Introdução:
a “perigosa” novidade
A
mídia há muito nos lembra, diariamente, que nossas ruas são
lugares altamente perigosos, uma espécie de fomento a uma vida mais
reclusa e restrita. A bola da vez é a Internet que, nos últimos
tempos, tem sido apresentada como lugar de piratas, assaltantes, analfabetos,
pedófilos, terroristas, maníacos e vírus de toda espécie.
Se o temor às ruas não impede que, em muitos casos, elas
ainda sejam espaço de produção de sentidos e sociabilidades,
bem como de renovação da cultura, a rede mundial de computadores
não poderá continuar a ser ignorada como o espaço
de uma cultura emergente que, ao mesmo tempo em que instaura novos códigos
(Lévy, 1998:12), atualiza antigas práticas
e sentidos de símbolos históricos. Como bem se apresenta
o caso da fotografia digital e uma gama de novas sociabilidades que convergem
com ela e a partir dela.
Se
como afirma Pierre Lévy é preciso perceber as transformações
culturais do cotidiano antes de defender um possível impacto das
novas tecnologias, o caso da fotografia digital nos traz à luz reflexões
pontuais tanto no que se refere ao redimensionamento da prática
cultural quanto aos novos apontamentos da teoria da comunicação
(Castells, 2001:354). O ato fotográfico,
desterritorializado na sociedade em rede, sugere a emergência de
novas sociabilidades e, principalmente, uma “nova oralidade”, em que imagem,
texto e som formam partes desconexas de um todo, discurso característico
da comunicação on-line (idem:386). Não faz parte de
nossos objetivos defender tais mudanças culturais como um resultado
do “avanço tecnológico”, mas é a própria tecnologia
que ganha aqui o status de ser o resultado de uma nova sociedade comunicacionalmente
descentralizada.

A
febre do mercado de câmeras digitais, que tiveram entre os anos de
2003-2004 uma queda vertiginosa de preços
, sendo que também o mercado de celulares se adaptou com a criação
de celulares-câmeras, soma-se à explosão recente dos
chamados fotoblogs espécies de álbuns de fotografias
virtuais. Se a presença de câmeras fotográficas há
muito faz parte do cotidiano das sociedades complexas, a fotografia digital
tem se mostrado uma novidade tanto em termos sócio-culturais quanto
técnicos. Além da facilidade de manejo, que foi o ponto de
atração para as câmeras automáticas de rolo,
durante o século XX, as digitais oferecem a possibilidade de se
conferir como ficou uma foto que acabou de ser feita – o “deixa
eu ver como ficou” que mobiliza fotografados e fotógrafo
–, eliminando também a necessidade de gastos com laboratório
de revelação: agora basta conectar a câmera ao computador
que as imagens podem ser descarregadas, armazenadas e enviadas por correio
eletrônico, ou mesmo impressas em papel comum ou fotográfico
.
A
fotografia digital, do ponto de vista técnico, também oferece
a possibilidade de alargamento de um recurso tão antigo quanto a
própria fotografia, a conotação (Barthes,
1962:328), que para alguns soa mais como manipulação (Lister
et alii, 1997), através de softwares como o Photoshop ou na própria
câmera, uma vez que alguns modelos oferecem opções
de coloração (preto e branco, colorido, sépia). Esta
possibilidade, embora altamente utilizada em muitos casos
, parece não ter se convertido como a principal característica
da imagem digital, vista assim pelos fatalistas da internet. Mais do que
lançar os usuários da fotografia digital e da internet num
mundo de possibilidades de se recriar a realidade, a combinação
das duas tecnologias – que embora relacionadas não são dependentes
- renovou na cultura contemporânea o velho álbum de fotografias
como ponto de contato entre diferentes atores sociais.

Dualismo histórico:
da analogia à pós-fotografia
Iniciada
no século 19, a era da fotografia é o desenrolar de uma busca
iniciada muitos séculos antes pela “imagem perfeita”. Pintores tentavam
desenvolver técnicas que permitissem captar fielmente a realidade,
desenvolvendo a partir do Renascimento uma reorientação das
artes plásticas em busca de um realismo, em que a perspectiva, ou
o enquadramento dos objetos de uma cena na altura do olhar torna-se uma
condição para a representação “fiel” da realidade
– uma técnica que explora a lei matemática segundo a qual
“os objetos parecem diminuir de tamanho à medida que se afastam
de nós” (Gombrich, [1950] 1999:229), aumentando a sensação
de realismo das cenas
. Filha do capitalismo moderno, a fotografia é a resposta da era
da máquina à busca desse realismo, retirando das artes a
legitimidade na retratação “fiel” do mundo e “libertando”
a pintura na busca de “outras realidades”
.
Desde
então, a fotografia se consolidou na cultura ocidental como uma
“analogia mecânica da realidade” (Lister, 1997:23).
Apesar do coro sempre presente dos que defendem-na como “ideológica
e artificial” (idem:23), sua proximidade com a “realidade” lhe confere
um racionalismo (Robins, 1997:54) que tem acompanhado
toda a sua história e entra em crise, pelo menos teoricamente, na
era digital – situação que talvez não seja a mesma
a partir do que se observa nos usos populares da nova tecnologia. Antes,
é importante ressaltar que seu nascimento, no ano de 1839
, se dá na ebulição da modernidade, do pensamento
científico, mais precisamente da filosofia positivista de Auguste
Comte.
Ciência e fotografia
surgem sob a idéia de que é possível apreender a realidade,
encontrar suas leis, a partir de observações impensáveis
para o olho humano (idem). O século XIX – com suas novidades científicas,
a idéia de que agora a razão nos permitiria manipular e dominar
a natureza e, ainda, em que a máquina se torna presente como a artéria
da cultura capitalista moderna – é a base para uma série
de mitos que, desde então, fazem com que compreendamos a fotografia
como a cópia fiel da realidade. Barthes (1962)
considera que, mesmo havendo uma redução de proporção,
perspectiva e cor, não há uma transformação
do que é registrado pela lente, ou seja:
entre esse objeto e sua imagem
não é de modo algum necessário interpor um relê,
isto é um código; decerto, a imagem não é o
real; mas ela é pelo menos seu perfeito analogon, e é
precisamente esta perfeição analógica que, para o
senso comum, define a fotografia. (Barthes, 1962:326-7)
Essa
analogia faz com que a fotografia seja entendida como uma mensagem predominantemente
denotada, ou seja, referente a uma “realidade concreta”, que “preenche
plenamente sua substância e não deixa nenhum lugar para o
desenvolvimento de uma mensagem segunda”. Esta mensagem “segunda” seria
a conotação, facilmente reconhecida numa pintura, numa peça
de teatro, numa música, entendida como um certo estilo de um autor,
mas que durante muito tempo foi e, ainda é, em alguns casos, negada
à fotografia. (idem:327). A conotação, como uma mensagem
que está além do sentido observável ou denotativo,
é inaceitável frente à mitologia criada em torno da
fotografia analógica. Barthes torna esse dualismo, no mínimo,
obscuro, ao defender que toda fotografia carrega consigo uma mensagem denotada
e outra conotada – situação que torna-se ainda mais especial
no caso da imagem digital –, o que ele vai chamar de “paradoxo fotográfico”
(idem:327). Mas sua acepção no senso comum como o registro
de uma “realidade” é o que tem feito do mercado fotográfico
um ramo lucrativo da economia há mais de um século. Registra-se
de tudo através da fotografia, uma idéia óbvia que
nos revela uma cultura que tem no visual um de seus
aspectos centrais, principalmente no
visual mecanizado. A fotografia (ao lado da televisão e do cinema,
dos quais ela é, mais que parente, embrião) é a base
das comunicações modernas – tanto na mídia quanto
na ciência –, ou seja, um meio oficial de registro por imagens, mas
que, ao contrário de outras atividades que lhe precederam, tornou-se
um hábito presente na cultura doméstica de milhões
- o que reforça a idéia de que não é o mercado
febril das câmeras digitais que está impulsionando novos hábitos:
em vez de ser causa, a expansão no número de usuários
é conseqüência das velhas demandas de uma cultura que
encontrou na gravação de imagens (fixas ou em movimento),
uma das principais formas de lazer e de construção de identidades
(Slater, 1997:179).
Apesar
de, nestes ambientes domésticos, a imagem fotográfica estar
voltada geralmente para aspectos sentimentais (família, afeto, amor,
saudade, tristeza, aventura são as conotações que
fazemos de álbuns fotográficos que guardamos ou das fotos
em nossas paredes), a máquina fotográfica é da ordem
dos eletrodomésticos, que têm uma função técnica
esperada, que neste caso é a máquina de registrar os momentos
familiares (idem:181), congelá-los para a posteridade, provas de
um passado vivido. Essa oposição entre o afeto e a técnica
– tão cara à modernidade – não parece, de maneira
alguma, ser hegemônica nos usos domésticos que se fazem das
fotografias, apesar de limitadores e negadores de suas possibilidades enquanto
um discurso autêntico
. Como “documento arquivado” num álbum ou enfeitando paredes e estantes,
as fotografias são formas de registrar um discurso, como uma performance
em que o objetivo é contar uma história a si mesmo e aos
próximos (Geertz, 1989). Para Slater,
é uma auto-representação através da imposição
de códigos que definem identidades sociais.
Montar el álbum familiar
es una operación tanto de la memoria (y por tanto, sobre la identidad
personal y familiar y su notable dependencia mutua), como una construcción
de recuerdos futuros en la práctica fotográfica del presente.
Nos definimos a nosotros mismos para la imagen y a través de las
imágenes. (Slater, 1997:179)
Toda essa cultura fotográfica,
na análise de alguns fatalistas, teria começado a desmoronar
no final do século XX, com a popularização da fotografia
digital. As características da nova imagem, marcadamente uma memória
eletrônica constituída de bits, tornaram-se fonte para todo
um imaginário fantasioso que se enquadra dentro do tecnofetiche(Lister,
1997:23) que desde a ascensão da máquina se faz presente
em torno de fábulas que dão um poder extremo à tecnologia
.
Para muitos, a entrada da fotografia na era digital representou o fim de
seu reinado como prova fiel da realidade, pois agora não era mais
possível se acreditar no que se vê nas imagens. A possibilidade
intrínseca à imagem digital de poder ser modificada através
de softwares (como o Photoshop) potencializou o preconceito também
intrínseco contra as tecnologias tradicionais ou mesmo as mais atuais,
como a internet, pensada como um lugar perigoso, em que é impossível
estabelecer relações de confiança. Senão, vejamos:
A manipulação
digital da imagem permite que se altere não só imagens eletrônicas
(TV), como também aquelas produzidas a partir de processos químicos
(fotografia). Os eventos que os meios de comunicação noticiam
hoje devem ser colocados sob suspeita no futuro. E, quando a manipulação
de imagens for acessível a todos, o passado individual de cada um,
registrado através de fotografias e fitas de vídeo, poderá
ser adulterado, colorido (se estiver em P&B) e mesmo recolorido, a
depender das demandas de cada um. (Borges, 2003)
Afirmações
deste tipo, além de desconhecerem todo um passado de manipulações
fotográficas
– que, como vimos anteriormente, a mitologia de que fala Barthes nos impede
de reconhecer – , acabam por não perceber o que realmente há
de novo na era da fotografia digital. O pensamento que defende o tecnológico
em termos evolutivos e revolucionários – em que uma tecnologia nova
é sempre mais potente ou melhor que uma anterior – cega-se para
as muitas continuidades entre os mundos on e off-line (Robins,
1997:50). Mas também, na ânsia de mostrar as rupturas tecnológicas,
não percebem algumas rupturas importantes com os padrões
sociais da vida moderna, como por exemplo em relação ao modelo
de comunicação ou as “novas” fronteiras entre público
e privado.
O
atual momento da imagem fotográfica já foi batizado de “pós-fotografia”,
numa coletânea de ensaios publicados em 1995, por pesquisadores britânicos,
sob o título de The Photographic image in digital culture
(Lister, 1997). Com considerações fundamentais
sobre os usos da fotografia em mais de 160 anos de história, para
estes autores a era pós-fotográfica se dá com o desenvolvimento
da tecnologia digital para “gravação, manipulação
e armazenamento de imagens”, num contexto em que começa a haver
uma convergência crescente das tecnologias fotográficas com
as do vídeo e do computador, projetando ambientes de hipermídia
(Robins, 1997:49). Acontece que se trataria de uma
revolução muito mais que tecnológica, no que comparam-na
com a criação do alfabeto, o nascimento da pintura ou a invenção
da fotografia, por ser uma “ferramenta de criação e conhecimento”.
É
neste sentido que trabalharemos aqui com o conceito de hiperfotografia,
questionando se a nova revolução não está ampliando
o conceito de imagem fotográfica, em seu uso doméstico principalmente,
para além do simples registro mecânico e analógico
da realidade. A simplificação do processo fotográfico,
através das câmeras digitais – possibilitando “consertar a
imagem imperfeita” através do computador ou mesmo refazê-la
na mesma hora, pois é possível saber o resultado simultaneamente
ao clique no obturador –, aliando a isto a popularização
da internet e a facilidade cada vez maior de transmissão de dados,
não estaria elevando esta produção de imagens a uma
outra ordem de fenômenos lingüísticos, como a própria
palavra falada? Esta intensa produção de imagens atinge um
nível de efemeridade e descartabilidade, só comparável
à fala e encontra na internet um espaço de circulação
em tempo quase real. São estas as formas características
da comunicação on line, a “nova oralidade” de que fala Castells
(2001:386), surgida a partir da convergência das mídias e
que tentaremos exemplificar a partir do caso do fotoblog.
De diário
fotográfico a álbum de família: os sentidos do fotoblog
Ao
analisar a imagem fotográfica na era digital, Lister
(1997:14) assinala que é preciso reconhecer que a nova tecnologia
precisará negociar com toda uma história de significados
e crenças que foram investidos na fotografia em seus usos domésticos
e públicos, na vigilância de organismos e grupos sociais e,
também, nos espaços de ócio e entretenimento. Como
o que nos interessa aqui são os fotoblogs ou os diários
fotográficos da internet, é preciso ampliar ainda mais
o espectro de análise e incluir aí a negociação
entre a tecnologia digital e a comunicação on-line
com práticas históricas, como o álbum de fotografias
e o diário íntimo. Apesar de estarmos nos referindo à
circulação de mensagens num meio público como a internet,
tais mensagens possuem um caráter muito mais particular. Enquanto
um ambiente desterritorializante pela forma como rompe com pontos-chave
da sociedade moderna, a rede mundial de computadores tem oferecido estratégias
de reterritorialização, inspiradas em práticas de
históricas do mundo off-line.
O
fotoblog,
que no ano de 2004 destacou-se como uma ferramenta de armazenamento e circulação
de imagens pela internet, tem sua história ligada aos blogs
,
verdadeiros diários pessoais que começaram a circular em
meados dos anos 90, em que se compartilha de assuntos íntimos a
temas de repercussão social. A ferramenta foi especialmente dominada
por jornalistas (Araújo, 2003) que descobriram
uma forma de colunismo sem fronteiras
.
A partir do modelo simplificado dos blogs – cujo principal conteúdo
são textos ordenados por dia de publicação –, os fotoblogs
foram desenvolvidos com ênfase nas imagens fotográficas e,
da mesma forma, têm uma ampla variedade de usos, indo de temas particulares
a obras de arte fotográfica
.
Assim
como no blog, o gerenciamento da página do fotoblog
apresenta um nível de facilidade que dispensa um conhecimento técnico
aprofundado – o que é impensável na manutenção
de algumas áreas da comunicação midiática tradicional.
Após se cadastrar num provedor de fotoblogs, o internauta flogueiro
ou fotoblogger
, poderá acessar diariamente seus dados e postar
– através de um formulário simplificado – novas fotos e também
textos que tanto podem explicar a imagem quanto entrar em fatos particulares
ou, nos casos dos fotoblogs não íntimos, textos de caráter
mais informativo. Além da facilidade, muitas dessas páginas
oferecem uma arquitetura agradável, na combinação
de texto, imagem e – até mesmo – som
,
sem o excesso de mensagens dos sites mais corriqueiros. Características
que abrem tais espaços para múltiplos usos e nos permitem
pensar mais no alargamento de antigas sociabilidades do que num mundo caótico,
em que nenhuma imagem será confiável.
É
impossível quantificar precisamente, mas o último ano (2003-2004)
os fotoblogs tornaram-se presença marcante na internet. Os
maiores portais brasileiros como Terra e Uol registram a criação
de uma média de 5 mil fotoblogs a cada semana. Estima-se que, apenas
estes dois provedores, tenham em torno de 2 milhões de fotoblogs
publicados. Dentre uma variedade de temas, o mais numeroso é o de
cunho pessoal, ou seja, fotoblogs que são usados como diário
íntimo e fotográfico. São páginas em que o
flogueiro coloca fotos recentes suas e de pessoas de seu círculo,
como amigos e parentes. Neste caso, os textos costumam ir além de
uma simples explicação da foto e acabam sendo relatos pessoais,
tal como num diário íntimo. Nosso objetivo, porém,
não é apresentar regularidades em relação ao
uso dos fotoblogs, uma vez que estas não existem, apesar da semelhança
entre grande parte deles. Em meio a esta variedade, selecionamos alguns
fotoblogs especialmente exemplares para as questões apresentadas
aqui.
Guilherme,
23 anos, estudante do interior paulista, criou seu fotoblog há pouco
mais de três meses e, desde então, tem postado fotos em que
aparece em seu quarto, muitas delas apenas com seu rosto em primeiro plano.
Junto de cada imagem, como em todo fotoblog, Guilherme deixa exposto um
texto elaborado por ele, seguido de comentários deixados pelos visi-tantes.
Entre tais fotos, muitas delas apresentam-no em roupas íntimas,
em poses de uma pretensa sensualidade. Se não fosse pelo contexto
de um fotoblog, presente por ser uma página padrão
,
seria possível pensar se tratar de uma página voltada para
conteúdos eróticos, ainda mais pelo título, no alto
da página: “Procuro por você”. Os comentários
deixados pelos visitantes vão desde propostas de contato, ou comentários
sobre o corpo do rapaz, sendo que a grande parte é de pessoas próximas
– geralmente outros flogueiros – que são habitués da página.
O
fotoblog “Dois Meses de Namoro
”, criado para celebrar o relacionamento de dois rapazes, que não
moram na mesma cidade, também é exemplar. Entre os meses
de setembro e novembro, eles expuseram vários detalhes da vida íntima
dos dois. Algumas fotos também mostram um dos rapazes em trajes
íntimos. Os textos são mais declarações apaixonadas,
poesias. Num dia em especial, a página foi usada para troca de pedidos
de perdão e esclarecimen-to de um mal entendido, sendo que os dois,
em momentos diferentes, deixaram seus recados. Entre estes recados, visitantes
deixam mensagens de elogio ao casal. Uma relação homossexual
, que dentro dos parâmetros culturais brasileiros poderia estar relegada
à invisibilidade, aqui tem tanto destaque quanto qualquer outro
relacionamento.
Dos
alunos de Jornalismo, da Rede de Ensino Univest (Lages-SC), temos o exemplo
do típico fotoblog de “galera”, ou grupos de jovens que usam estes
espaços para registrar festas, momentos de diversão na faculdade
ou as próprias aulas. Durante a realização desta pesquisa,
tivemos contato com o grupo, inclusive na época de criação
do fotoblog, em outubro de 2004. A idéia do Focas 2005 partiu de
duas alunas que já possuíam seus espaços pessoais
na internet. Mas antes mesmo da criação desta página,
a fotografia digital era uma presença entre eles que utilizavam-na
para reportagens
. Em um dia de observação para esta pesquisa, durante uma
aula de Jornalismo On-Line , era possível ver em ação
quatro máquinas digitais, registrando caretas, duplas e grupos.
Não havia apenas uma preocupação com registro, mas
uma ênfase visível na vontade de fotografar. A cada imagem,
uma correria se dava em direção à câmera: “deixa
eu ver como ficou” é a frase que mais se escuta em situações
como esta. Através do visor da câmera digital, é possível
ver todas as fotos armazenadas na memória e deletar aquelas que
menos agradam. Ou seja, uma foto que acabou de ser feita pode ser excluída
e novamente realizada.
Apesar de termos dado ênfase
a fotoblogs de temas relacionado à vida privada – por conta
dos objetivos de nossa pesquisa –, vale um adendo sobre outros usos, até
mesmo inusitados que se faz dessa ferramenta. Os sites voltados para a
publicação de trabalhos fotográficos artísticos
são uma das categorias que mais crescem e oferecem a estes fotógrafos
profissionais ou amadores a possibilidade
de expor imagens que não teriam lugar nos espaços tradicionais
da arte, como as galerias. E há aqueles que possuem objetivos mais
sociais, sendo tão inusitados que exemplificam a capacidade ilimitada
de um fotoblog. Como os sites que buscam donos para cães abandonados,
publicando a foto do animal com um texto em que são apresentadas
suas características, as condições em que foi encontrado
e como ficou. O resultado da busca de um dono, quando positivo, também
é publicado no fotoblog.

Esta
rápida olhada nos usos do fotoblog impede qualquer generalização
a respeito deles. A seguir, problematizaremos as questões mais pertinentes
a esta confluência entre fotografia digital e internet. Mas é
preciso adiantar que tratam-se de formas de comunicação caóticas
por natureza, o que nos impossibilita pensar em causas e conseqüências
delimitadas, o que já não se espera de qualquer estudo cultural.
É porque consideramos tais fenômenos como inerentes à
cultura humana – e não como acasos da tecnologia – que nos obrigamos
a ver mais além do imediato e perceber o que se esboça no
contínuo processo de transformação cultural. Transformação
esta que não resulta da tecnologia mas que ganha contornos especiais
durante o século XX, com o desenvolvimento dos sistemas modernos
de comunicação (Martín-Barbero,
1997; Canclini, 1997).
Novos contextos,
muitos códigos:
a desterritorialização
fotográfica e a comunicação horizontal
Os
exemplos de possibilidades de usos mostrados acima nos permitem levantar
algumas questões relacionadas aos fotoblogs, que vão além
da questão da privacidade e nos mostram algumas características
centrais da internet enquanto meio de comunicação. A primeira
é que, apesar do serviço estar dependente da figura de um
provedor, é um meio descentralizado e horizontal
, o que se confronta e muito com os meios tradicionais, verticais e centralizados.
A quantidade bruta
de dados disponíveis se multiplica e se acelera. A densidade dos
links entre as informações aumenta vertiginosamente nos bancos
de dados, nos hipertextos e nas redes. Os contatos transversais entre os
indivíduos proliferam de forma anárquica. É o transbordamento
caótico das informações, a inundação
de dados, as águas tumultuosas e os turbilhões da comunicação,
a cacofonia e o psitacismo ensurdecedor das mídias, a guerra das
imagens, as propagandas e as contra-propagandas, a confusão dos
espíritos. (Lévy, 1998:13)
Outra questão é
que, mesmo com os provedores no controle, destaca-se uma interessante anarquia
nestes usos, uma vez que, na internet, as ferramentas desenvolvidas raramente
mantêm seus propósitos restritos – como bem nos exemplifica
o caso dos fotoblogs. Segundo Castells (2001), esta característica
acompanha a internet desde sua primeira década: nos anos 70, quando
computadores em rede ainda eram restritos ao exército e às
universidades americanas, a criação do correio eletrônico
se mostrou também uma ferramenta para contatos particulares, ao
lado dos usos institucionais. Ao contrário do mundo off-line tão
departamentalizado com suas divisões bem marcadas entre o trabalho
e o lazer, a festa e a vida séria, a casa e a rua (DaMatta, 1997),
a internet enquanto um ambiente de sociabilidades faz desaparecer a clareza
desses limites, gerando uma confusão em relação ao
que entendemos por público e privado.
A
tradicional teoria da comunicação defendeu, por muitos a
idéia de que os meios de comunicação na vida cotidiana
tem por objetivo anestesiar os espectadores, aliená-los e mantê-los
sob vigilância
, eliminando os espaços de arte e de lazer que seriam opostos ao
sistema (Adorno & Horkheimer, [1947] 2000). Essa
presença se daria através da mecanização do
cotidiano, inclusive do ócio e do entretenimento, o que demonstraria
o caso da fotografia (Slater, 1997:17). Talvez porque
queremos nos afastar de um modelo frankfurtiano de se pensar a comunicação,
não podemos defender aqui a idéia do impacto dos meios, como
se a eles pudéssemos relacionar todas as transformações
de uma cultura. As tecnologias, sejam elas da comunicação
ou não, são integrantes da cultura, representam-na, não
são opostas nem destruidoras por si só de uma cultura.
Antes
de pensar numa invasão do capitalismo em nossos lares, via indústria
cultural, e de uma “privatização da vida pública”
– uma vez que grande parte dos temores dos fatalistas é que as tecnologias
da comunicação afastariam as pessoas que estariam cada vez
mais concentradas no lazer mecanizado –, é preciso questionar se
não há um movimento inverso. Tanto as mídias tradicionais
quanto as “novas” têm se voltado cada vez mais, nas últimas
décadas para uma espécie de “publicização da
vida privada” – não restrita apenas à vida das personalidades
– trazendo à tona espaços e comportamentos de nossa cultura
que antes eram considerados menores ou estritamente particulares. O cotidiano
popular que até então se restringia à idealização
da dramaturgia, ganha agora destaque tanto quanto os conteúdos tradicionais
ou “sérios” (telejornais, por exemplo). Como nos mostra o caso do
fotoblog, na internet esse fenômeno já parece lugar-comum.
Mas há que se considerar que a televisão aberta tem destinado
especial destaque aos reality shows, enfatizando detalhes de vidas
e comportamentos privados, em horário nobre, como se debatessem
o desemprego ou a cura do câncer.
O
uso cada vez mais comum dos ambientes virtuais para a comunicação
pessoal, amplia os reality shows a inúmeras ferramentas da internet
que permitem verdadeiros shows particulares, em fotoblogs, blogs e mesmo
os sites tradicionais. A princípio, o caos cibernético nos
coloca algumas situações especiais, como vimos anteriormente
no caso de dois fotoblogs: as imagens em roupas íntimas e um romance
homossexual. Se nossa visão tradicional não percebe além
do caos, não são poucos os que vão defender que se
apliquem códigos disciplinadores, “porque nossas crianças
não podem estar expostas...”, e por aí vai, na mesma ladainha
de toda vez que uma tecnologia se populariza. Mas se observarmos com cuidado,
é possível enxergar um processo emergente de codificação
da internet, ou seja, a emergência de uma cultura em que as práticas
encontram sua razão de ser, novos códigos são compartilhados
e antigos atualizados.
Para
tanto, é preciso situar as novas tecnologias da comunicação
dentro de um processo de desterritorialização que não
é produto delas, mas que atinge extremos a partir delas. A desterritorialização
cultural não é nova e se dá com força a partir
da segunda metade do século XIX, a partir dos movimentos de diáspora
(Hall, 1997): a facilidade de mobilidade humana pelo
planeta permite entender que uma determinada cultura
não depende de um território contínuo nem da proximidade
física de todos os seus integrantes (a cultura nordestina, em São
Paulo; a gaúcha no Centro-Oeste; a italiana no Brasil; a brasileira,
nos Estados Unidos). Com os meios de comunicação de massa,
já a partir do cinema, do rádio e depois a televisão,
a desterritorialização atinge um outro nível e não
se dá apenas a partir da etnia, mas de outras segmentações
de classe, gênero, gosto, orientação sexual e as mais
inusitadas, gerando um verdadeiro tribalismo, no dizer de Edgar Morin.
Agora, indivíduos de lugares extremos podem se unir em torno de
projetos comuns, tecendo novas identidades.
Neste
sentido, a internet e, mais especificamente, o fotoblog são exemplos
híbridos: ao mesmo tempo em que potencializam contatos em que a
distância física torna-se insignificante, fortalecem vínculos
locais e tornam-se uma extensão da interação física.
Não são poucos os fotoblogs em que as imagens se referem
às festas da escola, churrascos de final de semana, “baladas” noturnas
– o que também contraria aquela idéia da internet como vetor
de isolamento e supressão ainda maior dos espaços públicos
–, ou seja, fazem da internet apenas um meio de circular imagens que, talvez,
de qualquer forma circulariam. Como nos lembra Castells (2001:386), “as
pessoas moldam a tecnologia para adaptar às suas necessidades” e
exemplifica com a adoção do telefone que, a princípio,
teria as ligações interurbanas como objetivo maior e acaba
por “melhorar redes de comunicação existentes e reforçar
hábitos sociais profundamente enraizados”.
A
a abertura da internet para contatos desterritorializados é, no
entanto, da mesma forma, interessante. O fotoblog, por exemplo, conta em
seu design com espaço para a divulgação de “fotoblogs
favoritos”, o que possibilita ao visitante mudar de página, em apenas
um clique, e encontrar um outro espaço de imagens, com o mesmo design,
e novamente uma lista de outros favoritos que pode freqüentar. Ou
seja, abre-se a configuração de uma rede de contatos, uma
comunidade virtual que se liga numa cadeia de imagens, por onde o internauta
pode navegar e conhecer a intimidade de pessoas que jamais viu pessoalmente.
O caso de um desses provedores, um dos que mais hospeda fotoblogs, o Uol,
o design da página é interessante porque coloca, além
de um link, imagens de outros fotoblogs, que visualmente competem com aquele
que se está visitando (ver figuras 08, 09 e 10).
O típico fotoblog
pessoal, com imagens da “galera” e troca de informações do
grupo
Há
um fato curioso: grande parte das pessoas que visitam fotoblogs é
formada por outros flogueiros, criando um conjunto de noções
compartilhadas. Os visitantes da página de Guilherme, por exemplo,
são em grande parte pessoas conhecidas, virtualmente ou não,
que nas mensagens deixam clara esta proximidade e se referem a fatos em
comum, compartilham formas específicas de tratamento. Os recados
também pedem visitas ao fotoblog do visitante, como uma retribuição.
O próprio ato de deixar mensagens é como se fosse um dos
alicerces do fotoblog, aproximando-o mais de uma galeria de arte ou museu,
em que os visitantes são convidados a assinar um livro na saída,
do que de um álbum de fotografias, em que a visita não se
registra. Não são raros os flogueiros que, em seus textos,
reclamam que os visitantes não deixam mensagens.
Mesmo
que não indiquem um processo intenso de desterritorialização
de toda uma cultura, o caso específico do fotoblog indica ao menos
a desmaterialização de uma parte importante desta cultura,
neste caso a produção de imagens particulares e/ou domésticas.
A perda de sua materialidade tradicional é o atual movimento desterritorializante
da fotografia que, em sua essência, pode ser entendida como desterritorializada.
Sem falar em territórios, Barthes explica que toda fotografia, carregando
em si, ao mesmo tempo, uma imagem denotada e outra conotada, tem como “estatuto
particular” ser uma “mensagem sem código” que, antes de torná-la
vazia de significados, faz dela uma “mensagem contínua” (Barthes,
1962:327). No caso da fotografia doméstica tradicional, essa “falta
de código” tende a ser amenizada pelos espaços de circulação
dessas imagens: o lar, o álbum fotográfico, as paredes da
casa são territórios que dão estabilidade aos códigos,
até porque torna-se do conhecimento de quem freqüenta a casa
quem está na imagem, de que período é, qual ocasião
.
A fotografia digital em
circulação na internet vai em busca de um sentido que poderá
ser encontrado em territórios codificados ou em processo de significação.
Quando falamos da internet como um ambiente desterritorializante, é
preciso considerar que tal característica acaba por deslanchar processos
de territorialização. O fotoblog se mostra como um
exemplo deste processo, de onde é possível interpretar algumas
condutas. Longe de seu contexto inicial, a casa, as relações
familiares, pessoais, as fotografias digitais estão em busca de
novos sentidos que vão se fazer nos novos contextos, sentidos que
mudam da mesma forma em que mudamos a nossa inserção como
sujeitos em diferentes ambientes sociais (a escola, o bairro, o bar, a
praia, o clube), com o compartilhamento de códigos e comportamentos
que podem ser avessos uns aos outros.
No
ambiente on line, construímos identidades a partir de texto, imagem
e som que emitimos e recebemos (um comportamento digital?), decodificáveis
de formas distintas nas páginas que acessamos e nas comunidades
virtuais que freqüentamos
.
A internet, em vias de significação dos ambientes que são
colocados à disposição dos internautas, vai construindo
sentidos para ferramentas como o fotoblog, parecendo à primeira
vista uma confusão entre público e privado. Nossa pesquisa
tem percebido que as imagens que circulam nestes espaços, apesar
de manterem uma continuidade com a história da fotografia, são
formas de discurso de uma outra ordem: sua efemeridade, resultante de seu
processo simplificado, que como já falamos aproxima-a da palavra
falada, faz com que tais imagens não tenham o mesmo entendimento
que se tem da analógica como registro da realidade.É o que
parece mostrar o comportamento de flogueiros e das pessoas que fazem uso
da fotografia digital. A presença dessas máquinas digitais
é visivelmente maior tanto na mídia e o anúncio de
modelos cada vez mais sofisticados, quanto no cotidiano das famílias,
dos amigos, dos encontros particulares. O registro fotográfico digital
parece estar mais presente que o analógico que, curiosamente, continua
sendo a forma escolhida nas ocasiões consideradas de maior relevância,
como casamentos e formaturas – como afirmam alguns dos entrevistados. O
que também é percebido na forma de armazenamento das imagens
em seu resultado final: enquanto a analógica atinge quase um status
de documento, ao ser guardada em álbuns, a digital se aproxima mais
da história oral, uma vez que é guardada na memória
(ainda que seja do computador) e pode circular por outros computadores,
pelo ciberespaço e por outras memórias, mantendo a mesma
aparência.
Já
foi dito que a internet é uma nova possibilidade de esfera pública
(Lévy, 1998). Neste sentido, será que
é pertinente associá-la sempre à falta de privacidade
ou à possibilidade sempre presente de ser logrado financeiramente?
Mudaram os sentidos de público e privado no novo meio de comunicação,
na mesma esteira da mudança das próprias condições
do emissor e do receptor. Se num novo ambiente de comunicação,
a horizontalidade é a ferramenta que permite a produção
e recepção de mensagens num patamar mais igualitário,
colocam-se responsabilidades necessárias a estes novos gestores
da esfera pública que não pode se resumir a um simples “código
de ética da comunicação”.
E
em que medida é possível manter o velho limite entre o público
e o privado, quando não são apenas empresas que estão
comunicando, ou seja, não há apenas representantes de setores
ou classes sociais que colocam em circulação aquilo que se
entende por “gosto médio”? Quem se comunica no ambiente on-line
tem como conteúdo central aspectos de uma cotidianidade que antes
insistia e agora exige não ficar calada (Bhaba,
2003). O que é considerado privado nas instâncias tradicionais
também é comunicado através da internet
. Se os teóricos fatalistas de outrora estavam com George Orwell
e acreditavam que em 1984 todos seríamos vigiados pelo Big Brother,
hoje uma corrida desenfreada atrás dele, em busca de 15 minutos
de fama que, agora, não dependem mais da televisão.
A
desmaterialização do processo comunicativo, em que o papel
vira tela, os originais são convertidos em bits, traz consigo uma
efemeridade característica da cultura contemporânea e, em
especial, do que circula na internet. Talvez por questões de qualidade
do material, ou pela falta de uma produção mais elaborada
para estes conteúdos particulares/domésticos, não
se costuma associar fotos como aquelas que observamos – um rapaz em trajes
íntimos – com um conteúdo pornográfico, cujos sites
mais famosos costumam trazer imagens realizadas profissionalmente.
A hiperfotografia:
alguns apontamentos teóricos
O
termo hiperfotografia não é novo, mas sua conceitualização
por Fred Ritchin, em 1990 (Robins, 1997:57), precisa
ser hoje atualizada. A hiperfotografia, para Ritchin, seria a imagem
fotográfica que não requer nem a simultaneidade nem a proximidade
entre fotógrafo e fotografado – o que é um aspecto desterritorializante
anterior, quando as pesquisas especiais já enviavam sondas capazes
de fotografar o espaço ou planetas vizinhos, o que também
é o berço da própria imagem fotográfica digital.
Não há, na definição de Ritchin, uma problematização
da circulação destas imagens na internet, até porque
na época não se imaginava que a rede mundial de computadores
atingiria o estágio atual (Castells, 2001).
Se para ele a hiperfotografia é o registro que chega ao que é
impossível para o olho humano, nós vamos pensá-la
enquanto a imagem que circula por espaços inimagináveis para
a fotografia analógica, no caso o ciberespaço (Lévy,
1998), e cuja efemeridade atinge uma outra ordem.
Cabe então perguntar
se a fotografia digital, assim como o texto, ao cruzar-se com os ambientes
on-line,
não entra na era da hiperfotografia, um momento histórico
em que velhos dilemas em torno da imagem (expressão do real ou realidade
escolhida?) perdem o sentido frente às possibilidades de sociabilidade
colocadas nesse novo contexto. A hiperfotografia é a fotografia
digital nos territórios da cibercultura, em que há um redimensionamento
do “prazer fotográfico”, no sentido de haver novos significados
e usos de imagens pessoais. O nosso conceito de hiperfotografia
é extremamente intrínseco ao uso da imagem digital via comuni-cação
on-line
e se depreende dos conceitos de hipertexto cunhados por vários
autores durante os anos 90. Conforme Lévy,
Um hipertexto é uma
matriz de textos potenciais, sendo que alguns deles vão se realizar
sob o efeito da interação com um usuário. Nenhuma
diferença se introduz entre um texto possível da combinatória
[de dados informáticos] e um texto real que será lido na
tela. (Lévy, 1996:40)
Ou seja: até aí
um hipertexto não se diferencia do texto tradicional, uma vez que
o sentido de ambos se dará no momento da leitura. O que é
o próprio caso da fotografia, como já vimos em Barthes
(1962), para quem a fotografia está sempre em busca de um sentido.
“Deste modo, seguindo estritamente o vocabulário filosófico,
não se deveria falar de imagens virtuais para qualificar as imagens
digitais, mas de imagens possíveis sendo exibidas” (Lévy,
1996:40). A virtualidade de textos e imagens – que é o caracteriza
a comunicação
on-line – eclode a partir dos usos sociais
que se fazem destes materiais, ou quando um sentido subjetivo passa a ser
aplicado a esses conteúdos. O fato de serem agora digitais dá
“acesso a outras maneiras de ler e de compreender”. Ainda com Lévy,
Se considerarmos o computador
como uma ferramenta para produzir textos clássicos, ele será
apenas um instrumento mais prático que a associação
de uma máquina de escrever mecânica, uma fotocopiadora, uma
tesoura e um tubo de cola. Um texto impresso em papel, embora produzido
por computador, não tem estatuto ontológico nem propriedade
estética fundamentalmente diferentes dos de um texto redigido com
os ins-trumentos do século XIX. Pode-se dizer o mesmo de uma imagem
ou de um filme feitos por computador e vistos sobre suportes clássicos.
Mas se considerarmos o conjunto de todos os textos (de todas as imagens)
que o leitor pode divulgar automaticamente interagindo com um computador
a partir de uma matriz digital, penetramos num novo universo de criação
e de leitura dos signos. (Lévy, 1996:40-1)
Neste sentido, o casamento
entre fotografia digital e internet sugere outros sentidos que vêm
justamente desta profusão de imagens que caracterizam os ambientes
on line. O computador deixa de ser apenas uma máquina para processar
as imagens e cria usos como do fotoblog , que só ganham sentido
a partir do entendimento que se tem desse novo tipo de imagem. Ao contrário
da fotografia tradicional onde cada imagem ganha uma aura de definitiva
, no sistema digital esta aura pode estar presente em qualquer uma das
cópias
, mas talvez não aconteça assim. Uma possibilidade de entender
o tecnofetiche associado à fotografia – manipulação,
perda da fidelidade – é justamente esta falta de negativo, de aura,
ou essa constante tensão em significar (Lévy,
1996:40), sendo ainda, como toda imagem fotográfica, uma mensagem
sem código (Barthes, 1962:327).
A
desmaterialização da fotografia permite a sua desterritorialização,
o que por sua vez vai aprofundar essa busca contínua de sentido.
Se, em seus formatos tradicionais no papel, foto e texto já estão
“realizados por completo”, a tela vai oferecer novas formas de leitura
e atualização de um mesmo material. “A tela informática
é uma nova ‘máquina de ler’ , o lugar onde uma reserva
de informação possível vem se realizar por seleção,
aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é
uma edição, uma montagem singular” (Lévy,
1996:41).
Neste
sentido, é preciso considerar a interatividade, talvez a principal
característica da comunicação on-line, que como já
dissemos anteriormente, faz da internet um meio de comunicação
descentralizado e horizontal. Quando Lévy fala em nova leitura a
partir dos computadores, é preciso considerar este processo de leitura
como ativa, o que faz do internauta um usuário e não mais
o espectador passivo dos sistemas de comunicação lineares
e verticais. Se nestes últimos as mensagens continuam a ser enviadas,
mesmo com a desatenção do espectador, nos ambientes digitais,
tudo acontece de acordo com as escolhas do usuário – que pode criar
sua própria grade de programação. Mesmo que essas
opções não sejam infinitas – e muitas vezes parecem
ser – o que se tem é uma nova forma de atenção, concentração
e motivação e principalmente decisões prévias
por parte do usuário (Lister, 1997:35).
Outra forma de interatividade
é o próprio contato que um internauta pode ter com este material,
copiando-o e armazenando-o na memória de seu PC ou repassando para
sua lista de contatos via e.mail. No caso do fotoblog, essa possibilidade
vai contrastar com os nossos tradicionais álbuns de fotografias:
qualquer foto apreciada num fotoblog pode ser copiada e armazenada pelo
visitante, mantendo-se como se fosse um original, sem a necessidade de
um negativo ou mesmo de ter de pagar por isso. Essa questão financeira,
parece ser especial na comparação entre fotografia digital
e analógica.
Apesar
de ter um limite de memória e depender basicamente da eletricidade,
a câmera digital torna-se um eletrodoméstico em sentido mais
estrito, como a televisão aberta, onde a programação
é recebida como gratuita. Enquanto na analógica implicam-se
gastos em todo o processo (da compra do filme à revelação),
no sistema digital basta ter um computador para descarregar as imagens
e uma fonte de energia para recarregar a bateria, o que faz com que se
perca de vista o custo de cada imagem realizada. Libertada da limitação
financeira – uma vez que nos sistemas analógicos os preços
praticados não são tão acessíveis assim –,
a fotografia digital atinge um nível de profusão e efemeridade
que só se compara ao da própria palavra falada.
O novo movimento recupera
para a fotografia uma capacidade que sempre foi sua, contar histórias.
Sua dependência em relação à palavra tirou um
pouco dessa função. Apesar da fotografia ter revolucionado
a imprensa escrita nos últimos cem anos, ilustrando páginas
e páginas de texto, sua função muitas vezes é
apenas confirmar uma notícia ou simplesmente tornar a página
mais agradável ao leitor
.
Talvez a internet seja o primeiro meio de comunicação em
que texto e imagem deixam de estar em uma relação de hierarquia
estanque. Nossa hipótese é de que, tanto o texto típico
da internet
quanto as imagens que ocupam o lugar da palavra falada, mais do que indicar
um processo de “analfabetização” dos usuários, estão
indicando novas modalidades de conversação, em que a informação
não se restringe à palavra e à ilustração
não se restringe à foto.
Imagem,
texto e som se articulam na criação de um discurso único,
como o próprio fotoblog é exemplar, articulando em seu design
uma identidade individual ou coletiva. Para tanto, é preciso considerar
que os usos que fazemos da internet não se restringem à substituição
do papel pela tela, incluindo também alternativas às interações
baseadas na fala. O e-mail é exemplar, pois ele não substitui
apenas o uso das cartas tradicionais: sua principal inovação
é ser uma alternativa ao uso do telefone, com a vantagem de não
haver linha ocupada ou ninguém atender. Assim talvez seja possível
entender as novas “escritas” da internet que tentam adaptar as “imperfeições”
que todos – com exceções – cometemos em nosso uso cotidiano
da língua.
É
esse o estatuto que a imagem digital parece estar atingindo em seus usos
no ciberespaço e, assim torna-se premente falar em hiperfotografia.
Uma imagem que pela suas possibilidades de manuseio, recebimento e envio,
barateada pela simplificação do processo fotográfico
– eliminando etapas e elementos fundamentais como o negativo e a revelação
–, explode em seu poder conotativo de comunicar algo e passa a ser uma
forma corriqueira de registro, observação, comentário.
Assim como o hipertexto e seus vínculos (links) para outros universos
que fogem ao texto inicial – como uma conversa despretensiosa, em que um
assunto leva a outro – a fotografia digital experimenta situações
semelhantes.
Nosso
ponto de estudo, o fotoblog, é em si um ambiente hiperfotográfico,
quando se refere a possibilidades de leitura. Ao contrário de um
álbum de fotografias tradicional, com sua leitura praticamente linear,
página a página, visitar um fotoblog implica em escolher
a próxima foto que será vista, através de um menu
com as publicadas recentemente, ou mesmo acessando as “mais antigas”. Um
percurso que pode ser assim simples ou complicado: é que uma das
possibilidades é clicar numa das opções do menu “favoritos”,
o que dará acesso a um outro “álbum de fotos”, um outro universo
ou tema, que por sua vez vai oferecer outras opções de conexões,
passeando por uma verdadeira comunidade virtual de imagens - como uma conversa
despretensiosa, em que um assunto leva a outro. Mas o que faz com que cada
imagem seja ela uma hiperfotografia? É esta possibilidade de circular
por vários ambientes, buscando sentidos à sua existência,
sentidos que virão das questões técnicas de um site
– seu design, suas cores – e dos usos sociais que são feitos dele.
O fotoblog ao se aproximar do álbum fotográfico e ser potencializado
a uma possibilidade de “conversa despretensiosa”, traz um sentido a estes
espaços, de onde é permitido entendê-los como um lugar
para exposição de intimidades, ou de
obras artísticas, ou ainda de
problemas sociais, de acordo com os
objetivos do internauta. Sua arquitetura, sua acessibilidade – que apesar
de não ser restrita a alguns usuários geralmente acontece
a partir de um convite –, os textos do flogueiro e dos visitantes,
tudo isto permite o entendimento de se tratar de um site específico
e diferente dos pornográficos ou dos comerciais em geral. Aliando-se
a isso a independência que o flogueiro tem em administrar o conteúdo,
temos um ambiente propício a trocas simbólicas que confundem
os nossos sentidos tradicionais de público e privado.
Concluindo... ou, “deixa
ver como ficou”!
O
objetivo deste ensaio foi trabalhar com a fotografia digital e seu mundo
de possibilidades, perseguindo um entendimento mais do ponto de vista cultural
do que tecnológico. Do ponto de vista dos usos sociais que são
feitos dessas imagens, é possível dizer que as principais
novidades têm sido mais comportamentais que propriamente técnicas.
Ao contrário das idéias fatalistas de muitos críticos
das novas tecnologias, a fotografia digital não impulsiona a cultura
ocidental das imagens para um novo patamar totalmente diferente de produção
de imagens, em que a manipulação e a reconstrução
da realidade seriam possíveis. Por mais fantásticas que sejam
as possibilidades apresentadas por ela – e o fotoblog é o exemplo-chave
aqui – se observarmos com atenção os atuais usos destas imagens
é possível que encontremos mais continuidades que rupturas
com 160 anos de imagens analógicas.
Se,
como afirma Bhaba (2003), a pós-modernidade não pode ser
pensada como um estágio posterior à modernidade, as novas
tecnologias não estão a indicar o fim da tradição
escrita, dos meios de comunicação tradicionais e o começo
de uma “nova era”. Há, antes, o surgimento de um ambiente que, desestabilizando
paradigmas antigos como a comunicação vertical e os limites
entre público e privado, exige a criação de novos
códigos e não a simples adaptação dos atuais.
Assim, a atual era pós-fotográfica não sinaliza o
fim da era fotográfica, mas a emergência de ambientes em que
velhas e novas tecnologias vão continuar se cruzando e nos quais
as interações humanas tendem a adaptar os novos meios a antigos
anseios.
Assim,
a fotografia digital acena com nossas possibilidades de discurso, aproximando-se,
por conta da sua efemeridade – a possibilidade de “fotografar pelos cotovelos”
–, da própria fala humana. É altamente significativo que
a indústria dos celulares tenha entrado com força no mercado
das imagens oferecendo celulares – originalmente destinados à voz
– cada vez mais potentes em fotografia ou vídeo digital , o que
indica tanto uma aproximação da imagem em direção
à fala, como também o inverso. Repassar uma história
pelo celular através de imagens pode ser tanto um uso criativo das
imagens quanto apenas uma forma de comprovar o fato utilizando imagens
– ou seja, um uso tão antigo quanto a própria fotografia.
E assim voltamos ao começo de tudo.
A
fotografia digital, mesmo que aponte para uma infinidade de possibilidades
técnicas e sociais, é de um hibridismo que consegue resumir
em si tanto um futuro de inovações quanto um passado de representações.
Se como afirma Castells, a internet se aproxima muito mais da “experiência
histórica das ruas comerciais emergentes da palpitante cultura urbana
que dos shopping centers espalhados na monotonia”, quando se refere à
comunicação espontânea e informal que impera (Castells,
2001:379), encontramos também no fotoblog uma opção
de sociabilidade informal que retoma, com as devidas proporções,
interações semelhantes às históricas praças
públicas – que não morreram com a globalização,
nem com o “aumento da violência”, tanto no campo quanto em muitos
espaços urbanos –, onde a interação se dá de
forma multisensorial, o que de forma ainda limitada a internet permite
reproduzir com a sua multimidialidade. Se na primeira a sociabilidade se
dá pela utilização de todos os sentidos (visão,
audição, paladar, olfato e tato), a internet não chega
a tanto mas supera em muito os meios de comunicação com a
convergência das mídias tradicionais (imagem, som e texto).
De onde é possível interpretar algumas questões lançadas
aqui. Como a escrita informal em uso na internet que não copia a
escrita institucional da escola ou do trabalho, mas sim a fala – assim
como e.mail não é o correspondente digital da carta, mas
do telefone –, as imagens que circulam em alguns territórios da
internet – como no fotoblog – não são um simulacro da fotografia
tradicional, apesar de ser um desdobramento de quase dois séculos
de história. São, mais do que isso, como a mensagem visual
que exibimos de nós mesmos – articulando fala, visão, audição
–, nos ambientes que freqüentamos. No que chegamos ao nosso con-ceito
de hiperfotografia, como a imagem fotográfica desterritorializada
tanto materialmente (suporte digital) quanto sócioculturalmente
com uma circulação e usos jamais imaginados no formato tradicional,
de onde expande e explode o poder da fotografia em comunicar.
NOTAS
1
Jornalista e mestre em Antropologia (UFSC). Agradeço as colaborações
do meu orientando Arisson Araújo, Curso de Publicidade e Propaganda,
da Rede de Ensino Univest, Lages (SC).
2
No ano de 2003, uma câmera digital, das mais simples, não
saía por menos de R$ 900 (ou U$ 300). Neste final de 2004, é
possível encontrar câmeras que custam menos de R$ 300 (ou
U$ 100).
3
Pintores de períodos bem anteriores ao Renascimento, como os gregos,
“eram hábeis em criar a ilusão de pro-fundidade” (Gombrich,
1999:229), mas não com a precisão matemática dos renascentistas.
4 Sem querer
exagerar o “poder” da máquina, é importante assinalar que,
no mesmo período em que a fotografia desponta, o Impressionismo
começa a traçar uma nova história da pintura, em que
uma sucessão de movimentos vai desconstruir um mundo de imagens
e propor novas leituras. A fotografia, obviamente, não é
a causa isolada dessa transformação, cujos movimentos (Impressionismo,
Pós-Impressionismo, Expressionismo, Cubismo, Sur-realismo, Concretismo,
entre outros) foram formas de “diálogo” com a modernidade inteira
e não apenas com o mundo das imagens.
5 Louis
Daguerre, francês, e Fox Talbot, inglês, divulgaram suas descobertas
em 1839. Louis Daguerre havia desenvolvido um processo de exposição
positiva de uma chapa fotossensível que produzia uma imagem bastan-te
detalhada que, no entanto, era única, sem possibilidades de serem
produzidas cópias idênticas. Por sua vez, Fox Talbot divulgou
o uso da exposição em negativo, que era basicamente o mesmo
processo, mas com condi-ções de se produzir cópias
através de uma película ou chapa banhada em nitrato de prata
Em tudo isto, a técnica que teve primeira exploração
comercial foi o invento de Daguerre, chamado Daguerreótipo, registrado,
patente-ado e posto a venda com aparelhos e manuais de instruções.
Com este lançamento foi marcado o inicio da era fotográfica.
6 Não
deixa de ser curiosa a analogia entre pintura e fotografia que, embora
sendo atividades consideradas de ordens diferentes - uma, artística,
e a outra, técnica – tornaram-se, em épocas diferentes, a
maneira hegemônica de se retratar a realidade. No entanto, por essa
distinção entre técnica e arte, a fotografia torna-se
possível para os não especialistas, qualquer membro da casa
pode registrar suas imagens, o que no caso da pintura só seria possí-vel
se houvesse um artista na família. Por um lado, por ser um aparato
tecnológico, pensar nessa difusão da má-quina e da
prática fotográficas parece não trazer nenhuma novidade,
uma vez que ela se enquadra dentro da me-canização da vida
doméstica que se deu nos lares ocidentais no decorrer do século
20 (Slater, 1997:178). Mas, se por outro lado, encararmos a prática
fotográfica do ponto de vista artístico – e nos fotoblogs
que aqui analisamos é considerável o número de artistas-fotógrafos
que os usam como portifólio –, seria interessante questionar se
não há aí a multiplicação de vários
olhares artísticos sobre a realidade e, também, a democratização
dessas práti-cas, pulsando aí, ainda na modernidade, um sistema
“popular” de comunicação por imagens.
7 Ao menos,
não parece que velhos álbuns de fotografias tenham sido publicados
em forma de livros biográficos ou históricos, como é
o caso dos diários íntimos que foram elevados à categoria
de documento histórico, como Diário de Anne Frank, publicado
originalmente em 1947, para contar os horrores do nazismo sob a ótica
de uma menina (Carvalho, 2003). Fotografias, ao contrário, sempre
foram mais um apêndice de textos escritos do que utilizadas como
o próprio texto para recontar uma passagem da história o
que não é um espanto para uma cultura que há séculos
colocou na escrita uma força de documento oficial. Apesar de toda
a racionalização da fotografia enquanto registro do real,
como imagem perde força numa cultura que oficialmente é alfabética.
8 Blog é
a abreviatura da expressão “weblog”, que significa “diário
em rede” e que foi usada para denominar as primeiras páginas pessoais
que começaram a proliferar na internet em 1994. Mas a “explosão”
é mais recente: “em julho de 1999, uma empresa pontocom norte-americana,
a Pitas, criou um programa de computador que permitia ao usuário
inserir gratuitamente e sem grandes conhecimentos da linguagem html, registros
(textos e imagens) na Internet. Um mês depois, outra companhia, a
Pyra Labs, criou um programa semelhante. Ficou então mais fácil
não só criar como atualizar as páginas. Aliás,
a atualização tornou-se automática” (Araújo,
2003).
9 Ver, especialmente
o Querido Leitor,
de Rosana Hermann, e o
Blog
do Tas, do jornalista Marcelo Tas.
10
A internet possui opções de fotoblogs pagos e gratuitos.
A diferença é que nos serviços pagos há a possibilida-de
de publicar mais fotos, cinco ou seis, enquanto nos gratuitos o limite
é de uma imagem. Para ter um fotoblog pago, não significa
ter de desembolsar um valor extra para os provedores. Quem paga pela conexão
no Uol e no Terra, por exemplo, tem direito tanto a contas de e.mail quanto
espaço para blog, fotoblog e sites tradicionais.
11
São estes os termos associados a quem possui um fotoblog.
12
Postar é o verbo utilizado para designar o ato de publicar fotos
em fotoblogs.
13
Colocar música dentro de um fotoblog não é uma opção
oferecida pelos provedores. Mas quem domina o código HTML pode inserir
o dispositivo com uma música de sua escolha. O código HTML
é uma linguagem de máquina que traz em sua mensagem as informações
do desenho do site – é esse código que o computador decifra
para colocar na tela a aparência do site. Além dos formulários
simplificados acessíveis a qualquer internauta, os provedores também
permitem o acesso à base dos códigos HTML, onde o dispositivo
musical deve ser inserido.
14
Quando cria o seu fotoblog, o flogueiro pode escolher, entre algumas opções
oferecidas pelo provedor, um modelo de página da cor e do design
de sua preferência. Mas as opções não vão
além disso, o que mantém a semelhança entre estes
sites.
15
O título pode ser mudado a qualquer tempo pelo fotoblogger, atualizando
títulos sazonais.
16
Ao ambientes de sociabilidade homossexual, na internet, são tão
numerosos quanto qualquer outra forma de sociabilidade considerada ideal
pela sociedade, o que na mídia tradicional é ainda alvo de
tabus, se limitando a estereótipos, no caso da dramaturgia, ou a
datas muito especiais, como a cobertura jornalística de eventos
como a Parada Gay de São Paulo.
17 A fotografia
digital há cinco anos é uma rotina nas redações
de jornais, que adaptaram-na às suas necessidades e suprimiram,
em alguns casos, o laboratório de revelação. É
o caso destes estudantes de jornalismo.
18
Entende-se aqui, para todos os efeitos, a comunicação horizontal
como possuindo uma circularidade entre as figuras de emissor e receptor,
a ponto destas desaparecerem enquanto posições rígidas,
o que assinala a recente teoria da comunicação, em especial
os estudos de Martín-Barbero (1997).
19
George Orwell escreve nos anos 40 aquela que é considerada hoje
uma obra prima da ficção, mas que para muitos era uma verdadeira
profecia: o livro 1984 apresenta um mundo dominado pelas tecnologias da
comunica-ção, estando estas a serviço da ditadura,
em que o Grande Irmão (Big Brother) teria controle até mesmo
da vida privada dos cidadãos.
20 Em tempo:
a nossa noção de cultura tem por base o pensamento de Geertz
(1989) para quem a cultura é uma “teia de significados” tecida e
compartilhada pelo próprio homem em sociedade.
21 Lister
(1997) fala na dependência que a imagem possui em relação
à palavra – escrita, no caso dos jornais; falada no caso da fotografia
doméstica que, no lar, costumam ser “motivo de conversa, recordação
ou comentá-rio”.
22 E não
é curioso que o ambiente on line, com um certo exagero, reproduza
a mesma divisão de nossa socieda-de.
23
O que não é exclusivo da internet, tomando-se por exemplo
os reality shows que dão o tom da programação televisiva
no início do milênio.
24
Por mais que seja apenas uma cópia que pode ser realizada quantas
vezes se quiser a partir de um negativo em película, não
é comum se dispensar, a estes negativos, o mesmo cuidado que se
dá à imagem em papel que passa a ter a função
de original da fotografia.
25
Uma fotografia digital pode navegar pela rede de computadores sem perder
a qualidade, mantendo-se fiel ao arquivo de origem, ao passo que no sistema
convencional, a fotografia tem sua territorialidade inscrita num negativo
que não pode ser reproduzido ou mesmo no papel quando não
se tem acesso ao negativo.
26
Mesmo que seja quase impossível pensar hoje em jornais sem imagens
fotográficas, que são o seu principal ponto de atração,
do ponto de vista da informação, talvez elas não fizessem
tanta falta. Tal acontece menos pela força informativa da imagem
que pelo seu caráter de segundo plano em relação à
escrita.
27
Uma das preocupações que a mídia tem colocado em relação
à internet é a transformação que os usuários
fazem da escrita, substituindo letras, abreviando palavras, ignorando a
acentuação, fugindo da acentuação (colokar,
kero, kblo (cabelo), naum (não), rsrsrs (risos), entre outras).
No mês de outubro, um telejornal da Rede Globo fez uma reportagem
sobre o assunto e chegou a colocar um imortal da Academia Brasileira de
Letras lado a lado com jovens que usam esta linguagem na internet. Apesar
do tom catastrófico da repórter tanto o escritor quanto uma
lingüista entrevistada se referiam à nova linguagem como altamente
criativa, por ser uma nova forma de visualizar o idioma falado – cuja escrita,
oficial ou não, sempre será arbitrária.
28
Ao contrário de grandes portais da internet, um flogueiro geralmente
não conta com a possibilidade de fazer divulgação
de seu fotoblog, o que vai acontecer através de convites por e.mail
ou quando a página é uma das favoritas de outro flogueiro.
Acontece que muitas páginas acabam sendo pouco visitadas e se restringem
a um círculo de pessoas que já se conhecem.
29
Um desses novos modelos, lançado no Brasil, em novembro de 2004,
foi divulgado pela mídia como uma maneira mais rápida e fiel
de se contar a alguém um fato inacreditável – reforçando
a idéia da imagem como “real vivido”. Na peça publicitária
veiculada na televisão, um rapaz é abordado e agarrado pela
top internacional Gisele Bündchen, e ele filma tudo com seu celular.
Na seqüência, o locutor enfatiza que a grande vantagem do celular
é que se ele tivesse uma câmera de vídeo não
poderia utilizá-la para contar para todo mundo. Os modelos que apenas
fotografam já estão no mercado há mais de um ano e,
da mesma forma, são apresentados como uma forma de contar por imagens
algum fato “grave”: nas peças, era muito comum que as imagens realizadas
a título de exemplo fossem de amantes pegos no flagra, no que a
foto poderia ser enviada para a pessoa supostamente traída.
Referências
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