Ser aluno «negro» na escola da grande cidade: imagens de professores
Maria do Carmo Vieira da Silva
continuação
 
nossos alunos são maltratados pelos outros miúdos», «antes dos intervalos, os (ciganos) mais velhinhos vão pelas salas recolher os mais pequenos»; 
 
 

 - por parte dos pais - «(pais) não queremos os filhos sentados ao pé de uma criança negra ou cigana», «(pais) não mandavam os filhos à escola quando ficava sentado ao pé de uma criança negra», «(mãe branca, casada com um senhor negro) ‘não admito que uma preta (empregada / auxiliar de acção educativa) bata na minha filha’», «(pais brancos) estavam a ver se os filhos brincavam com os pretinhos», «as pessoas não queriam pôr os filhos porque a professora era de cor», «os pais negros não se sentaram ao pé dos pais brancos», «(uma mãe branca disse) não punha aqui os filhos com os pretos», «(professora sãotomense) ouviu os pais comentarem que não lhe apertavam a mão por ser preta», «(pais brancos comentaram que) não queriam saber da professora preta para nada», «(pais ciganos) ‘nesta escola não deviam admitir pretos’»; 

 - dos professores - «colegas (professoras) que vêm aqui e ficam horrorizadas por haver tantos negros», «uma colega (professora) agarrou numa lista de alunos do 1º ano porque não queria ter alunos pretos», «eu tenho de dizer ‘mea culpa, mea culpa’», «(professora de cor) os ciganos não os tolera», «a professora veio em defesa do menino branco», «quando o professor faz diferença entre as diferentes etnias, entre as diferentes raças», «numa escola onde há duas crianças negras, a professora está doida», «em relação aos ciganos noto (por parte dos professores)», «os (alunos) ciganos são quase todos postos à margem», «(professora de cor) não queria os alunos negros e ciganos na sala», «(professora de cor) quando vamos passear há sistematicamente os ciganos e alguns cabo-verdianos que nunca vão», «(professores) ficam chocados quando sabem que vêm para aqui», «noto que os ciganos e os pretos não são tratados condignamente», «menino que está numa carteira sozinho porque é preto, numa escola onde há só um negro», «meninos negros e ciganos que estavam constantemente na rua», «(professora de cor) só comemorava os anos das crianças brancas», «(professora de cor) só as crianças brancas é que comiam o bolo», «(professora de cor) as crianças negras e ciganas ficavam na rua (no aniversário das brancas», «(professora de cor) dá prendas a um grupo e não dá a outro», «a colega (professora) de cor não aceita as crianças de cor mais pobres».

- Não aceitação (76 freq.) revela-se tanto entre alunos - «(alunos ciganos) só se dão entre eles», «(alunos brancos) com os negros é uma coisa impressionante», «a minha filha não foi bem aceite (no Ciclo ) por ser amiga da negra», «(alunos) têm muita zanga aos ciganos», «a miudinha negra não foi bem aceite no Ciclo», «tinham dificuldade em aceitar-se uns aos outros», «os (alunos) negros também não gostam dos ciganos», «(alunos ciganos) também não gostam deles (negros)» - como entre professores e alunos - «(alunos brancos) tiveram dificuldade em entender que eu gostaria que fossem meninos negros a recitar e dramatizar uma poesia angolana», «(professora) a quantidade de alunos de raça negra que aqui temos qualquer dia somos uma minoria e eles são uma maioria», «eu não aceitava o facto dos pretos partirem tudo», «(professora) ‘vê-se logo que é cabo-verdiano!’», «a maneira de chamar o aluno (é diferente)», «(maneira) de o arrumar numa fila (é diferente)».

- Intolerância (57 freq.) claramente manifestada pelos professores - «há racismo» (33 freq.), «o nosso subconsciente trai-nos», «(professores) talvez tenham um bocadinho de racismo», «uma colega (professora) confirmou-me que a directora é muito racista», «(professores) não dizem que é por ser de cor», «uma senhora de cor achou a directora da escola da filha muito racista», «conheço uma professora de cor que é mais racista que nós brancos», «(directora) mesmo com colegas negros faz reparo».

 - Desagrado pelo trabalho em escolas multiculturais (42 freq.) - «(professores) ficam cheios de medo», «(professores) só vêm em último recurso», «vou-me tentando adaptar a elas (crianças)», «uma professora que chegue aqui vê-se um bocadinho às aranhas», «(professores) vão-se habituando», «(professores) dizem que as crianças são muito difíceis», «as colegas novas não estão a aguentar o ritmo», «(professores) vêm para aqui por engano», «escolas com minorias são conotadas sempre com algum motivo de problemas», «uma colega disse que nem por nada voltava cá», «(professores) tendo alunos melhores, em termos de aprendizagem, têm a vida mais facilitada», «(professores) gostam de encontrar alunos com bom apoio familiar».

 - Desagrado pelos alunos cabo-verdianos e ciganos (14 freq.) - «pessoas que não gostam de estar em escolas com miúdos cabo-verdianos e ciganos», «(professoras) vêm com uma certa reserva em relação às crianças».
 - Diferenciação na constituição de turmas (8 freq.) - «características que são realçadas pelo facto de pertencerem a minorias étnicas e desfavorecidas», «momentos em que se constitui turmas».

 - Repugnância (4 freq.) - «um professor tinha relutância em ensinar os alunos pretos», «eu conheci uma (professora) que até tinha nojo, entre aspas, de mexer nos cadernos dos miúdos (de cor)», «tive um aluno muito negro o que me provocava mal-estar».

 - Falta de afectividade (3 freq.) - «(professora de cor) tem uma relação péssima com as crianças de cor de estrato social baixo», «(professora de cor) mostra mais afinidades às crianças lusas de um estrato social superior que às de cor», «(professora de cor) tem mais carinho às crianças lusas que às de cor».

 - Não protecção (2 freq.) - «(professora de cor) não protege tanto os miúdos cabo-verdianos como os lusos», «(alunos) precisam de protecção».
 Por sua vez, a sub-categoria «não valorização da diferença» referencia os indicadores seguintes: 

 - Desrespeito pela cultura do aluno (89 freq.), praticamente enunciados por dois docentes - «(minorias) também teria todo o direito de ver propagadas as suas coisas numa parede», «(minorias) mesmo que fossem poucas mereciam o mesmo respeito».

 - Desconhecimento da cultura do aluno (21 freq.), unicamente formulado por um docente - «(em Cabo Verde) quem apanha na cara é como um desprezo», «em Cabo Verde não se pode bater na cara de ninguém», «(com alunos cabo-verdianos) mesmo que o professor tenha razão (bater) na cara perde a razão», «aos ciganos nunca se pode bater».

 - Ensino centrado nos conteúdos (15 freq.) - «na maior parte dos casos, o professor só dá matéria», «ensino não está virado para a criança mas para o saber escrever e ler».

 - Avaliação baseada em objectivos mínimos (13 freq.) - «é mesmo aproveitando tudo».

 - Falta de formação dos professores (11 freq.), unicamente referenciado por um docente- «(professores) não estão preparados para valorizar as culturas destas crianças», «os professores ainda não estão sensibilizados», «a formação deve-se debruçar mais sobre as minorias», «não temos formação suficiente», «faz-se o melhor que se pode».

 - Ausência de referentes culturais próprios dos alunos (8 freq., assinaladas por um só docente) - «ausência de referências a características da cultura da minoria», «(refeições) que são características da população escolar autóctone».

 - Desarticulação da relação escola/meio (7 freq.) - «não havia uma grande interligação entre a escola e o meio».

 - Uniformização de estratégias (5 freq.) - «utilizo os mesmos métodos (com todos os alunos)».

 - Dificuldade em motivar os alunos (1 freq.) - «as actividades e as estratégias têm de ser muito motivadoras».
 A sub-categoria «não valorização dos problemas dos alunos» inclui os indicadores:

 - Não abordagem dos problemas dos alunos (26 freq.) - «a escola não dá resposta (aos problemas)», «não geram discussão a um nível aprofundado», «nós falamos mais é quando estamos juntas, no intervalo».

 - Falta de meios da escola (19 freq.) - «não temos recursos», «o corpo docente não pode fazer mais com os meios que tem».

 - Análise só de casos perturbadores (8 freq.) - «(problemas) só aparecem (em conselho escolar) quando são perturbadores», «(quando) ferem alguma sensibilidade».

 - Falta de abertura entre colegas/professores (4 freq.) - «no conselho escolar estamos com outras colegas que não vivem tanto estes problemas».

- Cultura do professor do 1º ciclo (2 freq.) - «o professor do 1º ciclo tem uma cultura que não incentiva à análise».

 
 

A sub-categoria «desrespeito» inclui, em primeiro lugar, o indicador acusação (16 freq.) a alunos - «uma criança disse que lhe faltava um objecto e a professora foi revistar o único aluno preto», «dizem sempre que são estes alunos quem se porta pior», «(alunos) quando qualquer coisa desaparecia diziam logo que era a (aluna) cigana», «desapareceu não sei o quê e às tantas foi a (aluna) negra», «qualquer coisa de mau que aconteça é o cigano» - mas também à auxiliar de educação de ascendência africana - «a mãe (branca) acusou a empregada de cor». Segue-se-lhe humilhação (14 freq,) - «as colegas brancas gozavam porque a mãe fugiu com um preto», «(aluno cigano) fazia o que queria dos miúdos mais pequenos da sua turma», «(professora de cor) vexou uma criança de cor à minha frente e dos colegas» -, actividades e serviços só para alunos de minorias (13 freq.) - «determinado tipo de actividade compensatória como um A.T.L. só para minorias», «contexto de relação face às minorias que as exclui», «serviço de refeições destinadas quase exclusivamente a minorias» - , desvalorização de colegas (9 freq.) docentes - «as próprias colegas quase que nos tratam como professoras de segunda porque estamos aqui», «uma colega disse que era um horror trabalhar numa escola com colegas de cor» - e, por último, insinuação (1 freq.) - «pai disse que eu estava a obrigá-lo a pagar o vidro porque ele era negro».


 
 
 

Relativamente à agressão verbal são referidos o insulto (24 freq.) a alunos - «(pais ciganos) chamam palavras obscenas aos miúdos», «quando um (aluno cigano) é insultado vêm os outros (alunos ciganos) mais velhos para o defender» -,  a professores - «uma avó perguntou à neta, em frente de todos, se eu era boa ou má professora», «(pais ciganos) insultaram a professora de tudo», «(pais ciganos) ofenderam-nos até no aspecto moral» - e a pais - «(pais de alunos pretos) são insultados por colegas brancos do filho» - e a discussão (10 freq.) - «(pais ciganos) discutem com as outras crianças que não são da sua etnia», «(pais ciganos) discutem com as crianças a nível de adultos», «(pais ciganos) vêm discutir connosco que o portão deve estar aberto».
 

 

A agressão física manifesta-se na pancada (26 freq.) entre alunos - «(aluno cigano) bate nos outros», «lá fora, tentam resolver com pancada», «(aluno cigano) bateu mas não quer que ninguém lhe bata», «(aluno cigano) sempre que pode bate em negros»-, a funcionários - «(pai branco) partiu os queixos (à empregada de cor)» - e a docente mestiça - «houve uma tentativa de agressão a uma professora mestiça».
 

 

Na opinião dos professores entrevistados, a ausência de expectativas positivas reflecte-se no insucesso escolar (18 freq.) - «(professor que discrimina) determinará dificuldades no rendimento desses alunos», «(alunos) ciganos e alguns cabo-verdianos que nunca vão (aos passeios) acabam por nunca ter sucesso» - e na diferença de oportunidades (6 freq.) - «a nível de expectativas iniciais (do professor)», «às vezes as oportunidades não são iguais».
 

 

Finalmente, a valorização da cultura da maioria resulta de ausência de formação pessoal e social dos alunos (9 freq.) - «descuidámos um bocado a parte de formação pessoal e social das nossas crianças» - e da superioridade cultural (7 freq.) - «achamos que a nossa cultura é a melhor». Verifica-se, assim, que as referências à existência de comportamentos discriminatórios (709 freq.) quase duplica relativamente à sua ausência (327 freq.).
 
 
 
 

Análise por grupos
Analisando-se a percepção dos entrevistados relativamente aos sujeitos emissores de comportamentos discriminatórios verifica-se que são os professores, os alunos e as famílias as fontes dessa mesma discriminação.
 
 
 
Os professores
Para os doze entrevistados, os docentes discriminam não só os alunos de minorias em geral, os alunos negros e cabo-verdianos e os alunos de etnia cigana, mas também as suas colegas negras e estas os próprios alunos de minorias.

 
 

Os alunos de minorias parecem ser, segundo os entrevistados, o alvo da discriminação dos professores manifestada sobretudo através da não valorização da diferença (148 freq.) e da rejeição (113 freq.) assim como da não valorização dos problemas dos alunos (57 freq.), da ausência de expectativas positivas (22 freq.), da valorização da cultura da maioria (16 freq.) e do desrespeito (13 freq.). A não valorização da diferença parece ficar a dever-se não só ao desrespeito pela cultura do aluno (89 freq.) como também ao método de trabalho dos docentes que acabam por reforçar o próprio «desrespeito» cultural. Com efeito, ao centrarem o seu ensino/aprendizagem nos conteúdos (15 freq.), ao avaliarem em função de objectivos mínimos (13 freq.), ao não recorrerem a referentes culturais dos alunos (8 freq.), ao não articularem a relação escola/meio (7 freq.), ao uniformizarem estratégias (4 freq.), ao não conseguirem motivar os alunos (1 freq.), ao não terem formação (11 freq.), acabam por reforçar a valorização da cultura da maioria e dificilmente conseguirem ter expectativas positivas acerca destes alunos. Alunos que também não são objecto de grande preocupação por parte dos docentes – não valorização dos problemas dos alunos – senão em casos perturbadores (6 freq.). Curiosa é a referência, nesta sub-categoria, à falta de abertura entre colegas/professores (4 freq.) que necessitaria de ter sido objecto de uma justificação para que não existissem dúvidas sobre a sua possível articulação com as sub-categorias rejeição e desrespeito. Na verdade, o facto dos entrevistados referirem a intolerância (51 freq.) e o desagrado pelo trabalho em escolas multiculturais (42 freq.) dos seus pares poderá ter como causa os estereótipos e preconceitos que estes possuem acerca dos alunos e, como consequência, a discriminação que «subtilmente» fazem não valorizando a diferença e os seus problemas e, afinal, não esperando nada de positivo dos mesmos.
 

 

De entre os alunos de minorias, as crianças negras e cabo-verdianas parecem canalizar a atenção dos docentes (82 freq.) pela rejeição (54 freq.) que delas fazem. E se em relação aos alunos de minorias a não valorização da diferença alcançava a frequência mais elevada, com os alunos negros e cabo-verdianos ela surge em segundo lugar (21 freq.) bem marcada pelo excesso da duplicação que a rejeição alcança. Os professores segregam (22 freq.) os alunos negros, não os aceitam (10 freq.), são intolerantes (4 freq.), têm repugnância deles (4 freq.), não gostam dos alunos cabo-verdianos (14 freq.). Rejeição que conduz ao desrespeito e à acusação (5 freq.) desses mesmos alunos negros.
 

 

As professoras negras são objecto de cinco referências por parte dos entrevistados que assinalam a rejeição (1 freq.) – através da intolerância – e o desrespeito (4 freq.) que para com elas têm os seus pares lusos. No entanto, estes mesmos entrevistados posicionam-se muito criticamente em relação às mesmas quando as culpam de também elas discriminarem alunos de minorias, grupo a que, supostamente, eles consideram que elas também pertencem. Segundo a sua opinião, as professoras negras rejeitam (28 freq.), segregando alunos negros (7 freq.), cabo-verdianos (2 freq.) e ciganos (12 freq.), sendo intolerantes com os alunos negros (1 freq.) e igualmente não lhes manifestando afectividade (2 freq.) – tal como aos alunos desfavorecidos economicamente (2 freq.) -, e não protegendo os alunos cabo-verdianos (12 freq.). Para além disso, desrespeitam também os alunos negros humilhando-os (2 freq.).
 

 

Parece deduzir-se da opinião dos entrevistados que esperariam das suas colegas negras uma atitude diferente para com estes alunos e não uma repetição de comportamentos semelhantes aos dos docentes lusos. Esquecem-se, contudo, ou desconhecem que para as suas pares negras a pertença à cultura da maioria (com tudo o que isso implica) ultrapassa a própria cor da pele.
 
 
 
 

Os alunos
A relação alunos/alunos é referenciada pela rejeição (5 freq.) – não aceitação -, desrespeito (9 freq.) – humilhação – e agressão física (2 freq.) – pancada.

 
 

No entanto, a mais marcante estabelece-se entre alunos e alunos negros e ciganos e entre estes últimos e negros e outros alunos. Assim, segundo os entrevistados, os alunos lusos rejeitam (42 freq.) os seus pares negros e ciganos segregando-os (7 freq. e 3 freq. respectivamente) e não os aceitando (25 freq. e 7 freq. respectivamente). Igualmente os desrespeitam (4 freq.) acusando-os (1 freq. e 3 freq. respectivamente). Em relação aos alunos de etnia cigana, agridem-nos verbalmente, também, através do insulto (2 freq.).

 

Por sua vez, estes últimos exercem o mesmo tipo de comportamento: rejeitando (27 freq.) através da segregação os outros alunos (1 freq.) e não os aceitando (13 freq.) tal como aos negros (13 freq.); desrespeitando através da humilhação (3 freq.) os outros alunos; agredindo fisicamente (7 freq.) com pancada colegas negros (1 freq.) e outros (6 freq.).
 

 

Finalmente, a relação alunos negros/alunos ciganos também surge assinalada pela rejeição (5 freq.) – segregação (4 freq.) e não aceitação (1 freq.).
 
 
 
 

As famílias
O mesmo tipo de comportamento parece estar presente nas famílias dos alunos que se discriminam entre si e a professores e a alunos.

 
 

As famílias lusas, segundo os entrevistados, rejeitam – segregação (3 freq.) -, agridem fisicamente – pancada (2 freq.) – e verbalmente – insulto (7 freq.) – as professoras negras e rejeitam – segregação (8 freq.) – os alunos negros. Também as famílias negras e ciganas são alvo da sua rejeição – segregação (17 freq.) assim como as auxiliares de acção educativa negras (23 freq.) a quem rejeitam – segregando (4 freq.) -, desrespeitam – acusando (4 freq.) - e agridem fisicamente – pancada (15 freq.). 
 

 

Situações discriminatórias relatadas

 

A análise de conteúdo das entrevistas revela, assim, a existência de situações de discriminação acontecidas, na sua maioria, no interior da escola. A quantidade e a variedade das mesmas pareceu merecer uma análise específica pelo que se procedeu, num primeiro momento, à sua inventariação e descrição tendo-se, seguidamente, elaborado quadros que permitissem, com mais facilidade, visualizá-las, quantificá-las e categorizá-las. Por fim, procedeu-se, ainda, a um levantamento de expressões verbais, emitidas por professores, alunos e pais/familiares relativamente a outros grupos étnicos e que, por não aparecerem integralmente transcritas na análise de conteúdo, pareceram merecer destaque não só pela forma como também pelo conteúdo que encerram.

 

Assim, apuraram-se 70 situações consideradas como discriminatórias, tendo todos os entrevistados enunciado de 1 a um máximo de 12 com uma média de 5.8 por entrevista. Feito o levantamento das 70 situações, verifica-se que 29 têm como destinadores professores, 23 os alunos, 17 os pais e 1 um avô.

 

Das 29 situações que têm como destinador o(a) professor(a), 23 foram emitidas por docentes lusos e 6 por docentes de ascendência africana, não lusos  Das 23 primeiras, 22 têm como destinatários os alunos sendo 16 especificamente dirigidas a alunos negros, 5 a alunos de diferentes etnias e 1 a um aluno cigano; a restante foi dirigida a uma professora negra, colega de profissão e de escola. As 6 situações provenientes de professores de cor tiveram como alvo alunos negros e ciganos (4) e, especificamente, alunos negros (2). 
 

 

Por sua vez, as 23 situações que têm como destinadores os alunos são emitidas por lusos (11), ciganos (5), negros (4), diferentes grupos étnicos (2) e não identificados (1). Os alunos lusos estiveram na origem de 8 situações dirigidas a colegas negros e as 3 restantes a colegas de diferentes minorias, cigano e timorense. Por seu lado, as 5 situações provenientes de alunos de etnia cigana visaram, em 4, alunos não discriminados e 1 dirigiu-se a um colega negro. Por seu turno, as 4 situações da autoria de alunos negros dirigiram-se a: aluno cigano, restantes alunos, alunos negros e aluna lusa. Em 2 situações, ainda, alunos de diferentes grupos étnicos têm como destinatário um colega cigano e, por último, alunos não identificados são os protagonistas de uma situação que tem como destinatários pais negros.
 

 

Os pais são responsáveis por 17 situações, 11 da autoria de pais lusos e 6 de ciganos. Os pais lusos estão na origem de 5 situações visando alunos negros, 3 a professora mestiça e/ou de cor, 2 funcionárias negras e 1 pais negros. Por sua vez, os pais de etnia cigana têm como destinatários, em 3 situações, professoras lusas, em 2 alunos e numa alunos negros. Finalmente, a situação que tem  origem num avô luso tem como alvo uma professora negra.
 

 

A análise efectuada permite conhecer o tipo e frequência de situações acontecidas. Contudo, e uma vez que se considerou que algumas situações tinham implícitas mais de uma intenção, incluíram-se as mesmas em diferentes categorias, pelo que o seu total é de 74, ultrapassando o somatório de situações inventariadas (70). Deste modo, a situação de discriminação recolhe a maioria (21), seguida de: agressão verbal (19), acusação (8), rejeição (7), não-aceitação (4), agressão física, insulto e ameaça (3 cada), humilhação (2) e tentativa de agressão física, discussão, repugnância e troça (1 cada). A situação de discriminação não é só a que recolhe maior frequência como é também a enunciada por quase todos os entrevistados (exceptuam-se dois). Segue-se-lhe a agressão verbal, que é denunciada por 8 dos 12 entrevistados, e a acusação, relatada por 6. Exceptuando a rejeição (descrita por 4 entrevistados), a agressão física e o insulto (por 3), a humilhação e a não-aceitação (por 2), as restantes são relatadas por um único entrevistado, independentemente da frequência de incidentes, dentro dessa categoria, que descrevem.
 

 

Por último, das 31  expressões verbais enunciadas, 20 têm como emissores os professores, 7 os alunos e 4 os pais/outros familiares. À excepção de dois docentes, todos os restantes as relatam. As expressões da autoria dos professores incidem, sobretudo, nas diferenças da cor da pele e na manifestação «horrorizada» pela presença de crianças africanas nas escolas que visitam ou onde são colocados; referências menos frequentes são feitas à presença de alunos de etnia cigana. A tónica no «preto» e no «cigano» dominam as expressões verbais da iniciativa dos alunos, enquanto as professoras de cor assim como uma funcionária e os alunos são os receptores das mensagens transmitidas por pais e outros familiares. Destaca-se, ainda, a expressão emitida por uma professora e dirigida a uma sua colega de cor verbalizando o seu desagrado, infelicidade e falta de qualidade no próprio trabalho ao ter de leccionar na mesma escola de uma colega de profissão «preta».
 

 

Em síntese, quer os incidentes descritos quer as expressões verbais emitidas provêm ambas, na sua maioria, da população lusa (sejam professores, alunos ou pais/outros familiares) e têm como alvo privilegiado os grupos de origem africana, quer sejam alunos, professores, funcionários ou mesmo pais. A este grupo-alvo junta-se, mas com menor frequência (o que não significa menor importância), a comunidade cigana. Situações de discriminação e agressão verbal directa ou indirecta dominam os incidentes relatados por todos os doze entrevistados, a que se seguem atitudes acusatórias, rejeições, não-aceitação, agressão física, insulto, ameaça, humilhação, discussão, repugnância e troça.Na sequência destes relatos, os docentes entrevistados foram introduzindo referências à importância de um «perfil» para os professores que trabalham em escolas multiculturais. A categorização das suas opiniões acentuou o interesse, a afectividade e a competência como elementos determinantes que estes devem possuir. Obteve-se, então, o seguinte «perfil de professor multicultural»: interessado (118  freq.) definido como tolerante (48 freq.), conhecedor dos alunos e do seu meio (25 freq.), aberto à mudança (24 freq.) e empenhado (21 freq.); afectivo (55 freq.) entendido como com capacidade de amar (30 freq.), sensível (12 freq.), carinhoso (6 freq.), paciente (4 freq.) e calmo (3 freq.); competente (4 freq.) sendo responsável (1 freq.), firme (1 freq.), com valores (1 freq.) e capaz de incutir confiança (1 freq.). Atendendo unicamente à frequência dos indicadores obter-se-ia, deste modo, o seguinte perfil: tolerante, com capacidade de amar, conhecedor dos alunos e do seu meio, aberto à mudança, empenhado, sensível, carinhoso, paciente, calmo, firme, com valores, responsável e capaz de incutir confiança.
 
 
 

 

Conclusões e Considerações Finais

 

 Embora num primeiro momento de abordagem os entrevistados se recusem a aceitar a existência, na escola, quer de opiniões preconceituosas desfavoráveis quer de comportamentos discriminatórios, as frequências dos respectivos indicadores acabam por desmentir este posicionamento. Com efeito, estas duas categorias recolhem, no seu conjunto, um total de 1.105 freq. contra 469 freq. obtidas pelo somatório das opiniões preconceituosas favoráveis e da ausência de comportamentos discriminatórios. 
 
 
 

Na verdade, ainda que os professores entrevistados assinalem as famílias lusas e os alunos lusos como portadores de opiniões preconceituosas desfavoráveis relativamente a alunos negros e ciganos, a professoras negras e a auxiliares de acção educativa também negras, são, em sua opinião, os próprios pares, docentes lusos, aqueles que mais significativamente possuem essas opiniões que reflectem nos alunos de minorias em geral (114 freq.), nos alunos de etnia cigana (70 freq.) e nos alunos negros (23 freq.), projectando-as também nas famílias dos alunos em geral e na dos ciganos em particular. 
Acabam, deste modo, por desvalorizar os mesmos grupos quer sejam alunos quer sejam famílias. 
 
 

A afirmação da existência, nas escolas, de opiniões preconceituosas desfavoráveis em relação aos alunos pertencentes a minorias étnicas vem, pois, confirmar os estereótipos e preconceitos possuídos pelos professores que, em muitas situações e pelas atitudes dos alunos, os vêem igualmente confirmados. Como a literatura relevante, anteriormente referenciada, demonstra as marcas da etnicidade revelam-se como fortemente constrangedoras e determinantes para o «olhar» e o actuar, para as interacções que se estabelecem entre docentes e discentes. Curiosamente, os entrevistados, quando emitem opiniões preconceituosas favoráveis, nunca se referem aos alunos de etnia cigana e valorizam bastante o empenho dos pais africanos e, sobretudo dos cabo-verdianos, no sucesso escolar dos filhos. No entanto, esta valorização passa pelo facto das crianças já não falarem crioulo em casa (adoptando, assim, o português como língua 1), dos seus pais já não serem analfabetos, serem pessoas abertas à escola, acreditarem nessa mesma escola; ou seja, estarem mais próximos da cultura da maioria até em termos de higiene. Desvaloriza-se, assim, «aquilo que não está conforme com as suas (brancas) expectativas e experiência» (Gillborn, 1990; 29), o que é diferente. Aliás esta perspectiva é acentuada quando se afirma a superioridade da cultura da maioria («achamos que a nossa cultura é a melhor»), o desrespeito pela cultura do aluno, o desconhecimento dessa mesma cultura, a ausência  na escola de referentes culturais de alunos de minorias, a não valorização dos seus problemas, a desarticulação da relação escola/meio. Elementos estes que associados à referência a ensino centrado nos conteúdos, uniformização de estratégias, avaliação baseada em objectivos mínimos, falta de meios da escola e ausência de preparação / formação dos docentes, podem fazer da escola veículo do que Richardson (2000) denomina de um «racismo institucional» porque origina um tratamento injusto e desigual das minorias étnicas, a maior parte das vezes sem intenção ou conhecimento dos directamente implicados. Ou seja, a identidade social positiva dos professores surge claramente enunciada.
 

 

A ausência de expectativas positivas, por parte dos docentes, reflecte-se no insucesso escolar dos seus alunos e na diferença de oportunidades que lhes são dadas. Esta afirmação vem ao encontro não só dos estudos efectuados por Rosenthal e Jacobson (1968) como também do que afirmam  Hall (1993; 180) - «o racismo e a discriminação têm um impacto maior nas expectativas que os professores têm dos seus alunos minoritários» -, Brewer e Crano (1994; 334) - «quanto mais favoráveis forem as suas expectativas mais positivo será também o modo como vê o aluno e o empenho que empreende no trabalho com ele» -, Deutsch (1963), Wilson (1963), Charlot et al. (1992), Bhavnani et al. (1986 ; 39) - «Sente-se que o sistema educativo promoveu a percepção da inferioridade cultural dos Negros, através da alimentação, do vestuário, da língua ou da religião» -, Jussim, Eccles e Madon (1996) – o efeito das expectativas negativas dos professores são consideravelmente mais fortes entre alunos de grupos estigmatizados -, Davidson e Lang (1960), Foster (1990), Wright (1991),  Correia (1992), Dove (1993) e Brown (1998). Na verdade, quando os professores salientam a organização familiar dos alunos (muitos filhos, famílias desagregadas), o seu estatuto económico de desfavorecidos  assim como o cultural («a grande maioria dos [pais] cabo-verdianos são analfabetos») acabam por, também, basearem as suas expectativas mais em conjecturas de atitudes do que nas capacidades  reais dos discentes (Eggleston, 1998), perdendo de vista os pontos fortes e valiosos das culturas donde procedem muitas dessas crianças desfavorecidas (Knapp et al., 1990).
 

 

No entanto e apesar deste reconhecimento da existência de opiniões preconceituosas desfavoráveis por parte dos docentes, a percepção que os mesmos detêm de si próprios, da sua classe profissional, do seu grupo de pertença, surge altamente valorizada (280 freq.) sobretudo no que diz respeito ao seu empenho profissional (233 freq.), funcionando a valorização dos problemas dos alunos (28 freq.), a valorização da diferença (12 freq.) e a aceitação dos alunos (7 freq.) quase como elementos secundários do seu sentido de profissionalidade. Talvez porque pensem e actuem em função de um contexto monocultural e em função de um aluno modelo.
 

 

As características étnicas dos alunos surgem claramente exaltadas quer através das palavras racistas quer das expressões desprestigiantes. «Preto», «negro» por ofensa, «macacos», «tição», «cigano», «chinês» são epítetos referenciados à semelhança dos enumerados por Kelly (1991) e Cohn (1991), assim como certas expressões desprestigiantes como é o caso do paralelo entre a ofensa feita pelo aluno guineense ao seu par timorense, criticando a maneira de falar da sua mãe - «tac, tac, tac» -, e o exemplo dado por Chan (1997; 39) de crítica feita por colegas ao nome próprio de um aluno asiático, Ping - «Costumavam dizer ‘ping... ing...ng...g...’». Expressões desprestigiantes usadas por alunos mas também por familiares dos mesmos - «esta escola era um curral», «vá para a terra dela» - e por professores - «para aquela escola é que não vou com aqueles negros», «parecem animais», «Deus me livre ir para aquela escola com tanta ciganada». Palavras e expressões que acabam por resultar da segregação existente entre alunos – brancos com negros, brancos com ciganos, negros com ciganos -, mas igualmente da parte das famílias (que segregam  não só alunos mas também funcionárias e professoras negras, e ainda os insultam) e dos próprios docentes que não só tomam atitudes claras de discriminação – põem à margem, não levam aos passeios, isolam, põem na rua, não comemoram aniversários, desrespeitam, humilham - como verbalizam o seu desagrado, medo, «doidice», choque, intolerância, horror e nojo pelo trabalho com estes alunos. Curiosa é a expressão, emitida por uma criança branca, «desencosta daqui a mão que és preto» semelhante à que Cohn (1991; 48) também cita: «Tira as tuas mãos pretas da minha mala». De referenciar também os comentários feitos a professoras «de cor», pelos seus pares lusos, visando atitudes de discriminação por elas perpetrados relativamente a alunos de etnia cigana e negros. Posição que contrasta com uma citação de Brown (1998; 33-34) de um depoimento de uma docente negra - «tento dar-lhes muita auto-estima» - e com os estudos de Rasekoala (1997). Talvez o facto de terem sido escolarizadas na cultura da maioria e pela cor pertencerem a um grupo minoritário de poder as tenha levado a uma adesão incondicional à mesma, a uma mobilidade social, o que as leva a rejeitar tudo o que ponha em perigo as suas «conquistas», dado que a cor da pele não se pode alterar. Perante estas situações não parece ser de estranhar a ocorrência de agressões físicas envolvendo alunos, funcionários e docentes. 
 

 

Constata-se, assim, na opinião destes doze professores, a existência de comportamentos discriminatórios em Escolas portuguesas do 1º ciclo do ensino básico em que os protagonistas são:

 

- os alunos sobretudo lusos tendo como alvo privilegiado os negros e os de etnia cigana;
- as famílias lusas em relação a negros (sejam alunos, professoras, auxiliares de acção educativa, pais) e também ciganos (pais) e estes últimos em relação a alunos de minorias em geral e a professores;
- os próprios professores lusos sobre alunos de minorias (369 freq.), alunos negros e cabo-verdianos especificamente (82 freq.) e só alunos ciganos (28 freq.). Os professores lusos discriminam, ainda, os seus pares negros e referem que estes também discriminam alunos de minorias, concretamente negros (12 freq.), cabo-verdianos (4 freq.) e ciganos (12 freq.).
 
 

De facto, quando os professores afirmam que «o tratamento do professor é exactamente o mesmo» e comparam o trabalho escolar de alunos pertencentes a minorias étnicas com lusos, não descortinando diferenças, podem correr o risco, assinalado por Brown (1998; 54), de equacionar «todos são o mesmo» com «todos são Brancos», valorizando, deste modo, a superioridade dos alunos brancos. Contudo, o que também parece inegável é a existência, por parte de muitos docentes, de um empenho profissional, caracterizado pela adaptação aos contextos multiculturais, tolerância, moderação de conflitos, formação, dedicação, afectividade e inovação. Dedicação que é extensiva às auxiliares de acção educativa referenciadas, também, como conhecedoras dos diferentes grupos étnicos até porque, a grande maioria, são recrutadas no meio onde se inserem as escolas vivendo, por isso, de perto com as experiências quotidianas dos alunos. Mas a discriminação está fortemente presente e atravessa as famílias, os alunos e os professores, fruto de uma experiência de socialização influenciada pela família, pelos pares, pelas relações de vizinhança e, igualmente, pelos meios de comunicação social. Estereótipos e preconceitos construídos desde muito cedo e confirmados pelas experiências de vida, mas pouco questionados ou até desconhecidos de muitos. No entanto, o papel de socialização que se atribui à escola, a preparação para uma vida em sociedade com os outros, assumem relevância na intervenção de cada professor; e embora sabendo o quanto é difícil alterar formas de pensar e comportamentos enraizados e mesmo tendo presente que não é na sala de aula que os alunos passam a maior parte do seu tempo e que a Escola é também um espaço de socialização entre pares, num contexto intra e extra sala de aula, mesmo assim o papel educativo de muitos docentes torna-se assaz questionável.

 
 
 

Notas
 

1 Este Estudo faz parte, juntamente com outros seis Estudos, da parte empírica desenvolvida para a dissertação de doutoramento da autora, em Ciências da Educação, com o título «Discriminatio subtilis: estudo de três classes multiculturais», apresentado à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, em 2002.
2  Designação utilizada pelo Secretariado Entreculturas para referenciar os indivíduos portugueses e de ascendência portuguesa «brancos».
3  Convém esclarecer que data dos anos 1980 o meu trabalho com professors do Ensino Primário / 1º Ciclo do Ensino Básico, em escolas do distrito de Setúbal, e a partir da década de 1990 mais concretamente sobre contextos multiculturais, em termos de formação contínua institucionalizada (CAP, ESE e Centros de Formação Contínua de Professores) ou por eles livremente solicitada em áreas disciplinares específicas.
4  Talvez tivesse sido pertinente questionar o significado de «integrar-se» para que não permanecessem dúvidas sobre a sua aproximação a «assimilar-se».
5  Segundo ciclo de aprendizagem dos alunos, correspondente ao 5º e 6º anos de escolaridade obrigatória.
6  Designação utilizada pelo Secretariado Entreculturas para referenciar indivíduos portugueses ou com outra ascendência não brancos, em oposição a nacionais brancos – «lusos».
 

 

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