Entre a  exclusão e o respeito: a cultura negociada em uma mancha de lazer


 Thomás Antônio B. Meira
Mestrando em Antropologia

Universidade Estadual de Londrina

 
 
 
 

Introdução

Pretendo,  com este artigo, expor algumas perspectivas e reflexões acerca da pesquisa que venho realizando na cidade de Londrina. Desde seu início, a história desta cidade foi marcada por uma dinâmica peculiar entre o rural e o urbano. Estas duas esferas, que possibilitaram o surgimento e o desenvolvimento econômico da cidade, manifestam-se na formação de um imaginário que permeia todo do cotidiano de sua população. A análise do cotidiano londrinense está sendo pautada pela observação de uma mancha de lazerSegundo Magnani, a mancha designa uma área contígua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam, cada qual à sua especificidade, competindo ou complementando, uma atividade prática dominante. As atividades que oferecem e as práticas que propiciam são resultado de uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso, garantindo uma continuidade e transformando-a em ponto de referência físico, visível e público para um número amplo de usuários. (Magnani, J. G. C. Da periferia ao centro: pedaços e trajetos. Espaços e Debates. V!!, Número 5, pp. 67 - 80. Mar Jun 1982).(Magnani, 1992) com referências GLSGays, lésbicas e simpatizantes. A categoria engloba homossexuais / bissexuais masculinos e femininos, assim como entendidos de ambos os sexos. Alguns indivíduos podem ainda (...) conservar filiação ao mundo homossexual sem se engajar em práticas homossexuais (Goffman, 1978). A categoria é aqui utlizada por sua própria abrangência, já que a observação privilegia a construção social do espaço em questão, tomando categorias relativas à sexualidade como eixo mediador desta observação., localizada na região central da cidade. Devido à sua localização, esta mancha de lazer, apesar de seu status GLS, atrai as mais diversas tribosA expressão tribos urbanas, na realidade não remete à uma categoria, mas sim à uma metáfora, na medida em que a primeira é construída para recortar, descrever e explicar algum fenômeno a partir de um esquema conceitual previamente estabelecido, e a segunda traz consigo a denotação e todas as conotações distintivas de seu uso inicial. Se em seu contexto original a tribo designa uma forma de organização ampla, constituída na forma de um pacto que aciona lealdades para além dos particularismos de grupos domésticos e locais, no contexto das sociedades complexas as tribos urbanas mostram-se como grupos bem delimitados, com regras e costumes particulares, em contraste com o caráter homogêneo e massificado normalmente atribuído ao estilo de vida das grandes cidades. (Magnani, J. G. C. Tribos Urbanas: metáfora ou categoria?. Cadernos de Campo. São Paulo, USP, 1992. ano III. nº 2.), que se deslocam das mais variadas regiões da cidade a procura de suas baladas. É importante ressaltar o fato de que nenhum dos equipamentos de lazer localizados nesta mancha é apropriado exclusivamente por grupos GLS, e, portanto, grupos com diferentes visões de mundo vêem-se obrigados a negociar a produção e apropriação do espaço em questão. A partir da própria dinâmica de desenvolvimento da cidade – rural e urbano – e da especificidade desta mancha de lazer – GLS -, classifico as visões de mundo destes atores em “tradicionais” e “modernos”, tomando como eixo mediador da classificação os discursos acerca da alteridade e tolerância no que toca à sexualidade. A análise dos discursos será apoiada pela teoria interacionista do desvio, na qual a cultura é encarada como multifacetada e política, de forma que o desvio surge como uma relação de acusação entre atores que negociam comportamentos, limites e valores em determinadas situações. 
 
 

A partir deste quadro teórico pretendo responder algumas questões: Como diferentes visões de mundo se manifestam nesta mancha de lazer? Em torno de quais símbolos se efetivam estas visões de mundo? Lugar de todos e de ninguém, como são negociados os espaços no centro da cidade? Como podem coexistir em um mesmo espaço visões de mundo, à primeira vista, tão divergentes? Como a população reage à sua própria diversidade?
 
 
 

Rural e urbano em Londrina
 
 

A pesar de Londrina ter se instalado oficialmente em 1934, os anos 20 foram fundamentais ao desenvolvimento de sua região. No começo da década, o governo estadual passa a conceder terras às empresas privadas de colonização e em seus meados inicia-se a história da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), subsidiária da firma inglesa “Paraná Plantations Ltd.”. Inicialmente, as terras da região seriam utilizadas para o plantio de algodão, mas devido aos preços baixos e à falta de sementes sadias no mercado, o empreendimento fracassou. Encarregadas de transformar as propriedades do empreendimento frustrado em projetos imobiliários, entram em cena a firma inglesa e sua subsidiária brasileira. Repartindo os grandes terrenos em lotes relativamente pequenos, o novo projeto de colonização estimulou a concentração da produção cafeeira, possibilitando também a explosão demográfica, decorrente do surgimento de pequenas e médias propriedades. A especulação fundiária exigia a presença de um núcleo urbano capaz de garantir as condições mínimas aos proprietários rurais em termos de coleta, beneficiamento e transporte da produção, ofertas de bens e serviços de atendimento às demandas básicas da população rural. Londrina surge mediante a organização de um mundo rural ligado à cafeicultura, e de um mundo urbano voltado aos serviços, já que a cidade desempenharia o papel de pólo irradiador do processo de colonização (Maia,  2004).
 
 
 

Este cuidadoso planejamento foi seguido em toda a área colonizada pela CTNP, o que garantiu a ocupação das propriedades rurais concomitantemente ao surgimento das cidades e patrimônios. (...) De acordo com as diretrizes gerais do projeto, a colonização deveria viabilizar relações estreitas entre campo e cidades, permitindo, ao mesmo tempo, facilidades de escoamento e comercialização da produção agrícola, e uma estrutura adequada de atendimento à população migrante que chegava à região. Dessa forma, enquanto meio rural foi concebido como o local de trabalho, da terra fértil e a fonte geradora de riqueza, os povoamentos e cidades foram planejados como núcleos de comércio, prestadores de serviços e sedes jurídico – administrativas. (Almeida, 1997: 96 – 97)
 
 
 

A cidade de Londrina foi criada com sua planta urbana – para abrigar até 20.000 habitantes - elaborada anteriormente ao ato de sua fundação.  Dez anos mais tarde, em meados da década de quarenta, a população da cidade excedia o planejamento inicial (Fresca, 2002). Mas, foi ao longo da década de 50 que Londrina apresentou a maior expansão econômica, populacional e físico – territorial de sua história. Apesar de neste período a cidade ter sido conhecida como “capital mundial do café”, seu desenvolvimento e sua expansão não se devem a esse único motivo. Inserido no mercado internacional, o café estava exposto às flutuações do mercado, estando vulnerável aos fatores climáticos e à superprodução.  A garantia que os pequenos e médios produtores tinham para que suas receitas não fossem comprometidas de uma safra para outra era dada pela pequena produção mercantil, que permitiu à cidade de Londrina sua expansão e dinâmica econômico – social (Fresca, 2002).
 
 
 

A década de 50 marca também o inicio precoce da construção de edifícios verticais em Londrina, projetados por arquitetos de renome nacional. “Os edifícios de vários andares já começaram a surgir, não como índice de falta de espaço, mas atestando a riqueza da cidade e a sua chegada a uma base de princípios de modernidade” (Prandini apud Fresca, 2002). Nesta década, as lojas grã – finas e os salões de chá mostravam a chegada de hábitos de consumo moderno e a riqueza da cidade. 
 
 
 

O censo de 1960 mostra a inversão da distribuição populacional em Londrina, quando a população urbana passa a dominar este quadro com 57,39% do total. Já em 1980, o índice atinge 85,46%. (IBGE, apud Fresca, 2002). O processo de verticalização que se iniciou na década de 1950, ampliou-se gradativamente nas décadas seguintes. Mas a partir de 1980, este processo ganhou ampla proporção, e a verticalização do centro da cidade destacava-se não apenas como ideal de modernidade, mas como fruto de especulação imobiliária. Neste período a economia nacional passava por sucessivos planos econômicos que acabaram por favorecer a construção civil. Os promotores imobiliários concentravam sua ação no centro da cidade, criando condomínios verticalizados para a classe alta. Até a criação de condomínios de alto padrão na periferia da cidade, as áreas de maior valor estavam no centro da cidade, nas proximidades das ruas Goiás, Paranaguá e Belo Horizonte e da avenida Higienópolis (Fresca, 2002).
 
 
 

Apesar de sua urbanização, ainda hoje o agronegócio movimenta grande parte da economia da cidade. Se a própria economia proporcionou a dinâmica que a cidade tem entre o urbano e o rural, as formas que se assumiram no centro da cidade também são fruto de todo um imaginário de progresso, riqueza e modernização. A intenção aqui é demonstrar que a história da cidade ainda está presente nas visões de mundo de sua população, combinando a tradição à modernidade. Tentarei demonstrar isso através da análise de uma mancha de lazer. 
 
 
 
 
 

Uma mancha de lazer: tradicionais e modernos
 

A mancha de lazer abordada nesta pesquisa localiza-se na região central da cidade. Mais especificamente, está circunscrita entre as avenidas Bandeirantes e Juscelino Kubitscheck e as ruas João Cândido e Jorge Velho. Esta mancha é composta por três lanchonetes freqüentadas pelos mais diversos usuários (Lanchebom, Arnaldo’s e Rangus) e por quatro bares, sendo que três deste possuem referências GLS (Valentino, Bar do Jota e Mangá). A localização central desta mancha faz da região ponto de encontro de diversos grupos – universitários, pessoal de teatro, rockers, punks, darks, hippies, manos, entre outros – o que nos leva a observar, diante da diversidade no interior dos grupos, que nenhum destes equipamentos é apropriado exclusivamente por GLS.
 
 
 

Em um primeiro reconhecimento, o Mangá parece ser o equipamento mais exclusivo dos GLS, apesar de ser freqüentado também por heterossexuais. Já o Bar do Jota parece ser o mais aberto aos diversos grupos. O Valentino é o mais diversificado dos bares em questão, concentrando muito dos dois: GLS ou “não GLS”. Este último é considerado um dos bares mais tradicionais da cidade, sendo que recentemente promoveu uma grande festa de comemoração de seus 25 anos. Também é o mais caracterizado como GLS, e, freqüentemente surgem na cidade algumas “lendas” de que o lugar foi vendido para um grande empresário. Para a tristeza de muitos, parece que em breve o boato irá se concretizar. Ainda assim, ouve-se história de que o bar será reproduzido fielmente em outra área da cidade. Fatos como esse demonstram claramente a afetividade de uma parte da população para com este espaço Por este motivo, a observação deste equipamento está sendo privilegiada, sendo que os demais .A afetividade pelo bar fica clara se observarmos que cerca de 60% do acervo musical do estabelecimento é  formado por doações.
 
 
 

“Uma pessoa que não está fazendo nada, pega uma tarde e grava músicas que ela gostaria de ouvir no Valentino, escreve uma dedicatória, assina e pronto. Ainda temos muitas fitas k –7 aqui, a maioria dos anos 80. Tocamos até hoje”. (Trecho de uma entrevista concedida por um dos atuais proprietários.)
 

A história do Valentino inicia-se em 1979, a partir de uma festa bem sucedida idealizada por seus primeiros proprietários e ocorrida no mesmo local onde ainda hoje se encontra o bar. Naquele ano, e durante alguns outros que o sucederam, o bar literalmente era uma casa. Tinha paredes internas, salas, cozinha, e um único banheiro unissex. Se em seu início a estrutura do bar era a de uma tradicional casinha de madeira, sucessivas transformações ao longo destas duas décadas e meia transformaram o ambiente. Em um primeiro momento, o ambiente original foi adaptado: as paredes internas foram retiradas, algumas paredes laterais foram inclinadas, acrescentaram-se varandas laterais. Seus muros ainda eram baixos e o ambiente aberto, permitindo a fácil circulação das pessoas entre o bar e a rua. Segundo um de seus atuais proprietários, o Valentino era “um bar onde todos entravam e saiam com muita liberdade”. “Eram tempos menos perigosos”, acrescenta. 


 
 

Posteriormente, nos anos mais recentes, medidas de segurança foram tomadas. Algumas varandas foram desmontadas, as janelas ganharam grades e as regras ficaram mais rígidas. A partir de uma certa hora da madrugada não se entra mais no bar. Ainda segundo um de seus proprietários atuais, as medidas de segurança limitaram um pouco a espontaneidade do público. Ainda assim, a espontaneidade  parece ser, ainda, uma das marcas características deste espaço. Atualmente, apesar das referidas restrições por questão de segurança, o Valentino não exige consumação mínima ou couvert artístico de seus freqüentadores, exceto às quartas, quintas – feiras e  domingos, quando são realizadas apresentações musicais de vários estilos. A taxa é cobrada até às 23 horas e o bar possui mesas externas, possibilitando aos freqüentadores a permanência nesta área sem que tenham que desembolsar o dinheiro, quase sempre contado. O proprietário entrevistado afirma que o diferencial do Valentino em relação aos demais bares da cidade é seu caráter underground e a ausência de uma procura desenfreada pelo lucro:
 
 
 
 

“Não há uma pressão para que o garçom fique enchendo os copos toda hora para que o assento ocupado renda. As pessoas já são pressionadas o dia inteiro, em casa, no trabalho”.
 

A primeira coisa que se observa quando nos aproximamos do Valentino, principalmente nos finais de semana, é o movimento. Muitos carros estacionados na avenida Bandeirantes e na rua Jorge Velho. Alguns chegando, outros indo embora. O Valentino é local de passagem para alguns, e de permanência para outros. De lá as pessoas partem para outras baladas; ou o inverso. Na mancha de lazer em questão, há um circuito que se realiza entre os bares Valentino, Mangá, bar do Jota e as lanchonetes Lanchebom e Arnaldo’s. A proximidade entre os equipamentos permite que o circuito se realize nas caminhadas. Os carros são utilizados pelos usuários apenas quando pretendem se deslocar para alguma festa ou outro bar um pouco mais distante. Nos finais de semana é comum uma viatura policial parada na porta do Valentino, pois a grande rotatividade do público durante a noite facilita pequenos furtos ou pequenas negociações de drogas ilícitas, principalmente a cocaína e a maconha. Por este fato, também é comum a presença de seguranças no portão do bar.

 
 
 
 

Os que chegam, antes de adentrarem no que outrora fora uma casa de madeira, devem passar pelo ambiente externo do bar, que conta com algumas mesas e bancos de concreto e uma varanda num nível um pouco mais alto, também com algumas mesas e janelas. Mesmo externamente o ambiente é escuro e tudo ocorre à meia luz. A comunicação entre a área externa e a interna é possibilitada por uma porta e três janelas que permitem aos usuários dar uma espiada nas apresentações musicais sem que tenham que pagar o couvert


 
 

O ambiente interno é formado por um balcão ao estilo pub, com bancos altos em toda sua extensão. Paralelo ao balcão forma-se um corredor onde os usuários circulam para ir à área externa na frente do bar, ou ao banheiro, nos fundos. No meio deste corredor há um espelho grande, fixado bem no alto, permitindo que os usuários tenham uma visão do que está ocorrendo no bar, mesmo que estejam de costas. Principalmente neste corredor ocorrem as paqueras. O corredor é também intermediário entre o balcão e o espaço, um pouco mais amplo, onde se concentra a maior parte das mesas, agora de madeira. A maior concentração de mesas está cercada pelo palco, não muito mais alto que uma sarjeta, e o corredor. A única divisão interna é feita por uma parede entre o espaço das mesas e um outro corredor onde se encontram algumas mesas mais reservadas. Nesta parede uma grande vitrine chama a atenção pelo fato de expor alguns objetos ou o figurino utilizado em alguma das peças teatrais apresentadas no bar. A outra parede deste corredor, que possibilita a comunicação do interior com lateral externa do bar, chama a atenção por sua inclinação, obra de um engenheiro, antigo proprietário do bar. Nos fundos ficam os banheiros masculino e feminino e mais um pequeno balcão em frente a um espelho horizontal. Embora o publico não tenha acesso à cozinha, esta também está localizada nos fundos. Lá é preparada a tradicional macarronada, um dos atrativos do Valentino. Quase todas as paredes são repletas de quadros feitos a partir de cartazes de eventos já ocorridos no bar. Estes quadros misturam-se a outros, que estampam ícones pop dos anos 70 ou obras de Toulouse – Lautrec. As conversas e paqueras são embaladas quase sempre ao som do rock anos 70 e 80 e de música alternativa dos anos 90. Mais recentemente a música eletrônica também passou a ser trilha sonora do bar. Apesar da ausência de divisões internas em sua estrutura, a disposição do espaço, algumas vezes, ainda nos dá a impressão de transitar de um cômodo ao outro da antiga casa. 
 
 
 

O bar Valentino é conhecido pela população da cidade – jovens de hoje e da década de 1980 – por sua vocação cultural e pela diversidade de interesses estéticos que se observa entre seus freqüentadores. O bar já foi palco de peças de teatro, musicais, mostras de vídeo e durante os anos 80 eram freqüentes os happenings
 
 
 
 

"Essa espontaneidade do bar tinha muito a ver com os anos 80. Liberação total, o pessoal vinha de uma ditadura militar, as publicações voltando a ser democráticas. Não tínhamos uma programação cultural como hoje. As coisas aconteciam".
 
 

Além do Valentino, durante a década de 1980 apareciam também neste contexto de refusão cultural os bares Vilão, Artigo 23 e Bar Brasil. Devido ao seu caráter espontâneo, as “coisas” aconteciam no Valentino, que, dentre estes bares, aparece como espaço chave para os debates e manifestações culturais.


 
 

A efervescência cultural presente neste espaço coincide com uma época em que o surgimento da epidemia de HIV torna público o debate acerca da sexualidade. A sexualidade, antes ligada ao amor e as emoções, com o surgimento da epidemia de HIV, passa a ser objeto de cálculos e medidas racionais, socializado e sancionado por um discurso eminentemente público (Loyola, 1999). Uma das características marcantes deste espaço, é que, em meio à tamanha heterogeneidade de seu público, o Valentino é, desde seu inicio, um ponto de encontro gay.
 
 
 

Por sua vocação cultural e sua localização central, o Valentino, assim como toda essa mancha de lazer, é atrativa para vários grupos. Este fato acaba por contribuir para que diferentes visões de mundo coexistam num mesmo espaço, obrigando os atores à negociação permanente das regras de sociabilidade. Dentre os diversos grupos de freqüentadores desta mancha, temos em comum o fato do imaginário de muitos atribuir ao Valentino o status de GLS, embora o espaço seja freqüentado em grau de equidade por heterossexuais.
 
 
 

Por conveniências metodológicas, as diferentes visões de mundo presentes neste espaço serão agrupadas em “tradicionais” e “modernas” (Heilborn, 1999; Low, 2000; Menezes, 2000), sendo que o eixo mediador desta classificação será a análise dos discursosCaptados por algumas entrevistas e depoimentos na internet.  no que toca a alteridade e tolerância quanto à opção sexual dos GLS. Estas categorias também se associam à própria dinâmica do desenvolvimento da cidade, que, como demonstrado acima, alia o rural, o agro – negócio, à especulação imobiliária do solo urbano e aos ideais de modernidade. 
 
 
 

A questão das identidades culturais não pode ser abordada no exterior de uma reflexão sobre as novas formas de organização do território. Sobretudo porque assistimos a uma coexistência de formas diversas: as lógicas tradicionais permanecem, coexistem e, mais do que isso, articulam-se, com as lógicas modernas. Por isso é importante não só identificar as formas espaciais, mas também compreender as articulações e os desajustes produtores de movimento. (Menezes, 2000: 172)
 
 
 

Assim, estão classificados como “tradicionais”, aqueles atores cuja análise do discurso os remete como reprodutores de uma ideologia sexual dominante, na qual as relações de gênero e a sexualidade são atribuídas ao sexo anatômico e não à construção social da identidade sexual (Brasil, 1999). O depoimento a seguir exemplifica um discurso enquadrado como “tradicional”:
 
 
 
 

“Sinceramente formou-se ali – no bar Valentino – um gueto da comunidade gay que impõe o seu rosa – choque – way – of – life, impedindo que cidadãos como eu se dirijam ao bar para uma despretensiosa cerveja ou para um encontro com amigos, sem ser incomodado. É como se naquele local a comunidade GLS se vingasse de toda a repressão da sociedade – como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso”.
 
 

Segundo Velho (1981), em nossa sociedade, a família aparece como uma estrutura social rígida com normas e regras estritas, exercendo um forte controle social sobre o comportamento dos indivíduos. A família tem por função atualizar o código de emoções, atuando sempre ao nível do cotidiano. A socialização continua dos aspectos afetivos e emocionais da cultura se dá, portanto, ao nível dos papéis familiares de pai, mãe, esposo, mulher e filho. Se a família é uma instituição tradicional, significativa unidade reprodutora da vida social, na qual são erigidos padrões morais e sexuais, tudo que perturbe ou torne ambíguo o desempenho destes papéis é considerado como altamente perigoso. A ideologia sexual dominante está, portanto, intimamente ligada ao discurso tradicional dos papéis familiares, que liga à sexualidade ao sexo anatômico, com vias de garantir a própria existência da espécie e da sociabilidade.


 
 

Já entre os “modernos”   agrupam-se aqueles atores cuja análise do discurso remete à maior tolerância quanto à opção sexual alheia. O depoimento a seguir exemplifica um discurso enquadrado como “moderno”: 
 
 
 
 

“[...]  (O Valentino) é um lugar diferente que por não ser freqüentado por um bando de ignorantes os gays se sintam menos oprimidos, é a coisa mais natural”.
 

Na medida em que os “tradicionais” apóiam seu discurso na ideologia familiar, de forte controle social, apresentando potencialmente maior resistência à mudança, são tomadas como “modernos” aqueles atores cujo suas práticas visam subverter, ou ao menos “relaxar”, as sanções tradicionalmente impostas por uma ideologia sexual dominante. Aqui, a sexualidade excede a idéia de sexo anatômico na medida em que duas pessoas do mesmo sexo podem manter amor, cumplicidade, relações sexuais ou constituir uma família. Por exercer uma menor resistência à mudança estes atores são classificados como “modernos”. 


 
 

Quando tomo a homossexualidade / bissexualidade como uma prática moderna, não afirmo que esta é uma pratica própria da modernidade, mas procuro observar que, no contexto estudado, esta pratica pode existir na forma de reforço a certos valores que se opõem às visões de mundo tradicionalmente formadas. O fator “homossexualidade” aparece como um eixo mediador da observação – nem todos que de alguma forma incomodam-se com a presença dos GLS são “tradicionais”; assim como nem todos que são indiferentes a isso são “modernos”. O que esta em jogo não é propriamente a homossexualidade, mas os símbolos que marcam as posições de “modernos” e “tradicionais”, estabelecendo o permitido e o inaceitável.
 
 
 

Tal associação remete a idéia de que cada um destes termos condensa experiências sociológicas distintas o suficiente para conferir inteligibilidade a padrões morais contrastantes, nomeados de tradicionais e modernos (Salem apud Heilborn, 1999: 42). Essa oposição (…) tem um caráter de modelo: apreende certos traços em detrimento de outros (Heilborn, 1999: 42). 
 
 
 

As relações que se formam nesta mancha de lazer, e principalmente no bar Valentino, mostram-se como conflitos entre duas visões de mundo. De acordo com a metodologia adotada, na medida em que os diversos grupos de freqüentadores deste espaço tem em comum o imaginário do Valentino como um bar GLS, pode-se afirmar que o espaço em questão é um local dos “modernos”, constantemente vigiado por valores “tradicionais”. Valores “tradicionais” estão sempre a postos para que os “modernos” não se excedam no desfrute de seus símbolos, ao mesmo tempo em que os “modernos” escapam de alguma forma à vigília, procurando subverter a ordem estabelecida. Os atores vivem, no caso considerado um estilo de vida internalizado através de um conjunto de símbolos socializador, participando de um determinado código cultural, acreditando e vivendo uma determinada escala de valores, cada um à sua maneira. De modo  que cada parcela destes atores busca legitimar sua posição na construção deste espaço.
 
 
 

Um exemplo disto encontra-se em um fato, no mínimo, contraditório. Pois, se a conotação GLS é atribuída ao espaço pelos diversos grupos de usuários, nota-se a homossexualidade apenas nos trejeitos e alguns costumes mais discretos – o beijo no rosto como uma forma de saudação, por exemplo. Os grupos concebem o espaço como GLS, no entanto o padrão é o beijo heterossexual. Estes são freqüentes. Apesar da freqüência assídua dos GLS, o beijo entre pessoas do mesmo sexo é raro. São raras também atitudes preconceituosas nos equipamentos considerados. O estigma normalmente não se torna público, fato que não determina sua ausência. A partir deste exemplo, percebe-se um jogo moral. Respeitam-se as opções sexuais desviantes, mas até certo ponto. Está-se tratando de uma mancha GLS, porque o padrão não é o beijo GLS? O grupo é respeitado, mas não se realiza. A coisa não se torna pública. No entanto, são freqüentes os beijos entre homossexuais nos banheiros e no fundo do bar – muito mais entre as mulheres. Os trejeitos denunciam alguns atores, mas a homossexualidade efetiva-se às escuras. Com a mesma sutileza em que a ordem é estabelecida, ela também é subvertida. 
 
 
 

Nos primeiro depoimentos que se segue, o caráter público do beijo GLS remete à associação do Valentino ao estranho; no segundo, a repressão e o respeito mostram-se variáveis de acordo com determinadas situações:
 
 
 

"Tudo no Vale é estranho. Vocês já viram três se beijando? Eu vi uma roda de uns sete ou oito jogando dadinhos da Imaginarium e fazendo tudo ao pé da letra. Isso ali do ladinho do Vale. Só sei que no final quem não tinha tirado “beijo na boca” ainda saiu beijando os que faltavam. Detalhe: todos, meninos e meninas, eram homo ou bissexuais".

 
"Ah, sim, sobre os beijos no Valentino, já os vi entre pessoas do mesmo sexo. Mas também já vi chamarem a atenção das pessoas que faziam isso".
 
 
 

Se estamos tratando de um espaço onde são constantes  as tensões entre visões de mundo divergentes, sempre procurando legitimar sua posição numa dinâmica que altera “tradicionais” e “modernos” no topo da hierarquia, a teoria interacionista do desvio tornar-se-á útil à pontuação de mais algumas questões.


 
 
 
 

O desvio relativo
 
 

"All social groups make rules and attempt, at some times ad under some circumstances, to enforce them.  Social rules define situations and the kinds of behavior appropriate to them, specifying some actions as “right” and forbidding others as “wrong”. When a rule is enforced, the person who is supposed to have broken it may be seen as a special kind of person, one who cannot be trusted to live by the rules agreed on by the group. He is regarded as an outsider (…) But the person who is thus labeled an outsider may have a different view of the matter. He may not accept the rule by which he is being judged and may not regard those who judge him as either competent or legitimately entitled to do so. Hence, a second meaning of the term emerges: the rulebreaker may feel judges are outsider". (Becker, 1973: 01).
 
 
 

Com a epígrafe acima Becker inicia Outsiders, seu estudo clássico acerca do comportamento desviante. Seus primeiros parágrafos já mostram os pontos mais marcantes da teoria interacionista do desvio (Labelling theory): a abordagem propriamente sociológica do problema, que outrora foi formulado a partir de uma perspectiva médica e psicológica e a relativização da categoria “desviante” (Velho, 1981; Pereira, 1984).


 
 

O senso comum remete uma perspectiva patológica aos indivíduos que não aceitam as regras impostas pela sociedade em que vivem. Por alguma razão desconhecida, estes indivíduos carregariam dentro de si uma predisposição ao desvio; fato que os caracteriza normalmente como anormais ou inadaptados. A medicina tradicional por muito tempo legitimou este tipo de discurso, que vê o desvio como inerente à personalidade de alguns indivíduos, sem que se leve em conta o processo de julgamento das acusações. 
 
 
 

Na citação pela qual iniciamos esta sessão, observa-se que as regras, às quais todos somos orientados a seguir, são determinadas socialmente; de forma que os desviantes – como parte da sociedade - também estabelecem regras de acordo com sua visão “diferenciada” da realidade, podendo, a partir de sua ótica, considerar os “normais” como infratores; como desviantes. Temos então, por um lado, o fato de que o desvio não é inerente, mas atribuído a certos indivíduos; e por outro, o fato de que existem diversas possibilidades de leitura da realidade, onde cada uma destas leituras irá considerar seus valores como legítimos. O desvio é relativizado, deixando de estar focado no individuo, como na abordagem psicológica, para constituir-se na interação social, passando, assim, a ser entendido em termos propriamente sociológicos. 
 
 
 

A teoria interacionista do desvio também nos é importante por ter superado o conceito durkheimniano de anomie. Para Gilberto Velho (1979), este conceito enfatiza a idéia de uma sociedade naturalmente integrada. Com a premissa de uma sociedade já dada “funcionando”, existe uma fase inicial hipotética na qual o sistema está “funcionando normalmente”, até que apareça um processo de mudança social, podendo ocasionar desequilíbrios e conflitos. Esta visão também remete o anormal ao patológico, mas aqui patologia não é atribuída aos indivíduos, mas à própria coletividade. Há sempre a preocupação em delimitar um modelo estabelecido, mais ou menos rigidamente, pela cultura. Sendo este modelo rígido, essencial para a continuidade da vida social. Nesta visão, a diversidade é vista mediante padrões bem demarcados.
 
 
 

Em contrapartida a um modelo de cultura rígido e homogeneizador, a noção de totalidade social para a teoria interacionista supõe a existência de grupos diferenciados, tanto no que toca aos universos simbólicos aos quais estes grupos se referenciam, quanto ao volume de poder que dispõem para fazer valer suas regras em determinada situação (Pereira, 1984). Ultrapassando os limites de uma idéia de cultura imposta, passamos a falar de uma cultura permanentemente negociada, fato que nos permite ter maior clareza acerca do conflito, ou ao menos da coexistência, de duas visões de mundo nesta mancha de lazer. Para isto retomarei brevemente algumas questões anteriores.
 
 
 

Com o exemplo já citado da predominância do beijo heterossexual nesta mancha de lazer GLS, reafirmo a idéia de que no espaço em questão a diversidade sexual é respeitada, mas até certo ponto – desde que não se torne eminentemente pública. Tornando-se pública, concretiza-se diante dos olhos o fato de que não somos iguais. ”Os desviantes sociais, conforme definidos, ostentam sua recusa em aceitar o seu lugar e são temporariamente tolerados nessa rebeldia, desde que ela se restrinja às fronteiras ecológicas de sua comunidade” (Goffman, 1978: 156). Nos aparece então que a própria sociedade, através da rotulação de alguns indivíduos, ou grupos de indivíduos, sente a necessidade da diferenciação, mas não consegue viver com ela a não ser através de mecanismos discriminatórios. As acusações de desvio desempenham a função de marco delimitador entre símbolos e valores moralmente aceitos ou condenados, legitimando assim visões de mundo dominantes. As acusações de desvio, ou as rotulações criadas pela própria sociedade lhe permitem se reconhecer pelo que ela não é. A partir do momento em que os aqui considerados “modernos” se excedem no desfrute de seus símbolos, e a presença dos GLS passe do imaginário dos trejeitos à concreticidade das ações, surgem as acusações de desvio – as mais freqüentes: “bichinha”, “viadinho”, “gayzinho” e “sapatão”, assim como “bizarros” e “estranhos”.
 
 
 
 

"(...) o bar – Valentino – é freqüentado por terríveis gays cruéis que passam a mão na sua bunda e não te deixam ficar olhando desavisado para um canto qualquer. Eles são assíduos no corredor apertado, o motivo todos devem imaginar". 

 
"Poxa, bizarrice e Valentino é quase sinônimo. Já vi beijo a três, já vi minha antiga conta no bar aumentar sendo que eu não morava mais em Londrina, já estive no bar em uma noite em que todos os figurinos de “Priscila a Rainha do Deserto” foram desfilados, já me perdi nos espelhos do bar, já vi amigo meu saindo com uma “lembrancinha” do bar (uma cadeira) e por ai a fora".

 
 

Outrora, associei a família ao grupo aqui tomado como “tradicional”. Isto foi possível pelo fato desta instituição exercer um forte controle sobre os indivíduos, reproduzindo para toda a sociedade uma ideologia sexual dominante, na qual a sexualidade e as relações de gênero são ligadas à idéia de sexo anatômico. Diferenciar a identidade das pessoas a partir do sexo anatômico parte da idéia de que todos nos temos um compromisso de reprodução da espécie e perpetuação da sociedade. Neste sentido os desviantes normalmente são encarados como:
 

 

"(...) pessoas consideradas engajadas numa espécie de negação coletiva da ordem social. Elas são percebidas como incapazes de usar as oportunidades disponíveis para o progresso nos vários caminhos aprovados pela sociedade; mostram um desrespeito evidente por seus superiores; falta-lhes moralidade; elas representam defeitos nos esquemas motivacionais da sociedade". (Goffman, 1978: 155).

 
 
 

Se os que aqui chamei de “tradicionais” acusam e rotulam os GLS quando estes se mostram “agressivos”, o inverso também ocorre. Os “modernos” levam vantagem em algumas situações nas quais suas regras prevalecem. As relações de cumplicidade e a proximidade de muitos dos homossexuais masculinos para com mulheres heterossexuais desejadas no bar muitas vezes causam inveja nos “tradicionais” masculinos. Ao tomar atitudes preconceituosas, estes “tradicionais” podem “perder pontos” com as mulheres desejadas, sendo assim acusados de “rudes” ou “grossos”. Isso é demonstrado no depoimento abaixo, onde ser moderno, cult, esclarecido, é um ponto positivo para a inclusão:


 
 
 
"Se você não é gay e tá afim de uma mulher que freqüenta o Valentino, você tem que ser cult. Usar óculos de Chico Xavier, fingir que nunca ouviu falar de Ratinho ou João Kleber, ser fã de Lou Reed e David Bowie, e por aí vai".
 

Da mesma forma que os “modernos” não tornam sua identidade totalmente pública, os “tradicionais” tomam o mesmo caminho. Ambos pelo mesmo motivo: a pena de exclusão e rotulação.


 
 

Apesar da contribuição que a teoria interacionista do desvio nos deu para a pontuação de algumas questões, precisamos estar atentos para sua aplicação. Por estar fundada na interação social, o desvio é detectado, num primeiro momento, no que é dado imediatamente à observação de situações concretas. Isto não justifica a análise pautada apenas em modelos conscientes estabelecidos pela cultura, subjugando modelos mais distantes como secundários. Pois nem todos os aspectos de uma cultura são conscientes e passiveis de serem detectados num primeiro momento. Ignorar aspectos estruturais – no sentido de não estarem presentes na imediaticidade da realidade observada – do comportamento desviante é ater a diversidade de uma cultura ao próprio universo empírico observado. Mais do que analisar o processo de julgamento do comportamento desviante, a abstração do problema em vários níveis nos permite apreender os mecanismos que a cultura aciona para lidar com sua própria diversidade.
 
 
 
 
 

Conclusão
 

Procurei demonstrar aqui que o status GLS desta "mancha" se efetiva mais no imaginário da população do que na concreticidade das relações observadas no espaço. Seria errôneo afirmar que o espaço em questão é uma mancha de lazer GLS. Mediante a heterogeneidade do público freqüentador, e ao estigma que sofrem os GLS ao tentarem revelar publicamente sua identidade, seria mais correto concebermos este espaço como um ponto de encontro GLS, assim como de punks, hippies, darks, universitários, “tradicionais” e “modernos”. As normas de conduta vigentes neste espaço não são ditadas pelos GLS, mas negociadas por muitos. A afirmação desta mancha como GLS, seria retornar ao senso comum que procuramos desviar quando fazemos antropologia. Espero ter contribuído aqui para responder a questões como: porque a referência e rotulação do local são atribuídas mais aos GLS? Porque sofrem maior necessidade de rotulação? Na medida em que as acusações de desvio denunciam a crise de certos padrões estabelecidos, o conflito de visões de mundo nesta mancha de lazer se dá sob o pano de fundo de uma sociedade majoritariamente heterossexual vivendo um paradoxo que a incomoda, mas que lhe permite enterrar mais fundo seus valores. Embora o faça através de mecanismos discriminatórios, trata-se, primeiro aos antropólogos e depois ao senso comum, de exceder o reconhecimento negativo das diferenças tomando-as como fundamentais para a existência, identidade e as artes de ser, de si mesmo e do outro.
 
 
 
 

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