Há mais de oito mil
sites
racistas
, neonazistas ,
e revisionistas
na Internet
, cerca de quinhentos em domínio brasileiro. Alguns atingem a marca
de dois milhões de visitas mensais para cento e quarenta e cinco
mil endereços de IP distintos .
Em vários deles há mais de cento e cinqüenta links para
outras URLs de discurso semelhante, tecendo uma verdadeira rede, na qual
se inserem: narrativas pessoais em blogs; exaltações a símbolos
específicos em fóruns; discussões; material de divulgação
dos movimentos - para ser "esquecido" dentro de livros em bibliotecas públicas
(NLNS, TV) ; cartoons; músicas;
imagens; textos que objetivam "formar líderes arianos" (NA, ANS,
RC, NLNS, AARG) ; livros para colorir a fim de permitir o "encantamento
das crianças arianas com a história e a força" (NA)
de sua raça; listas de discussões para ensinar as "mulheres
arianas" a não se comportarem como "um bando de judias briguentas"
(WAU).
À
medida em que, nos últimos quatro anos, fui me aproximando deste
universo singular
esta teia foi se revelando um arcabouço de representações,
valores e crenças, expresso nos sites por um léxico específico
que coordena relações de "inclusão e exclusão,
distância e proximidade e associação e dissociação"
. Estas relações, ora articuladas a referências que
se pretendem científicas por se valerem de uma gramática
biologista associada a “verdades absolutas
” ora cifradas em códigos simbólicos demarcados numa atmosfera
profundamente mítica, estabelecem condições
para que seu léxico se pretenda irrefutável. Nos sites analisados,
o discurso racista regula, seleciona, organiza, redistribui e articula
poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro
das discussões acerca dos poderes e a ameaça de sua extinção,
em particular pela possibilidade de casamentos inter-raciais ou por adoção
de crianças negras, emoldura as discussões a respeito dos
perigos. Há um direito de falar privilegiado ou exclusivo, exercido
apenas pelos responsáveis dos sites, geralmente líderes de
movimentos “que lutam pelos ideais da supremacia ariana” (EM, NA, V88),
ou por militantes destes movimentos, freqüentemente para narrar como
se descobriram portadores do “precioso sangue” (3W) e como esta descoberta
transformou sua vida, afastando-os dos perigos que envolvimentos afetivos
com judeus ou negros apresentariam. Os sites delimitam tabus: qualquer
tentativa de se tecer um mínimo elogio a negros e judeus
, em fóruns ou listas de discussão, provoca reações
fortíssimas; muitas vezes expulsões. Nos relatos, exemplos
peculiares de narrativas rituais, o processo de “se descobrir ariano (HLOBO)”
ganha status de iluminação, e a vida, a partir desta descoberta,
um “real sentido” (JNS). Outro interdito aparece nas linhas, por vezes
nas entrelinhas: é preciso cuidar para que “a liberdade de expressão
não seja castigada pelo poder público” (NLNS, AARG).
No
presente texto, em que situo o discurso racista no campo digital
, credito aos sites escolhidos o lugar de “bons para pensar
”, porque leio a radicalização discursiva de suas apresentações
hipertextuais, inserida intencionalmente por seus agentes no atual contexto
de discussão acerca de diferenças. Este contexto ultrapassa
os limites dos sites racistas, e pulveriza a discussão acerca de
identidades raciais no campo digital, conduzindo-a para lugares não
habituais para discussão do tema, como por exemplo, comunidades
do Orkut formadas com outros interesses, blogs pessoais de pessoas
não ligadas aos movimentos racistas ou anti-racistas, páginas
de notícias, piadas, cartoons, listas de discussão diversas,
fóruns que versam a respeito dos mais diversos assuntos, como, por
exemplo telenovelas e jogos de futebol.
As
ciberepresentações em torno da temática “raça”
(nas quais proliferam elementos gráficos, tecnológicos e
textuais), se relacionam com outras dimensões do campo digital,
por meio do link. Navegando pelos links, de qualquer ponto do campo digital
em que se discuta raça, se chegará, em algum momento, a um
dos sites apresentados no presente discurso, ainda que a totalidade do
universo expressa pelos sites racistas seja desconhecida pela grande maioria
dos internautas
. Ao mesmo tempo o link interliga, intercomunica, interdita e intersecciona.
Garante multidimensionalidade, pois fornece a possibilidade da conexão
de qualquer ponto a qualquer outro ponto, mas ao mesmo tempo em que isto
significa expansão, também pode significar limitação,
pela impossibilidade de abarcar-se o todo, partindo-se de qualquer ponto.
O todo, no campo digital, não existe: milhões de links são
criados todos os dias, apontando para páginas que existem ou não,
para páginas que serão criadas, para páginas que já
saíram do ar, numa bifurcação contínua que
frustra qualquer intenção totalizadora. Qualquer análise
do ciberespaço deve levar em conta esta descontinuidade expressa
no link
, a Scheerazade
do mundo virtual, e haverá sempre mais uma história, uma
outra narrativa, e outra ainda, num fluir que apenas aponta a imensidão
do oceano. Neste oceano encontrei os sites racistas, as ilhas em que venho
desenvolvendo a etnografia que dá origem ao presente texto.

Biologia
e Nazismo Esotérico: estratégias discursivas para definir
o lugar da raça
Tomando
estes sites, seus discursos e os internautas que neles interagem como “informantes”,
pretendo, sob o olhar antropológico, discutir os sites pesquisados,
suas representações, e apresentar como constroem identidades
para si e para seu Outro (o Judeu e o Negro), e como, para empreender tal
tarefa se valem de duas estratégias: a primeira, fundamentada num
discurso que se pretende científico e biológico e a
segunda em articulações míticas e rituais. É
importante, salientar, no entanto, que estas estratégias se articulam
formando estereótipos e “lugares” raciais que se pretendem tanto
científicos, históricos e biológicos, como espirituais,
míticos, esotéricos. Neste sentindo tais estratégias
buscam uma “simplificação” das relações sociais
no sentido em que Homi K Bhabha a utiliza o termo: não como uma
falsa representação da realidade, mas como “uma forma presa,
fixa, de representação
”. Nos sites racistas muitas vezes as idéias são emolduradas
desta forma:
“É simples:
nosso mundo é hierárquico.” (WAU);
“Nós nos vemos como
parte integral de um mundo único à nossa volta, que evolui
de acordo com as leis naturais.Nas palavras mais simples: Há somente
uma realidade, a qual nós chamamos de Natureza; não a ‘minha
realidade’ e ‘sua realidade’. ” (NA)
“Raça é o conjunto
de indivíduos que compartilham entre si as mesmas características
genéticas, culturais e históricas. [...] Nenhuma mestiçagem
é boa, miscigenação significa suicídio racial,
representa o fim das características de ambos os elementos raciais
envolvidos e o surgimento de uma criatura sem identidade alguma. A natureza
é sábia e colocou cada raça em um continente, isto
não ocorreu por acaso. [...] Cremos firmemente que a Raça
Branca Ariana é superior as demais raças, mas isto não
deve ser visto como algo que vá contra a natureza, pois a superioridade
de certas espécies sobre outras é parte da hierarquia natural.”
(V88)
Esta tentativa de “simplificar”
a realidade social, posiciona a idéia de raça como um “lugar”,
dado por uma “natureza sábia” (V88), uma “realidade metassocial
ou física
”, e valida nos sites em questão, como diferenças "naturais,
biológicas" (NA) entre os grupos sociais por ela definidos, diferenças
estas que se estenderiam a partir de origens “genômicas” (NA, WAU,
JNS, V88, SWP, 3W) a aspectos culturais, sociais, políticas, psíquicas,
morais e comportamentais. Esta “simplificação” é necessária,
para preencher a idéia de “raça” possibilitando-a como força
articuladora de legitimações de sentido e justificativa primeira
das práticas sugeridas aos agentes, lhes emprestando o contorno
que assegure a legitimidade e a reprodutibilidade que seu discurso crê
como premissa. Neste sentido, refletem um "conteúdo previamente
conhecido e fixo ",
expresso por uma “essência particular, sujeita a certas regularidades
que serão entendidas como regras ou leis da natureza.
” Para cada “essência particular”, estereotipada numa “raça”
existiria, advogam os sites em questão, um lugar “natural”, no “nosso
mundo naturalmente hierárquico” (NA). Os sites afirmam explicitamente:
“Não existe
Nação.” (NA, Nar, ANS, V88, NLNS, LEANDRO)
“O Brasil
não é uma nação, visto que seu povo não
possui identidade comum alguma. Nossa nação é nossa
raça. Lutamos pela sobrevivência e desenvolvimento da mesma,
independentemente de circunscrições territoriais.” (V88)
“Também sempre
frisamos a importância de pararmos de pensar em termos de país
(Brasil) e começarmos a raciocinar exclusivamente em cima da questão
racial. NOSSA RAÇA É NOSSA NAÇÃO.” (V88)
“Nação
e pátria estão diretamente relacionados a laços culturais
e raciais. Os judeus por exemplo sabem muito bem disso e onde quer que
vivam, sempre consideram Israel como sua pátria.” (V88)
Esta espacialização
da idéia de raça, expressada na idéia de que “nação
possui uma conotação racial e cultural” e que ambas derivam
de uma “realidade genética
”, desembocam no "fato" (NA) de que “as classificáveis raças
humanas” (JNS, 3W) se hierarquizariam intelectual, moral, cultural, psíquica,
espiritual e fisicamente. Esta hierarquização é defendida,
nos sites analisados, alicerçando-se num discurso "naturalizante".
Esta hierarquia, definida pelos sites racistas, e neles emoldurada como
"natural e mítica" (NA, WAU, NSWP, 3W, V88) constrói-se num
discurso que se arvora científico por valer-se de uma abordagem
biológica evolucionista. Privilegiando estas definições,
geram-se relações conceituais e para as mesmas os sites defendem
uma agenda: projetos sociais, posturas políticas, engajamentos ideológicos.
Esta "adoção de uma visão equivocada da biologia humana
estabelece, para os sites analisados, uma justificativa para a subordinação
permanente de outros indivíduos e povos e, no limite, para, elimina-los,
se necessário, utilizando-se de “todos os meios para manter um espaço
branco” (NA):
Cada
um de nós é membro da raça Ariana (ou Européia),
(...) e desenvolveu suas características especiais ao largo de milhares
de anos, (...) a fez avançar pelo seu caminho evolucionário.
[para] (...) sobreviver a um inverno requeria planejamento e autodisciplina,
avançaram mais rapidamente no desenvolvimento de suas faculdades
mentais mais elevadas -- incluindo as habilidades para conceptualizar,
resolver problemas, fazer planos para o futuro e adiar a gratificação
-- do que aqueles que permaneceram em um clima relativamente invariável
dos trópicos. [as] as raças variam hoje em suas capacidades
para construir e manter uma sociedade civilizada e, mais em geral, em suas
habilidades para ter uma mão consciente à Natureza na tarefa
da evolução. (...) somos conscientes de nossa própria
natureza e nossas relações com o resto do mundo, nós
temos uma inevitável hierarquia de obrigações e responsabilidades.
A natureza tem refinado e polido as qualidades especiais corporizadas na
raça Ariana para que pudéssemos ser mais capazes de cumprir
totalmente a missão que nos foi designada. (...) Finalmente, nós
temos uma responsabilidade com nós mesmos de sermos os melhores
e mais fortes indivíduos que possamos ser. Nós nos
vemos como parte da Natureza, sujeitos às leis da Natureza. Nós
reconhecemos as desigualdades que se produzem como conseqüências
do processo evolucionário e que são essenciais ao progresso
em cada esfera da vida. Nós aceitamos as responsabilidades como
homens e mulheres Arianos de lutarmos para o avanço de nossa raça
a serviço da Vida, e de sermos os instrumentos mais adequados que
possamos ser para esse propósito. (NA)
Esse
é um dos nossos objectivos, mostrar a todos que as diferenças
entre Homem e Mulher são necessárias porque guerreiros e
mães são necessários para todas as sociedades. Ao
longo da história, ambos, guerreiros e mães, lutaram para
o mesmo fim, proteger a nossa terra, o nosso lar e o mais precioso de tudo,
as nossas crianças, o nosso futuro. (WAU)

Há uma luta para manter
a própria natureza em estado evolucionário e hierárquico
(estabelecido pela hierarquia entre raças), luta esta construída
de maneira também hierárquica (diferentemente para homens
e mulheres) a fim de garantir às “desigualdades que se produzem
como conseqüências do processo evolucionário” (portanto
naturais e legitimáveis), o seu direito de se reproduzirem como
desiguais. Este direito se coloca “a serviço da Vida” e, neste sentido,
pretende-se o “ariano” como “instrumento” que serve a tal “propósito”.
O discurso fala de uma “Vida” que “deseja a si mesma”, e que em seu desejo
“hierárquico” utiliza as “desigualdades naturais entre raças”
para atingir seu êxtase evolucionista
. Deste êxtase participam “homens e mulheres arianos”, necessariamente
nesta ordem, não como sujeitos desta “vida hierarquizada”, mas como
seus objetos, reificados por uma vida imersa em fetichismo. A eles, o lugar
de guerreiros; a elas, o lugar de mães. A ambos o dever de preservar
o futuro: a criança branca. "Devemos assegurar a existência
do nosso povo e um futuro para as crianças brancas!" Estas 14 palavras,
construídas por David Lane
, se repetem em praticamente todos os sites e adquirem a forma de
mantra. A defesa desta criança portadora da “raiz mitocontrial ariana”
(SWP) se aloja na pauta de discussão acerca de identidades, emoldurada
na contemporaneidade pela volta ao biologismo, no qual o léxico
genômico se destaca. O discurso racista privilegia o evolucionismo
e a genômica determina a pauta dos fóruns:
Pergunta:
[...] meu primo tem características genéticas italianas e
portuguesas, mas também indígenas (em pequena quantidade).
Ele possui pele branca e tem características predominantemente européias,
porém, sei que ele também possui genes provenientes dos povos
indígenas, devido a impurificação de sua mãe.
Resposta: [...] a
pessoa em questão seria 1/8 indígena, em geral os traços
de miscigenação costumam aparecer até a 4ª
ou 5ª geração, [...] só podemos considerar ariano
o que apresentar menos de 32% de material genético não
ariano.
[...] Indivíduos com
evidentes traços de mestiçagem foram taxados pelo suspeito
teste de DNA como tendo 98 ou 99% de origem caucasiana, a nosso ver
isto é simplesmente impossível. Não sabemos se o erro
foi do teste ou se houveram
distorções na redação e edição
da matéria (é sabido que Veja se vendeu a mídia judaica),
é possível que o teste utilizado na época fosse falho.
(V88)
Sou filho de brancos, neto
de brancos, sou caucasiano, eu posso ter uma mitocôndria negra?
ou talvez um gameta negro, ou células negras? (CORK
– Poder Branco)
Não seria melhor pra
humanidade evitar a reprodução de genes ruins (como os meus)
e incentivar a reprodução de pessoas com genes bons? (CORK
Biologia vc Racismo)
Paradoxalmente, o racismo
- discriminar o outro por critérios raciais - pode ter surgido pelos
mecanismos
evolucionários de seleção de comportamento. Num
ambiente ancestral em que éramos organizados em bandos disputando
os mesmos recursos, fazia sentido identificar quem fosse diferente do bando,
e tratá-lo de forma diferenciada. Acredito que esses mesmos mecanismos
estejam presentes na organização do nosso cérebro
atual, e que estejam intimamente ligados ao racismo. (CORK Biologia vc
Racismo)
Outro mecanismo articulado pelos
sites, para validar sua agenda de lutas é o de se amparar numa moldura
mítica para configurar um espaço de incorporação
de regras, valores, gostos, idéias, símbolos. Neste sentido,
expressam de forma elucidativa o processo que depende das "tomadas de posição
pela intermediação do espaço de disposições,
ou do habitus
; ou, em outros termos, ao sistema de separações diferenciais
" validados pelos mitos reproduzidos inúmeras vezes e por
rituais que asseguram sua manutenção. Estes mitos e
rituais nascem de classificações, originadas, segundo Cornelia
Essner, no “dogma racial nórdico” de Hans F. K. Günther, principal
ideólogo do racismo nacional-socialista
e antigo membro da “Liga para a Germanidade Pura”. Günther, segundo
a historiadora da Universidade de Berlim, obteve a articulação
entre a ciência denominada por ele de “biologia social” e idéias
que incorporavam princípios de eugenia. Nesta articulação,
o “Sangue Nórdico” restava como “portador da imortalidade simbólic a
” trazida pelo povo alemão em suas veias. A carne e o sangue
nórdicos, por herança, se transubstanciariam na raça
alemã, perpetuando-a. Esta eternidade virtual só se
materializaria, no entanto, se “o Sangue” permanecesse puro: o que
garantiria a evolução “da Raça’. O “Reich” seria a
força transcendente que garantiria esta imortalização.
Nos sites observados o “Sangue” verte no vermelho das suásticas
e por ele está disposto a morrer: “Ou o Estado nacionalista, ou
nossos cadáveres”(RH, TV). É o sacrifício da carne,
mantendo vivo o sangue. O novo Pão e o novo Vinho: a carne dos soldados
e o sangue nórdico de suas veias.
Deste
modo, o “Terceiro Reich” comunicou, sacralizou e legitimou a idéia
de “imortalidade do Sangue”, que, vertido, fertilizaria a ascensão
da “raça ariana”: uma raça de "imortais". A morte pelo ideal
racial não seria real. Real seria a imortalidade por ela concedida.
No amanhecer, o Estado Nacional Socialista. O futuro apontaria para isto,
acreditavam os soldados de Hitler. E continuam acreditando, demonstram-nos
os sites analisados.
No
que consistia, contudo, a crença no “Sangue” ? Em seu texto mais
conhecido, A Raciologia do Povo Alemão, Hans Günther defende
a idéia de que todos os povos da Europa se construíram da
mistura de três raças: a nórdica, a alpina e a mediterrânea.
A raça nórdica conservaria o melhor material genético,
conservando em si “a própria vida’, afirmava Günther. Para
os biólogos sociais seria dever do Estado proteger e melhorar o
patrimônio genético social, e para isto seriam convenientes
políticas eugênicas claras; pois a mestiçagem seria
o que mais de prejudicial poderia acontecer ao “povo ariano” pois impediria
que a própria Vida , que corre em “Sangue” continuasse seu caminho
evolutivo. Para traçar esta teoria, busca no Ensaio sobre a Desigualdade
entre as Raças Humanas, de Arthur de Gobineau, sua principal fonte
de informação.
A
idéia de Günther pretende solucionar a crise de Gobineau, para
quem o Ocidente estava se deteriorando, na medida em que sua essência
se dilui na mestiçagem, propondo que o “processo de desnordificação”
europeu seja interrompido, o que, no limite, significaria "salvar"
a própria civilização. Aspirava ele um aumento significativo
do sangue nórdico no povo alemão, processo que denominou
Aufnordung (renordificação)
. No entanto, esta teoria, ainda que servisse, em parte, aos interesses
do Reich, foi em parte também recusada por ele: como era possível
ler na cultura nórdica uma “natureza superior” se a “alta cultura
renascentista” nascera à beira do Mediterrâneo? Era preciso
repensar os mitos e amalgamá-los a outros para emoldurar a proposta
do Reich: a isto serviu, de maneira inusitada, o debate acerca da “mestiçagem
humana” de Eugen Fischer, geneticista e fundador do Instituto Imperador
Guilherme: em sua teoria, o crânio humano se transforma em artefato
cultural e sua forma determina o grau de nobreza da raça. Preservar
a raça seria garantir esta nobreza de alma racial, incorporada ao
formato de seu cérebro.
As
diversas teorias raciais lutavam por poder e legitimidade dentro do partido
nazista. Interpretadas e reinterpretados por vários intelectuais
alemães, as teorias de Günther e Fischer eram vistas como certezas
absolutas ou censuradas por seu absolutismo, que exilava às
condições do meio sobre as disposições genéticas.
Foi com Karl Saller que a defesa da “raça alemã” uniu várias
tradições de pesquisas, da antropometria à eugenia.
Em seu pensamento a idéia de povo, que abrange o conceito de cultura,
aproxima-se da idéia de raça sem explicitar esta aproximação.
Ao publicar A Biologia do Corpo alemão, em 1934, Saller oferece
ao Estado nazista o conceito de “raça alemã”. Neste livro,
Saller se debruça sobre a questão judaica e nega aos judeus
qualquer vestígio de germanidade. A repercussão seria evidente:
em 1935 decreta-se, a 15 de setembro, a “lei de proteção
do sangue”, que interditava o casamento entre judeus e alemães,
evitando-se, assim, a “mestiçagem que poderia destruir toda a harmonia
interior do povo alemão”(V88).
Valendo-se
de simbolismos diversos da mitologia nórdica, o discurso associa
a idéia de sangue a uma herança espiritual definida. Valhalla,
nome de um dos maiores sites neonazistas brasileiros, nomeia o grande palácio
em Asgard no qual os guerreiros mortos em batalha, levados pelas Valquírias,
passam os dias em lutas entre si e as noites banqueteando-se no grande
salão, supervisionados pelo próprio Odin. O Valhalla é
descrito como o palácio mais maravilhoso de toda Asgard. Guerrear
pela preservação da raça é garantir um lugar
no paraíso nórdico. Tais elaborações simbólicas
se articulam ao discurso racial, pretendo incorporar um significado místico
a luta, seus poderes e perigos. Genômica e Nazismo Esotérico
unidos para garantir a eficácia discursiva.
Abrindo
o debate
Embora
tenha apenas esboçado aqui o quanto o discurso dos sites analisados
utiliza léxicos genômicos e místicos, creio que este
esboço é suficiente para demonstrar o quanto tais léxicos
servem para expor a idéia de raça como uma condição
de lugar e, portanto, como espaço de apreensão de um modo
de vida, demarcado por “propensões para pensar, sentir e agir
”.
Em
Razões Práticas – sobre a teoria da ação, Pierre
Bourdieu advoga a idéia de que “os ‘sujeitos’ são, de fato,
agentes que atuam e que sabem, dotados de um senso prático
” (grifo no original), no interior do campo. Este senso prático
é, ao mesmo tempo, “um sistema adquirido de preferências de
visão e divisão, [...] de estruturas cognitivas duradouras,
[...] de esquemas de ação que orientam a percepção
da situação e a resposta adequada”, e a esta espécie
de senso prático, Bourdieu denomina habitus. O conceito de habitus
de Pierre Bourdieu interessa-nos por ser capaz de demonstrar como as disposições
discursivas se estruturam; neste conceito, o “sistema de preferências”
delimita o sentir, “o que chamamos de gosto”, afirma Bourdieu, enquanto
as “estruturas cognitivas duradouras” essencializando o “produto da incorporação
de estruturas objetivas” dando formato às idéias e, por fim,
os “esquemas de ação” legalizam “a direção
e seu movimento” reproduzindo “sua vocação”. Bourdieu enfatiza
que o “discurso enquanto opus operatum encobre por meio de suas significações
reificadas o momento constitutivo da prática
”, explicitando, portanto, a gênese do processo de significação
cultural. Esta característica do campo digital de revelar
escondendo e esconder revelando, é conveniente aos sites racistas,
por acolher o universo dicotômico de sua possibilidade discursiva:
este misto de grito de ódio e silêncio criminoso.
Neste
campo, o habitus racista circunscreve sua estratégia de produção,
legitimação e reprodução do pensar, sentir
e agir discriminatórios em sua particular lógica gramática
de classificar, desclassificar e reclassificar. Discutida por Bhabha como
“discurso estereotipado do colonialismo” esta argumentação,
presente freqüentemente nos sites racistas, revela-se ainda mais nos
momentos de recrutamento:
Ha falta de europeus
empreendedores e audazes. Não se trata de apoderar-se de um boccado
da Africa, mas sim de resolver o problema africano. Se esperarmos que comece
a inevitavel luta na Asia, será tarde demais. A supermacia dos brancos
na Africa estará em perigo. (CORK Raça Branca)
Outro dos nossos principais
objectivos é a educação das mulheres brancas para
que estas despertem para os perigos que as rodeiam, perigos estes que sabemos
que mais ninguém as alertará para eles. Achamos fundamental
que a mulher branca acorde e que consiga finalmente ver que não
é crime amar, querer preservar a sua cultura e o seu povo, e que
é desse modo que deve educar os seus filhos, os nossos futuros guerreiros,
pois está nas mãos das mulheres a educação
daqueles que um dia serão, provavelmente, os heróis do nosso
povo. (ANS, FE, NW)
A prática racista se
torna um elemento a ser incorporado à medida que se desperte para
o valor da “grande raça” (TV, NA) e para o perigo da “ameaça
negra e judia” (NA, WAU, JNS). Nos sites, textos são oferecidos,
aos milhares, para facilitar a conscientização que tal incorporação
exigiria. Os internautas, desde que tenham certeza de uma origem absolutamente
não mestiça, são convidados a se perceberem como arianos
e a desejarem o status de superiores, num ciclo formativo que envolve o
reconhecimento de determinados atributos físicos, espirituais, morais,
cognitivos, sociais, culturais e a, paulatinamente, reconhecerem nos membros
de outras raças, perigo e inferioridade. São convidados a
ter “quatro filhos loiros” (CORK – Quero ter quatro filhos loiros), a se
desenvolverem em células de luta (V88), a aprenderem o esporte da
caça para justificar porte de armas (JNS), a ler "livros arianos"
(NA), a imprimir material e divulga-lo (todos os sites). Enfim, espera-se
do ariano que visita o site, que se torne um “ativista político”
(V88) do movimento, consciente de que a luta pode exigir “medidas extremas”
(NA).
Ao
afirmar que “(...) nada, no estado atual da ciência, permite afirmar
a superioridade ou a inferioridade intelectual de uma raça em relação
a outra (...) .
” Levi-Strauss defendeu as raízes da universalidade humana, discutindo
o fenômeno cultural a partir de processos de dispersão, diferenciação,
contato e isolamento dos grupos humanos. No debate que se faz necessário
diante da proliferação geométrica do extremismo racial
do qual os sites da Internet são apenas a ponta do iceberg
, a ponderação do grande mestre francês permanece no
centro de qualquer discussão científica como um dado de verdade,
embora os sites analisados pareçam descartar esta informação,
mantendo-se fiéis à tendência de “repudiar pura
e simplesmente as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas
mais afastadas daquelas com que nos identificamos
”, mesmo que a distância física destas formas se reduzam “na
faculdade ou no trabalho em que você é obrigado a conviver
com a corja negra, mestiça e judia” (V88). Tal etnocentrismo encontra,
no contexto contemporâneo preenchido por debates acerca de semelhanças
e diferenças, revolução de paradigmas gerada e gerida
pela genômica, demandas nacionalistas e neocolonialistas, um espaço
para se revitalizar e difundir.
Desenvolvendo
um mapa da atual configuração do neonazismo no Brasil e no
mundo, a socióloga e jornalista Helena Salem adverte que embora
os grupos neonazistas, politicamente, se configurem como pequenos, em termos
de força política, denunciam uma realidade filosófica
e histórica mais ampla
. Na Internet, estes grupos desenvolvem sites racistas, neonazistas e revisionistas,
posicionando-se contra judeus, negros e mestiços construindo
para seus objetos de ódio identidades e classificações.
Enquanto o faz, cada agente destes grupos arquiteta também para
si uma moldura: distintiva, demarcada pelo desejo de segurança e
que busca responder ao apelo de individualismo e reconhecimento dos novos
tempos, moldura que determina o que ele deve pensar, sentir e como deve
agir para efetivar sua identidade. Esta identidade, é, segundo Sartre,
fruto de uma paixão, ainda que “certamente apresente-se sob forma
de proposição teórica
”. Esta paixão faz do anti-semita “tudo menos homem
” e persuade ao racista de que seu verdadeiro lugar no mundo, aquele a
que tem direito a ocupar, foi alienado pelo judeu.
Para
não nos determos no cinismo e na indiferença que sangra abundantemente
dos sites analisados, e nos focarmos apenas em como elaboram suas práticas
discursivas, é possível perceber, rapidamente, o quanto em
sua declaração acerca de que “ou a raça ariana ou
a praga judia terminará neste embate final, a evolução
assim o exige” (V88) é demarcada por um paradigma biológico,
análogo ao debate evolucionista que emoldurou a instituição
da antropologia moderna como disciplina acadêmica. Defendendo um
descartar de qualquer forma de relativismo cultural (“não existe
a sua verdade, ou a minha verdade, mas a verdade, única e racial”
– NA; “este relativismo é uma magia judaica que desviou a humanidade
de sua evolução natural” – V88), e atribuindo um sentido
racial a todos os processos históricos (“as demais raças,
não são capazes de criar ou evoluir longe da influência
Ariana” - V88), os sites analisados postulam equivalências diretas
entre aspectos genéticos e traços culturais, ignorando a
complexidade dos sistemas de classificação da natureza ou
as elaboradas técnicas de produção de artefatos que
preenchem milhares de páginas de relatos etnográficos. O
etnocentrismo e toda a crítica antropológica a suas demarcações
aparecem no site; o primeiro como verdade absoluta, a segunda como fabricação
de “mentalidades judias torpes, como de certos antropólogos judeus”
(V88). Considero urgente que a antropologia se mantenha fiel à herança
de auto-reflexão, filosófica, moral e politicamente, denunciando
os hiatos do discurso racista e auxiliando na defesa da totalidade humana
. Nesta reflexão, as críticas foucaultianas acerca da microfísica
do poder, da arqueologia do saber, o antiesteticismo de Baudrillard, as
contribuições teóricas de Derrida, Guatarri e Deleuze,
encontraram um lugar importante, por proporcionarem à Antropologia
uma análise de sua participação nos processos colonialistas
e elucidarem muitas discussões atuais. O projeto de uma nova visão
antropológica que nasce destas discussões acerca das quais
há milhares de páginas para ler e pensar, deve abarcar também,
acredito, uma resposta às questões deflagradas pela análise
dos sites pesquisadas, que espero ter, minimamente, esboçada neste
artigo.
 
Sites
analisados, mirrors e URLs.
Exceto
quando explicitamente informado, todos os últimos acessos aos sites
datam de junho de 2005. Quando não informo o número de mirrors
(sites que copiam o código fonte e republicam o conteúdo
na Internet), isto se deve ao fato de não ter localizado nenhum
para o site em questão, sendo perfeitamente possível, até
provável, que exista. Os mirrors foram localizados por mim utilizando
diversas ferramentas de programação.
14W
(14 Words) (2 mirrors)
3W
(White Power! White
Pride! White Honour!) (6 mirrors)
AARG
(Aaargh
, Revisionismo da II Guerra Mundial, Campaign For Radical Truth In History)
(2 mirrors)
ANS
(Anillo Nacional Socialista)
(4 mirrors)
EM
(Escola
Neonazista) (2 mirrors)
FE
(Filhas Da Europa) (2 mirrors)
HLOBO
(Blog de um internauta de
nickname Homem Lobo Último Acesso em maio de 2006.
HM
(Holocausto A Mentira
Do Século) (2 mirrors)
JNS
(Juventude Nacional Socialista)
(6 mirrors)
LEANDRO
(Site Pessoal Do Leandro)
NA
(National Alliance)
NAr
(Nações
Arianas) (3 mirrors)
NLNS
( Nazi Lauck Nsdap/Ao)
(2 mirrors)
NSEC
(Ns Education Center)
(2 mirrors)
NW
(Northern Women // The
Aryan Sisterhood) (2 mirrors)
RC
(Resistência
Cultural!) (8 mirrors; ele próprio é um mirror do antigo
site da Editora Revisão, retirado do ar pela justiça brasileira)
RH
(Revisão Histórica)
Último Acesso em janeiro de 2004.
SWP
(Stormfront White Pride World Wide)
TV
(O Triunfo Da Vontade)
(2 mirrors)
V88
(Valhalla88) Último
Acesso em maio de 2006.
WAU
(Women for Aryan Unity)
(3 mirrors) Último Acesso em maio de 2006.
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Alexa
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histórica e internacional, In Neonazismo, Negacionismo e Extremismo
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http://www.derechos.org/nizkor/brazil/libros/neonazis/index.html . Último
acesso em 20 de junho de 2005.
WACQUANT.
L. Esclarecer o Habitus. [on-line] Disponível na Internet
via WWW. URL: sociology.berkeley.edu/faculty/WACQUANT/wacquant_pdf/ESCLARECEROHABITUS.pdf
-. Arquivo acessado em 15 de maio de 2004.
NOTAS
No
presente texto, consideramos site um grupo de páginas
que se articulam entre si, disponíveis em um mesmo endereço
eletrônico principal, ainda que subdivididas em diretórios
distintos, com um tema comum. Consideramos portal um grupo
de sites que pertença a um mesmo domínio. Como as citações
dos sites, embora muitas, são necessárias, convenciono as
seguintes abreviações: NA (National Alliance), WAU (Women
for Aryan Unity), RH (Revisão Histórica) NAr (Nações
Arianas), RC ( Resistência Cultural!), ANS (Anillo Nacional Socialista),
EM (Escola Neonazista) NSEC (Ns Education Center), NLNS ( Nazi Lauck Nsdap/Ao),
TV (O Triunfo Da Vontade), 3W (White Power! - White Pride! - White Honour!),
LEANDRO ( Site Pessoal Do Leandro), JNS ( Juventude Nacional Socialista),
HM (Holocausto A Mentira Do Século), NW (Northern Women // The Aryan
Sisterhood), SWP ( Stormfront White Pride World Wide), AARG (Aaargh , Revisionismo
Da II Guerra Mundial, Campaign For Radical Truth In History) , HLOBO (
Blog de um internauta de nickname Homem Lobo, 14W (14 Words), FE
(Filhas Da Europa) V88 ( Valhalla88). Embora o universo pesquisado seja
infinitamente maior, selecionei estes sites por se encontrarem entre os
mais visitados, receberem o maior número de links de outros sites
e, no conjunto, incluírem diversas formas de manifestação
digitalizada, como fóruns, debates, posts, discussões, imagens,
narrativas pessoais, textos para estudo.
O
termo racista, na presente discussão, abarca as duas
dimensões de racismo, definidas por Kwame Apiah:
o racismo extrínseco e o racismo intrínseco. O primeiro
advoga a existência de "distinções morais entre os
membros das diferentes raças". Portanto, nesta concepção
"a essência racial implica certas qualidades moralmente relevantes".
Irrefutável a qualquer prova da inexistência destas distinções,
nenhum racismo é unicamente extrínseco. Complementa-o o racismo
intrínseco, demarcado por "pessoas que estabelecem diferenças
morais entre os membros das diferentes raças" , pois para as mesmas,
"cada raça tem um status moral diferente, independentemente das
características partilhadas por seus membros".
Site
que privilegia o disponibilizar de material teórico e/ou de propaganda
demarcado por exaltar líderes, símbolos ou discursos relacionados
ao partido nazista alemão. O termo neonazista é
utilizado também em algumas fontes para designar os movimentos políticos
de extrema direita, defensores do anti-semitismo. Cf. VIZENTINI, P. F.
O
ressurgimento da extrema direita e do neonazismo: a dimensão histórica
e internacional, In Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político,
livro digital disponível na Internet em http://www.derechos.org/nizkor/brazil/libros/neonazis/index.html
.
Último acesso em 20 de junho de 2005.
O
termo revisionista identifica os sites cujo discurso direciona-se para
negar a veracidade histórica do Holocausto, seu número de
mortos, a perseguição e morte dos judeus, enfim que pretende
uma revisão da história.
Esses
números se referem aos rastreáveis em motores de busca, como
o disponibilizado pelo Google em http://www.google.com
O número de visitas abarca todas as vezes que um site foi aberto
num navegador, e a análise que se refere aos endereços de
IP, aos acessos únicos por computador registrado na rede. Fonte:
Alexa, disponível em http://www.alexa.com
Como anônima, jamais me identifiquei num site racista.
Cf. BOURDIEU, P. 1971, p1255-6
Refiro-me a uma afirmação de Mircea Eliade
1992, p. 108: “ ‘Dizer’ um mito, é proclamar o que se passou ab
origine. Uma vez ‘dito’, quer dizer revelado, o mito torna-se verdade
apodíctica: funda a verdade absoluta.”
Embora haja nos sites menções negativas à outras minorias
como ciganos, armênios, e aos homossexuais, estes últimos
tratados como deficientes morais, este trabalho se centra na análise
que os sites fazem do judeu e do negro, seu objeto de ódio privilegiado.
Acerca da homossexualidade, transcrevo um texto, retirado do Valhalla 88:
“Homossexualismo é uma perversão repugnante que infelizmente
passou a ser aceita na sociedade politicamente correta (leia-se idiotizada)
em que vivemos, qualquer pessoa com um mínimo de inteligência
constata, sem muito esforço, que este é um comportamento
completamente antinatural. Não fossem os anos de domínio
judaico dos meios de comunicação, certamente o homossexualismo
ainda seria encarado como uma doença.”
Cf. a reflexão de Pierre Bourdieu que descreve "campo social como
um espaço multidimensional de posições tal que qualquer
posição atual pode ser definida em função de
um sistema multidimensional de coordenadas cujos valores correspondem aos
valores das diferentes variáveis pertinentes: os agentes distribuem-se
assim nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital
que possuem, e na segunda dimensão, segundo a composição
do seu capital - quer dizer, segundo o peso relativo das diferentes espécies
no conjunto das suas posses." (Cf. BOURDIEU, P. Espaço Social
e Gênese de Classes, in O Poder Simbólico Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1989. p. 135). Utilizo-me do conceito de campo para abarcar
os espaços multidimensionais configurados pela Internet, e
pelo sistema particular de coordenadas por ele disponibilizado, por suas
formas específicas de apropriação de sentido, valores,
discursos, pela regras de sociabilidade que privilegia e interdita, pelas
técnicas e conhecimentos que exige de quem dele participa.
LÉVI-STRAUSS, C. Totemismo hoje. São Paulo, Abril Cultural,
Coleção "Os Pensadores", 1976
Constatei mais de cinqüenta vezes, por exemplo, em fóruns,
blogs ou comunidades, alguém postar um link para um dos sites pesquisados
com um comentário fortemente marcado pelo estranhamento, como por
exemplo: “vejam que absurdo que eu encontrei na Net hoje”. Muitas vezes,
ao contatar o postante me apresentando como pesquisadora do tema encontrei
reações surpresas à enormidade do fenômeno.
Realizei uma primeira discussão acerca da investigação
antropológica no ciberespaço (DIAS,
2005), a partir da intervenção de James
Boon, 1982, pensando a relação entre método de
investigação e cultura, já que estes, e ainda a história,
"se comunicam discursivamente", utilizando-se "de um paradoxo semiótico".
É preciso lembrar os próprios métodos de investigação
como "produtos de culturas que se transformam no tempo".
A técnica da heroína consiste basicamente em introduzir novos
narradores a cada história. Cada história, por sua vez, está
dentro de uma outra, e assim por diante.
"O estereótipo não é uma simplificação
porque é uma falsa representação de uma dada realidade.
É uma simplificação porque é uma forma presa,
fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença
(que a negação através do Outro permite), constitui
um problema para a representação do sujeito em significações
de relações psíquicas e sociais." BHABHA, Homi K.
Local da Cultura. B.H.: UFMG, 1998; p. 117.
Guimarães,
1999 p.215
Cf. BHABHA, , 1998.
Cf. CRAPANZANO, 1985.
Cf. o afirmado num dos sites pesquisados: “[...] o comportamento amoral,
desprovido de ética e pervertido, traço marcante dos judeus,
trata-se de um fator genético”.
GUIMARÃES,
1999 p. 211 et seq.
Esta concepção sociobiológica, segundo Donna Haraway
baseia-se numa visão informatizada dos corpos, que ela denomina
visão higth-tech do corpo. Cf. Haraway, 2000,
p. 81
Membro da Ordem, grupo neonazista americano, David Lane cumpre prisão
perpétua por sua participação no assassinato de um
comentarista de rádio judeu em Denver. Cf. GOODRICK-CLARKE,
2004, pp 68.
Manteve-se como registrado no site.
É pertinente observar que Tomás de Aquino, em seu Comentário
ao Livro V da Ética a Nicómaco, de Aristóteles, traduz
a idéia de héxis para o conceito de habitus
em latim. Provavelmente construiu essa conceituação em fontes
diversas, porque não lia grego. O texto de Aquino que introduz o
conceito escolástico de habitus é "Respondeo dicendum
quod, sicut supra dictum est, habitus non diversificantur nisi ex hoc quod
variat speciem actus, omnes enim actus unius speciei ad eundem habitum
pertinent. Cum autem species actus ex obiecto sumatur secundum formalem
rationem ipsius, necesse est quod idem specie sit actus qui fertur in rationem
obiecti, et qui fertur in obiectum sub tali ratione, sicut est eadem specie
visio qua videtur lumen, et qua videtur color secundum luminis rationem".
Uma tradução possível seria algo como: Respondo
dizendo que, como foi dito acima, os hábitos não se diversificam
a não ser que mude o tipo de ação, de fato, todas
as ações da mesma espécie pertencem ao mesmo hábito.
Sendo que a espécie da ação deriva do objeto segundo
sua razão formal, é necessário que a ação
seja da mesma espécie que se liga à razão do objeto,
e que se ligue ao objeto sob tal razão, como é da mesma espécie
a vista pela qual se vê a luz e pela qual se ver a cor dependendo
da razão da luz. Estas "ações da mesma espécie"
compõem a héxis descrita por Aristóteles como
uma "disposição prática", permanente e costumeira,
automática, e muito provavelmente desapercebida, pertencente a um
plano ontogenético. Acerca da disposição argumentada
por Aristóteles, cf. ARISTÓTELES
Ética a Nicômaco. , 2002, p. 135. Bourdieu localiza no
conceito de habitus o "primado da razão prática", "uma disposição
incorporada, quase postural... o lado ativo do conhecimento prático
que a tradição materialista, sobretudo com a teoria do reflexo
tinha abandonado". (BOURDIEU, P. Ibid, p. 61). Em A Dominação
masculina, a construção do habitus é explicada
por Bourdieu da seguinte forma: o "... produto de um trabalho social de
nominação e de inculcação ao término
do qual uma identidade social instituída por uma dessas 'linhas
de demarcação mística', conhecidas e reconhecidas
por todos, que o mundo social desenha, inscreve-se em uma natureza biológica
e se torna um habitus, lei social incorporada". Cf.
BOURDIEU, P. 2003, p 64.
BOURDIEU, P. Razões Práticas – Sobre a teoria da ação.
Campinas: Papirus, 2004 p 21
Cf. ESSNER, C. et CONTE. E. A Demanda da Raça – Uma Antropologia
do Nazismo. Lisboa: Instituo Piaget, Coleção Epistemologia
e Sociedade, 1995.
Ibid. p. 20.
Ibid. p 78.
WACQUANT. L. Esclarecer o Habitus. [on-line] Disponível na Internet
via WWW. URL: sociology.berkeley.edu/faculty/ WACQUANT/wacquant_pdf/ESCLARECEROHABITUS.pdf
-. Arquivo acessado em 15 de maio de 2004.
BOURDIEU, P. Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação.
São Paulo: Papirus, 1997, p. 42.
Cf. BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Lingüísticas: O Que
Falar Quer Dizer. São Paulo: EDUSP, 1996, p. 130-132
LÉVI-STRAUSS, C. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1980.
Acerca do tema ver EZEKIEL, R. S. The Racist Mind, New York, Penguin Books,
1995; HOCKENOS, P. Livres para Odiar – Neonazistas: Ameaça e Poder
São Paulo, Scritta, 1995; SALEM, H. As Tribos do Mal – o neonazismo
no Brasil e no mundo. São Paulo, Atual, 1995 e GOODRICK-CLARKE,
N. Sol Negro: Cultos Arianos, Nazismo Esotérico e Políticas
de Identidade. São Paulo, Madras, 2004
LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História, in Antropologia
Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.
SALEM, H. As Tribos do Mal – o neonazismo no Brasil e no mundo. São
Paulo, Atual, 1995, p. 81 a 83.
SARTRE. J.P. Reflexões sobre o racismo. São Paulo, Difusão
Européia do livro, 1968, p.6
SARTRE. J.P. Ibid. p.31
Acerca
deste posicionamento, um excelente exemplo está no documento da
ABA em 2003, que discute a negação do habeas corpus
negado a editor Sigfried Ellwanger Castan pelo STF: “Nesse sentido,
a noção de ´raça´ correntemente utilizada
constitui tão somente uma construção sociocultural
que se aplica a grupos populacionais detentores de características
físicas e, eventualmente, culturais comuns. Identidades culturais,
étnicas e, ou, ´raciais´ devem ser, pois, entendidas
como sendo elaboradas no âmbito de processos políticos, econômicos
e sociais inscritos em contextos espaço-temporais particulares,
constituídos conforme distintas características locais, regionais,
nacionais e transnacionais. As identidades e suas representações
são tão mutáveis quanto o são os processos,
contextos e as dimensões particulares que lhes servem de suporte.
É desse modo que as identidades indígenas, africanas, ítalo-brasileiras
e etc. são, simultaneamente, cindidas e fundidas, incorporadas e
desincorporadas, transpostas e reconfiguradas dentro de campesinatos rurais,
centros urbanos, comunidades imigrantes e arenas nacionais.” Na oportunidade
a Associação Brasileira de Antropologia - ABA manifestou
o seu irrestrito apoio à decisão da Alta Corte e salientou
como “tarefa prioritária o desafio anunciado, há exatos 51
anos, pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, no âmbito
dos esforços então desenvolvidos pela UNESCO para combater
o racismo, de enfrentarmos, e superarmos, os problemas decorrentes das
desigualdades sociais, econômicas e políticas prevalecentes
entre as culturas humanas.” Disponível na Internet em http://www.abant.org.br/informacoes/documentos/documentos_019.shtml
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