Introdução
Portugal,
país habituado a ver partir os seus naturais, viveu, a partir do
final da década de 1970, uma situação completamente
diferente com a recepção de indivíduos provenientes
de outros espaços e de outras nacionalidades. Se, num primeiro momento,
são indivíduos oriundos das suas ex-colónias que chegam,
noutro são-no indivíduos deslocados do leste europeu e, mais
recentemente, do continente americano, com relevância para a população
brasileira. Continuou-se, no entanto, a verificar a chegada de naturais
das ex-colónias (Cabo Verde, São Tomé, Guiné,
Angola, Moçambique, Timor), muitos deles já não portadores
de uma nacionalidade portuguesa.
Segundo
dados do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas,
relativos a Maio de 2003, o número total de imigrantes não
comunitários e de cidadãos estrangeiros da União Europeia,
em Portugal, no ano de 2002, atingia os 405.580 indivíduos. De entre
os imigrantes não comunitários a residirem em Portugal, os
ucranianos constituem a maior comunidade (60.571), seguidos dos cabo-verdianos
(59.678), brasileiros (58.370), angolanos (31.332), guineenses (22.855),
moldavos (11.817), romenos (10.673), são tomenses (8.951), russos
(7.096) e moçambicanos (5.312).
O
distrito que acolhe maior número de imigrantes não comunitários
é o de Lisboa, com um total de 159.927 indivíduos, seguido
dos de Faro (35.830), Setúbal (34.494), Porto (25.439), Aveiro (14.042),
Santarém (14.523) e Leiria (10.606). Os restantes onze distritos
do continente português acolhem menos de dez mil imigrantes.
A
maioria dos imigrantes escolhe as cidades e, sobretudo, as grandes cidades
e do litoral para se fixar, onde é mais fácil arranjar trabalho
quer na construção civil quer nos serviços. Contudo,
o espaço urbano que ocupam não se processa do mesmo modo,
sendo que os grupos de origem africana «preferem» as periferias
das grandes cidades, ou espaços dentro das próprias cidades
já degradados e abandonados pelos naturais. O aluguer de casas
ou a construção de barracas na proximidade de conterrâneos
já instalados apresenta-se como determinante. Não é
de estranhar esta opção uma vez que o imigrante se sente
mais próximo dos seus, mais ajudado nas suas dificuldades, podendo,
também, manter costumes e hábitos de vida longe dos olhares
e dos comentários da população autóctone. Esta
proximidade permite-lhe continuar a usar, na comunicação,
a sua língua-mãe - elo fortíssimo de pertença
a uma cultura e a uma identidade colectiva -, o que lhe facilitará
todo um período de adaptação a uma nova realidade
e ao estabelecimento de pontes com o novo contexto de vida (trabalho, transportes,
saúde, educação...). É também de salientar
a importância que têm as relações interpessoais,
com predomínio das familiares, de amizade e mesmo de nacionalidade
e naturalidade, entre os grupos africanos, sentindo-se as pessoas mais
apoiadas, mais defendidas e mesmo mais fortalecidas para enfrentarem as
contrariedades. Daí estes espaços apresentarem-se fortemente
ocupados por famílias numerosas que, muitas vezes, não correspondem
ao conceito de família da população branca maioritária.
Para os africanos, o conceito de família abarca uma estrutura que
engloba a família nuclear (pais e filhos), mas, também, avós,
tios, primos, conhecidos e conterrâneos, assim como os vários
companheiros e companheiras dos pais e respectivos filhos/irmãos,
pelo que o número de elementos do agregado varia em função
das mutações e da mobilidade dos próprios sujeitos.
Esta proximidade de pessoas, com uma ascendência africana comum,
releva-se determinante na ajuda que recebem uns dos outros e no apoio que
é dado aos mais novos, que são cuidados pelas mulheres como
se fossem seus próprios filhos.
A
zona designada de «Grande Lisboa» e a «margem sul»
(do rio Tejo, frente a Lisboa) constituem um lugar por excelência
da escolha dos imigrantes africanos, devido a todo um conjunto de estaleiros
de obras e de serviços que proporcionam facilidade de trabalho.
A construção civil para os homens e os serviços domésticos
e de limpeza para as mulheres constituem importantes fontes de subsistência,
sobretudo para os africanos, cujo grau de escolaridade é muito baixo
e cujo domínio correcto da língua portuguesa se afasta bastante
da norma linguística. Para alojar esta população e
numa tentativa de erradicação das barracas, construíram-se
blocos de habitação social com vários andares que,
na maior parte dos casos, continuam a demarcar com nitidez o espaço
dos de cá e dos outros, dos brancos e dos negros, remetendo estes
últimos para guetos, para espaços catalogados como pouco
seguros, perigosos, de marginalidade, epítetos que se colam também
aos que aí vivem e que passam a constituir o seu estereótipo
social. Refira-se que outros grupos ocupam estes locais de habitação
social, inclusive população branca portuguesa, mas todos
têm em comum o seu desfavorecimento económico e social.
Se,
num primeiro momento, são as condições de alojamento
e de subsistência que preocupam os recém-chegados, num outro
são-no a inserção escolar das suas crianças,
a frequência de uma escolaridade que os grupos africanos consideram
fundamental e que privilegiam como meio de obtenção de um
futuro melhor e, por consequência, de melhores condições
de vida e de estatuto social para os seus filhos.
A
instalação destes grupos, nas cidades, trouxe um novo matiz
à população escolar e novos desafios aos professores.
Com efeito, a diversidade de alunos presentes nas salas de aula obrigava
a repensar um ensino/aprendizagem até então centrado na monoculturalidade,
num modelo de aluno de pele branca, de princípios religiosos maioritariamente
católicos, com filiações profundas a um legado cultural
europeu ocidental. Disse-se «obrigava» porque, na realidade,
não foi esta a atitude maioritária adoptada pelas escolas
e respectivos professores, apesar da criação e do trabalho
desenvolvido, a partir da década de 1990, pelo Secretariado Coordenador
dos Programas de Educação Multicultural, de competência
governamental.
As
investigações que vimos desenvolvendo, desde 1989 no contexto
escolar multicultural português, a nível do 1º ciclo
do ensino básico (anteriormente designado de ensino primário),
levaram-nos à constatação de um tratamento diferenciado,
na Escola, dos alunos por parte dos seus professores e dos seus colegas,
numa idade dos mesmos tão propícia à sensibilização
para o trabalhar e o viver com outros que são diferentes na fisionomia,
no estar e no pensar. Aquilo que, à partida, podia ser um enriquecimento,
um abrir para o outro e para outros mundos tornava-se um elemento de constrangimento,
um obstáculo no processo de ensino/aprendizagem, um desagradável
convívio, um mal-estar latente, sobretudo por parte dos professores
cujo desagrado no trabalho com classes multiculturais, com presença
de alunos negros e ciganos, se tornava cada vez mais explícito e
verbalizado. Parecia que mais do que se ser imigrante o que efectivamente
constrangia os docentes era a cor – o negro -, como marca visivelmente
definidora de estereótipos e de preconceitos significativamente
enraizados.
É
neste contexto que se apresenta os resultados de um Estudo por nós
realizado sobre a «imagem» que os professores têm dos
seus alunos de ascendência africana (concretamente cabo-verdianos
e angolanos) e as «dificuldades» que manifestam no trabalho
diário de sala de aula com os mesmos.
O
Estudo
A
análise efectuada à literatura relevante sobre as relações
intergrupais, em contexto escolar, demonstrou como o favorecimento do grupo
próprio pode conduzir a comportamentos discriminatórios que
se manifestam sob a forma de agressões psicológica, verbal
e física, sobretudo sobre membros de grupos alheios pertencentes
a minorias étnicas fortemente marcadas por estereótipos e
preconceitos sociais. A Psicologia Social explica como nascem e como se
desenvolvem estes processos cognitivos em cada indivíduo e nos respectivos
grupos sociais de pertença. Coube a Tajfel (1983) realizar a compreensão
da importância da identidade social e da categorização
social, como desencadeadora, sob determinadas condições,
de processos de discriminação e competição
intergrupal. Nos estudos colaborativos de Tajfel com Turner (1999) verificaram
que a acentuação da importância de uma identidade social
positiva dos membros de um grupo conduz à discriminação
e ao favoritismo desse mesmo grupo. Como consequência, a discriminação
resulta de estereótipos e de preconceitos interiorizados nos sujeitos,
quando existe consenso de opinião entre os mesmos, relativamente
aos traços atribuídos a um determinado grupo, pelo que todos
os membros desse mesmo grupo (naturalmente os do out-group) passam
a ser vistos de modo idêntico, passam a ser considerados como possuidores
das mesmas características indiferenciando-se, por isso, uns dos
outros. Trata-se, assim, de perceber, de um modo mais homogéneo
– «homogeneidade» -, as categorias relativas ao grupo alheio
prestando-se, deste modo, mais atenção às variações
dentro do grupo próprio do que dentro do grupo alheio. Isto é,
todos os membros do grupo alheio passam a ser vistos como iguais, sem diferenças
entre si, como um todo homogéneo, mesmo quando a verdade não
é essa. O grupo próprio joga, assim, com a sua auto-estima,
fortalecendo-a e intensificando a sua identidade social positiva.
Sendo
o corpo docente de uma escola constituído por pessoas, por indivíduos
integrados em categorias sociais, também elas possuem estereótipos
e preconceitos que se irão manifestar, de forma mais flagrante ou
subtil, na sua relação com os alunos e com os outros elementos
da comunidade escolar, no comportamento interpessoal que com eles mantêm.
Comportamento esse que é também marcado pelas expectativas
que cada docente detém em relação a cada aluno e/ou
grupos de alunos, podendo levar estes últimos a comportarem-se de
maneira a confirmarem o que deles era esperado pelo seu professor (Brewer
e Crano, 1994). A presença, na escola, de crianças e jovens
oriundos de grupos étnicos diferentes do da maioria introduz a marca
da etnicidade que pode conduzir, em muitas situações, à
prática do favorecimento do grupo próprio e, por conseguinte,
à discriminação por parte dos docentes (Bhavnani,
2001; Appiah, 2000; Debarbieux, 2000; Richardson, 2000; Sewell, 2000; Brown,
1998; Gillborn, 1997 e 1990; Rasekoala, 1997; Winitzky, 1995; Hall, 1993;
Siraj-Blatchford, 1993; Troyna, 1993; Charlot et al., 1992; Figueroa, 1991;
Cohn, 1991; Kelly, 1991; Wright, 1991; Foster, 1990; Knapp et al., 1990;
Dunkin e Doenau, 1985; Williams, 1985; Vasquez e Proux, 1984; Vasquez,
1982; Zimmermann, 1978; Jackson e Cosca, 1974) que, também eles,
pertencem à maioria.
A
constatação da existência de discriminação
por parte dos professores em relação a alunos pertencentes
a minorias étnicas, em escolas estrangeiras, constituiu um desafio
para conhecer a dinâmica da discriminação efectiva
e percebida em escolas portuguesas do 1º ciclo do ensino básico
(para muitos alunos, pertencentes a estes grupos, o primeiro momento de
contacto formal com a cultura da maioria) que, sobretudo a partir da década
de 1970, passaram a escolarizar alunos de origem africana e timorense,
provenientes de e ex-colónias portuguesas, assim como conhecer as
relações existentes entre docentes e alunos de etnia cigana,
a mais antiga estabelecida em território continental português.
Por outro lado, quer uma investigação anterior (realizada
para a dissertação final de mestrado) quer a participação,
posterior, num trabalho de projecto numa escola multicultural do distrito
de Setúbal, permitiram observar e ouvir comentários - a nível
de aprendizagem, comportamento, maneira de ser, higiene, família...
- de professores sobre alunos de ascendência africana e de etnia
cigana onde dominavam apreciações negativas que nunca questionavam
o seu papel docente no processo ensino/aprendizagem mas, antes, a culpabilização
familiar, a ausência de normas, o próprio facto desses alunos
serem, afinal, diferentes porque «pretos» e «ciganos»,
a quem se colavam determinadas características. Como consequência,
tornava-se fundamental saber o que os professores pensavam e o que pensavam
que os outros pensavam; isto é, investigar as auto-percepções
e as percepções dos docentes sobre os alunos pertencentes
a minorias étnicas e mais concretamente acerca dos alunos negros
e de etnia cigana.
Assim,
o objectivo deste Estudo – intitulado «O Eu e o Outro: análise
da auto e hetero-imagem de um grupo de professores» - foi determinar
se, na opinião de doze professores do 1º ciclo do ensino básico
português, se verificavam ou não situações de
favorecimento intergrupal e, por consequência, de discriminação
na relação pedagógica, em escolas portuguesas deste
nível de ensino. Este Estudo auscultou a opinião de
doze professores com ampla experiência de trabalho em contextos escolares
multiculturais urbanos no distrito de Setúbal, zona de grande afluência
de imigrantes e incluída na denominada Zona Metropolitana de Lisboa.
A abordagem realizada permitiu obter todo um conjunto de elementos definidores
das percepções tidas por estes professores sobre:
-
si próprios (auto-imagem),
os alunos de minorias, as famílias dos mesmos, as auxiliares de
acção educativa, as professoras negras e a relação
professores negros/alunos de minorias;
-
os alunos de diferentes grupos
étnicos em interacção assim como o relacionamento
alunos lusos /professoras negras e alunos lusos/famílias negras;
-
as famílias dos alunos
entre si, com os próprios alunos e em interacção com
professores lusos e negros e auxiliares de acção educativa
negras.
Permitiu,
finalmente, conhecer a opinião destes professores sobre a ausência
e a existência de comportamentos de favorecimento intergrupal e o
tipo de acções em que os mesmos se manifestavam.
As
percepções obtidas foram categorizadas em «opiniões
preconceituosas favoráveis» e «opiniões preconceituosas
desfavoráveis», o mesmo acontecendo relativamente ao favorecimento
e desfavorecimento intergrupal, categorizados em «ausência
de comportamentos discriminatórios» e «existência
de comportamentos discriminatórios».
A
articulação entre as percepções dos professores
e o favorecimento grupal permitiu conhecer a causalidade, isto é,
quem favorece quem, e vice-versa, e porquê. Embora a interacção
professores lusos / alunos de minorias, estes e os professores e alunos/alunos
constituísse o objecto primeiro do Estudo, as referências
a outros elementos da comunidade educativa pelos informantes-chave revelaram-se
fundamentais como suporte de socializações de que os intervenientes
são o reflexo. Ou seja, quer para docentes quer para discentes (e
apesar dos anos de vida que medeiam os dois grupos), o espaço escola
e tudo o que aí acontece não surge como experiência
iniciática, antes é o confrontar, no dia-a-dia, de opiniões
e de imagens que se para uns (alunos) parecem já estar presentes
e relativamente consolidadas, para outros (adultos) parecem estar fortemente
enraizadas.
Metodologia
Participantes
Os participantes foram doze
professores profissionalizados (em Escolas do Magistério Primário),
em serviço e pertencentes ao quadro de nomeação definitiva
das suas respectivas escolas de 1º ciclo do ensino básico,
todos com mais de quinze anos de trabalho efectivo e continuado neste nível
de ensino, em escolas multiculturais do distrito de Setúbal. Dos
doze, onze eram professoras, todas de nacionalidade portuguesa mas uma
de ascendência cabo-verdiana e outra angolana, sendo o único
professor também de nacionalidade portuguesa. Todos foram considerados
como informantes-chave devido ao conhecimento e experiência de trabalho
que possuíam com alunos africanos, timorenses e ciganos. Todos aceitaram
participar na investigação tendo, no entanto, frisado tratar-se
de um assunto sobre o qual não gostavam de se pronunciar, considerando-o
mesmo tema tabu nas escolas, pelo que só iriam fazê-lo em
atenção à investigadora, cuja certeza da confidencialidade
das informações prestadas confiavam estar assegurada .
Tarefas e materiais
Elaborou-se um «guião
de entrevista» semidirectiva, de carácter «evolutivo»
uma vez que o mesmo se foi adaptando, modificando e enriquecendo à
medida que se realizaram as mesmas em função de elementos
introduzidos e/ou valorizados pelos entrevistados e, inclusive, da abertura
manifestada pelos entrevistados às questões colocadas.
O
«plano da entrevista» organizou-se em seis pontos: objectivo
geral; objectivos específicos; destinatários; estrutura da
entrevista; tópicos para a formulação das questões;
elementos complementares. Procurou-se que as questões fossem formuladas
de modo a não comprometerem directamente os entrevistados em possíveis
situações de discriminação pessoal, pelo que
se partiu do geral – a escola globalizante – para o particular, próximo
– a escola onde lecciona –, sem nunca mencionar a palavra discriminação
nem questionar directamente o comportamento do entrevistado nesse sentido,
optando-se, por isso, por um questionamento sempre na terceira pessoa.
É neste sentido que se utiliza o vocábulo «evolutivo»
como expressão de uma metodologia de pesquisa que permitiu introduzir
novas questões, quando a situação o permitia, recuperando-as
para entrevistas posteriores, num processo que se pretendeu dinâmico
«em constante progressão, alimentado em permanência
pelo trabalho no terreno» (Huberman e Miles, 1991; 85). Exemplo disso
são as questões relativas a: discussão, em conselho
escolar, de «situações de conflito» acontecidas
na escola; reacção dos professores ao saberem que vão
ter como alunos crianças pertencentes a minorias; necessidade de
existir ou não um «perfil» de professor para trabalhar
com estes alunos e quais os elementos definidores do mesmo.
Procedimentos
As
entrevistas realizaram-se nas instituições onde trabalhavam
os entrevistados, por sugestão dos mesmos e à hora que indicaram,
em ambiente sossegado e não perturbador da atenção,
em clima de grande abertura e, por vezes mesmo, confessional. Apesar de
logo de início ter sido garantida a confidencialidade das respostas,
em vários momentos alguns entrevistados preocuparam-se em obter
o reforço dessa confidencialidade antes de se pronunciarem sobre
casos concretos vivenciados nas suas escolas. As entrevistas tiveram uma
duração que variou entre os 25’ e os 40’ e, antes do seu
início e de explicitadas as linhas gerais do trabalho de investigação
e solicitada a colaboração do entrevistado, foi pedida a
sua permissão para o registo magnético das mesmas o que foi
aceite por todos sem reservas, à excepção da professora
de ascendência cabo-verdiana (pelo que a mesma foi manualmente escrita
em situação).
Terminada
a entrevista e feitos os respectivos agradecimentos, procedeu-se, no mais
curto espaço de tempo possível, ao registo de elementos relevantes
sobre o modo como decorreu a mesma e a aspectos particulares do(a) entrevistado(a).
Cada entrevista foi integralmente transcrita e codificado o seu autor.
A transcrição não introduziu nenhuma alteração
nem suprimiu qualquer elemento dos discursos pelo que, por vezes e em termos
formais, a estrutura frásica e a coerência de pensamento do
respectivo autor nem sempre surgem linguisticamente correctas. Procedeu-se,
ainda, à elaboração de uma «ficha de elementos
complementares» (registados logo após o término
de cada entrevista, constituindo o que Huberman e Miles chamam «observações
au vol») onde se salientam: as condições em que se
realizou a entrevista; os comportamentos não-verbais do entrevistado;
observações de ordem geral. Para cada entrevista elaborou-se
também uma «ficha síntese» que consistindo essencialmente
em frases ou fragmentos de frase, com base na releitura integral de cada
uma, constituem respostas adequadas às questões formuladas
(ibidem, p.89) permitindo, deste modo e de forma condensada, saber rapidamente
a «essência das informações recolhidas»
(ibidem, p.88) obtendo-se as principais ideias enunciadas acerca das diferentes
questões colocadas.
A
análise de conteúdo dos doze discursos percorreu as seguintes
etapas:
1 – Decomposição
de cada texto em unidades de registo.
2 – Inventariação
das unidades de registo com o respectivo grau de frequência, tendo
em conta hipóteses de partida.
3 – Categorização
utilizando o procedimento por «milha» (Bardin, 1979; 119) como
resultado da classificação analógica e progressiva
dos elementos, sendo o título conceptual de cada categoria definido
no final da operação. Procurou-se construir um conjunto de
categorias que se excluíssem mutuamente, que fossem homogéneas,
pertinentes e produtivas, aplicando princípios de objectividade
e fidelidade (ibidem, p.120).
Análise dos resultados
Auto-imagem dos professores
Um primeiro conjunto de elementos
que ressalta das opiniões emitidas pelos professores entrevistados
refere-se à sua própria auto-imagem como professores. Esta
surge altamente valorizada positivamente uma vez que das 306 freq. enunciadas
280 freq. apresentam-se como positivas e só 26 freq. como negativas.
A positividade desta auto-imagem parece ficar a dever-se, sobretudo, ao
empenho profissional dos professores (233 freq.) que são essencialmente
tolerantes (41 freq.), moderadores de conflitos (28 freq.), procuram compreender
o meio dos alunos (27 freq.), aplicam o novo modelo de avaliação
(22 freq.), diversificam metodologias (17 freq.), dedicam-se (16 freq.),
apoiam os alunos (12 freq.) e sentem-se gratificados (10 freq.) apesar
de terem um trabalho desgastante (10 freq.). Os restantes indicadores (com
frequências inferiores a 10) referem o seu papel formativo junto
dos alunos (9 freq.), dos pais (2 freq.) e no bairro (4 freq.) assim como
a estabilidade que dão à escola (5 freq.), a própria
aprendizagem que realizam para melhor se aproximarem dos alunos – aprendendo
a trabalhar com os alunos (8 freq.), aprendendo a comunicar com a família
dos alunos (5 freq.), receptivos (1 freq.) -, a inovação
que introduzem – inovadores (5 freq.), utilizando metodologias diferentes,
as mais novas (1 freq.) – e o que suportam – com um papel que vai para
além de ser professor (6 freq.), suportando maus cheiros (4 freq.).
Em complemento deste empenho
profissional parece estar a aceitação (7 freq.), traduzida
na defesa dos alunos (4 freq.) e na adaptação dos professores
ao trabalho com os mesmos (3 freq.), e sobretudo a valorização
que fazem quer dos problemas dos alunos (28 freq.) – análise dos
problemas (23 freq.) e definição de critérios de actuação
(5 freq.) – quer da diferença (12 freq.), devido à formação
de professores (8 freq.), à motivação (2 freq.) e
à existência de projectos (2 freq.).
Esta auto-imagem positiva
é algo denegrida pela afirmação da existência
de rejeição – traduzida em segregação (21 freq.)
– por parte dos docentes, a que se junta, também, o desrespeito
efectivado na desvalorização de colegas (5 freq.).
Em
síntese, a auto-imagem positiva tida pelos professores e expressa
nas 280 freq. utilizadas como que diluem as 26 referências feitas
pelos mesmos à existência de rejeição e de desrespeito
por parte dos docentes, em contexto escolar.
Opiniões
preconceituosas desfavoráveis
Análise geral
As percepções
dos professores sobre si próprios, os outros docentes, os alunos,
as famílias e o pessoal auxiliar de acção educativa,
que alcançaram um número de frequências mais significativo,
referem-se à existência de «opiniões preconceituosas
desfavoráveis». Estas opiniões preconceituosas, incluídas
em dez sub-categorias com um total de 396 freq., fundamentam-se em:
comportamentos sociais (98 freq.); características étnicas
(86 freq.); características civilizacionais (70 freq.); cuidados
familiares (50 freq.); trabalho escolar (30 freq.); características
de personalidade dos alunos (27 freq.); estatuto económico (16 freq.);
instituição escolar (16 freq.); organização
familiar (2 freq.); estatuto cultural (1 freq.).
A
enumeração dos comportamentos sociais é indicada por
todos os entrevistados, à excepção de um. As características
étnicas manifestam-se em palavras racistas (51 freq.) e expressões
desprestigiantes (35 freq.). Palavras racistas dirigidas a alunos - «ouço
dizer ‘aqueles pretinhos’», «chamam ‘negro’ por ofensa»,
«(aluno cabo-verdiano) quando se zanga chama ao guineense ‘preto’»,
«’pareces uma cigana’, dizem quando querem ofender», «tenho
um (aluno) timorense a quem eles, de vez em quando, chamam ‘chinês’»,
«os (alunos) ciganos chamam ‘pretos’ e ‘macacos’ aos cabo-verdianos»,
«os (alunos) cabo-verdianos chamam-lhes ‘ciganos’», «já
ouvi chamar a um aluno ‘tição’» - mas também
às professoras africanas - «o avô de uma menina disse,
na hora do recreio, à professora de cor da neta: ‘sua negra, vá
mas é lá para a sua terra!’», «(senhora branca
disse) ‘está aqui esta preta (professora) sentada a tirar-nos o
lugar’» - e às próprias funcionárias - «a
mãe chamou ‘preta’ à empregada de cor». Expressões
desprestigiantes emitidas por alunos - «(aluno guineense) achou que
era a ofensa que devia fazer ao timorense dizer que a mãe dele era
‘tac, tac, tac’ (a falar)» -, por encarregados de educação
- «a mãe (branca) de uma aluna disse que esta escola era um
curral», «ela (professora de cor) que vá para a terra
dela» - e, sobretudo, por docentes (27 freq.) - «a nível
de linguagem há expressões infelizes», «não
sei se alguma vez poderei ter dito alguma coisa discriminatória»,
«já ouvi colegas dizer: ‘para aquela escola é que não
vou com aqueles negros’», «eles (alunos) parecem animais!»,
«Deus me livre ir para aquela escola com tanta ciganada!».
As características
civilizacionais incluem: protecção da família (45
freq.), dificuldade em cumprir regras (12 freq.), cultura própria
(11 freq.), alimentação diferente e protecção
aos pares mais novos (1 freq. cada). No que se refere à protecção
da família, são os pais de etnia cigana os únicos
visados nas observações feitas pelos entrevistados.
Quanto aos cuidados familiares,
a negligência (13 freq.) - «as (mães) brancas não
têm os mesmos cuidados (que as de cor)», «em casa havia
muita negligência» -, a sub-alimentação (11 freq.)
- «crianças que comem mal», «(onde vêem)
alguma comida, quer no lanche quer no almoço, é na escola»
-, a ausência de afecto (8 freq.) - «(alunos) precisavam era
de um bocadinho de carinho», «(alunos) podem ter muitos vídeos
mas não têm afecto», «(alunos) muitos não
têm carinho nenhum», «a parte afectiva é o elemento
fundamental» -, os castigos físicos (7 freq.) - «(alunos)
eram castigados quando faltavam ao respeito aos pais», «(para
os pais) qualquer forma de castigo era perdoável», «(castigo)
era para o miúdo crescer», «as famílias (cabo-verdianas)
até apoiam que o professor bata» -, a falta de higiene (7
freq.) - «(alunos ciganos) vêm muito sujos», «(alunos
dizem que os ciganos) têm piolhos», «havia crianças
brancas com piolhos», «(alunos dizem) ‘o cigano está
sujo’», «bastou eu dizer que havia meninos que cheiravam mal
dos pés para eles dizerem que era o aluno cigano» -
e o pouco apoio (4 freq.) - «os filhos têm pouco apoio dos
pais», «(pais) sem grande preocupação com os
filhos», «os pais não sabem para os ajudar» -
constituem as sub-categorias que englobam opiniões não só
sobre alunos de minorias étnicas mas também de minorias desfavorecidas,
crianças brancas incluídas.
As características
de personalidade dos alunos constituem, para os professores entrevistados,
um outro elemento de desvantagem para estes alunos que: estão em
situação de risco (14 freq.) - «não são
os meninos bem», «são meninos da rua», «(os
professores) acham que isto aqui é o Texas», «temos
crianças em situação de risco», «crianças
que já foram presas», «é a escola dos marginais»,
«a rua é um interesse muito forte», «(professores)
consideram esta zona degradada»; são desequilibrados (8 freq.)
- «o ambiente social dos alunos», «quando chegam aqui
já vêm desequilibrados», «atrás deles vem
uma carga muito grande que é a família», «sofrem
muitas pressões», «têm uma vida difícil»,
«trazem muitos problemas de casa»; são rebeldes (2 freq.)
- «são muito rebeldes», «são muito traquinas»;
sem valores (2 freq.) - «as pessoas não têm valores»,
«miséria social»; sem auto-estima (1 freq.) - «estas
crianças sofrem de uma baixa-estima muito grande».
O próprio estatuto
económico de desfavorecidos (16 freq.) - «a maioria destas
crianças têm dificuldades económicas grandes»,
«(pais) muitos vivem em condições muito más»,
«(pais) com fracas possibilidades económicas», «normalmente
as mães não trabalham», «(grupos étnicos)
desfavorecidos em relação a outros grupos», «(pais)
a maioria vieram de barracas», «(professores dizem) que as
crianças são muito pobres», «(professores dizem)
que as crianças não trazem o material» - vem reforçar
outras sub-categorias, anteriormente enunciadas.
Também o modo como
se processa a organização familiar dos alunos, assinalado
por duas professoras, constitui um factor de desvalorização
dos mesmos, uma vez que provêm de famílias com muitos filhos
(1 freq.) - «normalmente são pessoas que têm muitos
filhos» - e de famílias desagregadas (1 freq.) - «as
famílias são muito desagregadas».
A docente de ascendência
cabo-verdiana é a única a referir-se ao estatuto cultural
da família cabo-verdiana (1 freq.) afirmando que «a grande
maioria dos (pais) cabo-verdianos são analfabetos».
Análise por
grupos
Analisando, agora, as percepções
dos doze entrevistados acerca dos diferentes grupos que referem, verifica-se
que, maioritariamente, as «opiniões preconceituosas desfavoráveis»
têm como sujeitos os professores, os alunos lusos e as famílias
lusas e como objecto os alunos de minorias, professoras e auxiliares de
acção educativa negras.
Os professores
Segundo os entrevistados,
são os seus próprios pares lusos, docentes, quem detém,
em contexto escolar, opiniões preconceituosas desfavoráveis
mais relevantes sobre os alunos: alunos de minorias em geral, alunos de
etnia cigana em particular e também alunos negros.
Com efeito, em sua opinião,
os professores desvalorizam (114 freq.) os alunos pertencentes a minorias
étnicas devido às suas características de personalidade
(27 freq.) – porque estão em situação de risco (14
freq.), são desequilibrados (8 freq.), rebeldes (2 freq.), sem valores
(2 freq.), sem auto-estima (1 freq.) -, às suas características
étnicas (16 freq.) – pelo que emitem expressões desprestigiantes
-, ao seu estatuto económico (4 freq.) – porque são desfavorecidos
-, aos seus cuidados familiares (25 freq.) – porque são sub-alimentados
(11 freq.), não têm afecto (8 freq.), sofrem castigos físicos
(6 freq.) -, ao seu trabalho escolar (2 freq.) – porque não têm
hábitos de trabalho – e, sobretudo, aos seus comportamentos sociais
(40 freq.) – porque são conflituosos (13 freq.), intolerantes (19
freq.), violentos (4 freq.) e provocadores (4 freq.).
Também
os alunos negros são objecto de opiniões preconceituosas
desfavoráveis devido às suas características étnicas
(23 freq.) pelo que os docentes lhes dirigem palavras racistas (19 freq.)
e expressões desprestigiantes (4 freq.).
As
famílias dos alunos são igualmente objecto do mesmo tipo
de opiniões (118 freq.) por parte dos professores que desfavorecem
significativamente as famílias em geral (23 freq.), mesmo as lusas
(14 freq.), e, sobretudo, a família cigana que recolhe 79 das 118
freq. enumeradas. Assim, enquanto as famílias em geral são
essencialmente penalizadas devido ao seu estatuto económico de desfavorecidos
(12 freq.), aos seus comportamentos sociais (5 freq.) - porque são
intolerantes (3 freq.), alcoólicos (1 freq.), toxicodependentes
(1 freq.) -, aos seus cuidados familiares (4 freq.) – porque dão
pouco apoio aos filhos (4 freq.)-, à sua organização
familiar (2 freq.) – porque têm muitos filhos (1 freq.) e são
famílias desagregadas (1 freq.) -, as famílias lusas são
referenciadas praticamente devido à sua negligência nos cuidados
familiares (13 freq.) e as famílias cabo-verdianas superficialmente
referidas pelos castigos físicos – cuidados familiares (1 freq.)
– e por serem analfabetos – estatuto cultural (1 freq.).
Os alunos lusos são,
na opinião dos docentes entrevistados, quem apresenta preconceitos
desfavoráveis relativamente aos seus pares de minorias étnicas.
Chamam aos seus colegas negros palavras racistas (15 freq.) acentuando,
assim, as suas características étnicas, e são intolerantes
(3 freq.) – comportamentos sociais – com os seus colegas de etnia cigana.
Também há referências preconceituosas desfavoráveis
de alunos em geral para com os seus pares ciganos e destes para com negros
e cabo-verdianos, mas a sua frequência não é significativa.
São as famílias
lusas quem, na opinião dos entrevistados, apresenta preconceitos
desfavoráveis em relação a alunos de minorias, professoras
negras e auxiliares de acção educativa igualmente negras.
As
características étnicas (11 freq.) marcam negativamente as
famílias lusas que expressam palavras racistas (9 freq.) dirigidas
a professoras negras (7 freq.) e auxiliares de acção educativa
também negras (2 freq.); guardam as expressões desprestigiantes
(2 freq.) para os alunos em geral (1 freq.) e para as professoras negras
(1 freq.). O comportamento social (3 freq.) de intolerância dirigem
aos alunos de etnia cigana. Opinam, ainda, os entrevistados que as famílias
em geral receiam os pais ciganos.
Opiniões
preconceituosas favoráveis
Análise geral
Contudo, os professores entrevistados
também manifestam «opiniões preconceituosas favoráveis»,
incluídas em quatro sub-categorias com um total de 142 frequências,
em relação aos alunos e às suas famílias, salientando:
trabalho escolar (65 freq.), comportamentos sociais (51 freq.), características
de personalidade (20 freq.), cuidado pessoal (6 freq.).
Relativamente
ao trabalho escolar, o indicador sem dificuldades na aprendizagem
é o que recolhe maior número de frequências (33), referenciado
pela maioria dos entrevistados que afirmam: «não é
diferente dos alunos lusos» (14 freq.), «não tinham
qualquer dificuldade», «(os alunos ciganos) aprendem tal e
qual como os outros», «(algumas crianças tinham) uma
ânsia grande de saber», «se não valorizarmos tanto
o aspecto linguístico e valorizarmos outros não há
diferenças», «tenho tido alunos de cor belíssimos»,
«aprendem maravilhosamente», «os ciganos têm as
mesmas capacidades que os outros», «tinha alunos de minorias
inteligentísssimos», «têm insucesso, mas já
tiveram mais».
Segue-se-lhe
o indicador empenhados no sucesso escolar dos filhos (26 freq.) que os
professores valorizam como muito positivo para o sucesso escolar das crianças
- «(irmãos dos primeiros alunos) já não falam
crioulo na escola», «já não tenho crianças
que venham só a falar crioulo», «miúdos têm
beneficiado com a aprendizagem dos pais (alfabetização e
ensino recorrente)», «(pais africanos) apoiam a 100% o trabalho
do professor», «procuram arranjar o material para os filhos»,
«(pais cabo-verdianos) obrigam os filhos a vir (à escola)»,
«(família cabo-verdiana) quer que eles (filhos) avancem»,
«(pais africanos) são pessoas extremamente abertas à
escola», «(pais africanos) são capazes, em casa, de
perguntar se eles têm trabalhos para fazer», «(pais africanos)
vêm à escola saber se eles têm trabalhos ou não»,
«(pais cabo-verdianos dizem) na escola é que está o
progresso do ser humano».
Sentindo-se
bem na escola (3 freq.) - «(crianças de cor) sentem-se bem
connosco», «(crianças de cor) gostam de vir à
escola» - e assíduos (3 freq.) - «são crianças
que não faltam», «(alunos cabo-verdianos) não
são faltosos» - constituem os dois últimos indicadores
desta categoria referenciados pelos professores entrevistados.
Na
sub-categoria comportamentos sociais, destaca-se o indicador tolerantes
(37 freq.) quer entre alunos - «nunca senti que as crianças
fossem racistas», «não tenho tido problemas com os alunos»,
«há um menino branco cujo maior amigo é um menino preto»,
«ontem, o negro faltou e o branco andou mesmo triste», «os
alunos não fazem comentários em sentido depreciativo»,
«são tolerantes», «aceitam as nossas leis, excepto
os ciganos», «quando estavam a jogar nunca vi (racismo)»
-, quer entre alunos e professora angolana - «a menina disse que
tinha gostado muito de eu ter sido professora dela», «(alunos)
admiram-se de (eu) ser uma professora de cor» -, quer entre pais
- «(pais) têm uma convivência muito razoável»,
«as pessoas (pais) respeitam-se». São também
alunos considerados bem comportados (6 freq.) - «têm um comportamento
de crianças educadas» - e - «portam-se maravilhosamente»,
«não temos problemas (no comportamento)» - e aceitando
a palavra do professor (1 freq.) - «se gostam da professora aceitam
a sua palavra». Ainda segundo um docente, os pais promovem-se através
do sucesso escolar dos filhos (5 freq.) - «o facto dos filhos mais
velhos terem feito um determinado percurso escolar vai ajudar no estatuto
social dos pais» - e procuram integrar-se (2 freq.) - «os negros
estão a integrar-se».
Só
três professores se pronunciam sobre as características de
personalidade quer dos alunos quer dos seus pais, classificando-os como
responsáveis (7 freq.) - «(as meninas de cor) são muito
mais briosas que as meninas brancas», «todas as meninas de
cor têm o seu lápis, a sua borracha, o seu bloco A4»,
«têm dado conta do recado», «(as mães de
cor) conseguem ter as suas coisinhas», «as mães de cor
são muito responsáveis» -, sensíveis (7 freq.)
- «as crianças percebem tudo o que nós sentimos»,
«percebem o nosso olhar» -, dedicados (5 freq.) - «os
presentes dele (aluno) eram os mais ricos para nós: a pedra, uma
folha», «quando saem continuam a vir visitar a escola e as
professoras», «vinha sempre dar um beijinho» - e carinhosos
(1 freq.) - «não calcula o carinho que recebo destas crianças
negras». Referem, ainda, o cuidado pessoal centrado no indicador
asseados (6 freq.) - «(meninas de cor) ao domingo, põem o
seu fio de ouro, o seu brinquinho», «as meninas de cor andam
sempre um mimo em contraste com muitas meninas brancas», «(meninas
de cor) os cabelinhos andam sempre penteadinhos», «(pais africanos)
esforçam-se para que os miúdos venham limpinhos», «(pais
negros) estão a melhorar em termos de higiene».
Análise por
grupos
Analisando, agora, as
percepções dos doze entrevistados acerca dos diferentes grupos
que enumeram, verifica-se que as «opiniões preconceituosas
favoráveis» têm como sujeitos, maioritariamente, os
professores e também os alunos lusos.
Os professores
Segundo os docentes,
os seus pares também revelam ter opiniões preconceituosas
favoráveis em relação aos alunos de minorias, valorizando
positivamente as suas características de personalidade (13 freq.)
– porque são sensíveis (7 freq.), dedicados (5 freq.) e carinhosos
(1 freq.) – mas sobretudo os seus comportamentos sociais (30 freq.) – porque
são tolerantes (23 freq.), bem comportados (6 freq.) e aceitam a
palavra do professor (1 freq.) – e o seu trabalho escolar (28 freq.) –
porque não apresentam dificuldades na aprendizagem (26 freq.) e
são assíduos (2 freq.). No entanto, as 71 frequências
totais obtidas nesta categoria estão longe de rivalizar com a desvalorização
que os professores fazem deste mesmo grupo (anteriormente analisada). Assim,
a positividade com que são referidos, agora, parece surgir como
contraponto da negatividade; ou seja, os alunos de minorias são
valorizados positivamente quando, de algum modo, se aproximam do modelo
de «bom aluno»: sensíveis, dedicados, carinhosos, tolerantes,
bem comportados, aceitando a palavra do professor, sem dificuldades na
aprendizagem e assíduos.
Em
relação aos alunos negros, os professores valorizam as suas
características de personalidade (3 freq.) – porque são responsáveis
-, o seu cuidado pessoal (4 freq.) – porque são asseados -, o seu
trabalho escolar (4 freq.) – porque não têm dificuldades na
aprendizagem (1 freq.) e sentem-se bem na escola (3 freq.). Contudo, mais
uma vez valorizam aquilo que a maioria valoriza no «bom aluno».
Em relação
às famílias dos alunos, a sua positividade (46 freq.), quer
das famílias em geral quer das negras quer das cabo-verdianas, advém-lhes
do empenho que manifestam no sucesso escolar dos seus filhos (25 freq.),
sendo as negras também referenciadas porque procuram integrar-se
(2 freq.) , são responsáveis (4 freq.) e asseadas (2 freq.).
Também a tolerância (7 freq.) e a promoção social
através do sucesso escolar dos filhos (5 freq.) são apontadas
como
elementos positivos/favoráveis das famílias em geral.
Os alunos
Mesmo querendo valorizar
positivamente a interacção alunos lusos/alunos negros, a
frequência com que os professores entrevistados o fazem não
deixa também ela de ser significativa. Na verdade, duas frequências
assinalam esta interacção marcada pela tolerância nos
comportamentos sociais.
Ausência de comportamentos
discriminatórios
Num primeiro momento e embora
reconhecendo a existência de opiniões preconceituosas desfavoráveis
por parte dos diferentes elementos da comunidade escolar, os professores
entrevistados pronunciam-se pela «ausência de comportamentos
discriminatórios» na escola, afirmando que há empenho
profissional dos professores (233 freq.), aceitação (51 freq.),
valorização dos problemas dos alunos (28 freq.), valorização
da diferença (12 freq.), dedicação das auxiliares
de acção educativa (3 freq.), num total de 327 frequências.
Com efeito, é a tónica
no empenho profissional dos professores que notoriamente se destaca
na como que justificação para a ausência de comportamentos
discriminatórios nas escolas, surgindo o indicador tolerantes (41
freq.), referenciado por todos os docentes entrevistados (com excepção
da professora de origem angolana) como garante dessa afirmação:
«nesta escola nunca vi segregação consciente»,
«sem conotações com discriminação»,
«o tratamento do professor é exactamente o mesmo», «eu
não sou racista», «tenho o maior respeito pelas crianças
negras», «nunca me aconteceu ter um aluno e não querer
tê-lo», «em caso de acidente (o tratamento) era igual»,
«sem vestígios de racismo». Seguem-se-lhe: moderadores
de conflitos (28 freq.) - «fala com os pais», «a escola
não é sítio de discussão», «tento
acalmá-los»; procurando compreender o meio dos alunos (27
freq.) - «professores com um trabalho muito interessante com a escola
e o meio», «quanto mais se compreende a realidade mais fácil
é»; aplicando o novo modelo de avaliação (22
freq.) - «os critérios são muito subjectivos»,
«o professor começa a investir muito mais», «as
pessoas vão fugir muito à segunda repetência»;
diversificando metodologias (17 freq.) - «temos de utilizar métodos
diferentes», «faço abordagens diferenciadas»,
«obriga-nos a um outro tipo de gestão de tudo»; dedicando-se
(16 freq.) - «(as professoras) que estão há muitos
anos agarraram-se», «nem tenho tempo de pensar nos meus problemas»,
«se o professor não se empenhar a sério estes alunos
não vão lá», «a estas crianças
damos tudo o que podemos»; apoiando os alunos (12 freq.); sentindo-se
gratificados (10 freq.) - «é aqui que eu me sinto bem»,
«destas crianças levo muitos testemunhos de vida», «(levo)
os carinhos que estas crianças nos dão», «quero
acabar aqui»; com um trabalho desgastante (10 freq.) - «isto
é desgastante», «tive uma depressão nervosa»,
«temos de conviver com os problemas deles»; com um papel formativo
junto dos alunos (9 freq.) - «(eu) dizia que eram todos iguais»,
«tento dizer-lhes que o tom da pele não interessa»,
«logo de início eu faço-lhes entender que cada menino
tem um nome»; aprendendo a trabalhar com os alunos (8 freq.) - «aprendi
certas palavras deles», «tenho aprendido a trabalhar com os
ciganos», «tenho aprendido muito», «eu tinha que
ser mesmo diferente»; com um papel que vai para além de ser
professor (6 freq.) - «já fiz de tudo desde cortar cabelos,
dar banho, levar meninos ao posto médico»; aprendendo a comunicar
com a família dos alunos (5 freq.) - «é preciso um
bocadinho de psicologia para trabalhar com os pais», «(professores)
aprendem a lidar com os pais ciganos»; inovadores (5 freq.) - «escolas
(multiculturais) também são conotadas com alguma capacidade
de realizar coisas diferentes»; dando estabilidade à escola
(5 freq.) - «(professores) têm acabado com a agressividade
na escola», «(professores) têm dado uma estabilidade
muito grande à escola»; suportando maus cheiros (4 freq.)
- «o asseio não existe», «nós temos de
suportar cheiros horríveis»; com um papel formativo no bairro
(4 freq.) - «nós temos humanizado este bairro», «(para
os pais) esta escola contribuiu muito para o entendimento entre todos».
Assinalado por um único entrevistado surgem: com um papel formativo
junto dos pais (2 freq.) - «fizemos ver (aos pais) que não
era necessário bater assim»; receptivos (1 freq.) - «as
professoras são receptivas»; utilizando metodologias diferentes,
as mais novas (1 freq.) - «as professoras mais novas têm outras
técnicas de aprendizagem».
A
aceitação constitui outro factor relevante para a ausência
de comportamentos discriminatórios, manifestado através de:
companheirismo entre alunos (26 freq.) - «convivem bem uns com os
outros», «há alturas em que são todos amigos»,
«as crianças por natureza são muito abertas à
convivência diversificada», «na criança dá-se
a onda e depois levantou e arrefeceu»; integração dos
alunos na escola (16 freq.) - «na sala de aula, os ciganos estão
integrados», «a escola até se preocupa com essas crianças»,
«os outros alunos gostam deles (ciganos)», «(os alunos
cabo-verdianos) estão perfeitamente integrados», «puxamos
os ciganos para a escola», «nós preocupamo-nos para
que as oportunidades sejam iguais»; defesa dos alunos (4 freq.) -
«tomamos sempre uma atitude de defesa dos nossos alunos»; adaptação
dos professores ao trabalho com os alunos (3 freq.) - «professores
integram-se e trabalham», «a maioria dos professores já
sabe que o bairro é assim»; partilha (2 freq.) - «dividem
o lanche», «emprestam coisas».
A
valorização dos problemas dos alunos é definida pela
análise dos problemas (23 freq.) - «são abordados»,
«nos conselhos escolares e nas reuniões pedagógicas
debatemos muito os problemas» - e pela definição de
critérios de actuação (5 freq.) - «para sabermos
como devemos orientar as coisas», «resolve-se tudo no interior
da escola» - enquanto a valorização da diferença
faz referência à formação de professores (8
freq.) - «fazíamos formação», «tivemos
uma psicóloga durante dois anos», «os professores tinham
feito sensibilização» -, à motivação
dos professores (2 freq.) - «escola muito motivada para estes problemas»
- e à existência de projectos (2 freq.) - «havia um
grupo que trabalhava com danças timorenses», «havia
um projecto em que estavam a ser integradas as crianças ciganas».
Os professores são,
pois, os grandes protagonistas nesta categoria percepcionando também
uma relação de aceitação entre os alunos. Segundo
os entrevistados, os alunos revelam companheirismo entre si (22 freq.),
partilha (2 freq.) e estão integrados na escola (13 freq.) – os
alunos de minorias em geral (5 freq.), os cabo-verdianos (2 freq.) e os
de etnia cigana (6 freq.).
Finalmente,
uma palavra para a dedicação das auxiliares de acção
educativa, apoiando os alunos (2 freq.) - «muitas vezes contribuem
para o carinho», «apoiam muito os alunos» - e conhecendo
a maneira de ser dos diferentes grupos étnicos (1 freq.) - «sabem
lidar com esta gente do bairro».
Em
síntese, a ausência de comportamentos discriminatórios
surge fortemente associada a uma auto-imagem positiva tida pelos professores
(e já anteriormente analisada). É a percepção
da positividade de actuação dos docentes, no terreno, que
os faz surgir como os garantes de uma não discriminação
e que, de algum modo, os distancia e protege dos «outros» que
podem eventualmente discriminar. Actuação que se estende
às auxiliares de acção educativa mas também
aos próprios alunos que, através do seu companheirismo, revelam,
segundo os entrevistados, aceitarem-se mutuamente.
Existência
de comportamentos discriminatórios
Análise geral
Contudo, quando questionados
directamente sobre a existência ou não de comportamentos discriminatórios
na escola, nove dos doze entrevistados são peremptórios na
afirmação da sua existência. Para os professores entrevistados,
os comportamentos discriminatórios manifestam-se através
da rejeição (327 freq.), não valorização
da diferença (170 freq.), não valorização dos
problemas dos alunos (59 freq.), desrespeito (53 freq.), agressão
verbal (34 freq.), agressão física (26 freq.), ausência
de expectativas positivas (24 freq.), valorização da cultura
da maioria (16 freq.), num total de 709 frequências.
A
sub-categoria «rejeição» engloba os seguintes
indicadores:
- Segregação
(121 freq.):
- entre alunos - «os
brancos com os brancos, os de cor com os de cor», «com os ciganos»,
«negro com cigano», «branco com cigano», «ninguém
se queria sentar ao pé da miúda negra», «(alunos
negros) apontam que ele é cigano», «só entre
ciganos (e os outros alunos)», «a criança branca disse
(ao negro): ‘sai daqui’», «(aluno branco disse) ‘desencosta
daqui a mão que és preto’», «o outro (aluno)
está habituado a ser marginalizado pelo facto de ser preto»,
«quando vamos a um passeio ou a uma visita, os 