Tocando com as mulheres do batuque

Gisela Ramos Rosa
Mestre em Relações Interculturais pela

Universidade Aberta de Lisboa


 
 
Mulher do batuque, 13-11-05, Imagem de Gisela Ramos Rosa


Mulher teus gestos tocam
um objecto simples que percute Amor
tu crias um cenário uma roda onde as vozes se elevam e ecoam
o timbre incansável de uma pedra intemporal 
e levantas as mãos em movimentos alternados de sons
que trazem para a roda a magia inscrita pelo corpo em ritmos ondulados

Mulher o teu corpo conta uma história que se inscreve no sabor 
de uma tradição ou de um sonho 
que não é referência prisioneira

Com o corpo quebras todas as amarras
e ao tocar dialogas com o tempo
que te vê passar 
e o das raízes que em movimento se estendem pelo mundo
 

Mulher tu és a voz de todas as mulheres 
Terra que fertilizas com os teus sons 
e ao tocares com as palmas a superfície dura de um batuque
sublimas com as mãos todas as tristezas e diferenças
teus lábios entoam cânticos desenhados por um contexto
e contigo a dança ganha o ânimo que  abrevia as aflições

Mulher teus gestos reinventam paisagens
teu sopro é alto e propaga-se a teus filhos

Mulher aprendo com o teu batuque
a tocar e a dançar em torno

Gisela Ramos Rosa, 01-06-06


 

 As Mulheres do Batuque 

I was made to feel that cultural pride 
would justify and make good my difference in skin color 
while it was a constant reminder that I was different"

Joanne Harumi Sechi, Woman Native Other, 1989

No Alto da Cova da Moura, concelho da Amadora, existe um grupo de mulheres cabo-verdianas que se reúne periodicamente para tocar o batuque. Este Grupo de Batuque Finka-Pé nasceu em 1988 e foi promovido pelas actividades desenvolvidas pela Associação Cultural Moinho da Juventude sediada no bairro. O elevado nível de competência artística das mulheres do Grupo Finka-Pé tem originado inúmeros convites para actuação externa em vários locais do país e no estrangeiro. Entre as suas actividades destaca-se o Curso de Batuque que é ministrado quinzenalmente por estas mulheres, nas instalações da Associação Moinho da Juventude,  a todas as pessoas que nele queiram participar.

 
 

Mulheres do batuque tocando e dançando. Imagem de Carole Garton, 26-06-04.
Mulheres do batuque tocando e dançando. Foto:  Carole Garton, 26-06-04.


 
Segundo Jorge Castro Ribeiro a criação do grupo conduziu à consciência do valor cultural do batuque entre cabo-verdianos residentes no bairro da Cova da Moura, que já antes numa linha de tradição empreendiam, esporadicamente, a "batucada" em eventos festivos da comunidade (casamentos, baptizados e outras festas familiares). 
 
Ainda, de acordo com o mesmo autor, duas grandes áreas culturais estão na origem da cultura cabo-verdiana - a europeia e a africana. O cruzamento destas influências marcou as ilhas do arquipélago, em particular Santiago e São Vicente que têm características musicais muito próprias. São Vicente com os géneros Morna e Coladeira de forte expressão europeia (e brasileira) e Santiago com marcas profundamente africanas vertidas nos géneros do Batuque e Funaná. 
 
O Batuque que encontramos hoje no Alto da Cova da Moura é um objecto ou artefacto histórico-cultural portador de memória sendo, também, um elemento de transformação em novos contextos sociais económicos e culturais.
 
 
 
Teresa exemplificando a batida na sua tchabeta. Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04

Teresa exemplificando a batida na sua tchabeta. Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04


 
O traje das mulheres do batuque é composto por uma saia preta cobrindo uma saia interior branca com um folho branco que sobressai da saia preta, uma blusa branca e um lenço branco amarrado à volta da cabeça. À cintura é colocado um lenço escuro de padrão variado cuidadosamente enrolado que servirá para lançar o convite a uma das batucadeiras para a dança em torno ao som do batuque. 

 
 
 

Nanda e Domingas  numa actuação em Torres Vedras. Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04
Nanda e Domingas  numa actuação em Torres Vedras. Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04


 
Depois de as mulheres se organizarem em arco, sentadas em cadeiras, colocam a tchabeta  entre as suas pernas, em regra cruzando os pés na frente para suster o instrumento com a pressão da batida. 
Mulher cabo-verdiana tocando a tchabeta, 13-11-05,
Mulher cabo-verdiana tocando a tchabeta, 13-11-05,
Foto: Gisela Ramos Rosa



 
 
 

Greet Wielemans, terapeuta Flamenga que estudou os efeitos terapêuticos do batuque, refere que a percussão da tchabeta (nome do instrumento de percussão das mulheres cabo-verdianas) é alternada e esse efeito de alternância é terapêutico. Por outro lado, entre as mulheres desencadeia-se um mecanismo de coesão e partilha do quotidiano de suas vidas que é transposto para os cânticos que entoam ao som do batuque. A dança, por seu turno, surge encadeada por um movimento de liberdade do corpo (sem inibições) que se desencadeia naquele espaço criado entre mulheres e que surge como mecanismo de alento e ânimo de todo o grupo.
 
 
 
A prática do batuque tem devolvido às mulheres cabo-verdianas a dignidade e auto- estima para enfrentarem o quotidiano de suas vidas, dificultado não só em razão do seu desfavorecimento económico mas pela discriminação social e cultural. 

 
(…) 

Kenha ki kre-nu, kre batuku

Batuku e nos aima!
 

 

(…)

 Aqueles que nos amam, amam o batuque

O batuque é a nossa alma! 

Kaoberdiano Dambara
      (tradução para inglês de Manuel Gonçalves
(1964- Felisberto Vieira Lopes) e para português de Gisela Ramos Rosa)
Referências bibliográficas:
Ribeiro, Jorge Castro, Finka-Pé: Um Grupo de Batuque Cabo-verdiano,  panfleto distribuído pela Associação Cultural Moinho da Juventude, 2006
Minh-ha, Trinh T., Women Native Other, Indiana University Press, Bloomington. 1989
Wielemans, Greet, citada em panfleto distribuído pela Associação Cultural Moinho da Juventude, 2006
Webgrafia
http://redeciencia.educ.fc.ul.pt/moinho

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