A cidade é o texto
João Evangelista Rodrigues

Jornalista,  escritor e coordenador do Curso de Jornalismo da PUC Minas Arcos


 
 
 
A cidade é o texto. Um texto veloz, multicolorido, escrito em diversos idiomas e estilos. Textualidade densa ou rarefeita, conforme seja o leitor, a região da página. Texto que se faz  e se desfaz  a cada momento. Assim como um meteoro, uma estrela cadente. Texto frágil e vulnerável, cuja fragilidade e vulnerabilidade se  dissimulam sob mantos de poder, suntuosidade e  solidez. O mesmo texto que, em sigilo, guarda o oposto de tudo isto. Nem por essa razão, menos bela e atraente é uma cidade com suas atrações, destratos e distorções  de toda a ordem.

 

 

O texto-cidade extrapola  a brancura  das páginas alvejadas de candura. Não raro, é povoado de perversidades, violência, agressões e indiferenças. Ultrapassa   os livros de luxo, os mapas  sem imaginação com seus territórios demarcados e apropriados pelos  mais fortes.Tudo dentro da lei e do sagrado direito da posse.Vai muito além das belas  encadernações e das falsas  gravuras de mau gosto  com suas molduras  douradas, fingindo a ouro. Tudo para satisfazer  a vaidade e enganar os olhares  desatentos. 
 
 

A cidade-texto é mais, muito mais, do que se mostra através  de seus mecanismos organizacionais e institucionais. Mais do que oferecem os equipamentos  culturais que nela operam como o rádio, o jornal, a TV, a Internet, o teatro, a biblioteca, as livrarias, o museu, o circo, os parques de exposição, bares, boates e motéis. Nem é necessário  citar os  “outdoors”, os cartazes, as placas  luminosas e os grafites, que tudo salta  direto para dentro de nossos olhos  ávidos de novidades, gulosos  de consumo. Como se vê  a cidade-texto é repleta de imagens, figuras, manchas, sombras , buracos, vitrines, anúncios, música, gritos e pregões, risadas e grafismos e grafites de toda a ordem. Aos habitantes  da cidade, autores  e leitores,  cabe um tríplice papel: ser integrante  desta paisagem -  texto, ser seu ator principal e, ao mesmo tempo, seu intérprete. Por esta posição privilegiada, o ser humano pode interferir e modificar o texto que está sedo escrito  continua e coletivamente. E o mais incrível, tudo se presta a leitura, tudo tem sentido e dessentido. Ler é vaguear à solta pelas ruas e praças, pelas avenidas e ruelas esquecidas. Descobrir sempre novos ângulos de visão. Não dividir. Ver o todo nas partes e as partes no todo. É esta a magia da leitura contemporânea. Vem além do visto. Por entre os muros e murmúrios  da cidade. Criar novas  cidades. Novos mundos imaginários e belos. 
 
 




Tal a diversidade, a velocidade e ferocidade deste texto-cidade que, quase sempre é feito sem eticidade, sem felicidade. Mas, ao contrário de outros tempos – pelo menos  foi assim que aprendi -  parece que a felicidade deixou de  ser  o principal  desejo e objetivo do homem em sociedade, da historia da humanidade.  Atualmente, busca-se mais o sucesso, o lucro  o prazer em detrimento da própria felicidade  e da alegria alheia. O outro, quando existe, que se dane! Pelo menos é o que sugere o estado de coisas atual!
 
 

A esta altura é impossível não pensar  em Ítalo Calvino e suas  Cidades Invisíveis. Em Pierre Lévy  no seu brilhante escrito “Tecnologias Intelectuais e Modos de Conhecer: Nós Somos O Texto”. No caso do  texto-cidade, pelo menos  somos nós que  a ele  damos sentido. O texto  que segue seu curso , da periferia  para o centro, contrariando  a lógica usual dos olhares governantes, poderia ser considerado, sem  nenhum desprestígio para o autor , uma legítima paródia  de Levy, citado  acima.

 
 

É assim que  a cidade se mostra e  se desdobra  aos olhares passeantes. Se for um Olhar de Descoberta, como propõe Lúcia Pimentel Góes, o texto-cidade ou a cidade-texto pode  se transfigurar.  Deixará de ser  simplesmente um conjunto  de casas dispostas  lado a lado, com veículos em alta velocidade, poluindo e colocando em risco a vida dos transeuntes. Muito menos, a cidade será  um território de vândalos vagando pelas ruas gritando, quebrando , pichando, sem falar de  atos  mais reprováveis social e legalmente. 
 
 

Vista como texto vivo que se transforma e se  abre aos olhos  visitantes  a cidade - a urbe, a polis –  para  cumprir  sua função de abrigo, de espaço publico e de trocas materiais e simbólicas, espirituais e  intelectuais,  exige planejamento urbano e adoção de políticas democráticas. Quer dizer, práticas  que envolvam a população, a comunidade, as pessoas sem nenhuma forma  de  discriminação e preconceitos. Sem demagogia nem populismos,  pode-se afirmar: a cidade  é o povo, o que ele  sente, pensa  e faz  ou deixa de fazer coletivamente. 
 
 



Daí a necessidade de se investir em projetos que agreguem, que eduquem . que ampliem o universo  político-econômico e sócio-cultural da população urbana e rural já que a cidade  é  a sede  do município. Educar para  a descoberta, para  a cidadania e para a sensibilidade esse deve ser o objetivo desse texto. A educação da sensibilidade, afirma Lúcia Góes, é tão vital quanto o ar que respiramos  A sensibilidade deveria estar presente em todas as dimensões do viver. E viver  na cidade, hoje, torná-la mais humana e habitável, é o grande desafio que se coloca  a todos os seus habitantes. O texto-cidade  se move. Brilha. Assusta.Às vezes cega de tanta luz. Mais que o arco-íris.

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