Curitiba: a futura “cidade ideal”
Jéssica Amaral

Bacharelanda em Jornalismo

 

Avenida Batel  Foto: Jéssica Amaral

“A inveja é pecado
E papai do céu castiga:
Na próxima encarnação,
Você nasce em Curitiba.” 
(Paulo Leminski) 





Nem todos concordam com o admirado poeta curitibano Paulo Leminski . Perguntei a algumas pessoas como elas viam as palavras do poema e obtive respostas significativas:
 
 

“[...] não gostei nada [...] . Já tive oportunidade de viajar para varias cidades do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até algumas cidades de São Paulo, em algumas viajei pra conhecer mesmo e outras a trabalho, mas até hoje não achei nem uma que comparasse com Curitiba, no clima, no ritmo das pessoas. Dizem que os curitibanos são mal-humorados, mas não, vai pra Santa Catarina pra ver! O povo de Curitiba é hospitaleiro e aceita de braços abertos pessoas de outras culturas, outras religiões, tem até parada gay aqui. É uma cidade grande com jeito de cidade pequena; sou apaixonado pela noite de Curitiba, os barzinhos, as baladas, a galera  voltando à noite pra casa depois de um dia de trabalho e de estudo, é tudo muito bom. Resumindo: não troco Curitiba por nada.”  (Guilherme T., técnico em informática).

 
 “Para te falar bem a verdade, esse poema quis dizer que a pessoa estava puta da vida com Curitiba. O que não é para menos, pois os próprios motoristas do trânsito são todos assassinos e mal educados, açougue fecha para almoço e não há uma churrascaria rodízio aberta em pleno domingo a noite... É uma cidade boa em termos de qualidade de vida, porém pra quem já está velho, porque até as baladas já estão indo pras cucuias.... Barzinhos, então, só tem num ponto da cidade. Restaurantes também.... Não tem diversificação.” (Vivian A., economista).

 
Curitiba foi fundada em 29 de Março de 1693 por Matheus Martins Leme. A atual capital paranaense era chamada de Vila de Nossa Senhora  da Luz dos Pinhais e, posteriormente, passou a ser chamada de Curitiba. A palavra Curitiba é indígena, Guarani, e significa “lugar onde existem pinheiros”. Na cidade há muitas festas cívicas e religiosas de diversas etnias, dança, música, culinária e outras  expressões culturais, além dos vários memoriais em homenagem aos antepassados imigrantes, espalhados em espaços públicos, praças e bosques municipais. Bons exemplos são a Praça do Japão e da Ucrânia, nas quais se mostram aspectos caros à cultura destes povos O povo de Curitiba é composto por imigrantes de vários lugares do mundo e seus descendentes, mas a maioria expressiva na cidade descende de italianos e de poloneses. 
 

 

Praça do Japão  Origem: Wikipédia




Atualmente [2006], a cidade tem mais de dois milhões de moradores. A "Cidade Luz” , como é chamada por seu belíssimo Natal iluminado, é a única cidade brasileira que entrou no século XXI como referência nacional e internacional de planejamento urbano e qualidade de vida. 
 

Rua de Curitiba no Natal

 
Experimente caminhar pela Rua XV, a famosa "Boca Maldita", no centro da cidade. Há pessoas de todos os lugares do país. A "XV" pode ser comparada à Rua 25 de Março em São Paulo, com muita gente menos caminhando pelas calçadas e automóveis trafegando. Na Boca Maldita, lojinhas e artistas de rua são o que não falta. Pode-se comprar desde pequenas bijuterias a roupas caras, comer comidinhas pouco saborosas ou tomar um esplêndido café com creme. Ainda há um bonde que fica parado no calçadão. Ele foi usado como transporte no século passado. Atualmente é uma oficina de arte e oferece um bom espaço para as crianças desenvolverem habilidades artísticas. No entanto, há muitos curitibanos que passam todos os dias ao lado desse bonde e nem se dão conta das as atividades desenvolvidas ali. 
 

 
 

Há pontos turísticos em Curitiba que são de tirar o fôlego. A Ópera de Arame, por exemplo: um teatro todo feito de tubos de aço. Ao se chegar na Ópera, enxerga-se o grande monumento de aço erigido sobre um rio que pode ser visto correndo embaixo. Particularmente, a ponte que leva ao interior mexe com as emoções, pois seu piso é feito de pequenas vigas soldadas, numa malha de aço transparente. No rio, que integra a beleza viva que preenche o teatro Ópera de Arame há peixes coloridos de tamanho  impressionante. Paredões de rochas naturais da pedreira onde se incrusta o teatro dão a ele uma acústica excepcional. Na verdade, a Ópera fica dentro de paredões naturais com se fosse uma pequena cachoeira. 

 
 

Ópera de Arame  Foto: Jéssica Amaral







Outro ponto é o Jardim Botânico. Meio abandonado com os anos, mas com imensa responsabilidade na educação em relação ao meio ambiente. O local preserva algumas das espécies de plantas quase extintas e ainda há uma estufa que ajuda a compor o milagroso cenário. Quem o visita adora o passeio pelos caminhos do Jardim. Mas o Jardim Botânico tem um problema : é uma  ilha de natureza no meio da cidade, rodeada por asfalto e carros poluentes. Tente correr no ali no horário de pico e em vez de relaxar sairá mais estressado. Vai ser difícil ouvir passarinhos cantando ou o som do vento que bate no topo das árvores ou, ainda, sentir o cheiro da relva fresca. O que se escuta nesse horário são crianças gritando, buzinas de automóveis, trânsito na ciclovia do Botânico, uma trilha sonora que não combina com o cenário de tranqüilidade da natureza. 
 
 

Pode ser que esse seja o maior problema de Curitiba: a cidade está ficando pequena para o tamanho da população e existam poucos espaços para atender às necessidades dos moradores. 
 
 




O trânsito de Curitiba é uma questão que vem se tornando problema maior de uns tempos para cá.. Pára por qualquer coisa e uma fila gigante já se faz atrás do carro parado. No horário de pico, a Visconde de Guarapuava, uma das artérias da cidade, fica lotada e não há buzina que pare de tocar. Carros se fechando, gente com cara enfezada e imigrantes xingando os curitibanos de lerdos porque demoraram a avançar o sinal.  O trânsito é odiado diariamente pelos moradores da cidade, embora os motoristas curitibanos sejam educados no trânsito, respeitem as leis e as os limites de velocidade. 
 
 
 

Uma das marcas da cidade é o ônibus INTER 2. O grande "Falcão prateado" que transporta todos os dias mais de meio milhão de passageiros tem até comunidade no Orkut: "Famoso, mas ordinário". Em horário de pico torna-se uma verdadeira lata de sardinhas e o cheiro, segundo os passageiros, é difícil de agüentar. É preciso ficar com o rosto na janela e estas ficam todas bem abertas. Os ônibus levam todo tipo e gênero de pessoas. O Transporte Urbano de Curitiba é considerado um dos melhores do mundo, uma vez que tem um sistema de integração eficiente e os ônibus são confortáveis. Em algumas linhas dos biarticulados (ônibus de até três compartimentos) os assentos são estofados. Os ônibus têm cores variadas que indicam a função daquele ônibus; por exemplo: se percorre somente bairros, regiões metropolitanas ou se faz a integração centro-bairro. Diferenciam-se em: amarelos (("ligeirinhos"; sem terminal, geralmente ônibus de linha direta que saem dos bairros e vão até o centro da cidade); laranjas (alimentadores; levam a população dos terminais de ônibus para os bairros e vice-versa); vermelhos (biarticulados; utilizados para transporte rápido dos terminais ao centro da cidade); verdes (interbairros; cruzam longas distâncias percorrendo quase todos os bairros da cidade) e os cor de prata (têm a mesma função do ligeirinho, porém com paradas em estações tubos). Assim, os passageiros têm conforto e tranqüilidade para chegar ao destino que escolherem. O custo da passagem é de R$1,80 [em 2006] e pagando apenas uma passagem os passageiros podem viajar pela cidade e região metropolitana. 
 
 




Para os turistas que pretendem conhecer a cidade existe uma rota de ônibus que leva a todos os pontos turísticos da cidade. Para quem quer conhece-los sem se perder pelo caminho pode ser uma boa opção de transporte. No passeio o passageiro tem direito a parar em três pontos turísticos e permanecer até duas horas no local antes de embarcar para o próximo ponto. 
 
 
 

Os táxis de Curitiba chamam a atenção por sua cor "discreta": todos os carros são cor de laranja, facilitando sua identificação mesmo de longe.  Curitiba tem ainda uma linha trem que corta a cidade. A empresa ALL é proprietária da ferrovia, que está sendo cuidada e supervisionada por ela. 

 
 
 

Cidade limpa
 

"Gosto de morar aqui, porque acho uma cidade muito bonita, com diversos parques, praças, bairros separados por tipos de construções, ruas bem cuidadas, limpas, poucos mendigos comparado a grandes centros urbanos, a saúde oferecida pelo governo tem um bom estado físico (sim, geralmente lotado, mas de fácil acesso), meio de transporte acessível que liga um lado ao outro da cidade, boas escolas públicas e pessoas bonitas. Esta cidade com um clima diferenciado proporciona todas as estações o ano inteiro, isso é divertido porque geralmente utilizamos todo o nosso ”guarda-roupa (Fernanda Lopez, estudante).

 
É difícil ver lixo espalhado pelas ruas de Curitiba ou até mesmo nas favelas. As casas são limpas e as ruas impecáveis. O lixeiro tem um "jeito especial" de recolher o lixo e no Natal ganha até presente. Muitos moradores, numa demonstração carinhosa de quem amam essa cidade, separam o lixo para os "carrinheiros", que também saem ganhando. As favelas são organizadas, as casas são construídas com cuidado. Curitiba se dedica também à reciclagem de lixo. O Programa da Prefeitura de Curitiba “Lixo que não é lixo” colhe plásticos, metais, latinhas e papelão, entre outros objetos, e encaminha para os setores de reciclagem. Com isso, a cidade ajuda o meio ambiente a ser preservado, já que alguns produtos como vidro e o plástico podem durar centenas de anos para se decompor. Os lixeiros percorrem as ruas com seus gritos estridentes que deixam os cachorros irritados. No Natal os lixeiros tocam as campainhas das casas e perguntam “tem Natal pro lixeiro?”. As pessoas doam roupas, presentes e até comida para esses profissionais que são fundamentais no dia-a-dia da população. 
 
 

 

 

Pobreza e violência

http://travel.webshots.comCuritiba tem favelas isoladas. É difícil se ver a convivência entre favela e casas de classe alta e média nos bairros. Geralmente estas estão nas periferias da cidade e em regiões metropolitanas. Infelizmente, para uma cidade que é considerada a melhor em qualidade de vida, esta é uma realidade triste, uma falha no planejamento urbano ou uma conseqüência  da imigração para a cidade em busca de novas oportunidades. A pobreza, crianças desnutridas, assassinatos, violência física e psicológica há em excesso na cidade Seja em bairros nobres ou em bairros pobres e miseráveis ninguém está seguro na cidade. O sistema de segurança ainda é deficiente e em plena luz do dia qualquer cidadão pode ser assaltado. E o mais triste é o fato de que a polícia chegará ao local do crime meia hora após o chamado da vitima ou da pessoa que denunciou. A “Favela das Torres” ou ”Vila Pinto” que fica próxima a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), foi fechada por quatro dias por gangues e a polícia não tinha acesso ao local, tendo sido preciso um esquema policial reforçado para conseguir render aqueles que sujavam o nome dos moradores honestos da vila. A “Favela Trindade“, localizada no CIC, é um exemplo de grande favela. Nela vivem gangues que tomam conta da área. Como em toda grande cidade que cresce a cada dia, a desigualdade e os problemas sociais de Curitiba também crescem. 
 
 
 

 
 

Lazer

A Avenida Batel é o point da cidade. Os jovens se reúnem ali para ir à balada, para namorar, paquerar e fazer novas amizades. À meia noite, principalmente aos sábados, há uma fila imensa de carros na avenida e dezenas deles aguardam pelo menos meia hora para atravessar o grande point dos jovens. Se no sábado há agito no centro da cidade, o domingo à noite é complicado para os jovens. O curitibano mantém costumes tradicionais como  a convicção de que “a madrugada foi feita para dormir e não para pessoas estarem na rua e os domingos foram feitos para reunir a família e não para as baladas”. Faltam opções de lazer nos finais de semanas para jovens e adultos.
 
 
 
 

"Adoro viver aqui, não tenho muito que reclamar; diria que, por não ser uma cidade tão grande, faltam lugares de lazer como em cidades grandes, estabelecimentos diferenciados, por exemplo parque de diversão, parque aquático entre outros tipos de atrações. Gosto da minha cidade; para mim, falta só uma praia... mas também não está tão longe daqui.”  (Fernanda L, estudante).

 
 

Educação

Curitiba também possui um bom número de universidades. Existem mais de dez faculdades, mas apenas duas são federais. Isso quer dizer que se a população quer estudar, tem que pagar. Esta é uma das grandes falhas da cidade: faltam alunos em vez de faltarem vagas.  Para o ensino particular, evidentemente.
 
 

O curitibano é muito exigente: nunca está satisfeito com nada, sempre reclama dos serviços e preza a qualidade. É por esta característica que vários produtos são primeiro oferecidos (testados) na cidade, para depois, se bem aceitos, serem distribuídos pelo Brasil todo. Se antes São Paulo era o pólo de atração para nordestinos que acreditavam que a cidade era fonte de fortuna e de oportunidades, o mesmo vem acontecendo com Curitiba. Infelizmente os que vêm para cá não respeitam o jeito de ser do povo e taxam os curitibanos de "antipáticos e fechados". 
 
 

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Curitiba, "cidade luz", cidade da gente. Com problemas sociais como todas as outras cidades, mas com uma qualidade vida singular. Aqui são construídos sonhos, esperança de uma vida melhor para pessoas de todos os lugares. Se os pontos negativos são a falta de segurança, o povo "fechado", a falta de opções em diversão e lugares de lazer, estes perdem para o comprometimento da cidade com o cidadão. Se ela ainda não é o ideal de todos os curitibanos, a educação, a limpeza e a urbanidade da população são o orgulho de "nossa gente" que espera atingir este ideal no futuro. 

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