As duas faces do espelho - o reencontro da música negra
nas marés “caribenhas”: 
Os CD Ago! e  O Milagre do Candeal

Marcelo Nastari Milanez

Historiador e pesquisador do Instituto Moreira Salles

 


CD Ago! Cantos Sagrados de Brasil e Cuba 
Orquestra HB, Grupo Abaçaí e convidados
Selo Sambatá


O músico e pesquisador panamenho Edwin Pitre, radicado no Brasil, defende que as cidades de São Luis (MA), Recife (PE) e Salvador (BA), deveriam pertencer à região do caribe. Certamente não em termos geográficos, mas sim em termos musicais e culturais. Se para muitos brasileiros isso ainda possa parecer inverossímil, para os olhos e ouvidos atentos de alguns artistas como os do pianista cubano Bebo Valdés, do cineasta espanhol Fernando Trueba e dos músicos brasileiros Carlinhos Brown, Guga Stroeter e Ari Colares, isso parece cada vez mais evidente. O cd Agô! cantos sagrados de Brasil e Cuba e a trilha sonora do documentário O Milagre do Candeal, trazem à tona um tesouro comum provindo das águas da música e cultura afro-latina. O reencontro destas culturas apartadas pela diáspora africana é o tema desses dois trabalhos.

 
 
 

Brasil e Cuba realizaram em sua história o mais profícuo encontro das culturas africanas na Ibero-América; algo que poderia ser representado metaforicamente, como duas faces de um mesmo espelho. Esse tema foi abordado há alguns anos por três nomes da música popular brasileira. Caetano Veloso em sua música Mamãe Eu Quero Ir a Cuba, da década de 70, proferia: “Mamãe eu quero amar a ilha de Xangô e Iemanjá, Yorubá igual a Bahia”. Demonstrava assim, de modo sintético, um relevante fato cultural e histórico: a forte presença do grupo étnico iorubá nos dois países, no caso brasileiro marcadamente na Bahia. E que se revela na fabulosa reconstrução do culto aos orixás, que trazidos da África foram aclimatados à América, onde depois de certas transformações, seus cultos tomaram os nomes genéricos de santeria em Cuba e de candomblé no Brasil. O músico Lenine reiterou a idéia da similitude cultural, dessa vez aproximando Recife com o Caribe. Na parceria com Bráulio Tavares, Caribenha Nação, do cd olho de peixe de 1991 , entoava: “lá onde o mar bebe o Capibaribe, coroado leão, caribenha nação longe do caribe”.  Referia-se a outra tradição afro-americana, a do cortejo de reis negros; em Pernambuco representada pelos Maracatus e que possui entre os seus mais relevantes grupos, o maracatu Leão Coroado. Em sua origem, os maracatus são legado de outro grupo étnico, o dos povos bantos, fundamentais nas culturas brasileira e cubana. É notável que a presença desses cortejos tenha se realizado em diversos pontos da América, ainda que com distintas peculiaridades, resistindo no caso cubano até o inicio do século XX. Por sua vez, em 1995 no cd Canto Banto, o compositor Nei Lopes reafirmando a unidade entre os povos africanos dos dois países arrematou em tom geral. Na composição afrolatinô em dupla com Cláudio Jorge, que narra uma viagem de barco pelos sons das Antilhas, ele celebra: “e nesses lugares eu vi com espanto que tudo era banto, nagô, lucumí, tudo irmão da gente, tudo exatamente como tem aqui”.  Se esclareça que nagô foi uma expressão usada para definir genericamente os povos iorubás no Brasil, assim como  lucumí serviu para o mesmo fim em Cuba.

 
 
 

Em distintos períodos da sua historia colonial, Cuba e Brasil tiveram grandes semelhanças. Principalmente pelo modo de produção baseado na monocultura do açúcar e no comércio “quase” exclusivo com as metrópoles. Esse sistema econômico gerava ainda produtos secundários, como o rum em Cuba e a cachaça no Brasil, além do tabaco cultivado em ambos países, os quais se tornaram excelentes moedas para a compra de pessoas escravizadas em solo africano. Engendrou-se assim um grande sistema mercantil que interligava o atlântico e que possuía no tráfico humano a sua principal engrenagem. Terem se tornado dependentes dessa mão-obra, talvez ajude a explicar a razão que os fez ser os dois últimos países a abolirem a escravidão na América, em 1886 e 1888 respectivamente. Foi em decorrência desse grande processo, que os dois países receberam de início um grande aporte cultural das tradições dos povos Bantos (povos sub-saharianos, provindos principalmente das atuais regiões de Angola, Congo e Moçambique) e mais tarde dos povos Yorubás (provindos da hoje Nigéria, Togo e Benin). Tiveram, portanto muitos de seus grupos populacionais trazidos das mesmas regiões 

 
 
 

O paralelo entre os cantos religiosos de origem iorubá dos dois países, que esteve durante muito tempo no âmbito da especulação, possui hoje comprovações científicas. O etnomusicólogo José Jorge de Carvalho, professor da UNB, realizou a comparação dos textos mitopoéticos nas tradições dos dois países e encontrou cerca de cem cantos idênticos ou em que aparecem expressões e palavras em comum. Carvalho usa uma bela imagem para definir essa música que foi recriada nas Américas: “a de um cristal que preservou, ainda que com desgastes, sua integridade desde o momento em que se reconstituiu após a travessia atlântica; fato que exigiu um esforço incomensurável da memória oral e rítmica, forçando que as comunidades detentoras desse saber se fechassem em si mesmas”. Em sua tese de doutorado defendida na universidade de Queen’s em Belfast, Irlanda do Norte, comprovou que ao contrário do que se pensava, muitos dos cantos iorubás  preservados no Brasil ainda fazem sentido, tanto literal quanto miticamente, podendo inclusive ser entendidos para um falante de iorubá da Nigéria de hoje.

 
 
 

Ainda que tardiamente percebida pelas elites, a presença africana forjou significativamente a cultura dos dois países, estendendo-se a inúmeros traços culturais que passam pelos costumes, a língua e chegam à música popular.A tradição musical religiosa deu subsídios em um sentido amplo para a música popular urbana nos dois países. As chamadas claves (chaves) rítmicas formaram novas células musicais e devido à influência banto, por exemplo, dois gêneros fundamentais da música popular nas Américas foram criados como o samba e a rumba. Também estão presentes em ambos os lados, as temáticas que se remetem aos orixás e a magia. Porém como distingue Carvalho, se em Cuba as duas matrizes étnicas foram assimiladas, excetuando-se o ritmo ijexá, no Brasil os padrões musicais iorubás ficaram ausentes da MPB. Carecemos também, segundo ele, da uma presença mais marcante da polirritmia, algo tão presente na cultura musical africana e cubana e definida pela coexistência de ritmos de compassos diferentes dentro da mesma música. Como possível explicação, assinala que “por efeito da repressão aos terreiros no início do século XX e às suas conseqüências, é possível pensar que o nosso espaço público tenha sido mais controlado e censurado pelos brancos, do que nos países do Caribe”. Assim, os time line patterns (ritmos aditivos fixos) que caracterizam a música iorubá e que são largamente utilizados no candomblé, segundo afirma, “nunca foram incorporados nas técnicas de composição de nossos músicos populares”.

 
 
 

KALIMBA O cd Ago!, lançado pelo selo Sambatá, consolida a mais séria aproximação entre as músicas sacras de origem africana do Brasil e de Cuba, até hoje realizada. Não obstante, trata-se de uma obra de música contemporânea, que parte da esfera da música tradicional para uma re-interpretação e re-criação do mesmo repertório pela música popular. Segundo as palavras do diretor artístico do cd, o vibrafonista Guga Stroeter, o intuito “não era apenas fazer um registro antropológico, e sim trazer esse repertório para a nossa vivência musical, que inclui as influências do jazz” e não foi este o único gênero popular a ser incorporado, mas também o choro, a salsa e elementos da música eletrônica. Uma das boas razões para conhecê-lo é que agora, provavelmente pela primeira vez, padrões iorubás foram utilizados para a criação de música instrumental brasileira. Como é o caso das faixa Xaxará, onde o ritmo opanijé (consagrado ao orixá Obaluaê), estrutura a linha rítmica e melódica e de Quebrando Pratos que se baseia no ritmo ilú (votivo da Deusa Iansã), explorando a  familiaridade deste com o gênero maxixe. 

 
 
 

O cancioneiro tradicional afro-latino, que utiliza melodias em estilo modal, estruturadas pela base percussiva e polirrítmica dos tambores foi transportado para o universo harmônico ocidental, formado por escalas e instrumentos temperados como o piano, sopros e cordas. Desse modo os cânticos viram canções, ganhando uma nova  sonoridade ao mesmo tempo em que se preservou a pujança da fonte de inspiração. Stroeter, resumiu a experiência de gravar o álbum em Havana dizendo, “ali misturamos tudo e o processo foi o tempo todo marcado pela emoção desse reencontro aparentemente óbvio, mas que nunca havia sido devidamente promovido”.

 
 
 

O trabalho que está muito bem equilibrado entre faixas expansivas e outras mais intimistas, se estabelece como um novo paradigma no desgastado conceito da world music. O resultado é dado por uma verdadeira re-união das tradições musicais dos dois países e as fusões, quando existem, resultam de uma sofisticada reflexão. Buscou-se um repertório de identidades comuns, reaproximando a sonoridade destes dois universos. Assim o belo afoxé do compositor Gerônimo, Agradecer e Abraçar, já gravado por Maria Bethânia virou uma animada salsa. Os cuidadosos arranjos de percussão, metais e cordas de todo o disco, escritos por Ari Colares e Dino Barioni transmitem às músicas grande leveza e balanço. Colares, que desenvolveu o conceito do cd, recebeu dentro do grupo Abaçaí muitas lições dos mestres de canto e tambores  do candomblé, chamados de alabês e um dos mais importantes para ele, foi o cantor Sapopemba, que é a grande voz do disco com um timbre grave e aveludado. O cantor foi secundado por um afinado coro feminino que imprimiu às músicas um tom jovial e alegre. Vale ressaltar que o grupo Sintesis em Cuba realiza uma abordagem musical análoga, mesclando sons do pop e do rock com canções tradicionais cantadas em iorubá. Seus integrantes obtiveram um grande aprendizado junto ao maior cantor de santeria cubana, Lázaro Ros, que faleceu esse ano, aos 79 anos. Ros registrou cantos dedicados aos principais orixás cultuados em Cuba, numa coleção de 13 cds, lançada pelo selo cubano Abdala.

 
 
 

Devido ao pouco tempo em que os realizadores de Ago! puderam estar em Cuba houve um predomínio do repertório brasileiro, algo que não desmerece em nada o cd,  pois esta  presença é compensada pelos excelentes músicos cubanos que estão em 13 das 14 faixas. A junção de cantos dedicados aos mesmos orixás, preservados ora no Brasil e ora em Cuba ocorre em três faixas, de maneira muito bem elaborada. Como na vibrante Xangô, que nos apresenta a incrível sonoridade dos tambores batás cubanos e cria um caloroso ambiente para a voz de Teresa Polledo se soltar e na suave Oxaguian, cantada por Ari Colares, e embalada por um delicado arranjo de cordas que emociona. A maior parte das faixas é dedicada as divindade Iorubás, mas um dos grandes méritos do cd é nos apresentar sete cânticos do repertório dos candomblés congo-angola, raríssimanente registrados e que possuem um sonoridade singular; destaca-se entre eles a faixa Caboclos onde o naipe de sopros cubano familiarizado com a clave rítmica de origem banto convida à dança. A junção com o repertório congo-angolano de Cuba, chamado genericamente de  regla de palo, talvez  seja um dos poucos elementos que carecem ao cd. Um dos pontos mais altos de todo o trabalho é a faixa que dá título ao mesmo, onde o menos se torna mais e as kalimbas africanas se unem à marimbula cubana (uma espécie de marimba com função de baixo), ao poema mítico do rapper Rene e a um quarteto de cordas; consagrando a junção de culturas que foi o novo mundo. Para os puristas que se perguntam, o que um quarteto de cordas teria a  ver com música para os orixás é bom dizer que em Cuba, uma das melhores maneiras de se agradar ao orixá Oxum (Deusa da formosura e beleza) é contratando-se um toque de violinos em forma de serenata. 

 
 
 
 

O Milagre do Candeal (trilha sonora)

Como elo de ligação entre os dois trabalhos está o músico Carlinhos Brown que produziu as três ultimas faixas de Ago! trazendo do terreiro de mãe Célia, o intenso grupo de Seu Caramba do qual faz parte o potente coro das filhas de Izaze.  

 
 
 

O documentário O Milagre do candeal (2004) dirigido pelo espanhol Fernado Trueba acaba de ter sua trilha sonora lançada no Brasil. Além de ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1993, com Belle Epoque, Trueba se tornou nos últimos anos um importante produtor de discos da música latina na Europa. Foi ele o grande responsável pela volta ao “olimpo” do pianista cubano Bebo Valdés, produzindo o aclamado cd Lagrimas Negras reunião do piano de Valdés com o cantor cigano Diego “El Cigala”, e que funde as canções latino-americanas com o canto flamenco. Ao realizar esse trabalho o diretor ouviu de Bebo que o único  lugar onde desejava visitar antes de morrer era Salvador na Bahia. Unindo o desejo do amigo, ao convite da BMG espanhola para gravar um documentário sobre a revitalização social no bairro do Candeal na Bahia, liderada por Carlinhos Brown, surgiu o argumento para o filme. Que esse ano ganhou o prestigiado Goya nas categorias de melhor filme espanhol e melhor música  para Zambie Mameto.

 
 
 

O filme que  tem como mote a viagem de Bebo à Bahia, na busca de sua ancestralidade africana, logo toma como personagens principais o próprio Candeal e o prolixo Brown, que não parece ter nascido para papéis de coadjuvante. O percussionista passa a anfitrião do pianista cubano, apresentando-lhe seu bairro e a cultura afro-mestiça da Bahia. 

 
 
 

A capacidade de transformação que a arte tomou na comunidade do Candeal foi justamente o que comoveu o diretor espanhol. E ao que parece conseguiu contagiar seus compatriotas que já destinaram à comunidade uma quantia na casa de 200.000 euros, para a construção de uma escola. No inicio deste ano os príncipes espanhóis vieram pessoalmente dar início a construção.     

 
 
 

A trilha sonora do documentário, que já foi lançado em dvd na Espanha e ainda não tem distribuidores no Brasil, foge do habitual e apenas seis das suas quinze faixas estão presentes no filme. Trueba deu total liberdade para  Carlinhos Brown criar as demais faixas, que surgiram principalmente  de temas ligados às religiões afro-brasileiras ou de outros trabalhos, como a música Carlito Marrón do cd homônimo e Carnavália do cd Tribalistas. Brown,  que se lançou como Carlito Marrón no mercado espanhol, com razoável sucesso em shows para milhares de pessoas em Madrid, aponta que a influência da música latina em sua vida vem desde a infância, quando ouvia as orquestras de Salvador executarem canções de Miguelito, Perez Prado e Chano Pozo. É de Pozo a rumba Blen blen blen, que o músico mistura com a percussão e os sopros da Timbalada, construindo uma ponte entre a sonoridade das congas do carnaval de Havana com os blocos de Salvador. Bebo participa desta faixa exibindo talento rítmico com seu piano “salseiro” . 

 
 
 

A participação de Bebo infelizmente só ocorre em três faixas,  com destaque para a balada, com acento de bossa nova, Músico, cantada por Marisa Monte, que  também aparece no filme. Nessa faixa Bebo mostra toda a classe do seu acompanhamento pianistico, considerado um dos melhores, de todos os tempos da musica latina. 

 
 
 

Brown que é defensor da estética da mestiçagem e  do sincretismo musical e religioso não é afeito a purismos e mistura nas demais faixas influências que vão do candomblé à umbanda passando pelo sambalanço.  Sem se prender a teorias,  cria novas palavras misturando as matrizes afro entre si, o português e termos indígenas, incluindo aí,  corruptelas para termos tradicionais. São essa faixas a parte mais criativa do cd.  Na singela Candeal de Santo Antonio ele mostra a ligação que esse santo tem, para alguns,  na Bahia com Ogum, o orixá dos caminhos e assim o que começa como um canto de igreja logo vira um afoxé, acompanhado pelo delicioso grupo vocal das filhas de Izaze que também participam cd Ago! O espaço para experimentação que pode ser utilizado por ser um disco dedicado ao mercado estrangeiro, também resultou na interessante Sal de Yemanjá que une ritmos do candomblé na intenção de fazer canção. Nessa  faixa  os integrantes do Hip Hop Roots, grupo formados por alunos  e professores da Pracatum escola de música criada por Brown,  agregam violinos a excelentes solos de percussão. 

 
 
 

O músico Gerônimo  contribui com uma deliciosa versão de Moonliht Serenade de Glen Miller que se transforma em Serenata ao Luar  um cativante samba-ragaee, cantado com malícia por Brown. Caetano Veloso que no documentário recebe  os músicos na sua bela casa em Salvador,  entra na trilha com a música, Faixa de Cetim de Ari Barroso,  gravada para o song-book do compositor mineiro há alguns anos. A música se refere  a uma promessa ao Senhor do Bonfim e é interpretada com muita sutileza.

 
 
 

Deve-se mencionar a  preciosa participação do músico Mateus Aleluia integrante do extinto grupo Os Tincoãs , que  tiveram a música Cordeiro de Nana, gravada por João Gilberto.  Mateus canta a afro-barroca Misericórdia  e  divide com Brown os vocais de Zambie Mameto,  além disso protagoniza uma das cenas mais belas do filme onde dialogando com Bebo diz “você acha que é de Cuba e eu sou da Bahia ... mas nós somos da África, trouxeram aqui....quando eu vejo a televisão no Brasil, não vejo ninguém como eu; quando vejo os políticos também não,  isso quer dizer que não somos daqui , este não é o nosso lugar”,  por conta desse sentimento o cantor viveu por mais de vinte anos em Angola. 


 

O trabalho, apesar de não se aprofundar tanto quanto o cd Ago!  nos elo que unem Brasil e Cuba, resulta num cd alegre e dançante que  merece ser conhecido.

 
  

Seguindo a proposta dos  dois trabalhos, se tomarmos como o lado positivo da globalização a possibilidade de reconectar parentes musicais e culturais separados pela história e  através de suas culturas gerarmos mudanças sociais, viveremos com toda certeza  num mundo mais harmonioso, algo que pode ser um verdadeiro milagre. Oxalá! 

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