Toda
Feita: o corpo e o gênero das travestis
Marcos Benedetti.
Garamond, 2005.
144 p.
Neste
trabalho, Marcos Benedetti discute os processos de transformação
de gênero a partir de um estudo etnográfico em que apresenta
as mudanças no corpo realizadas pelas travestis.
O autor busca as “práticas realizadas pelas travestis para transformar
o corpo e o gênero” porque tais mudanças no aspecto físico
são para ele práticas estruturantes das visões de
mundo das travestis e do seu principal objetivo: a vontade, o projeto de
ser sentir mulher. Benedetti tem como objeto de pesquisa as travestis que
se prostituem em Porto Alegre, ao longo da avenida Farrapos até
o cruzamento com a avenida Brasil, tendo observado 85 travestis de 15 a
45 anos. A aproximação inicial do autor deste universo de
pesquisa deu-se em meados de 1994, no Núcleo de Ação
e Estudos de Prostituição do Grupo de Apoio à Prevenção
da Aids (GAPA/RS), onde começou
a participar do projeto de prevenção da Aids entre travestis
profissionais do sexo. A participação no GAPA
leva-o a uma série de curiosidades e dúvidas acerca das práticas
sociais das travestis. Para Benedetti, essas travestis são aquelas
pessoas que promovem modificações nas formas de seu corpo
visando deixá-lo o mais parecido possível com o das mulheres,
sem recorrer à cirurgia de transgenitalização. O autor
utiliza a forma gramatical feminina ao se referir às travestis por
ser a forma êmica e também por respeito e garantia de sua
construção feminina, desta maneira, e pela sua trajetória
de estudos, percebe-se a sua militância em favor da compreensão
do universo trans em nossa sociedade. De modo extraordinário, o
autor admite que sua homossexualidade facilitou-lhe a inserção
em campo, pois no grupo das travestis, como em diversos outros grupos observados
pela antropologia, a reciprocidade é uma lei unívoca, por
isso, enquanto ele etnografava sentia-se etnografado pelo grupo; as travestis
sentiam-se à vontade com a sua presença e até lhe
indicavam possíveis namorados.
O
livro é dividido em três capítulos: no primeiro, “As
Aventuras Antropológicas pelo Universo Trans”, Benedetti faz uma
revisão da teoria antropológica do tema das transformações
de gênero. Assim, o autor afirma que esse assunto é muito
novo para a antropologia, já que foi só após a década
de 60 que esta ciência apresentou interesse pela temática.
Conforme Benedetti, o transexualismo vinha sendo tratado, até então,
pela biologia ou pela psicologia, como distúrbios hormonais ou desajuste
social. O autor também nos apresenta, neste capítulo, seu
método etnográfico, em que utiliza a observação
participante, a pesquisa de campo e as entrevistas. No segundo capítulo,
“Entre curvas e sinuosidades: a fabricação do feminino no
corpo das travestis”, Benedetti trata das dinâmicas das relações
estabelecidas entre as travestis com o objetivo de ampliar a compreensão
acerca dos valores e lógicas que constroem os domínios do
masculino e do feminino na cultura trans. No terceiro capítulo,
“Vivendo o feminino: as dinâmicas e domínios do gênero
entre as travestis”, o autor discorre sobre alguns domínios do gênero
no cotidiano do grupo.Segundo o autor, as travestis incorporam um feminino
peculiar e que está orientado pelos mais diversos valores e práticas,
especialmente no que diz respeito ao corpo e seus usos, sendo as práticas
e as preferências sexuais os principais pontos levados em conta.
Entre as práticas, Benedetti nos informa que desde criança
as travestis apresentam uma “cabeça feminina”, experimentando brincadeiras
de meninas, vestindo-se com as roupas das mães, identificando-se
mais com o universo feminino. Mas, se por um lado, as travestis dizem ter
uma “cabeça feminina”, por outro, demonstram ter uma “estrutura”
forte para superar as dificuldades encontradas na garantia de sua identidade.
O autor esboça claramente essa “estrutura” de forma Levi-straussiana:
o conjunto que as travestis buscam tem uma dimensão interna e subjetiva.
Nesse capítulo, o autor também dialoga com Pierre
Bourdieu: “o corpo é o espaço onde está a cultura,
onde se situam os principais esquemas de percepção e apreciação
do mundo”. Dessa forma, Benedetti busca convencer o leitor de que as travestis
pertencem ao gênero feminino já que o gênero é
um produto do simbólico e o corpo das travestis é moldado
sempre buscando refletir os símbolos do feminino. Para Marcos Benedetti,
o corpo das travestis é, sobretudo, uma linguagem; é no corpo
e por meio dele que os significados do feminino e do masculino se concretizam
e conferem à pessoa suas qualidades sociais. Portanto, é
nele que as travestis se produzem enquanto sujeitos. Assim como Pierre
Clastres, o autor entende o corpo como um meio de saber social. Buscando
o feminino, as travestis iniciam suas transformações no corpo
desde jovens, experimentando esmaltes, colorindo a boca, tingindo os cabelos
e na adolescência começam a utilizar hormônios em busca
do feminino. Nesta fase é que se encontra o marco simbólico
na construção da identidade travesti.
A
expressão “Toda Feita” que dá nome ao livro, designa o resultado
eficiente de todo o processo de transformação e fabricação
do corpo, e, portanto, do gênero, entre as travestis. Mas a expressão
não inclui necessariamente recorrer à cirurgia de mudança
de sexo. Benedetti observa que, para as travestis, essa é uma possibilidade
distante, uma decisão radical e que significa, entre outras coisas,
abdicar do orgasmo. Neste momento, surge a dúvida sobre que "feminino"
as travestis buscam, já que elas se contradizem quando afirmam que
o feminino está na “cabeça” e que o prazer também
é uma construção da “cabeça”, mas demonstram
temer abrir mão de seus “atributos físicos masculinos”.
Para
o autor, o gênero deve ser compreendido como uma lógica social
que institui significado a corpos, práticas, relações,
crenças e valores. Ainda que seja variável e diverso culturalmente,
parece fazer parte de um princípio que confere sentido à
realidade em que vivemos. Mais do que um fator cultural de diferenciação,
e que deve ser entendido como as próprias condições
de produção da lógica que institui as diferenças
entre o masculino e o feminino, o gênero faz parte da própria
cultura e não é somente instituído por ela, assim
como o corpo não é instituído pela cultura.
Antes, produz e dá sentido à cultura. As travestis não
desejam ser mulheres, querem se sentir mulheres, femininas; vivem as experiências
do gênero como um jogo artificial e passível de recriação;
elas criam um feminino particular, com valores ambíguos, um feminino
que se constrói e se define em relação ao masculino.
Benedetti
oferece com sua obra um enfoque original sobre as questões de construção
de gênero de uma forma agradável e politicamente correta.
Diante de um universo de pesquisa estigmatizado e marcado pelo preconceito,
o autor procura abrir caminhos para uma nova percepção deste
grupo e de suas práticas.
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