Introdução
A
história das nossas cidades, durante um longo período de
tempo, vinha pronta em livros que nos afirmavam fatos indiscutíveis
de sua construção. Contar “causos”, contar “fofocas” ou contar
, nos mínimos detalhes, uma banalidade qualquer do cotidiano era
apenas mais um fato que não causava desafio aos grandes fatos históricos.
As narrativas banais
não infligiam distúrbios históricos, mas sempre criaram
formas e tensões na maneira do homem tecer a trama do social.
Falamos de uma história miúda, de uma história em
migalhas (Dosse, 2003) que afirma o nosso cotidiano banal. A cultura do
cotidiano, que se elabora do dia a dia do aqui e agora ganha novas dimensões
quando na contemporaneidade assume diversas maneiras de se propagar. Não
falamos do boca a boca da esquina do bairro, mas do tela a tela dos computadores
instalados em nossas mesas, em um canto da casa, para se recuperar o que
denominamos de cidadania cultural.
Este homem do povo
não é apenas um receptor passivo, um espectador bestializado,
ele está formando a nossa história cultural. Esta fala miúda
e fragmentada requisita a nossa atenção aos pequenos elementos
constitutivos da cultura que um dia foi chamada de popular. A esquina do
bairro nunca desapareceu, sempre esteve e estará lá para
assegurar um porto seguro na vizinhança. O local, a vizinhança
sempre foi um elemento de extrema importância para assegurar a propagação
de nossas idéias e emoções. O que era dado como insignificante
para o entendimento de uma grande história agora é
importante para compreendermos a história da nossa cidade, o local.
A grande história
já mostrou um tempo celerado deformando ou reformando o espaço
urbano através de grandes projetos, como quando houve a transferência
da corte portuguesa para a cidade do Rio de Janeiro, no início do
século XIX, e as reformas urbanas do Prefeito Pereira Passos, também
no Rio de Janeiro, no começo do século XX. Ainda que houve
esforço em calar as manifestações do povo, essas narrativas
resistiram e contribuíram para configurar o perfil da cidade em
dias atuais. Hoje um tempo do cotidiano fragmentado e caleidoscópico
molda lentamente o local resistindo a ideais importados de concepções
sócio-espaciais.
O Rio de Janeiro no século
XIX
A cidade
do Rio de Janeiro foi alvo de uma reviravolta cultural em 1808, com a transferência
da sede da monarquia para o Brasil. A instalação no Brasil
da corte portuguesa, que fugia das tropas napoleônicas, significou
um momento angular da história nacional e de um processo singular
de emancipação. Conforme relata Lilia Moritz Schwarcs, d.
João e sua família, contando com a ajuda inglesa, transferiram
para o país a própria corte portuguesa – cerca de 20 mil
pessoas -, várias instituições metropolitanas, além
de comerciantes ingleses e franceses, artistas italianos e naturalistas
austríacos. (SCHWARCS, 1998: 25-26).
Na época, o
Rio de Janeiro, cuja população girava em torno de 60 mil
pessoas, passou a desempenhar a função que outrora fora de
Lisboa, transformando-se em capital de Portugal. Isso significava, além
da abertura de portos brasileiros para os britânicos, uma drástica
mudança na vida social, que herdava da ex-capital portuguesa a agenda
de festas e a etiqueta real. Dessa forma, uma nova sociabilidade idealizada
nos moldes europeus estava em formação.
Para fazer valer a
condição de novo estandarte do Império português,
conforme explica Marly Motta no livro Rio, cidade-capital, fizeram-se necessárias
“adaptações” que permitissem transformar a cidade em um lugar
de Corte. (MOTTA, 2004, p. 10). Para tanto, deu-se então a construção
de empreendimentos para modificar o, considerado pobre, cenário
do Rio colonial.
Entre as obras marcantes,
destaque para a Imprensa Régia, a Biblioteca Nacional, o Jardim
Botânico, a Academia de Belas-Artes, o Banco do Brasil. Entretanto,
esses ícones de grandiosidade cultural e econômica não
bastavam; era preciso modificar também a configuração
urbana do Rio. Para maquiar a cidade e deixá-la com feições
européias, mestres da Missão Artística Francesa aportaram
em 1816 e no rosto colonial do Rio de Janeiro estamparam fachadas neoclássicas
e arcos triunfais. Pintavam, desenhavam, esculpiam e construíam
à moda européia, obedecendo ao estilo que propunha a volta
aos padrões da arte clássica (greco-romana) da Antigüidade.
A coroação
de d. Pedro I, em 1º de dezembro de 1822, significou de certa forma
a oficialização do caráter multicultural brasileiro,
considerando o desejo do novo império de “romper” com o costume
português. No novo império, a tradição dialogava
com a cultura local na constituição da nacionalidade que
surgia. (SCHWARCS, 1998).
A partir da leitura
de Schwarcs, vemos que ao separar a monarquia brasileira da sua origem
lusitana, os novos símbolos tinham a função de marcar
o início de uma nova história da nação agora
independente. Jean-Baptiste Debret, artista integrante da Missão
Artística Francesa, quando da coroação de Dom Pedro
I, aponta o empenho do governo da época em amenizar emblemas nacionais
que denotassem “selvageria” ou atraso, ainda que fosse interesse ressaltar
a atmosfera tropical do país.
Nas pinturas, que
deveriam registrar momentos importantes, essa adequação era
evidente. Afirma Debret que a tela emblemática da coroação
representava a fidelidade geral da população brasileira ao
governo imperial, com Dom Pedro I sentado em um trono coberto por rica
tapeçaria estendida por cima de palmeiras. A composição
foi aprovada pelo primeiro-ministro, José Bonifácio, que
entretanto pediu ao pintor a substituição das palmeiras naturais
por um motivo de arquitetura regular, a fim de descartar a atmosfera de
estado selvagem. (MOTTA, 2004:10).
No novo império,
muito se investiu na realização de cerimônias reais
a fim de, a partir do registro desses eventos, ser possível estabelecer
determinadas memórias. “O Império brasileiro produziu muitas
imagens, que parecem constituir parte fundamental de sua efetivação.
Em diferentes momentos da vida de d. Pedro II, a ampla iconografia encontrada
é quase um trunfo, e as imagens parecem dirigir a reflexão”.
(SCHWARCS, 1998: 31-32).
Ainda que notadamente
inspirados na Paris do início do século XIX, os políticos
conservadores se empenharam em produzir uma simbologia própria para
a cidade, que viesse representar uma identidade nacional. Defiram também
uma nova organização política, sendo então
o governo da cidade entregue a uma Câmara Municipal, conhecida como
Câmara da Corte. Com a abdicação de Pedro I em 1831,
O pequeno d. Pedro II passou a ser tratado pelos jornais como “o monarca
que, nascido em solo brasileiro, iria se voltar para os interesses da pátria”.
(SCHWARCS, 1998: 53).
Rio de Janeiro,
cidade-capital
Nessa época acentuou-se
a imposição de um modelo centralizador de governo, que culminou
com a transformação do Rio de Janeiro em Município
Neutro, através do ato adicional de 1834. Uma vez separada da província
fluminense, a cidade iniciou a caminhada em direção ao posto
de “cidade-capital brasileira”. (MOTTA, 2004: 8). A categoria cidade-capital
foi criada pelo historiador Giulio Argan para explicar o estabelecimento
das monarquias absolutistas européias no século XVII, conforme
situa Marly Motta.
As cidades-capitais, sedes
da autoridade do Estado, dos órgãos do governo e da administração
pública, comandando o movimento militar, controlando as principais
rotas de comércio e a distribuição de recursos financeiros,
monopolizando a arte, a cultura e o gosto, revelaram-se atraentes para
um tipo de abordagem que as analisa como o lugar da política e da
cultura, como núcleo da sociabilidade intelectual e da produção
simbólica, representando, o foco da civilização, núcleo
da modernidade, teatro do poder e lugar de memória. (MOTTA, 2004:
8-9)
As funções
e representações conferidas às cidades-capitais, percebem-se
que no caso brasileiro era ao Rio de Janeiro do início do século
XIX que cabia esse papel. Pela visibilidade que atraía e pela posição
administrativa que ocupava, os símbolos que circulavam e as práticas
sociais vivenciadas na cidade foram fundamentais na constituição
de um sentimento de pertença, a ser compartilhado por todos os habitantes.
Se o Brasil necessitava de uma identidade nacional, o locus mais adequado
para essa representação era o Rio de Janeiro.
Para se constituir como capital
imperial, além das mudanças político-jurídicas,
o Rio de Janeiro deveria livrar-se de hábitos e costumes provincianos.
Quem desejasse ser um homem da corte, portanto, que desse adeus aos antigos
estilos de vida de colônia e incorporasse os novos padrões
e normas impostos para promover um comportamento unificado e homogeneizado.
Assim, de acordo com Marly Motta, unidade, ordem e civilização
foram os três pilares da construção do Rio de Janeiro
como cidade-capital do Império do Brasil.
Percebe-se nesse período
uma clara perseguição a toda e qualquer manifestação
de cultura popular, conflito este que seria intensificado nos anos seguintes.
Assim, o processo de construção da capital como centro formador
da nacionalidade requisitava a presença de uma intelectualidade
capaz de organizar um discurso sobre a formação, composição
e definição da nação. No campo das letras e
como no dos ensaios histórico-geográficos quanto na área
das artes plásticas, o esforço dos intelectuais do Império
foi duplo: promover a unidade nacional e cumprir missão civilizadora.
Civilidade pretendida
X tráfico de escravos
A partir de 1850, intensificou-se
uma pressão sobre o tráfico de escravos africanos. Manter
tal negócio era colocar o Brasil no balaio das nações
bárbaras, condição incompatível com a imagem
de país civilizado que o Império brasileiro sempre tentou
construir. O tráfico de escravos passou a ser proibido e as vultosas
quantias empregadas nesse comércio começaram a ser investidas
em outras finalidades. Infra-estrutura e transportes ferroviários
foram os setores mais beneficiados com recursos financeiros. O período,
conhecido também com “a era Mauá”, caracterizou-se por investimentos
volumosos na área financeira e industrial. Na época, as estradas
de ferro estavam entre os empreendimentos que mais concentravam esforços
no Brasil, simbolizando o avanço e o progresso das nações.
(SCHWARCS, 1998: 102)
No Rio de Janeiro, esses
investimentos em infra-estrutura e transportes puderam ser percebidos de
maneira mais evidente e o desejo de urbanizar a capital do Império
passou a ser mais fácil de realizar. Foram construídos palácios
majestosos, edifícios monumentais, amplas avenidas. Outras melhorias
vieram: arborização, iluminação a gás,
abastecimento domiciliar de água, bondes puxados por burros. (SCHWARCS,
1998). Surgiram também novos hábitos de consumo.
Lojas de modistas francesas,
joalherias e charutarias foram inauguradas, bem como confeitarias, cafés,
restaurantes, livrarias e casas de banho, na Rua do Ouvidor, transformando-a
“no símbolo dileto dessa nova forma de vida em que se pretendia,
nos trópicos, imitar a mesma sociabilidade das cortes ou dos mais
recentes bulevares europeus”. (SCHWARCS, 1998: 107). Entretanto, o Rio
de Janeiro definitivamente não era Paris. A corte era cercada por
um ambiente rural, havia escravidão por todos os lados, comércio
diminuto em volta, com cores e costumes que mais faziam lembrar o continente
africano.
Contradições
não faltavam. Em meados dos anos 1850, apesar de haver no Rio de
Janeiro 110 mil escravos em um contingente populacional de 250 mil habitantes,
popularizaram-se na cidade guias que ensinavam boas maneiras e comportamentos,
à luz do que era praticado nas cortes européias. Diante da
realeza isolada de um Império escravocrata que dissimulava as marcas
dessa instituição e de uma nobreza titulada recém-criada,
esses guias foram recebidos com o entusiasmo por aqueles que desejavam
apagar as marcas do reinado bastante improvisado. (SCHWARCS, 1998: 202)
A cidade era pretensamente
regrada. O ato de andar, por exemplo, recebera normas: corpo formando ângulo
de 90º com o chão; andar sem movimentar os braços como
pêndulos; caminhar sem oscilar, em linha reta; não correr,
nem andar devagar demais, muito menos de modo afetado; olhar para o chão
para não tropeçar. (SCHWARCS, 1998). Regras também
para a forma de se relacionar com os outros e escrever. Esses guias
revelavam as aspirações de uma época e os limites
nas concepções de higiene e de sociabilidade. Chamavam atenção
também para a fragilidade dessa recente corte que mal tivera tempo
para criar uma civilização particular. No Brasil, primeiro
surgiu a forma e em seguida o conteúdo, fazendo com que a corte
brasileira se constituísse quando os hábitos já estivessem
regrados.
E quem não era nobre,
nem parte da corte, o que fazia com tantas referências de civilização,
tanta pompa? De acordo com Lilia Schwarcs, essas tradições
não foram somente reproduzidas: acabaram por criar festas próprias
e leituras originais de um material que lhes era anterior. Nos rituais,
a realeza era personagem freqüente, mas nem sempre principal. (SCHWARCS,
1998: 247)
Conexão: Ânimos
exaltados e turbulência política
O caráter agitado
e revolucionário do Rio de Janeiro, a princípio, motivo de
orgulho e considerado determinante para a queda da monarquia, passou a
ser empecilho para a ordem pretendida pelo projeto republicano. Além
da atmosfera turbulenta, outra característica, na visão de
alguns deputados, que prejudicava o ideal nacionalista era a imagem do
Rio como cidade estrangeira, visto que um quarto da sua população
de 522.651 habitantes em 1890 era formada por pessoas de outros países.
Diante dos ânimos ameaçadores do carioca e da presença
estrangeira na cidade, cogitou-se então a criação
de uma nova capital, a cidade de Tiradentes, que além de carregar
o nome do mártir nacional, viria a fornecer o “elo patriótico
capaz de torná-la o espaço síntese da nação
republicana.” (MOTTA, 2004: 20)
A transferência de
capital para Tiradentes não se efetivou e o Rio de Janeiro, agora
Distrito Federal, carecia de um novo arcabouço político-jurídico.
Em 20 de setembro de 1892, foi aprovada a Lei Orgânica do DF. O executivo
federal indicou o prefeito, cabendo ao senado referendar a nomeação
e os vetos do prefeito. Tutela federal, bancada estadual e administração
municipal: eis a capital republicana, que se transformou em uma entidade
política e jurídica bastante original no quadro federativo
brasileiro. Com identidade política ambígua e campo político
fragmentado, a capital federal resistiu politizada. Para Marly Motta, no
Rio de Janeiro da época, havia excesso de política. Fazia-se
política no Catete, no congresso, na Prefeitura, no conselho Municipal,
nos sindicatos, nos partidos, nos clubes e é claro nas ruas.
Impasse: além de capital
federal, o Rio de Janeiro era uma cidade por excelência, repleta
de contradições, idiossincrasias e evidentemente um povo
que não fazia parte da elite. Em seu mandato de presidente da República,
Campos Sales, sucessor de Prudente de Morais, interviu na cidade, pois
na sua opinião, em vez de capital da ordem, era um “lugar da anarquia,
das manifestações espontâneas de multidões descontroladas,
arredias ao controle do governo”. (MOTTA, 2004: 28).
Conforme a autora, Campos
Sales se empenhou em desarticular a elite política carioca, concentrada
no Partido Republicano Federalista (PRF), e apoiado por lideranças
das áreas rurais da cidade, fortificou a candidatura de Barata Ribeiro
ao Senado, pelo Partido Republicano do Distrito Federal. O resultado foi
a desmantelamento do PRF, causando desequilíbrio no quadro político
local. Pelo menos aparentemente as multidões turbulentas pareciam
acalmadas e a política carioca livre dos “vícios da politicagem”.
O capítulo seguinte
dessa novela intervencionista ambientada na capital federal foi a instituição
da chamada “ditadura do prefeito”, como ficou conhecido o mandato de Pereira
Passos, que obteve poderes extraordinários em vista do fechamento
temporário do Conselho Municipal. Na gestão Pereira Passos,
foi retomado o propósito de fazer do Rio de Janeiro “a vitrine e
o espelho da nação” (MOTTA, 2004: 29), algo semelhante ao
que fora realizado em meados de 1850. Vultosos investimentos financeiros
e simbólicos foram realizados, como a emblemática abertura
da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), que ligaria o porto da Prainha
à recém-inaugurada avenida Beira-Mar. Mas o desejo de transformar
a cidade na Paris dos trópicos não se limitava a reconfigurações
urbanas:
Tentou-se de toda forma implantar
novos costumes nesse espaço remodelado segundo padrões vigentes
nas cidades ditas civilizadas. Pipocaram decretos proibindo a venda de
bilhetes de loteria, a ordenha de vacas leiteiras, a prática da
medicina pública e qualquer forma de comércio ambulante na
avenida. Quem urinasse fora dos mictórios, cuspisse nas ruas e soltasse
fogos de artifício poderia ser punido.
A cidade do Rio de Janeiro,
no início da República, era o cenário de turbulência,
de tumultuo e de agitação em todos os campos, na economia,
na política, no social e no cultural. Os personagens que surgiam
eram compostos por subempregados e desempregados que circulavam pelas ruelas
cariocas. Ex-escravos, imigrantes e emigrantes abriam brechas na cidade
para estabelecer um certo tipo de sociabilidade que não combinava
com o desejo de ordem e progresso que se estabelecia nas mesas dos donos
do poder. Fluxos de gente, de informações, de produtos,
de investimentos financeiros e políticos com desdobramentos em novos
arranjos sociais explodiam na capital do país.
Domésticos,
jornaleiros, trabalhadores em ocupações mal definidas chegavam
a mais de 100 mil pessoas em 1890 e mais a mais de 200 mil em 1906 e viviam
nas tênues fronteiras entre a legalidade e a ilegalidade, às
vezes participando simultaneamente de ambas. (Carvalho, 1987: 17).
Carroceiros, ambulantes,
ladrões , malandros, prostitutas e outros personagens não
tão bem vistos para o desenvolvimento progressistas de uma nação
se faziam notar por vários autores que retratavam a cidade republicana.
Por outro lado, a cidade era também reconhecida por um outro tipo
de população, em oposição aos que se colocavam
como entrave ao desenvolvimento social. O governo imperial começou
a emitir dinheiro principalmente para pagar os salários já
que não existia a figura do escravo. Assim, instalou-se a especulação.
Corretores, investidores, milionários envolvidos nos lucros e câmbios
surgiam fazendo contraponto à miséria urbana.
Falar no século XIX
nos remete a pensar na riqueza, no luxo, na velocidade e na luz que vinha
da Europa. Lílian Schwarcz e Ângela da Costa (2000) nos mostram
um mundo profundamente marcado pelas transformações aceleradas
das inovações tecnológicas. A Exposição
Universal de Paris de 1900 aglutinou o mundo inteiro em um só lugar.
Era o começo de uma nova compreensão do espaço e do
tempo balizada pelo ritmo da introdução de veículos
velozes no mundo.
A Revolução
Científico-Tecnológica coloca o mundo em uma ordem original,
no final do século XIX, tendo como marco a velocidade e as novas
sociabilidades. Era o tempo da modernidade que caracterizava o espaço
urbano tendo a velocidade das informações e deslocamentos
como efeito de fundo sobre todas as interações sociais. A
“modernidade combina com avanço - nesse caso- progresso. Que se
esqueça o cometa ou o inconsciente em nome dos ganhos e da civilização.
Era essa a face brilhante do teatro da modernidade que o Brasil pretendia
acompanhar, já que não era possível tomar a dianteira.”
(Schwarcz e Costa, 2000: 25)
Silviano Santiago (2004)
usa como paradigma para afirmar a nossa relação identitária
com este mundo da modernidade a publicação da obra Minha
formação de Joaquim Nabuco de 1900. Utiliza o livro de um
dos políticos monarquistas mais influentes para montar a “síntese”
definidora da cultura brasileira que se resulta da articulação
entre o particularismo e o universalismo. O político, no capítulo
intitulado “Atração do mundo”, ressalta ser o espectador
de uma peça que está em cartaz em todos os teatros da humanidade,
a civilização. E todos os teatros estariam interligados pelo
telégrafo. A efervescência dramática do mundo, com
sua velocidade, o atrai muito mais do que os movimentos provincianos, a
política local, a do país e a dos partidos.
Indo direto à
fonte destacamos o seguinte período de texto onde Nabuco expressa
a imagem que constrói do Brasil:
O sentimento em
nós é brasileiro, a imaginação, européia.
As paisagens todas do Novo Mundo, a floresta amazônica, ou os pampas
argentinos, não valem para mim um trecho da Via Ápia, uma
volta da estrada de Salermo a Amalfi, um pedaço do Cais do Senna,
à sombra do velho Louvre. No meio do luxo dos teatros, da moda,
da política, somos sempre squatters, como se estivéssemos
ainda derribando a mata virgem [...] no século em que vivemos, o
espírito humano, que é um só e terrivelmente centralista,
está do outro lado do atlântico; o Novo Mundo para tudo que
é imaginação estética ou histórica é
uma verdadeira solidão... (Nabuco. 2004:40)
Nesta citação
está contido o germe da “moléstia de Nabuco”. Esta doença
foi detectada por Mario de Andrade a partir das saudades que o brasileiro
sente do Sena em plena Quinta da Boa Vista. Santiago destaca, em seu livro,
a visão crítica que Andrade assume diante da posição
de Nabuco sobre a nossa relação com o mundo europeu e especificamente
com a modernidade. O autor modernista não procurava a “origem da
tragédia de Nabuco, mas o foco da infecção mazomba”.
(Santiago. Op.cit: 25)
Esse jogo para combater qualquer
manifestação popular e ainda caracterizar as práticas
do povo como provincianas persistiu nas décadas seguintes. Sem nos
estendermos na apresentação de outros governos brasileiros
ao longo no século XX, lançaremos o olhar para dois intelectuais
de posturas diametralmente opostas quando o assunto era a cultura nacional
e suas manifestações e representações sociais.
Silviano Santiago tenta reconstituir
no artigo Atração do Mundo – Políticas de globalização
e de identidade na moderna cultura brasileira, publicado no livro em O
cosmopolitismo do pobre, os paradigmas que recobrem e explicam as
políticas de globalização e identidade referentes
ao primeiro século de autonomia nacional, iniciado quando da proclamação
da República. Para isso, recorre ao pensamento de Joaquim Nabuco,
político e membro da elite intelectual brasileira, atuante no século
XIX.
Autodefinindo-se “antes como
um espectador do meu século do que do meu país” (NABUCO,
2004: 35), Nabuco deixava claro o seu interesse pelo que acontecia na Europa,
onde para ele era encenado o mundo. Caracterizando o Brasil como um país
provinciano, Nabuco acreditava que fazer uso dos meios de comunicação
de massa modernos, cuja vedete na época era o telégrafo,
era a única forma de, aqui estando, participar do que acontecia
lá fora. Interessava ao político e intelectual, conforme
nos diz Silviano Santiago em obra já citada, muito mais a crise
de representação da modernidade do que a busca de identidade
nacional.
O flagrante desprezo de Nabuco
pela política nacional vai ao encontro da tentativa de esvaziamento
político deflagrada no país, particularmente no Rio de Janeiro,
à qual já nos referimos ao longo deste texto. Esvaziamento
este referente às manifestações de participação
popular, originadas na capital, Rio de Janeiro, e nas demais províncias
do país. Pouco interessado nas questões do povo, Nabuco se
incomodava também com a política que se praticava no Brasil,
a qual caracterizava “como inferior, setorizada e dominada por estruturas
arcaicas e sentimentos baixos” (SANTIAGO, 2004: 13).
Silviano Santiago, ao prosseguir
na análise da relação de Nabuco com o Brasil e com
o mundo “civilizado”, afirma que esse político “prefere o esconderijo
cosmopolita do sentimento íntimo à seara pública das
exteriorizações triunfais”. (p.19). Apesar da clara preferência
pelo que acontecia “lá fora”, as palavras de Nabuco abrem espaço
para o que se poderia chamar de dilema cosmopolita, ou ainda uma crise
de sujeito de caráter pessoal e cultural (SANTIAGO, 2004, p.19),
de se estar sempre entre um lugar e outro, gerando assim uma espécie
de nostalgia: “De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do
outro, a ausência do país”. (NABUCO , 2004: 40).
Nabuco afirmou em seus escritos
que vocábulo algum era tão comovente quanto a palavras portuguesa
saudade, que traduzia a lástima da ausência, a tristeza das
separações, a privação de entes e objetos amados.
Para o intelectual, a palavra traduzia “o sentimento que o exilado
tem pela pátria, o marinheiro pela família, os namorados
um pelo outro, apenas separam-se”. (NABUCO apud SANTIAGO, 2004, p.19).
Essa saudade era para Nabuco
a explicação para a atração de afinidades esquecidas
que estão em todos os habitantes do Brasil. Seria a saudade o grande
impulso para os brasileiros cruzarem o oceano. Os dizeres de Nabuco e as
ações realizadas na cidade do Rio de Janeiro desde a chegada
da coroa portuguesa no Brasil, as quais tinham a intenção
de cobrir a cidade com uma atmosfera de civilização, são
elementos que apontam para a grande dificuldade de se construir uma identidade
nacional baseada em elementos brasileiros.
A postura do intelectual,
representando o pensamento do século XIX, e a tentativa de impor
costumes europeus à população da cidade do Rio de
Janeiro seriam respectivamente a origem e a proliferação
de uma praga sobre a qual o intelectual modernista Mário de Andrade
versaria em carta ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Mário
afirmava ter descoberto uma doença mais grave do que a moléstia
de Chagas. Tratava-se da Moléstia de Nabuco, que fazia com que os
brasileiros sentissem saudades do cais do Sena em plena Quinta da Boa Vista.
(SANTIAGO, 2004,p.25)
Mário propõe
então uma vacina para essa doença. Seria sistematizar o passado
que já pesa nos nossos gestos e tradicionalizá-lo, trazendo-o
para o presente. Conforme explica Silviano Santiago, “esse ponto de apoio,
melhor dito, esse ponto de passagem entre a Europa e as culturas não
européias, é o primitivismo”. (p. 26). Para Mário
de Andrade, primitivismo não se opõe à cultura: pode
se opor a determinadas culturas, e segue, defendendo que não há
Civilização e sim civilizações.
No discurso de Mário
de Andrade, ao longo da sua caminhada de “abrasileiramento do Brasil”,
verificamos pontos-de-vista que contrabalançam exemplarmente a visão
de mundo de Nabuco. No seu ativismo, rumo à construção
de uma nova sociedade, Mário de Andrade pratica a solidariedade,
propondo o exercício do “puxar conversa” como modo de o intelectual
se aproximar “agressiva e despudoradamente, sensual e fraternamente” do
outro, transformando este em sujeito do conhecimento. (SANTIAGO, 2004,
p. 28 e 29).
O povo ficou besta
Segundo José Murilo
de Carvalho (1987) podemos dizer, a partir de alguns testemunhos da época,
que existiu um dia em que o povo da cidade ficou “bestializado” diante
de uma forma política que se instaurava. Ficou admirado com a instalação
da República como um mero espectador diante de um espetáculo
que o assustava, era uma das representações elaboradas sobre
a relação do homem com os fatos que marcavam a construção
de sua cidade. Hoje, porém, muito pelo contrário, essa população
tem plena consciência que participa como ator principal dos
processos sócio-culturais e políticos. Em um determinado
período preciso da história o povo era tomado, por uma determinada
parcela da população que se queria passar por dona da história,
como possuindo e usando elementos de uma cultura que deveria ser transformada
ou lapidada através de um processo civilizatório.
Os diversos relatos oriundos
das mais variadas fontes elaboram a representação da cidade
contemporânea e também, assim, uma forma cultural de cidadania.
Não temos apenas uma fonte segura de reconhecimento dos fatos históricos.
Este texto é um exercício de heteroglossia. O imaginário,
o sensível e o banal que constituem a trama da vida compartilhada
em sociedade vão penetrar nas histórias narradas da cidade.
Para compreender a busca
da recuperação do poder da narrativa popular é necessário
remexer com algumas visões que se inscreveram na cultura da cidade
a partir da participação da população na instauração
da República. Nos posicionaremos, assim, diante da relação
do poder institucional do Estado e seus desdobramentos no imaginário
constitutivo das sociabilidades cariocas.
Seguiremos a visão
de José Murilo de Carvalho (1987) que nos alerta para que não
se veja o povo apenas como passivo de um processo histórico pois
assim estaríamos bestializando a população. O sonho
de termos na sociedade que se formava “sujeitos livres, iguais e soberanos
colocados na vanguarda do processo da Pátria” poderia ser também
encontrado em algumas representações elaboradas na época
e estampadas nos jornais, como nas páginas do jornal Voz do Povo
de 9.1.1890.
O cidadão, como por
definição, sendo o habitante da cidade estaria participando
ativamente de todos os processos de transformações da modernidade.
Para Carvalho a República serve de ponto de partida para refletirmos
sobre a participação popular no campo da política,
acrescentaríamos aqui que para o nosso interesse apreciamos o registro
da sociabilidade cotidiana do povo na cidade, seu caminhar vagaroso, seu
uso desordenado do espaço da rua e seu abuso do que seria ilegítimo
para formar a sociedade carioca moderna.
O fluxo de pessoas e de informações
se intensificou continuamente e dessa forma a complexidade de como lidar
com a pluralidade surge de maneira imperiosa nos questionamentos sobre
a cultura na cidade do Rio de Janeiro. A cultura da velocidade se desacelera
e sofre redução de impulso quando se depara com a força
da cultura que se estabelece historicamente como entrave à celeridade
do desenvolvimento, com o povo miserável das ruas. Essa força
da lentidão, que surge nos encontros que se arrastam no cotidiano
das vielas e hospedarias insalubres, faz surgir nos jogos de poder no campo
da cultura novos grupos que não possuíam direito a expressão
no mundo da modernidade.
Podemos assistir na história
da sociabilidade carioca embates que se desdobram até os nossos
dias. Algumas tensões parecem ser estruturais nos jogos de forças
para o ato de compartilhar a cidade, perpetuando a “moléstia de
Nabuco”. Visitando os primeiros anos de República vemos a agitação
no campo da política se refletir profundamente nas relações
institucionais e hierárquicas dentro do próprio aparelho
do Estado.
...generais brigavam entre
si, ou com almirantes, o Exército brigava com a Armada, a polícia
brigava com o Exército. Por seis meses, a esquadra rebelada bloqueou
o porto e bombardeou partes da cidade, causando pânico, deslocamentos
maciços de população para os subúrbios, ameaças
de saques. (Carvalho, 1987: 22)
No interior do próprio
Estado estava presente tanto o universalismo como o particularismo fundadores
da cultura carioca. Para os homens que tentavam manter o país unido
era necessário instaurar a estabilidade política e isso significaria
amenizar a influência da capital no âmbito nacional. Teriam
que tirar os militares do poder e reduzir a participação
popular. Os militares eram uma parte constitutiva do povo, misturavam-se
com a própria população e estavam presentes nas agitações.
Os militares sempre estavam ao lado dos civis. Soldados-cidadãos.
Assim, se torna extremamente
complicado localizar historicamente ou mesmo sociologicamente, o lugar
da elite como o lugar de exclusão do cidadão comum. Na nossa
“formação” está a complexidade que nos induzirá
a uma possível compreensão da multiplicidade de idéias
e da pluralidade de atitudes e de virtudes cariocas. Os lugares se misturam,
os personagens se baralham e as imagens construídas historicamente
desestabilizam interpretações certeiras sobre os processos
de sociabilidade carioca.
Terra do seja bem vindo,
lugar de acolhimento fraterno do estrangeiro, espaço de tolerância,
mas nem tanto e nem para todos indistintamente. O imigrante fundou colônia,
é certo, mas não foi sem derrubar algumas barreiras
do Brasil Republicano. Contraditoriamente o estrangeiro poderia trazer
idéias “progressistas” e civilizatórias, mas também
ideologias perigosas para a estrutura da República em formação.
O positivismo serviria de base para o desenvolvimento técnico e
científico, mas aportavam, também oriundas da Europa, idéias
políticas não tão bem vindas. Se por um lado havia
o incentivo à vinda do estrangeiro para servir de mão de
obra operária, por outro bastava uma solicitação do
chefe da polícia para Floriano Peixoto assinar um decreto presidencial
para expulsar os “estrangeiros indesejáveis”. Desta forma, foram
expulsos 76 estrangeiros, sendo que 36 por crimes políticos e 19
por anarquismo.
José Murilo de Carvalho
olhando a República no nível das mentalidades localiza a
sensação geral de libertação, principalmente
no que se refere a padrões de honestidade. Deu-se uma “vitória
do espírito do capitalismo desacompanhado da ética protestante”
(Carvalho, 2000: 26). A ação moralista surge ainda no governo
de Floriano Peixoto, considerado o Marechal de Ferro, com a repressão
ao jogo e com a tentativa de acabar com o entrudo. Porém, essa atitude
não fez com que desaparecessem da cena carioca o “jogo dos bichos”.
O enriquecimento sem esforço integra-se ao imaginário da
construção da cidade do Rio de Janeiro. Um lugar de jogo
de sorte. Somos um lugar de liberdade e de sorte.
O contraste entre o aparato
urbano oficial e a concretude da sociabilidade cotidiana ficou evidente
com a posse do prefeito Pereira Passos. Todos os elementos que o prefeito
não queria que transparecessem estavam lá. Não poderiam
ser esquecidos. Já tínhamos sido colônia e as vielas
e cortiços estavam lá para provar.
Dentro do plano de melhoramentos
da Capital da República, no governo do Presidente Rodrigues Alves,
foi nomeado o engenheiro Francisco Pereira Passos, para Prefeito do Rio
de Janeiro, que tomou posse em 30 de dezembro de 1902. “O Sr. Dr. Passos,
depois de ouvir a declaração de que o governo nelle deposita
a mais absoluta confiança, respondeu que só naquellas condições,
com liberdade de agir como entendesse, tinha aceitado a nomeação
do cargo de prefeito.”
Já bem no começo
do exercício de seu cargo, Pereira Passos, toma atitudes rígidas
e usa de toda liberdade de agir oferecida pelo Presidente da República.
Proíbe ambulantes que vendiam leite em cima de vacas que circulassem,
reprimiu o uso de “carrinhos de mão” no calçamento, decretou
a demolição de aproximadamente 1.040 prédios para
o alargamento de ruas, dentro de um grande plano de remodelação
da cidade que continha ainda a criação de uma Avenida Central
para se comunicar o centro comercial com o cais do porto, como também
o projeto de uma Avenida que contornasse o litoral, terminando no fim da
Praia de Botafogo.
Multiplicam-se, nas seções
“a pedido” da imprensa, protestos de advogados e proprietários de
prédios contra as desapropriações e as prepotências
da Prefeitura, que demole prédios antes da emissão na posse,
e condena injustamente outras edificações por “ruína
eminente”. A população pobre não tinha voz na prefeitura
de Passos. Os cortiços e estalagens continuam sendo demolidos rapidamente
no centro da cidade e os pobres levados para a periferia. Os jornais, por
sua vez, em resposta, publicavam charges numa tentativa de criticar as
atitudes do Prefeito.
Sob o título de “Nero
pelo avesso” o jornal O Malho publicou uma charge onde a figura do
prefeito Pereira Passos foi posta em situação ridícula
falando do alto de um telhado para a população inundada pelas
fortes chuvas. Cenograficamente já estava acentuada a diferença
entre a miséria e a opulência. A polissemia de valores e a
heteroglossia cultural estavam marcadas nas páginas dos jornais
da época.
As demolições
que avançam em ritmo acelerado, “apesar das polêmicas dos
processos, dos vários escândalos que desgastavam a imagem
de muitos protagonistas, primeiro entre eles o Prefeito Pereira Passos”
(Brenna, 1985) juntamente com as casas que desabavam em conseqüências
das chuvas e das repetidas inundações vai transformar o ano
de 1906 no “ano dos desastres”, denominado assim por Giovanna Rosso Del
Brenna, pesquisadora que procurou reconstruir a representação
da transformação física da capital federal do começo
do século XX.
O mito da engenharia nacional
desaba em 1906, como também o prédio do Clube de Engenharia.
Os sonhos de uma cidade bela e desenvolvida, longe da imagem e da memória
de uma colônia, vão desabando. Fica evidente a insatisfação
da população frente ao plano de “embellezamento”. O “ano
dos desastres” é vivido pelo povo de maneira sofrida, como descrita
pelo Correio da Manhã:
O Rio de Janeiro moderniza-se,
faz-se elegante, airoso. Por todos os ângulos da cidade rasgam-se
avenidas, rectificam-se ruas e nellas vem brotando, como uma floração
que deleita a vista, soberba edificações sólidas,
arejadas e encantadoras nas suas linhas architectonicas. [...] Mas a esse
eco clangloroso do progresso, quanto soluço não responde,
quanta amargura não contrasta, quanta tristeza, quanta tortura...”
De fato a reestruturação
urbana não mexeu só na forma da cidade, mas também
na sua organização social e cultural desencadeando uma série
de fenômenos que assumem sua própria dimensão e intensidade.
Os homens do poder preferiram antecipar a modernidade dos hábitos
no lugar do desenvolvimento da produção propriamente dita.
O lugar do popular e da
cultura comunitária
Para Roger Chartier (1995)
o termo popular é forjado na elite intelectual. O popular, idealizado
academicamente, seria culturalmente estagnado, ameaçado de desaparecimento
ou reprimido. Todos os elementos que foram criados fora da cultura erudita
estariam fadados a um destino manipulável ou determinado por uma
elite. O popular seria recuperado ou extinto, mas sempre manipulado.
Pode-se acompanhar o pensamento
de Chatier quando ele nota que em “nossa” produção acadêmica
estão sempre presentes duas visões empobrecidas, para se
interpretar o aspecto popular da cultura: de um lado um modelo de descrição
tendo a cultura popular com seu sistema simbólico coerente e autônomo
e, de outro, o modelo de interpretação que percebe a cultura
popular como carente ou dependente da “cultura dominante”. As possibilidades
de intercâmbios entre culturas não se mostram nem evidentes,
nem tampouco possíveis em vários períodos históricos.
Esta perspectiva dual na
produção acadêmica apresentada por Chartier é
oriunda da história de uma Europa do século XVII. A história
das mentalidades nos aponta para uma possível separação
de hábitos e visões de mundo que desqualificariam, nas produções
intelectuais, a cultura popular. É possível ainda ver essa
desqualificação da cultura camponesa, tradicional ou popular
na França entre 1870 e 1914, período que se pode considerar
de construção da cultura nacional e Republicana. Um outro
fator também pode ser chamado para atestar o óbito da cultura
popular: a cultura de massa que surge para eliminar de vez com os elementos
da cultura popular. Porém, o autor nos coloca que a recepção
pode ser “resistente, matreira ou rebelde”. Esse dado levantado por Chartier
é de extrema importância para a nossa reflexão que
aponta para as resistências que estão contidas na nossa cultura
popular, urbana, carioca. A “moléstia de Chagas” não eliminou
nem por decreto os ambulantes, os desempregados, os malandros que circulavam
entre o legítimo e o ilegítimo em nossas vielas. Hoje, esses
personagens, que resistiram as grandes transformações urbanas
e “civilizatórias”, ainda circulam pela cidade e além disso
usam de maneira irrestrita todo um arsenal da tecnologia da informação
para divulgar suas resignificações aos fatos ocorridos na
cidade.
Maria José Canelo
(2003) nos ajuda a encontrar a origem de uma visão crítica
que possibilita falar da participação ativa do povo na vida
cultural da sua cidade. A autora vai localizar, na década de 30
nos Estados Unidos da América, nas idéias de Carey McWilliams,
o germe do nascimento da cidadania cultural.
Maria José Canelo
trabalha com as idéias críticas em relação
às “políticas culturais e raciais que construíam a
nação americana na base da exclusão de determinados
grupos étnicos (i)migrantes.” (p.11). A autora teve como proposta,
inspirada na teoria crítica de Carey McWillliams, a de incorporar
à categoria cidadania a noção de diferença.
O argumento clássico
que sustenta a definição da cidadania como uma categoria
generalista defende que, justamente por ser geral, a cidadania se afasta
do interesse próprio e se aproxima do bem comum. De acordo com este
ponto de vista, a inserção de aspectos de diferenciação
ou particularização ameaça os valores universais e
imparciais que lhe estão associados.[... ]Por um lado, é
uma contradição tratar de forma homogênea grupos com
histórias tão diversas como o são, em particular,
as comunidades de migrantes.
A autora trabalha especificamente
com a questão do imigrante na Califórnia, porém suas
reflexões nos são preciosas na medida que nos impulsionam
a pensar sobre a pluralidade de narrativas que constituem um território.
As “formas de vida cotidianas” serão recuperadas para se compreender
as formas de participação diária nas atividades sociais
em relação à história instituída pelo
Estado.
À idéia do
povo com uma recepção matreira, resistente ou rebelde levantada
por Chartier pode-se associar a importância da categoria diferença
para constituir a cidadania cultural privilegiando, desta forma, as diversas
falas que compõem as histórias da cidade.
Com George Yúdice
(2004) apreendemos como o povo pode usar e abusar de sua cultura comunitária
para negociar espaço de fala na cidade contemporânea. A cultura
para o autor pode ser usada como recurso, como reserva disponível,
para a melhoria sociopolítica e econômica. Hoje, no século
XXI, assistimos arte e cultura serem usadas para melhorar as condições
sociais. No panorama da cultura contemporânea trabalha-se a cidadania
fundada na participação ativa da população.
O autor busca também
na noção de cidadania cultural, noção criada
por Renato Rosaldo no final dos anos 1980, apoio para falar de direitos
culturais não jurisdicionados. A aplicabilidade do universal nas
questões relativas à cultura é um problema pertinente
ao trabalho de Yúdice que também atravessa os nossos questionamentos
em relação às questões levantadas aqui, neste
texto. Pode-se pensar em cidadania cultural para afirmar uma cultura vivida
em grupo e apoiada em aspectos que, um dia, serviram de motivação
para a exclusão de sua participação nas esferas públicas.
A idéia de Yúdice, da qual compartilhamos interesse é
que a diferença servirá como apoio para multiplicar recursos
e conferir direitos à comunidade. Assim, afirmamos que o povo que
um dia foi visto como “bestializado” se torna orgulhoso e participante
ativo na construções das diversas imagens da cidade do Rio
de Janeiro.
NOTAS
Doutor em Sociologia pela Sorbonne - ParisV, Mestre pela Escola de Comunicação
da UFRJ. É Editor da Revista Logos e da Revista
Contemporânea
Em
1890 28,7 % da população tinha nascido no exterior e 26%
vinha de outras partes do país.
Com
apenas 45% da população nascida da cidade era impressionante
a circulação de gente e línguas, com novos hábitos
e estilos de vidas diversos.
Ver
Maia, João. Os agentes comunicacionais da Mangueira: fluxos e movimentos
culturais. 
Trabalho
enviado para o NP 12 - Comunicação para a Cidadania, do XXVII
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2004.
O
título do artigo de Silviano Santiago é o mesmo de um capítulo
do livro Minha Formação, de Joaquim Nabuco.
O
primeiro decreto assinado foi de 14 de agosto de 1893.
Correio
da Manhã. 31 de dezembro de 1902.
Correio
da Manhã em 25/03/1906.
O
artigo do Roger Chartier pode ser encontrado no sítio: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/173pdf
Referências Bibliográficas
BRENNA,
Giovanna Rosso Del (org). O Rio de Janeiro de Pereira Passos. Uma
cidade em Questão II. Rio de Janeiro. PUC, 1985.
BURKE,
Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo:
Companhia das Letras, 1989.
CANELO,
Maria José. Carey McWilliams e a idéia da cidadania
cultural nos anos 40 e 50. Centro de Estudos Sociais. Laboratório
Associado. Faculdade de Economia. Universidade de Coimbra. www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/oficina/199/199.php
CARVALHO,
José Murilo de. Os bestializados. O Rio de Janeiro
e a República que não foi. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987.
CHARTIER,
Roger. "Cultura Popular": Revisitando um conceito historiográfico.
Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, Vol 8, n. 16, 1995.
COSTA,
Ângela Marques da e SCHWARCZ, Lilia Moritz. 1890-1914: no tempo
das certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
DOSSE,
François. A História em migalhas: dos Annales à
Nova História. Bauru,SP: EDUSC,2003.
GOMES,
Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência
urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MOTTA,
Marly. Rio, cidade-capital. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
2004.
NABUCO,
Joaquim. Minha Formação. São Paulo:
Martin Claret, 2004.
SANTIAGO,
Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária
e crítica cultural. Belo Horizonte; Editora UFMG, 2004.
SCHWARCZ,
Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos
trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
YÚDICE,
George. A conveniência da cultura: usos da cultura na era global.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004