A dinâmica do espaço urbano enquanto construção cultural: os vales dos rios em João Pessoa, Paraiba (Brasil).
 

      Loreley Garcia
Socióloga,Phd

rograma de Pós-graduação em Desenvolvimento eMeio Ambiente (PRODEMA)
PPGS da Universidade Federal da Paraíba
 

Niedja Lemos
Arquiteta Urbanista, Mestranda do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento eMeio Ambiente (PRODEMA)

Universidade Federal da Paraíba.



 

 
 
 

A produção do espaço urbano através da realidade cultural.
 
 
 

                    Na ânsia de proverem sua existência os seres humanos produzem simultaneamente não só sua história, cultura e estrutura sócio-política, como também o espaço em que habitam. Ao produzirem espaços os indivíduos têm provocado sérias alterações na natureza devido ao gradativo aumento das especializações nos sistemas produtivos e os avanços tecnológicos operados ao longo da história da civilização.
 
 

                    Os indivíduos produzem seu espaço a partir de 
 

 

                    A produção desse espaço é analisada como materialização formal das relações sociais e valores ambientais existentes no cerne da sociedade, sendo passível de ser apreendida, entendida e aprofundada, na medida que se torna elemento visível das relações que a sociedade cria nos diversos momentos do processo de desenvolvimento.
 
 

                    O processo de reprodução espacial produzido nas sociedades  hierarquizadas em classes sociais, deu origem a paisagens que registram as lutas travadas em seu interior. A cidade e suas paisagens são produzidas num cenário de conflitos “decorrentes das contradições inerentes às diferentes necessidades e pontos de vista de uma sociedade de classes” (Carlos, 2001, p. 22).
 

 
 

                    A paisagem urbana, na verdade, expressa os embates básicos das sociedades e revela a segregação existente decorrente da maneira como suas áreas são apropriadas. A compreensão desse espaço só é possível a partir da compreensão de uma lógica fundamentada no desenvolvimento desigual das relações sociais dentro da sociedade.
 
 

                    Cada época produz um determinado tipo de espaço distinto das épocas que lhe antecederam. “A paisagem urbana não é só produto da história como também reproduz a história, a concepção que o homem tem e teve do morar, do habitar, do trabalhar, do comer e do beber, enfim, do viver” (Carlos, 2001, p.38). Portanto, a sociedade e o espaço produzido por ela através do trabalho ali realizado não podem ser vistos de maneira desvinculada. Cada estágio do desenvolvimento da sociedade terá um correspondente estágio de desenvolvimento da produção espacial e uma determinada forma de relacionamento entre os indivíduos e estes com a natureza circundante.
 
 

 
                    Das relações estabelecidas entre sociedade e natureza, através de trabalho realizado, uso de técnicas e instrumentos próprios do meio de produção, tem-se como produto o ambiente urbano (quadro 01). Dentro dele são produzidas condições e produtos necessários à sobrevivência da sociedade, relações sociais, modo de pensar e de vida, enfim, uma realidade cultural que irá configurar o perfil do espaço criado, produzido pelas ações de determinada cultura e o meio no qual ela se encontra e que simultaneamente, irá influenciá-los (Carlos, 2001).

 
 
 

                    O espaço criado, a cidade e suas paisagens são, portanto, obras resultantes do processo criativo ininterrupto de indivíduos em determinado meio, cuja produção guarda relação com o mesmo paradigma pelo qual produzem sua existência e a si mesmo. O espaço enquanto produto social se cria a todo o momento articulando o novo com o velho, num constante renovar.
 
 
 

                    O surgimento das cidades se deu de forma crescente e acelerada, culminando com o fenômeno da urbanização, configurado como ícone característico do século XX. Conforme constatação feita por Dias (2002, p. 20-21) “os seres humanos agora constituem uma espécie majoritariamente urbana” cujo processo de migração campo-cidade se deu, na maioria dos casos, sem que houvesse um modelo de gestão capaz de disciplinar a forma de ocupação do solo urbano e implantação de uma infra-estrutura necessária visando promover o bem estar da população envolvida. Num breve panorama mundial vê-se que mais de 70% da população dos Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental e Japão são urbanas; nos paises latinos americanos em torno de 74% da população vivem em cidades e no Brasil, o IBGE anuncia que 81% dos brasileiros também estão assentados em áreas urbanas.
 
 
 

                    A paisagem representativa que hoje se tem do ambiente urbano demonstra que o espaço das cidades se constrói de forma desigual e contraditória. A desigualdade espacial é produto da desigualdade social e isso esta na base da sociedade segregadora, com diferenciadas possibilidades de acesso aos meios de produção da própria sociedade.
 
 
 

                    A cidade se tornou a expressão mais complexa da existência humana e, conseqüentemente, espaço onde uma série de contradições e conflitos se evidenciam, mas porque também não dizer, lugar onde representações criativas dos indivíduos se manifestam. O crescimento das cidades se deu de maneira distinta nas diferentes regiões do planeta, refletindo em cada uma delas peculiaridades em relação ao acesso aos bens de produção, o sistema político, a realidade socioeconômica, cultural, religiosa, o estágio de desenvolvimento tecnológico e as formas de relacionamento com os recursos naturais.
 
 
 

                    A urbanização das cidades nos países desenvolvidos esteve desde o inicio atrelada diretamente à produção industrial. Esse processo se deu de forma muito intensa, porém de certa maneira procurando equacionar as relações de seu contingente populacional e a inserção no mercado de trabalho, visando promover o bem estar  social.
 
 
 

                   Nos países em desenvolvimento o crescimento das cidades se processou de maneira diferente se caracterizando por uma realidade aonde a desigualdade social evidente produz uma pronunciada exclusão social, segregação de seu território e uma intensa degradação de seu ambiente natural.
 
 
 

                    É consenso que as cidades, de uma maneira geral, ao surgirem sofrem influências de uma série de fatores naturais, sociais, políticos e econômicos que, interagindo entre si, acabam determinando sua organização espacial. Ao se fazer uma análise sobre determinado espaço acabamos por observar materializados os valores e costumes de uma época e isso faz com que ele se torne documento importante para a compreensão do momento presente.
 
 
 

                    Alguns teóricos do espaço urbano vêem as cidades enquanto centros aglutinadores de possibilidades e lutas que possibilitam a criação de laços de união e solidariedade entre as pessoas. Entretanto, hoje se faz necessário aprofundar a análise do espaço urbano partindo da premissa de que ele e uma resposta a determinado modelo econômico, consolidando o modelo urbano-industrial na configuração territorial da cidade.
 
 
 

                    A cidade com seus edifícios, espaços livres e sistemas viários configura uma paisagem oriunda de fatos construídos pelos indivíduos que ali habitam, onde cada época é capaz de representar a si própria. A representação desses fatos não se limita apenas à estrutura física da cidade, ela transcende o conjunto de valores da coletividade e a maneira de solucionar seus desafios, gerando um estilo de vida urbano.
 
 
 

                    Tratando especificamente da cidade contemporânea observa-se que seu solo se transformou numa mercadoria onde, através de um zoneamento, é possível fazer uma leitura das diferentes classes sociais que podem, ou não, ter acesso a ele. Sendo a mercadoria mais valiosa aquela que foi beneficiada em termos de infra-estrutura e serviços, acessível apenas `as classes sociais abastadas. Esta realidade reflete um modelo de crescimento que não se preocupa a priori com o bem estar da população, muito menos com a questão ambiental, visando somente viabiliza o fortalecimento do modelo econômico e ideológico.
 
 
 

                    A cidade estruturada segundo o modo de produção capitalista passou a se confundir com o processo de acumulação e consumo característico desse, criando, ou melhor, construindo uma ordem compatível com o interesse do capital. 
 
 
 

                    Não se pode entender o fenômeno histórico de surgimento do ambiente urbano e a degradação das áreas de significativo valor ambiental como um fato isolado, observado apenas pela ótica do crescimento demográfico ou espacial. Este acontecimento deve ser analisado segundo uma visão abrangente, na qual uma série de fatores devem ser abordados tendo em vista a construção concreta de um processo cultural expresso através da forma de uso e ocupação do solo, fruto de uma dinâmica profundamente enraizada nos processos produtivos da sociedade.

 
 
 
O cotidiano da sociedade como leitura do espaço urbano.
Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.
                                                    Heráclito de Éfeso

 
 
 
                    Enfim há que se perguntar: O que é o espaço urbano? Seria tão somente aquilo que nossos sentidos apreendem? O que dizer sobre essa realidade e de que modo interpretar sua paisagem? Vários são os teóricos em diferentes áreas do conhecimento, em diversas épocas tem se debruçado sobre estas questões, possibilitando o surgimento de várias leituras do fenômeno urbano. Este fato, além de enriquecer o assunto, evidencia a grande complexidade que envolve as sociedades urbanas.

 
 
 

                    Num primeiro momento pode-se descrever cidade como “aglomeração humana de certa importância, localizada numa área geográfica circunscrita e que tem numerosas casas, próximas entre si, destinadas a moradia e /ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e a outras não relacionadas com a exploração direta do solo” (Houaiss e Villar, 2001, p. 714).
 
 
 

                    Vê-se que mesmo ao se trabalhar este conceito de maneira bastante ampla, uma vez que não está atrelado a uma área científica específica, são destacados alguns aspectos inerentes ao contexto da cidade, ou seja, o social, o físico e o econômico. Estas características constituem uma rede de relações interdependentes, produtoras da paisagem cultural, não sendo possível definir que ordem de prioridade será dada.
 
 
 

                    Ao abordarmos a dimensão psicológica do espaço urbano vemos que a intenção em produzir algo é tão valorizada quanto a materialização desta. Todo o conjunto de elementos móveis de um determinado espaço, em especial os grupos sociais e suas atividades diárias, são importantes elementos de análise, tanto quanto suas partes físicas estacionárias, servindo de elementos definidores da estrutura física. Na verdade as sociedades constroem as cidades como materialização de seus desejos e como garantia de domínio sobre determinado território. Constroem uma natureza artificial modificando a natureza primordial.
 
 
 

                    Segundo Carlos (2001, p. 22-23), a heterogeneidade sócio-espacial é o que a paisagem das cidades tem de mais marcante. “O uso diferenciado da cidade demonstra que esse espaço se constrói e se reproduz de forma desigual e contraditória. A desigualdade espacial é produto da desigualdade social”. A maneira mais objetiva para entender a cidade é a leitura do cotidiano da sociedade.
 
 
 

                   O olhar sobre o processo histórico, construído a partir das ações cotidianas na cidade, evidencia toda a rede de relações que ali atuam. Talvez tenha sido essa a mesma motivação que levou Brecht (2000) a construir seu célebre poema questionando as relações responsáveis pelas manifestações materiais do desejo humano indagando:
 
 

Quem construiu as portas de Tebas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E Babilônia destruída mais de uma vez?
Quem a construiu de novo?
Quais as casas de Lima dourada 
que albergavam os pedreiros?
Na noite em que terminou a muralha da China
Para onde foram os operários da construção?
A eterna Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os construiu?
Sobre quem triunfaram os Césares?
Bizâncio, tão cantada, só consistia de palácios?
Mesmo na legendária Atlântida
Os moribundos chamavam pelos seus escravos
Na noite em que o mar os engoliu...
O jovem Alexandre conquistou a Índia 
sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem paga a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
 


 
                    Mas qual é a paisagem representativa das cidades na atualidade? Poder-se-ia responder que Carlos (2001) afirma com maestria que a paisagem urbana hoje se configura pelo contraditório, concentrado e segregacionista que, numa rápida mirada, nos salta aos olhos se fazendo presente sob várias circunstâncias. Acselrad (2001) complementa esse pensamento ao afirmar que:

 
 
 
 
“além das incertezas do desemprego, da desproteção social e da precarização do trabalho, os trabalhadores são submetidos aos riscos da moradia em encostas perigosas, beira de cursos d’água sujeitas a enchentes, áreas contaminadas por lixo tóxico, situadas sob gasodutos ou sob linhas de transmissão de eletricidade (Acselrad, 2001, p. 23)”.

 
 
                    Porém é necessário ir um pouco mais além, na investigação desse cotidiano. É sabido que ele reproduz com fidelidade uma rede de relações vivenciadas no momento presente, porém é fundamental que se compreenda que esse momento esta inserido em outro processo, que foi construído pelas gerações que nos antecederam na história. Ou seja, o presente está envolvido por uma dinâmica que diz respeito a uma realidade atual, porém este presente é constituído por camadas de tempo que, revistas, servem como referencial para compreensão do presente.

 
 
 

                    Logo, o design da cidade, enquanto construção no espaço, é uma arte temporal produto de muitos construtores que, por razões próprias, nunca deixam de modificar sua estrutura, pois, o espaço urbano nunca será um produto acabado, mas um espaço onde as fases se sucedem transformando-o num texto cultural a ser lido.
 
 
 
 

                    Como fazer uma leitura sobre as cidades na atualidade, o crescente processo de degradação da natureza pelas sociedades que as habitam, sem se debruçar, acerca de alguns momentos de transformação desse espaço? Não temos a intenção de discorrer sobre as transformações espaciais pelas quais as cidades têm passado através da história, mas parece oportuno analisar brevemente, alguns períodos sob o foco sócio-ambiental específico, ou o que Assis (2001, p. 7) definiu como leitura da cidade como “um testemunho da história sócioecológica dos povos”.
 
 
 
 
 

Da aldeia à cidade mercantilista.

                    A história da civilização ocidental narrada a partir da descrição dos assentamentos humanos e sua relação com o meio físico nos faz observar as constantes intervenções do indivíduo na natureza no intuito de dominá-la e de extrair dela os recursos necessários à sua sobrevivência. Estas intervenções, compreensíveis e tão antigas quanto a existência de agrupamentos sociais no planeta, dependendo da estrutura socioeconômica da época, delineiam o comportamento dos indivíduos em relação ao ambiente em que vivem e a gradativa perda de vínculo com o mesmo.
 
 

 

                    Ao se traçar uma linha do tempo buscando identificar, através da leitura de alguns modelos de cidades, pontos em comum, se observa que estes passam pelo viés do modo de produção de cada uma delas. A hierarquização social decorrente das classes sociais deu origem à estrutura espacial também hierarquizada em torno da qual se estabeleceram padrões de relacionamento com a natureza. Este fato se tornava perceptível desde o surgimento das aldeias, quando se deu a fixação dos indivíduos a um determinado território à medida que a agricultura foi sendo desenvolvida.


 
 
 

                    Na Antiguidade a cidade representava o espaço de associação das diversidades política e religiosa das famílias e das tribos que ali estavam. Estas famílias e tribos constituíam a base da sociedade da época. Na medida que várias famílias da cidade resolviam ter um culto comum, fundava-se imediatamente uma urbe para representar o santuário desse culto. Como se observa, cidade e urbe se distinguiam. O termo urbe designava o lugar de reunião, de aliança entre indivíduos em torno de uma crença, era, sobretudo o santuário dessa sociedade, em torno do qual se reunia em adoração a uma divindade, sendo na maioria das vezes, reverenciados os antepassados e a natureza, por originar as condições básicas de sobrevivência.
 
 
 

                    A sociedade ao deixar de ser predominantemente coletora (Paleolítico) e passar a desenvolver atividades produtoras, cultivo de plantas e domesticação de animais (Neolítico), reconfigura-se como uma organização com características criadoras e transformadoras. Posteriormente, por volta de 9000 a.C., na chamada Revolução Agrícola, a sociedade se tornou sedentária e passou a produzir seu espaço modificando a natureza primitiva, se estabelecendo a partir daí um novo tipo de relacionamento desta com o meio. 
 
 
 

                    Para Carlos (2001, p. 28), o espaço criado pela sociedade é conseqüência de seu processo produtivo e simultaneamente a sociedade se reproduz e cria sua história, enfatiza que “ao longo do processo de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, o processo de trabalho amplia constantemente o domínio do homem sobre a natureza, que vai adquirindo novos significados”.
 
 
 

                    Quando a sociedade deixou de ter características nômades e passou a habitar casas feitas com barro, pedras e ramos, situou-se predominantemente em regiões ribeirinhas com água abundante, pastos perenes e pesca fácil. Posteriormente verificou-se o surgimento de algumas cidades nas costas marítimas, à medida que a navegação foi se intensificando motivada pelo comércio entre Oriente e Ocidente. Esta localização estratégica para o desenvolvimento de atividades comerciais passou a ser um sustentáculo fundamental para a consolidação do espaço urbano.
 
 
 

                    Na Idade Média uma nova configuração da estrutura social, decorrente do aprimoramento técnico, proporcionou o aumento da produtividade e conseqüentemente o surgimento do excedente agrícola. As transformações possibilitaram o surgimento de uma nova motivação direcionando a implantação das cidades e seu ordenamento. Ao longo desse período distintas atividades foram surgindo, juntamente com elas uma divisão social do trabalho e a diversificação das classes sociais. O panorama de especialização dos serviços e a relativa concentração de atividades distintas configuraram o ambiente dessas cidades e, dentro desse contexto, a estruturação das raízes do próprio Estado.
 
 
 

                    O controle e gestão desse novo modelo de vida coletiva passaram simbolicamente a incorporar uma nova forma de divindade, o comércio de troca. A natureza antes divinizada agora era vista como fonte de matéria-prima para a produção de excedentes para o mercado (novo templo) e sua posse símbolo de riqueza. O novo deus não precisava mais ser adorado, era necessário, contudo que algumas regras fossem obedecidas. Na verdade o sistema produtivo feudal se estabeleceu como um poder econômico e político concentrador nas mãos de uma elite dominante, respaldada por um poder religioso detentor de verdades sobre a vida e a morte.
 
 
 

                    As cidades medievais passaram por um período de estagnação devido ao caráter de auto-suficiência característico dessa estrutura de poder. Os feudos, extremamente voltados para dentro de si, produziam o alimento de que necessitavam, através da agricultura e da pecuária, e um artesanato rudimentar. O comércio das primeiras cidades reduziu-se e a cidade perdeu importância econômica, deixando de ser o centro de trocas e de produção artesanal.
 
 
 

                    A estrutura espacial dessa época caracterizou-se por seu traçado irregular com ruas estreitas nas quais se lançavam os dejetos. As casas não possuíam janelas voltadas para as vias como forma de manter o mau cheiro afastado. O contato com a natureza só era possível ao se cruzar as muralhas que cercavam a cidade em direção aos campos de cultivo.
 
 
 

                    A partir do século XI, com o surgimento das Cruzadas, apesar de sua auréola de religiosidade no combate aos mulçumanos, pretendia arrebatar a rota comercial do Mediterrâneo de seu domínio, o capital comercial volta a se intensificar através do comércio nacional e internacional pelas rotas marítimas, dando origem a uma burguesia rica (habitante do burgo) que começa a se ombrear com os senhores feudais aristocráticos.
 
 
 

                    A cidade adquire novas funções e as relações sociais se estruturam em torno das corporações de ofícios – guildas, castelos ou mosteiros, elementos formadores da cidade medieval. Torna-se notório uma certa preocupação em relação à salubridade do ambiente vinculada à questão da saúde dos habitantes. Os mortos e os dejetos passaram a ser enterrados fora dos muros da cidade e as novas muralhas, erguidas com a ampliação da malha urbana, tiveram suas aberturas voltadas em direção dos ventos predominantes, facilitando sobremaneira a salubridade das cidades (Ribeiro, 2004). 
 
 
 

                    Ainda nessa época Da Vinci em seu Codex Atlanticus lança uma série de princípios sanitários no sentido de minimizar as precárias condições ambientais das cidades, especialmente Milão, o que o fez esboçar o projeto de uma cidade assentada sobre um rio, ramificado em canais, o qual a abastecia de água potável e livraria dos dejetos. Talvez em função desse uso das águas dos rios, ao mesmo tempo que servia para o abastecimento da população era receptor dos dejetos da cidade, tenha estigmatizado na história as cidades medievais, desde as acanhadas da era paleocristã até as prósperas dos períodos comerciais, como um ambiente insalubre responsável pela morte de quase metade da população quando assolada pela Peste Negra.
 
 
 

                    A estrutura feudal da Idade Média chega ao seu final no século XV, pela formação de uma organização de poder configurada pela monarquia financiada pela expansão do mercantilismo, possibilitando o soerguimento das cidades em função do comércio. Castelos e catedrais dominavam o perfil das cidades medievais dessa época em contraste com os demais setores da cidade. O contato com a natureza continuava a ser através do trabalho nos cinturões hortigranjeiros fora das muralhas, ou agora, de forma particularizada, nos jardins localizados dentro dos muros das construções imponentes.
 
 
 

                    O significativo fortalecimento do comércio e a crescente diminuição da população agrícola, em função de uma série de inovações tecnológicas, impulsionaram o crescimento demográfico nas cidades, a especialização e divisão do trabalho e a dissolução do modo de produção feudal. O comércio passou a construir um espaço compatível com seus valores e modo de vida que, como analisa Carlos (ibid, p. 65), “não surge, portanto, de uma simples mudança da população do campo, ela envolve um processo mais profundo”.
 
 
 

                    O processo gerador do ambiente urbano é criado na medida que a população do campo se desloca para a cidade atraída pela possibilidade de trabalho, transformando-se em mão-de-obra para esse novo modo de produção. O novo contingente trabalhador assalariado fortalece o mercado interno criando consumidores. O espaço urbano consolida-se de forma contínua com uma população espacialmente concentrada, assim como o próprio poder político ou econômico.
 
 
 

                    A partir do século XVIII até inicio do século XX as cidades passaram por profundas mudanças. Acontecimentos alteraram sobremaneira a estrutura social e os valores da época, foram mudanças tão expressivas que as cidades jamais voltariam a ser as mesmas após esse processo. Uma nova forma da sociedade se organizar foi criada e um novo padrão de comportamento se consolidou. A leitura da realidade – o Weltanschaaung, foi substituído por uma nova concepção de mundo e vida.
 
 
 

                    No século XVIII teve inicio a noção do naturalismo trazido para dentro do espaço urbano, e presente até os dias atuais. Tinha por base a tentativa de resgatar o antigo contato com a natureza, através de intervenções como a incorporação de elementos naturais à estrutura urbana (1723), a analogia das cidades como florestas (1753), modelo de cidade implantada em um cenário rural (1783) entre outras.
 
 
 

                    Posteriormente, tendo em vista a consolidação do modelo industrial-urbano nas sociedades ocidentais, um novo modelo sócio-econômico se estabelece, o capitalismo, trazendo consigo alterações significativas para a estrutura física, e se configurando como sistema econômico predominante que mais modelou e agrediu o ambiente urbano. 

 
 
 
A produção do espaço na cidade capitalista.


Dir-se-ia que a sociedade inteira, embriagada de velocidade e de movimento, começou inconscientemente a girar sobre si mesma: tal como um avião desgovernado no seio de uma bruma cada vez mais opaca”. Le Corbusier 

 
 
 
                    A Revolução Industrial, meados do século XVIII, é responsável pelo desencadeamento do processo de urbanização que se manteve de forma expressiva até a atualidade. Esse processo, viabilizado a partir do desenvolvimento de uma tecnologia cada vez mais sofisticada e pelo domínio de práticas agrícolas cada vez mais predatórias, gerou um modelo econômico baseado na acumulação de riquezas materiais disponibilizadas apenas para os possuidores dos meios de produção, a saber, os donos das indústrias e das máquinas (Dias, 2002).

 
 
 

                    Com a consolidação do modelo de vida urbana, no século XIX, ditado pelo sistema capitalista, as relações sociais e o ambiente natural sofreram um veloz processo de degradação. O acesso e apropriação desigual aos bens e recursos naturais, próprios desse modelo econômico, provocaram acumulação de riquezas também desiguais e com graves conseqüências. A expressiva desigualdade social e desprezível dominação do indivíduo pelo outro, quando esse se transforma em instrumento de força de trabalho necessário à geração de lucros, configura este modelo como socialmente injusto. O afastamento e alienação da sociedade com o ambiente natural, quando esse se transforma em reserva de matéria - prima necessária à indústria, ressalta a face desumana e ecologicamente predatória desse sistema. 
 
 
 

                    A velocidade com que se deu a expansão e consolidação dos espaços urbanos fez com que esta dinâmica identificasse o século XX. Segundo relatório da Área de Desenvolvimento Urbano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a população urbana mundial em 1990 era de 2,4 bilhões de pessoas, em 1998 passou a 3,2 bilhões, estimando-se que atinja um total de 5,5 bilhões dentro de uma geração tendo em vista não haver nenhuma tendência de declínio nesse processo. 
 
 
 

                    O fato mais alarmante dessas notícias se evidencia quando observado que o grande percentual desse acréscimo populacional viverá em cidades da parte menos privilegiada do mundo, onde se apinham 80% da população mundial e apenas 20% da riqueza planetária, contribuindo para potencializar uma série de problemas ambientais já existentes.
 
 
 

                    O planejamento e a gestão desse modo de vida não conseguiu gerar resultados satisfatórios no sentido de abrigar adequadamente a sociedade urbana, propiciando uma desarmonia na organização físico-territorial, assim como o risco de exaustão dos recursos naturais e o desequilíbrio ecológico dos diferentes ecossistemas ali inseridos. O número crescente de doenças mentais – para alguns doenças da civilização, para outros, doenças da alma – testemunha a profunda discrepância entre os grupos sociais e o meio no qual estão inseridos.
 
 
 

                    A divisão social do trabalho e a divisão de classes produziram um tipo de ambiente que tem na segregação do solo a principal característica da cidade industrial-capitalista. É possível identificar a segregação entre as funções trabalho, moradia e lazer. A cidade passou a ter territórios diferenciados com funções coerentemente desenvolvidas de acordo com a lógica da estrutura capitalista.
 
 
 

                    A sofisticação dos meios de transporte, comunicação e a implantação de um poderoso complexo viário contribuíram para consolidar essa tendência de segregação das classes. A classe abastada, por deter a oportunidade da escolha, procura cada vez mais se isolar em guetos, preferencialmente distante das áreas onde são desenvolvidas as atividades produtivas e próximas àquelas com expressiva salubridade ambiental. A classe trabalhadora, sem opção, procura estabelecer-se nas cercanias do emprego ou de atividades que lhes garanta a sobrevivência. Sendo levada em alguns casos, como recurso derradeiro, a ocupar áreas de preservação ambiental uma vez que, dentro do comércio imobiliário, essas áreas não têm valor de troca devido a deficiência dos serviços urbanos e as restrições legais dentro do mercado pela propriedade da terra urbana.
 
 
 

                    A degradação ambiental e social resultante do atual modelo de sociedade tendo como ícone a segregação, a concentração e a contradição, contribuiu decisivamente para o declínio da qualidade de vida em todo o planeta, tornando visível uma face excluída da cidade, que agora se reveste de uma visibilidade incômoda.
 
 
 

                    Hoje o conflito vivenciado no ambiente urbano se escancara aos olhos de todos devido à intensidade com que isso acontece e o que antes era um fato pontual se torna uma característica constante dentro da paisagem urbana que:
para se compreender a temática ambiental, faz-se necessário considerar seus aspectos políticos, éticos, econômicos, sociais, ecológicos, culturais e outros, para que se obtenha uma visão global do problema e de suas alternativas de soluções (Dias, 2002, p.31).
 
 
 
 

A construção do espaço urbano de João Pessoa (PB) e a questão ambiental.
 
 

                  Uma análise sobre a evolução urbana da cidade de João Pessoa (PB) possibilitou empreender um olhar sobre o modo como a sociedade se relacionou com a natureza, produzindo esse espaço, e o quadro ambiental correspondente. Acredita-se que problemas atuais como moradia, serviços básicos de infra-estrutura, saúde, educação não podem ser explicados isolados do entendimento do processo de formação desse espaço, por tratar-se de uma dinâmica atrelada ao próprio processo de transformação da sociedade e ao modelo de desenvolvimento pelo qual o país foi submetido em diferentes épocas.
 
 
 

Século XVI ao século XVIII: a cidade colonial – mercantil.
O mar, que em três séculos e meio tinha o povo passando longe e ao largo, agora se transforma no grande centro de interesse e de lazer. O rio, que foi rota de sagas, de riquezas e até do rei, desce hoje solitário, o desprezo assoreando mais que a lama (Rodrigues, 1993, p. 191).
 
 
 
                    A cidade de João Pessoa foi fundada em 05 de Agosto de 1585, à margem direita do rio Sanhauá, após batalha travada pela posse do litoral paraibano, onde o tráfico do pau brasil era exercido em larga escala, entre os portugueses e os franceses que tinham se aliados aos índios que ali habitavam. 

 
 

                    Devido à necessidade de apossar-se do território conquistado, o núcleo inicial, denominado Nossa Senhora das Neves, já nascia como cidade. A terceira fundada no Brasil, através de um alvará datado de 29 de dezembro de 1583, na Metrópole, por ato da Cúpula da Fazenda Real da Coroa, não precisando ascender da condição de vila para tal. Passou desde logo a exercer a função de cidade administrativa e comercial, visto que com a construção de um pequeno porto (trapiche próximo ao forte recém construído) garantia o escoamento tanto da madeira, quanto do açúcar.
 
 
 
 

                    Os relatos dos primeiros que aqui chegaram, tais como Elias Herckmans, Fernando Delgado Freire de Castilho e Henry Koster, encontrados na vasta literatura sobre o tema, foram unânimes em exaltar as belezas naturais e abundância delas na região. Observações semelhantes foram feitas por Vieira (2001), esclarecendo que a área, onde deveria ser implantada a cidade, pode ser escolhida estrategicamente, tendo finalmente seu núcleo inicial localizado em uma colina próxima ao rio, onde existiam várias fontes de água doce e pedras calcáreas utilizadas na construção e abastecimento da cidade.
 
 
 

                    A cidade tinha como função principal proteger a próspera capitania de Pernambuco, justificando as características político - militares de sua estrutura social inicial. Em função disso, a primeira edificação aqui implantada, foi o citado forte de madeira às margens de “um rio bastante longo com margens mui baixas, bosques inundados, cujo arvoredo se acha n’água e debaixo d’água, principalmente as árvores chamadas mangues” segundo relatório de Elias Herckmans em Descrição Geral da Capitania da Paraíba (Herckmans apud Leal, 2001, p. 34).
 
 
 

                    Devido sua posição geográfica favorável, onde era possível uma visão completa do sistema fluvial composto pelo rio Paraíba e afluentes, passou a defender e controlar o transporte e a comercialização da produção açucareira na região. Nesse período o açúcar tinha se tornado o principal produto de exportação do Brasil Colônia, destinado a Metrópole. O comércio do pau-brasil estava em decadência visto que em algumas décadas esgotara-se parte das matas costeiras que continham a preciosa árvore, e sua comercialização perdeu interesse como comércio principal.
 
 
 

                    Sua localização segue a orientação para implantação de cidades no Brasil durante o século XVI a exemplo de outros núcleos urbanos fundados, como é o caso das cidades de Olinda, Salvador e Rio de Janeiro (Vieira, 2001). Geralmente na faixa litorânea e guarnecida de um complexo fluvial que, juntamente com o mar, permitia o deslocamento entre os núcleos implantados e daí com a Metrópole. Também se fazia importante a presença de fontes para o abastecimento da população e matéria - prima para construção da cidade.
 
 
 

                    As condições geográficas, a princípio bastante favoráveis à implantação da cidade, passaram a determinar posteriormente a velocidade de seu crescimento que se deu de forma bastante lenta. O planalto onde havia sido fundada a cidade estava cerca de 40 metros acima do nível do mar e era cortado por vales de rios. O crescimento da cidade no sentido norte e oeste era dificultado devido à presença de marés e mangues que, na época, representavam um obstáculo à expansão urbana.
 
 
 

                    Em 15 de outubro de 1586, devido a interesses de ordem econômica em torno da comercialização da produção açucareira, a cidade recebeu a visita do Ouvidor Geral do Estado do Brasil, Martim Leitão juntamente com o alemão Cristovam Litz e o mestre de obras de El-Rei Manuel Fernandes. Com esta comitiva vieram inúmeras famílias, artesãos, religiosos, comerciantes com o objetivo de aqui se estabelecer. Para abrigar esse primeiro núcleo social, e também como forma de promover um ordenamento que pudesse servir de apoio e base na disputa pelo mercado europeu, foram construídos além de residências, Conventos, Casa do Tesouro Provincial, Cadeia e um Mercado Público.
 
 
 

                    A partir daí teve inicio um processo de modificações do núcleo inicial, vinculado a uma incipiente preocupação ambiental, onde foram abertas avenidas e largos, em contraste às sinuosas e estreitas ruas existentes. A organização do ambiente físico refletia a estrutura social. Observou-se a separação entre a vida religiosa, administrativa e da classe mais abastada, que passou a ocupar o alto da colina, as casas comerciais, os prédios da alfândega, os armazéns do porto e as atividades de comércio, foram implantadas na parte baixa da cidade próxima ao rio.
 
 
 

                    Por essa época houve grande interesse na utilização intensiva das terras coloniais para a produção do açúcar. No mesmo ano em que a cidade foi iniciada implantou-se o Engenho Tibiri destinado a fazenda Real (1585). Logo a seguir, multiplicaram-se os engenhos e sítios através das doações de grandes extensões de terras pelo regime de sesmarias , destinadas ao plantio da cana.
 
 
 

                    A implantação de sítios nas cercanias, também através do sistema sesmarial, além de engenhos, possibilitou o abastecimento da cidade de alguns gêneros alimentícios. A cidade, porém, ainda era de tamanho reduzido, pois além dos limites formados pelo rio Sanhauá, marés e mangues (no sentido norte e oeste), a bacia de uma lagoa (no sentido leste e sul), se apresentavam como um obstáculo a ser contornado. Os equipamentos urbanos permaneceram escassos após longos anos e o abastecimento de água potável era feito através de bicas implantadas nas fontes existentes. Sem saneamento a cidade assistiu a algumas epidemias como varíola, cólera, febre amarela. A implantação do saneamento básico e serviços urbanos nunca foi preocupação da Coroa Portuguesa.
 
 
 

                    A produção desse espaço pelos que ali habitavam se deu de forma precária comprometendo a qualidade de vida e o ambiente natural. As ruas não pavimentadas recebiam o lixo atirado das residências e, em função disso, a mortalidade era alta. O abastecimento de gêneros de primeira necessidade, provenientes da produção rural e sítios, apresentava-se de modo deficiente, tendo em vista estar o sistema econômico prioritariamente voltado para a ocupação das áreas para a implantação dos engenhos e sua produção açucareira. 
 
 
 
 

O domínio Holandês
                  No inicio do século XVII era esse o perfil da cidade da Paraíba ocupada pelos holandeses que vieram ocupá-la, tendo em vista a proximidade da capitania de Pernambuco, na qual mantinham o domínio comercial. As lutas duraram dois anos e, em 24 de dezembro de 1634, os portugueses cederam entregando a terra aos holandeses (Aguiar, 2002).

 
 
 

                     Durante os vinte anos que aqui estiveram, os holandeses não se preocuparam com o crescimento da cidade, seu objetivo principal era de utilizá-la como ponto de apoio para a produção açucareira gerada na capitania vizinha, também sob seu domínio. Não construíram igrejas, pois eram protestantes calvinistas, nem residências, uma vez que a população que aqui estava era composta de tropas que basicamente permaneciam nos fortes. Com a ocupação dos holandeses a grande maioria da população passou a ocupar outras áreas, e segundo (Aguiar, 2002, p. 42) o local mais “parecia uma cidade fantasma”.
 
 
 
 

O retorno do domínio Português. 
 

                  No inicio do século XVIII a cidade da Paraíba, mais uma vez sob domínio português, ainda apresentava uma estrutura social modesta, em torno de 1.000 habitantes em seu núcleo urbano. Com o propósito de estimular seu crescimento, foram intensificadas as doações de Sesmarias.


 
 
 

                    Segundo Aguiar (2002), a qualidade do ambiente urbano deixava muito a desejar:
As ruas sujas e sem calçamento, recebiam o lixo atirado das residências. As águas das chuvas é que se encarregavam de fazer alguma limpeza. Um exemplo: havia uma esquina das atuais ruas General Osório e Peregrino de Carvalho um buraco em que a população depositava muito lixo (Aguiar, 2002: 66).
 
 
 
 

                 Era necessário a todo custo fortalecer as colônias implantadas no Brasil para que não fossem diretamente atingidas pelas tensões que a economia européia passava nesse período, oriundas do conflito entre o capital mercantil e o capital industrial. Inúmeras mudanças, contudo se operavam devido à paulatina crise do sistema colonial no Nordeste, ocasionada pelo surgimento de novos centros produtores de açúcar, e a rentável exploração do ouro, deslocando a dinâmica econômica para o centro-sul do país. A capital da colônia foi transferida para a cidade do Rio de Janeiro (1763) por onde se dava o escoamento do ouro.
 
 
 

                   Aos poucos, foi surgindo uma nova estrutura social fruto da passagem do poder das mãos dos senhores de engenho para as mãos dos mercadores promovendo uma discreta alteração no espaço da cidade da Paraíba. Através de carta régia de 1715, ficou determinada a necessidade de qualificação do espaço urbano através da recuperação dos imóveis que estivessem em péssimo estado de conservação e investimentos em infra-estrutura (Vieira, 2001).
 
 
 

                   A cidade chega ao século XIX com uma população em torno de 3.000 habitantes, coincidindo com a finalização de uma das etapas do processo de transformação vivenciado pela sociedade brasileira. Essa fase durou aproximadamente três séculos, onde predominaram as economias de subsistência ao lado de setores extrativos -exportadores como pau-brasil, ouro e prata.
 
 
 

                    Apesar da região nordeste ter sido a mais urbanizada do século XVIII, esse período ficou caracterizado pela ausência dos serviços básicos como saneamento, pavimentação das vias, abastecimento de água. Apenas as maiores cidades tinham calçamento, mas o saneamento não existia, o lançamento dos dejetos era feito nas vias públicas ou transportado por escravos em barris para serem lançados nos rios, praias ou demais cursos d’água.
 
 
 

                    Apesar das freqüentes exaltações com relação às belezas naturais da região, talvez pela sua abundância, verificou-se ao longo desses três séculos, a utilização desmedida e predatória do patrimônio natural encontrado na região (pedras, madeiras das matas, água das fontes e nascentes). A inexistência de legislação urbanística compatível com as necessidades locais que pudesse disciplinar o crescimento das cidades (normalmente seguiam os códigos da Coroa Portuguesa), resultou num volume de problemas que foi se acumulando nos períodos seguintes. 
 
 
 
 
 

Do século XIX ao século XXI: rumo a cidade capitalista-industrial

                     A chegada da família real ao Rio de Janeiro (1808), capital da colônia, juntamente com uma comitiva de 10 mil pessoas, provocou profundas mudanças em todas as áreas do cenário nacional, entre elas a social, a política, tecnológica e econômica. Estimulada pelo decreto de abertura dos portos a todas as nações, franqueando-os ao comércio internacional livre, as atividades comerciais tomaram vulto, a produção industrial foi liberada, os preços da matéria-prima se elevaram e desapareceram os intermediários estrangeiros, refletindo no deslocamento de grande parte da população do campo para os centros urbanos em busca de trabalho.
 
 

 

                    Durante o período correspondente à primeira metade do século XIX, caracterizado por uma estrutura econômica nacional baseada no comércio interno e internacional, a população da cidade da Paraíba, que no inicio do século possuía em torno de 3.000 habitantes, passou em 1822 para 5.000 habitantes. Diferentemente das intervenções urbanas que vinham acontecendo na capital federal por parte da municipalidade, verificou-se na cidade da Paraíba um adensamento de problemas dentro do seu espaço urbano, pela ausência de infra-estrutura básica que atendesse às solicitações da nova realidade. 


 
 
 

                    Entre 1851 e 1872, a população aumentou de 9.000 para em torno de 24.000 habitantes. Sua estrutura física era constituída pelos equipamentos básicos necessários ao exercício de sua função administrativa e comercial. Em 1862 a cidade foi surpreendida por um segundo surto de cólera devido às precárias condições ambientais, oriundas de sua estrutura física. Além do parcial abastecimento d’água e da pavimentação, o lixo se acumulava no leito das ruas espalhando mau cheiro e causando proliferação de doenças. Os dejetos orgânicos eram despejados em cloacas próximas ao rio Sanhauá, e, devido à falta de iluminação pública, as trevas dominavam a cidade, assuntando a população que evitava sair às ruas após o crepúsculo. 
 
 
 

                     A partir do século XX verificou-se, de maneira geral, um intenso êxodo rural em direção às cidades, provocando um acelerado crescimento destas, fato responsável pelo incremento do processo de urbanização no país e consolidação do capitalismo industrial. Libertos do trabalho escravo, essa população, expulsa do campo em função das condições climáticas (secas) e das novas relações de trabalho na área rural (mecanização e monocultura), para aí se dirigiu com o objetivo de vender sua força de trabalho e se adaptar às mudanças sócio-econômicas ditadas pelo emergente modelo capitalista industrial.
 
 
 

                    A cidade da Paraíba conheceu esse processo devido a grande seca iniciada em meados de 1898. Um paulatino contingente de trabalhadores do campo se mudou para a capital buscando melhores condições de vida. A cidade começou a se expandir ocupando os espaços de ligação com os sítios e engenhos vizinhos provocando uma intensificação dos problemas urbanos existentes.
 
 
 

                   As modificações operadas na cidade do Rio de Janeiro, vivenciadas pelo governador da cidade da Paraíba, Álvaro Machado, no período em que lá residia, serviram como referência para o sopro de modernidade que ele procurou dar a cidade sob sua administração. Esse processo, com base no que vinha ocorrendo na Europa, guardava relação com os planos urbanísticos implementados em Paris, tendo a frente o Barão de Haussmann, visando solucionar os problemas urbanos gerados pelo acelerado processo de industrialização naquele país.
 
 
 

                    Os planos urbanísticos franceses valeram-se do movimento higienista iniciado em fins do século XVIII que insistia na teoria de que os males advinham da estagnação de todo o tipo – água, lixo e homens, havendo a necessidade de um desenvolvimento baseado no trinômio sanear, circular e embelezar (quadro 02). Este fato tornou-se responsável pelo surgimento de redes de saneamento cuja palavra de ordem da engenharia sanitária na época era, através do saneamento, promover a circulação desses três elementos dentro da malha urbana. Tendo como pano de fundo um ideal estético para a estrutura física da cidade, ocultava a intenção de deslocar a população de miseráveis da cidade e eliminar o risco de epidemias proveniente desse meio e que ameaçava a classe rica.
 
 
 

                    Esse novo modelo de planejamento invadiu os trópicos, a ordem era: a abertura de grandes avenidas, a implantação de bulevares, jardins, parques urbanos e edifícios públicos monumentais para compor o cenário do progresso. Por essa época grande parte das capitais brasileiras alterou suas fisionomias instituindo intervenções urbanas que apagassem a imagem colonial que impregnava suas estruturas urbanas. 
 
 


 
 

                    Na cidade da Paraíba, apesar de suas especificidades locais, instalaram-se as bases da reforma urbana, característica do século XX, comum às demais capitais do país. Fazia-se necessário tornar o meio urbano mais salubre, combatendo o avanço das doenças e epidemias cada vez mais constantes, melhorar o sistema de circulação e embelezar a cidade. 
 
 
 

                    As transformações implementadas no país trouxeram conseqüências sociais e ambientais profundas, que se arrastam até a atualidade, devido sua preocupação apenas com o aspecto estético das cidades, secundarizando seu quadro social remanescente do período escravocrata. 
 
 
 

                    As intervenções urbanas e normalizações construtivas na verdade se caracterizaram como obras de embelezamento das cidades no intuito de mitigar os problemas que se agravaram progressivamente: o déficit habitacional e baixo padrão das moradias, insalubridade, precariedade do abastecimento, do saneamento e das vias de circulação. Um contingente humano, na sua grande maioria escravos libertos após a abolição da escravatura, não foi absorvido pelo novo modelo econômico, passando a viver às margens da estrutura territorial das cidades, ocupando áreas de preservação ambiental, entre elas os vales dos rios.
 
 
 
 
 

A construção do espaço cultural nos vales dos rios.
                  Até 1910 a lagoa dos Irerês (atual Parque Sólon de Lucena) configurava-se como barreira física, prevalecendo a idéia de que para a expansão da cidade estariam disponíveis dois vetores distintos de crescimento, um no sentido Leste e outro no sentido Sudeste. Em torno da área da lagoa predominava mata densa e havia sérios problemas para drenagem das águas pluviais, fato que tornava o local insalubre à ocupação.

 
 
 

                     Somente após a execução do projeto de saneamento na década de 20, o local deixou de ser um entrave ao desenvolvimento da cidade tornando possível a abertura de avenidas e o surgimento de novos bairros. Na busca desse desenvolvimento, coerente com o novo modelo da reforma urbana que vinha sendo empregado em várias cidades do país, João Pessoa (PB) começa a vivenciar um intenso parcelamento do seu território e modificação na estrutura social.
 
 
 

                    Através do crescimento da malha urbana no sentido leste, verificou-se a consolidação do antigo caminho em direção ao litoral. Essa expansão está diretamente relacionada com a implantação de atividades comerciais e ao surgimento de bairros elegantes e providos de infra-estrutura urbana, ocupados por uma classe emergente com alto poder aquisitivo, responsável pelo adensamento das áreas litorâneas. Também se observou a consolidação da estrada dos Macacos (em direção sudeste), através da incorporação à malha urbana de um antigo núcleo residencial, onde predominavam habitações para classes populares.
 
 
 

                     O crescimento da malha urbana no sentido sul está diretamente relacionado com a consolidação do corredor de comércio e serviços ao longo da estrada, em direção aos estados vizinhos e cidades do interior, havendo a incorporação de antigos núcleos residenciais e sítios à malha urbana. Essas áreas, na época caracterizadas pela deficiência de serviços e infra-estrutura urbana, se encontravam ocupados pelas parcelas mais inferiores da estratificação social. 
 
 
 

                    O ônibus inserido como um novo serviço em 1927, facilitou o deslocamento da população e permitiu a integração com as áreas mais distantes da cidade. Novas áreas foram implantadas e o processo de segregação social e degradação ambiental, cada vez mais evidente nos anos seguintes, se instaurou em conseqüência do modelo de desenvolvimento urbano. 
 
 
 

                    Com a incorporação do automóvel particular ao cotidiano da cidade, a concepção de espaço público foi ampliada. Aos poucos, os espaços tradicionais de circulação, moradia, trabalho e lazer, foram redefinidos e remodelados, configurando as bases da estruturação urbana atual da cidade. A maioria dos sítios e matas existentes próximos à área urbana foi pouco a pouco absorvida pelo crescimento da cidade, transformando-se em loteamentos para fins residenciais.
 
 
 

                   Coutinho (2004, p. 50) evidencia o processo de degradação ambiental, ilustrado na figura 02, associado à expansão da cidade sem haver uma preocupação ambiental, ao afirmar que “a abertura de novas vias, trataria de quebrar o frágil equilíbrio ecológico de florestas atlânticas, manguezais, charcos, vales de rios e córregos espalhados pelo território da cidade”. 
 
 
 

                    Em seus estudos, Chagas (2004) observou que a implantação do modelo modernista como ordem primeira, em João Pessoa (PB), chegou a gerar discórdia entre vários grupos locais. Esses se mostravam contrários às alterações desmedidas e sem planejamento na estrutura urbana, com conseqüências diretas na estrutura social, estimulando a segregação da sociedade, e natural, provocando a degradação das áreas de preservação.
 
 
 
 

Figura 02
Aterro das margens do rio Jaguaribe durante as obras da Avenida Epitácio Pessoa em 1933. Foto publicada no jornal O Norte em 25.12.1988 (Coutinho Op. Cit.: 50)


 
 
 
 

                    Na sua grande maioria, os rios, corredores biológicos ricos e complexos por onde a natureza se torna presente dentro das cidades, foram pouco considerados enquanto elemento enriquecedor do espaço urbano de João Pessoa (PB) tornando-se locais onde diversas atividades passaram a ser desenvolvidas e abrigando diferentes funções. 
 
 
 

                    Reflexões como essa vêm ao encontro da necessidade de aprofundar uma leitura sobre a dinâmica da cidade em áreas de fragilidade ambiental e suas conseqüências sócio-ambientais na busca de ações compensatórias e / ou medidas mitigadoras que possam contribuir para a gestão e busca de equacionamento dos problemas dos espaços urbanos oriundos do atual modelo de desenvolvimento econômico.
 
 
 
 

Conclusões.
 
 

                    Na verdade, o acelerado desenvolvimento urbano e a grande quantidade de indivíduos vivendo num espaço restrito, desenvolvendo atividades econômicas vinculadas a modernos padrões tecnológicos, têm provocado degradação nesse ambiente, resultando, na atualidade, num quadro de poluição em suas diversas modalidades: do solo, da água, do ar, acústica, culminando no comprometimento da qualidade de vida no espaço urbano.
 
 
 

                    Nesse contexto se destacam de maneira singular os vales dos rios urbanos, assim denominados por terem sido absorvidos pelas cidades no seu dinâmico processo de expansão. A degradação ambiental das bacias hidrográficas urbanas é hoje uma realidade nas cidades a nível global e mesmo havendo um zoneamento estabelecido por legislações específicas, buscando uma normalização para sua ocupação, é difícil estabelecer limites para essa dinâmica de crescimento. Na tentativa de harmonizar este processo verifica-se a aplicação de soluções de ordem tecnológica ou formal que pouco contribuem para promover a integração das cidades a esse espaço de grande valor ambiental. Estas soluções, na maioria das vezes evidenciam a ausência de políticas públicas, justificando dessa maneira a atual realidade das cidades. 
 
 
 

                    No Brasil a realidade que é apresentada mostra as áreas ribeirinhas como locais extremamente degradados. O processo veloz de expansão urbana ao invés de valorizar seu potencial paisagístico transformou essas áreas em locais poluídos, com suas margens ocupadas ilegalmente, tratadas como lugar de despejo de lixo e esgoto, desprezadas e esquecidas. O processo de urbanização na verdade tem tratado com desprezo os cursos de água, origem e razão de ser de muitas cidades no passado, verificando-se que na atualidade, a maioria delas voltou as costas para as áreas dos rios, transformando-as em locais onde os resíduos produzidos pela dinâmica da cidade são lançados, tornando impossível a fruição de sua paisagem. 
 
 
 

                    O processo de migração operado entre 1970 e 1990, segundo IBGE, quando 30 milhões de brasileiros saíram de seus locais de moradia no campo e migraram para as cidades, levou a ocorrência de uma série de problemas sociais e ambientais. O fluxo migratório vindo da área rural ou cidades de menor porte em busca de emprego formalizado, não foi absorvido pelo mercado de trabalho em igual proporção, ficou à margem do sistema e buscou formas alternativas de sobrevivência, em específico, a moradia, passando a ocupar ilegalmente e precariamente as áreas periféricas, tais como, as várzeas inundáveis e encostas íngremes dos vales dos rios. 
 
 
 

                    Sob esses aspectos as áreas inseridas nas bacias hidrográficas passam a representar “uma espécie de termômetro dos problemas sociais e ambientais das cidades onde eles se fazem presentes”; são áreas onde emergem os grandes conflitos ambientais e sociais, refletidos na nova maneira da cidade se relacionar com os rios existentes (Chacel, 2001, p.20).
 
 
 

                    Ao que parece, a sociedade perdeu a empatia dos antigos usos e funções que se estabeleciam ao redor da água a partir da implantação de complexo sistema viário capaz de fornecer fluidez ao padrão de vida urbana. Foi quebrada a magia das águas dos rios, pois como define Bachelard os rios simbolizam a imagem do movimento, onde “as águas que correm e que nunca passam duas vezes pelo mesmo lugar nos remetem à dimensão da temporalidade”, trazendo, portanto, a imagem da fluidez do tempo (Bachelard apud Costa, 2002).
 
 
 

                    Aos poucos os rios e lagoas, inseridos no tecido urbano, foram sendo afastados do cotidiano das populações, em particular nas grandes cidades. O olhar que atualmente se lança sobre eles é um olhar sobre algo distinto do contexto, por vezes encarado até como um obstáculo a ser vencido para a expansão da cidade. São lembrados apenas quando se tornam notícias na mídia, no período das chuvas, devido às enchentes provocadas pelo desmatamento da mata ciliar provocando assoreamento de seu leito e ocupação de suas margens. 
 
 
 

                    O percurso dos rios dentro da malha urbana é tarefa quase impossível, não importa se passa por assentamentos subnormais ou bairros de classe alta, os rios urbanos recebem o mesmo tipo de tratamento. Tem seus percursos alterados ou retificados, são totalmente ou parcialmente aterrados, ora tratados como fundo de lotes, ora tratados como avenidas-canal cujas margens e o fundo do leito são revestidos com concreto (Costa, 2002). A paisagem em todas elas é basicamente a mesma, o rio é negado, invadido ou usado como cenário.
 
 
 

                    A possibilidade de uso de suas margens como área lindeira  , a exemplo de cidades em países desenvolvidos que tem utilizado os rios como instrumento estruturador do tecido urbano, ao longo do qual se dá o desenvolvimento da cidade, e também como elemento mediador das relações entre o sistema da natureza e os processos culturais; é dificultado em paises como o Brasil em função das profundas contradições vivenciadas no âmbito socioeconômico com reflexo no ambiental.
 
 
 

Referências.

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BRECHT, Bertolt: Bertolt Brecht 1913 – 1956. São Paulo: Ed. 34, 2000.
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CHACEL, Fernando. Paisagismo e ecogênese. Rio de Janeiro: Fraiha, 2001.
CHAGAS, Waldeci Ferreira. Modernização e transformação urbana na cidade da Parayba (década de 1910/1930). Tese de Doutorado para o Programa de Pós-Graduação em História - UFPE/ CFCH, Recife, 2003.
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COUTINHO, Marco Antonio Farias. Evolução urbana e qualidade de vida: o caso da Avenida Epitácio Pessoa – João Pessoa - PB. Dissertação de Mestrado para o Programa Regional de Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) - UFPB/ CCEN, João Pessoa, 2004. 
DIAS, Genebaldo Freire. Pegada ecológica e sustentabilidade urbana. São Paulo: Gaia, 2002.
HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
RIBEIRO, Maria de Fátima Chaves Ramos. Avaliação do índice de salubridade ambiental por setores urbanos, dentro do conceito de cidades saudáveis: o caso de João Pessoa - Pb. Dissertação de Mestrado para o Programa Regional de Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) – UFPB / CCEN, João Pessoa, 2004. 
VIEIRA, Flaviana Dias. Águas Ocultas: O rio Sanhauá e a cidade de João Pessoa. Dissertação de Mestrado para o Programa de Pós Graduação em Urbanismo – UFRJ / FAU, Rio de Janeiro, 2001.

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