se às
corporações militares e às demais unidades da Federação,
transformando-se, extra-oficialmente, no Hino à Bandeira Nacional,
conhecido de todos os brasileiros .
Notícias da época
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Governo vai
embelezar o Rio (1902)
"Meu programa
de governo vai ser muito simples. Vou limitar-me quase exclusivamente ao
saneamento e melhoramento do porto do Rio de Janeiro". Estas foram palavras
informais do presidente Rodrigues Alves, um paulista de Taubaté,
assim que deixou a cidade rumo ao Rio, para sua posse no dia 15 de novembro.
No
manifesto oficial, ao tomar posse, ele confirmou: "A capital não
pode continuar a ser apontada como sede de vida difícil, quando
tem fartos elementos para constituir o mais notável centro de atração
de braços, de atividades e capitais nesta parte do Mundo".
Rodrigues
Alves fazia eco da impressão de muito mais gente, especialmente
os cariocas. Não só o porto é uma área precária,
desorganizada, como também grande parte da cidade cresceu de modo
desordenado. Cortiços malfeitos amontoam-se em subúrbios
de ruas mal traçadas. A sujeira é geral. Serviços
públicos atendem mal. A capital do país vê, impaciente,
outros centros, como a cidade de São Paulo, ganharem cores modernas,
exibindo riqueza e deixando-a para trás.
Para
seus planos, o governo destinou verba de 990 contos - para higiene, principalmente
- e nomeou Francisco Pereira Passos, que, como prefeito plenipotenciário,
comandará a grande remodelação urbana. Para outras
áreas, Rodrigues Alves escolheu Ministério sem dúvida
competente: Lauro Muller está em Obras Públicas. O Barão
do Rio Branco cuidará das Relações Exteriores, o general
Francisco de Paulo Argolo fica com o Exército, o empresário
J. Seabra na Justiça e Interior e Leopoldo Bulhões Jardim
na Fazenda, entre outros.
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A eletricidade
é a marca do século nas ruas do Brasil (1902)
Século
novo, vida nova. Ainda ontem, nas ruas das cidades, só os tílburis
e os bondinhos de burros quebravam o silêncio. No fim da tarde, o
acendedor de lampiões passava, de poste em poste, anunciando a noite.
O novo século trouxe uma agitação enorme. Ruas são
esburacadas, dormentes e trilhos são enfileirados, cabos de aço
estendem-se pelo alto levando a eletricidade pelo caminho dos bondes.
O
Rio de Janeiro tem bondes elétricos desde 1892, em diversas linhas.
Em São Paulo ele já circulava na Barra Funda, rua São
Bento, alcança a Liberdade. Acaba de ser inaugurado também
esse serviço em Belo Horizonte. Mais velocidade, mais barulho. São
os outros nomes do progresso.
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Casas velhas
caem, ruas se alargam: o Rio está em obras (1903)
A
carta Cadastral do Distrito, plano urbanístico do Rio de Janeiro,
aprovado em abril, inclui a demolição dos casarios das atuais
avenidas Beira-Mar, Mem de Sá, Passos e Central. Faz parte do projeto
também o alargamento das ruas da Assembléia, Carioca, Frei
Caneca e outras vias adjacentes.
Como
era de esperar, os protestos já se fazem ouvir, pois quase todos
estão insatisfeitos. Reclamam os tamanqueiros do beco do Fisco,
os bacalhoeiros da rua do Mercado e principalmente os proletários
e principalmente os proprietários de quiosques, essa verdadeira
praga que assola o Rio de Janeiro. Seus donos, que formam uma verdadeira
confraria, além de não pagarem impostos e de subornarem fiscais,
não têm a mínima preocupação com a higiene.
Conseqüentemente, os insetos proliferam no lugar, e o seu redor os
restos de comida exalam mau cheiro e atraem cães vadios. E são
exatamente os proprietários que mais investem contra o plano urbanístico
da cidade.
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Inimigos
ironizam a campanha contra a febre amarela (1903)
Só
no ano passado a febre amarela matou quase mil pessoas no Rio de Janeiro
- principalmente no verão, quando os ricos se refugiam nos casarões
de Petrópolis e cercanias, deixando a capital entregue aos ratos,
mosquitos e aos pobres.
De
acordo com o novo plano de saneamento da cidade, o cientista Oswaldo Cruz
promete mudar esse panorama - e garante que tal doença não
é transmitida por contágio ou infecção, mas
por um mosquito rajado, o Stegomia fasciata, que prolifera
em águas paradas. Tendo em mãos um plano idêntico ao
que já executam em São Paulo os médicos Adolfo Lutz
e Emílio Ribas, ele reuniu seus 85 homens - tinha perdido 1200 -
e mandou-os percorrer quintais, jardins, varejar porões, lacrar
caixas-d’água nos telhados, jogar querosene em alagados e entrar
em residências, perseguindo mosquitos.
"Lá
vai o mosquiteiro-mor", diziam as pessoas zombando do Dr. Carneiro de Mendonça,
chefe do batalhão. O próprio cientista Cruz foi apelidado
de "o czar dos mosquitos". Não demorou para que a zombaria se tornasse
hostilidade. Adversários do governo já duvidam das teses
de Cruz e acusam-no de invadir a propriedade privada.
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Com a vida
cara, novidades do século são só para quem pode
(1903)
Este mundo
é mesmo dos ricos. Pelo menos, para viver no Rio de Janeiro, só
as pessoas bem situadas têm acesso a todos os confortos do novo século.
Um gramofone, por exemplo, custa 700 mil-réis. Uma viagem de paquete
para a Europa não fica por menos de 3 contos e 400 mil-réis.
Para construir uma boa casa é preciso 50 contos. E assim por diante.
Na
capital federal só vivem bem os grandes comerciantes e altos funcionários
públicos. Um caixeiro de loja pode chegar a ganhar 300 mil-réis
por mês e com esse salário já pode se casar. Um quarto
mobiliado em pensão custa 10 mil-réis, um terno bom está
na ordem de 80, e a jovem senhora se quiser comprar um vestido de ir à
missa pode dirigir-se às lojas populares da rua Uruguaiana e adquiri-lo
pelo mesmo preço. Mas geralmente a esposa do caixeiro é econômica
e costuma comprar tecido e costurar suas roupas. Para que fiquem com aparência
elegante, ela orienta-se pelos moldes da revista mensal La Mode Parisienne,
que custa 4 mil-réis o exemplar.
Se
o salário do rapaz for modesto, ele vai pagar 40 mil-réis
por mês para morar num cortiço. Conseguir uma casa, mesmo
velha, nem pensar. Os aluguéis chegam a 200 mil-réis. A moça
que sonha em ter uma cozinheira deve procurar no mínimo um pequeno
comerciante. As criadas ganham 30 mil-réis, o que não é
muito, porém pesa nos pequenos orçamentos.
O
preço da alimentação está razoável:
1 quilo de queijo-reino custa 6 mil-réis; o da manteiga mineira
está por 3 mil e 500 réis; o da carne pode ser adquirido
até por 500 réis. O do açúcar, 400; o de feijão-preto,
200; o de arroz inglês, 220; o do toucinho, mil réis; o de
banha de lata, marca Navio, 2 mil e 500 réis; e uma lata de leite
Moça custa 800 réis.
Próximo
ao centro e nos subúrbios, a nascente classe média constrói
casas singelas. São os funcionários públicos, pequenos
negociantes, médicos, militares de média patente, pessoas
que se orgulham de ter à mesa todos os dias almoço e jantar.
E isso realmente é um privilégio na capital federal. Essas
são despesas típicas da classe média - mas os realmente
pobres só de vez em quando podem sonhar com elas. O jeito, para
eles, é sobreviver - o que significa que até meninos são
colocados em indústrias ou pequenas lojas, para trabalhar doze ou
mais horas por dia. O pequeno comércio espalha-se por todo canto.
"É incalculável o número de tendas de sapatarias,
fábricas de massas, tinturarias, manufaturas de roupas e chapéus,
que funcionam em fundos de estalagens, de armazéns, lugares que
o público não vê", descreveu um estudioso.
Vol.
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A rua dos
elegantes, dos boêmios, das damas e das cocotes (1904)
Será
que o prestígio da rua do Ouvidor vai acabar? Muitos acham que,
quando for aberta a avenida Central, a rua do Ouvidor vai deixar de ser
a passarela do Rio de Janeiro. Mas, por enquanto, esse "beco de luxo" sinuoso
continua sendo praticamente a única opção de consumo
para a clientela chique da capital. Espremidos um ao lado do outro os 313
prédios da Ouvidor oferecem atrações irresistíveis
em matéria de artigos importados. Sem falar no frisson das suas
confeitarias e cafés.
Vol.
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A cidade
quer ficar nova e torna-se um canteiro de obras (1904)
Em outubro,
os cariocas estão tontos. Toneladas de pedras se amontoam no porto,
o centro da cidade lembra uma área bombardeada, Oswaldo Cruz vacina
todo mundo. A música mais tocada do ano, a polca Rato, Rato, de
Casemiro Rocha e Cláudio Costa, satiriza a caçada aos ratos
comandada pelo Dr. Oswaldo Cruz, para acabar com a peste bubônica.
Oswaldo Cruz deixou a tranqüilidade da direção do Instituto
Manguinhos, a chamado de Rodrigues Alves, para sanear o turbulento Rio
de Janeiro.
Indiferentes
às criticas, as autoridades seguem em frente. Dar um jeito no Rio
de Janeiro é a meta do presidente Rodrigues Alves, que chamou o
engenheiro Pereira Passos para a prefeitura. Pereira Passos convoca dois
engenheiros, Francisco Bicalho, encarregado de reconstruir o porto, e Paulo
de Frontin, que fica com o centro. Em fevereiro, foi lançada a pedra
fundamental da avenida Central. Para construí-la, é preciso
derrubar casas e cortiços: é o "bota-abaixo", com exércitos
de demolidores explodindo habitações e removendo entulho.
Vol.
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O Rio de
Janeiro no século XX (1906)
O Rio
de Janeiro fez uma rápida viagem no tempo para chegar ao século
XX. E a nova cara da cidade surge graças a dois inimigos públicos
que se transformaram em heróis. O odiado Oswaldo Cruz é agora
reverenciado como o exterminador das moléstias tropicais. Pereira
Passos, comandante do turbulento "bota-abaixo", merece a admiração
geral.
O
carioca se orgulha de viver na "cidade mais linda do mundo". Os estrangeiros
podem descer sem sustos no porto novo, andar pela bela avenida do Mangue,
ou contemplar as praias calçadas da avenida Beira-Mar. Mas o grande
cartão-postal da cidade é a avenida Central. Com quase 2
quilômetros de comprimento e 33 metros de largura, a avenida custou
46 772 contos de réis, contando despesas de demolição,
à prefeitura carioca. O mundo elegante esqueceu a rua do Ouvidor.
Todo o comércio de primeira linha de concentra nos prédios
imponentes da nova avenida. E seu traçado, com calçamento
de macadame, parece ideal para um engenho cada vez mais presente nas ruas,
o automóvel.
Se
o Rio se converte em "uma metrópole brasileira que mais parecia
um pedaço da Europa", São Paulo também tenta eliminar
seus ares de província. Remodela o Jardim da Luz, o largo do Paissandu
e constrói a avenida Tiradentes, que dará acesso a toda a
zona norte da cidade.
Vol.
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O Rio expõe
ao mundo as riquezas de nosso país (1908)
Os cariocas,
depois de deslumbrados com a remodelação da cidade efetuada
pelo prefeito Pereira Passos, assistiram incrédulos ao aparecimento
de uma cidade constituída só de palacetes nos areais da Urca.
Um
imenso e suntuoso portal que dá acesso a um mundo de maravilhas.
No interior dos palacetes abrigam-se verdadeiros tesouros: os frutos da
terra e os produtos da nossa indústria.
A
Exposição Nacional, entregue à visitação
pública neste 11 de agosto, foi idealizada pelo governo Afonso Pena.
Sob o pretexto de comemorar o centenário da Abertura dos Portos
do Brasil ao comércio mundial, a exposição mostrou
aos povos do mundo o melhor da produção nacional.
E
não faltou empenho para o êxito do evento. Construíram-se
imponentes edifícios para abrigar os stands dos expositores; montaram-se
dois restaurantes, um teatro, cervejarias e cafés, e até
uma mini-via férrea para o público se locomover em trenzinhos.
Afonso
Pena contou com a colaboração dos Estados. São Paulo
e Minas, por exemplo, compareceram com pavilhões monumentais, mas
todos tiveram espaço para expor suas riquezas: ouro, pedras preciosas,
madeiras, tecidos, produtos agrícolas.
Visitantes
ilustres, como o secretário de Estado norte-americano, embaixadores
de diversos países e homens de negócios vieram para prestigiar
a festa. A capital Federal reurbanizada também foi uma atração
à parte.
O
objetivo do governo, atrair libras e dólares para o país,
foi alcançado.
Vol.
II página 19 |
Nota
Publicada
originalmente em Rio Estudos, este artigo apresenta uma síntese
da vida e da obra do Prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913), em
comemoração aos cento e setenta anos do seu nascimento. O
texto foi elaborado pelos técnicos Manoel Carlos Pinheiro e Renato
da Cunha Fialho Júnior, do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira
Passos. O estudo destaca o trabalho exercido por Pereira Passos na condição
de Engenheiro, com notáveis realizações para a Engenharia
Ferroviária brasileira. E, como Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro
(1902-1906), pela Reforma Urbana empreendida –saneamento; abertura e alargamento
de ruas; embelezamento do Rio de Janeiro; e abertura da Avenida Central,
que valorizou o porto, integrando-o à cidade, pela ligação
mar a mar. Esta política ficou conhecida como Bota-Abaixo. Antes
da Administração Pereira Passos, o Rio de Janeiro era conhecido
como a “Cidade da Morte”, e ao fim do seu mandato, recebeu o título
de “Cidade Maravilhosa”. Contudo, o plano urbanístico teve alto
custo social com parte da população sendo obrigada a habitar
cortiços para que novas ruas e avenidas surgissem no Centro, a região
mais privilegiada, juntamente com a Zona Sul. O prefeito também
enfrentou a Revolta da Vacina e uns meses de estado de sítio. Sem
julgar os prós e contras, Pereira Passos tornou-se conhecido como
o administrador que mudou a cara do Rio. Ao fim do trabalho, são
apresentadas algumas notícias da época, com críticas
e elogios ao Prefeito Pereira Passos.
BIBLIOGRAFIA
·100
ANOS de República: um retrato ilustrado da história do Brasil.
Vol.I (1899-1903), Vol.II (1904-1918). São Paulo, Editora Nova Cultural
Ltda., 1989.
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SMCTT, 1990.
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em questão II. Rio de Janeiro, IPP.
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RIOS FILHO, Adolfo Morales. Dois Notáveis Engenheiros: Pereira
Passos e Vieira Souto. Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1991.
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sobre a área portuária do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação
e Informação Cultural, 1991.
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REIS, José de. O Rio de Janeiro e seus prefeitos, evolução
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do Rio de Janeiro, 1977.
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de Janeiro. V. 1, n. 1, Niterói: UFF, 1985.
· RUIZ,
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· SANTOS,
Noronha. Esbôço histórico acerca da organização
municipal e dos prefeitos do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Oficinas
Gráficas O Globo, 1945.
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