Introdução
Corpos desenhados, pintados,
tatuados; implantes subcutâneos; perfurações por jóias
de tamanhos variados, cores e formas, em pontos diversos da silhueta; desenhos
feitos a partir de incisões, queimaduras, cortes; membros e partes
do corpo “mutilados”; corpos suspensos por ganchos fincados na pele...as
possibilidades são múltiplas e as combinações
parecem infindáveis. Realizadas em estúdios de body piercing
espalhados pelas grandes cidades, em convenções de tatuagem
e em boates, bares ou casas noturnas, tais práticas se inserem na
chamada Body Modification.
“O termo ‘body
modification’ se refere a uma longa lista de práticas que incluem
o piercing, a tatuagem, o branding, o cutting, as amarrações
e inserções de implantes para alterar a aparência e
a forma do corpo. A lista dessas práticas poderia ser estendida
para incluir a ginástica, o bodybuilding, a anorexia e o jejum –
formas pelas quais a superfície corporal não é diretamente
desenhada e alterada por meio de instrumentos que cortem, perfurem ou amarrem.
Nessas práticas, o corpo externo é transformado por meio
de uma variedade de exercícios e regimes alimentares, que constituem
processos mais lentos, com efeitos externos, tais como o ganho ou a perda
de massa, gordura ou músculos, que só se tornam observáveis
após longos períodos de tempo (...) Adicionalmente, devemos
considerar os modos pelos quais o corpo é modificado pelo uso de
formas variadas de próteses e sistemas tecnológicos”
(Featherstone, 1999: 01).
Esta é uma definição
inclusiva, que serve como ponto de partida para se pensar em na modificação
corporal num sentido amplo. Mesmo tendo em mente as diferenças entre
as cirurgias plásticas e estéticas (que visariam tornar os
corpos semelhantes, a partir de um padrão de beleza estabelecido,
dentre outros fatores, pela moda), a problemática dos ciborgues
(híbridos homem/máquina) e as modificações
corporais (que visariam transformar os corpos em silhuetas “únicas”),
não se pode negar que os avanços crescentes na medicina e
nas chamadas tecnologias do corpo afetam a vários tipos de intervenção
corporal. Os corpos são reconstruídos, remodelados e ressignificados
de diversas formas e com os mais variados propósitos estéticos,
funcionais, sexuais. Porém, os focos de minha pesquisa são
as tatuagens, piercings, implantes subcutâneos, cortes, queimaduras,
escarificações e suspensões realizadas em grandes
centros urbanos, práticas que visam à transformação
da silhueta que poderíamos, seguindo Klesse, enquadrar (ao menos
provisoriamente) na categoria de body modification “não-mainstream”
(Klesse, 1999). Segundo ele, “tatuagem, piercings
múltiplos, branding , cutting e escarificações
são algumas das mais radicais, permanentes modificações
corporais nesse contexto” (ibid.: 15).
Dentro da body modification
“não-mainstream”, haveria aquelas práticas que poderíamos
chamar de extreme ou hard. São os piercings em locais menos comuns,
especialmente nos genitais, piercings alargados, como os alargadores de
orelha (geralmente no lóbulo), escarificações (marcas
feitas a partir de queimaduras ou cortes), implantes subcutâneos,
bem como os ditos rituais de suspensão.
Em sua pesquisa com adeptos,
praticantes e entusiastas de tatuagens e piercings nos EUA, Paul Sweetmann
mostra essa divisão entre o que é ou não considerado
‘extremo’.
"Alguns entrevistados
distinguiram entre os piercings mais populares - de sobrancelhas, de umbigo,
por exemplo - e aqueles que poderíamos considerar mais "extremos"
ou "hardcore". A categoria "extremo" tende a incluir tanto o piercing genital
e outras formas de piercings aumentados/alargados (stretch), o primeiro
graças a sua localização, o segundo por causa tanto
do grau de comprometimento para aquisição de um piercing
alargado e quanto da permanência relativa da modificação
desse modo adquirida" (Sweetmann, 1999: pp.
60-61, tradução minha).
Em campo , percebi essa divisão
de diversas maneiras. Muitas pessoas com quem conversei colocaram que há
uma divisão entre tatuagens e piercings ‘convencionais’ e as práticas
mais ‘extremas’. Em agosto do ano passado, por exemplo, conversei no Pulgueiro
com a (então) esposa de um famoso body piercer de São
Paulo. Uma das coisas interessantes sobre as quais ela me falou foi sobre
o que seria ou não body modification. Para ela, quem “faz”
modificações corporais (quem é adepto/a) acha que
a tatuagem não é mais parte desse universo. Ela até
afirmou que “tatuagem já é commodity”. As modificações
mesmo seriam as “radicais”. Conversando com adeptos/as, percebi que a nomenclatura
extreme para se referir ás práticas menos comuns
dentro do vasto universo da body modification funciona – o extreme
seria o não-convencional, o hardcore, o “pesado”. As tatuagens
até entrariam nessa categoria, mas apenas nos casos de pessoas que
possuem um número grande de tatuagens – de preferência, junto
com outras modificações, como alargadores de septo, de orelha,
escarificações, implantes.
Há
poucos profissionais, em São Paulo, que trabalham com a extreme
body modification. Percebi isso em campo pela primeira vez quando conversava
com um proprietário de um estúdio de tatuagem e piercing
“convencional”, localizado na Galeria Presidente, no centro de São
Paulo (ao lado da famosa Galeria do Rock). Ele, que é um dos principais
interlocutores dessa pesquisa, me indicou os dois principais nomes (segundo
ele, precursores) da extreme body modification na cidade. Conversei
ainda com um tatuador de um estúdio também “convencional”
na Galeria do Rock. Ele me disse que poucos profissionais do ramo operam
com as práticas mais extremas, porque “não dá dinheiro”.
A procura é pouca, comparada com a de piercings e tatuagens. “O
tatuador precisa viver”, afirmou. Tanto que, quem realiza as práticas
extremas, também faz as convencionais – para sobreviver. Implantes,
escarificações, amputações, piercings genitais
e alargadores, bifurcações de língua e penianas, suspensões.
Essas foram as práticas apontadas como as que compõem a
extreme body modification. Para o irmão de um dos mais conhecidos
body piercers de São Paulo (que trabalha em seu estúdio,
na Galeria Ouro Fino, nos Jardins), com quem conversei certa vez,
extreme body modification seriam práticas de “subversão”.
O ideal de criar uma estética alternativa, de afirmar a diferença
ou de chocar pela aparência (discursos presentes nesse universo)
se fariam presentes muito mais por meio das práticas “extremas”
do que pelas convencionais. A opção por modificações
extremas por causa da vontade de ser diferente aparece nas falas de alguns/algumas
entrevistados/as. Um exemplo: O estúdio de um de meus principais
interlocutores de pesquisa ficava numa loja de roupas que à noite
virava um lounge, na rua Augusta. Trata-se de uma franquia de uma rede
internacional. No Brasil resolveram incrementar o espaço com um
estúdio de piercing no meio da loja. Certa vez, conversei com um
amigo dele, que estava de passagem. Segundo ele, a tatuagem e o piercing
viraram algo “comum”. Mas até uns cinco anos atrás não
o eram. Ele buscou essas práticas por vontade de “ser diferente”,
e alargou as orelhas. Tinha alargadores de 20 mm nas orelhas. E sentia
prazer em ser diferente, num momento em que quase ninguém tinha
as orelhas alargadas. Depois de um tempo, percebeu que muita gente já
tinha alargadores, então resolveu tirar. Ficou um tempo sem nada
nas orelhas, e os buracos foram encolhendo. Cerca de um mês antes
de conversarmos, ele disse que se sentia “incompleto”, como se lhe faltasse
algo. Por isso, resolveu colocar os alargadores novamente – mas dessa vez,
apenas 16 mm, “para não ficar tão exagerado”. O prazer, para
ele, reside em ter “algo legal” em seu corpo, algo que o diferencie. Desse
modo, tatuagens e piercings já teriam virado, nos termos das pessoas
com as quais mantive contatos, ‘mercado’, ‘moda’, ganhando um espaço
fora do universo da body modification propriamente dita. Além disso,
seriam o meio de ‘sobrevivência’ de um profissional da área.
A extreme body modification seria constituída por práticas
menos comuns, mais ‘radicais’.
De acordo com Beatriz Pires,
durante a primeira metade do século XX, os acessórios tidos
como fetichistas, antes clandestinos, começam a ganhar espaço
na moda (Pires, 2001). Ao longo do século
passado, o corpo “massacrado” (op. cit.) aparece representado em performances
artísticas de diversas formas. Nos anos 60, o corpo se torna um
espaço de “reterritorização” – é o tempo
da contracultura, da revolução sexual, do ideal de sociedade
alternativa, além da invasão de elementos fetichistas na
moda de forma clara e aberta (ibid.). As experiências do chamado
“expressionismo abstrato” de Pollock (1912-1956), com sua Action Painting,
quando as telas eram executadas diante de uma platéia, fazem das
artes visuais – como já o eram as artes cênicas – um evento.
Dessas experiências,
nasce a Body Art, “onde o artista se coloca como obra viva, usando
o corpo como instrumento, destacando sua ligação com o público
e a relação tempo-espaço” (Pires,
op. cit.: 74). Na Body Art, o corpo está em evidência:
várias correntes diferentes buscam sensibilizar os indivíduos
em relação a seus corpos. A idéia geral era a de expor
e potencializar o corpo, fazendo dele um instrumento do homem (o que era
chamado pelos artistas de “desfetichização” do corpo). Nas
performances, os artistas trabalhavam artisticamente ora as atividades
cotidianas, ora processos biológicos tais como digestão e
excreção, ressaltando-se a relação com o prazer,
com a dor, muitas vezes provocando propositadamente sentimentos de aversão
e repulsa em quem os assistia (op. cit.).
A Body Modification
começa a ser praticada no final da década e nasce desse movimento
estético, que utiliza o corpo como suporte da arte. Nela,
Os espaços
e as formas criadas para identificar e referenciar o indivíduo,
já não são apenas externos a ele, e sim inseridos
nele. Formas; texturas; cores; membros e partes do corpo amputados, divididos,
alterados; elementos novos – compostos de materiais distintos – acrescentados,
introduzidos, incorporados. O que era conhecido, reconhecido, semelhante
e esperado torna-se diverso e surpreendente (Ibid.: 20)
Porém, na Body
Modification a relação do artista com o corpo difere
daquela que é estabelecida nas Performances e na Body
Art. Aqui, não há distinção entre o artista
e a obra, entre o sujeito criador e o objeto criado. “O sujeito é
o objeto e não deixará de ser, independente do tempo e do
espaço que se encontre” (ibid.: 162). Além disso, o tempo
da exposição deixa de ser delimitado, sendo constituído
pelo tempo de vida do indivíduo transformado, e o local de exibição
não é mais demarcado, sendo todos os espaços por onde
ele circula.
A divulgação
e abertura da Body Modification para o público não-artístico
começam a se dar a partir da década de 70, nos Estados Unidos.
Essa década assiste ao surgimento dos Punks, que redimensionam dimensões
corporais por meio de atitudes agressivas, penteados esculturais e elementos
fetichistas, preparando a chegada da estética do piercing e dos
implantes (ibid.).
A
Body Modification surge pelo encontro, no início dos anos
70, de alguns adeptos que, juntos, trabalharam no sentido de divulgar as
suas técnicas para o grande público. Fakir Musafar
foi o criador do termo Modern Primitives, que passou a nominalizar
os adeptos de tais práticas. Ele se juntou a Jim Ward e Doug Malloy
para atrair mais adeptos e curiosos. Os Modern Primitives
(ou Primitivos Modernos) buscavam uma aproximação ideal,
simbólica e prática com técnicas supostamente pertencentes
a sociedades que diziam ser tradicionais ou “pré-letradas”. A referência
a um primitivismo idealizado romanticamente lhes servia – e continua servindo
a muitos dos adeptos da Body Modification – de substrato para dar
sentido e legitimidade a suas práticas.
Segundo Klesse,
“os ‘Primitivos Modernos’(Modern Primitives) são um movimento
subcultural na intersecção entre a tatuagem, o piercing e
a cena sado-masoquista” (op. cit.: 15). Ele cita Fakir Musafar, que
em um dos números de sua revista Body Play and Modern Primitives
Quarterly (BP&MPQ) afirma que “o termo ‘Primitivos Modernos’
se aplica a pessoas que ‘respondem a impulsos primitivos’ para fazer ‘algo’
com seus corpos” (Ibid.: ibid.).
“Uma das características
mais significativas do movimento dos Primitivos Modernos é sua apropriação
dos ‘rituais primitivos’. Em sua busca por experiências corporais,
psíquicas e espirituais radicais e em suas performances de eventos
e encontros sexuais, os Primitivos Modernos buscam inspiração
nas chamadas ‘sociedades primitivas’ por meio da adoção de
seus ritos comunais e técnicas de modificação corporal”
(ibid.: 17).
Nesse ponto, cabe chamar
a atenção para a discursividade “libertária” presente
nesse campo. Em linhas gerais, pode-se dizer que há no terreno da
body modification não-mainstream ou “extrema” um discurso
“contracultural”, de negação de supostos valores das sociedades
“ocidentais” e dos ideais da modernidade. Os Primitivos Modernos buscariam
escapar das concepções ocidentais de beleza, de estética
e dos padrões ditados pela moda. O ponto que nos interessa é
discutir se essa busca pode ser interpretada como um movimento libertário,
potencializador da liberdade individual. De acordo com Featherstone, comum
a muitas das perspectivas acerca da body modification é a noção
de ter “o controle sobre o próprio corpo, de agir contra o corpo
natural e contra a tirania da formação do hábito (habitus
formation)” (op.cit.: 02).
Na epígrafe de seu
artigo, Klesse traz uma interessante afirmação
de um dos adeptos das modificações corporais que ele denomina
não-mainstream: “Eu tomei partido, eu me escolhi. Eu sou parte
de uma cultura mas eu não acredito nela. Minhas modificações
corporais são meu modo de dizer isso”.
O que está presente
aqui é uma idéia de escolha – como se os adeptos da body
modification estivessem exercendo sua liberdade individual quanto a
seu próprio corpo ao escolherem contrariar os padrões estéticos
socialmente aceitos ou valorizados, da moda. Esse é um discurso
“libertador”, que enxerga nessas práticas um potencial crítico.
Como afirma Featherstone, “aqui nós
temos o sentido de controle sobre o próprio corpo, de que alguém
está de algum modo tomando posse sobre seu corpo, que daqui em diante
carregará um sinal visível de identidade” (op. cit.: 03).
O objetivo agora é
lançar sobre esse discurso um olhar antropológico, preocupado
com questões referentes à organização social.
O intuito será o de discutir algumas perspectivas teóricas
que nos permitiriam pensar a efetivação desse ideal e outras
que nos permitiriam confronta-lo. A discussão da potencialidade
libertária da body modification não-mainstream, quando
confrontada com constrangimentos de ordem social, como o gênero,
nos leva a pensar a respeito de questões amplas pertinentes à
teoria social, como a relação entre indivíduo e sociedade,
a questão da agência e do poder.
Projetos corporais...Individualismo?
A noção de
“incorporação” (tentativa de tradução do termo
em inglês embodiment) é inspirada pela fenomenologia pós-estruturalista
ou “pós-moderna”, que reclama o corpo enquanto “agente e experenciador”
(Csordas, 1996).
O intuito de Csordas
é o de nos apresentar um novo paradigma do corpo em antropologia,
por meio do qual busca problematizar as dualidades e dicotomizações,
tais como natureza x cultura. Além disso, procura escapar da idéia
do corpo enquanto um objeto onde a realidade social seria “inscrita” ou
“textualizada”. Segundo Csordas, o corpo está em crise. Não
se trata, evidentemente, aqui, de um corpo qualquer: o que está
em crise é a idéia de que existe um substrato biológico
e natural, que seria transformado no corpo socialmente circunscrito a partir
da intervenção da cultura.
Para a antropologia, entender
o corpo como o material biológico no qual a cultura opera tem o
efeito de excluir o corpo de uma participação primordial
ou original no domínio da cultura, fazendo do corpo, com efeito,
um substrato “pré-cultural” [...] Desse modo, a mente é sempre
um sujeito e o corpo um objeto, seja “nele mesmo” (“in itself”), seja porque
é “bom para pensar” (Csordas, op. cit: 08).
Csordas formula a idéia
de corpos sujeitos – e não objetos – de cultura. O foco aqui não
se volta para as representações simbólicas que tomam
o mundo enquanto realidade exterior aos corpos, mas para as práticas
e o “estar no mundo”. Acredito que a perspectiva da incorporação
desenhada por Csordas pode ser útil para minha análise, uma
vez que estou preocupado com práticas que, mais do que expressões
sociais em corpos inscritos, criariam e recriariam corpos. E, com eles,
instituiriam modos particulares de relação social. Os corpos,
na Body Modification, são tomados como telas vivas, abrindo
possibilidades interessantes para a investigação.
Para Paul
Sweetman, que realizou uma pesquisa de caráter qualitativo a
respeito das modificações corporais radicais, a atração
que essas práticas exercem sobre grande parte das pessoas se deve
ao seu caráter permanente e, ao menos a princípio, irreversível.
Para muitos de seus entrevistados, a body modification é atraente
porque resiste à superficialidade da cultura de consumo e ao ‘carnaval
de signos’. Ela é percebida como parte de um projeto corporal,
a construção de uma auto-identidade viável por meio
do corpo, algo visto como envolvendo um forte ‘compromisso consigo’ (Sweetman,
1999). A noção de “projeto corporal” foi lançada por
Giddens.e está ligada àquilo que o autor chama de “projeto
reflexivo do eu” (Giddens, 1993).
“De acordo com ele, a
modernidade tardia tem dissolvido a maioria dos sistemas tradicionais de
significado e ordem sociais de uma maneira sem precedentes. Como resultado,
os indivíduos se vêem forçados a se engajar de maneira
altamente reflexiva em tudo o que diz respeito à vida e seu significado.
Nesse contexto de ‘insegurança ontológica’, a auto-identidade
vem se tornando algo deliberado. Ela não emerge automaticamente
da posição social do indivíduo. Desse modo, as pessoas
estão engajadas numa reordenação permanente das narrativas
identitárias nas quais a preocupação/interesse (concern)
para com o corpo é central” (Klesse, op.cit.:
19).
Desse
modo, segundo Giddens, na modernidade radicalizada tardia nós somos
cada vez mais responsáveis pelo desenho de nosso próprio
corpo, um fenômeno que é entendido pelo autor como uma crescente
“individualização do corpo”. Nesse ponto, podemos remeter
às reflexões de Dumont a respeito do papel da noção
de indivíduo no pensamento ocidental. O indivíduo, como um
ser moral e racionalmente autônomo, “pré-social”, seria, de
sua perspectiva, o princípio fundador do pensamento ocidental moderno.
As ditas sociedades ocidentais, desse modo, seriam compostas pela livre
associação de seres autônomos, independentes, cuja
existência seria anterior ao social (Castro &
Araújo,1977). Essa noção do indivíduo e
do individualismo como princípio da sociedade moderna ocidental
é que está nas entrelinhas da idéia dos projetos corporais,
lançada por Giddens.
É tentador aplicar
essas idéias ao fenômeno das modificações corporais
não-mainstream e do primitivismo moderno, enfatizando o forte individualismo
dessas práticas. Ainda mais quando, em campo, nos deparamos com
falas como a de Cliff Diller, num depoimento à revista BP &MPQ:
“Eu sou uma pessoa
diferente agora, e eu sinto que em vários sentidos, eu não
sou um garoto comum na rua. Num sentido mais público, minhas tatuagens
afirmam essa diferença. Elas visualmente me colocam separado das
massas. Mesmo que tenham ganho popularidade nos últimos anos, tatuagens
desse tamanho nunca vão ser mainstream” (in Klesse,
op. Cit.: 20).
As afirmações
de Giddens estão inseridas dentro da matriz de pensamento denominada
por Foucault como a “hipótese repressiva”, segundo a qual corpos
e sexualidades passaram durante séculos por constrangimentos
sociais e morais, sendo o diferencial da modernidade (e, sobretudo, da
contemporaneidade) a potencialidade libertária de movimentos sociais
que buscam defender o direito individual de exercício da sexualidade
e de construção do corpo desejado. Nesse sentido, poderíamos
afirmar a body modification não-mainstream como parte desse processo.
Assim, constituiria um movimento “libertário”, na medida em que
negaria os padrões estéticos impostos pela moda, permitindo
a seus adeptos um uso livre de seus corpos e de seus prazeres. Se realmente
esse ideal se efetiva, marcadores sociais da diferença não
fariam sentido aqui. Não haveria hierarquizações nesse
universo, dentro do qual os indivíduos estariam livres para exercer
sua sexualidade e para tomarem conta de seus próprios corpos.
Mais uma vez, um olhar antropológico
deve buscar problematizações. Seguindo Foucault, seríamos
levados a desconfiar dessas afirmações (Foucault,
1977). O pensador francês critica a “hipótese repressiva”,
a partir de uma visão capilar do poder. Isso significa pensar o
poder não como um fenômeno coercitivo, mas como algo que está
imiscuído nas relações sociais, criando realidades.
Em sua crítica ferrenha, Foucault busca mostrar como movimentos
libertários são motores da substantivação,
dos constrangimentos sociais. Falar em libertação do
corpo com relação aos constrangimentos sociais é pensar
a possibilidade de um corpo pré-cultural, pré-discursivo,
pré-gramatical. Foucault nos ajuda a desconfiar dessa possibilidade,
ao pensar a corporalidade como um fenômeno social, histórica
e contextualmente datado. Nesse sentido, a busca por se contrapor ao status
quo presente nas práticas que se querem enquanto revolucionárias
ou “contra-culturais”, como a body modification não-maistream, pode
não ser interpretada como a expressão da liberdade individual,
uma vez que se corre o risco de se estar criando uma categoria – no caso,
a dos adeptos da body modification – que é tão controladora
e cerceadora quanto a “sociedade ocidental” ou a moda. Nesse sentido,
torna-se especialmente interessante um olhar atento aos marcadores sociais
de diferença e hierarquização que podem estar sendo
acionados nesse universo.
Estilo...Organização
Social
No seu clássico a
respeito das técnicas corporais, Marcel Mauss
nos ensina que o corpo deve ser pensado a um só tempo enquanto ferramenta,
agente e objeto: ele é ao mesmo tempo a ferramenta original com
que os humanos moldam o seu mundo e a substância original a partir
da qual o mundo humano é moldado. (Mauss, 1974). Assim, para ele,
toda a expressão corporal é apreendida, tendo em mente a
sua preocupação em demonstrar a interdependência entre
o que chama de domínio físico, psicossocial e social. A sua
principal contribuição talvez seja a demonstração
de que o corpo humano nunca pode ser encontrado num suposto “estado natural”,
uma vez que aborda os modos como o corpo é a matéria prima
que a cultura molda e inscreve de modo a criar diferenças sociais.
Nessa antropologia, que se inicia em Mauss e encontra eco em Mary Douglas
(1976) ou mesmo em Pierre Clastres (1990), o corpo
é pensado na sua relação estreita com os processos
sociais, seja no sentido de seus condicionantes estruturais ou ainda na
expressão de suas mudanças ou rupturas – “a cultura cresce
no corpo humano” (Csordas, op. cit.: 06). Tomemos,
por exemplo, a afirmação de Clastres, de que, no ritual iniciatório,
a sociedade imprime sua marca no corpo dos jovens, ou de que, nos rituais,
a sociedade dita sua lei a seus membros, inscrevendo o texto da lei sobre
a superfície dos corpos (Clastres, op.cit.,
grifo meu). Sendo clássicas, tais perspectivas inegavelmente são
ainda muito vigorosas para as pesquisas sobre os corpos. Os adeptos da
Body Modification constituem um grupo urbano, estabelecendo formas de interação
e sociabilidade específicas. As práticas aqui ganham os contornos
de técnicas corporais aprendidas tanto por aqueles que as realizam
nos outros quanto por aqueles que têm o seu corpo modificado.
Os corpos, aqui, mesmo que não os pensemos enquanto socialmente
inscritos, em termos abrangentes, estão sujeitos às regras
desse campo específico.
Segundo Helena Abramo (1994),
os “movimentos urbanos” juvenis, como os punks, que aparecem a partir dos
anos 80, conectam, ao mesmo tempo, estilos musicais e modos “espetaculares”
de aparecimento. Tendo a música como o elemento centralizador
de suas atividades, os modos de vestir, a expressão facial, a postura
do corpo e os gestos investiriam na construção de um estilo
“sinalizador de sua localização e visão de mundo”
(ibid.: 46). Essa perspectiva pode ser interessante para pensar a body
modification não-mainstream. A formação de uma categoria
identitária, aqui, pode implicar em condutas, expressões,
posturas, gestos e idéias valorizadas e desvalorizadas, apropriações
e ressignificações de bens simbólicos vários,
que demarcam quem faz e quem não faz parte do grupo, construindo
um estilo próprio e substantivado.
Para Klesse, o ato “individual”
de receber uma tatuagem ou um piercing tem também o sentido de “criação
de coletividade”. O autor cita a fala de “Princesa Cruise”, em depoimento
para a revista BP & MPQ:
“Entre as pessoas
que amo e respeito, cuja visão de mundo eu compartilho de maneira
fundamental, tantas têm-se cortado, colorido, esticado (stretched),
comprimido, decorado e modificado seus corpos de tantas outras maneiras
que eu quis fazer isso também. Eu quero ser como elas: quero que
elas saibam quando me virem num espaço abarrotado de gente que eu
me associo a elas; ...que nós somos...família” (op. cit.:
22).
Uma das questões que
ficam é se podemos falar em individualismo exacerbado e em liberdade
individual quando lidamos com um processo de constituição
identitária que, como tal, se faz mediante a conjugação
de um estilo de vida ou de um modelo de sociabilidade e/ou comportamento
que, no limite, é um constrangimento de ordem ‘social’.
Primitivos Modernos
Como apontado, o argumento
do individualismo tem sido usado para marcar a profunda diferença
entre as modernas práticas ocidentais de modificações
corporais e os seus modelos tradicionais ou ‘primitivos’ precedentes. O
individualismo é utilizado aqui como retórica de legitimação
de uma diferença entre os Primitivos Modernos e os primitivos “autênticos”.
No limite, como distinção entre Ocidente e Oriente ou entre
primitivismo e modernidade.
Para Klesse, o Primitivismo
Moderno está ligado a um revival do tribalismo. O autor cita um
trabalho de Virginia Eubanks, para quem a adoção, pelos ‘Primitivos
Modernos’, de formas rituais de modificação corporal demonstra
‘uma desconsideração desrespeitosa da história e do
contexto dos símbolos e práticas envolvidas’. A rejeição
pelos “Primitivos Modernos” da sociedade moderna se apresenta por si só
como um compromisso com a liberdade sexual e a expressão corporal,
codificada numa busca ingênua pelo ‘primitivo autêntico’, um
conceito profundamente essencialista.
“É pela
reprodução deste ‘discurso primitivista’, embora num significado
positivo e com intenção afirmativa, que o Primitivismo Moderno
se associa com uma tradição que tem um importante papel na
justificação da regra e subordinação coloniais.
Conseqüentemente, o Primitivismo Moderno reproduz todos os estereótipos
generificados inerentemente repressivos em pessoas racializadas e em sua
sexualidade. Isso descreve as limitações se um movimento
que se auto-declara como radical, cujos membros se percebem como oponentes
radicais da modernidade ocidental” (op. cit.:
18).

De uma perspectiva antropológica,
isso envolve uma variedade de problemas, como a reafirmação
do dualismo tradicional do pensamento ocidental (eu/outro; macho/fêmea;
natureza/cultura).
“A desconstrução
necessária do ‘primitivismo’ deve implicar em uma desconstrução
da maioria de nossas concepções de modernidade, porque um
conceito está ligado ao outro. Isso também teria implicações
para as teorias contemporâneas a respeito do corpo e das modificações
corporais, que tendem a reproduzir uma justaposição entre
a modernidade (que é assumida como sendo o Ocidente) e o tradicionalismo
(imaginado como o não-Ocidente) em suas análises históricas”
(Klesse, op. cit.: 35).
De acordo com Klesse, muitos
Primitivos Modernos falam sobre ser fortemente impressionados por materiais
etnográficos. Velhos filmes, fotografias, como por exemplo as de
volumes antigos da National Geographic, são utilizados como fonte
de inspiração e estimulação para suas performances.
Em campo, conversei algumas vezes com um performer adepto da Body Modification,
proprietário de um estúdio de tatuagem em Campinas. Ele demonstra
uma verdadeira adoração pelos índios brasileiros,
em suas tentativas de recriar seus rituais, danças, pinturas e marcas
corporais.
“É a reprodução
não-crítica da maioria das assunções históricas
e filosóficas do ‘discurso primitivista’ como surgiram nos séculos
XVIII e XIX, ao invés de seu universalismo humanista, que rende
ao Primitivismo Moderno sua ideologia mais problemática” (Klesse,op.cit.:
31).
A questão que me coloco
é se a reprodução do estereótipo do “primitivo”,
fundamental para a constituição do “eu” e do “outro” ocidentais
(cuja formulação se dá numa matriz dicotômica)
não abre um perigoso precedente para a reprodução
de estereótipos de gênero e raça, no universo da Body
Modification.
Diferenças
Em
Paula Almeida (2001), encontramos a definição
de gênero enquanto uma categoria descritiva. O gênero seria
um dos tipos das categorias de diferenciação, contextuais
e particulares, criadas a partir da imagética sexual, assumindo
conteúdos diferentes em contextos diversos. A autora utiliza a noção
de gênero a partir da definição de Strathern. Assim,
a importância de se analisar o gênero residiria no fato de
que as relações sociais se dão por meio dessas categorias
de diferenciação. Em Strathern, encontramos o
gênero como demarcador de diferentes tipos de agência. A imagética
de gênero diferenciaria tipos diversos de socialidade (Strathern,
1988). Para a autora, um dos principais avanços da antropologia
feminista é o de possibilitar ao investigador considerar como as
experiências individuais são moldadas por prescrições
culturais sobre o comportamento feminino e masculino (op. cit.: 69).
De acordo com Henrietta
Moore (1996), a antropologia feminista contribuiu para a antropologia
em geral de duas maneiras principais: em primeiro lugar, ao postular que
a o entendimento de todas as questões-chave da antropologia e das
ciências sociais deve partir da percepção correta das
relações de gênero. Isso significa pensar o gênero
como estruturante das relações sociais. Em segundo lugar,
ao deixar claro que as formas diversas de diferenciação e
hierarquização existentes na vida social – gênero,
classe, cultura, raça, história etc – sempre “se constroem,
se experimentam e se canalizam conjuntamente” (op. cit.: 227). Sendo as
formas de diferenciação múltiplas e simultâneas,
o desafio para os/as antropólogos/as é o de encontrar meios
de teorizar as intersecções entre essas diferenças,
cuja relevância nos processos sociais dependerá do contexto
histórico-social a que nos estejamos referindo.
Essa breve digressão
a respeito da categoria analítica gênero culmina com algumas
questões: se em sua ânsia de negar a estrutura ou a cultura
ocidentais os primitivos modernos estariam criando uma imagem essencializada
do “primitivo”, o que tem como conseqüência reproduzir um conceito
bipolar entre o eu e o outro (com isso, possibilitando que outras polaridades
se façam presentes), será que estereótipos marcadores
sociais de diferença e hierarquização, como os de
gênero, raça, classe e sexualidade não fazem sentido
nesse universo? Será que, em sua atuação, os primitivos
modernos não estariam criando ‘o’ primitivo, assim como o feminismo
e o movimento gay são acusados de durante muito tempo terem operado
com falsas categorias universalizantes, como ‘a’ mulher, ou “o” gay? Será
que estereótipos de gênero, classe e raça estão
ausentes do processo de constituição desse estilo juvenil
no Brasil, mais especificamente em São Paulo e Campinas? Se presentes,
como atuam? Essas são questões que inquietariam qualquer
antropólogo preocupado com a relação tensa entre a
agência e os constrangimentos sociais e cujas tentativas de resposta
necessitam de uma pesquisa etnográfica densa, de caráter
qualitativo.
Notas
Este
ensaio se baseia nas discussões e nos trabalhos de conclusão
dos cursos de mestrado "Parentesco e Organização Social",
ministrado pela professora Vanessa Lea, e "Antropologia e Estudos
de Gênero", ministrado pela professora Guita Debert, no primeiro
semestre de 2004, no IFCH/UNICAMP.
Os
chamados rituais de suspensão (body suspension) são
parte de shows alternativos realizados em boates ou em festas particulares,
nos quais um ou mais indivíduos são suspensos através
de anzóis que o perfuram e o sustentam.
Marcas adquiridas
por meio de queimaduras ou choques elétricos.
O
ato de cortar-se.
O
autor fala na emergência de práticas de modificações
corporais visíveis em muitas das sociedades ocidentais com um dos
"estilos contemporâneos subculturais". Os adeptos da body modification
não-mainstream constituiriam, dessa perspetiva, uma "subcultura",
definição que evoca uma potencialidade crítica ou
contrária ao mainstream.
O
trabalho de campo foi realizado entre janeiro e maio de 2005, principalmente
em São Paulo. Ao todo, realizei 8 entrevistas gravadas, a partir
de dois roteiros pré-estabelecidos. E conversei com muitas outras
pessoas, adeptas ou entusiastas dessas práticas. Pretendo, até
o final do mestrado, realizar entrevistas com mais duas pessoas destacadas
dentro desse universo. Com uma delas, já conversei algumas vezes,
mas ainda não foi possível marcar a entrevista.
Tratava-se da primeira edição de um evento organizado pelos
mesmos idealizadores do Mercado Mundo Mix. Foi um mega evento, uma feira
variada realizada num galpão no centro de São Paulo, reunindo
pessoas de diferentes "estilos" do vasto universo dito "alternativo": punks,
roqueiros, tatuados, perfurados, GLS etc.
Num
artigo do Cosmopolite de 1911 o body piercing aparece como um fetiche dos
mais procurados, ao lado do espartilho e do salto alto (Steele, 1997: 60).
Alguns
nomes: Günther Brus, Hermann Nitsch, Chris Burden, Gina Page.
Nascido
em Dakota em 1930 (onde dois terços das terras eram destinadas a
reservas indígenas), Musafar é hoje proprietário de
uma escola de transformações corporais na Califórnia
e proprietário da revista Body Play, editada trimestralmente e referência
no ramo. Jim Ward é hoje proprietário da Glauntlet - mais
conceituada loja de objetos para piercing - e da Revista PFIQ, igualmente
renomada, e Doug Malloy é um típico "milionário excêntrico"
norte-americano (Pires, op. cit.)
Alguns
nomes se destacam, como o "homem lagarto" americano Erik Sprague e a brasileira
Priscilla Davanzo, que vem sistematicamente transformando seu corpo no
intuito de se parecer com uma vaca.
Sabemos
que a apropriação de símbolos supostamente indígenas
ou primitivos por indivíduos ou grupos urbanos não é
um fenômeno recente, tendo suscitado uma série de estudos
de caráter etnográfico. A idéia comum é buscar
o sentido dessa incorporação nas sociedades cada vez mais
expostas aos efeitos da difusão da informação, da
necessidade de consumo e de um individualismo crescentemente hedonista.
A esse respeito, ver o trabalho de Beatriz Labate (2000).
Para
o autor, isso insere a body modification dentro de um movimento mais amplo,
característico da contemporaneidade e do que chama de "cultura de
consumo", dentro da qual "o corpo tem desde sempre sido apresentado como
um objeto pronto a ser transformado" (ibid.: ibid.)
A
"crise" do corpo abre, segundo o autor, para a possibilidade de se entender
o corpo como o lugar da subjetividade, o que constitui um desafio para
as teorias que colocam mente/sujeito/cultura em paralelo com corpo/objeto/biologia.
Csordas constrói sua proposta baseado em Merleau-Ponty, passando
pela análise crítica de uma série de autores, tais
como Anthony Giddens, Pierre Bourdieu, Terence Turner e Michel Foucault.
Aqui, sigo de perto as indicações de Miguel Vale de Almeida
(1996) Não tenho a pretensão aqui de dar conta de todos esses
autores. Segundo Almeida, Merleau-Ponty também está interessado
nos corpos agentes, que seriam as bases da subjetividade humana. É
daí que vem sua influência sobre o pensamento de Csordas,
com sua incorporação.
Tradução
minha.
No
pouco trabalho de campo que já realizei, sobretudo em Campinas,
ouvi algumas vezes de adeptos da body modification afirmações
que vão nesse sentido. Muitos se reportaram ao impacto que causam
nas pessoas ao andar na rua tendo boa parte do corpo tatuada, além
de jóias e perfurações de formas e tamanhos variados.
A
esse respeito, ver em Foucault (1979) as entrevistas "Não ao Sexo
Rei" e "Sobre a História da Sexualidade".
Esse
mesmo raciocínio permitiu a movimentos libertários como o
feminismo e o movimento gay uma auto-crítica, que os levou a questionar
a necessidade de imposição de uma categoria substantivada
como "a" mulher ou "o" gay. Para um bom balanço da relação
entre a crítica antropológica e o feminismo, ver Moore (1996).
Há
uma série de técnicas, aparatos e instrumentos que um tatuador
ou um piercer deve aprender a manejar corretamente.Quem é modificado
também recebe instruções múltiplas de como
manter e tratar seu corpo, que devem ser seguidas durante e após
a intervenção, para que esta tenha sucesso.
A
noção de estilo surgiu a partir das indagações
dos pesquisadores do Centre for Contemporary Cultural Studies, da Universidade
de Birmingham, interessados em subculturas juvenis "de classe" que conformariam
formas de resistência frente à cultura dominante. Mais do
que a relação entre os estilos e a indústria cultural,
que teriam sido o mote de boa parte desses estudos (Abramo, op. cit.),
nos interessa aqui, como faz a autora, reter a idéia de apropriação
e repropriação de elementos simbólicos presente na
noção de estilo.
Vale
chamar a atenção para a linguagem metafórica de parentesco
por meio da qual a entrevistada realiza essa associação.
A linguagem do parentesco euro-ocidental, na visão de Marylin Strathern,
cria gênero, cria realidades sociais segmentadas, hierarquizadas
(Strathern, 1995). Se meu entendimento das idéias da antropóloga
não está equivocado, essas hierarquizações
ganham realidade por meio da linguagem de parentesco. Desse modo, o uso
dessa linguagem como estratégia de formulação identitária,
nesse contexto, não é banal.
Daí
a noção de que as relações sociais são
"generificadas".
A necessidade de
se levar em conta a interconexão entre uma série de marcadores
da diferença na análise das relações sociais
é defendida por diversos/as autores/as contemporâneos/as.
A esse respeito, ver Scott (1995).
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