A cidade é o texto.
Um texto veloz, multicolorido, escrito em diversos idiomas e estilos. Textualidade
densa ou rarefeita, conforme seja o leitor, a região da página.
Texto que se faz e se desfaz a cada momento. Assim como um
meteoro, uma estrela cadente. Texto frágil e vulnerável,
cuja fragilidade e vulnerabilidade se dissimulam sob mantos de poder,
suntuosidade e solidez. O mesmo texto que, em sigilo, guarda o oposto
de tudo isto. Nem por essa razão, menos bela e atraente é
uma cidade com suas atrações, destratos e distorções
de toda a ordem.
O texto-cidade extrapola
a brancura das páginas alvejadas de candura. Não raro,
é povoado de perversidades, violência, agressões e
indiferenças. Ultrapassa os livros de luxo, os mapas
sem imaginação com seus territórios demarcados e apropriados
pelos mais fortes.Tudo dentro da lei e do sagrado direito da posse.Vai
muito além das belas encadernações e das falsas
gravuras de mau gosto com suas molduras douradas, fingindo
a ouro. Tudo para satisfazer a vaidade e enganar os olhares
desatentos.
A cidade-texto é mais,
muito mais, do que se mostra através de seus mecanismos organizacionais
e institucionais. Mais do que oferecem os equipamentos culturais
que nela operam como o rádio, o jornal, a TV, a Internet, o teatro,
a biblioteca, as livrarias, o museu, o circo, os parques de exposição,
bares, boates e motéis. Nem é necessário citar
os “outdoors”, os cartazes, as placas luminosas e os grafites,
que tudo salta direto para dentro de nossos olhos ávidos
de novidades, gulosos de consumo. Como se vê a cidade-texto
é repleta de imagens, figuras, manchas, sombras , buracos, vitrines,
anúncios, música, gritos e pregões, risadas e grafismos
e grafites de toda a ordem. Aos habitantes da cidade, autores
e leitores, cabe um tríplice papel: ser integrante desta
paisagem - texto, ser seu ator principal e, ao mesmo tempo, seu intérprete.
Por esta posição privilegiada, o ser humano pode interferir
e modificar o texto que está sedo escrito continua e coletivamente.
E o mais incrível, tudo se presta a leitura, tudo tem sentido e
dessentido. Ler é vaguear à solta pelas ruas e praças,
pelas avenidas e ruelas esquecidas. Descobrir sempre novos ângulos
de visão. Não dividir. Ver o todo nas partes e as partes
no todo. É esta a magia da leitura contemporânea. Vem além
do visto. Por entre os muros e murmúrios da cidade. Criar
novas cidades. Novos mundos imaginários e belos.

Tal a diversidade, a velocidade
e ferocidade deste texto-cidade que, quase sempre é feito sem eticidade,
sem felicidade. Mas, ao contrário de outros tempos – pelo menos
foi assim que aprendi - parece que a felicidade deixou de ser
o principal desejo e objetivo do homem em sociedade, da historia
da humanidade. Atualmente, busca-se mais o sucesso, o lucro
o prazer em detrimento da própria felicidade e da alegria
alheia. O outro, quando existe, que se dane! Pelo menos é o que
sugere o estado de coisas atual!
A esta altura é impossível
não pensar em Ítalo
Calvino e suas Cidades Invisíveis. Em Pierre
Lévy no seu brilhante escrito “Tecnologias Intelectuais
e Modos de Conhecer: Nós Somos O Texto”. No caso do texto-cidade,
pelo menos somos nós que a ele damos sentido.
O texto que segue seu curso , da periferia para o centro, contrariando
a lógica usual dos olhares governantes, poderia ser considerado,
sem nenhum desprestígio para o autor , uma legítima
paródia de Levy, citado acima.
É assim que
a cidade se mostra e se desdobra aos olhares passeantes. Se
for um Olhar de Descoberta, como propõe Lúcia
Pimentel Góes, o texto-cidade ou a cidade-texto pode se
transfigurar. Deixará de ser simplesmente um conjunto
de casas dispostas lado a lado, com veículos em alta velocidade,
poluindo e colocando em risco a vida dos transeuntes. Muito menos, a cidade
será um território de vândalos vagando pelas
ruas gritando, quebrando , pichando, sem falar de atos mais
reprováveis social e legalmente.
Vista como texto vivo que
se transforma e se abre aos olhos visitantes a cidade
- a urbe, a polis – para cumprir sua função
de abrigo, de espaço publico e de trocas materiais e simbólicas,
espirituais e intelectuais, exige planejamento urbano e adoção
de políticas democráticas. Quer dizer, práticas
que envolvam a população, a comunidade, as pessoas sem nenhuma
forma de discriminação e preconceitos. Sem demagogia
nem populismos, pode-se afirmar: a cidade é o povo,
o que ele sente, pensa e faz ou deixa de fazer coletivamente.

Daí a necessidade
de se investir em projetos que agreguem, que eduquem . que ampliem o universo
político-econômico e sócio-cultural da população
urbana e rural já que a cidade é a sede
do município. Educar para a descoberta, para a cidadania
e para a sensibilidade esse deve ser o objetivo desse texto. A educação
da sensibilidade, afirma Lúcia Góes, é tão
vital quanto o ar que respiramos A sensibilidade deveria estar presente
em todas as dimensões do viver. E viver na cidade, hoje, torná-la
mais humana e habitável, é o grande desafio que se coloca
a todos os seus habitantes. O texto-cidade se move. Brilha. Assusta.Às
vezes cega de tanta luz. Mais que o arco-íris.