A pesquisa: antecedentes
e correcções de trajectória
O projecto de investigação
que está na base desta comunicação começou,
praticamente, com uma expectativa frustrada. Inicialmente, o objectivo
da pesquisa era identificar o modo como o recurso à umbanda e ao
candomblé contribuía para reforçar a identidade das
populações com origem brasileira e residentes em Portugal.
Esta migração de brasileiros tem vindo a aumentar nos últimos
anos, contribuindo para a recente transformação de Portugal,
que de um país de emigrantes passou a ser, também, um país
de imigrantes.
Em muitos casos, a situação
dos trabalhadores imigrados em Portugal não está regularizada,
determinando, entre outros aspectos relacionados com uma deficiente integração,
a impossibilidade de recurso ao sistema nacional de saúde. É
sabido que, em Portugal, a situação de largos sectores das
populações imigradas é precária: a habitação,
a saúde e o trabalho são alguns dos problemas que mais angustiam
quem chega a este país em busca de um futuro mais favorável
do que aquele que vislumbrava no país de origem.
Estes factos favoreciam a
minha convicção de que o recurso a rituais de religiões
profundamente enraizadas no país de origem daquelas populações
representaria um instrumento relevante na busca de apoio, protecção,
orientação, tratamento e cura, não só junto
dos vivos, mas também - de acordo com as características
dessas religiões - junto de entidades espirituais.
À medida que ia estabelecendo
contactos em vários locais de culto, em Lisboa e num raio de cerca
de trinta quilómetros desta cidade, pude constatar que aquelas populações
praticamente não participavam nos rituais das religiões acima
referidas. Assim, cedo tive que decidir se deveria centrar a minha investigação
na população brasileira imigrada ou nos rituais religiosos
afro-brasileiros. Optei pela segunda hipótese. Afinal, a população
imigrada está presente - ainda que não representada directamente
por um número significativo de indivíduos - na simples existência
desses rituais em território português. Por outro lado, o
facto de cidadãos portugueses recorrerem a esses rituais representa
uma notável prova da capacidade de adaptação da umbanda
e do candomblé a outros ambientes culturais, distintos dos da costa
ocidental africana e do extenso litoral brasileiro.
A chegada ao terreno, o contacto
com indivíduos ligados aos rituais da umbanda e do candomblé,
não foi fácil. Apesar de ter participado, em 1998, num ritual
umbandista, em Lisboa, essa foi uma experiência isolada, não
integrada num plano de pesquisa, sem continuidade de acesso a outros locais
de culto. Naquele caso, tratava-se de um “grupo de trabalho”, como o definiu
um dos seus membros, um grupo formado por uma dezena de pessoas que financiavam
a vinda mensal a Lisboa de uma médium brasileira residente no Porto,
com muitos anos de umbandista, que orientava o ritual, fazia consultas
aos presentes e discutia os resultados com todos, no final, já fora
do estado de transe.
Apesar desse contacto prévio,
vários factores não favoreceram a minha reentrada nos rituais
da umbanda e do candomblé em Lisboa, no mês de Novembro de
2004, nomeadamente, o carácter semi-privado daquelas reuniões,
o facto de não ter reatado contacto com o membro do grupo que me
tinha convidado para aquela cerimónia e a circunstância de
a minha orientação de pesquisa não seguir naquela
direcção em 1998. À distância de seis anos,
considero que se tratou de uma experiência que deixou em mim um lastro
de curiosidade pelo modo como práticas semelhantes se desenvolviam
na malha urbana de Lisboa, com a participação de cidadãos
portugueses que a elas recorriam para esclarecer situações
da sua vida quotidiana e orientar a sua acção em sintonia
com as interpretações ali formuladas.
Neste meu regresso a observações
desses rituais, agora mais sistemáticas e integradas numa pesquisa
com objectivos definidos, o ponto de partida para os contactos com pessoas
directamente ligadas aos rituais umbandistas e candomblecistas foi a busca
na Internet e o recurso a um estabelecimento comercial em Lisboa que vende
artigos relacionados com aquelas religiões afro-brasileiras.
Os encontros com sacerdotes
de ambas as religiões foram o primeiro passo para a minha presença
em rituais e para o contacto com os indivíduos que neles participavam.
O encontro com A., o elemento
daquele “grupo de trabalho” que não via desde 1998, foi casual,
numa rua de Lisboa, no dia em que iniciava o meu trabalho de campo, dirigindo-me
ao supracitado estabelecimento comercial.
A pesquisa: objectivos
e métodos
Os objectivos da pesquisa,
que ainda decorre e que teve o seu início em Novembro de 2004, são:
caracterizar a umbanda e o candomblé em Lisboa; identificar o tempo
e o modo do estabelecimento dessas religiões afro-brasileiras em
território português; caracterizar parte da população
que a elas recorre e esclarecer quais os motivos que determinam a adesão
dessa população a essas religiões.
Para os atingir recorri a
bibliografia específica, à observação participante,
a conversas informais e a entrevistas gravadas, nas quais solicitei que
os interlocutores falassem da sua vida, nomeadamente de como e porquê
se ligaram às práticas religiosas umbandistas e candomblecistas.
O candomblé e a
umbanda: uma breve resenha de semelhanças e traços distintivos
A escravatura transformou
o homem em mercadoria e constituiu-se como actividade e fonte de rendimento
para aqueles que arregimentavam humanos em África (africanos e europeus)
e para aqueles que os compravam do outro lado do Atlântico e os distribuíam
pelos campos de cana de açúcar, de café, de cacau,
espalhados pelo litoral brasileiro (VERGER, 1981/1997:
22 a 25; LUZ, 2002: 22 a 25.). Os focos de difusão
dos escravos, por ordem decrescente de importância, foram a Bahía,
o Pernambuco e o Maranhão.
O comércio de escravos
teve diferentes ciclos, correspondentes a diferentes zonas de proveniência
dos cativos:
a) Guiné:
segunda metade do século XVI;
b) Angola-Congo: todo o
século XVII;
c) Costa Mina: primeira
metade do séc. XVIII;
d) Benin: segunda metade
do séc. XVIII e primeira metade do séc. XIX.
O tráfico decorreu
de 1551 a 1850, sem interrupções, e considera-se que o número
total de escravos africanos, só no Brasil, tenha ultrapassado cinco
milhões (GORENDER, 2000: 32 e 33).
Os primeiros que chegaram
ao Brasil vinham da região da actual Guiné-Bissau, de uma
faixa litoral que se estendia entre os actuais Senegal e Serra Leoa (a
então chamada Costa da Malagueta). Eram, maioritariamente, fulas
e mandingas e ficaram a trabalhar nos canaviais da Bahia e de Pernambuco
( CARNEIRO, 1978/1991: 17).
De Angola e do Congo (e muito
poucos de Moçambique, macuas e angicos) foram, para o litoral do
Brasil, negros de língua banto destinados à cultura de cana-do-açúcar.
Eram denominados de acordo com o lugar de pertença ou a origem cultural
- caçanjes, benguelas, rebolos, cabindas, muxicongos.
Da Costa da Mina (no extremo
setentrional do Golfo da Guiné) a Minas Gerais (no interior do sul
do Brasil) chegaram negros para a mineração de ouro e de
diamantes, depois de passarem pela Bahia (que detinha o monopólio
do comércio de escravos com aquela Costa). Eram negros do litoral
(nagôs, jêjes, fantis, axantis, gás e txis) e do interior
do Sudão islamizado :hauçás, kanuris, tapas, grúncis
e novamente fulas e mandingas.( CARNEIRO, 1978/1991:
18.) Na segunda metade do séc. XVIII e na primeira metade do séc.
XIX, são os sudaneses ocidentais (nagôs e jêjes, que
ainda hoje habitam a zona do golfo de Benin) e os africanos austrais (divididos
em muitos grupos, mas sobretudo bantos) que se estabelecem na Bahia e ganham
preponderância sobre outros grupos de origem africana.(PESSOA
DE BARROS, 1999: 23).
A mobilidade, a dispersão
e a miscigenação da população de escravos foram
determinadas, ao longo dos tempos, pela deslocação dos centros
de interesse económico (do açúcar para o ouro, do
ouro para o café), pela guerra entre portugueses e holandeses no
séc. XVII, por várias insurreições de escravos,
pelo estabelecimento de quilombos, pela revolução da Independência
e, finalmente, pela lógica do “dividir para reinar”, que presidia
à estratégia do poder estabelecido de evitar, nos campos
e, depois, nas cidades, a aglomeração de escravos com uma
origem cultural comum, optando pela sua disseminação.( CARNEIRO,
1978/1991:18.) Assim, aos negros que continuavam a chegar do continente
africano foram-se juntando, em número crescente, os negros crioulos,
nascidos e criados no Brasil, tendo o tráfico favorecido o intercâmbio
linguístico, sexual e religioso entre escravos e ex-escravos (Ibidem).
Com os escravos, chegaram
ao Brasil várias religiões, sem um nome genérico,
africano, que designasse os vários cultos. O candomblé (de
kandombile, “culto, oração”, ou de candombe, da dança
do mesmo nome, executada por escravos das fazendas de café, ou de
candombe, espaço físico onde tem lugar a dança, ou,
ainda de candombe, nome dado aos atabaques) da Bahia é o que assume
maior esplendor em todo o Brasil.
A liderança religiosa
era dos nagôs, na Bahia (mais do que os jêjes) e no Maranhão
(em igualdade de condições com os jêjes conforme CARNEIRO,
1978/1991:19. A difusão do predominante culto nagô deu-se
a partir de Pernambuco para todo o Nordeste Oriental, do Maranhão
para toda a população negra da Amazónia, da Bahia
para todo o centro-sul, tendo servido de modelo aos cultos surgidos mais
tardiamente (já no séc. XIX) no Rio Grande do Sul. Em Minas
Gerais, no Estado do Rio e em São Paulo, incorporou tradições
regionais e sofreu uma forte influência angolana (CARNEIRO,
1978/1991:19 e 20).
Trata-se de uma religião
ligada, obviamente, à lógica do mundo africano, que, no novo
continente, logrou implantar-se e desenvolver-se ao longo dos séculos
(apesar de todas as violências exercidas sobre os seus fiéis
- sem esquecer que até finais do século passado a religião
católica era a única autorizada no Brasil e todos os escravos
eram baptizados à sua chegada).( VERGER,
1980/2002: 37). O terreno mais favorável foi o urbano (ou o suburbano),
porque o culto organizado não podia funcionar no contexto rural
de escravos, sem dinheiro e sem a liberdade que só viriam a ter
nos centros urbanos (Salvador, Ilhéus). De facto, o modelo nagô
ganhou preponderância relativamente a outros cultos, porque os escravos
acompanharam os seus proprietários (mineradores e fazendeiros) nas
cidades, dedicando-se a outras actividades, diferentes daquelas a que se
destinavam quando chegaram ao Brasil. Assim, a vida do escravo e o estabelecimento
do culto candomblecista desenvolveram-se a par: na primeira metade do séc.
XVIII, o negro urbano, já tem dinheiro, apesar de ainda não
ter liberdade, e funda as Irmandades do Rosário e de São
Benedito CARNEIRO, 1978/1991: 20); na segunda metade
do século, quando começa a viver livre do senhor, fundem-se
as várias religiões de origem africana numa unidade de culto;
em 1830, com a fundação do candomblé do Engenho Novo
,
na Bahía, cerca de 1830, inicia-se nova fase do culto organizado
(CARNEIRO, 1978/1991:20).
Ao longo de todo o litoral
brasileiro, desde o extremo norte até à fronteira com o Uruguai,
as religiões com origem africana estão fortemente implantadas
no quotidiano das populações. Os diferentes grupos culturais
africanos refletem-se nas diferentes “nações” de candomblé:
a diferentes “nações” de origem correspondem tradições
diversas, angola, congo, jêje, nagô, queto, ijexá. É
possível distingui-las entre si pelo toque de tambor, pela música,
pelo idioma dos cânticos, pelas vestes litúrgicas, pelos nomes
das divindades (os orixás) e por certos aspectos do ritual (VERGER,
1981/1997 e 1957/2000; VERGER e CARYBÉ,
1985/1997 e BASTIDE, 1958/2001: 29).
A organização
religiosa e ritual implicava uma organização social que remetia
para o referente africano e que existia dentro de uma organização
social e política de outro continente, complexa e centralizada,
a partir do século XIX, de acordo com uma lógica de Estado-Nação,
cujo controlo cabia a não-negros.
O candomblé é
uma religião de resistência, filha da resistência, da
luta dos povos africanos em terras americanas, pelo seu direito a existir,
a viver para além das várias mortes infligidas todos os dias,
e a celebrar a existência com os seus deuses. Como referia Taussig
(1987/1993: 109) noutro contexto, o terror e a tortura não eram
simplesmente meios utilitários de produção, eram uma
forma de vida, um modo de produção). Deuses negros, que representam
a natureza e a sua força, a debilidade dos humanos e a sua capacidade
de superação, em consonância com um mundo tornado visível
por uns quantos, que acreditam que podem ser canais privilegiados de contacto
com esse além. Cozinheiros, domésticas, funcionários
públicos, são filhos de Xangô, de Ogum, de Oxóssi.
O além torna-se próximo: a divindade sobe num seu filho,
“monta-o”, faz dele seu “cavalo”, exprime-se através dele, através
do seu transe, toma-o para falar aos demais que vêem e ouvem o que
a divindade tem a dizer através do vizinho, do parente, do amigo,
que a incorpora.
A umbanda nasceu há
menos de um século (Dion, 1998/2002: 154).
É uma religião mediúnica, formada a partir de doutrinas
e rituais africanos, indígenas, kardecistas
,
católicos, e fundamenta-se na incorporação, por iniciados,
de espíritos (pretos-velhos, caboclos, etc.) que se encontram agrupados
em linhas e falanges (MAGNANI, 1986: 29 e 61).
Agruparei as diferenças
que considero essenciais entre candomblé e umbanda em cinco pontos,
abordados nos parágrafos seguintes: a organização
e a classificação das entidades; a natureza do transe; as
divindades e os espíritos; tipos de comunicação com
as entidades; estrutura burocrática e poder religioso.
Tanto num quanto noutra assume
particular destaque a comunicação entre o sobrenatural e
o mundo dos humanos, através da incorporação de entidades
espirituais por parte de iniciados. No entanto, no candomblé a actualização
da realidade africana é omnipresente: os orixás são
criadores do universo e modelos de vida humana (PESSOA
DE BARROS, 2003: 48), reis, princesas e heróis divinizados,
aos quais são atribuídas características psicológicas
e que representam forças da natureza (Xangô, o raio, o trovão;
Iansã, os ventos e a tempestade; Iemanjá, a água do
mar; Ossaim, Ossaê ou Ossanha, as folhas e plantas; Oxumarê,
o arco-íris; Oxum, rios e cascatas; etc.), actividades humanas (Oxóssi,
a caça; Ogum, a guerra e a metalurgia; Omulu, a medicina), virtudes
e paixões (Xangô, a justiça; Oxum, o amor, o ciúme,
a inveja; Oxalá, a sabedoria), cujas acções se desenrolaram
num tempo mítico e são actualizadas em cada incorporação
(MAGNANI, 1986: 30). Na umbanda, as entidades incorporadas
são espíritos de mortos que descem do astral onde habitam
para a Terra, onde, através da ajuda dos humanos, ascendem no processo
evolutivo em busca da perfeição, aspecto revelador da influência
da teoria kármica nesta religião, mediada pelo kardecismo(
Ibidem). Se comparadas com o espiritismo kardecista, as entidades na umbanda
assumem-se de forma menos individualizada e não são reconhecíveis
pelas suas vidas passadas; constituem-se como categorias mais genéricas
e estereotipadas, caso dos caboclos e pretos-velhos, por exemplo. (Ibidem
)
Assim se entende como o carácter
do transe é diferente: no candomblé, ele é orientado
pelo conjunto de mitos que retratam a vida das divindades, uma longa e
complexa história que é actualizada através da dança,
dos cânticos, das vestes, da representação das atitudes
diferentes que caracterizam e diferenciam os orixás; na umbanda,
o transe constitui a actualização de uma história
mais recente, na qual os heróis são figuras que perduraram
na memória popular (os caboclos, os pretos-velhos, que assumem diferentes
nomes, mais do que os indivíduos que são evocados, são
a representação dos índios brasileiros e dos escravos
africanos, com características próprias, que são louvadas
na liturgia e na coreografia umbandista).
Esta actualização
constante, dinâmica, entrelaçada com o quotidiano dos fiéis,
constitui um acréscimo de dificuldade na determinação
das entidades que integram o culto, na uniformização e na
regulamentação da umbanda. Encontramos esta dificuldade minorada
no candomblé, religião na qual os orixás formam um
sistema e estão ligados por laços de casamento e descendência.
Na umbanda não existe este espírito de sistema: os antepassados
africanos (os pretos-velhos) e as entidades ameríndias (os caboclos)
estão distribuídos em aldeias, reinos, tribos e justapõem-se,
procurando a organização religiosa superar esta dispersão
através da teoria das linhas e falanges (divisões que agrupam
as entidades de acordo com uma lógica de afinidades intelectuais,
morais, culturais e de evolução espiritual). Algumas dessas
linhas são presididas por um orixá da tradição
nagô, considerado como “vibração”, mas que não
incorpora nos médiuns.
A comunicação
com as entidades no candomblé e na umbanda é, também,
diferente. No primeiro, os orixás não comunicam directa ou
verbalmente com os fiéis: depois da representação
dos deuses, há que recorrer ao sacerdote, o babalaô, que,
através do jogo de búzios ou do colar de Ifá, interpreta
e transmite normas e vaticínios; na umbanda, os espíritos
apresentam-se no terreiro para atender as preces dos fiéis, com
conselhos, passes, receitas (MAGNANI, 1986: 36).
Há dois tipos de sessões, ou giras: de desenvolvimento (em
que os iniciados procuram evoluir no seu conhecimento da religião)
e de caridade (destinadas a ajudar os que recorrem ao culto).
A estrutura do candomblé
assenta (segundo MAGNANI, 1986) no babalaô,
(que interpreta e adivinha através do jogo de búzios ou do
colar de Ifá), no babalossaim (encarregue das ervas e folhas sagradas)
e no babalorixá, ou ialorixá, se for mulher (que orienta
o ritual e determina o comportamento de várias figuras relevantes
do culto, entre eles: os abiãs, os candidatos à iniciação;
os iaôs, os já iniciados; os ekedis, mulheres que ajudam no
culto; a iabassê, responsável pelas comidas rituais; os ogãs,
homens que ajudam no culto, entre os quais se incluem os alabês,
que tocam os atabaques, e o axogum, o sacrificador ritual; etc.). A “casa”,
o ilê, do babalaô, é o centro da família e pode
funcionar como residência fixa para alguns dos seus membros (MAGNANI,
1986: 39; PESSOA DE BARROS, 2003: 29). Pelo
contrário, na umbanda (que surge e se desenvolve num contexto urbano
e industrial) o local de culto deixa de ser o núcleo de uma comunidade
e passa a ter horário de funcionamento, registado em cartório,
enquadrado por um vasto e complexo mundo de federações, com
uma estrutura burocrática assente num estatuto. A hierarquia espiritual
é menos complexa que a do candomblé: pai ou mãe-de-santo
ou madrinha, pai e mãe pequena, auxiliares de culto (cambonos e
tocadores de atabaque) e filhos-de-santo, ou de fé, que constituem
o corpo de médiuns (MAGNANI, 1986: 40).
De acordo com Bastide, a
estrutura do culto nagô na Baía era constituída por
quatro sacerdócios:
- os babalorixás
(ou ialorixás) que presidem ao culto dos orixás;
- os babalaôs
que presidem ao culto de Ifá;
- os babalossains
que presidem ao culto de Ossaim, a divindade das folhas;
- os babaojés
que presidem ao culto dos eguns (os espíritos dos antepassados).
Segundo o autor, “esse sacerdócio quádruplo corresponde à
estrutura quádrupla do mundo – os deuses, os homens, a natureza
e os mortos.” (Bastide, 1958/2001: 115.)
Ainda segundo Bastide (1958/2001),
o candomblé constituía um espaço onde os vínculos
de linhagem desfeitos pelo tráfico e regime servil foram substituídos
por laços de parentesco espiritual, sendo constatável, no
entanto, uma falta de ligação orgânica entre os vários
terreiros e “nações”.(Bastide,
1958/2001: 154; 69 e 70).
A memória de África,
presente nas duas religiões aqui sujeitas a breve análise,
transmutou-se, ao longo dos séculos, num factor indispensável
na construção da identidade de vários grupos, entre
outras razões, porque fortalecia um sentimento de pertença
em indivíduos com uma história de desenraizamento imposto
pela força. É precisamente entre grupos que viveram uma experiência
histórica traumática que a memória assume especial
importância. Essas culturas que vivem uma situação
de subalternização relativamente a uma cultura maioritária
que recorre, de modo sistemático, a meios repressivos como instrumento
essencial de sujeição, podem ser denominadas como culturas
de contraste (Cunha, 1986) ou de resistência
(Taussig, 1987/1993). A religião afirma-se
como importante factor de aglutinação dos membros dessas
culturas e uma pedra fundamental na construção da identidade
desses indivíduos.
Estabelecimento do candomblé
e da umbanda em território português
A fixação destas
religiões em Portugal mantém uma relação estreita
com as ondas migratórias, sobretudo deste país para o Brasil
(só desde os últimos anos do século passado é
que se nota uma corrente migratória relevante no sentido contrário).
Naquele caso, assume particular
importância o fluxo migratório dos anos 40, para o Nordeste
do Brasil. Duas das mais antigas casas de umbanda estabelecidas em
Lisboatêm na sua origem esses fluxos migratórios de portugueses
para o Brasil, já que são fundadas após o regresso
a Portugal de portugueses formados na umbanda no Brasil (Pordeus
Junior, 2000).
Outros dois casos analisados
resultam da chegada de brasileiros ao nosso país na última
década e da fundação de dois terreiros de candomblé
nos arredores de Lisboa.
Nos casos referidos, o início
dos terreiros teve como base um pai ou mãe-de-santo e poucos adeptos
(em alguns casos, trata-se de parentes e amigos próximos). Com o
passar do tempo, os terreiros implantam-se, estabelecem uma clientela e
tendem para o crescimento. Na sua maioria não se trata de africanos
ou brasileiros recorrendo a formas religiosas familiares, mas sim portugueses
que se sentem acompanhados, ouvidos e atendidos nas suas preces.
É difícil
compatibilizar a necessidade de ter elementos naturais por perto, estar
próximo de agregados urbanos onde recrutar uma clientela numerosa
e fiel e, finalmente, não ter más relações
de vizinhança devido ao ruído e ao exotismo dos rituais.
A vida dos terreiros em Lisboa
não é fácil, como afirmam todos os seus adeptos, mas
a vida das minorias, religiosas ou outras, não é fácil
na sociedade portuguesa. Seja em termos legais ou noutros aspectos da vida
social a aceitação e o reconhecimento destas religiões
não tem sido pacífica em Portugal.
Breve caracterização
da população que recorre ao candomblé e à umbanda
e motivos da sua adesão a essas religiões
A nossa tradição
científica separa religião e medicina desde o século
XVII, mas isso não implica que na prática dos indivíduos
essa separação seja efectuada. De facto, ela não o
é. Muitos dos indivíduos que temem pela sua saúde,
que conhecem a precariedade do estado de saúde, ou que querem recuperar
esse estado, recorrem a vários agentes de saúde, sejam eles
materiais ou imateriais. Talvez estas não sejam as melhores palavras
para distinguir médicos de santos - ou outros quaisquer agentes
do sistema de saúde hegemónico ou alternativo de entidades
religiosas oriundas da tradição ocidental ou de outra. No
entanto, procuro, com esses termos, distinguir aqueles a quem se pode recorrer
no mundo material onde os humanos adoecem e morrem, de outros seres, divindades
ou entidades (nem sempre visíveis, nem para todos visíveis)
que, na convicção de alguns, podem ser decisivas no jogo
da vida e da morte.
Religião e doença
estão intimamente ligadas. É sabido que o sistema médico
ocidental define fronteiras da teoria e da prática médica,
determinando uma separação dos territórios médicos
e religiosos. A análise da prática dos indivíduos,
pelo contrário, revela uma ligação estreita entre
aspectos médicos e religiosos, quer nos pedidos feitos à(s)
divindade(s) e seus mensageiros ou representantes para manutenção
ou recuperação da saúde, quer na atitude religiosa
face a terapêuticas sem carácter religioso, quer, finalmente,
no envolvimento em actos terapêuticos com forte e declarado sentido
religioso.
Nesta comunicação
centrarei a minha atenção nestes últimos casos, isto
é, em práticas religiosas com fortes ligações
a temas relacionados com a doença, sua prevenção e
seu tratamento.
A doença tem uma vertente
individual e uma vertente social. É no corpo do indivíduo
que se declara; só faz sentido (só é entendida) porque
a sociedade onde ela se manifesta possui um sistema teórico que
a contextualiza, interpreta e explica. No processo mórbido, o indivíduo
não está só com a dor ou a angústia que a mesma
lhe causa: ele socializa-a, recorre aos próximos, e, juntos, esboçam
um itinerário terapêutico, recorrem a agentes de saúde,
compõem o recurso a um só ou a mais do que um agente, rezam,
pedem ajuda a seres do mundo visível e do invisível. Esse
movimento acelera-se ou intensifica-se em função de vários
factores: a gravidade da doença, a intensidade da dor ou do sofrimento,
os vários recursos disponíveis, a disponibilidade material
dos envolvidos.
Apesar de ser difícil
socializar a localização, a intensidade, a razão ou
o sentido de uma dor física, de uma dor moral, de um desgosto, tal
tarefa (que encerra sempre uma boa dose de sofrimento, pelo menos para
o doente que a leva a cabo) é essencial para o entendimento da doença
e para o decurso e o desenlace do processo. Só no contacto com outros,
na partilha do sucedido, é que o acontecimento ganha sentido.
A doença é
simultaneamente a mais íntima e individual das realidades e um exemplo
concreto da ligação intelectual entre a percepção
individual e o simbolismo social (AUGÉ,
1984, 1985 e 1986; SINDZINGRE, 1984; ZEMPLENI,
1985; FAINZANG, 1986 e 1989; LE
GOFF, 1985; SONTAG, 1977; PEREIRA,
2000 e 2001). Quando efectuamos uma análise das concepções
de corpo, saúde, doença, de um determinado agrupamento humano,
constatamos como essas construções sociais, colectivas, são
determinantes no sentido que as pessoas dão à sua existência,
ao seu lugar no mundo, à sua integração no meio social
a que pertencem (PEREIRA, 2001; LE
BRETON, 1990, 1993 e 1995).
As conversas que tive com
as pessoas que recorrem à umbanda e ao candomblé, revelaram
isso mesmo. As religiões da umbanda e do candomblé incluem
regras e práticas que remetem para a prevenção da
doença, a manutenção e a recuperação
da saúde e esses aspectos assumem grande relevância nas preocupações
de quem a elas recorre. Essas religiões surgem, assim, como “medicinas
sagradas” (BRELET-RUEFF, 1975/1991), porque
curam, salvam e orientam (idem, p. 295).
Num caso, A., publicitário,
dizia-me que a umbanda tinha sido fundamental na sua “estruturação”.
Teve o seu primeiro contacto com a umbanda aos seis anos, quando assistiu
à incorporação de um espírito por parte de
uma amiga dos pais, adepta da umbanda. Assistiu e participou, já
que o espírito queria comunicar-lhe algo de muito importante. Diz
que não achou estranho que a mesma pessoa que conhecia há
anos lhe falasse com uma voz e uma postura diferentes das habituais. Não
fechou a sua sensibilidade nesse momento e mantém-na aberta aos
37 anos, a idade que tem agora.
Avisou-me que não
era um estudioso do assunto, mas uma pessoa que ainda estava a aprender
– sobretudo, a aprender a sentir. A. integrou o grupo de trabalho
a que me referi no início desta comunicação, durante
vários anos. Todos os meses um grupo de pessoaspagava passagens
e estadia àquela mesma senhora que orientava uma sessão em
Lisboa. Os elementos desse grupo falavam, celebravam um ritual de umbanda,
cantavam, tocavam tambores, celebravam os espíritos que se apresentavam
incorporados na médium e falavam, de novo, agora com o espírito.
Cada um dos presentes podia comentar aspectos da sua vida, assuntos relacionados
com amor, trabalho, saúde. As sessões chegavam a durar mais
de seis horas. No fim da cerimónia, alguns ficavam mais tempo à
conversa, comentando aspectos da sessão, levando mais longe a reflexão
sobre a vida, as suas dificuldades, as suas recompensas. Em conversas com
a médium apurava-se um ou outro aspecto da sessão e do processo
de vida de quem com ela falasse. O ambiente era familiar porque havia um
“núcleo duro”, de três ou mais pessoas (nomeadamente, A.,
a sua mãe e a médium), mais uma dezena de pessoas presentes
em quase todas as sessões, somando-se a elas muitos convidados,
a maioria dos quais assistiu a uma ou poucas mais sessões.
Até ao passado ano
de 2004, as sessões decorreram com regularidade mensal e A. participou
nelas durante cerca de 15 anos consecutivos. Desde esse ano, o grupo deixou
de se reunir na casa da mãe de A., devido a divergências
entre ela e a médium.
Um brasileiro, com 39 anos,
residente em Portugal, cozinheiro de profissão, sacerdote de candomblé
e chefe de terreiro neste país, falou-me do ambiente familiar que
existia no terreiro de candomblé onde ele viveu, onde ele morou,
no Brasil. A sua casa era o terreiro. Apesar de ter pai e mãe e
uma casa onde viver com eles, num bom ambiente familiar, depois da sua
iniciação passou a habitar no terreiro. Tal facto era entendido
pelos pais e restante família, que respeitavam a sua vocação
e a sua dedicação religiosa. Nas nossas primeiras conversas,
quando ele falava de mãe ou de pai, mais do que uma vez lhe perguntei
a qual deles se referia, o biológico ou o do candomblé. No
círculo dos candomblecistas (portugueses, na sua quase totalidade)
do terreiro de Pai G., pai-de-santo, o tratamento que ele dá
a quem a ele recorre é de “filho” ou “filha”, quem se lhe dirige
trata-o por “pai”. Essa proximidade na relação é referida
por Pai G. como um sinal do ambiente de família que une os
candomblecistas e que faz parte dos valores religiosos do candomblé.
Nas práticas religiosas
e quotidianas valoriza-se a união entre todos os correligionários
e consulentes e receia-se o desmembramento de um terreiro. Essa desagregação
constitui sempre um momento traumático para os envolvidos.
R., um estudante universitário
com 26 anos, é médium de incorporação num terreiro
que funciona, com alguma regularidade, numa garagem de uma casa, situada
numa aldeia próxima de Alenquer. As leituras sobre espiritualidade
e mediunidade (que diz ter herdado do lado da mãe, parte da família
na qual eram vários os casos de uma “mediunidade mal canalizada”
que redundaram em doença mental, segundo R.) continuam ainda
hoje, depois de ter sido prática habitual desde o início
da adolescência. A mãe é crente em algumas leis da
espiritualidade, o pai é céptico (mantendo distância
desses temas) e o “ambiente liberal” de sua casa (ainda que a disciplina
seja valorizada positivamente, sobretudo por determinação
paterna) permitiu-lhe aprofundar determinados aspectos da espiritualidade.
Após alguma defesa
relativamente ao fenómeno de possessão (“não queria
que um espírito vindo sei lá de onde, tomasse conta do meu
corpo”) e um período de aprendizagem, R. é hoje, nas
suas palavras, médium de incorporação consciente,
recebe várias entidades, ajuda a tratar da saúde das pessoas,
cresce interiormente e aprende com as entidades. Segundo R., quanto
mais estiver de acordo com aquilo que as entidades esperam dele, melhor
será a sua vibração, a hipótese de eles o tomarem
como “cavalo” e de ele poder ir encontrando entidades mais evoluídas,
evoluindo ele com elas (“porque se aprende muito com elas”).
O processo de aprendizagem
do mundo espiritual assume-se, assim, como decisivo para o processo de
aprendizagem do mundo material. Naquele estão cristalizadas qualidades
do segundo; entender aquele é aprender a viver neste e a agir sobre
ele de acordo com o conhecimento de leis básicas que o condicionam.
Chegar a conhecê-las e agir de acordo com elas contribui para viver
melhor neste mundo e prepararmo-nos para aquele.
O grupo de trabalho referido
por A., com fortes características umbandísticas,
busca um reagrupamento num novo espaço. A. manifestou o seu desapontamento
pela falta de um espaço onde voltar a organizar as “giras” (sessões),
ainda que entendesse o sucedido como inevitável e fundador de uma
fase importante de crescimento dos indivíduos que compõem
o grupo. No entanto, essa perda de espaço traduzia-se numa perda
de orientação pessoal, interior, que tinha naquele espaço
uma importante âncora, um ponto de partida e um porto de abrigo para
as experiências espirituais vividas e interpretadas aí mesmo.
O sentimento de se reunirem numa casa sentida como sendo de todos contribuiu
para o reforço, ao longo dos anos, dos laços de solidariedade
grupal.
Todos os intervenientes em
sessões de candomblé e de umbanda que contactei, manifestaram
a dificuldade em as realizar, devido à escassez de espaços
adequados. As religiões em análise, mais do que religiões
urbanas são religiões suburbanas, quer porque o ambiente
natural deve estar próximo (nomeadamente, para recorrer a elementos
essenciais aos rituais e para estabelecer uma maior sintonia com o meio
natural), quer porque o som produzido pelos atabaques (tambores) e pelos
cantos e gritos dos participantes não se coadunam com as exigências
de silêncio dos espaços urbanos densamente habitados, sobretudo
a partir de certas horas da noite.
O espaço físico
onde decorriam as giras do grupo de trabalho de umbanda constitui mais
uma heterodoxia num campo muito pouco ortodoxo, como o é o das práticas
das religiões afro-brasileiras em Lisboa ou povoações
mais ou menos próximas. É raro que as sessões de umbanda
decorram na sala de uma casa particular, num imóvel de uma rua da
Lisboa antiga. Certamente que ajuda à sua realização
o facto de todo o restante imóvel estar desabitado, ainda assim,
esse não é o espaço ideal para práticas de
umbanda.
A. referiu como os
princípios da umbanda eram adaptáveis e ainda assim respeitados
nas práticas em que participou. Aquela religião era um caminho,
um via de “re-ligação” (referiu a origem da palavra “religião”,
a propósito) a aspectos que considera essenciais para uma vida com
mais sentido, por outras palavras, vivia a vida com os sentidos acrescidos
devido àquela prática religiosa.
Uma das razões para
essa situação decorria do facto de não existir o peso
do castigo que existe na religião católica e por a divindade,
ou as entidades a ela ligadas, “estar ao alcance do braço”. Essa
proximidade de várias entidades permite uma maior comunicação
com o mundo, sendo essa relação mediada pela visão
do mundo que nele inclui várias entidades invisíveis, mas
sentidas e incorporadas pelos que nelas crêem, fé que deve
ser demonstrada nas giras e na prática quotidiana.
Quando A. falava da sua estruturação,
baseada nos princípios religiosos da umbanda, traduzia esta capacidade
de entender o mundo material, o imaterial e as influências recíprocas
que exerciam. As dificuldades sentidas no quotidiano eram entendidas de
acordo com uma contextualização do facto que incluía
a intervenção de uma entidade e o possível recurso
à mesma ou a outra, procurando interceder a favor do interessado.
Os factos vividos são socializados junto de um grupo com o qual,
ao fim de pouco tempo, se compartilham desejos, anseios, aflições.
Favret-Saada
(1977) é recordada, a propósito dos vários recursos
sociais para os “estados de aflição”, por Ismael Pordeus
Jr. (2000), no estudo que faz sobre umbanda em Portugal, recursos entre
os quais o autor inclui “os pais e mães-de-santo brasileiros” (p.
9). A designação daqueles estados faz sentido para mim, ao
lembrar, por exemplo, as cerimónias a que assisti no terreiro do
Pai
J., a cerca de 20 quilómetros de Lisboa. Aí, numa sala
com cerca de 40 metros quadrados, juntavam-se sete a oito dezenas de pessoas,
duas vezes por semana, havendo um espaço destinado aos doentes,
outro aos assistentes, outro aos filhos-de-santo e outro ao pai-de-santo
e seus ajudantes directos. A atenção dispensada aos doentes
e aos assistentes remetia para preocupações com a saúde
e o bem-estar de cada um deles, revelada no toque físico, na imposição
de mãos em partes afectadas do corpo, no abraço dado pela
pessoa que incorporava uma entidade a quem se sujeitava aos seus cuidados.
O consolo procurado parecia momentaneamente satisfeito, a julgar pelas
expressões faciais dos atendidos, pelo convívio geral no
final da cerimónia, pelas promessas de reencontro na despedida.
A interacção
entre os elementos que organizam e participam nas cerimónias, sessões
ou giras, é intensa e reiterada ao longo de vários anos.
A. participa em sessões de umbanda desde há 15 anos, com
regularidade mensal. A sua mãe, L., 61 anos, doméstica
com formação em secretariado, participa há cerca de
25 anos, com aquela mesma regularidade. Durante esse período de
tempo entre vinte a trinta pessoas participaram em sessões mensais.
O grupo integrava sempre convidados, alguns dos quais participaram uma
só vez.
A. fala do abismo que pode
ser o oráculo. Refere-se a quem recorre à umbanda como um
simples meio de obter resposta a uma pergunta e a como a insegurança
do dia-a-dia pode gerar essa espiral de pergunta-e-resposta a propósito
de um futuro mais ou menos próximo, mais ou menos realizável
do ponto de vista do consulente. Apesar disso, um princípio básico
da umbanda é a caridade, valor com fortes tons do cristianismo e
da teoria kardecista. Esse valor é determinante no carácter
militante que assumia neste grupo a abertura ao exterior, às pessoas
que recorriam à umbanda por estarem em sofrimento. Este fenómeno
é visível e declarado, também, pelos participantes
nos terreiros de candomblé que freqüentei nestes meses de início
de trabalho de campo.
L., mãe de
A.,
foi católica até aos 14 anos. Aí, deixou de o ser,
como diz. Desde então, tornou-se insuportável a aceitação
de “um ser vingativo que nos encosta uma faca às costas”. Não
lhe interessava “ser um espírito vingativo”. O conhecimento da mediunidade
e da umbanda deu-se há quase 40 anos, no contacto com Z.,
a médium brasileira, que viria a ser iniciada no candomblé
e na umbanda, e foi-se aprofundando ao longo dos anos. Nos primeiros dez
anos das sessões, L. não incorporou qualquer entidade.
Depois, a pouco e pouco foi recebendo várias entidades.
L. comentou como é
difícil praticar candomblé em Lisboa, por ser fundamental
a proximidade da natureza. Em Março e em Setembro, o grupo referido
celebra cerimónias fora de Lisboa, no campo e na praia, dedicadas
a orixás como os Ibeji e Oxum. Já aconteceu apresentar-se
um orixá numa das várias sessões de umbanda em que
participou. Aliás, se as condições fossem outras que
não o espaço físico de uma sala num andar de Lisboa,
as sessões seriam de candomblé e não de umbanda, o
que é particularmente revelador da capacidade de adaptação
destas religiões às circunstâncias existenciais dos
devotos e ao engenho destes últimos para conseguir garantir a prática
religiosa em condições adversas.
Em jeito de balanço
do seu processo de aprendizagem, diz L. que “o que é importante
é nós vermos os sinais…e entendermos os sinais, antes de
ver, entender…cá dentro” e questiona: “as pessoas hoje não
têm tempo para ver os sinais, por isso é que a vida anda toda
torta, não é?”
Orientação,
aprendizagem, solidariedade, caridade, respostas a perguntas que afligem,
são alguns dos aspectos valorizados no recurso a estas religiões
e referidos por alguns daqueles que a elas recorrem.
Ao aproximar-me do final
desta comunicação algumas questões podem ser levantadas
como, por exemplo: que utilidade pode ter esta pesquisa para aqueles que
não recorrem a estas religiões?; qual a relevância
do estudo dos comportamentos de elementos de minorias religiosas para o
conjunto da sociedade e para a reflexão antropológica?
Considerações
finais
Tal como os estudos antropológicos
clássicos das sociedades exóticas, os estudos das minorias
religiosas em terreno urbano estimulam o recurso a um método comparativo
que conduzirá a um conhecimento mais profundo de formas alternativas
de conceptualização e comportamento e a uma reflexão
mais informada sobre determinados aspectos dessas religiões que
não existem na religião maioritária ou que são
nela deficitários. Essa reflexão não se limita a aspectos
estritamente religiosos, já que muitas das acções
ritualizadas remetem, por exemplo, para o saber médico (aspecto
que centrou particularmente a minha atenção).
A análise de uma realidade
exótica, distante ou minoritária numa dada sociedade, pode
revelar-se importante para entender outras formas de pensar e de agir e
para idealizar formas alternativas de pensar e de agir, alargadas à
sociedade de origem ou à sociedade maioritária.
Dito de outro modo, importa
entender por que recorrem as pessoas a estas religiões, nomeadamente
esclarecer o grau de satisfação que elas manifestam relativamente
a formas tradicionais, na sociedade portuguesa em que se inserem, de entender
e praticar a religião, a medicina e o atendimento a quem necessita
de cuidados de saúde ou de assistência.
Por outro lado, ao analisar
a prática destas religiões em território português
podemos contribuir para a reflexão sobre a sua adaptação
e resistência a condições adversas (características
que têm sido designadas pelo termo “sincretismo”, o qual é
parte integrante da política de branqueamento da cultura brasileira,
e, como tal, mal recebido por um número crescente de adeptos da
umbanda e do candomblé segundo LUZ, 2002: 159
a 161) e sobre as estratégias da população que visa
organizar o culto e conseguir que a sua devoção contribua
para melhorar as suas condições de vida. Essa resistência
é mais notória antes do 25 de Abril de 1974, quando o seu
culto não era livre, mas ainda hoje não se fala abertamente
e sem preconceitos sobre estas religiões e os seus rituais, sendo
que a estranheza que despertam e a conseqüente censura social ainda
produz efeitos inibitórios naqueles que a elas recorrem.
Finalmente, a análise
das concepções de doença e de saúde dos membros
de um dado agrupamento social constitui um meio de acesso ao sentido que
os indivíduos atribuem aos seus comportamentos, às relações
que estabelecem com os membros da sociedade à qual pertencem e ao
sistema de interpretações, crenças e valores que lhe
são subjacentes (PEREIRA, 1993: 164.),
pelo que o trabalho de terreno em apreço se afigura como potencialmente
revelador daquelas concepções e dos laços sociais
tecidos, em território português, por aqueles que recorrem
à umbanda e ao candomblé.
Neste aspecto particular,
ainda não pude estabelecer contacto com aqueles que apesar de recorrerem
a estas religiões, têm pouca informação sobre
a doutrina e a liturgia respectiva e nula experiência das técnicas
de transe. Trata-se dos chamados consulentes. O trabalho junto deles constituirá
uma nova fase da investigação, que, à data desta comunicação,
só decorre há poucos meses e tem sido levada a cabo sempre
que as obrigações académicas decorrentes da prática
docente o permitem.
Notas
Denominado
como "Casa Branca" ou "Ilê Iá Naso" por PESSOA DE BARROS,
2003: 33 e 34.
De
Allan Kardec (1804-1869), nascido Hippolyte Léon Denizard Rivail,
redigiu os fundamentos da doutrina espírita
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