“Deixa ver como ficou”:
Hiperfotografia, Cibercultura e os usos da imagem na era digital

Marco Aurélio Silva
Jornalista e mestre em Antropologia

Universidade Federal de Santa Catarina.



 
 

 


 
 

Introdução: a “perigosa” novidade






A mídia há muito nos lembra, diariamente, que nossas ruas são lugares altamente perigosos, uma espécie de fomento a uma vida mais reclusa e restrita. A  bola da vez é a Internet que, nos últimos tempos, tem sido apresentada como lugar de piratas, assaltantes, analfabetos, pedófilos, terroristas, maníacos e vírus de toda espécie. Se o temor às ruas não impede que, em muitos casos, elas ainda sejam espaço de produção de sentidos e sociabilidades, bem como de renovação da cultura, a rede mundial de computadores não poderá continuar a ser ignorada como o espaço de uma cultura emergente que, ao mesmo tempo em que instaura novos códigos (Lévy, 1998:12), atualiza antigas práticas e sentidos de símbolos históricos. Como bem se apresenta o caso da fotografia digital e uma gama de novas sociabilidades que convergem com ela e a partir dela.
 
 
 

Se como afirma Pierre Lévy é preciso perceber as transformações culturais do cotidiano antes de defender um possível impacto das novas tecnologias, o caso da fotografia digital nos traz à luz reflexões pontuais tanto no que se refere ao redimensionamento da prática cultural quanto aos novos apontamentos da teoria da comunicação (Castells, 2001:354). O ato fotográfico, desterritorializado na sociedade em rede, sugere a emergência de novas sociabilidades e, principalmente, uma “nova oralidade”, em que imagem, texto e som formam partes desconexas de um todo, discurso característico da comunicação on-line (idem:386). Não faz parte de nossos objetivos defender tais mudanças culturais como um resultado do “avanço tecnológico”, mas é a própria tecnologia que ganha aqui o status de ser o resultado de uma nova sociedade comunicacionalmente descentralizada.
 
 
 
 


 
 
 


 

A febre do mercado de câmeras digitais, que tiveram entre os anos de 2003-2004 uma queda vertiginosa de preçosNo ano de 2003, uma câmera digital, das mais simples, não saía por menos de R$ 900 (ou U$ 300). Neste final de 2004, é possível encontrar câmeras que custam menos de R$ 300 (ou U$ 100). , sendo que também o mercado de celulares se adaptou com a criação de celulares-câmeras, soma-se à explosão recente dos chamados fotoblogs espécies de álbuns de fotografias virtuais. Se a presença de câmeras fotográficas há muito faz parte do cotidiano das sociedades complexas, a fotografia digital tem se mostrado uma novidade tanto em termos sócio-culturais quanto técnicos. Além da facilidade de manejo, que foi o ponto de atração para as câmeras automáticas de rolo, durante o século XX, as digitais oferecem a possibilidade de se conferir como ficou uma foto que acabou de ser feita – o “deixa eu ver como ficou” que mobiliza fotografados e fotógrafo –, eliminando também a necessidade de gastos com laboratório de revelação: agora basta conectar a câmera ao computador que as imagens podem ser descarregadas, armazenadas e enviadas por correio eletrônico, ou mesmo impressas em papel comum ou fotográficoA grande maioria das impressoras domésticas é capaz de imprimir fotos através de cartuchos e papéis especiais. Além disso, os laboratórios fotográficos já começam a realizar cópias em papel tradicional a partir da imagem digital. .
 
 
 

A fotografia digital, do ponto de vista técnico, também oferece a possibilidade de alargamento de um recurso tão antigo quanto a própria fotografia, a conotação (Barthes, 1962:328), que para alguns soa mais como manipulação (Lister et alii, 1997), através de softwares como o Photoshop ou na própria câmera, uma vez que alguns modelos oferecem opções de coloração (preto e branco, colorido, sépia). Esta possibilidade, embora altamente utilizada em muitos casosImagens inverossímeis circulam freqüentemente na internet. Todas apresentam claramente se tratar de uma montagem, cujo objetivo inicial não é necessariamente enganar mas, muitas vezes, sugerir idéias e engendrar críticas. Um macaco quer fuma um cigarro de maconha, um recém nascido numa rede dentro de uma UTI neona-tal ou a imagem de uma criança iraquiana que urina na cabeça de um soldado americano são bons exemplos. Sem dono, estas imagens circulam pela rede através de correntes (mensagens que são repassadas para listas de e.mails). Uma campanha recente da rede MTV (Music Televison) apresentava montagens com vítimas da Aids, da fome e da pobreza, em frente às torres gêmeas ainda em chamas, para lembrar que existem mais vítimas delas que do terrorismo no mundo (ver Anexos, figuras de 01 a 05). Quanto à questão das montagens e manipulações fotográficas, retomo adiante. , parece não ter se convertido como a principal característica da imagem digital, vista assim pelos fatalistas da internet. Mais do que lançar os usuários da fotografia digital e da internet num mundo de possibilidades de se recriar a realidade, a combinação das duas tecnologias – que embora relacionadas não são dependentesÉ possível fotografar digitalmente com um celular e manter as imagens em circulação apenas nos telefones móveis. Ou ainda, quem tem câmera digital pode usar o computador para armazená-las, processá-las e imprimi-las ou fazer uso delas apenas na tela, sem enviá-las ou publicá-las na internet. A internet é apenas um dos usos da fotografia digital e, a partir daí, parece impossível associá-la apenas às manipulações. E isso porque estamos citando apenas os usos domésticos da imagem fotográfica.  - renovou na cultura contemporânea o velho álbum de fotografias como ponto de contato entre diferentes atores sociais.
 
 
 


 
 

Dualismo histórico: da analogia à pós-fotografia


 

Iniciada no século 19, a era da fotografia é o desenrolar de uma busca iniciada muitos séculos antes pela “imagem perfeita”. Pintores tentavam desenvolver técnicas que permitissem captar fielmente a realidade, desenvolvendo a partir do Renascimento uma reorientação das artes plásticas em busca de um realismo, em que a perspectiva, ou o enquadramento dos objetos de uma cena na altura do olhar torna-se uma condição para a representação “fiel” da realidade – uma técnica que explora a lei matemática segundo a qual “os objetos parecem diminuir de tamanho à medida que se afastam de nós” (Gombrich, [1950] 1999:229), aumentando a sensação de realismo das cenasPintores de períodos bem anteriores ao Renascimento, como os gregos, eram hábeis em criar a ilusão de pro-fundidade (Gombrich, 1999:229), mas não com a precisão matemática dos renascentistas. . Filha do capitalismo moderno, a fotografia é a resposta da era da máquina à busca desse realismo, retirando das artes a legitimidade na retratação “fiel” do mundo e “libertando” a pintura na busca de “outras realidades”Sem querer exagerar o poder da máquina, é importante assinalar que, no mesmo período em que a fotografia desponta, o Impressionismo começa a traçar uma nova história da pintura, em que uma sucessão de movimentos vai desconstruir um mundo de imagens e propor novas leituras. A fotografia, obviamente, não é a causa isolada dessa transformação, cujos movimentos (Impressionismo, Pós-Impressionismo, Expressionismo, Cubismo, Sur-realismo, Concretismo, entre outros) foram formas de diálogo com a modernidade inteira e não apenas com o mundo das imagens. .
 
 
 

Desde então, a fotografia se consolidou na cultura ocidental como uma “analogia mecânica da realidade” (Lister, 1997:23). Apesar do coro sempre presente dos que defendem-na como “ideológica e artificial” (idem:23), sua proximidade com a “realidade” lhe confere um racionalismo (Robins, 1997:54) que tem acompanhado toda a sua história e entra em crise, pelo menos teoricamente, na era digital – situação que talvez não seja a mesma a partir do que se observa nos usos populares da nova tecnologia. Antes, é importante ressaltar que seu nascimento, no ano de 1839Louis Daguerre, francês, e Fox Talbot, inglês, divulgaram suas descobertas em 1839. Louis Daguerre havia desenvolvido um processo de exposição positiva de uma chapa fotossensível que produzia uma imagem bastante detalhada que, no entanto, era única, sem possibilidades de serem produzidas cópias idênticas. Por sua vez, Fox Talbot divulgou o uso da exposição em negativo, que era basicamente o mesmo processo, mas com condições de se produzir cópias através de uma película ou chapa banhada em nitrato de prata Em tudo isto, a técnica que teve primeira exploração comercial foi o invento de Daguerre, chamado Daguerreótipo, registrado, patenteado e posto a venda com aparelhos e manuais de instruções. Com este lançamento foi marcado o inicio da era fotográfica. , se dá na ebulição da modernidade, do pensamento científico, mais precisamente da filosofia positivista de Auguste Comte. 
Ciência e fotografia surgem sob a idéia de que é possível apreender a realidade, encontrar suas leis, a partir de observações impensáveis para o olho humano (idem). O século XIX – com suas novidades científicas, a idéia de que agora a razão nos permitiria manipular e dominar a natureza e, ainda, em que a máquina se torna presente como a artéria da cultura capitalista moderna – é a base para uma série de mitos que, desde então, fazem com que compreendamos a fotografia como a cópia fiel da realidade. Barthes (1962) considera que, mesmo havendo uma redução de proporção, perspectiva e cor, não há uma transformação do que é registrado pela lente, ou seja:

 
 
 

entre esse objeto e sua imagem não é de modo algum necessário interpor um relê, isto é um código; decerto, a imagem não é o real; mas ela é pelo menos seu perfeito analogon, e é precisamente esta perfeição analógica que, para o senso comum, define a fotografia. (Barthes, 1962:326-7)
 
 
 
 

Essa analogia faz com que a fotografia seja entendida como uma mensagem predominantemente denotada, ou seja, referente a uma “realidade concreta”, que “preenche plenamente sua substância e não deixa nenhum lugar para o desenvolvimento de uma mensagem segunda”. Esta mensagem “segunda” seria a conotação, facilmente reconhecida numa pintura, numa peça de teatro, numa música, entendida como um certo estilo de um autor, mas que durante muito tempo foi e, ainda é, em alguns casos, negada à fotografia. (idem:327). A conotação, como uma mensagem que está além do sentido observável ou denotativo, é inaceitável frente à mitologia criada em torno da fotografia analógica. Barthes torna esse dualismo, no mínimo, obscuro, ao defender que toda fotografia carrega consigo uma mensagem denotada e outra conotada – situação que torna-se ainda mais especial no caso da imagem digital –, o que ele vai chamar de “paradoxo fotográfico” (idem:327). Mas sua acepção no senso comum como o registro de uma “realidade” é o que tem feito do mercado fotográfico um ramo lucrativo da economia há mais de um século. Registra-se de tudo através da fotografia, uma idéia óbvia que nos revela uma cultura que tem no visual um de seus aspectos centrais, principalmente no visual mecanizado. A fotografia (ao lado da televisão e do cinema, dos quais ela é, mais que parente, embrião) é a base das comunicações modernas – tanto na mídia quanto na ciência –, ou seja, um meio oficial de registro por imagens, mas que, ao contrário de outras atividades que lhe precederam, tornou-se um hábito presente na cultura doméstica de milhõesNão deixa de ser curiosa a analogia entre pintura e fotografia que, embora sendo atividades consideradas de ordens diferentes - uma, artística, e a outra, técnica - tornaram-se, em épocas diferentes, a maneira hegemônica de se retratar a realidade. No entanto, por essa distinção entre técnica e arte, a fotografia torna-se possível para os não especialistas, qualquer membro da casa pode registrar suas imagens, o que no caso da pintura só seria possível se houvesse um artista na família. Por um lado, por ser um aparato tecnológico, pensar nessa difusão da máquina e da prática fotográficas parece não trazer nenhuma novidade, uma vez que ela se enquadra dentro da mecanização da vida doméstica que se deu nos lares ocidentais no decorrer do século 20 (Slater, 1997:178). Mas, se por outro lado, encararmos a prática fotográfica do ponto de vista artístico - e nos fotoblogs que aqui analisamos é considerável o número de artistas-fotógrafos que os usam como portifólio -, seria interessante questionar se não há aí a multiplicação de vários olhares artísticos sobre a realidade e, também, a democratização dessas práticas, pulsando aí, ainda na modernidade, um sistema popular de comunicação por imagens.  - o que reforça a idéia de que não é o mercado febril das câmeras digitais que está impulsionando novos hábitos: em vez de ser causa, a expansão no número de usuários é conseqüência das velhas demandas de uma cultura que encontrou na gravação de imagens (fixas ou em movimento), uma das principais formas de lazer e de construção de identidades (Slater, 1997:179).

 
 
 

Apesar de, nestes ambientes domésticos, a imagem fotográfica estar voltada geralmente para aspectos sentimentais (família, afeto, amor, saudade, tristeza, aventura são as conotações que fazemos de álbuns fotográficos que guardamos ou das fotos em nossas paredes), a máquina fotográfica é da ordem dos eletrodomésticos, que têm uma função técnica esperada, que neste caso é a máquina de registrar os momentos familiares (idem:181), congelá-los para a posteridade, provas de um passado vivido. Essa oposição entre o afeto e a técnica – tão cara à modernidade – não parece, de maneira alguma, ser hegemônica nos usos domésticos que se fazem das fotografias, apesar de limitadores e negadores de suas possibilidades enquanto um discurso autênticoAo menos, não parece que velhos álbuns de fotografias tenham sido publicados em forma de livros biográficos ou históricos, como é o caso dos diários íntimos que foram elevados à categoria de documento histórico, como Diário de Anne Frank, publicado originalmente em 1947, para contar os horrores do nazismo sob a ótica de uma menina (Carvalho, 2003). Fotografias, ao contrário, sempre foram mais um apêndice de textos escritos do que utilizadas como o próprio texto para recontar uma passagem da história o que não é um espanto para uma cultura que há séculos colocou na escrita uma força de documento oficial. Apesar de toda a racionalização da fotografia enquanto registro do real, como imagem perde força numa cultura que oficialmente é alfabética. . Como “documento arquivado” num álbum ou enfeitando paredes e estantes, as fotografias são formas de registrar um discurso, como uma performance em que o objetivo é contar uma história a si mesmo e aos próximos (Geertz, 1989). Para Slater, é uma auto-representação através da imposição de códigos que definem identidades sociais.
 
 
 

 
Montar el álbum familiar es una operación tanto de la memoria (y por tanto, sobre la identidad personal y familiar y su notable dependencia mutua), como una construcción de recuerdos futuros en la práctica fotográfica del presente. Nos definimos a nosotros mismos para la imagen y a través de las imágenes. (Slater, 1997:179)
 
 
 
 
Toda essa cultura fotográfica, na análise de alguns fatalistas, teria começado a desmoronar no final do século XX, com a popularização da fotografia digital. As características da nova imagem, marcadamente uma memória eletrônica constituída de bits, tornaram-se fonte para todo um imaginário fantasioso que se enquadra dentro do tecnofetiche(Lister, 1997:23) que desde a ascensão da máquina se faz presente em torno de fábulas que dão um poder extremo à tecnologiaO mais comum, dentro do tecnofetiche é o imaginário de que as máquinas dominariam o homem e o mundo, caso de filmes como Matrix (Wachowsky Bros., 1999), 2001, uma odisséia no espaço (Stanley Kubrich, 1969), Blade Runner (Ridley Scott, 1980) e Metrópolis (Fritz Lang, 1926), para citar os mais clássicos. No caso da fotografia digital, é claro que o fetiche não chega a tanto. Mas a associação sempre presente dessa imagem à possibilidade de transformação da realidade, passada ou futura, mesmo que seja obra de um desejo humano, coloca a fotografia digital como produto de uma máquina cada vez mais potente. A desconfiança em relação a uma imagem digital vem da tecnologia em si e não dos usos que são feitos dela.. Para muitos, a entrada da fotografia na era digital representou o fim de seu reinado como prova fiel da realidade, pois agora não era mais possível se acreditar no que se vê nas imagens. A possibilidade intrínseca à imagem digital de poder ser modificada através de softwares (como o Photoshop) potencializou o preconceito também intrínseco contra as tecnologias tradicionais ou mesmo as mais atuais, como a internet, pensada como um lugar perigoso, em que é impossível estabelecer relações de confiança. Senão, vejamos:

 
 
 
A manipulação digital da imagem permite que se altere não só imagens eletrônicas (TV), como também aquelas produzidas a partir de processos químicos (fotografia). Os eventos que os meios de comunicação noticiam hoje devem ser colocados sob suspeita no futuro. E, quando a manipulação de imagens for acessível a todos, o passado individual de cada um, registrado através de fotografias e fitas de vídeo, poderá ser adulterado, colorido (se estiver em P&B) e mesmo recolorido, a depender das demandas de cada um. (Borges, 2003)
 
 
 
 
Afirmações deste tipo, além de desconhecerem todo um passado de manipulações fotográficasAlém da questão da conotação inerente a toda imagem fotográfica (Barthes, 1962), é preciso considerar que os sistemas mais rústicos já permitiam manipulações como colocar no mesmo quadro pessoas que não estavam originalmente juntas, ou mesmo a manipulação do contraste (reforço, amenização) no momento de ampliação de um negativo, ou ainda os filtros que podem ser acoplados numa lente e geram efeitos na imagem, como desenhos e coloração acentuada em algumas tonalidades.  – que, como vimos anteriormente, a mitologia de que fala Barthes nos impede de reconhecer – , acabam por não perceber o que realmente há de novo na era da fotografia digital. O pensamento que defende o tecnológico em termos evolutivos e revolucionários – em que uma tecnologia nova é sempre mais potente ou melhor que uma anterior – cega-se para as muitas continuidades entre os mundos on e off-line (Robins, 1997:50). Mas também, na ânsia de mostrar as rupturas tecnológicas, não percebem algumas rupturas importantes com os padrões sociais da vida moderna, como por exemplo em relação ao modelo de comunicação ou as “novas” fronteiras entre público e privado.

 
 
 

O atual momento da imagem fotográfica já foi batizado de “pós-fotografia”, numa coletânea de ensaios publicados em 1995, por pesquisadores britânicos, sob o título de The Photographic image in digital culture (Lister, 1997). Com considerações fundamentais sobre os usos da fotografia em mais de 160 anos de história, para estes autores a era pós-fotográfica se dá com o desenvolvimento da tecnologia digital para “gravação, manipulação e armazenamento de imagens”, num contexto em que começa a haver uma convergência crescente das tecnologias fotográficas com as do vídeo e do computador, projetando ambientes de hipermídia (Robins, 1997:49). Acontece que se trataria de uma revolução muito mais que tecnológica, no que comparam-na com a criação do alfabeto, o nascimento da pintura ou a invenção da fotografia, por ser uma “ferramenta de criação e conhecimento”.
 
 
 
 

É neste sentido que trabalharemos aqui com o conceito de hiperfotografia, questionando se a nova revolução não está ampliando o conceito de imagem fotográfica, em seu uso doméstico principalmente, para além do simples registro mecânico e analógico da realidade. A simplificação do processo fotográfico, através das câmeras digitais – possibilitando “consertar a imagem imperfeita” através do computador ou mesmo refazê-la na mesma hora, pois é possível saber o resultado simultaneamente ao clique no obturador –, aliando a isto a popularização da internet e a facilidade cada vez maior de transmissão de dados, não estaria elevando esta produção de imagens a uma outra ordem de fenômenos lingüísticos, como a própria palavra falada? Esta intensa produção de imagens atinge um nível de efemeridade e descartabilidade, só comparável à fala e encontra na internet um espaço de circulação em tempo quase real. São estas as formas características da comunicação on line, a “nova oralidade” de que fala Castells (2001:386), surgida a partir da convergência das mídias e que tentaremos exemplificar a partir do caso do fotoblog
 
 
 
 
 
 

De diário fotográfico a álbum de família: os sentidos do fotoblog

 
 
 

Ao analisar a imagem fotográfica na era digital, Lister (1997:14) assinala que é preciso reconhecer que a nova tecnologia precisará negociar com toda uma história de significados e crenças que foram investidos na fotografia em seus usos domésticos e públicos, na vigilância de organismos e grupos sociais e, também, nos espaços de ócio e entretenimento. Como o que nos interessa aqui são os fotoblogs ou os diários fotográficos da internet, é preciso ampliar ainda mais o espectro de análise e incluir aí a negociação entre a tecnologia digital e a comunicação on-line com práticas históricas, como o álbum de fotografias e o diário íntimo. Apesar de estarmos nos referindo à circulação de mensagens num meio público como a internet, tais mensagens possuem um caráter muito mais particular. Enquanto um ambiente desterritorializante pela forma como rompe com pontos-chave da sociedade moderna, a rede mundial de computadores tem oferecido estratégias de reterritorialização, inspiradas em práticas de históricas do mundo off-line
 
 
 
 

O fotoblog, que no ano de 2004 destacou-se como uma ferramenta de armazenamento e circulação de imagens pela internet, tem sua história ligada aos blogsBlog é a abreviatura da expressão weblog, que significa diário em rede e que foi usada para denominar as primeiras páginas pessoais que começaram a proliferar na internet em 1994. Mas a explosão é mais recente: em julho de 1999, uma empresa pontocom norte-americana, a Pitas, criou um programa de computador que permitia ao usuário inserir gratuitamente e sem grandes conhecimentos da linguagem html, registros (textos e imagens) na Internet. Um mês depois, outra companhia, a Pyra Labs, criou um programa semelhante. Ficou então mais fácil não só criar como atualizar as páginas. Aliás, a atualização tornou-se automática (Araújo, 2003)., verdadeiros diários pessoais que começaram a circular em meados dos anos 90, em que se compartilha de assuntos íntimos a temas de repercussão social. A ferramenta foi especialmente dominada por jornalistas (Araújo, 2003) que descobriram uma forma de colunismo sem fronteirasVer, especialmente o Querido Leitor (http://queridoleitor.blogspot.com), de Rosana Hermann, e o Blog do Tas (http://marcelotas.blog.uol.com.br/), do jornalista Marcelo Tas.. A partir do modelo simplificado dos blogs – cujo principal conteúdo são textos ordenados por dia de publicação –, os fotoblogs foram desenvolvidos com ênfase nas imagens fotográficas e, da mesma forma, têm uma ampla variedade de usos, indo de temas particulares a obras de arte fotográficaA internet possui opções de fotoblogs pagos e gratuitos. A diferença é que nos serviços pagos há a possibilidade de publicar mais fotos, cinco ou seis, enquanto nos gratuitos o limite é de uma imagem. Para ter um fotoblog pago, não significa ter de desembolsar um valor extra para os provedores. Quem paga pela conexão no Uol e no Terra, por exemplo, tem direito tanto a contas de e.mail quanto espaço para blog, fotoblog e sites tradicionais. .
 
 
 
 

Assim como no blog, o gerenciamento da página do fotoblog apresenta um nível de facilidade que dispensa um conhecimento técnico aprofundado – o que é impensável na manutenção de algumas áreas da comunicação midiática tradicional. Após se cadastrar num provedor de fotoblogs, o internauta flogueiro ou fotobloggerSão estes os termos associados a quem possui um fotoblog. , poderá acessar diariamente seus dados e postarPostar é o verbo utilizado para designar o ato de publicar fotos em fotoblogs.  – através de um formulário simplificado – novas fotos e também textos que tanto podem explicar a imagem quanto entrar em fatos particulares ou, nos casos dos fotoblogs não íntimos, textos de caráter mais informativo. Além da facilidade, muitas dessas páginas oferecem uma arquitetura agradável, na combinação de texto, imagem e – até mesmo – somColocar música dentro de um fotoblog não é uma opção oferecida pelos provedores. Mas quem domina o código HTML pode inserir o dispositivo com uma música de sua escolha. O código HTML é uma linguagem de máquina que traz em sua mensagem as informações do desenho do site - é esse código que o computador decifra para colocar na tela a aparência do site. Além dos formulários simplificados acessíveis a qualquer internauta, os provedores também permitem o acesso à base dos códigos HTML, onde o dispositivo musical deve ser inserido., sem o excesso de mensagens dos sites mais corriqueiros. Características que abrem tais espaços para múltiplos usos e nos permitem pensar mais no alargamento de antigas sociabilidades do que num mundo caótico, em que nenhuma imagem será confiável.
 
 
 
 

É impossível quantificar precisamente, mas o último ano (2003-2004) os fotoblogs tornaram-se presença marcante na internet. Os maiores portais brasileiros como Terra e Uol registram a criação de uma média de 5 mil fotoblogs a cada semana. Estima-se que, apenas estes dois provedores, tenham em torno de 2 milhões de fotoblogs publicados. Dentre uma variedade de temas, o mais numeroso é o de cunho pessoal, ou seja, fotoblogs que são usados como diário íntimo e fotográfico. São páginas em que o flogueiro coloca fotos recentes suas e de pessoas de seu círculo, como amigos e parentes. Neste caso, os textos costumam ir além de uma simples explicação da foto e acabam sendo relatos pessoais, tal como num diário íntimo. Nosso objetivo, porém, não é apresentar regularidades em relação ao uso dos fotoblogs, uma vez que estas não existem, apesar da semelhança entre grande parte deles. Em meio a esta variedade, selecionamos alguns fotoblogs especialmente exemplares para as questões apresentadas aqui.
 
 
 
 

Guilherme, 23 anos, estudante do interior paulista, criou seu fotoblog há pouco mais de três meses e, desde então, tem postado fotos em que aparece em seu quarto, muitas delas apenas com seu rosto em primeiro plano. Junto de cada imagem, como em todo fotoblog, Guilherme deixa exposto um texto elaborado por ele, seguido de comentários deixados pelos visi-tantes. Entre tais fotos, muitas delas apresentam-no em roupas íntimas, em poses de uma pretensa sensualidade. Se não fosse pelo contexto de um fotoblog, presente por ser uma página padrãoQuando cria o seu fotoblog, o flogueiro pode escolher, entre algumas opções oferecidas pelo provedor, um modelo de página da cor e do design de sua preferência. Mas as opções não vão além disso, o que mantém a semelhança entre estes sites., seria possível pensar se tratar de uma página voltada para conteúdos eróticos, ainda mais pelo título, no alto da página: “Procuro por você”.  Os comentários deixados pelos visitantes vão desde propostas de contato, ou comentários sobre o corpo do rapaz, sendo que a grande parte é de pessoas próximas – geralmente outros flogueiros – que são habitués da página.
 
 
 
 

O fotoblog “Dois Meses de NamoroO título pode ser mudado a qualquer tempo pelo fotoblogger, atualizando títulos sazonais. ”, criado para celebrar o relacionamento de dois rapazes, que não moram na mesma cidade, também é exemplar. Entre os meses de setembro e novembro, eles expuseram vários detalhes da vida íntima dos dois. Algumas fotos também mostram um dos rapazes em trajes íntimos. Os textos são mais declarações apaixonadas, poesias. Num dia em especial, a página foi usada para troca de pedidos de perdão e esclarecimen-to de um mal entendido, sendo que os dois, em momentos diferentes, deixaram seus recados. Entre estes recados, visitantes deixam mensagens de elogio ao casal. Uma relação homossexualAo ambientes de sociabilidade homossexual, na internet, são tão numerosos quanto qualquer outra forma de sociabilidade considerada ideal pela sociedade, o que na mídia tradicional é ainda alvo de tabus, se limitando a estereótipos, no caso da dramaturgia, ou a datas muito especiais, como a cobertura jornalística de eventos como a Parada Gay de São Paulo. , que dentro dos parâmetros culturais brasileiros poderia estar relegada à invisibilidade, aqui tem tanto destaque quanto qualquer outro relacionamento. 
 
 
 
 

Dos alunos de Jornalismo, da Rede de Ensino Univest (Lages-SC), temos o exemplo do típico fotoblog de “galera”, ou grupos de jovens que usam estes espaços para registrar festas, momentos de diversão na faculdade ou as próprias aulas. Durante a realização desta pesquisa, tivemos contato com o grupo, inclusive na época de criação do fotoblog, em outubro de 2004. A idéia do Focas 2005 partiu de duas alunas que já possuíam seus espaços pessoais na internet. Mas antes mesmo da criação desta página, a fotografia digital era uma presença entre eles que utilizavam-na para reportagensA fotografia digital há cinco anos é uma rotina nas redações de jornais, que adaptaram-na às suas necessidades e suprimiram, em alguns casos, o laboratório de revelação. É o caso destes estudantes de jornalismo. . Em um dia de observação para esta pesquisa, durante uma aula de Jornalismo On-Line , era possível ver em ação quatro máquinas digitais, registrando caretas, duplas e grupos. Não havia apenas uma preocupação com registro, mas uma ênfase visível na vontade de fotografar. A cada imagem, uma correria se dava em direção à câmera: “deixa eu ver como ficou” é a frase que mais se escuta em situações como esta. Através do visor da câmera digital, é possível ver todas as fotos armazenadas na memória e deletar aquelas que menos agradam. Ou seja, uma foto que acabou de ser feita pode ser excluída e novamente realizada.
 
 
 

 

Apesar de termos dado ênfase a fotoblogs de temas relacionado à vida privada – por conta dos objetivos de nossa pesquisa –, vale um adendo sobre outros usos, até mesmo inusitados que se faz dessa ferramenta. Os sites voltados para a publicação de trabalhos fotográficos artísticos são uma das categorias que mais crescem e oferecem a estes fotógrafos profissionais ou amadores a possibilidade de expor imagens que não teriam lugar nos espaços tradicionais da arte, como as galerias. E há aqueles que possuem objetivos mais sociais, sendo tão inusitados que exemplificam a capacidade ilimitada de um fotoblog. Como os sites que buscam donos para cães abandonados, publicando a foto do animal com um texto em que são apresentadas suas características, as condições em que foi encontrado e como ficou. O resultado da busca de um dono, quando positivo, também é publicado no fotoblog.


 
 
 
 
 



 
 
 

 
Esta rápida olhada nos usos do fotoblog impede qualquer generalização a respeito deles. A seguir, problematizaremos as questões mais pertinentes a esta confluência entre fotografia digital e internet. Mas é preciso adiantar que tratam-se de formas de comunicação caóticas por natureza, o que nos impossibilita pensar em causas e conseqüências delimitadas, o que já não se espera de qualquer estudo cultural. É porque consideramos tais fenômenos como inerentes à cultura humana – e não como acasos da tecnologia – que nos obrigamos a ver mais além do imediato e perceber o que se esboça no contínuo processo de transformação cultural. Transformação esta que não resulta da tecnologia mas que ganha contornos especiais durante o século XX, com o desenvolvimento dos sistemas modernos de comunicação (Martín-Barbero, 1997; Canclini, 1997).

 
 
 
 
 
 
Novos contextos, muitos códigos: 
a desterritorialização fotográfica e a comunicação horizontal

 
 
 

Os exemplos de possibilidades de usos mostrados acima nos permitem levantar algumas questões relacionadas aos fotoblogs, que vão além da questão da privacidade e nos mostram algumas características centrais da internet enquanto meio de comunicação. A primeira é que, apesar do serviço estar dependente da figura de um provedor, é um meio descentralizado e horizontalEntende-se aqui, para todos os efeitos, a comunicação horizontal como possuindo uma circularidade entre as figuras de emissor e receptor, a ponto destas desaparecerem enquanto posições rígidas, o que assinala a recente teoria da comunicação, em especial os estudos de Martín-Barbero (1997). , o que se confronta e muito com os meios tradicionais, verticais e centralizados. 
 
 
 
 

A quantidade bruta de dados disponíveis se multiplica e se acelera. A densidade dos links entre as informações aumenta vertiginosamente nos bancos de dados, nos hipertextos e nas redes. Os contatos transversais entre os indivíduos proliferam de forma anárquica. É o transbordamento caótico das informações, a inundação de dados, as águas tumultuosas e os turbilhões da comunicação, a cacofonia e o psitacismo ensurdecedor das mídias, a guerra das imagens, as propagandas e as contra-propagandas, a confusão dos espíritos. (Lévy, 1998:13)
 
 

Outra questão é que, mesmo com os provedores no controle, destaca-se uma interessante anarquia nestes usos, uma vez que, na internet, as ferramentas desenvolvidas raramente mantêm seus propósitos restritos – como bem nos exemplifica o caso dos fotoblogs. Segundo Castells (2001), esta característica acompanha a internet desde sua primeira década: nos anos 70, quando computadores em rede ainda eram restritos ao exército e às universidades americanas, a criação do correio eletrônico se mostrou também uma ferramenta para contatos particulares, ao lado dos usos institucionais. Ao contrário do mundo off-line tão departamentalizado com suas divisões bem marcadas entre o trabalho e o lazer, a festa e a vida séria, a casa e a rua (DaMatta, 1997), a internet enquanto um ambiente de sociabilidades faz desaparecer a clareza desses limites, gerando uma confusão em relação ao que entendemos por público e privado.


 
 
 

A tradicional teoria da comunicação defendeu, por muitos a idéia de que os meios de comunicação na vida cotidiana tem por objetivo anestesiar os espectadores, aliená-los e mantê-los sob vigilânciaGeorge Orwell escreve nos anos 40 aquela que é considerada hoje uma obra prima da ficção, mas que para muitos era uma verdadeira profecia: o livro 1984 apresenta um mundo dominado pelas tecnologias da comunica-ção, estando estas a serviço da ditadura, em que o Grande Irmão (Big Brother) teria controle até mesmo da vida privada dos cidadãos. , eliminando os espaços de arte e de lazer que seriam opostos ao sistema (Adorno & Horkheimer, [1947] 2000). Essa presença se daria através da mecanização do cotidiano, inclusive do ócio e do entretenimento, o que demonstraria o caso da fotografia (Slater, 1997:17). Talvez porque queremos nos afastar de um modelo frankfurtiano de se pensar a comunicação, não podemos defender aqui a idéia do impacto dos meios, como se a eles pudéssemos relacionar todas as transformações de uma cultura. As tecnologias, sejam elas da comunicação ou não, são integrantes da cultura, representam-na, não são opostas nem destruidoras por si só de uma cultura.
 
 
 
 

Antes de pensar numa invasão do capitalismo em nossos lares, via indústria cultural, e de uma “privatização da vida pública” – uma vez que grande parte dos temores dos fatalistas é que as tecnologias da comunicação afastariam as pessoas que estariam cada vez mais concentradas no lazer mecanizado –, é preciso questionar se não há um movimento inverso. Tanto as mídias tradicionais quanto as “novas” têm se voltado cada vez mais, nas últimas décadas para uma espécie de “publicização da vida privada” – não restrita apenas à vida das personalidades – trazendo à tona espaços e comportamentos de nossa cultura que antes eram considerados menores ou estritamente particulares. O cotidiano popular que até então se restringia à idealização da dramaturgia, ganha agora destaque tanto quanto os conteúdos tradicionais ou “sérios” (telejornais, por exemplo). Como nos mostra o caso do fotoblog, na internet esse fenômeno já parece lugar-comum. Mas há que se considerar que a televisão aberta tem destinado especial destaque aos reality shows, enfatizando detalhes de vidas e comportamentos privados, em horário nobre, como se debatessem o desemprego ou a cura do câncer.
 
 
 
 

O uso cada vez mais comum dos ambientes virtuais para a comunicação pessoal, amplia os reality shows a inúmeras ferramentas da internet que permitem verdadeiros shows particulares, em fotoblogs, blogs e mesmo os sites tradicionais. A princípio, o caos cibernético nos coloca algumas situações especiais, como vimos anteriormente no caso de dois fotoblogs: as imagens em roupas íntimas e um romance homossexual. Se nossa visão tradicional não percebe além do caos, não são poucos os que vão defender que se apliquem códigos disciplinadores, “porque nossas crianças não podem estar expostas...”, e por aí vai, na mesma ladainha de toda vez que uma tecnologia se populariza. Mas se observarmos com cuidado, é possível enxergar um processo emergente de codificação da internet, ou seja, a emergência de uma cultura em que as práticas encontram sua razão de ser, novos códigos são compartilhados e antigos atualizados.
 
 
 
 

Para tanto, é preciso situar as novas tecnologias da comunicação dentro de um processo de desterritorialização que não é produto delas, mas que atinge extremos a partir delas. A desterritorialização cultural não é nova e se dá com força a partir da segunda metade do século XIX, a partir dos movimentos de diáspora (Hall, 1997): a facilidade de mobilidade humana pelo planeta permite entender que uma determinada culturaEm tempo: a nossa noção de cultura tem por base o pensamento de Geertz (1989) para quem a cultura é uma teia de significados tecida e compartilhada pelo próprio homem em sociedade.  não depende de um território contínuo nem da proximidade física de todos os seus integrantes (a cultura nordestina, em São Paulo; a gaúcha no Centro-Oeste; a italiana no Brasil; a brasileira, nos Estados Unidos). Com os meios de comunicação de massa, já a partir do cinema, do rádio e depois a televisão, a desterritorialização atinge um outro nível e não se dá apenas a partir da etnia, mas de outras segmentações de classe, gênero, gosto, orientação sexual e as mais inusitadas, gerando um verdadeiro tribalismo, no dizer de Edgar Morin. Agora, indivíduos de lugares extremos podem se unir em torno de projetos comuns, tecendo novas identidades.
 
 
 
 

Neste sentido, a internet e, mais especificamente, o fotoblog são exemplos híbridos: ao mesmo tempo em que potencializam contatos em que a distância física torna-se insignificante, fortalecem vínculos locais e tornam-se uma extensão da interação física. Não são poucos os fotoblogs em que as imagens se referem às festas da escola, churrascos de final de semana, “baladas” noturnas – o que também contraria aquela idéia da internet como vetor de isolamento e supressão ainda maior dos espaços públicos –, ou seja, fazem da internet apenas um meio de circular imagens que, talvez, de qualquer forma circulariam. Como nos lembra Castells (2001:386), “as pessoas moldam a tecnologia para adaptar às suas necessidades” e exemplifica com a adoção do telefone que, a princípio, teria as ligações interurbanas como objetivo maior e acaba por “melhorar redes de comunicação existentes e reforçar hábitos sociais profundamente enraizados”.
 
 
 
 

A a abertura da internet para contatos desterritorializados é, no entanto, da mesma forma, interessante. O fotoblog, por exemplo, conta em seu design com espaço para a divulgação de “fotoblogs favoritos”, o que possibilita ao visitante mudar de página, em apenas um clique, e encontrar um outro espaço de imagens, com o mesmo design, e novamente uma lista de outros favoritos que pode freqüentar. Ou seja, abre-se a configuração de uma rede de contatos, uma comunidade virtual que se liga numa cadeia de imagens, por onde o internauta pode navegar e conhecer a intimidade de pessoas que jamais viu pessoalmente. O caso de um desses provedores, um dos que mais hospeda fotoblogs, o Uol, o design da página é interessante porque coloca, além de um link, imagens de outros fotoblogs, que visualmente competem com aquele que se está visitando (ver  figuras 08, 09 e 10).

 
 
 
 
 
 

 

O típico fotoblog pessoal, com imagens da “galera” e troca de informações do grupo


 
 
 
 

Há um fato curioso: grande parte das pessoas que visitam fotoblogs é formada por outros flogueiros, criando um conjunto de noções compartilhadas. Os visitantes da página de Guilherme, por exemplo, são em grande parte pessoas conhecidas, virtualmente ou não, que nas mensagens deixam clara esta proximidade e se referem a fatos em comum, compartilham formas específicas de tratamento. Os recados também pedem visitas ao fotoblog do visitante, como uma retribuição. O próprio ato de deixar mensagens é como se fosse um dos alicerces do fotoblog, aproximando-o mais de uma galeria de arte ou museu, em que os visitantes são convidados a assinar um livro na saída, do que de um álbum de fotografias, em que a visita não se registra. Não são raros os flogueiros que, em seus textos, reclamam que os visitantes não deixam mensagens.
 
 
 
 

Mesmo que não indiquem um processo intenso de desterritorialização de toda uma cultura, o caso específico do fotoblog indica ao menos a desmaterialização de uma parte importante desta cultura, neste caso a produção de imagens particulares e/ou domésticas. A perda de sua materialidade tradicional é o atual movimento desterritorializante da fotografia que, em sua essência, pode ser entendida como desterritorializada. Sem falar em territórios, Barthes explica que toda fotografia, carregando em si, ao mesmo tempo, uma imagem denotada e outra conotada, tem como “estatuto particular” ser uma “mensagem sem código” que, antes de torná-la vazia de significados, faz dela uma “mensagem contínua” (Barthes, 1962:327). No caso da fotografia doméstica tradicional, essa “falta de código” tende a ser amenizada pelos espaços de circulação dessas imagens: o lar, o álbum fotográfico, as paredes da casa são territórios que dão estabilidade aos códigos, até porque torna-se do conhecimento de quem freqüenta a casa quem está na imagem, de que período é, qual ocasiãoLister (1997) fala na dependência que a imagem possui em relação à palavra - escrita, no caso dos jornais; falada no caso da fotografia doméstica que, no lar, costumam ser motivo de conversa, recordação ou comentário.
 
 
 
 

 
A fotografia digital em circulação na internet vai em busca de um sentido que poderá ser encontrado em territórios codificados ou em processo de significação. Quando falamos da internet como um ambiente desterritorializante, é preciso considerar que tal característica acaba por deslanchar processos de territorialização. O fotoblog se mostra como um exemplo deste processo, de onde é possível interpretar algumas condutas. Longe de seu contexto inicial, a casa, as relações familiares, pessoais, as fotografias digitais estão em busca de novos sentidos que vão se fazer nos novos contextos, sentidos que mudam da mesma forma em que mudamos a nossa inserção como sujeitos em diferentes ambientes sociais (a escola, o bairro, o bar, a praia, o clube), com o compartilhamento de códigos e comportamentos que podem ser avessos uns aos outros. 

 
 
 

No ambiente on line, construímos identidades a partir de texto, imagem e som que emitimos e recebemos (um comportamento digital?), decodificáveis de formas distintas nas páginas que acessamos e nas comunidades virtuais que freqüentamosE não é curioso que o ambiente on line, com um certo exagero, reproduza a mesma divisão de nossa sociedade.. A internet, em vias de significação dos ambientes que são colocados à disposição dos internautas, vai construindo sentidos para ferramentas como o fotoblog, parecendo à primeira vista uma confusão entre público e privado. Nossa pesquisa tem percebido que as imagens que circulam nestes espaços, apesar de manterem uma continuidade com a história da fotografia, são formas de discurso de uma outra ordem: sua efemeridade, resultante de seu processo simplificado, que como já falamos aproxima-a da palavra falada, faz com que tais imagens não tenham o mesmo entendimento que se tem da analógica como registro da realidade.É o que parece mostrar o comportamento de flogueiros e das pessoas que fazem uso da fotografia digital. A presença dessas máquinas digitais é visivelmente maior tanto na mídia e o anúncio de modelos cada vez mais sofisticados, quanto no cotidiano das famílias, dos amigos, dos encontros particulares. O registro fotográfico digital parece estar mais presente que o analógico que, curiosamente, continua sendo a forma escolhida nas ocasiões consideradas de maior relevância, como casamentos e formaturas – como afirmam alguns dos entrevistados. O que também é percebido na forma de armazenamento das imagens em seu resultado final: enquanto a analógica atinge quase um status de documento, ao ser guardada em álbuns, a digital se aproxima mais da história oral, uma vez que é guardada na memória (ainda que seja do computador) e pode circular por outros computadores, pelo ciberespaço e por outras memórias, mantendo a mesma aparência.
 
 
 

Já foi dito que a internet é uma nova possibilidade de esfera pública (Lévy, 1998). Neste sentido, será que é pertinente associá-la sempre à falta de privacidade ou à possibilidade sempre presente de ser logrado financeiramente? Mudaram os sentidos de público e privado no novo meio de comunicação, na mesma esteira da mudança das próprias condições do emissor e do receptor. Se num novo ambiente de comunicação, a horizontalidade é a ferramenta que permite a produção e recepção de mensagens num patamar mais igualitário, colocam-se responsabilidades necessárias a estes novos gestores da esfera pública que não pode se resumir a um simples “código de ética da comunicação”. 
 
 
 

E em que medida é possível manter o velho limite entre o público e o privado, quando não são apenas empresas que estão comunicando, ou seja, não há apenas representantes de setores ou classes sociais que colocam em circulação aquilo que se entende por “gosto médio”? Quem se comunica no ambiente on-line tem como conteúdo central aspectos de uma cotidianidade que antes insistia e agora exige não ficar calada (Bhaba, 2003). O que é considerado privado nas instâncias tradicionais também é comunicado através da internetO que não é exclusivo da internet, tomando-se por exemplo os reality shows que dão o tom da programação televisiva no início do milênio. . Se os teóricos fatalistas de outrora estavam com George Orwell e acreditavam que em 1984 todos seríamos vigiados pelo Big Brother, hoje uma corrida desenfreada atrás dele, em busca de 15 minutos de fama que, agora, não dependem mais da televisão.
 
 
 

A desmaterialização do processo comunicativo, em que o papel vira tela, os originais são convertidos em bits, traz consigo uma efemeridade característica da cultura contemporânea e, em especial, do que circula na internet. Talvez por questões de qualidade do material, ou pela falta de uma produção mais elaborada para estes conteúdos particulares/domésticos, não se costuma associar fotos como aquelas que observamos – um rapaz em trajes íntimos – com um conteúdo pornográfico, cujos sites mais famosos costumam trazer imagens realizadas profissionalmente.
 
 
 
 
 
 

A hiperfotografia: alguns apontamentos teóricos

 
 

O termo hiperfotografia não é novo, mas sua conceitualização por Fred Ritchin, em 1990 (Robins, 1997:57), precisa ser hoje atualizada. A hiperfotografia, para Ritchin, seria a imagem fotográfica que não requer nem a simultaneidade nem a proximidade entre fotógrafo e fotografado – o que é um aspecto desterritorializante anterior, quando as pesquisas especiais já enviavam sondas capazes de fotografar o espaço ou planetas vizinhos, o que também é o berço da própria imagem fotográfica digital. Não há, na definição de Ritchin, uma problematização da circulação destas imagens na internet, até porque na época não se imaginava que a rede mundial de computadores atingiria o estágio atual (Castells, 2001). Se para ele a hiperfotografia é o registro que chega ao que é impossível para o olho humano, nós vamos pensá-la enquanto a imagem que circula por espaços inimagináveis para a fotografia analógica, no caso o ciberespaço (Lévy, 1998), e cuja efemeridade atinge uma outra ordem.

 
 
 

Cabe então perguntar se a fotografia digital, assim como o texto, ao cruzar-se com os ambientes on-line, não entra na era da hiperfotografia, um momento histórico em que velhos dilemas em torno da imagem (expressão do real ou realidade escolhida?) perdem o sentido frente às possibilidades de sociabilidade colocadas nesse novo contexto. A hiperfotografia é a fotografia digital nos territórios da cibercultura, em que há um redimensionamento do “prazer fotográfico”, no sentido de haver novos significados e usos de imagens pessoais. O nosso conceito de hiperfotografia é extremamente intrínseco ao uso da imagem digital via comuni-cação on-line e se depreende dos conceitos de hipertexto cunhados por vários autores durante os anos 90. Conforme Lévy,

 
 
 

Um hipertexto é uma matriz de textos potenciais, sendo que alguns deles vão se realizar sob o efeito da interação com um usuário. Nenhuma diferença se introduz entre um texto possível da combinatória [de dados informáticos] e um texto real que será lido na tela. (Lévy, 1996:40)

 
 

Ou seja: até aí um hipertexto não se diferencia do texto tradicional, uma vez que o sentido de ambos se dará no momento da leitura. O que é o próprio caso da fotografia, como já vimos em Barthes (1962), para quem a fotografia está sempre em busca de um sentido. “Deste modo, seguindo estritamente o vocabulário filosófico, não se deveria falar de imagens virtuais para qualificar as imagens digitais, mas de imagens possíveis sendo exibidas” (Lévy, 1996:40). A virtualidade de textos e imagens – que é o caracteriza a comunicação on-line – eclode a partir dos usos sociais que se fazem destes materiais, ou quando um sentido subjetivo passa a ser aplicado a esses conteúdos. O fato de serem agora digitais dá “acesso a outras maneiras de ler e de compreender”. Ainda com Lévy, 

 
 
 

Se considerarmos o computador como uma ferramenta para produzir textos clássicos, ele será apenas um instrumento mais prático que a associação de uma máquina de escrever mecânica, uma fotocopiadora, uma tesoura e um tubo de cola. Um texto impresso em papel, embora produzido por computador, não tem estatuto ontológico nem propriedade estética fundamentalmente diferentes dos de um texto redigido com os ins-trumentos do século XIX. Pode-se dizer o mesmo de uma imagem ou de um filme feitos por computador e vistos sobre suportes clássicos. Mas se considerarmos o conjunto de todos os textos (de todas as imagens) que o leitor pode divulgar automaticamente interagindo com um computador a partir de uma matriz digital, penetramos num novo universo de criação e de leitura dos signos. (Lévy, 1996:40-1)

 
 

Neste sentido, o casamento entre fotografia digital e internet sugere outros sentidos que vêm justamente desta profusão de imagens que caracterizam os ambientes on line. O computador deixa de ser apenas uma máquina para processar as imagens e cria usos como do fotoblog , que só ganham sentido a partir do entendimento que se tem desse novo tipo de imagem. Ao contrário da fotografia tradicional onde cada imagem ganha uma aura de definitivaPor mais que seja apenas uma cópia que pode ser realizada quantas vezes se quiser a partir de um negativo em película, não é comum se dispensar, a estes negativos, o mesmo cuidado que se dá à imagem em papel que passa a ter a função de original da fotografia. , no sistema digital esta aura pode estar presente em qualquer uma das cópiasUma fotografia digital pode navegar pela rede de computadores sem perder a qualidade, mantendo-se fiel ao arquivo de origem, ao passo que no sistema convencional, a fotografia tem sua territorialidade inscrita num negativo que não pode ser reproduzido ou mesmo no papel quando não se tem acesso ao negativo. , mas talvez não aconteça assim. Uma possibilidade de entender o tecnofetiche associado à fotografia – manipulação, perda da fidelidade – é justamente esta falta de negativo, de aura, ou essa constante tensão em significar (Lévy, 1996:40), sendo ainda, como toda imagem fotográfica, uma mensagem sem código (Barthes, 1962:327).


 
 
 

A desmaterialização da fotografia permite a sua desterritorialização, o que por sua vez vai aprofundar essa busca contínua de sentido. Se, em seus formatos tradicionais no papel, foto e texto já estão “realizados por completo”, a tela vai oferecer novas formas de leitura e atualização de um mesmo material. “A tela informática é uma nova ‘máquina de ler’ , o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular” (Lévy, 1996:41).
 
 
 

Neste sentido, é preciso considerar a interatividade, talvez a principal característica da comunicação on-line, que como já dissemos anteriormente, faz da internet um meio de comunicação descentralizado e horizontal. Quando Lévy fala em nova leitura a partir dos computadores, é preciso considerar este processo de leitura como ativa, o que faz do internauta um usuário e não mais o espectador passivo dos sistemas de comunicação lineares e verticais. Se nestes últimos as mensagens continuam a ser enviadas, mesmo com a desatenção do espectador, nos ambientes digitais, tudo acontece de acordo com as escolhas do usuário – que pode criar sua própria grade de programação. Mesmo que essas opções não sejam infinitas – e muitas vezes parecem ser – o que se tem é uma nova forma de atenção, concentração e motivação e principalmente decisões prévias por parte do usuário (Lister, 1997:35).
 
 
 

 
Outra forma de interatividade é o próprio contato que um internauta pode ter com este material, copiando-o e armazenando-o na memória de seu PC ou repassando para sua lista de contatos via e.mail. No caso do fotoblog, essa possibilidade vai contrastar com os nossos tradicionais álbuns de fotografias: qualquer foto apreciada num fotoblog pode ser copiada e armazenada pelo visitante, mantendo-se como se fosse um original, sem a necessidade de um negativo ou mesmo de ter de pagar por isso. Essa questão financeira, parece ser especial na comparação entre fotografia digital e analógica.

 
 

Apesar de ter um limite de memória e depender basicamente da eletricidade, a câmera digital torna-se um eletrodoméstico em sentido mais estrito, como a televisão aberta, onde a programação é recebida como gratuita. Enquanto na analógica implicam-se gastos em todo o processo (da compra do filme à revelação), no sistema digital basta ter um computador para descarregar as imagens e uma fonte de energia para recarregar a bateria, o que faz com que se perca de vista o custo de cada imagem realizada. Libertada da limitação financeira – uma vez que nos sistemas analógicos os preços praticados não são tão acessíveis assim –, a fotografia digital atinge um nível de profusão e efemeridade que só se compara ao da própria palavra falada.
 
 
 

 
O novo movimento recupera para a fotografia uma capacidade que sempre foi sua, contar histórias. Sua dependência em relação à palavra tirou um pouco dessa função. Apesar da fotografia ter revolucionado a imprensa escrita nos últimos cem anos, ilustrando páginas e páginas de texto, sua função muitas vezes é apenas confirmar uma notícia ou simplesmente tornar a página mais agradável ao leitorMesmo que seja quase impossível pensar hoje em jornais sem imagens fotográficas, que são o seu principal ponto de atração, do ponto de vista da informação, talvez elas não fizessem tanta falta. Tal acontece menos pela força informativa da imagem que pelo seu caráter de segundo plano em relação à escrita.. Talvez a internet seja o primeiro meio de comunicação em que texto e imagem deixam de estar em uma relação de hierarquia estanque.  Nossa hipótese é de que, tanto o texto típico da internetUma das preocupações que a mídia tem colocado em relação à internet é a transformação que os usuários fazem da escrita, substituindo letras, abreviando palavras, ignorando a acentuação, fugindo da acentuação (colokar, kero, kblo (cabelo), naum (não), rsrsrs (risos), entre outras). No mês de outubro, um telejornal da Rede Globo fez uma reportagem sobre o assunto e chegou a colocar um imortal da Academia Brasileira de Letras lado a lado com jovens que usam esta linguagem na internet. Apesar do tom catastrófico da repórter tanto o escritor quanto uma lingüista entrevistada se referiam à nova linguagem como altamente criativa, por ser uma nova forma de visualizar o idioma falado - cuja escrita, oficial ou não, sempre será arbitrária.  quanto as imagens que ocupam o lugar da palavra falada, mais do que indicar um processo de “analfabetização” dos usuários, estão indicando novas modalidades de conversação, em que a informação não se restringe à palavra e à ilustração não se restringe à foto.

 
 

Imagem, texto e som se articulam na criação de um discurso único, como o próprio fotoblog é exemplar, articulando em seu design uma identidade individual ou coletiva. Para tanto, é preciso considerar que os usos que fazemos da internet não se restringem à substituição do papel pela tela, incluindo também alternativas às interações baseadas na fala. O e-mail é exemplar, pois ele não substitui apenas o uso das cartas tradicionais: sua principal inovação é ser uma alternativa ao uso do telefone, com a vantagem de não haver linha ocupada ou ninguém atender. Assim talvez seja possível entender as novas “escritas” da internet que tentam adaptar as “imperfeições” que todos – com exceções – cometemos em nosso uso cotidiano da língua.
 
 
 
 

É esse o estatuto que a imagem digital parece estar atingindo em seus usos no ciberespaço e, assim torna-se premente falar em hiperfotografia. Uma imagem que pela suas possibilidades de manuseio, recebimento e envio, barateada pela simplificação do processo fotográfico – eliminando etapas e elementos fundamentais como o negativo e a revelação –, explode em seu poder conotativo de comunicar algo e passa a ser uma forma corriqueira de registro, observação, comentário. Assim como o hipertexto e seus vínculos (links) para outros universos que fogem ao texto inicial – como uma conversa despretensiosa, em que um assunto leva a outro – a fotografia digital experimenta situações semelhantes.
 
 
 
 

Nosso ponto de estudo, o fotoblog, é em si um ambiente hiperfotográfico, quando se refere a possibilidades de leitura. Ao contrário de um álbum de fotografias tradicional, com sua leitura praticamente linear, página a página, visitar um fotoblog implica em escolher a próxima foto que será vista, através de um menu com as publicadas recentemente, ou mesmo acessando as “mais antigas”. Um percurso que pode ser assim simples ou complicado: é que uma das possibilidades é clicar numa das opções do menu “favoritos”, o que dará acesso a um outro “álbum de fotos”, um outro universo ou tema, que por sua vez vai oferecer outras opções de conexões, passeando por uma verdadeira comunidade virtual de imagens - como uma conversa despretensiosa, em que um assunto leva a outro. Mas o que faz com que cada imagem seja ela uma hiperfotografia? É esta possibilidade de circular por vários ambientes, buscando sentidos à sua existência, sentidos que virão das questões técnicas de um site – seu design, suas cores – e dos usos sociais que são feitos dele. O fotoblog ao se aproximar do álbum fotográfico e ser potencializado a uma possibilidade de “conversa despretensiosa”, traz um sentido a estes espaços, de onde é permitido entendê-los como um lugar para exposição de intimidades, ou de obras artísticas, ou ainda de problemas sociais, de acordo com os objetivos do internauta. Sua arquitetura, sua acessibilidade – que apesar de não ser restrita a alguns usuários geralmente acontece a partir de um convite  –, os textos do flogueiro e dos visitantes, tudo isto permite o entendimento de se tratar de um site específico e diferente dos pornográficos ou dos comerciais em geral. Aliando-se a isso a independência que o flogueiro tem em administrar o conteúdo, temos um ambiente propício a trocas simbólicas que confundem os nossos sentidos tradicionais de público e privado.
 
 
 
 
 

 

Concluindo... ou, “deixa ver como ficou”!

 
 
 

O objetivo deste ensaio foi trabalhar com a fotografia digital e seu mundo de possibilidades, perseguindo um entendimento mais do ponto de vista cultural do que tecnológico. Do ponto de vista dos usos sociais que são feitos dessas imagens, é possível dizer que as principais novidades têm sido mais comportamentais que propriamente técnicas. Ao contrário das idéias fatalistas de muitos críticos das novas tecnologias, a fotografia digital não impulsiona a cultura ocidental das imagens para um novo patamar totalmente diferente de produção de imagens, em que a manipulação e a reconstrução da realidade seriam possíveis. Por mais fantásticas que sejam as possibilidades apresentadas por ela – e o fotoblog é o exemplo-chave aqui – se observarmos com atenção os atuais usos destas imagens é possível que encontremos mais continuidades que rupturas com 160 anos de imagens analógicas. 
 
 
 
 

Se, como afirma Bhaba (2003), a pós-modernidade não pode ser pensada como um estágio posterior à modernidade, as novas tecnologias não estão a indicar o fim da tradição escrita, dos meios de comunicação tradicionais e o começo de uma “nova era”. Há, antes, o surgimento de um ambiente que, desestabilizando paradigmas antigos como a comunicação vertical e os limites entre público e privado, exige a criação de novos códigos e não a simples adaptação dos atuais. Assim, a atual era pós-fotográfica não sinaliza o fim da era fotográfica, mas a emergência de ambientes em que velhas e novas tecnologias vão continuar se cruzando e nos quais as interações humanas tendem a adaptar os novos meios a antigos anseios.

 
 

Assim, a fotografia digital acena com nossas possibilidades de discurso, aproximando-se, por conta da sua efemeridade – a possibilidade de “fotografar pelos cotovelos” –, da própria fala humana. É altamente significativo que a indústria dos celulares tenha entrado com força no mercado das imagens oferecendo celulares – originalmente destinados à voz – cada vez mais potentes em fotografia ou vídeo digital , o que indica tanto uma aproximação da imagem em direção à fala, como também o inverso. Repassar uma história pelo celular através de imagens pode ser tanto um uso criativo das imagens quanto apenas uma forma de comprovar o fato utilizando imagens – ou seja, um uso tão antigo quanto a própria fotografia. E assim voltamos ao começo de tudo.
 
 
 

A fotografia digital, mesmo que aponte para uma infinidade de possibilidades técnicas e sociais, é de um hibridismo que consegue resumir em si tanto um futuro de inovações quanto um passado de representações. Se como afirma Castells, a internet se aproxima muito mais da “experiência histórica das ruas comerciais emergentes da palpitante cultura urbana que dos shopping centers espalhados na monotonia”, quando se refere à comunicação espontânea e informal que impera (Castells, 2001:379), encontramos também no fotoblog uma opção de sociabilidade informal que retoma, com as devidas proporções, interações semelhantes às históricas praças públicas – que não morreram com a globalização, nem com o “aumento da violência”, tanto no campo quanto em muitos espaços urbanos –, onde a interação se dá de forma multisensorial, o que de forma ainda limitada a internet permite reproduzir com a sua multimidialidade. Se na primeira a sociabilidade se dá pela utilização de todos os sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato), a internet não chega a tanto mas supera em muito os meios de comunicação com a convergência das mídias tradicionais (imagem, som e texto). De onde é possível interpretar algumas questões lançadas aqui. Como a escrita informal em uso na internet que não copia a escrita institucional da escola ou do trabalho, mas sim a fala – assim como e.mail não é o correspondente digital da carta, mas do telefone –, as imagens que circulam em alguns territórios da internet – como no fotoblog – não são um simulacro da fotografia tradicional, apesar de ser um desdobramento de quase dois séculos de história. São, mais do que isso, como a mensagem visual que exibimos de nós mesmos – articulando fala, visão, audição –, nos ambientes que freqüentamos. No que chegamos ao nosso con-ceito de hiperfotografia, como a imagem fotográfica desterritorializada tanto materialmente (suporte digital) quanto sócioculturalmente com uma circulação e usos jamais imaginados no formato tradicional, de onde expande e explode o poder da fotografia em comunicar.
 
 

Lages, novembro de 2004


NOTAS

1 Jornalista e mestre em Antropologia (UFSC). Agradeço as colaborações do meu orientando Arisson Araújo, Curso de Publicidade e Propaganda, da Rede de Ensino Univest, Lages (SC).
2  No ano de 2003, uma câmera digital, das mais simples, não saía por menos de R$ 900 (ou U$ 300). Neste final de 2004, é possível encontrar câmeras que custam menos de R$ 300 (ou U$ 100).
3  Pintores de períodos bem anteriores ao Renascimento, como os gregos, “eram hábeis em criar a ilusão de pro-fundidade” (Gombrich, 1999:229), mas não com a precisão matemática dos renascentistas.
4 Sem querer exagerar o “poder” da máquina, é importante assinalar que, no mesmo período em que a fotografia desponta, o Impressionismo começa a traçar uma nova história da pintura, em que uma sucessão de movimentos vai desconstruir um mundo de imagens e propor novas leituras. A fotografia, obviamente, não é a causa isolada dessa transformação, cujos movimentos (Impressionismo, Pós-Impressionismo, Expressionismo, Cubismo, Sur-realismo, Concretismo, entre outros) foram formas de “diálogo” com a modernidade inteira e não apenas com o mundo das imagens.
5 Louis Daguerre, francês, e Fox Talbot, inglês, divulgaram suas descobertas em 1839. Louis Daguerre havia desenvolvido um processo de exposição positiva de uma chapa fotossensível que produzia uma imagem bastan-te detalhada que, no entanto, era única, sem possibilidades de serem produzidas cópias idênticas. Por sua vez, Fox Talbot divulgou o uso da exposição em negativo, que era basicamente o mesmo processo, mas com condi-ções de se produzir cópias através de uma película ou chapa banhada em nitrato de prata Em tudo isto, a técnica que teve primeira exploração comercial foi o invento de Daguerre, chamado Daguerreótipo, registrado, patente-ado e posto a venda com aparelhos e manuais de instruções. Com este lançamento foi marcado o inicio da era fotográfica.
6 Não deixa de ser curiosa a analogia entre pintura e fotografia que, embora sendo atividades consideradas de ordens diferentes - uma, artística, e a outra, técnica – tornaram-se, em épocas diferentes, a maneira hegemônica de se retratar a realidade. No entanto, por essa distinção entre técnica e arte, a fotografia torna-se possível para os não especialistas, qualquer membro da casa pode registrar suas imagens, o que no caso da pintura só seria possí-vel se houvesse um artista na família. Por um lado, por ser um aparato tecnológico, pensar nessa difusão da má-quina e da prática fotográficas parece não trazer nenhuma novidade, uma vez que ela se enquadra dentro da me-canização da vida doméstica que se deu nos lares ocidentais no decorrer do século 20 (Slater, 1997:178). Mas, se por outro lado, encararmos a prática fotográfica do ponto de vista artístico – e nos fotoblogs que aqui analisamos é considerável o número de artistas-fotógrafos que os usam como portifólio –, seria interessante questionar se não há aí a multiplicação de vários olhares artísticos sobre a realidade e, também, a democratização dessas práti-cas, pulsando aí, ainda na modernidade, um sistema “popular” de comunicação por imagens.
7 Ao menos, não parece que velhos álbuns de fotografias tenham sido publicados em forma de livros biográficos ou históricos, como é o caso dos diários íntimos que foram elevados à categoria de documento histórico, como Diário de Anne Frank, publicado originalmente em 1947, para contar os horrores do nazismo sob a ótica de uma menina (Carvalho, 2003). Fotografias, ao contrário, sempre foram mais um apêndice de textos escritos do que utilizadas como o próprio texto para recontar uma passagem da história o que não é um espanto para uma cultura que há séculos colocou na escrita uma força de documento oficial. Apesar de toda a racionalização da fotografia enquanto registro do real, como imagem perde força numa cultura que oficialmente é alfabética.
8 Blog é a abreviatura da expressão “weblog”, que significa “diário em rede” e que foi usada para denominar as primeiras páginas pessoais que começaram a proliferar na internet em 1994. Mas a “explosão” é mais recente: “em julho de 1999, uma empresa pontocom norte-americana, a Pitas, criou um programa de computador que permitia ao usuário inserir gratuitamente e sem grandes conhecimentos da linguagem html, registros (textos e imagens) na Internet. Um mês depois, outra companhia, a Pyra Labs, criou um programa semelhante. Ficou então mais fácil não só criar como atualizar as páginas. Aliás, a atualização tornou-se automática” (Araújo, 2003).
9 Ver, especialmente o Querido Leitor, de Rosana Hermann, e o Blog do Tas, do jornalista Marcelo Tas. 
10  A internet possui opções de fotoblogs pagos e gratuitos. A diferença é que nos serviços pagos há a possibilida-de de publicar mais fotos, cinco ou seis, enquanto nos gratuitos o limite é de uma imagem. Para ter um fotoblog pago, não significa ter de desembolsar um valor extra para os provedores. Quem paga pela conexão no Uol e no Terra, por exemplo, tem direito tanto a contas de e.mail quanto espaço para blog, fotoblog e sites tradicionais.
11  São estes os termos associados a quem possui um fotoblog.
12  Postar é o verbo utilizado para designar o ato de publicar fotos em fotoblogs.
13  Colocar música dentro de um fotoblog não é uma opção oferecida pelos provedores. Mas quem domina o código HTML pode inserir o dispositivo com uma música de sua escolha. O código HTML é uma linguagem de máquina que traz em sua mensagem as informações do desenho do site – é esse código que o computador decifra para colocar na tela a aparência do site. Além dos formulários simplificados acessíveis a qualquer internauta, os provedores também permitem o acesso à base dos códigos HTML, onde o dispositivo musical deve ser inserido.
14  Quando cria o seu fotoblog, o flogueiro pode escolher, entre algumas opções oferecidas pelo provedor, um modelo de página da cor e do design de sua preferência. Mas as opções não vão além disso, o que mantém a semelhança entre estes sites.
15  O título pode ser mudado a qualquer tempo pelo fotoblogger, atualizando títulos sazonais.
16  Ao ambientes de sociabilidade homossexual, na internet, são tão numerosos quanto qualquer outra forma de sociabilidade considerada ideal pela sociedade, o que na mídia tradicional é ainda alvo de tabus, se limitando a estereótipos, no caso da dramaturgia, ou a datas muito especiais, como a cobertura jornalística de eventos como a Parada Gay de São Paulo.
17 A fotografia digital há cinco anos é uma rotina nas redações de jornais, que adaptaram-na às suas necessidades e suprimiram, em alguns casos, o laboratório de revelação. É o caso destes estudantes de jornalismo.
18  Entende-se aqui, para todos os efeitos, a comunicação horizontal como possuindo uma circularidade entre as figuras de emissor e receptor, a ponto destas desaparecerem enquanto posições rígidas, o que assinala a recente teoria da comunicação, em especial os estudos de Martín-Barbero (1997).
19  George Orwell escreve nos anos 40 aquela que é considerada hoje uma obra prima da ficção, mas que para muitos era uma verdadeira profecia: o livro 1984 apresenta um mundo dominado pelas tecnologias da comunica-ção, estando estas a serviço da ditadura, em que o Grande Irmão (Big Brother) teria controle até mesmo da vida privada dos cidadãos.
20 Em tempo: a nossa noção de cultura tem por base o pensamento de Geertz (1989) para quem a cultura é uma “teia de significados” tecida e compartilhada pelo próprio homem em sociedade.
21 Lister (1997) fala na dependência que a imagem possui em relação à palavra – escrita, no caso dos jornais; falada no caso da fotografia doméstica que, no lar, costumam ser “motivo de conversa, recordação ou comentá-rio”.
22 E não é curioso que o ambiente on line, com um certo exagero, reproduza a mesma divisão de nossa socieda-de.
23  O que não é exclusivo da internet, tomando-se por exemplo os reality shows que dão o tom da programação televisiva no início do milênio.
24  Por mais que seja apenas uma cópia que pode ser realizada quantas vezes se quiser a partir de um negativo em película, não é comum se dispensar, a estes negativos, o mesmo cuidado que se dá à imagem em papel que passa a ter a função de original da fotografia.
25  Uma fotografia digital pode navegar pela rede de computadores sem perder a qualidade, mantendo-se fiel ao arquivo de origem, ao passo que no sistema convencional, a fotografia tem sua territorialidade inscrita num negativo que não pode ser reproduzido ou mesmo no papel quando não se tem acesso ao negativo.
26  Mesmo que seja quase impossível pensar hoje em jornais sem imagens fotográficas, que são o seu principal ponto de atração, do ponto de vista da informação, talvez elas não fizessem tanta falta. Tal acontece menos pela força informativa da imagem que pelo seu caráter de segundo plano em relação à escrita.
27  Uma das preocupações que a mídia tem colocado em relação à internet é a transformação que os usuários fazem da escrita, substituindo letras, abreviando palavras, ignorando a acentuação, fugindo da acentuação (colokar, kero, kblo (cabelo), naum (não), rsrsrs (risos), entre outras). No mês de outubro, um telejornal da Rede Globo fez uma reportagem sobre o assunto e chegou a colocar um imortal da Academia Brasileira de Letras lado a lado com jovens que usam esta linguagem na internet. Apesar do tom catastrófico da repórter tanto o escritor quanto uma lingüista entrevistada se referiam à nova linguagem como altamente criativa, por ser uma nova forma de visualizar o idioma falado – cuja escrita, oficial ou não, sempre será arbitrária.
28  Ao contrário de grandes portais da internet, um flogueiro geralmente não conta com a possibilidade de fazer divulgação de seu fotoblog, o que vai acontecer através de convites por e.mail ou quando a página é uma das favoritas de outro flogueiro. Acontece que muitas páginas acabam sendo pouco visitadas e se restringem a um círculo de pessoas que já se conhecem.
29  Um desses novos modelos, lançado no Brasil, em novembro de 2004, foi divulgado pela mídia como uma maneira mais rápida e fiel de se contar a alguém um fato inacreditável – reforçando a idéia da imagem como “real vivido”. Na peça publicitária veiculada na televisão, um rapaz é abordado e agarrado pela top internacional Gisele Bündchen, e ele filma tudo com seu celular. Na seqüência, o locutor enfatiza que a grande vantagem do celular é que se ele tivesse uma câmera de vídeo não poderia utilizá-la para contar para todo mundo. Os modelos que apenas fotografam já estão no mercado há mais de um ano e, da mesma forma, são apresentados como uma forma de contar por imagens algum fato “grave”: nas peças, era muito comum que as imagens realizadas a título de exemplo fossem de amantes pegos no flagra, no que a foto poderia ser enviada para a pessoa supostamente traída.
 
 
 
 

Referências Bibliográficas

 
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