As Mulheres do Batuque
I was made
to feel that cultural pride
would justify and make
good my difference in skin color
while it was a constant
reminder that I was different"
Joanne Harumi Sechi, Woman
Native Other, 1989
No
Alto
da Cova da Moura, concelho da Amadora, existe um grupo de mulheres
cabo-verdianas que se reúne periodicamente para tocar o batuque.
Este Grupo de Batuque Finka-Pé nasceu em 1988 e foi promovido pelas
actividades desenvolvidas pela Associação Cultural Moinho
da Juventude sediada no bairro. O elevado nível de competência
artística das mulheres do Grupo Finka-Pé tem originado inúmeros
convites para actuação externa em vários locais do
país e no estrangeiro. Entre as suas actividades destaca-se o Curso
de Batuque que é ministrado quinzenalmente por estas mulheres, nas
instalações da Associação Moinho da Juventude,
a todas as pessoas que nele queiram participar.
Mulheres do batuque tocando
e dançando. Foto: Carole Garton, 26-06-04.
Segundo
Jorge Castro Ribeiro a criação do grupo conduziu à
consciência do valor cultural do batuque entre cabo-verdianos residentes
no bairro da Cova da Moura, que já antes numa linha de tradição
empreendiam, esporadicamente, a "batucada" em eventos festivos da comunidade
(casamentos, baptizados e outras festas familiares).
Ainda,
de acordo com o mesmo autor, duas grandes áreas culturais estão
na origem da cultura cabo-verdiana - a europeia e a africana. O cruzamento
destas influências marcou as ilhas do arquipélago, em particular
Santiago e São Vicente que têm características musicais
muito próprias. São Vicente com os géneros Morna e
Coladeira de forte expressão europeia (e brasileira) e Santiago
com marcas profundamente africanas vertidas nos géneros do Batuque
e Funaná.
O
Batuque que encontramos hoje no Alto da Cova da Moura é um objecto
ou artefacto histórico-cultural portador de memória sendo,
também, um elemento de transformação em novos contextos
sociais económicos e culturais.
Teresa exemplificando a batida
na sua tchabeta.
Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04
O
traje das mulheres do batuque é composto por uma saia preta cobrindo
uma saia interior branca com um folho branco que sobressai da saia preta,
uma blusa branca e um lenço branco amarrado à volta da cabeça.
À cintura é colocado um lenço escuro de padrão
variado cuidadosamente enrolado que servirá para lançar o
convite a uma das batucadeiras para a dança em torno ao som do batuque.
Nanda e Domingas numa
actuação em Torres Vedras. Foto: Gisela Ramos Rosa, 09-10-04
Depois
de as mulheres se organizarem em arco, sentadas em cadeiras, colocam a
tchabeta
entre as suas pernas, em regra cruzando os pés na frente para suster
o instrumento com a pressão da batida.
Mulher cabo-verdiana tocando
a tchabeta, 13-11-05,
Foto: Gisela Ramos Rosa
Greet
Wielemans, terapeuta Flamenga que estudou os efeitos terapêuticos
do batuque, refere que a percussão da tchabeta (nome
do instrumento de percussão das mulheres cabo-verdianas) é
alternada e esse efeito de alternância é terapêutico.
Por outro lado, entre as mulheres desencadeia-se um mecanismo de coesão
e partilha do quotidiano de suas vidas que é transposto para os
cânticos que entoam ao som do batuque. A dança, por seu turno,
surge encadeada por um movimento de liberdade do corpo (sem inibições)
que se desencadeia naquele espaço criado entre mulheres e que surge
como mecanismo de alento e ânimo de todo o grupo.
A
prática do batuque tem devolvido às mulheres cabo-verdianas
a dignidade e auto- estima para enfrentarem o quotidiano de suas vidas,
dificultado não só em razão do seu desfavorecimento
económico mas pela discriminação social e cultural.
| (…)
Kenha ki kre-nu, kre batuku
Batuku e nos aima!
|
(…)
Aqueles que nos amam,
amam o batuque
O batuque é a nossa
alma! |
Kaoberdiano
Dambara
(tradução para inglês de Manuel Gonçalves
(1964- Felisberto Vieira
Lopes) e para português de Gisela Ramos Rosa)
Referências
bibliográficas:
Ribeiro,
Jorge Castro, Finka-Pé: Um Grupo de Batuque Cabo-verdiano,
panfleto distribuído pela Associação Cultural Moinho
da Juventude, 2006
Minh-ha,
Trinh T., Women Native Other, Indiana University Press, Bloomington.
1989
Wielemans,
Greet, citada em panfleto distribuído pela Associação
Cultural Moinho da Juventude, 2006
Webgrafia
http://redeciencia.educ.fc.ul.pt/moinho |