Cooperativa solidária de alimentos orgânicos do estado do Espírito Santo  "O Broto": um despontar para a sustentabilidade

Renata Venturim Bernardino
Cientista Social

Universidade Federal do Espírito Santo

 
 

alimentos orgânicos



A nova dinâmica do capitalismo globalizado e o reducionismo neoliberal criam um modelo de desenvolvimento paradoxal que gera avanços científicos, econômicos e tecnológicos e, ao mesmo tempo, produz crescentes desigualdades. Entretanto, como contraposição positiva e construtiva, crescem as ações das forças sociais em suas vivências cotidianas voltadas para o princípio de sustentabilidade, como uma outra forma de conceber o mundo, que busca articular produtividade da natureza, autonomias culturais e democracia participativa (LEFF, 2001, p 31). 
 
 

Nas últimas décadas, tem-se intensificado no país a atuação de cooperativas e associações populares rurais e urbanas, fortalecendo o movimento de Economia Solidária, para a geração de renda e a criação de um novo modelo de produção, de distribuição e de consumo (ABDALLA, 2002, p. 99-100). 
 
 

No estado, o movimento solidário foi iniciado na década de 80 com o apoio de entidades não-governamentais e filantrópicas e de outros movimentos sociais. Ele está em evidente expansão, mas é incipiente a análise teórica de empreendimentos solidários organizados em bases cooperativas e em regime de autogestão com vistas a promover o desenvolvimento sob suas dimensões sóciopolíticas, éticas, culturais e ambientais.
 
 

Nessa pesquisa sociológica, teve-se como objeto de estudo uma das experiências surgidas nesse contexto: a Cooperativa Solidária de Alimentos Orgânicos do Estado do Espírito Santo - O Broto. 
 
 

Criada em novembro de 2003, no município da Serra, é a primeira cooperativa de consumidores de alimentos orgânicos do Estado. Ela é um empreendimento autogestionário idealizado por integrantes da Pastoral Operária (PO) da Igreja Católica e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH) da Serra. Trata-se de uma iniciativa local originada com a parceria entre membros de entidades da sociedade civil integrando esforços para estender a produção orgânica familiar e o seu consumo entre a população de baixa renda. 
 
 

Os produtos que são repassados aos consumidores pela O Broto são adquiridos de pequenos produtores dos municípios de Santa Maria de Jetibá (Coopa-serrana), Laranja da Terra e Domingos Martins. Em seu projeto inicial, a entrega das cestas de produtos era feita a 35 coordenadores distribuídos em 20 bairros. Posteriormente, essa distribuição passou a ser feita também em domicílios para não-cooperados. 
 
 

No início possuía, aproximadamente, 450 cooperados, mas, seu número de cooperados ativos foi reduzido significativamente e "consumidores avulsos" (não-cooperados) representavam quase que 50% dos compradores das cestas, mas não foi alcançada a sua auto-suficiência. Completados dois anos, foi decidido, em Assembléia, que suas atividades deveriam ser paralisadas temporariamente.
 
 

Esse perfil de cooperativa foi tomado como caso, nessa pesquisa, uma vez que se enquadra no movimento de Economia Solidária e cria um elo com o movimento orgânico. O interesse em estudá-la é entender se ao propor oferecer produtos orgânicos em preços módicos a pessoas de baixa renda essa alternativa de comercialização se faz uma estratégia social e econômica de inclusão social e de desenvolvimento mais justo concebido localmente.
 
 

Com esse propósito a pesquisa foi realizada em 2005, quando a cooperativa estava em atividade. Teve-se por objetivo captar, através da visão dos idealizadores, dirigentes e coordenadores, como acontece o processo de comercialização dos produtos orgânicos e qual o sentido da relação de troca e de consumo, visando comprovar que se trata de um projeto voltado para o princípio de sustentabilidade.
 
 

Para esse estudo de caso utilizou-se a pesquisa bibliográfica, buscando levantar referências sobre sustentabilidade, economia solidária, agricultura orgânica e segurança alimentar. A pesquisa documental, especificamente relativa à organização, foi apoiada em documentos dos arquivos particulares da cooperativa (fontes secundárias), como cadastros dos consumidores dos grupos de bairros da Serra (2003-05), reportagens, folders, fotografias dos primeiros encontros, regulamentos, atas, livros-caixa, Estatuto, projeto de financiamento, revistas, informativos, entre outros. O trabalho de campo, de caráter qualitativo, constou-se principalmente de entrevistas semidiretivas a 3 cooperados fundadores da cooperativa e aplicação de questionário a 17 coordenadores de pontos de repasse de produtos orgânicos de bairros do município da Serra. Esse trabalho de coleta de dados por entrevistas e questionários3 aconteceu no período de 06/09/2005 a 08/11/2005, atingiu a 80% dos atuais coordenadores e a todos os dirigentes, sendo que a abordagem principal foi pessoal (domiciliar).
 
 

Além disso, trabalhou-se também com visitas "in loco" e a técnica da observação direta que possibilitou abstrair comportamentos relacionais entre os membros cooperados, observar algumas abordagens feitas para repassar ou vender os produtos e conhecer um pouco a rotina da comercialização. Os dados coletados foram classificados e categorizados segundo as variáveis que ligam a cooperativa a uma organização de natureza solidária, bem como trabalhadas falas dos atores sociais da cooperativa sobre a função dela e dos alimentos orgânicos, envolvendo a problemática da comercialização e do consumo local desses alimentos entre a população de baixa renda na Serra. 
 
 

Assim, os resultados apresentados pretendem responder as questões de por que e como acontece o processo de comercialização de produtos orgânicos por organizações de natureza solidária, tendo como referência o caso da Cooperativa Solidária - O Broto. 
 
 
 
 

O movimento de Economia Solidária no Brasil e no Espírito Santo
 
 

A cooperativa O Broto soma-se ao movimento de economia solidária capixaba e é uma entre as cooperativas criadas com a iniciativa da Pastoral Operária do Espírito Santo


 

 A Economia Solidária é caracterizada por experiências destacadamente educativas que aglutinam grupos, associações e cooperativas em torno de práticas fundadas em relações de colaboração solidária. Opondo-se à racionalidade de mercado ou à ética burguesa, colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica. Busca-se unir posse e uso de meios de produção e distribuição (da produção simples de mercadoria) com a socialização destes meios para responder às necessidades básicas da sociedade e dos agentes econômicos (SINGER; SOUZA, 2000, p. 13 e 18).

 

 

No Espírito Santo, os empreendimentos solidários foram iniciados na década de 80, com a formação de cooperativas de produtores rurais e a associação dos produtores, tendo como organizações catalisadoras a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Espírito Santo (FETAES) e a PTA/FASE (Projeto de Tecnologias Alternativas ligadas a Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educação), atualmente chamada de Associação de Programas em Tecnologias Alternativas (APTA). Hoje, o movimento solidário se estendeu a várias localidades do estado, e, particularmente na Grande Vitória, os empreendimentos dessa natureza estão voltados principalmente para a produção e a comercialização de serviços e de produtos artesanais, reciclados, confecções e alimentícios. 
 
 

No Brasil, esse movimento ressurge de forma esparsa na década de 80 e toma impulso crescente a partir da segunda metade dos anos 90 como reação à crise do desemprego em massa, iniciada em 81 e agravada com a abertura do mercado interno às importações ocorrida em 1990. Estando entre seus apoiadores os assessores sindicais, as universidades e outras entidades importantes, como a Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e a Cáritas, órgão do Conselho Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) (SINGER; SOUZA, 2000, p. 26). Contudo, não se dispõe de dados abrangentes sobre as cooperativas e associações autogestionárias que estão se multiplicando em todo o país e em todos os campos de atividade econômica. Além disso, muitas cooperativas de base popular e comunitária são informais e interagem com outros movimentos sociais, o resultou na recente criação da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES).
 
 
 
 

As iniciativas locais de abastecimento e de comercialização de produtos orgânicos na Grande Vitória
 

A comercialização dos produtos da agricultura orgânica iniciou-se quase que exclusivamente em circuitos curtos (venda direta) para uma clientela geralmente iniciada nos debates sobre alimentação e saúde, motivada para a compra deste tipo de produto. Na Grande Vitória, as primeiras experiências foram iniciadas em Vitória no final da década de 80 e estavam sustentadas em ações de organizações não-governamentais, associações de produtores de Santa Maria de Jetibá, de Laranja da Terra e de Serra Pelada, com um ínfimo apoio do governo do estado. Sendo que, o consumidor foi um ator determinante na definição desse processo e seu perfil teve variações conforme a localização da comercialização.
 
 

Além da venda direta ao consumidor, a venda de produtos orgânicos também ocorre por meio de lojas e restaurantes naturais, e permanece sendo comercializada em feiras-livres convencionais da Grande Vitória, no CEASA, em quilões e através de entregas em domicílio e cestas para empresas; mas, nos últimos anos, passou a se dar por meio de duas feiras exclusivas de produtos orgânicos na Grande Vitória (uma em Vitória e outra em Vila Velha), composta por feirantes de Santa Maria de Jetibá e Iconha. 
 
 

Contudo, uma iniciativa local da sociedade civil que se propõe a ser uma alternativa aos modos convencionais de organização e comercialização da produção orgânica de pequenos produtores até então criados é a Cooperativa de Solidária de Alimentos Orgânicos do Estado do Espírito Santo - O Broto. 
 
 
 
 

O caso da Cooperativa O Broto

Fundada em 16 de novembro de 2003, a Cooperativa de Solidária de Alimentos Orgânicos do Estado do Espírito Santo - O Broto, localizada no bairro Nova Carapina II, na Serra, foi inspirada em 2000, a partir de uma experiência de compra conjunta realizada por um grupo da Pastoral Operária (PO), por quase um ano, para adquirir, diretamente no CEASA, produtos alimentares básicos por um preço menor. 
 
 

Alguns membros desse grupo, com apoio do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH), Fórum de Economia Popular Solidária (FEPS) e o Centro Sem Fronteiras dos Missionários Combonianos (CSF), buscaram retomar as atividades de uma forma mais ampla e organizada, objetivando a qualidade de vida e geração de renda para a população urbana e rural de baixa renda, a consciência ecológica e a promoção do cooperativismo e do associativismo (COOPERATIVA, 2005, p. 2-3).
 
 

Quase dois anos antes de sua fundação foram realizadas reuniões e discussões entre seus idealizadores, visitas mútuas e contatos com os pequenos produtores de produtos orgânicos, com os membros da Igreja Luterana de Domingos Martins, com a Associação de Certificação de Produtos Orgânicos do Espírito Santo - Chão Vivo e com a Gerência Estadual de Agricultura Orgânica (GEAO), foi constatado a viabilidade do projeto, elaborado o Estatuto da Cooperativa e o seu registro na Junta Comercial. Cada cooperado teria como quota-parte o valor unitário de R$ 1,00, mas a captação de recursos necessários para a criação dos fundos da cooperativa se deu por meio da contribuição mensal, durante um ano e meio, de um grupo de 150 pessoas voluntárias da Itália (da cidade de Lucca, Torino e Bari) solidárias com a Congregação dos Missionários Combonianos (COOPERATIVA, 2005, p. 16). 
 
 

Foram feitas pesquisas, trabalhos de sensibilização, o cadastramento de 600 famílias de várias localidades da Serra e foram organizados 35 coordenadores, para os quais foram oferecidos encontros de formação sobre economia solidária, cooperativismo e agricultura orgânica. 
 
 

Como estratégia de trabalho, buscou-se formar núcleos de cooperados onde existiam lideranças locais para coordenar e impulsionar o trabalho nos bairros. De forma que foram criados 20 grupos, sendo que cada um correspondia a uma área geográfica de atuação, e seus coordenadores possuíam dinâmicas próprias com relação às atividades de conscientização para o consumo de orgânicos e divulgação da cooperativa. Houve algumas assembléias e reuniões em cada grupo e entre os coordenadores com a intenção de manter encontros entre produtores e consumidores, divulgar receitas culinárias e informativos voltados para a educação alimentar e para o cooperativismo. 
 
 

Fonte da Imagem: http://www.pested.org




Toda semana os coordenadores recebiam ou confirmavam os pedidos das cestas dos integrantes do próprio grupo e os repassavam a administração da cooperativa, que solicitava os alimentos orgânicos, por telefone, aos produtores dos municípios de Laranja da Terra, de Domingos Martins e de Santa Maria de Jetibá (Coopa-serrana) (O BROTO, 2005). 
 

 

Com relação aos atores sociais pesquisados, verificou-se que entre os coordenadores, a maioria tem de 30 a 56 anos e 70% são mulheres, alguns nasceram no meio rural e muitos disseram que não sabiam o que eram os produtos orgânicos antes de surgir a idéia de criar a cooperativa. Todos são atuantes em suas comunidades e possuem a prática do voluntariado, sendo membro de alguma pastoral da Igreja Católica, do CDDH ou da associação de moradores e 40% deles são cooperados-fundador da cooperativa. Os dirigentes também possuem essas características, mas, diferentemente daqueles, todos participaram da concepção da cooperativa. E um dos idealizadores e motivadores, que também é um cooperado-fundador, é um missionário comboniano, nascido na Itália, que atua na PO da Serra há pouco mais de 20 anos. 
 
 

Sobre os consumidores dos grupos de bairros da Serra, verificou-se que seu público-alvo são famílias compostas de 4 a 5 membros, cujo chefe de família é um(a) trabalhador(a) que recebe de 1 a 3 salários mínimos, possui até o 1º grau e está na faixa-etária de 30 a 40 anos. 
 
 

Especificamente sobre os aspectos econômicos e organizacionais dos produtores, os de Santa Maria de Jetibá estão organizados em cooperativa de comercialização e em associação de produtores orgânicos do município, além de possuírem mais canais de comercialização, apoio de entidades e dispor de mais tecnologias alternativas e infra-estruturas de comercialização e de beneficiamento da produção. Já os produtores de Laranja da Terra estão localizados em uma região de difícil acesso e são mais dependentes economicamente da comercialização com a cooperativa O Broto. Contudo, ambos os produtores buscam atender às demandas do mercado e repassar a maioria de suas produções para a cooperativa. 
 
 

No início, chegava na sede da cooperativa, às sextas-feiras de madrugada, o caminhão da Coopa-serrana (com o apoio da Prefeitura de Santa Maria de Jetibá) e o caminhão da Cooperativa O Broto (fornecido pelo Programa Nacional de Apoio a Agricultura Familiar - PRONAF - do Ministério do Desenvolvimento Agrário) que buscava os produtos em Laranja da Terra. Os produtos orgânicos, colhidos nas tardes de quintas-feiras, eram descarregados com a ajuda dos sócios e voluntários da cooperativa. Logo depois, os produtos eram pesados e distribuídos 9kg de legumes, verduras e frutas (1 kg de cada), folhagens e temperos verdes, em sacolas de pano (cesta-padrão) da cooperativa. Depois, as sacolas eram transportadas pelo caminhão da cooperativa aos bairros da Serra, para os coordenadores repassarem às famílias pelo preço de R$ 8,00 . Mas, devido a dificuldades financeiras, logísticas e organizacionais foram alterados as formas de entregas, o peso e o preço da cesta e passou-se a fornecer alguns produtos semiprocessados e a granel. 
 
 

A cooperativa O Broto que chegou a beneficiar, aproximadamente, 60 famílias de produtores orgânicos, atingindo 300 pessoas no campo e, aproximadamente, 650 famílias, alcançando 3.500 pessoas na área urbana; entretanto, sua meta é vender 600 cestas semanalmente para fortalecer a expansão da produção sustentável no estado, elevando para 100 o número de famílias agrícolas que produzem orgânicos, o que corresponderia a 500 pessoas beneficiadas no campo, bem como atingir 2.000 famílias de consumidores (compostas por 4 a 5 pessoas) representando 10.000 beneficiários (COOPERATIVA, 2005, p. 5). Além disso, busca realizar parceria com os produtores orgânicos de assentamentos rurais, remunerar os voluntários da Cooperativa e ampliar o atendimento a projetos sociais.
 
 

Formalmente, a cooperativa O Broto é composta por 27 cooperados fundadores, 2 dirigentes, 1 contador e 1 motorista, mas estava sendo mantida, principalmente, por doações e pelo trabalho, em rodízio, de voluntários, encarregados de fazer a separação, a pesagem, o ensacolamento, o transporte, as relações públicas, serviços de limpeza e cozinha, a coordenação dos grupos dos bairros e a distribuição das cestas. 
 
 

Já ao final do primeiro ano de funcionamento, a cooperativa passava a enfrentar dificuldades diversas para se manter e concretizar seus objetivos. O número de coordenadores decaía acompanhado da queda dos cooperados dos bairros, até que, em 2005, os "consumidores avulsos" (não-cooperados) passaram a representar quase que 50% dos compradores das cestas e, em novembro, optou-se, em Assembléia Extraordinária, pela paralisação de suas atividades, por tempo indeterminado.  Mas, em abril de 2006, com expectativas de novas parcerias, ela retoma as suas atividades passando a atender, principalmente, ao perfil das pequenas famílias urbanas, e com a intenção de continuar o trabalho educativo nos grupos de bairros, acreditando que o fortalecimento dos laços de solidariedade deve ser estimulado e potenciado na construção das parcerias.
 
 
 
 
 

O Broto: um despontar para sustentabilidade

As dimensões de sustentabilidade do projeto O Broto:

Dimensão político-social

A Cooperativa O Broto dirige-se à realidade comunitária, às camadas populares das áreas urbanas e das áreas rurais, a um segmento que se mantém em precárias condições de reprodução e insuficiente renda auferida. Em se tratando do consumidor urbano, ele também possui condições de vida e de trabalho que geram (e são gerados por) problemas sociais e de saúde. São trabalhadores espoliados, que possuem precária educação e saúde e, por isso, estão mais vulneráveis a doenças. Percebe-se que problemas biológicos também são produtos de relações sociais e que, portanto, o homem é a junção de um ser biológico e de um ser social (CANESQUI, 2000, p. 275). 
 
 

Todos os informantes percebem o valor dos orgânicos para a saúde; seria por meio dessa alimentação que se reduziriam os riscos de doenças ou intoxicações alimentares de trabalhadores e de seus familiares, causadas pelo consumo de alimentos agrícolas com resíduos de agrotóxicos. A premissa é de que a alimentação é um direito humano básico que abrange não só o direito de acesso ao alimento, mas também o direito a ter um alimento seguro; sendo assim, engloba-se a ótica da Soberania Alimentar (MEIRELLES, 2004, p. 11), da Segurança de Saúde e Alimentar (COSTA;MALUF, 200-, p. 8). 
 
 

Sabe-se que a exclusão do consumo regular e satisfatório, de parcela expressiva da população, mantém uma significativa demanda por bens de consumo pouco elaborados e de baixo preço. A capacidade de acesso aos alimentos entre aqueles de renda média e alta e os estratos inferiores é muito desigual e a adequação da alimentação se dá de acordo com o poder aquisitivo e a oferta do mercado (BLEIL, 1998, p. 22), o que gera importantes diferenças nos hábitos alimentares entre os estratos de renda. Muda-se a perspectiva reconhecendo a posição social do trabalhador urbano e do pequeno produtor de orgânicos e dá-se um caráter relacional, em que a opção por uma organização formal de consumo de produtos orgânicos envolve não só fins pragmáticos, mas a formação social mais ampla de um movimento de solidariedade e articulação de novos ideários entre dois elos. De modo que a Cooperativa O Broto busca fazer a conexão entre o abastecimento e a produção orgânica, numa estratégia de "juntar as duas pontas": os produtores e os consumidores (MARX, 1983, apudBRITO, 2003, p. 8).
 
 

Essa cooperativa foi refletida como um "projeto voltado para pobres do campo e da cidade", num "nascemos para os pobres". Vê-se que a questão da pobreza, enquanto um problema social, se constrói em torno à definição do que são as "necessidades" e seu padrão médio de consumo (LAVINAS, 2003, p. 4). Mais do que ver o nível de renda amplia-se o enfoque ao perceber que os "pobres da cidade" estão segregados da acessibilidade a bens e serviços. 
 
 

Sem a pretensão de subestimar a pobreza e apreendê-la em sua multiplicidade no espaço rural e no espaço urbano, a cooperativa se focalizou em 20 bairros de regiões periféricas do espaço urbano, onde seus atores idealizadores, predominantemente membros da PO e do CDDH da Serra, já tivessem grupos de base, pois entendem que a função de incentivo ao consumo de orgânicos cabe aos mais próximos do "povo" e que o trabalho educativo para o consumo de orgânicos é de longo prazo e requer uma relação de confiança. 
 
 

A cooperativa O Broto é vista como uma "experiência de enriquecimento e parceria" (CONGRESSO..., 2004, p. 16), uma "forma de solidariedade indireta que não é de caridade". A parceria presume complementaridade entre entidades sociais, Estado e cooperativa e entre consumidores, produtores, coordenadores e administrativos da cooperativa, numa sinergia que ultrapassa os limites do assistencialismo, a fim de contribuir com a construção da cidadania no campo e na cidade. 
 
 

Na forma de uma organização formal, a O Broto se constitui numa alternativa ao sistema alimentar insustentável, fortemente concentrado nos níveis da produção e da distribuição e cada vez mais distante das culturas alimentares nacionais e locais (COSTA; MALUF, 200-, p. 13). Pois, as estruturas de abastecimento participam na determinação das condições em que a população acessa os alimentos e a composição da cesta básica sofre influência dos agentes econômicos que detém uma capacidade de controle sobre as cadeias agroalimentares (redes de supermercados e indústria alimentar). 
 
 

Dimensão cultural-ambiental
 

Comprometidos com uma nova realidade, busca-se objetivar no alimento orgânico, intermediado pela cooperativa, uma forma de reconhecimento do Outro e de fortalecimento de princípios éticos e solidários, princípios esses que são desvalorizados, dominados, ocultados ou anulados pela racionalidade competitiva (ABDALLA, 2002, p. 126), bem como desenvolver ações de sensibilização e conscientização dos consumidores, para a defesa dos direitos de cidadania que se exerce através do consumo, da produção e da organização social.
 
 

O circuito de transação se diferencia por seu caráter de simplicidade e relação de proximidade, de pessoalidade, sendo que a cesta-padrão não possui embalagens, mas estava sendo entregue em uma sacola de pano para poder ser reaproveitada, emprestada ou trocada. E os requisitos de qualidade e de escala de produção são adaptados às questões culturais e às circunstâncias sócioespaciais e econômicas próprias dos pequenos produtores fornecedores.
 
 

Nessa forma de comercialização se troca objetos simbolicamente equivalentes, em que se oferece uma remuneração mais justa aos produtores e a cesta-padrão, preparada na cooperativa agrega não só saberes técnicos e tecnologias alternativas, mas está "carregada" de relações de parentesco, amizade, investimentos rituais ou míticos, padrões estéticos e morais, incorporados na economia e na cultura de unidades domésticas dos produtores orgânicos; portanto, não são "coisas" em si para serem consumidas apenas, mas condensam relações simbólicas e sentido "mágico-religioso" (MAUSS, 1974, p. 68). 
 
 

A cesta-padrão possui uma carga simbólica porque tem valor de sentimento, simboliza respeito e confiança à natureza e aos pequenos produtores do campo. Valorizam-se as verduras, legumes e frutas que foi possível produzir e colher, em oposição aos produtos agrícolas convencionais (com agrotóxicos). Por meio dessa cesta se propõe uma identidade cidadã voltada não só para a saúde, mas também para o igualitarismo, para a responsabilidade ética e justa, para o popular, para o inesperado, para o valor de pertença e para a consciência grupal. 
 
 

Com a cesta-padrão se estabelece um modelo de abastecimento, definido pelas condições apropriadas em termos de quantidade, de preço, de qualidade e também de composição, com a intenção de propor um padrão de consumo mais sustentável para um público que "aceita" o padrão da cesta. Em que mais do que o consumo em si busca-se formar cidadãos pelo consumo, introduzindo elementos educativos (e organizativos), numa perspectiva da diversidade alimentar e a dimensão do prazer associado ao consumo de produtos agrícolas.

 

 

A cooperativa não é uma forma de ação alimentar emergencial, mas uma resposta frente à privação de alimentos seguros e de qualidade de vida, como um meio de humanização do consumo (LEFF, 2001, p. 324-26). Sendo assim, ressignifica-se o produto orgânico com uma nova territorialização ou espacialização de inclusão (supondo um "para-nós", um sentido de pertencimento), voltada para o fortalecimento de vínculos territoriais, entre organizações sociais e entre lugares (SANTOS, 2000, p. 215).
 
 
 

Dimensão ético-econômica 
 

O símbolo da cooperativa - uma semente brotando nas mãos de trabalhadores - é uma metáfora do autodesenvolvimento ou do desenvolvimento local sustentável, como um desponte dos potenciais dos trabalhadores e do "ethos" de comunidade (FASE, 1998, p. 8).  Em que, por um lado, articula a autogestão e a capacidade produtiva de desempregados, e, por outro, considera os sistemas produtivos orgânicos, a capacidade produtiva dos pequenos produtores orgânicos e a necessidade da fixação destes no campo e de sua concepção holística de mundo, reproduzindo uma cultura ou um estilo de apropriação do ambiente que imprime significados às suas práticas de uso (ALMEIDA, 2005, p. 4).
 
 

A cooperativa é vista como uma "compra conjunta", que não é uma forma de interceptação para revenda ou um atravessador de produtos orgânicos, pois repassa os produtos agrícolas orgânicos para o consumidor por um preço mais justo e remunera o produtor de forma mais regular e imediata, sem sobrepor necessidades meramente técnicas e interesses comerciais. 
 
 

Ela se volta para o comércio justo, ético, solidário, responsável, com um objetivo pedagógico e político, de educar e informar o consumidor (JOHNSON, 2004, p. 22), tornando-o responsável, relativamente, pelos produtores e pela expansão do modo de produção agroecológico no Espírito Santo. Sendo assim, vê-se que há um desdobramento dialético entre consumo e produção: o consumo é a razão de ser da produção; é na esfera do consumo que o produto se torna realmente produto. O consumo reproduz a necessidade, logo, o consumo reproduz a produção (MARX 1983, apud BRITO, 2003, p. 7-8).
 
 

Com o objetivo de reduzir custos e desmistificar os preços dos orgânicos, as cestas-padrão de produtos orgânicos são vendidas por um preço cinco vezes menor, se comparada aos mesmos produtos vendidos em supermercados. Como também, a localização da sede da cooperativa é uma estratégia que reside na lógica desconcentradora e de não segregação sócioespacial, situada em uma área do município da Serra que não responde aos interesses econômicos de comercialização de bens e serviços e nem de natureza fundiária e imobiliária. 
 
 

Vê-se que é através de redes horizontalizadas que os agentes locais criam um desenvolvimento de bases mais eqüitativas e negam a reprodução dos componentes propriamente econômicos da sociedade capitalista (força de trabalho e meios de produção) e componentes ideológicos ou crenças que atuam de forma discriminatória. Visto que, é pelos mecanismos seletivos e pela aceitação ou naturalização dos arranjos produtivos que se garantem desigualdades. 
 
 
 
 

Principais interferências conjunturais e estruturais que circunscrevem o projeto O Broto
 

Após um ano de funcionamento da cooperativa, ocorria a queda do número de coordenadores de bairro, principalmente devido à falta de remuneração pelo trabalho que realizavam, o que refletiu na queda dos consumidores de bairros. 
 
 

As cestas dos grupos de bairros estavam sendo compradas irregularmente e as despesas da cooperativa foram aumentadas com a entrada da "classe média". Mas, apesar de 50% das cestas semanais serem compradas por esse consumidor, isso não levou a um ajuste monetário significativo que custeasse as despesas com o transporte, a infra-estrutura e a remuneração dos voluntários, que, em sua maioria, estavam desempregados. Além disso, o estímulo governamental foi contingente e faltava o apoio de prefeituras locais e do governo do estado para aliar a O Broto às políticas públicas locais, através, por exemplo, de seu fornecimento de alimentos orgânicos a projetos sociais e a mercados institucionais (escolas públicas, hospitais públicos, entre outros).
 
 

Entre os principais problemas que interferem no desenvolvimento dos trabalhos de grupo de bairro foram apontados o estilo de vida urbano (15), o hábito de comer verduras, frutas e legumes convencionais (padrão vendido em supermercados) (8), a falta de hábito de comer verduras, frutas e legumes (5), a falta de valor à alimentação (4), a falta de valor à saúde (2) e a falta de conhecimento da produção de orgânicos (2). Como também, aumentava a fragmentação das relações sociais porque a maioria dos cooperados ou dos associados não se reconhece como um dono e usuário dessa cooperativa solidária. 
 
 

Com a divulgação da cooperativa nos meios de comunicação houve uma abertura para o "consumidor avulso", com maior poder aquisitivo e com um padrão de consumo mais individualista, imediatista, refletido em cestas personalizadas com entregas domiciliares, o que fugia aos padrões propostos pela cooperativa. 
 
 

A cesta-padrão representa valores simbólicos para propor relações de consumo e de troca, enquanto processos de interação e de participação social, que se sobrepõem a necessidades técnicas, a interesses comerciais e a lógica exclusivamente centrada no produto. Entretanto, essa proposta conflitava com os hábitos alimentares dos consumidores, sejam eles da "classe baixa" ou da "classe média", visto que os seus padrões alimentares estão impregnados pelos hábitos hegemônicos, globalizados pelo modelo neoliberal de desenvolvimento e pela estrutura alimentar marcada pelo excesso de produtos artificiais e uniformes. Sendo parte desse processo, a reprodução do individualismo consumista e de relações sociais volúveis.

 
 
 
 

Considerações Finais
 

Os resultados apresentados nessa pesquisa pretenderam responder as questões de por que e como acontece o processo de comercialização de produtos orgânicos por cooperativas de natureza solidária, tendo como referência o sentido da relação de troca e de consumo proposto pela O Broto. De forma que, as suas propostas foram correlacionadas a três dimensões de sustentabilidade, relacionadas entre si: político-social, cultural-ambiental e ético-econômica.  Quis-se mostrar que a cooperativa O Broto se define como um projeto de sustentabilidade através de seus significados sociais, culturais e políticos diferenciais, baseados na eqüidade, no respeito à diversidade, ao Outro e à natureza, no trabalho em equipe e na solidariedade, visando a beneficiar a população de baixa renda da Serra (com a intenção de ampliação para o Estado) e os pequenos produtores capixabas. Ela é expressão do movimento de economia solidária, que é criado e recriado pelos que se vêem marginalizados pela sociedade capitalista; contudo, não se trata de uma ação espontânea de pessoas atingidas pela crise societal, reforçada pela globalização neoliberal, e sim, de um modo de comercialização alternativo fruto da sinergia entre atores sociais e organizações sociais, como uma forma de junção entre o movimento de economia solidária e o movimento orgânico, longe de uma perspectiva de linearidade.  Inserida dentro de uma abordagem do desenvolvimento alternativo e endógeno, ela tem a sua gênese em função das "necessidades sentidas" de um grupo de consumidores urbanos. Estes, com uma posição ético-política, ressignificam essa demanda inserindo-a numa problemática local, coletiva e socialmente definida (STAVENHAGEN, 1985, p. 18), relacionando produção de alimentos em bases eqüitativas e ambientalmente sustentáveis com a segurança alimentar da população de baixa renda. Propondo uma nova forma de solidariedade, uma participação social de "dentro para fora" e "de baixo para cima", através de um "modelo de ação comunitária sustentável" (ANJOS, 2003), a O Broto é um projeto que expressa um "novo senso comum emancipatório" do espaço do mercado (SANTOS, 2002, p. 54), a fim de ser uma estratégia que reside na lógica desconcentradora e de não segregação sócioespacial. Ela se coloca como uma alternativa mais eqüitativa ao comércio convencional, pois mais do que ter relações funcionais e ter atrativos mercadológicos, busca ser um canal de "popularização" e de equalização do consumo de orgânicos. Visto que, quem pode resistir ou reagir à discriminação ao acesso de orgânicos se não está ciente da existência e da importância dos alimentos orgânicos?
 
 

Mais que uma organização social e econômica formal, essa cooperativa é um projeto que propõe um processo original de comercialização de alimentos orgânicos. O seu modo de organização e comercialização se difere dos demais canais de comercialização de orgânicos porque busca ser não somente uma intermediadora comercial regular de produtos orgânicos, como também, uma interventora social, e, por isso, enfrenta problemas diferentes dos daqueles. 
 
 

Processos avaliativos de seus membros mostram que se demandam uma reestruturação administrativo-organizacional e mudanças no padrão da cesta, e que há interferências no foco de sua práxis, pois a O Broto está circunscrita territorialmente.
 
 

Possíveis redirecionamentos do projeto podem fortalecer o seu caráter ético, solidário e alternativo, mas para que a O Broto tenha condições inter e intra-organizacional de criar condutas e estratégias de ação auto-sustentável e gerar renda, enquanto uma cooperativa de natureza solidária, fazem-se necessárias "bases de sustentação", com a contribuição complementar de agentes externos (SINGER; SOUZA, 2000, p. 23). Assim, a cooperativa O Broto poderia estar sustentada na ampliação de redes solidárias de comercialização, na formação ambiental e cooperativista autogestionária de seus cooperados e administrativos, de forma continuada, na assessoria técnico-científica e no apoio governamental na promoção de mercados institucionais e de infra-estrutura. 
 
 

À guisa de conclusão, esse estudo pretendeu mostrar que a cooperativa O Broto expressa que para se entender as barreiras ou diferenças entre grupos sociais é preciso compreender que o estilo de vida e os valores também são parte de um processo cultural, político e econômico. Além disso, confirma-se que as interconexões entre idéias, projetos sociais e ações de enraizamento cultural e de afirmação do local - formando um "território relacional" (HAESBAERT, 2002) - que ultrapassa a escala municipal, precisam estar orientados pelos princípios de racionalidade ambiental, sustentabilidade ecológica, eqüidade e diversidade (LEFF, 2001, p. 295) para que favoreçam ao processo de desenvolvimento sustentável da cidade e do campo. 
 

Notas

Este artigo é uma versão simplificada e modificada de uma pesquisa apresentada em maio de 2006 ao Programa de Pós-graduação Lato Sensu (PROESP): Especialização em Ciências Humanas e Desenvolvimento Regional, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
Esses produtores possuem outros circuitos de comercialização, principalmente em feiras-livres, por isso não escoam sua produção exclusivamente para essa cooperativa. A Cooperativa de Comercialização de Produtos Agrícolas e Agro-industriais da Região Serrana do Espírito Santo (Coopa-serrana), por exemplo, comercializa com a empresa “Bom Fruto”, também localizada em Santa Maria de Jetibá, e com mercados de outros estados.
Os principais apontamentos se direcionaram para o perfil, a participação social e a percepção desses atores sociais sobre a função da cooperativa e dos alimentos orgânicos, envolvendo a problemática da comercialização e do consumo local de produtos orgânicos na Grande Vitória. Entre as perguntas feitas em entrevistas e nos questionários aplicados aos coordenadores estavam: idade, estado civil, naturalidade, profissão, escolaridade, renda familiar, função na cooperativa, desde quando e por que participa da cooperativa, se é membro de algum grupo de bairro, sindicato, associação, partido político ou outra entidade, o que é ser cooperado, se conhece a cooperativa, qual o papel dela, se realiza algum trabalho educativo na comunidade para divulgação da cooperativa e/ou orgânicos, quantos encontros/eventos foram realizados em sua comunidade, se diria que é uma pessoa informada sobre produtos orgânicos, se consome orgânicos, por que e desde quando os consome, se acha que a cooperativa deveria atender apenas a população de baixa renda e quem seria mais indicado para realizar esse trabalho de incentivo ao consumo de orgânicos.
A Pastoral Operária do Espírito Santo ajudou a constituir quatro empreendimentos solidários, visando a uma distribuição igualitária de renda: a Recuper-Lixo – Associação de Catadores de Materiais Recicláveis do Município da Serra (criada em 1999), a Supercoonfex – Cooperativa de Profissionais de Confecção do Estado do Espírito Santo (criada em 2000), a Coopesca – Cooperativa Mista de Pesca do Estado do Espírito Santo (criada em 2002) e a cooperativa O Broto (criada em 2003).
A região metropolitana da Grande Vitória é compreendida pelos municípios de Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Viana, Vila Velha e Vitória.
No Espírito Santo, a Pastoral Operária (PO) surgiu em 1974 enraizada nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e no movimento dos trabalhadores reprimido pela ditadura militar. Agia politicamente nos bairros e nos locais de trabalho a serviço da “classe trabalhadora”. Mas, diante da crise de Grupos de Base, da desarticulação e heterogeneidade dessa classe e do aumento do número de desempregados, trabalhadores informais e temporários, na cidade e no campo, a PO tem repensado a sua linha de atuação e se voltado mais para fora da Igreja (PASTORAL OPERÁRIA, 2004, p. 4 - 5). 
O CDDH foi fundado em março de 1984, após o IV Encontro Nacional dos Direitos Humanos realizado no Espírito Santo. Esse centro foi iniciado por um grupo de mulheres preocupadas com a violação dos direitos humanos em algumas fábricas do município da Serra e se mantém por meio de doações e voluntariado (CDDH, 2005).
Os Missionários Combonianos, seguindo o exemplo do fundador da Congregação – S. Daniel Comboni (1831-81) - confirmam a preferência pelos mais pobres e escravizados da terra e pela promoção e desenvolvimento das comunidades e do trabalho em equipe (DANIEL..., 2003, p. 43). 
Essa associação foi criada em 1999 para atuar, em âmbito nacional, na certificação dos processos de produção orgânica e nas áreas de capacitação e assessoramento a comunidades, associações, sindicatos e demais organizações voltadas para a promoção e desenvolvimento da população rural e para o intercâmbio entre comunidades rurais e urbanas (SEAG; CDN, 2004). 
A GEAO foi instituída em fevereiro de 2004 e compõe a estrutura organizacional da SEAG, com o objetivo de discutir, propor e desenvolver projetos em parceria com entidades organizadas da sociedade civil (ibid. nota 8). 
As principais perguntas do questionário para cadastramento das pessoas interessadas foram: renda familiar, número de membros da família, as espécies e o peso (em quilos) das verduras, legumes e frutas que a família consumia por semana, se gostaria de se associar à cooperativa e se estaria disposta a participar das reuniões e assembléias (COOPERATIVA, 2003-05).
Os principais bairros de atuação eram: Barro Branco, Cidade Continental (setores América, Europa e Ásia), Jacaraípe, Jardim Carapina, Jardim Limoeiro, Jardim Tropical, José de Anchieta II, Laranjeiras, Maringá, Nova Carapina I e II, Novo Horizonte, São Diogo, São Geraldo, Serra Dourada I e II, Solar de Anchieta e Vila Nova de Colares (ibid. nota 10).
O município da Serra é o 2º município mais populoso e possui uma das maiores taxas de crescimento populacional do estado. A principal atividade econômica desenvolvida é a indústria e seu PIB per capita está entre os melhores do estado, mas possui baixos indicadores sociais (ANUÁRIO, 2005, p. 39, 41 e 86). 
Os principais produtos da cesta-padrão são produtos agrícolas de lavoura permanente e temporária adaptados a região de origem: inhame, bananas, aipim, jiló, quiabo, beterraba, berinjela, tomate, cenoura e temperos verdes. Outras espécies nativas (sazonais) compõem a cesta conforme a época do ano. 
A maioria dos consumidores não-cooperados interessados nos produtos fornecidos pela cooperativa era de moradores de Vitória, localizados principalmente nos bairros: Jardim Camburi, Jardim da Penha, Praia do Canto, Centro e Goiabeiras. Em segundo lugar estavam os moradores da Serra, principalmente de Bairro de Fátima, Laranjeiras e Valparaíso, e em terceiro, os moradores de Vila Velha, principalmente do bairro Praia da Costa (COOPERATIVA, 2003-05).
Segundo o documento brasileiro elaborado para a Cúpula Mundial de Alimentação (1996), segurança alimentar significa garantir, a todos, condições de acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficientes, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis, contribuindo, assim, para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana (COSTA; MALUF, 200-, p. 17).
A cooperativa O Broto é regida pela Lei 5.764/71 de 16/12/1971, pelo Estatuto e demais disposições legais aplicáveis ao tipo societário cooperativista (ESTATUTO SOCIAL, 2003, p. 1). 
A cesta básica nacional (ração essencial) é composta atualmente por carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. Sendo que em out. 2005 registrou-se o custo de R$ 165,43 com a cesta básica no Estado (DIEESE, 2005), o que representa de 18% a 55% da renda do público alvo da cooperativa. 
 

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