Introdução
Pretendo,
com este artigo, expor algumas perspectivas e reflexões acerca da
pesquisa que venho realizando na cidade de Londrina. Desde seu início,
a história desta cidade foi marcada por uma dinâmica peculiar
entre o rural e o urbano. Estas duas esferas, que possibilitaram o surgimento
e o desenvolvimento econômico da cidade, manifestam-se na formação
de um imaginário que permeia todo do cotidiano de sua população.
A análise do cotidiano londrinense está sendo pautada pela
observação de uma mancha de lazer
(Magnani,
1992) com referências
GLS
,
localizada na região central da cidade. Devido à sua localização,
esta mancha de lazer, apesar de seu status GLS, atrai as mais diversas
tribos
,
que se deslocam das mais variadas regiões da cidade a procura de
suas baladas. É importante ressaltar o fato de que nenhum
dos equipamentos de lazer localizados nesta mancha é apropriado
exclusivamente por grupos GLS, e, portanto, grupos com diferentes visões
de mundo vêem-se obrigados a negociar a produção e
apropriação do espaço em questão. A partir
da própria dinâmica de desenvolvimento da cidade – rural e
urbano – e da especificidade desta mancha de lazer – GLS -, classifico
as visões de mundo destes atores em “tradicionais” e “modernos”,
tomando como eixo mediador da classificação os discursos
acerca da alteridade e tolerância no que toca à sexualidade.
A análise dos discursos será apoiada pela teoria interacionista
do desvio, na qual a cultura é encarada como multifacetada e política,
de forma que o desvio surge como uma relação de acusação
entre atores que negociam comportamentos, limites e valores em determinadas
situações.
A
partir deste quadro teórico pretendo responder algumas questões:
Como diferentes visões de mundo se manifestam nesta mancha de lazer?
Em torno de quais símbolos se efetivam estas visões de mundo?
Lugar de todos e de ninguém, como são negociados os espaços
no centro da cidade? Como podem coexistir em um mesmo espaço visões
de mundo, à primeira vista, tão divergentes? Como a população
reage à sua própria diversidade?
Rural
e urbano em Londrina
A
pesar de Londrina ter se instalado oficialmente em 1934, os anos 20 foram
fundamentais ao desenvolvimento de sua região. No começo
da década, o governo estadual passa a conceder terras às
empresas privadas de colonização e em seus meados inicia-se
a história da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP),
subsidiária da firma inglesa “Paraná Plantations Ltd.”. Inicialmente,
as terras da região seriam utilizadas para o plantio de algodão,
mas devido aos preços baixos e à falta de sementes sadias
no mercado, o empreendimento fracassou. Encarregadas de transformar as
propriedades do empreendimento frustrado em projetos imobiliários,
entram em cena a firma inglesa e sua subsidiária brasileira. Repartindo
os grandes terrenos em lotes relativamente pequenos, o novo projeto de
colonização estimulou a concentração da produção
cafeeira, possibilitando também a explosão demográfica,
decorrente do surgimento de pequenas e médias propriedades. A especulação
fundiária exigia a presença de um núcleo urbano capaz
de garantir as condições mínimas aos proprietários
rurais em termos de coleta, beneficiamento e transporte da produção,
ofertas de bens e serviços de atendimento às demandas básicas
da população rural. Londrina surge mediante a organização
de um mundo rural ligado à cafeicultura, e de um mundo urbano voltado
aos serviços, já que a cidade desempenharia o papel de pólo
irradiador do processo de colonização (Maia,
2004).
Este
cuidadoso planejamento foi seguido em toda a área colonizada pela
CTNP, o que garantiu a ocupação das propriedades rurais concomitantemente
ao surgimento das cidades e patrimônios. (...) De acordo com as diretrizes
gerais do projeto, a colonização deveria viabilizar relações
estreitas entre campo e cidades, permitindo, ao mesmo tempo, facilidades
de escoamento e comercialização da produção
agrícola, e uma estrutura adequada de atendimento à população
migrante que chegava à região. Dessa forma, enquanto meio
rural foi concebido como o local de trabalho, da terra fértil e
a fonte geradora de riqueza, os povoamentos e cidades foram planejados
como núcleos de comércio, prestadores de serviços
e sedes jurídico – administrativas. (Almeida,
1997: 96 – 97)
A
cidade de Londrina foi criada com sua planta urbana – para abrigar até
20.000 habitantes - elaborada anteriormente ao ato de sua fundação.
Dez anos mais tarde, em meados da década de quarenta, a população
da cidade excedia o planejamento inicial (Fresca,
2002). Mas, foi ao longo da década de 50 que Londrina apresentou
a maior expansão econômica, populacional e físico –
territorial de sua história. Apesar de neste período a cidade
ter sido conhecida como “capital mundial do café”, seu desenvolvimento
e sua expansão não se devem a esse único motivo. Inserido
no mercado internacional, o café estava exposto às flutuações
do mercado, estando vulnerável aos fatores climáticos e à
superprodução. A garantia que os pequenos e médios
produtores tinham para que suas receitas não fossem comprometidas
de uma safra para outra era dada pela pequena produção mercantil,
que permitiu à cidade de Londrina sua expansão e dinâmica
econômico – social (Fresca, 2002).
A
década de 50 marca também o inicio precoce da construção
de edifícios verticais em Londrina, projetados por arquitetos de
renome nacional. “Os edifícios de vários andares já
começaram a surgir, não como índice de falta de espaço,
mas atestando a riqueza da cidade e a sua chegada a uma base de princípios
de modernidade” (Prandini apud Fresca, 2002). Nesta
década, as lojas grã – finas e os salões de chá
mostravam a chegada de hábitos de consumo moderno e a riqueza da
cidade.
O
censo de 1960 mostra a inversão da distribuição populacional
em Londrina, quando a população urbana passa a dominar este
quadro com 57,39% do total. Já em 1980, o índice atinge 85,46%.
(IBGE,
apud Fresca, 2002). O processo de verticalização
que se iniciou na década de 1950, ampliou-se gradativamente nas
décadas seguintes. Mas a partir de 1980, este processo ganhou ampla
proporção, e a verticalização do centro da
cidade destacava-se não apenas como ideal de modernidade, mas como
fruto de especulação imobiliária. Neste período
a economia nacional passava por sucessivos planos econômicos que
acabaram por favorecer a construção civil. Os promotores
imobiliários concentravam sua ação no centro da cidade,
criando condomínios verticalizados para a classe alta. Até
a criação de condomínios de alto padrão na
periferia da cidade, as áreas de maior valor estavam no centro da
cidade, nas proximidades das ruas Goiás, Paranaguá e Belo
Horizonte e da avenida Higienópolis (Fresca,
2002).
Apesar
de sua urbanização, ainda hoje o agronegócio movimenta
grande parte da economia da cidade. Se a própria economia proporcionou
a dinâmica que a cidade tem entre o urbano e o rural, as formas que
se assumiram no centro da cidade também são fruto de todo
um imaginário de progresso, riqueza e modernização.
A intenção aqui é demonstrar que a história
da cidade ainda está presente nas visões de mundo de sua
população, combinando a tradição à modernidade.
Tentarei demonstrar isso através da análise de uma mancha
de lazer.
Uma
mancha de lazer: tradicionais e modernos
A
mancha de lazer abordada nesta pesquisa localiza-se na região central
da cidade. Mais especificamente, está circunscrita entre as avenidas
Bandeirantes e Juscelino Kubitscheck e as ruas João Cândido
e Jorge Velho. Esta mancha é composta por três lanchonetes
freqüentadas pelos mais diversos usuários (Lanchebom, Arnaldo’s
e Rangus) e por quatro bares, sendo que três deste possuem referências
GLS (Valentino, Bar do Jota e Mangá). A localização
central desta mancha faz da região ponto de encontro de diversos
grupos – universitários, pessoal de teatro, rockers, punks, darks,
hippies, manos, entre outros – o que nos leva a observar, diante da diversidade
no interior dos grupos, que nenhum destes equipamentos é apropriado
exclusivamente por GLS.
Em
um primeiro reconhecimento, o Mangá parece ser o equipamento
mais exclusivo dos GLS, apesar de ser freqüentado também por
heterossexuais. Já o Bar do Jota parece ser o mais aberto aos diversos
grupos. O Valentino é o mais diversificado dos bares em questão,
concentrando muito dos dois: GLS ou “não GLS”. Este último
é considerado um dos bares mais tradicionais da cidade, sendo que
recentemente promoveu uma grande festa de comemoração de
seus 25 anos. Também é o mais caracterizado como GLS, e,
freqüentemente surgem na cidade algumas “lendas” de que o lugar foi
vendido para um grande empresário. Para a tristeza de muitos, parece
que em breve o boato irá se concretizar. Ainda assim, ouve-se história
de que o bar será reproduzido fielmente em outra área da
cidade. Fatos como esse demonstram claramente a afetividade de uma
parte da população para com este espaço
.A afetividade pelo bar fica clara se observarmos que cerca de 60% do acervo
musical do estabelecimento é formado por doações.
“Uma pessoa que
não está fazendo nada, pega uma tarde e grava músicas
que ela gostaria de ouvir no Valentino, escreve uma dedicatória,
assina e pronto. Ainda temos muitas fitas k –7 aqui, a maioria dos anos
80. Tocamos até hoje”. (Trecho de uma entrevista concedida por um
dos atuais proprietários.)
A história do Valentino
inicia-se em 1979, a partir de uma festa bem sucedida idealizada por seus
primeiros proprietários e ocorrida no mesmo local onde ainda hoje
se encontra o bar. Naquele ano, e durante alguns outros que o sucederam,
o bar literalmente era uma casa. Tinha paredes internas, salas, cozinha,
e um único banheiro unissex. Se em seu início a estrutura
do bar era a de uma tradicional casinha de madeira, sucessivas transformações
ao longo destas duas décadas e meia transformaram o ambiente. Em
um primeiro momento, o ambiente original foi adaptado: as paredes internas
foram retiradas, algumas paredes laterais foram inclinadas, acrescentaram-se
varandas laterais. Seus muros ainda eram baixos e o ambiente aberto, permitindo
a fácil circulação das pessoas entre o bar e a rua.
Segundo um de seus atuais proprietários, o Valentino era “um
bar onde todos entravam e saiam com muita liberdade”. “Eram tempos
menos perigosos”, acrescenta.
Posteriormente,
nos anos mais recentes, medidas de segurança foram tomadas. Algumas
varandas foram desmontadas, as janelas ganharam grades e as regras ficaram
mais rígidas. A partir de uma certa hora da madrugada não
se entra mais no bar. Ainda segundo um de seus proprietários atuais,
as medidas de segurança limitaram um pouco a espontaneidade do público.
Ainda assim, a espontaneidade parece ser, ainda, uma das marcas características
deste espaço. Atualmente, apesar das referidas restrições
por questão de segurança, o Valentino não exige
consumação mínima ou couvert artístico
de seus freqüentadores, exceto às quartas, quintas – feiras
e domingos, quando são realizadas apresentações
musicais de vários estilos. A taxa é cobrada até às
23 horas e o bar possui mesas externas, possibilitando aos freqüentadores
a permanência nesta área sem que tenham que desembolsar o
dinheiro, quase sempre contado. O proprietário entrevistado afirma
que o diferencial do Valentino em relação aos demais
bares da cidade é seu caráter underground e a ausência
de uma procura desenfreada pelo lucro:
“Não há
uma pressão para que o garçom fique enchendo os copos toda
hora para que o assento ocupado renda. As pessoas já são
pressionadas o dia inteiro, em casa, no trabalho”.
A primeira coisa que se observa
quando nos aproximamos do Valentino, principalmente nos finais de
semana, é o movimento. Muitos carros estacionados na avenida Bandeirantes
e na rua Jorge Velho. Alguns chegando, outros indo embora. O Valentino
é local de passagem para alguns, e de permanência para outros.
De lá as pessoas partem para outras baladas; ou o inverso. Na mancha
de lazer em questão, há um circuito que se realiza entre
os bares Valentino, Mangá,
bar do Jota e as
lanchonetes Lanchebom e Arnaldo’s. A proximidade entre os
equipamentos permite que o circuito se realize nas caminhadas. Os carros
são utilizados pelos usuários apenas quando pretendem se
deslocar para alguma festa ou outro bar um pouco mais distante. Nos finais
de semana é comum uma viatura policial parada na porta do
Valentino,
pois a grande rotatividade do público durante a noite facilita pequenos
furtos ou pequenas negociações de drogas ilícitas,
principalmente a cocaína e a maconha. Por este fato, também
é comum a presença de seguranças no portão
do bar.
Os que chegam, antes de adentrarem
no que outrora fora uma casa de madeira, devem passar pelo ambiente externo
do bar, que conta com algumas mesas e bancos de concreto e uma varanda
num nível um pouco mais alto, também com algumas mesas e
janelas. Mesmo externamente o ambiente é escuro e tudo ocorre à
meia luz. A comunicação entre a área externa e a interna
é possibilitada por uma porta e três janelas que permitem
aos usuários dar uma espiada nas apresentações musicais
sem que tenham que pagar o couvert.
O
ambiente interno é formado por um balcão ao estilo pub,
com bancos altos em toda sua extensão. Paralelo ao balcão
forma-se um corredor onde os usuários circulam para ir à
área externa na frente do bar, ou ao banheiro, nos fundos. No meio
deste corredor há um espelho grande, fixado bem no alto, permitindo
que os usuários tenham uma visão do que está ocorrendo
no bar, mesmo que estejam de costas. Principalmente neste corredor ocorrem
as paqueras. O corredor é também intermediário entre
o balcão e o espaço, um pouco mais amplo, onde se concentra
a maior parte das mesas, agora de madeira. A maior concentração
de mesas está cercada pelo palco, não muito mais alto que
uma sarjeta, e o corredor. A única divisão interna é
feita por uma parede entre o espaço das mesas e um outro corredor
onde se encontram algumas mesas mais reservadas. Nesta parede uma grande
vitrine chama a atenção pelo fato de expor alguns objetos
ou o figurino utilizado em alguma das peças teatrais apresentadas
no bar. A outra parede deste corredor, que possibilita a comunicação
do interior com lateral externa do bar, chama a atenção por
sua inclinação, obra de um engenheiro, antigo proprietário
do bar. Nos fundos ficam os banheiros masculino e feminino e mais um pequeno
balcão em frente a um espelho horizontal. Embora o publico não
tenha acesso à cozinha, esta também está localizada
nos fundos. Lá é preparada a tradicional macarronada, um
dos atrativos do Valentino. Quase todas as paredes são repletas
de quadros feitos a partir de cartazes de eventos já ocorridos no
bar. Estes quadros misturam-se a outros, que estampam ícones pop
dos anos 70 ou obras de Toulouse – Lautrec. As conversas e paqueras são
embaladas quase sempre ao som do rock anos 70 e 80 e de música alternativa
dos anos 90. Mais recentemente a música eletrônica também
passou a ser trilha sonora do bar. Apesar da ausência de divisões
internas em sua estrutura, a disposição do espaço,
algumas vezes, ainda nos dá a impressão de transitar de um
cômodo ao outro da antiga casa.
O
bar Valentino é conhecido pela população da
cidade – jovens de hoje e da década de 1980 – por sua vocação
cultural e pela diversidade de interesses estéticos que se observa
entre seus freqüentadores. O bar já foi palco de peças
de teatro, musicais, mostras de vídeo e durante os anos 80 eram
freqüentes os happenings.
"Essa espontaneidade
do bar tinha muito a ver com os anos 80. Liberação total,
o pessoal vinha de uma ditadura militar, as publicações voltando
a ser democráticas. Não tínhamos uma programação
cultural como hoje. As coisas aconteciam".
Além do Valentino,
durante a década de 1980 apareciam também neste contexto
de refusão cultural os bares Vilão,
Artigo 23
e Bar Brasil. Devido ao seu caráter espontâneo, as
“coisas” aconteciam no Valentino, que, dentre estes bares, aparece
como espaço chave para os debates e manifestações
culturais.
A
efervescência cultural presente neste espaço coincide com
uma época em que o surgimento da epidemia de HIV torna público
o debate acerca da sexualidade. A sexualidade, antes ligada ao amor e as
emoções, com o surgimento da epidemia de HIV, passa a ser
objeto de cálculos e medidas racionais, socializado e sancionado
por um discurso eminentemente público (Loyola,
1999). Uma das características marcantes deste espaço, é
que, em meio à tamanha heterogeneidade de seu público, o
Valentino
é, desde seu inicio, um ponto de encontro gay.
Por
sua vocação cultural e sua localização central,
o Valentino, assim como toda essa mancha de lazer, é atrativa
para vários grupos. Este fato acaba por contribuir para que diferentes
visões de mundo coexistam num mesmo espaço, obrigando os
atores à negociação permanente das regras de sociabilidade.
Dentre os diversos grupos de freqüentadores desta mancha, temos em
comum o fato do imaginário de muitos atribuir ao Valentino
o status de GLS, embora o espaço seja freqüentado em grau de
equidade por heterossexuais.
Por
conveniências metodológicas, as diferentes visões de
mundo presentes neste espaço serão agrupadas em “tradicionais”
e “modernas” (Heilborn, 1999; Low,
2000; Menezes, 2000), sendo que o eixo mediador
desta classificação será a análise dos discursos
no que toca a alteridade e tolerância quanto à opção
sexual dos GLS. Estas categorias também se associam à própria
dinâmica do desenvolvimento da cidade, que, como demonstrado acima,
alia o rural, o agro – negócio, à especulação
imobiliária do solo urbano e aos ideais de modernidade.
A
questão das identidades culturais não pode ser abordada no
exterior de uma reflexão sobre as novas formas de organização
do território. Sobretudo porque assistimos a uma coexistência
de formas diversas: as lógicas tradicionais permanecem, coexistem
e, mais do que isso, articulam-se, com as lógicas modernas. Por
isso é importante não só identificar as formas espaciais,
mas também compreender as articulações e os desajustes
produtores de movimento. (Menezes, 2000: 172)
Assim,
estão classificados como “tradicionais”, aqueles atores cuja
análise do discurso os remete como reprodutores de uma ideologia
sexual dominante, na qual as relações de gênero e a
sexualidade são atribuídas ao sexo anatômico e não
à construção social da identidade sexual (Brasil,
1999). O depoimento a seguir exemplifica um discurso enquadrado como “tradicional”:
“Sinceramente formou-se
ali – no bar Valentino – um gueto da comunidade gay que impõe
o seu rosa – choque – way – of – life, impedindo que cidadãos como
eu se dirijam ao bar para uma despretensiosa cerveja ou para um encontro
com amigos, sem ser incomodado. É como se naquele local a comunidade
GLS se vingasse de toda a repressão da sociedade – como se eu tivesse
alguma coisa a ver com isso”.
Segundo
Velho
(1981), em nossa sociedade, a família aparece como uma estrutura
social rígida com normas e regras estritas, exercendo um forte controle
social sobre o comportamento dos indivíduos. A família tem
por função atualizar o código de emoções,
atuando sempre ao nível do cotidiano. A socialização
continua dos aspectos afetivos e emocionais da cultura se dá, portanto,
ao nível dos papéis familiares de pai, mãe, esposo,
mulher e filho. Se a família é uma instituição
tradicional, significativa unidade reprodutora da vida social, na qual
são erigidos padrões morais e sexuais, tudo que perturbe
ou torne ambíguo o desempenho destes papéis é considerado
como altamente perigoso. A ideologia sexual dominante está, portanto,
intimamente ligada ao discurso tradicional dos papéis familiares,
que liga à sexualidade ao sexo anatômico, com vias de garantir
a própria existência da espécie e da sociabilidade.
Já
entre os “modernos” agrupam-se aqueles atores cuja análise
do discurso remete à maior tolerância quanto à opção
sexual alheia. O depoimento a seguir exemplifica um discurso enquadrado
como “moderno”:
“[...] (O
Valentino)
é um lugar diferente que por não ser freqüentado por
um bando de ignorantes os gays se sintam menos oprimidos, é a coisa
mais natural”.
Na medida em que os “tradicionais”
apóiam seu discurso na ideologia familiar, de forte controle social,
apresentando potencialmente maior resistência à mudança,
são tomadas como “modernos” aqueles atores cujo suas práticas
visam subverter, ou ao menos “relaxar”, as sanções tradicionalmente
impostas por uma ideologia sexual dominante. Aqui, a sexualidade excede
a idéia de sexo anatômico na medida em que duas pessoas do
mesmo sexo podem manter amor, cumplicidade, relações sexuais
ou constituir uma família. Por exercer uma menor resistência
à mudança estes atores são classificados como “modernos”.
Quando
tomo a homossexualidade / bissexualidade como uma prática moderna,
não afirmo que esta é uma pratica própria da modernidade,
mas procuro observar que, no contexto estudado, esta pratica pode existir
na forma de reforço a certos valores que se opõem às
visões de mundo tradicionalmente formadas. O fator “homossexualidade”
aparece como um eixo mediador da observação – nem todos que
de alguma forma incomodam-se com a presença dos GLS são “tradicionais”;
assim como nem todos que são indiferentes a isso são “modernos”.
O que esta em jogo não é propriamente a homossexualidade,
mas os símbolos que marcam as posições de “modernos”
e “tradicionais”, estabelecendo o permitido e o inaceitável.
Tal
associação remete a idéia de que cada um destes termos
condensa experiências sociológicas distintas o suficiente
para conferir inteligibilidade a padrões morais contrastantes, nomeados
de tradicionais e modernos (Salem apud Heilborn, 1999: 42). Essa oposição
(…) tem um caráter de modelo: apreende certos traços em detrimento
de outros (Heilborn, 1999: 42).
As
relações que se formam nesta mancha de lazer, e principalmente
no bar Valentino, mostram-se como conflitos entre duas visões
de mundo. De acordo com a metodologia adotada, na medida em que os diversos
grupos de freqüentadores deste espaço tem em comum o imaginário
do Valentino como um bar GLS, pode-se afirmar que o espaço
em questão é um local dos “modernos”, constantemente vigiado
por valores “tradicionais”. Valores “tradicionais” estão sempre
a postos para que os “modernos” não se excedam no desfrute de seus
símbolos, ao mesmo tempo em que os “modernos” escapam de alguma
forma à vigília, procurando subverter a ordem estabelecida.
Os atores vivem, no caso considerado um estilo de vida internalizado através
de um conjunto de símbolos socializador, participando de um determinado
código cultural, acreditando e vivendo uma determinada escala de
valores, cada um à sua maneira. De modo que cada parcela destes
atores busca legitimar sua posição na construção
deste espaço.
Um
exemplo disto encontra-se em um fato, no mínimo, contraditório.
Pois, se a conotação GLS é atribuída ao espaço
pelos diversos grupos de usuários, nota-se a homossexualidade apenas
nos trejeitos e alguns costumes mais discretos – o beijo no rosto como
uma forma de saudação, por exemplo. Os grupos concebem o
espaço como GLS, no entanto o padrão é o beijo heterossexual.
Estes são freqüentes. Apesar da freqüência assídua
dos GLS, o beijo entre pessoas do mesmo sexo é raro. São
raras também atitudes preconceituosas nos equipamentos considerados.
O estigma normalmente não se torna público, fato que não
determina sua ausência. A partir deste exemplo, percebe-se um jogo
moral. Respeitam-se as opções sexuais desviantes, mas até
certo ponto. Está-se tratando de uma mancha GLS, porque o padrão
não é o beijo GLS? O grupo é respeitado, mas não
se realiza. A coisa não se torna pública. No entanto, são
freqüentes os beijos entre homossexuais nos banheiros e no fundo do
bar – muito mais entre as mulheres. Os trejeitos denunciam alguns atores,
mas a homossexualidade efetiva-se às escuras. Com a mesma sutileza
em que a ordem é estabelecida, ela também é subvertida.
Nos
primeiro depoimentos que se segue, o caráter público do beijo
GLS remete à associação do Valentino ao estranho;
no segundo, a repressão e o respeito mostram-se variáveis
de acordo com determinadas situações:
"Tudo no Vale
é estranho. Vocês já viram três se beijando?
Eu vi uma roda de uns sete ou oito jogando dadinhos da Imaginarium
e fazendo tudo ao pé da letra. Isso ali do ladinho do Vale.
Só sei que no final quem não tinha tirado “beijo na boca”
ainda saiu beijando os que faltavam. Detalhe: todos, meninos e meninas,
eram homo ou bissexuais".
"Ah, sim, sobre
os beijos no Valentino, já os vi entre pessoas do mesmo sexo.
Mas também já vi chamarem a atenção das pessoas
que faziam isso".
Se estamos tratando de um
espaço onde são constantes as tensões entre
visões de mundo divergentes, sempre procurando legitimar sua posição
numa dinâmica que altera “tradicionais” e “modernos” no topo da hierarquia,
a teoria interacionista do desvio tornar-se-á útil à
pontuação de mais algumas questões.
O
desvio relativo
"All social groups
make rules and attempt, at some times ad under some circumstances, to enforce
them. Social rules define situations and the kinds of behavior appropriate
to them, specifying some actions as “right” and forbidding others as “wrong”.
When a rule is enforced, the person who is supposed to have broken it may
be seen as a special kind of person, one who cannot be trusted to live
by the rules agreed on by the group. He is regarded as an outsider (…)
But the person who is thus labeled an outsider may have a different view
of the matter. He may not accept the rule by which he is being judged and
may not regard those who judge him as either competent or legitimately
entitled to do so. Hence, a second meaning of the term emerges: the rulebreaker
may feel judges are outsider". (Becker, 1973: 01).
Com a epígrafe acima
Becker inicia Outsiders, seu estudo clássico acerca do comportamento
desviante. Seus primeiros parágrafos já mostram os pontos
mais marcantes da teoria interacionista do desvio (Labelling theory):
a abordagem propriamente sociológica do problema, que outrora foi
formulado a partir de uma perspectiva médica e psicológica
e a relativização da categoria “desviante” (Velho,
1981; Pereira, 1984).
O
senso comum remete uma perspectiva patológica aos indivíduos
que não aceitam as regras impostas pela sociedade em que vivem.
Por alguma razão desconhecida, estes indivíduos carregariam
dentro de si uma predisposição ao desvio; fato que os caracteriza
normalmente como anormais ou inadaptados. A medicina tradicional por muito
tempo legitimou este tipo de discurso, que vê o desvio como inerente
à personalidade de alguns indivíduos, sem que se leve em
conta o processo de julgamento das acusações.
Na
citação pela qual iniciamos esta sessão, observa-se
que as regras, às quais todos somos orientados a seguir, são
determinadas socialmente; de forma que os desviantes – como parte da sociedade
- também estabelecem regras de acordo com sua visão “diferenciada”
da realidade, podendo, a partir de sua ótica, considerar os “normais”
como infratores; como desviantes. Temos então, por um lado, o fato
de que o desvio não é inerente, mas atribuído a certos
indivíduos; e por outro, o fato de que existem diversas possibilidades
de leitura da realidade, onde cada uma destas leituras irá considerar
seus valores como legítimos. O desvio é relativizado, deixando
de estar focado no individuo, como na abordagem psicológica, para
constituir-se na interação social, passando, assim, a ser
entendido em termos propriamente sociológicos.
A
teoria interacionista do desvio também nos é importante por
ter superado o conceito durkheimniano de anomie. Para Gilberto Velho
(1979), este conceito enfatiza a idéia de uma sociedade naturalmente
integrada. Com a premissa de uma sociedade já dada “funcionando”,
existe uma fase inicial hipotética na qual o sistema está
“funcionando normalmente”, até que apareça um processo de
mudança social, podendo ocasionar desequilíbrios e conflitos.
Esta visão também remete o anormal ao patológico,
mas aqui patologia não é atribuída aos indivíduos,
mas à própria coletividade. Há sempre a preocupação
em delimitar um modelo estabelecido, mais ou menos rigidamente, pela cultura.
Sendo este modelo rígido, essencial para a continuidade da vida
social. Nesta visão, a diversidade é vista mediante padrões
bem demarcados.
Em
contrapartida a um modelo de cultura rígido e homogeneizador, a
noção de totalidade social para a teoria interacionista supõe
a existência de grupos diferenciados, tanto no que toca aos universos
simbólicos aos quais estes grupos se referenciam, quanto ao volume
de poder que dispõem para fazer valer suas regras em determinada
situação (Pereira, 1984). Ultrapassando
os limites de uma idéia de cultura imposta, passamos a falar de
uma cultura permanentemente negociada, fato que nos permite ter maior clareza
acerca do conflito, ou ao menos da coexistência, de duas visões
de mundo nesta mancha de lazer. Para isto retomarei brevemente algumas
questões anteriores.
Com
o exemplo já citado da predominância do beijo heterossexual
nesta mancha de lazer GLS, reafirmo a idéia de que no espaço
em questão a diversidade sexual é respeitada, mas até
certo ponto – desde que não se torne eminentemente pública.
Tornando-se pública, concretiza-se diante dos olhos o fato de que
não somos iguais. ”Os desviantes sociais, conforme definidos,
ostentam sua recusa em aceitar o seu lugar e são temporariamente
tolerados nessa rebeldia, desde que ela se restrinja às fronteiras
ecológicas de sua comunidade” (Goffman,
1978: 156). Nos aparece então que a própria sociedade, através
da rotulação de alguns indivíduos, ou grupos de indivíduos,
sente a necessidade da diferenciação, mas não consegue
viver com ela a não ser através de mecanismos discriminatórios.
As acusações de desvio desempenham a função
de marco delimitador entre símbolos e valores moralmente aceitos
ou condenados, legitimando assim visões de mundo dominantes. As
acusações de desvio, ou as rotulações criadas
pela própria sociedade lhe permitem se reconhecer pelo que ela não
é. A partir do momento em que os aqui considerados “modernos” se
excedem no desfrute de seus símbolos, e a presença dos GLS
passe do imaginário dos trejeitos à concreticidade das ações,
surgem as acusações de desvio – as mais freqüentes:
“bichinha”, “viadinho”, “gayzinho” e “sapatão”, assim como “bizarros”
e “estranhos”.
"(...) o bar – Valentino
– é freqüentado por terríveis gays cruéis que
passam a mão na sua bunda e não te deixam ficar olhando desavisado
para um canto qualquer. Eles são assíduos no corredor apertado,
o motivo todos devem imaginar".
"Poxa, bizarrice
e Valentino é quase sinônimo. Já vi beijo a
três, já vi minha antiga conta no bar aumentar sendo que eu
não morava mais em Londrina, já estive no bar em uma noite
em que todos os figurinos de “Priscila a Rainha do Deserto” foram desfilados,
já me perdi nos espelhos do bar, já vi amigo meu saindo com
uma “lembrancinha” do bar (uma cadeira) e por ai a fora".
Outrora, associei a família
ao grupo aqui tomado como “tradicional”. Isto foi possível pelo
fato desta instituição exercer um forte controle sobre os
indivíduos, reproduzindo para toda a sociedade uma ideologia sexual
dominante, na qual a sexualidade e as relações de gênero
são ligadas à idéia de sexo anatômico. Diferenciar
a identidade das pessoas a partir do sexo anatômico parte da idéia
de que todos nos temos um compromisso de reprodução da espécie
e perpetuação da sociedade. Neste sentido os desviantes normalmente
são encarados como:
"(...) pessoas consideradas
engajadas numa espécie de negação coletiva da ordem
social. Elas são percebidas como incapazes de usar as oportunidades
disponíveis para o progresso nos vários caminhos aprovados
pela sociedade; mostram um desrespeito evidente por seus superiores; falta-lhes
moralidade; elas representam defeitos nos esquemas motivacionais da sociedade".
(Goffman, 1978: 155).
Se os que aqui chamei de
“tradicionais” acusam e rotulam os GLS quando estes se mostram “agressivos”,
o inverso também ocorre. Os “modernos” levam vantagem em algumas
situações nas quais suas regras prevalecem. As relações
de cumplicidade e a proximidade de muitos dos homossexuais masculinos para
com mulheres heterossexuais desejadas no bar muitas vezes causam inveja
nos “tradicionais” masculinos. Ao tomar atitudes preconceituosas, estes
“tradicionais” podem “perder pontos” com as mulheres desejadas, sendo assim
acusados de “rudes” ou “grossos”. Isso é demonstrado no depoimento
abaixo, onde ser moderno, cult, esclarecido, é um ponto positivo
para a inclusão:
"Se você não
é gay e tá afim de uma mulher que freqüenta o Valentino,
você tem que ser cult. Usar óculos de Chico Xavier,
fingir que nunca ouviu falar de Ratinho ou João Kleber, ser fã
de Lou Reed e David Bowie, e por aí vai".
Da mesma forma que os “modernos”
não tornam sua identidade totalmente pública, os “tradicionais”
tomam o mesmo caminho. Ambos pelo mesmo motivo: a pena de exclusão
e rotulação.
Apesar
da contribuição que a teoria interacionista do desvio nos
deu para a pontuação de algumas questões, precisamos
estar atentos para sua aplicação. Por estar fundada na interação
social, o desvio é detectado, num primeiro momento, no que é
dado imediatamente à observação de situações
concretas. Isto não justifica a análise pautada apenas em
modelos conscientes estabelecidos pela cultura, subjugando modelos mais
distantes como secundários. Pois nem todos os aspectos de uma cultura
são conscientes e passiveis de serem detectados num primeiro momento.
Ignorar aspectos estruturais – no sentido de não estarem presentes
na imediaticidade da realidade observada – do comportamento desviante é
ater a diversidade de uma cultura ao próprio universo empírico
observado. Mais do que analisar o processo de julgamento do comportamento
desviante, a abstração do problema em vários níveis
nos permite apreender os mecanismos que a cultura aciona para lidar com
sua própria diversidade.
Conclusão
Procurei
demonstrar aqui que o status GLS desta "mancha" se efetiva mais no imaginário
da população do que na concreticidade das relações
observadas no espaço. Seria errôneo afirmar que o espaço
em questão é uma mancha de lazer GLS. Mediante a heterogeneidade
do público freqüentador, e ao estigma que sofrem os GLS ao
tentarem revelar publicamente sua identidade, seria mais correto concebermos
este espaço como um ponto de encontro GLS, assim como de
punks,
hippies,
darks,
universitários, “tradicionais” e “modernos”. As normas de conduta
vigentes neste espaço não são ditadas pelos GLS, mas
negociadas por muitos. A afirmação desta mancha como GLS,
seria retornar ao senso comum que procuramos desviar quando fazemos antropologia.
Espero ter contribuído aqui para responder a questões como:
porque a referência e rotulação do local são
atribuídas mais aos GLS? Porque sofrem maior necessidade de rotulação?
Na medida em que as acusações de desvio denunciam a crise
de certos padrões estabelecidos, o conflito de visões de
mundo nesta mancha de lazer se dá sob o pano de fundo de uma sociedade
majoritariamente heterossexual vivendo um paradoxo que a incomoda, mas
que lhe permite enterrar mais fundo seus valores. Embora o faça
através de mecanismos discriminatórios, trata-se, primeiro
aos antropólogos e depois ao senso comum, de exceder o reconhecimento
negativo das diferenças tomando-as como fundamentais para a existência,
identidade e as artes de ser, de si mesmo e do outro.
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